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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pepe Escobar: “A guerra de palavras do Mar do Sul da China”

2/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guerra Fria 2
Com a Guerra Fria 2.0 entre EUA e Rússia ainda longe de se diluir, a última coisa de que o mundo precisa é de uma reencarnação do falcão Bush-oso (ing. Bushit) Donald “sabidos não sabidos” Rumsfeld.
Em lugar dele, o “sabido sabido” – previsível – que se consegue é o Supremo do Pentágono, Ash Carter.
O neoconservador Ash deu um show no Diálogo de Xangrilá, no fim de semana passado em Cingapura.
Pequim está engajada em serviços de declarar suas nove ilhas artificiais no Mar do Sul da China; sete nos atóis de Spratlys, e duas outras no arquipélago de Paracel. Ash praticamente “ordenou” a Pequim que faça “imediato e duradouro alto” na expansão; acusou Pequim de “marchar fora de passo” em relação às normas internacionais; e coroou o show sobrevoando o Estreito de Malacca num V-22 Osprey.
Washington nunca cessa de lembrar ao mundo que a “liberdade de navegação” no Estreito de Malaca – através do qual a China importa um mar de energia – é protegida pela Marinha dos EUA.
Depois de Xangrilá, o Presidente Barack Obama dos EUA também sentiu a necessidade de entrar no jogo, e disse que a China deve respeitar a lei e parar de “dar cotoveladas”. Mas admitiu que “é possível que algumas das alegações dos chineses sejam legítimas.” E daí? Quando você é “potência do Pacífico”, você tem o direito de não permanecer calado sobre..., bem... sobre tudo.
Observando o Grande Quadro, o Primeiro-Ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong pelo menos tentou mostrar-se valente, e insistiu que o Oceano Pacífico é “vasto o bastante” para ambas, Washington e Pequim .
Assim, mais uma vez estamos de volta a dois quilômetros quadrados de rochas, microilhas e atóis, aninhados em estonteantes 150 mil quilômetros quadrados de literalmente, águas turvas; e a mil quilômetros de distância do litoral leste da China.
Pequim declara sua “indiscutível” soberania sobre pelo menos 80% do Mar do Sul da China. Não só sobre pelo menos US$ 5 trilhões em petróleo e gás ainda por explorar; tudo isso está bem no centro de uma super rota naval de altíssima circulação da economia global, pela qual a Europa, o Oriente Médio, a China, o Japão, a Coreia do Sul e muitas das nações da ASEAN trocam energia e imensa variedade de produtos.
Países da ASEAN
A resposta do Ministério de Relações Exteriores da China ao que disse Ash Carter foi bastante detalhada. O ponto chave: o código de conduta no Mar do Sul da China deve ser – e de fato será – negociado entre a China e as nações da ASEAN. Todos sabem disso em todo o sudeste da Ásia.
E a chave-de-ouro para gerar suspense: pelo modo como Pequim vê as coisas, nada disso tem absolutamente coisa alguma a ver com os EUA.
Avisem lá os neoconservadores da espécie “Ash”. O medo não disfarçado dos neoconservadores é que a “agressão chinesa” está convertendo aquelas águas num Mare Nostrum da República Popular da China. Desde o final da IIª Guerra Mundial e da capitulação do Japão, a “potência do Pacífico” se autoatribuiu a coroa de Senhor do Pacífico – da Ásia até a Califórnia. Fácil ver que a coisa aí não vai acabar bem – com a nova assertividade da China sinalizando talvez o fim do hegemon.
Assim sendo, o que Ash fará? Se quiser cumprir o que anunciou, que os EUA contam com continuar a ser a “primeira potência militar no Leste da Ásia por muitas e muitas décadas vindouras”, terá de despachar uma frota naval para bloquear extensão considerável da costa leste da China. Bem-vindos à bomba-relógio geopolítica do Mar do Sul da China.
O que a China reclama para si
Se no Mar do Sul da China temos China em oposição a Vietnã, Malásia, Brunei e Taiwan, no Mar do Leste da China temos China em oposição a Japão, Taiwan e Coreia do Sul. Pequim garantiu firmemente que não haverá Zona Aérea de Identificação da Defesa [orig. Air Defense Identification Zone (ADIZ) no Mar do Sul da China, por enquanto – porque as condições não são “apropriadas”. Todos lembramos quando a ADIZ no Mar do Leste da China foi anunciada no final de 2013. O Pentágono imediatamente despachou para lá um par de B-52s para darem uma volta. A tensão amainou e permanece – relativamente amainada. Por enquanto.
A ideia de que a China é um dragão maléfico prestes a devorar todos os menores que ela naquelas águas é sandice. Desde antes de o comandante da Frota do Pacífico, almirante Harry Harris, pôr-se a rosnar que uma “Grande Muralha de Areia” estava sendo erguida no Mar do Sul da China, outros atores regionais já estavam em plena ação, não como assistentes paralisados.
De fato, por muito tempo a China – bem como o Brunei – não teve pista de pouso no Mar do Sul da China. As Filipinas têm, na ilha Thitu. O Vietnã tem, além de um heliporto, em Truong Sa. A Malásia tem, em Swallow Reef – e recebem grande número de aeronaves militares. Taiwan tem um aeroporto militar em Taiping.
Pequim com certeza pode usar as ilhas artificiais para alocar material naval e aéreo. Mas não é só a China que está reivindicando propriedades. O Vietnã está fazendo exatamente o mesmo, em dois atóis nas Spratlys.
Mar do Sul da China Ilhas Spratly no centro do mapa
Washington, por sua vez, tem acesso a oito bases filipinas – inclusive à base naval Carlito Cunanan, no coração da ação no Mar do Sul da China. Manila, que é o elo regional fraco, aposta numa estratégia de duas pinças: apoio irrestrito a Washington, e completa internacionalização, sobretudo, precisamente, do Mar do Sul da China.
Taiwan tem trabalhado muito, investindo numa missile corvette com tecnologia stealth e feita em casa, de baixo custo de manutenção, alta mobilidade e pesadamente armada.
Enquanto isso, o comandante da 7ª Frota dos EUA, vice-almirante Robert Thomas, está muito entusiasmado por o Japão estar exercitando o tal proverbial “papel mais ativo”, não só no Mar do Leste da China, mas também nos oceanos Pacífico e Índico.
foto:
Não há dúvida alguma de que Washington está permitindo a remilitarização do Japão. É hora pois de lançar um Observatório dos Mares Sul e Leste da China. E ficar de olho neles, à procura de qualquer perigoso pretexto a usar como casus belli entre o hegemon em declínio e a potência re-emergente que não quer mais saber de “manter perfil discreto”. [1]
E que tal uma Sopa Won Ton à (Guerra) Fria?
Está preparado o cenário para um jogo de apostas tremendamente altas. Para Pequim, a expansão entre as Spratlys e as Paracels significa romper os limites geográficos do Sudeste Asiático, como uma antecipação da projeção de poder pelo Oceano Índico direto ao Sudoeste Asiático.
Para Washington, tratar-se-á de conseguir perturbar a Rota de Seda Marítima – que é a rota pela qual Pequim importa – pelo Estreito de Malaca e dali pelo Mar do Sul da China – nada menos que 82% de todo seu petróleo e 30% do gás natural.
Estreito de Malaca
Preparem-se para homilias pesadas sobre o dever de Washington, de proteger “a liberdade de navegação” e infinitas execrações da “agressão chinesa” – cujo contraponto é a expansão das Novas Rotas da Seda, do Novo Banco de Desenvolvimento criado pelos países BRICs e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura lotado de outros países BRICs, plus Alemanha e sortimento variado de europeus na diretoria; todos esses são vetores numa estratégia múltipla que vai minando a hegemonia do dólar norte-americano.
Longe vão os dias iniciais de Obama, quando Kissinger e o Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski sugeriam “relacionamento especial” entre os EUA e a China; uma espécie de G-2 manco, controlado de fato pelo hegemon excepcionalista. Não surpreende que Pequim tenha desconfiado. Agora então, o governo Obama apenas está de volta ao modo padrão – do tempo da “contenção”. Ash Carter só deu um passo adiante.

Com a Guerra Fria 2.0 longe de esvaziada, temos também de considerar a Guerra do Molho de Soja Frio – ou a Guerra da Sopa Fria. Os neoconservadores norte-americanos que fiquem espertos. Indigestão de camarão tigre não é sopa.
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Nota dos tradutores
[1] Durante a era Deng Xiaoping, a política exterior chinesa foi caracterizada pela expressão “tao guang yang hui”, traduzida em geral como “manter perfil discreto” (ing. “keep a low profile”). Em anos recentes, observadores têm questionado se essa estratégia ainda se aplica à diplomacia chinesa, sobretudo à luz da recente exortação do Presidente Xi Jinping, de que a China pratique “diplomacia de grande potência” (The Diplomat).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

EUA: mentalidade binária e política caolha no Mar do Sul da China


Imprensa-empresa aqui e na China: tudo sempre a lesma lerda


2/6/2015, [*] Tom Plate, China Daily
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Patrulha chinesa guarda plataforma Haiyang Shi You 981 (ao fundo)
Rivalidade entre grandes potências não tem, necessariamente, de gerar super atrito. A competição pode produzir excelência e até boas ideias novas. Exemplo disso é o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII).

Enquanto praticamente todos os países do mundo entusiasmaram-se com a ideia desde o início, os EUA não apenas se puseram a criticá-la, como também pressionaram seus aliados, tentando impedi-los de integrar-se ao novo banco. Porque a ideia não foi deles – foi ideia da China. E daí? Até o Reino Unido, com suas ditas “relações especiais” com os EUA, mostrou-se entusiasmado.

Provavelmente, outras boas ideias virão da China – certamente virá de lá alguma boa ideia para acalmar a tempestade no Mar do Sul da China. Então a razão reinará sobre as águas, e a disputa tresloucada por recursos será devidamente contida nos canais da diplomacia.

Mas um grave impedimento para o mútuo entendimento e avaliação ponderada da realidade é a mídia norte-americana. Na questão do Mar do Sul da China, o serviço prestado por jornais e jornalistas norte-americanos foi horrível – tendencioso e ideológico.

Por que tanto insistem em pintar a China como se fosse algum peixe gigante do mal, como o monstro do filme Tubarão, e os EUA, como um golfinho risonho do bem? O mundo real é selva complexa; a vida real geopolítica não é esse tolo arranjo binário.

A China – registre-se, em nome da acuidade e da justiça históricas – há muito tempo já ratificou formalmente a Convenção da ONU para a Lei do Mar para todos os povos. Os EUA até hoje não ratificaram seu compromisso e adiam a ratificação o mais que podem.

Convenção da ONU para a Lei do Mar
Há anos os obstrucionistas no Senado dos EUA impedem a ratificação formal daquele acordo, sob o argumento de que a Convenção da ONU para a Lei do Mar pode vir a obstruir o livre trânsito de interesses dos EUA. Ora, a lei internacional existe para ser aceita e respeitada por todos os povos, não para ajudar só alguns “favoritos” – e sempre os mesmos. Mas até aí, é a boa notícia.

A má notícia é que os EUA ainda insistem em tentar forçar a China e qualquer outro país a “respeitar a lei internacional”, mas só nos casos em que a “lei” vise exclusivamente a manter o status quo geopolítico. Essa é atitude que será muito difícil manter, em tempos em que toda a Ásia – não apenas a China – cresce dramaticamente. Nações que ainda creiam que continuarão a usufruir no século XXI o mesmo status que tiveram no século XX bem farão se reconsiderarem todas essas suas crenças.

Liderar, seja em Washington seja em Pequim, exigirá que ambas as capitais tenham clara compreensão uma da outra. Se a política chinesa se baseasse no pressuposto de que os EUA estariam em rápido declínio, a China erraria. Se a política norte-americana pressupõe que a velha China tenha de ser contida no lugar que lhe competia, alguém nos EUA exagerou nas pílulas para dormir.

A tarefa dos dois governos é acomodar a inevitabilidade da China, de modo a maximizar os interesses comuns de todos – e evitar a guerra.

As piores políticas norte-americanas sempre serão as políticas da hipocrisia: opor-se a uma boa ideia, como é o BAII, por razões de autointeresse; e tentar impor às questões do Mar do Sul da China uma mentalidade analítica simplória, de Guerra Fria, que não dá conta da realidade contemporânea. Nesse ponto, os EUA têm muito com que se preocupar: qualquer envolvimento mais ostensivo dos EUA pode converter a questão do Mar do Sul da China em confronto violento de superpotências, que ninguém deseja.

Mar do Sul da China - Demarcação de águas territoriais de cada país
(clique na imagem para aumentar)
Em vez de inflar o próprio perfil no Mar do Sul da China, os EUA devem acalmar-se e mover-se com a máxima cautela, não importa o quanto eles mesmos digam que suas intenções são as mais santificadas. Bill Hayton, observador das questões asiáticas, em seu inestimável novo livro The South China Sea, cita um diplomata asiático muito respeitado:

Se você empurra uma grande potência contra outra, a dinâmica de superpotência domina a questão e marginaliza qualquer possibilidade de acordo pacífico.

Nisso, acertou perfeitamente.

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[*] Tom Plate foi  editorialista e articulista do Los Angeles Times e fundador da Agência Asia Media International. Profundo conhecedor da Ásia. Obteve doutorado pela Loyola Marymount University com tese sobre Geopolítica do Pacífico Asiático.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Pepe Escobar: Patrulhando a quebrada, do mar (da China) ao “shining sea”

27/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
 


Se pelo menos os Mad Men na vida real fossem como Don Draper – canalizando o verdadeiro eu-interior, depois de muito agito, num “tudo bem comigo, tudo bem com você”. 
 
Em vez disso, o que há é um punhado de doidos (do Pentágono) provocando todos os seus maiores concorrentes geoestratégicos, todos ao mesmo tempo. 
 
Os Mestres da Guerra, no governo Obama autodescrito como “Não façam merda coisa estúpida”, anunciam agora que estão prontos para despachar aeronaves e navios de guerra para bem perto (a 18km de distância) de sete ilhas artificiais que a China construiu nas Ilhas Spratly. 
 
A resposta de Pequim, pelo Global Times, não poderia ser diferente de “Haverá guerra” [ing. There Will be War]. 
 
Se a última palavra dos EUA é que a China teria de suspender suas atividades, nesse caso uma guerra EUA-China é inevitável no Mar do Sul da China (...) A intensidade do conflito será mais alta do que em geral define-se como “atrito”.
 
Segundo Pequim, os faróis construídos, um no Recife de Huayang, outro no Recife de Chigua – áreas agora em discussão – foram construídos “para aumentar a segurança de navegação no Mar do Sul da China”. 
 
Não há qualquer sinal de que a China venha a suspender seu trabalho de construir ilhas, mesmo com navios de guerra dos EUA por ali, de um lado para o outro, naquela quebrada naval. Será que os EUA darão uma de heavy metal e desencadearão o maior atrito, para impedir que navios chineses civis naveguem por ali? Ou quem sabe a Marinha dos EUA espera que Pequim meta a viola no saco e colapse? 
 
O que o Global Times deixa implícito é que com certeza absoluta a China revidará, se navios de guerra dos EUA entrarem nos 18km demarcados em torno das ilhas. 
 
Pequim já calou eletronicamente os drones Global Hawk de vigilância de longo alcance que espionavam as Ilhas Nansha. E Pequim considera demarcar uma Zona Aérea de Identificação de Defesa [orig. Air Defense Identification Zone (ADIZ)] no Mar do Sul da China, tão logo esteja completo o trabalho nas sete ilhas artificiais. 
 
Esse aventureirismo excepcionalista dos EUA no Mar do Sul da China pode fugir de qualquer controle em velocidade alarmante. Combine isso e o “patrulhamento” do Pacífico Ocidental – com os EUA e Austrália já bem perto de receberem por ali o Japão em pleno processo de remilitarização, para seus joguinhos bienais de guerra. O resultado é um Diálogo Xangrilá – reunião de cúpula, sobre segurança, que se realiza a cada dois anos em Cingapura, e que começa no próximo sábado – ainda mais quente que o habitual. Melhor que aquele sortimento de agentes provocadores não se metam com o almirante Sun Jianguo, subcomandante do Alto Comando do Exército Popular de Libertação, que será o convidado-estrela do show. 
 
Tudo sobre a Rota da Seda Marítima
 
A mais nova escalada acontece no momento em que Pequim divulga seu mais recente documento militar, [2] no qual detalha uma nova estratégia defensiva – a qual é, agora, para todas as finalidades práticas, defensiva/ofensiva de tipo Pleno Espectro Terra-Mar-e-Ar-e-Ciber). Planejadores do Pentágono, mastigai vosso coração coletivo: o tal “pivoteamento para a Ásia” acaba de encontrar adversário à altura. 

Rota da Seda Marítima (em azul)
Dentre os destaques, sabe-se agora que a China está oficialmente aderindo ao princípio segundo o qual “Nós não atacaremos, a menos que sejamos atacados, mas com certeza contra-atacaremos se formos atacados”. – É amostra gráfica do que pode acontecer a seguir no Mar do Sul da China. 
 
Pequim passa a focar-se em “vencer guerras informacionais locais” (está ativada uma verdadeira tempestade elétrica para desmontar nuvens de informação eletrônica). 
 
E a ELP-Marinha [ing. PLA Navy (PLAN)], a Marinha do Exército Popular de Libertação, mudará gradualmente de foco: de “defesa de águas territoriais”, para uma combinação de “defesa de águas territoriais” com “proteção de mares abertos” [3]. Bem-vindos à doutrina chinesa que bem se pode intitular “Do mar (da China) ao shining sea”. 
 
Zhang Yuguo, coronel sênior do comando do Exército Popular de Libertação, estava visivelmente muito satisfeito na conferência de imprensa, quando disse que: 
 
Há países que escolhem estratégias preventivas, enfatizando a intervenção preventiva e tomando a iniciativa de atacar. Nossa estratégia é totalmente diferente dessa.
 
E então, a frase-suspense-não-percam-o-próximo-capítulo, no melhor estilo Sun Tzu: 
 
Ser “ativo” não passa de uma espécie de recurso. Nosso objetivo principal é “defesa”.
 
Para os que insistem em não captar a mensagem, o documento é a prova clara de que a China posicionou-se agora como aspirante a grande potência marítima. 
 
Na verdade, é genético. A China já tinha a maior frota naval do mundo pelo menos desde 200 anos antes de Cristóvão Colombo, e foi devidamente utilizada pela dinastia Ming para explorar os litorais da Ásia, do arquipélago indonésio, da África e do Oriente Médio. 
 
E adivinhem o que eles queriam, naqueles idos: comércio/negócios de “ganha-ganha” e intercâmbio cultural. Faça negócios, não faça guerra. Séculos adiante, tudo volta, remixado, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda, ou no projeto “Um Cinturão, Uma Estrada”. 
 
E não esqueçam: Urfa vem aí 
 
A estratégia de Pequim para o Mar do Sul da China sempre foi clara. Todos – sem discriminação – terão direito de passagem. Todas as disputas – de exploração de petróleo e gás a direitos de pesca – devem ser resolvidos bilateralmente no quadro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing. ASEAN). E todo o processo nada tem, absolutamente nada, a ver com Washington. 
 
Os EUA insistem que a “linha de nove traços” [ing. nine-dash-line] da China infringe a lei internacional. É risível. 
 
De fato, aquela linha foi sonhada pelos chineses nacionalistas do Kuomintang dois anos antes do nascimento da República Popular da China em 1949. 
 
Washington diz que a implementação da linha de nove traços permitirá que a China controle a navegação no Mar do Sul da China. Mais uma vez: Pequim não tem interesse em controlar coisa alguma, só quer negócios e mais negócios, o que já é fato: 80% do tráfego comercial marítimo mundial é serviço de navios chineses. 
 
Não há o que faça Pequim retroceder da negociação no âmbito da ASEAN – porque o Mar do Sul da China é elemento chave da Rota Marítima da Seda. O que Pequim quer são negócios de “ganha-ganha” com todos, do Vietnã às Filipinas, especialmente em termos de explorar toda aquela energia submersa. 

Países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing.: ASEAN)

 
Quanto a Washington — como Pequim a vê – tudo se resume à total obsessão de manter-se como o hegemon dos mares, pelo planeta inteiro, do Pacífico Asiático ao Estreito de Malaca e o Oceano Índico. 
 
Daí aparecer o documento chinês, para fazer lembrar a todos em todo o mundo, que o Mar do Sul da China não é lago norte-americano; que o Mar do Leste da China e o Mar Amarelo não são lagos nipo-americanos; e que o Oceano Índico não é Oceano Norte-Americano. Não há o que contestar. 
 
Todos esses desenvolvimentos cruciais foram estudados em detalhe no início dessa semana, na 11ª rodada de consultas estratégicas China-Rússia em Moscou – quando o Conselheiro de Estado chinês, Yang Jiechi, um segundo Ministro de Relações Exteriores muito ativo na promoção das políticas de Estado da China, sentou-se frente a frente com o Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev. 
 
Enquanto o Pentágono corre e bufa, Pequim lança sua doutrina militar anti-nonsenses; russos e chineses afinam sua parceria estratégica; e constroem o ato que levarão juntos para a próxima e crucialmente importante reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (ing.: SCO), que acontecerá nesse verão, em Urfa. Preparem-se, porque os doidos-aqueles pirarão completamente. Ah, sim: de agora em diante, nada de cruzeiros românticos pelos mares.
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Notas dos tradutores 
 
[1] From sea to shinning sea [literalmente, “do mar ao mar brilhante”, no sentido de “costa a costa”] é expressão de um canto patriótico, “America the Beautiful”, que se ouve frequentemente como o hino dos EUA. A tradução que aí se lê é uma tentativa, para recuperar parte desses significados complexos].
 
[2] 26/5/2015, redecastorphoto em: “Estratégia Militar da China”. Pequim. Documento emitido pelo Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China (ing.: Full text: China’s Military Strategy).
 
[3] Mares abertos: Que têm ligação direta com águas oceânicas; p. ex., o Mar das Antilhas e o Mar da China.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.