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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

São Paulo Veneziana: um bárbaro exemplo para o mundo

Radiografia do Mauro Carrara

Mauro Carrara

Noite funda de domingo, dia 23, quase 24, véspera do aniversário da maior cidade do Brasil. Já caiu a chuvarada prevista. Pinga pouco, aos poucos.

Este experiente jornalista aposentado retorna do Jabaquara, na Zona Sul da cidade, para o seu Brás, o bairro mais brasileiro do Brasil.

Ao volante, a jovem e lépida Giana Carrara. Mas antes precisamos entregar o vetusto tio Savério no Belém, pouco mais adiante.

Logo no início do trajeto, uma surpresa aos olhos. Um viaduto alagado. Alagado vinte metros acima do chão.

Lago de Tucanodonosor
Savério dispara sarcasticamente, sem rir: são as piscinas suspensas da São Paulo Babilônica, obra de Tucanodonosor.

Atravessamos a raia espalhando água em arcos altos, para os lados.

Em seguida, reparamos que poucos semáforos realmente se mostram úteis à coordenação do trânsito.

No bairro da Saúde, um deles marca o verde no sentido Centro por ralos dois segundos. Sim, dois segundos, cronometrados no velho Citizen de Savério.

Felizmente, muitos dos outros equipamentos luminosos apresentam-se dormentes, apagadinhos, em férias janeireiras.

Aqui e ali, não se pode distinguir o pavimento de asfalto da lâmina d’água.

Savério sorri, ainda enlevado de um Brunello caro que provou bem no jantar informal dos Di Giacomo.

- Não temos prefeito nem governador, mas acredito que tenhamos um “doge”. Está convertendo nossa São Paulo numa bárbara Veneza sulamericana – observa.

Segundo Savério, essa conversão é facilitadora do controle da gestão pública. Bastará, doravante, que o líder da municipalidade jure um “promissio ducalis”, no qual elencará todas suas promessas administrativas. E por elas será cobrado.

Radial Leste num domingo qualquer 
Na velha Radial Leste, outro mar, este de automóveis, inundando a noite de lanternas vermelhas.

Giana corta lateralmente por aqui e por ali, até que topa com uma rua da Mooca convertida em canal aquático.

Engata-se a ré. Retrocedemos. Outros nos seguem. Espetacularmente, uma dúzia de veículos paulistanos trafegam em fila, de costas, em mostra inequívoca de nossa criatividade coreográfica.

- Mais uma obra magnífica do dux Veneciarum – celebra Saverio.

Deliberamos desistir da entrega do parente. Vai pernoitar em minha casa. Assim, empreendemos fuga para o outro lado da linha de trem.

O Viaduto Bresser, entretanto, é outro desses espetaculares lagos suspensos. Navegamos em alta rotação, bravamente.

Mais adiante, em ruas de iluminação perdida, percebo uma luzinha vermelha no painel.

- Giana, está marcando o que aí? – pergunto.

- Ihhhh, aqueceu, vai fritar...

- Mas este carro não é novo, moderno? – insisto.

- Vendem como se fosse, pelo menos. Mas não é anfíbio.

Estacionamento no Jabaquara 
Estancamos adiante. Ela abre o capô. Preocupo-me. Ela gira a tampinha de leve. E ouço um apito de panela de pressão. Mais um pouco e um vapor oleoso se levanta denso na esquina deserta.

- O que foi? – pergunto.

- Sei lá, acho que pifou a ventoinha. Queimou o relé.

Logo percebo Saverio agachado do outro lado da rua. Inclina-se sobre a torrente da sarjeta, captando água numa garrafa de Coca-Cola.

- Isso é água suja. Vai estragar o motor e o senhor vai pegar uma leptospirose – ralha Giana.

Pouco depois, outro veículo passa pela rua, o motor soluçando. Soluça, soluça, até que para, desmaia.

Ouvimos uma discussão de marido e mulher. Uma criança parece reclamar. O motorista desce do carro e anda de cá para lá.

Mais uns gordos minutos e Giana se rende. Suspirando de prévio arrependimento, utiliza a água da chuva para reabastecer o radiador.

Prosseguimos pelo labirinto, procurando caminho firme e transitável. Vamos parar no Pari, nas franjas do rio maior que corta a cidade.

Ali, a cena é notável. Há lagos imensos e silenciosos, carros amontoados, lixo ensacado boiando lentamente.

Por do sol na Baixada do Glicério 
- A Marginal transbordou de novo – anuncia um.

Logo vemos uma família avançando pela água. A criança de cavalinho no pai. A mulher com água pelas coxas, carregando uma bolsa e sapatos de saltos altos.

- Larguei o carro lá. Não vou arriscar. Chega, cansei. Vamos embora de São Paulo – revolta-se o sujeito, numa declaração ao bando de curiosos.

- Você não pode largar o carro lá, mano. A prefeitura vai processar você – intromete-se um baixinho de camisa regata.

- F...-se! – retruca o cidadão. – Quero um hotel. Estamos cheirando a bosta.

Damos meia volta, pegamos a avenida na contramão. Agora, sou o guia. Seguimos por caminhos estreitos, num ziguezague prudente.

Até que o motor ferve novamente. Resolvemos parar e esperar o resfriamento natural.

Carros soluçando, quase mortos
Passa um carro por nós, soluçando. Morre logo à frente. É o mesmo. Talvez o motorista estivesse nos seguindo. Aquieto-me.

Savério continua a exercitar seu humor de Toscano, seco e de taninos exuberantes, como alguns dos melhores vinhos de sua região.

- Nosso doge, além de tudo, é homem de humildade ímpar. Atribui todas as suas incríveis obras a São Pedro.

- Pois é, pois é – assinto eu, sem animação.

- E nossa mídia é fiadora dessa modéstia. Nas tragédias da Serra fluminense, deu todo crédito a Lula e Dilma. Aqui, tudo é obra de Pedro. Se não é Pedro, é o povo que se excede em brincadeiras irresponsáveis com o lixo.

Giana arranca as sandálias.

- Olhaaa, tem um pedaço de jornal grudado aqui – aponta com nojo, erguendo o pé molhado à altura do volante.

- Agora infectou mesmo – aterroriza-se Saverio, de olhos arregalados.

- Será que vamos chegar em casa antes de amanhecer? – pergunto, sem obter resposta.

São Marcos, padroeiro da 
São Paulo Veneziana orando
- Olha... Essa é a hora do Marcos, o goleiro deles, se aposentar e assumir um cargo de acordo com sua qualidade e condição de milagreiro... – afirma Saverio, um anarcorinthiano radical.

- O que tem esse goleiro deles? – dispara Giana, um pouco impaciente, quase indignada.

- Ora, quem é o padroeiro de Veneza? São Marcos. Temos um aqui, de carne e osso. Que assuma logo a defesa da São Paulo Veneziana, esse exemplo bárbaro de metamorfose urbana.

Faz-se silêncio. A luz é escassa.

Agora, à volta do carro à frente, marido e mulher gesticulam. Há um bate-boca espetacular cujo conteúdo não logramos decifrar.

Agachada, a criança brinca com a água que corre no meio fio. Incessante.


ilustrado por redecastorphoto

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Itau, Fiat e Vivo patrocinam vergonha do futebol brasileiro

Mauro Carrara

A imagem de uma empresa não é construída apenas pela qualidade de seus produtos e serviços.

Nas ações de “branding”, valem também os valores e princípios associados à marca.

No caso do pensamento capitalista brasileiro, no entanto, ainda atrasado e obtuso, o foco está na exposição obsessiva e alienada do logo.

Pelo segundo ano seguido, o Campeonato Brasileiro de Futebo  está sendo decidido na base da sabotagem, da cafajestada e do corpo mole.

No ano de 2009, o Corinthians pulverizou as chances do São Paulo ao facilitar a vida do Flamengo, no polêmico match de Campinas.

Este ano, a fase final do torneio vem sendo desenhada pelo entrega-entrega público e descarado.

Se o futebol é um veículo de transmissão pedagógica de princípios, presta-se hoje um péssimo serviço à juventude brasileira.

Consagra-se uma fórmula de conduta que mistura o “levar vantagem em tudo” (Lei de Gérson) e o “Tô nem aí”, hit pop de Luka.

Estarrecedor é constatar que as grandes corporações gastam milhões neste processo de substituição da ética pela conveniência.

O Banco BMG, por exemplo, é o nome associado à ridícula apresentação do São Paulo diante do Fluminense.

O parvo atleta Richarlyson vestia uma camisa-propaganda da instituição ao cavar sua expulsão.

Assim como é o nome da Fiat, montadora líder no Brasil, que patrocina a estupidez dos palmeirenses que planejam outra entrega, também para o Fluminense.

O técnico Felipão, que já admitiu admirar Augusto Pinochet, escarrou na cara dos torcedores (de seu time, inclusive) ao afirmar em tom de deboche que desconhece o jogo da penúltima rodada.

O mesmo pode-se dizer do veterano jogador Felipe, do Vasco, que confessou publicamente a falta de vontade para o jogo contra o Corinthians.

Nesse caso, é lamentável que o uniforme do atleta estampe o nome da Eletrobrás.

O sistema atual de disputa do Brasileiro é excelente somente para os cartolas gatunos. Permite o comércio de malas brancas e pretas, a manipulação de arbitragens e a troca de favores políticos.

E essa tragédia moral é tema diário das principais redes televisivas.

A safadeza, exposta coloridamente pela TV Globo, é patrocinada por empresas como Itaú, Volkswagen e Vivo.

Se o futebol virou o teatro da canalhice e da dissimulação, que motivos o consumidor terá para crer nesse banco, nessa fábrica de veículos e nessa operadora de telefonia celular?

Esse é o modelo deteriorado de negócios, marketing e propaganda em vigor no Brasil.

E é essa a elite de empresários e comunicadores que enche a boca para falar em qualidade, coerência e valores.

Lembre-se disso na próxima vez em que o banco lhe cobrar uma taxa indevida.

No próximo recall para o seu veículo. E na próxima vez que lhe faltar o sinal do celular numa situação de emergência.

Perceba que nada é por acaso.

No Brasil, marcas e produtos exibem a cara apodrecida do nosso capitalismo de currais e monopólios.

domingo, 14 de novembro de 2010

O ódio da imprensa para cegar o torcedor

Mauro Carrara

Não por acaso, o Sport Club Corinthians Paulista assume frequentemente o lugar do Partido dos Trabalhadores (PT) como alvo do ódio das elites. O modelo de acusação é idêntico.

A ordem é insultar, desqualificar e criminalizar. Sistematicamente. No caso do clube fundado por operários no bairro do Bom Retiro, esse bombardeio midiático acaba de completar 100 anos.

Desde a época do antigo Velódromo, se o vencedor era o Corinthians, havia na página grafada sempre uma adversativa, um desmerecimento e um delito apontado.

Afinal, a que glória podia aspirar a agremiação dos carroceiros do Mercadão, das lavadeiras do Glicério, dos amoladores, dos braçais, dos italianos rotulados de carcamanos, dos negros sem sobrenome, dos espanhóis malaguetas, dos índios sem tribo, dos japas de fala enrolada e dos mestiços de toda sorte, tão brasileiros que pareciam merecer somente a exclusão.

E onde foi parar toda essa fúria de preconceitos? Cessou?

Não! Mantém-se intacta, ainda que estrategicamente oculta pelos interesses comerciais da mídia monopolista. Afinal, como afrontar diretamente 27 milhões de consumidores?

Ora, mas basta a dúvida para se revitalizar o ódio centenário.

Esta noite de sábado, estive com a neta ao estádio do Pacaembu. De lá das arquibancadas, assistimos ao fogo do prélio. E vimos também, inequivocamente, um zagueiro forte arremeter-se desastrosamente contra as costas do artilheiro Ronaldo.

Ora, pois, pênalti, indiscutível. Pênalti! Está na regra!

Fosse no meio-campo ou aos cinco minutos do primeiro tempo e seríamos poupados do teatro acusatório contra o árbitro.

Em casa e pude rever o lance na telinha, várias vezes. Não há disputa da bola pelo alto, e sim um golpe claramente faltoso do azulino. As câmeras oferecem registro límpido e cristalino da jogada.

Entretanto, a mídia precisa enodoar, mais uma vez, o triunfo do time do povo. Não me surpreendi, pois, ao topar com os comentários de Mauro Cezar Pereira, o mesmo que criminalizou o paixão de Lula pelo Corinthians, o mesmo que criou uma fábula para ver delito petista no projeto do estádio mosqueteiro.

Recentemente, o Corinthians viu surrupiados dois gols legítimos em Campinas, diante do Guarani. Os erros custaram ao clube dois pontos, caríssimos nesta reta final do campeonato.

Antes ainda, no primeiro turno, o Cruzeiro fora beneficiado pelo mesmo Sandro Meira Ricci, que desconheceu pênalti de Henrique sobre o alvinegro Bruno Cesar.

Tampouco se viu indignação de locutores e comentaristas quando o Fluminense foi auxiliado no jogo contra o Grêmio, no Engenhão. Um pênalti clamoroso de Leandro Eusébio sobre Jonas acabou desconsiderado pelo árbitro.

Mas os jogos do Corinthians são sempre um Enem em potencial. Há sempre um detalhe a ser midiaticamente convertido em escândalo. Afinal, a ordem é criminalizar os intrusos, os penetras da festa chique.

Lamentável é ver articulistas da chamada esquerda, como Laerte Braga, seguindo irresponsavelmente a procissão, repetindo venenosamente o coro acusatório.

Para refrescar a memória do leitor, Zezé Perrella, o ruidoso detrator do árbitro Meira Ricci é "raposa" política matreira, inescrupulosa e oportunista. Construiu sua carreira ao alinhar-se com o obscurantismo mineiro e com as forças do velho PFL.

Curiosamente, foi destacado pela CBF para comandar a delegação brasileira que vai ao Qatar, para o amistoso contra a Argentina.

Em boca fechada, não entra mosquito. Dedos inteligentes poupam articulistas da vergonha da ignorância e da contradição.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Auschwitz brasileira: você vai?

Mauro Carrara

Durante a II Guerra Mundial, milhões de judeus foram enviados a campos de concentração e extermínio pelo governo nazista de Adolf Hitler.

No entanto, no principal complexo da morte, Auschwitz-Birkenau, na Polônia, foram encarcerados também membros da resistência democrática, intelectuais, artistas, religiosos, elementos considerados anti-sociais, ciganos e homossexuais.

Cidadãos alemães, poloneses, franceses, italianos, russos e de outras nacionalidades, inclusive crianças e idosos, encontraram ali a angústia de seus últimos dias.

Pelo menos 2 milhões de seres humanos foram mortos nessas instalações. Muitos pereceram nas câmaras de gás, envenenados pelo pesticida Zyklon B.

Não por acaso, o sistema remete à campanha informal “afogue um nordestino”, em curso nas redes sociais virtuais brasileiras, movida por militantes da candidatura derrotada de José Serra à presidência da República.

A autora da proposta é a estudante de Direito paulista Mayara Petruso, para quem os nordestinos são “vagabundos” que “fazem filho” para receber benefícios do programa Bolsa Família.

De acordo com os seguidores do grupo, como Maxi Franzoi, ativo no Twitter, a perseguição é legítima. Segundo o jovem, as nordestinas “nem banho tomam” e não há chuveiros instalados na região.

A campanha de perseguição aos diferentes movida pela juventude tucana, porém, alcança outros grupos minoritários divergentes.

Amarela azeda e aleijado FDP.

Na comunidade Brasil (1,3 milhões de membros), da rede Orkut, por exemplo, a professora sansei Marina Okuhara, procurava argumentar civilizadamente em favor das políticas de distribuição de renda no Brasil quando foi chamada de “amarela azeda”, “vaca oriental sem bunda” e intimada a deixar o Brasil e se mudar para a “Coreia do Norte”.

Agressões e graves ameaças também têm sido registradas contra nortistas (os “índios burros”, como escreveu um simpatizante de José Serra no Twitter), cariocas, mineiros, bolivianos, homossexuais, deficientes físicos, negros e obesos.

Na rede Orkut, o termo “aleijado filho da puta tem que virar sabão” foi utilizado várias vezes, entre risadas escritas, contra um estudante portador de necessidades especiais que defendia a candidatura de Dilma Rousseff.

Nas rotulagens padronizadas por esses grupos, cariocas são “traficantes e prostitutas”, mineiros são “comedores de pão de queijo vendidos”, bolivianos são “sub-raça que infecta São Paulo”, homossexuais são “pecadores aidéticos” a serem eliminados, deficientes são “estorvos”, negros são “indolentes” (embora muitos revoltosos afirmem até mesmo conversar “normalmente” com eles) e obesos compõem a “escória da raça”.

O último tipo de classificação gerou até mesmo um novo “esporte” universitário. Na Unesp, um grupo de alunos instituiu o chamado “Rodeio das Gordas”, que também ganhou uma comunidade na rede Orkut e inúmeras adesões no Twitter.

Durante uma festa, os rapazes saltavam sobre as costas das garotas consideradas obesas e as dominavam por estrangulamento. Diante do desespero das vítimas, os “cowboys” berravam: “pula, pula, gorda bandida”.

Logicamente, os esquerdistas recebem um tratamento especial na Internet. Nomeados “comunistas de merda”, devem se transferir para Cuba ou para o Vietnã. Frequentemente recebem ameaças físicas.

O Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães, por exemplo, registrou logo após as eleições um “aviso” do gênero, escrito por um certo Ruiz:

- Vocês estão fudidos, nem que a gente tenha que quebrar vocês na rua… só no taco de baseball e se vier é melhor cair dentro neném, que aqui não tem perdão.

Esses movimentos têm umbilical relação com as campanhas movidas pelas tropas de choque virtuais da candidatura do PSDB à presidência. Um olhar mais atento atestará que os animadores das gangues da intolerância estiveram empenhados na propaganda tucana.

Sabe-se, portanto, de onde vem essa educação para a hostilidade. Os exemplos de cima são muitos e variados, capazes de gerar e consolidar uma cultura de intransigência e ódio.

Em 2005, num evento com empresários, por exemplo, o político catarinense Jorge Bornhausen, do atual DEM, foi questionado sobre um suposto desencanto com a política. E respondeu da seguinte forma:

- Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos.

Em 2006, numa entrevista ao SPTV, da Rede Globo, o então candidato tucano ao governo paulista foi interrogado pelos apresentadores sobre as causas do péssimo desempenho da educação no Estado mais rico do país.

Sem titubear, Serra colocou a culpa nos migrantes e ainda deturpou os dados sobre movimentação populacional interna, alegando que “muita gente continua chegando” a São Paulo.

Com a derrota nas urnas no dia 31 de Outubro, os guerreiros do atraso, influenciados pela TPF, pela Opus Dei, pela Tribuna Nacional, pelos monarquistas e pela ala reacionária e golpista do episcopado brasileiro, revelam-se decididos a manter a cruzada pela desestabilização do país.

Portanto, muito cuidado, especialmente se você ousou votar em Dilma, se está entre os 49% de gaúchos e 46% de paulistas “vermelhos”, se simpatiza com a esquerda, se tem princípios humanistas, se segue a lição do verdadeiro Cristo, se é nordestino, se é nortista, se é carioca, se é mineiro, se ainda vive de maneira humilde, se foi beneficiado pelo Prouni, se é oriental, se é afro-descendente, se é ameríndio, se sua família tem origem em outro país latino, se é contrário à entrega de Itaipu e Petrobrás aos amigos de FHC e também se ganhou uns quilinhos a mais...

Em cada esquina virtual, tem uma Auschwitz a sua espera.

E o Hélio Bicudo continua calado.

Derrotados tentam iugoslavizar o Brasil pela Internet

Mauro Carrara

Primeiramente, estes são os derrotados: o PSDB, o DEM, o PPS, as Organizações Globo, a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, a Editora Abril, a TFP, a Opus Dei, os monarquistas, os falsos pastores evangélicos liderados por Piragine, a ala reacionária do episcopado católico e parcelas privilegiadas das classes médias urbanas do centro-sul do país.

Seguindo a velha cartilha golpista, essa confusa coligação quis ver na conduta dos setores progressistas uma ameaça à democracia. Seus líderes redigiram manifestos em defesa da unidade nacional, da liberdade de expressão e da tolerância. Meteram ali as assinaturas de celebridades e sub-celebridades da direita escancarada, da direita enrustida e de três ou quatro trânsfugas do esquerdismo.

Consumada a derrota eleitoral, porém, rasgaram logo suas cartas oportunistas e passaram a fomentar uma revolução separatista no Brasil. Toda a teatral civilidade da campanha foi prontamente substituída por racismo, preconceito e incitação à violência.

De forma articulada, a reação à vitória de Dilma Rousseff logo tomou as páginas das redes sociais na Internet. Centenas de jovens (e não jovens) que militaram nos batalhões do terror cibernético serrista passaram a propugnar um processo de secessão, mirando seus canhões especialmente contra o povo das regiões Nordeste e Norte.

Puseram-se a defender ferozmente uma guerra aos moldes daquela que destroçou a Iugoslávia nos anos 90. Naquela região, vale rememorar, o transe do ódio produziu como saldo uma economia destruída, enormes legiões de mutilados paranóicos e pelo menos 100 mil mortos.

Mayara Petruso, uma estudante de Direito paulista, filha da classe média alta, comandou o movimento de perseguição aos nordestinos. Na rede de relacionamentos Facebook, escreveu o seguinte:

- Afunda Brasil. Dêem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalhava pra sustentar os vagabundos que fazem filho para ganhar o bolsa 171.

Noutra postagem, fez apologia do crime e lamentou que a presidente eleita não tenha sido assassinada. Dilma é apelidada de “dragão” pelos grupos neofascistas da juventude serrista de São Paulo.

- Agora, passem fome, frio... É impressionante, quando precisamos de violência não a temos, porque ninguém pensou em matar o dragão?

Em outra mensagem, desta vez no Twitter, ela estimula seus pares de Internet a se juntarem numa cruzada de extermínio.

- Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado.

No dia seguinte às postagens, a jovem soube que a seção Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE) entraria na Justiça de São Paulo com representação criminal contra a onda de ataques da qual fora protagonista. Aí, pediu desculpas, desconversou...

Na verdade, fechar o foco legal sobre Mayara deve se constituir num equívoco do ponto de vista jurídico. Milhares de outros jovens participaram dessas atividades de inspiração nazista. No Twitter, um certo Maxi Franzoi, por exemplo, escreveu o seguinte:

- O dia em que as nordestinas serem as mais gatas eu viro gay. Pegar nordestina não rola. Elas nem banho tomam, não chegou o chuveiro lá ainda.

Na rede Orkut, pertencente ao Google, as mensagens bombaram na comunidade “Eu odeio o Nordeste”, cujo texto de apresentação é o seguinte:

- Essa comunidade é pra quem odeia o nordeste, uma região fudida que só tem vagabundo, corno, puta, e que não da nada pro Brasil alem de políticos corruptos e mais um montão de coisas.

Ainda no Orkut, a movimentada comunidade “Brasil”, com mais de 1,3 milhões de membros, converteu-se num centro de difusão de ódio suprematista e secessionista. Um certo Jefferson, por exemplo, abriu um tópico com os seguintes termos:

- Brasil do Norte comunista – Brasil do Sul democrata – Separatismo já.

O movimento certamente é articulado, pois toma corpo justamente em canais de Internet que difundiram massivamente calúnias contra Dilma Rousseff durante o processo eleitoral. Os avatares associados à campanha de Serra são os mesmos agora dedicados a exigir ações de segregação e extermínio.

Essas manifestações não cessaram mesmo depois que os jornais divulgaram os mapas da votação por regiões, segundo os quais a candidata do PT teria sido eleita mesmo sem os votos das regiões Norte e Nordeste.

Serra foi derrotado em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul registrou-se vantagem mínima para o tucano (50% a 49%). Mesmo em São Paulo, considerado seu principal reduto, o representante do PSDB viu sua rival receber 46% dos votos. Fechando-se mais o foco, percebe-se massivo apoio à candidatura situacionista nos bairros da periferia paulistana.

Globo como origem da distorção

Boa parte desse delírio agressivo foi estimulado pela ficção cromática criada pela Rede Globo de Televisão, que insistiu em pintar totalmente de “azul” os Estados com maioria de votos para Serra, e em “vermelho” aqueles com vantagem para Dilma. Essa representação grosseira criou uma ideia de unanimidade do centro-sul em torno da candidatura do PSDB.

Na verdade, Estados como Rio Grande do Sul e Espírito Santo podiam ter sido pintados de “roxo”, considerada a diferença mínima entre os dois candidatos. O próprio Estado de São Paulo, da furiosa Mayara, poderia ter 46% de seu território tingido de vermelho.

A distorção Global, copiada pelos jornalões paulistas, imita o modelo de representação gráfica televisiva dos resultados de eleições presidenciais norte-americanas, em que o vencedor do Estado leva todos os votos dos delegados. Uma regra eleitoral sem qualquer conexão com a realidade brasileira.

No território das redes sociais, há que se responsabilizar também o Google (Orkut), o Facebook e o Twitter, sempre cegos a esse tipo de propaganda racista ou de incitação ao ódio. Convém lembrar que a comunidade orkutiana dos inimigos do Nordeste funciona livremente desde Fevereiro.

Do ponto de vista da inspiração, o movimento tem origem nos grupos de fanáticos que tomaram a direção da campanha serrista, especialmente no sul do país e em São Paulo. Esses sabotadores virtuais procuram repetir a fórmula das “revoluções coloridas”, financiadas há uma década pelo National Endowment for Democracy (NED), dos Estados Unidos. A entidade tem como missão oferecer suporte integral a operações de desestabilização em países governados pela esquerda.

As agressões pós-eleitorais deste 2010 deixarão feridas indeléveis na alma país.

Por anos e anos, gerarão acusações, atritos e ressentimentos entre irmãos brasileiros. Na cena deste delito abominável, os futuros historiadores certamente encontrarão as digitais de José Serra e de seu bando de maus perdedores.

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Opinião do correspondente ArnCar:

O que mais surpreendeu no sufrágio foi os 46% concedidos ao candidato oposicionista, cifra bem mais elevada do que a esperada. Creio que a divisão dos verdes, mais as classes médias (não só as privilegiadas) e crentes católicos não-conciliares, protestantes (menos) e “evangélicos” moralistas pró-sionismo [superlativamente mais) foram decisivas na considerável porcentagem alcançada por José Serra.

Fosse menos de 39%, acredito que ele abandonaria de vez suas pretensões.

Quanto aos atos delinquenciais perpetrados por blogueiros e tuiteiros “esquadristas” (do italiano squadristi), fica apenas comprovado que o fascismo comum lamentavelmente já preenche uma fatia de nossos quotidianos. Ser conservador é uma coisa; ser reacionário é outra - a esquerda, em geral, não se habituou a distiguir ambas as condições, pondo-as num mesmo saco; um grande equívoco.

Notem que os oposicionistas batidos nas urnas são em maioria conservadores, enquanto os fascistas foram quase todos eleitos e reeleitos. A em breve Presidenta Dilma precisa, sim, governar o País e chefiar o Estado com uma Oposição conservadora. Mas temo infiltrações quadrilheiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Não raras, contarão com apoios estadunidenses e europeus. 

As bestas do Apocalipse estão à solta, em torno da Hidra, que entre nós dispensa decifrações para devorar a cidadania de mulheres e homens de bem.

Umas e outra estão bem à vista, nas cidades e bairros, vizinhanças, locais de trabalho, centros de lazer, ao nosso lado, em suma. Olhos e ouvidos não bastarão para cortar as cabeças dessas figuras demoníacas que manipulam nossas retinas, deformam nossas leituras e transmitem um substrato cultural preparado para dissolver ensaios de resistência.

Há que mobilizar-nos contra sabotagens inesperadas e ataques repentinos nos recessos de lares, nas escolas, nas Repartições públicas, nos escritórios, nas fábricas, nas minas, nas obras - onde quer que seja.   

Abraços do
ArnCar

Anexos:


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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O porquê do desprezo de Serra pelas mulheres

Mauro Carrara

Nesta eleição, com em nenhuma outra, as mulheres foram desprezadas, ofendidas e humilhadas. Sem qualquer constrangimento, as forças conservadoras reativaram mitos e preconceitos que julgávamos sepultados há pelo menos 30 anos.

Nessa cruzada dos vanguardeiros do atraso, assistimos surpresos aos dramas encenados por um candidato à Presidência da República.

O teatro de agressões culminou com a exortação do comício em Uberlândia (MG), em que o candidato neoliberal misturou política com cafetinagem e tentou converter o processo eleitoral em um esquema de concessão negociada de favores femininos.

Sem ruborizar, determinou José Chirico Serra:

- Se você é uma menina bonita, tem que conseguir 15 votos. Pegue a lista de pretendentes e mande um e-mail. Fale que quem votar em mim tem mais chance com você.

Difícil imaginar uma mulher de bem, um pai, um irmão ou um avô que aprove o método de José Serra. Aliás, difícil conceber que o cidadão não se cubra de indignação diante desse episódio.

Sintomaticamente, Serra pronunciou essas palavras ao lado de Aécio Neves, conhecido por resolver na porrada suas diferenças com as namoradas. No entanto, essa foi apenas mais uma de tantas agressões à mulher, durante um transe em que o tucano não poupou a própria família.

Sabe-se que sua mulher, Mônica, praticou um aborto, tempos atrás. E desolada comunicou o fato a suas alunas na Unicamp. Obviamente, não convém apresentar julgamento sobre as razões da mulher do ex-governador paulista.

Estarrecedor foi o empenho de Serra em converter o tema no pilar de sua campanha. A hipocrisia é condenável. Mas ainda é a construção de um argumento que certamente feriu a esposa, compelida a recordar episódio doloroso de sua biografia.

Os esquemas de golpismo midiático do candidato envolveram a própria filha. Ao utilizar com propósitos eleitorais as quebras de sigilo encomendadas por seu "aliado" Aécio, o candidato expôs Verônica Serra de forma pública.

Nessa manobra, permitiu que a boa imprensa revelasse o escândalo da quebra de sigilo de quase 60 milhões de brasileiros, em 2001, malfeito da Decidir.com, empresa que tinha entre seus donos Verônica Serra e Verônica Dantas Rodenburg.

No contato com imprensa, Serra costuma desrespeitar as jornalistas. Um exemplo foi o barraco que armou antes da gravação do programa Jogo do Poder, da CNT. Inconformado com o fato de não poder definir, ele próprio, a pauta de perguntas, o candidato não poupou grosserias para intimidar a jornalista Marcia Peltier

Serra lida tão mal com as mulheres que chegou a protagonizar discussão acalorada até mesmo com uma aliada da imprensona, a jornalista Mirian Leitão, que sugeriu ser uma lobista do setor financeiro. Para completar, classificou a pergunta da profissional sobre a gestão do BC como "bobagem".

Não é preciso rememorar os inúmeros questionamentos enviesados de Serra sobre a competência de Dilma Rousseff. Em tom de sutil deboche, o tucano sugere que adversária seja incapaz, e que no comando do país será um fantoche do homem Lula.

Percebe-se claramente essa postura na construção obliqua de suas frases, na impostação de voz e nas demonstrações de desprezo que se revelam nas flexões de canto de boca.

Pode-se cogitar de que essa conduta seja resultado da influência dos fanáticos de extrema-direita que compuseram o agressivo e criminoso batalhão eleitoral de Serra: a TFP, a Opus Dei, a ala conservadora da CNBB, os monarquistas e os gestapo-boys da Tribuna Nacional.

Uma análise mais detalhada da trajetória política do candidato, no entanto, indica o contrário. Registram-se em sua biografia inúmeros eventos que revelam inequívoca tendência à ginofobia. Nesse caso, parece natural que Serra tenha se aproximado desses bandos. Pelo menos nisso, exibiu coerência.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um ABRAÇO no Presidente Lula

Lula: refazendo a liturgia do abraço




Lula é mestre num dos maiores atributos do brasileiro: o acolhimento pelo abraço. Presidente, receba de seu povo, neste seu aniversário, um abraço fraterno. Muitos anos de vida. E que sigamos refazendo o Brasil.

Autora Gianna Carrara