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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os velhinhos assassinos (OS MILICANALHAS)



Publicado em 06/09/2012 por Urariano Motta*

Na semana passada, ao ler no site da Folha a notícia “Justiça determina abertura de ação penal contra militares por crimes na ditadura”, atravessou o meu espírito uma reprovação. Já no primeiro parágrafo se anunciava:

“Militares que atuaram na repressão durante o regime militar (1964-85) responderão a ação penal por supostos crimes cometidos durante a ditadura”.

Por que e como supostos crimes? Não bastam as seguidas e cumulativas provas, de testemunhas, de documentos, e até entrevistas de réus confessos, para retirar o véu da dúvida? Mas continuava a notícia:

A Justiça Federal em Marabá (685 km de Belém) aceitou denúncia do Ministério Público Federal e determinou a abertura de ação penal contra o coronel da reserva Sebastião Rodrigues Curió (foto acima) , 77, e contra o tenente-coronel da reserva Lício Maciel, 82”.

Depois disso, atravessaram o espírito dois espantos. O primeiro foi ver o quanto o assunto justiça e ditadura havia sido o mais comentado e enviado no site em 30 de agosto. O segundo foi conhecer o gênero e grau de comentários que sob a reportagem se abrigavam, dos raivosos defensores do golpe de 64 aos mais complacentes e pacifistas, sempre na velha fórmula: para  quê tanta confusão, se tudo é morto e passado?

Não vem ao caso aqui mostrar o paradoxo de quem argumenta que, por um lado, a história da ditadura é ultrapassada, e por outro, manter a feroz defesa do regime que não mais existe, como se os anos da guerra fria estivessem em uma geladeira. Do necrotério de 1970, talvez. Importa mais agora, entre os comentários cordatos, um apelo que li dirigido aos brasileiros de bons corações, nesta esperta frase:

“Um deles tem 77 anos, o outro tem 82. Não adianta ficar prendendo ex-coronel que fez crimes na ditadura civil-militar. Nossa ditadura foi a mais branda da América Latina, não que eu esteja tentando justificá-la, mas ficar revogando a lei da Anistia pra prender velhinhos é no mínimo covardia. Não sabia que a esquerda queria se vingar de vovôs”.

Vovós, poderia ser dito, para ser mais forte a fragilidade dos velhos coitadinhos. Ora, tenho junto a mim um precioso depoimento de uma senhora que teve a sorte de morar no mesmo edifício do coronel Vilocq, quando ele estava velhinho. Quando ele não mais era uma fortaleza de abuso e violência. Os mais jovens não sabem, mas Vilocq arrastou Gregório Bezerra por uma corda, espancou o bravo comunista sob cano de ferro, e esteve a ponto de enforcá-lo em praça pública em 1964. Quanta força contra um homem rendido e desarmado. Pois bem, assim me contou a privilegiada:

Muitas vezes, viu a conversarem, em voz amena e agradável, lado a lado, em suas cadeiras de rodas, Darcy Vilocq e Wandenkolk Wanderley, que moravam no mesmo edifício e destino. Olhem que feliz coincidência, lado a lado, a ferocidade e o terror. Um, Wandenkolk, ex-delegado, que usava alicate para arrancar unhas de comunistas no Recife; outro, Vilocq, sobre quem Gregório fala em suas memórias. Pois ficavam os dois companheiros a cavaquear, pelas tardes, na paz do bucólico bairro de Casa Forte.

De Vilocq, a minha privilegiada amiga informa um pouco mais, neste brilho de ironia involuntária da cena brasileira: uma empregada doméstica, no prédio em que ele morava, dizia que Vilocq parecia um bebê, de tão inofensivo e pacífico na velhice. A ponto de ela brincar, muitas vezes com ele, dizendo: “eu vou te pegar, eu vou te pegar”. O bebezinho, o velhinho sorria, já sem a força de espancar com ferro e obrigar um homem a pisar em pedrinhas, depois de lhe arrancar a pele  dos pés a maçarico.

Para infelicidade geral, os dois bons velhinhos já não mais existem. O que gostava de unhas com pedaços de carne foi para o céu aos 90 anos, em 2002. O que tentou enfiar no ânus de Gregório Bezerra um cano seguiu para Deus aos 93, em março deste ano. Ficou um vazio nas tardes da história onde mora a minha amiga. Como poderá a justiça humana agora alcançá-los? Com quem brincará a boa moça, empregada doméstica?

Pensemos neles, por eles e para a justiça que não lhes chegou, quando olharmos os idosos e respeitáveis Carlos Alberto Brilhante Ustra, David dos Santos Araujo, Ariovaldo da Hora e Silva, Maurício Lopes Lima, Carlos Alberto Ponzi, Adriano Bessa Ferreira, José Armando Costa, Paulo Avelino Reis, Dulene Aleixo Garcez dos Reis. E outros velhos, muitos outros de Norte a Sul do país, que no tempo de poder foram o terror do Estado no Brasil. Eles ficaram apenas mais velhos, os bons velhinhos assassinos.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

O acréscimo (entre parêntesis) ao título da postagem foi feito pela redecastorphoto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os perdoados da ditadura



Publicado em 01/12/2011 por Urariano Motta*


Recife (PE) - A revista Época No. 706 traz uma boa reportagem sob o nome de “Os infiltrados da ditadura”. Antes de continuar, é bom esclarecer que a reportagem é boa pelo assunto e por alguma verdade que deixa escapar, apesar da pauta e direção da revista. O fato é que, num surto de bom tema, a reportagem traz a público os perfis breves de cinco agentes do Centro de Informações da Marinha, que se infiltraram na resistência à ditadura.  

Assim, ficamos sabendo dos infiltrados Manoel Antonio Rodrigues, Gilberto de Oliveira Melo, Álvaro Bandarra, este na cúpula do PCB, de Maria Thereza Ribeiro da Silva, no PCBR, e mais Vanderli Pinheiro dos Santos, executor da sua farsa de tal maneira, que recebeu da Comissão da Anistia 234 mil reais e pensão acima de 3 mil por mês. Mas claro, recebeu e recebe porque alegou haver sofrido perseguição e torturas, ao requerer o benefício a pessoas de boa-fé na Anistia. Se uma pesquisa rigorosa se fizer, deve haver outros em igual situação, pois a decência é terra estranha a bandidos e assemelhados.   

No sentido acima, a reportagem marca um tento. Os agentes duplos, as infiltrações nos partidos e movimentos clandestinos, cujo maior exemplo é o senhor cabo Anselmo, começam a aparecer. Esse é um terreno fértil de sombras e traições, que o Brasil inteiro ainda muito saberá, a partir da abertura dos arquivos e do trabalho da Comissão da Verdade. Sim, a partir dela, que hoje recebe ataques à ultradireita e à sectária esquerda. Da direita, por absoluto conhecimento do que pode vir da Comissão. Da esquerda à esquerda, por um desejo precoce de resultados, enquanto vira palmatória dos que julga vacilantes.       

Importa agora destacar o quanto a orientação da revista limitou a exploração da mina da luta e infâmia. O quanto há de conflito entre a reportagem, o mundo terrível que revela, e a ideologia da empresa. São palavras do Diretor de Redação da revista Época, ao tentar pôr venda nos olhos do leitor:

“Na reportagem fica claro como é impossível separar bandidos e mocinhos de modo categórico. Havia, de ambos os lados, seres humanos movidos por medos, angústias e tensões – alguns deles capazes de todos os tipos de ação, do assalto ou justiçamento à tortura e execução. O repórter Leonel descreve, em especial, a realidade ambígua daqueles que foram infiltrados pelos órgãos da repressão nos movimentos de esquerda. Ele descobriu onde vivem alguns hoje e, ao conversar com eles, testemunhou como a ditadura marcou suas vidas.

As histórias narradas pelo repórter revelam como é simplista a visão daqueles defensores da Comissão da Verdade que tentam disfarçar seu desejo de vingança com a mais nobre roupagem de defesa dos direitos humanos... Porque, se há algo essencial a dizer a respeito daquele passado, é que ele felizmente passou”.

Se esses não fossem os ferros a prender o repórter, ele teria ouvido os feridos sobreviventes à delação, que até hoje estão machucados no corpo e na alma. E escrever isso não é rascunhar uma frase de retórica. Por exemplo, deveria ter ouvido Maria do Carmo, companheira de Juarez, da VPR, que ainda sofre dores atrozes no espírito por viver depois do então companheiro. Em lugar de “a vida dos infiltrados era cheia de medo, dúvida e tensão”, como está na reportagem, seria informado que a vida dos militantes socialistas era cheia de contínuo terror, tortura e assassinatos. Mas que ainda assim continuavam, pois não podiam deixar de crer em um Brasil fraterno.          

No editorial da revista, as operações mentais, as táticas do discurso são conhecidas: relativiza-se para nivelar executores e executados, torturados e torturadores. No passo seguinte, instaura-se o reino de lobos a lamber carinhosos ovelhas, de leões a serem puxados pelos bigodes por zebras, porque todo o sangue e ferocidade é passado. Porque o passado, como diria o Marquês de Maricá, o passado passou. No entanto a realidade resiste a tão bons e piedosos propósitos. Perguntem a todo o mundo civilizado sobre os crimes de guerra de nazistas e se diga aos “vingativos” netos das vítimas que o passado passou. E nem se precisa perguntar aos humilhados e pisados no oriente. Aqui perto, na Argentina, perguntem. Se a humanidade assim concordar, poderemos todos chamar os companheiros de Fleury para um jantar de confraternização, ao som de “hoje é um novo dia, um novo tempo já começou”.

Mas enquanto esse futuro bobo não chega, que venha e se aprofunde a Comissão da Verdade.

Urgente, já.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

domingo, 24 de julho de 2011

A BAND MENTE COMO A GLOBO! SÓ É MAIS BARATA...

Laerte Braga

Laerte Braga

É possível “comprar verdades” na REDE BANDEIRANTES, como se faz com a GLOBO, a RECORD ou qualquer outra rede de TV no Brasil. Ou a jornais, revistas e rádios de grupos privados. Grupos privados de comunicação servem a interesses de bancos, grandes corporações empresariais, latifúndios e vendem a ideologia do neoliberalismo. Mentem a soldo dessa gente. Fazem parte do esquema Murdoch e algumas são sócias.

O JORNAL DA BAND, edição de sexta-feira noticiou que grupos islâmicos seriam os responsáveis pelos atentados na Noruega. Há pelo menos três horas antes qualquer empresa de comunicação, em qualquer lugar do mundo, no mínimo eficiente, no duro mesmo sem seriedade alguma, caso da BAND, sabia que um cidadão norueguês havia sido detido pelo polícia como responsável pelo atentado numa ilha onde estavam jovens trabalhistas.

A BAND insistiu em grupos islâmicos sabendo que mentia. A mentira é deliberada, faz parte do processo de induzir o telespectador a acreditar numa verdade que não existe, mas para a qual são pagos, falo dos comprados, a BAND.

Hoje já se sabe que os jovens trabalhistas assassinados estavam reunidos num seminário e haviam aprovado um boicote a Israel, grande acionista do Brasil (um país que já começa a ficar sem dono, ou com outros donos melhor dizendo).

Como se sabe que o atirador detido é norueguês e cristão fundamentalista. O pessoal de Edir Macedo segue a mesma linha com outra definição. Edir até agora pelo menos não matou ninguém, só mete a mão no bolso da manada. O norueguês vai e mata quase uma centena. Como aquele judeu ortodoxo que matou Itzak Rabin por ter assinado a paz com os palestinos e reconhecido o Estado Palestino.

A BAND, em seguida, na mesma edição, pega o general Augusto Calabar Heleno, nascido no Brasil, mas servindo aos EUA e vai a RESERVA RAPOSA SERRA DO SOL mostrar que os índios da reserva estão vivendo em condições “miseráveis”. Os índios desmentem, mostram o contrário, a BAND não mostra, claro a conta bancária da turma aumentou e muito. O general Heleno é notório traidor. A única coisa que falou foi sobre “área produtiva”. Quer as terras para o latifúndio e o transgênico nosso de cada dia, regado a agrotóxico.

O xis da questão é impressionar a manada (a da BAND é pequena) e dar a impressão que “a” é “b” e em seguida emitir a fatura. Joelmir Betting é só uma cópia masculina de Miriam Leitão, nada além disso.

Em Band veicula mentiras sobre Raposa Serra do Sol está a nota CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO colocando os fatos como de fato são e desmentindo os MENTIROSOS da REDE BANDEIRANTES.

Fica a sensação que na avidez da mentira, da desinformação, prevalece o lema “um dia ainda viro GLOBO”, aí o faturamento aumenta.

Demonizar muçulmanos é uma palavra de ordem constante na mídia privada. Tem já uma rubrica nos pagamentos para isso, é permanente. Explodiu um buscapé? Coisa de muçulmano.

A imensa e esmagadora maioria do estado terrorista e usurpador (ocupa a força terras palestinas, foi inventado pelas grandes potências) de Israel apóia o genocídio contra palestinos, acredita piamente que são superiores e agora contam com apoio dos cristãos fundamentalistas, como na Noruega.

Tudo bom as bênçãos do líder nazista Bento XVI e a inspiração do beato João Paulo II.

No caso específico do Brasil, um desses vacilos do governo Lula e um acordo de livre comércio com Israel abriu as portas para que o Estado nazi/sionista comece a ocupar o País em setores estratégicos e logo-logo toma posse. Começou pelas Forças Armadas.

Israel é hoje quem detém o controle acionário de EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A. Deixou de ser o segundo majoritário acionista, passou a ser o primeiro. Impõe medo e terror em todo o mundo.

Por aqui também as polícias militares – organizações terroristas principalmente contra professores, trabalhadores de um modo geral – são financiadas e treinadas por agentes norte-americanos e israelenses.

O tráfico de drogas? Isso é bobagem, os grandes cartéis proporcionam grandes lucros aos bancos em todo o mundo, movimentam bilhões de dólares por ano e gerente estende tapete vermelho para qualquer Beira-mar da vida. Os grande bancos são de judeus/sionistas, logo de criminosos contra a humanidade.

O que se percebe é que determinadas matérias de interesse do latifúndio, dos donos, são veiculadas por redes como a BANDEIRANTES, por uma espécie de contenção de gastos. A turma lá é mais barata e um extra por conta de matérias criminalizando muçulmanos, ou mentindo com um general traidor sobre RAPOSA RESERVA DO SOL, acaba permitindo uma noite num inferninho de melhor qualidade.

Ao invés de pastel de vento, um de carne, outro de palmito e um dia chegam ao caviar.

A Noruega, como qualquer país da Europa Ocidental, da chamada Comunidade Européia vive um processo de nazificação e isso está óbvio nas declarações do governador geral da Micro-Bretanha (ex-Grã Bretanha), David Cameron, que decretou o fim do multiculturalismo.

Os jovens que estavam na ilha e foram assassinados covardemente por um cristão fundamentalista estavam, exatamente, defendendo o multiculturalismo.

A BANDEIRANTES sabia disso muito antes da edição do telejornal de sexta. O importante, no entanto, é a MENTIRA.

Ressuscitar o general Augusto Calabar Heleno deve ter valido uma boa grana do latifúndio. Via de regra vem em forma de anúncios para não dar muito na vista.

É possível até que tenha a ver com projeto do ministro da Defesa Nelson Jobim de entregar 30 quilômetros de fronteiras para operação conjunta de traficantes que governam a Colômbia com militares brasileiros. Breve, consultores norte-americanos.

Dizem, não sei, dizem, que o Brasil é governado por Dilma Rousseff e que a presidente é brava.

Tenho minhas dúvidas. O governo exibe um nível de entreguismo semelhante ao de FHC.

A propósito, contam que um norte-americano que estava no Brasil quando a princesa Izabel assinou a Lei Áurea pegou um pouco de terra de nosso (nosso?) País e disse que iria levar ao seu país (seu? Agora é de Israel) para mostrar que o que aqui se fez com paz, lá se fez com sangue (mentira histórica).

Não é bem assim. Vejamos o caso da Grécia. Lá impuseram um pacote goela abaixo dos gregos que resistem nas ruas. Aqui tentaram primeiro com um tresloucado, Collor de Mello e conseguiram com um canalha lato sensu, Fernando Henrique. É só pegar o governo do tucano e comparar com o pacote imposto à Grécia.

Disso a BANDEIRANTES não fala nada.

Está no bolso dos caras, como qualquer GLOBO da vida, só que com a vantagem de ser bem mais barata que a concorrente. 

Vem aí Haroldo Lima, dizem que comunista, mas da empresa PC do B, defender a presença de companhias estrangeiras no pré-sal. Os caras são uns artistas. E ainda controlam a UNE, antiga União Nacional de Estudantes, transformada num grande conglomerado de grandes “negócios”, tipo código florestal de Aldo Rebelo. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O CORONEL ASSASSINO - O JORNALISTA ASSASSINADO - A TORTURA

Laerte Braga

Laerte Braga


É difícil você ter respeito pelas forças armadas quando nos quartéis resistem e impedem a divulgação de documentos que mostram o que foi o golpe militar de 1964 e todo o aparato repressivo montado para sustentar a monstruosidade que se abateu sobre o Brasil.

De um modo geral os homens prisioneiros se despiam fácil, mas as mulheres se negavam e resistiam. Primeiro argumentavam. Com paciência e com ira perguntavam se o torturador faria isso com a mulher, a mãe, a irmã, ou a filha. Depois empurravam o sargento que lhes ia arrancando a blusa ou a saia. Outras vezes mentiam e se diziam menstruadas, sem saber que provocavam, assim, um sadismo abominável e abjeto: dois ou três se atiravam sobre a prisioneira e, subjugada, era apalpada e cheira nos órgãos genitais, enquanto lhe arrancavam a roupa. E logo bolinada por aquelas mãos habituadas ao sangue, que tocavam a pele e o sexo, não como carícia nem para amar, mas para destruir ou marcar a ferro como numa rês. E como ela já estava no chão deitada e inerme, abriam-lhe as pernas e – para começar e não como requinte final, como era norma – metiam-lhe o cabo elétrico diretamente na vagina. Nesses casos o major M.F. costumava gritar para o sargento: “calma, calma. Não coma a sobremesa antes do feijão. E aquele pequeno e poderoso estado-maior da tortura, ali reunido em torno da presa, ria e ria muito, numa gargalhada galhofeira, festando o triunfo (MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO, Flavio Tavares, Editora Globo, 1999).

O coronel Brilhante Ulstra, hoje colunista do jornal FOLHA DE SÃO PAULO (cedia os caminhões de entrega para a desova de corpos de presos assassinados no DOI/CODI paulista, na simulação de atropelamento), já condenado em primeira instância e declarado torturador pela Justiça, jorra patriotismo em defesa do que chama democracia e valores como liberdade, pátria, etc. É um dos exemplos a justificar a frase de Samuel Johnson – “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

No segundo processo – conseguiu paralisar o primeiro – movido pela família do jornalista Luís Eduardo Merlino, agora, dia 27 de julho, às 14h e 30m, no Fórum João Mendes, no centro da capital de São Paulo, vai ser confrontado pelas testemunhas arroladas pela família de Merlino.

Ulstra assassinou o jornalista na forma cruel e covarde que foi marca registrada dele e outros militares, do regime imposto pelo golpe de 1964. Como a outros presos que caiam em suas garras de fascista sem qualquer escrúpulo ou respeito pelo ser humano.

Merlino morreu nas dependências do DOI/CODI, o coronel era o comandante, em julho de 1971. 

Serão ouvidas testemunhas que presenciaram as torturas sob o comando de Brilhante Ulstra.  Entre as testemunhas de defesa arroladas pelo torturador está o ex-presidente da República José Sarney, atual presidente do Senado, um dos principais interlocutores de Dilma Rousseff. Sarney tem comprometimento direto com a tortura, valeu-se dela para afastar adversários no Maranhão, serviu de maneira rasteira à ditadura e hoje tenta a todo custo impedir que os documentos da época sejam tornados públicos. Teme que sua face monstro (além de corrupto) também apareça.

Outra delas é Jarbas Passarinho, coronel é ministro dos governos Costa e Silva e Médici que na reunião que deliberou sobre a assinatura do Ato Institucional nº 5, o símbolo da boçalidade do regime militar, afirmou alto e bom som diante de algumas dúvidas do presidente Costa e Silva – “as favas com os escrúpulos senhor presidente, vamos assumir que somos uma ditadura mesmo”.

A ação movida pela família de Merlino – sua irmã Regina Merlino Dias de Almeida e sua ex-companheira Ângela Mendes de Almeida, é subscrita pelos advogados Fábio Konder Comparato, Claudineu de Melo e Aníbal Castro de Sousa. É por danos morais, o suficiente para comprovar o caráter perverso, animalesco do coronel e “patriota” Brilhante Ulstra. O reconhecimento da morte por crime de tortura. Crime contra a humanidade, imprescritível.

No mesmo livro citado acima, do jornalista Flávio Tavares (ex-preso político e trocado no seqüestro do embaixador Charles Burke Elbrick) há uma revelação que mostra o caráter repugnante dos torturadores. Muitas vezes, afirma o jornalista, familiares, dentro da lógica da Escola das Américas – mantida pelos EUA para todos os fins golpistas e brutais que caracterizam aquele país – eram detidos para forçar a apresentação dos que resistiam à ditadura.

O jornalista refere-se a Iracema Ferreira Silva e sua cunhada Marlene. Foram presas por conta do irmão de Marlene e torturadas a exaustão.

“...Veio tenente Magalhães, jovem e ágil de pernas, e me enxotou dali a pontapés nos testículos. E, nuas, elas foram torturadas noite adentro penduradas no pau de arara, o choque elétrico deve ter percorrido nelas toda a intimidade do corpo e da alma, pois elas gritavam e gritavam fundo, em cadência. Era o cadenciado balé orquestrado pelo major  que, maquininha não mão, costumava dar três passos para um lado e acionar a manivela de 220 volts, e logo repetir a operação com três passos para o outro lado, numa dança interminável. Nenhum preso dormiu  aquela madrugada: os gritos das duas soavam ritmados, como chibatadas no ar, e só terminaram quando o dia raiava. Por cansaço dos carrascos”.   

Nas escolas e colégios militares, ainda hoje, ensinam MENTIRAS como “História” do golpe militar, segundo a visão de boçais como esses generais, majores, sargentos, coronéis, tenentes, etc.

Não se respeita uma força armada por gente assim e pela covardia de se esconder atrás de uma anistia que apenas beneficiou a eles. Torturadores, estupradores, assassinos frios e impiedosos comandados por potência estrangeira (EUA). Continuam a ser até prova em contrário.   

Merlino era jornalista, foi assassinado aos 23 anos de idade, militava no Partido Operário Comunista.
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No dia 30 de julho o COLETIVO MERLINO, no ciclo dos SÁBADOS RESISTENTES, realizados pelo MEMORIAL DA RESISTÊNCIA e pelo NÚCLEO DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA POLÍTICA, em São Paulo, organizará uma homenagem ao jovem jornalista vítima da bestialidade da ditadura militar e especificamente de um dos seus mais monstruosos torturadores, o coronel Brilhante Ulstra, escondido impune atrás da anistia.

Estarão presentes, além da companheira de Merlino, a historiadora Ângela Mendes de Almeida, João Machado, economista e militante da IV Internacional, filiado ao PSOL. Valério Arcary, historiador e militante do PSTU. Joel Rufino dos Santos, historiador e escritor e Tonico Ferreira Jornalista.

No evento será projetado um vídeo com as inspirações políticas de Merlino e uma fala do cientista político Michael Lowy sobre a convivência que tiveram. Convidados, familiares, militantes e amigos dirão breves palavras sobre Merlino.

Isso no Largo General Osório, 66, bairro da Luz. No auditório VITAE, no 5º andar.

Um resgate da vida e da luta pelo direito à memória e a verdade.

Conhecer o que de fato aconteceu no Brasil com o golpe militar de 1964, revelar toda a sanha assassina de torturadores como Brilhante Ulstra, até para que a história não se repita. Dele –Brilhante Ultra - o caráter do golpe e todos os torturadores acovardados e agachados diante da lei da anistia.

Não é possível fugir da História e nem se deve temer a luta.

É o resgate do ser humano em seu sentido pleno.

Brilhante Ulstra não está nesse plano. Luís Eduardo Merlino, ao contrário, é essência e presença na coragem e na busca de ideais de um mundo alternativo e diverso desse mundo gerado nas entranhas do terrorismo de estado e seus tentáculos mortais.