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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Pepe Escobar: Ano da Cabra, Século do Dragão?

Novas Rotas da Seda e a visão chinesa de um Bravo (Comercial) Novo Mundo

22/2/2015, [*] Pepe Escobar, TomDispatch blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Parte do saguão de uma estação ferroviária na China
PEQUIM – Se se assiste da capital chinesa o início do Novo Ano da Cabra, o mal-estar que afeta o ocidente parece miragem numa galáxia muito, muito distante. Por sua vez, a China que cerca você parece aqui tão sólida, em nada assemelhada à nação atormentada da qual fala a imprensa-empresa ocidental, com seus empresários milionários que caem em desgraça, sua verdadeira bolha imobiliária, os muitos desastres ambientais sempre pendentes. Exceto pelas profecias de que o fim do mundo está próximo, com os cães da austeridade [arrocho] e da guerra a latir enlouquecidamente à distância, a caravana chinesa passa, no que o presidente Xi Jinping chama seu modo “novo normal”.

Atividade econômica “mais lenta” significa, mesmo assim, impressionante crescimento anual de 7%, na que é hoje a primeira e maior economia do mundo. Internamente, uma restruturação econômica imensamente complexa está em curso, com o consumo superando o investimento como principal motor do desenvolvimento econômico. O setor de serviços, 46,7% do PIB chinês, já superou a manufatura, com 44%.

Geopoliticamente, Rússia, Índia e China acabam de emitir mensagem poderosa dirigida ao ocidente: estão ocupadíssimos cuidando da sintonia fina de uma complexa estratégia trilateral para instalar uma rede de corredores econômicos que os chineses chamam de “novas rotas da seda” pela Eurásia. Pequim está também organizando uma versão marítima da mesma rede, modelada sobre os feitos do almirante Zheng He, o qual, na dinastia Ming, velejou sete vezes pelos “mares ocidentais”, comandando frotas de mais de 200 navios.

Novas Rotas da Seda (terra e mar)
Entrementes, Moscou e Pequim trabalham planejando uma nova linha de trens de alta velocidade, versão remix da fabulosa ferrovia Trans-Siberiana. E Pequim está ocupada cuidando de traduzir sua crescente parceria estratégica com a Rússia em ajuda financeira e econômica que pode vir a ser crucialmente necessária, se uma Moscou acossada por sanções, enfrentando desastrosa guerra de preços do petróleo, pedir.

Para o sul da China, o Afeganistão, apesar de ainda prosseguir por ali a guerra norte-americana que se arrasta por 13 anos, está caminhando rapidamente para a órbita econômica da China, enquanto um planejado oleoduto China-Myanmar é visto como reconfiguração capaz de mudar o jogo do fluxo da energia eurasiana no que eu, há muito tempo, chamo de Oleogasodutostão  [orig. Pipelineistan].

Oleogasodutostão (sul da Ásia e Oriente Médio)
(clique na imagem para aumentar)
E isso é só parte da ação frenética que vai modelando o que líderes chineses definem como o Cinturão Econômico da Nova Rota da Seda [orig. New Silk Road Economic Belt] e Rota Marítima da Seda do século XXI. Estamos falando sobre uma visão de criar uma infraestrutura potencialmente de enlouquecer, grande parte da qual a partir de rascunhos, que conectará a China à Ásia Central, Oriente Médio e Europa Ocidental. Esse desenvolvimento incluirá projetos que vão desde atualizar a antiga Rota da Seda pela Ásia Central até desenvolver um corredor econômico Bangladesh-China-Índia-Myanmar; um corredor a China-Paquistão através da Caxemira; e uma nova Rota Marítima da Seda que se estenderá do sul da China até Veneza, uma espécie de Marco Polo na direção inversa.

Que ninguém pense nisso como um equivalente chinês do Plano Mashall dos EUA no pós-guerra para a Europa, mas como projeto muito mais ambicioso e com alcance potencialmente mais vasto.

A China como uma megacidade

Se você acompanha de Pequim esse frenesi de planejamento econômico, você acaba tendo um ponto de vista não disponível na Europa ou nos EUA. Aqui, tudo promove, em cartazes e luzes vermelho-e-ouro, a nova frase, incansavelmente repetida, do presidente Xi Jinping, para o país e para o século, “o Sonho Chinês” (que trás à mente o “Sonho Americano” de outros tempos). Não há parede de metrô onde não se vejam os cartazes e letreiros luminosos. Ajudam a não esquecer por que 40 mil milhas de ferrovias novinhas em folha são consideradas tão essenciais para o futuro do país. Afinal, não menos de 300 milhões de chineses, nas últimas três décadas, completaram uma migração sem precedentes no planeta, do interior para as áreas urbanas, em busca daquele sonho.

Mapa ferroviário da China
(clique na imagem para aumentar)
Outros 350 milhões são esperados pela mesma trilha, segundo estudo do McKinsey Global Institute. De 1980 a 2010, a população urbana da China aumentou em 400 milhões, deixando o país com pelo menos 700 milhões de moradores urbanos. Esse número deve crescer e atingir 1 bilhão à altura de 2030, o que significa terrível estresse sobre as cidades, a infraestrutura, os recursos e a economia como um todo, e empurrará os níveis de poluição do ar a níveis pré-apocalípticos em algumas das maiores cidades.

Já são 160 cidades chinesas com população superior a um milhão. (Na Europa, são só 35.) Não menos de 250 cidades chinesas triplicaram o PIB per capita desde 1990, enquanto a renda disponível per capita aumentou 300%.

Atualmente, já não se deve pensar na China em termos de cidades individuais, mas como aglomerados urbanos [orig. urban clusters] – grupamentos de cidades com mais de 60 milhões de pessoas. A área de Pequim-Tianjin, por exemplo, é hoje um aglomerado de 28 cidades. Shenzhen, o ápice da megacidade de migrantes, na província sulista de Guangdong, é agora também um conglomerado-chave, em conglomerado maior. Há na China, de fato, mais de 20 desses conglomerados, cada um deles do tamanho de um país europeu. Em pouco tempo, os principais conglomerados gerarão 80% do PIB chinês e ali viverá 60% da população chinesa. O frenesi de construir ferrovias de alta velocidade e os alucinantes projetos de infraestrutura em construção – parte de um investimento de US$ 1,1 trilhão em 300 obras públicas – tudo isso tem a ver com gerenciar esses conglomerados.

Não surpreendentemente, esse processo está intimamente conectado ao que no ocidente é visto como notória “bolha imobiliária”, e que não poderia nem ter existido em 1998. Até ali, todas as moradias era propriedade do estado. Depois de liberalizado, aquele mercado de moradias pôs uma nascente classe média chinesa em paroxismos de investimento. Mas, com raras exceções, os chineses de classe média ainda podem pagar suas hipotecas, porque ambas, a renda rural e a renda urbana, também aumentaram.

A construção de moradias explode na China
O Partido Comunista Chinês (PCC) está, sim, prestando extrema atenção a esse processo, permitindo que fazendeiros hipotequem ou façam leasing sobre as próprias terras, dentre outras coisas, e assim financiem a própria mudança para as cidades e a casa nova. Uma vez que estamos falando de centenas de milhões de pessoas, sempre é possível que haja distorções no mercado imobiliário, até mesma a criação de desastrosas cidades fantasmas, com prédios vazios, ditos mal-assombrados.

O frenesi chinês de infraestrutura está sendo financiado por um pool de investimentos de fontes dos governos central e local, empresas estatais e setor privado. O negócio da construção, dos maiores empregadores na China, envolve mais de 100 milhões de pessoas, direta ou indiretamente. A propriedade imobiliária responde por 22% do total investimento nacional em ativos fixos e tudo isso está ligado à venda de produtos de consumo, mobiliário, e um aumento anual de 25% na produção chinesa de aço, 70% na de cimento, 70% na de vidros planos e 25% na produção de plásticos.

Portanto não surpreende que em minha recente estadia em Pequim, comerciantes insistissem que a ameaça iminente de a “bolha imobiliária” rebentar é, na verdade, mais um mito num país onde, para o cidadão médio, o melhor investimento possível é a propriedade. Além disso, o intenso impulso para a urbanização garante, como o premiê Li Keqiang destacou no recente Fórum Econômico Mundial em Davos, uma “demanda de longo prazo por moradias”.

Mercados, mercados, mercados

A China está também modificando sua base manufatureira, que aumentou para valor 18 vezes superior nas últimas três décadas. O país ainda produz 80% dos aparelhos de ar condicionado do mundo; 90% de seus computadores pessoais, 75% dos painéis solares, 70% dos telefones celulares e 63% dos sapatos. A manufatura responde por 44% do PIB chinês, empregando diretamente mais de 130 milhões de pessoas. Além disso, o país já responde por 12,8% da pesquisa e desenvolvimento global, muito à frente da Inglaterra e de quase toda a Europa Ocidental.

A China investe na infraestrutura do sul da Ásia
(clique na imagem para aumentar)
Mas a ênfase agora está mudando para um mercado doméstico em rápido crescimento, o que significa investimento ainda maior em infraestrutura, a necessidade de um influxo de mais talentos de engenharia e base de suprimento em rápido desenvolvimento. Globalmente, com a China começando a enfrentar novos desafios – aumento dos custos do trabalho, cadeia de suprimento global cada vez mais complexa, e volatilidade do mercado – ela está ao mesmo tempo empenhada num impulso agressivo para passar, da montagem de baixa tecnologia, para a manufatura de alta tecnologia. Já agora a maioria das exportações chinesas são smartphones, sistemas de motores e carros (com aviões já na fila de espera). No processo, está em andamento uma mudança geográfica na manufatura, do litoral sul para a China Central e Ocidental. A cidade de Chengdu na província de Sichuan, no sudoeste, por exemplo, já se vai convertendo em conglomerado urbano high-tech, crescendo em torno de empresas como Intel e HP.

A China empenha-se, portanto, aplicadamente em ampliar a manufatura em termos internos e globais ao mesmo tempo. No passado, empresas chinesas lideraram no fornecimento de itens básicos da vida a preços baixos e níveis aceitáveis de qualidade. Agora, muitas empresas estão rapidamente atualizando as respectivas tecnologias e mudando-se para cidades de primeiro e segundo planos, enquanto empresas estrangeiras, tentando baixar os custos, estão-se mudando para cidades de segundo e terceiro planos. Os altos executivos chineses, em termos globais, querem que suas empresas tornem-se verdadeiramente multinacionais na próxima década. O país já tem 73 empresas na lista Fortune Global 500, deixando num segundo lugar bem distante os EUA.

Em termos das vantagens chinesas, tenham em mente que o futuro da economia global está claramente na Ásia, com seu crescimento recorde nos números da classe média. Em 2009, apenas 18% da classe média mundial vivia na região do Pacífico Asiático; hoje, o Centro de Desenvolvimento da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento [orig. Development Center of the Organization for Economic Cooperation and Development, OECD] prevê que, em 2030, essa proporção crescerá para espantosos 66%. Em 2009, viviam na América do Norte e Europa 54% da classe média global; em 2030 serão apenas 21%.

China e a distribuição de renda (2012-20120)
Siga o dinheiro e, também, o valor que você ganha por aquele dinheiro. Por exemplo, nada menos que 200 mil trabalhadores chineses estão envolvidos na produção do primeiro iPhone, supervisionados por 8.700 engenheiros industriais chineses. Foram recrutados em apenas duas semanas. Nos EUA, o mesmo processo poderia demorar mais de nove meses. O ecossistema manufatureiro chinês é realmente rápido, flexível e esperto – e se apoia sobre um sistema educacional cada dia mais impressionante. Desde 1998, a porcentagem do PIB aplicada na educação quase triplicou; o número de universidades dobrou; e apenas numa década, a China construiu o maior sistema de educação universitária do mundo.

Forças e fraquezas

A China tem mais de US$ 15 trilhões em depósitos bancários, volume que cresce ao ritmo de US$ 2 trilhões por ano. As reservas em moeda estrangeira aproximam-se de US$ 4 trilhões. Ainda não há estudo definitivo de como essa torrente de fundos circula dentro da China entre projetos, companhias, instituições financeiras e o estado. Ninguém sabe realmente, por exemplo, quantos empréstimos o Banco Agrícola da China realmente faz. Alta finança, capitalismo de estado e governo de partido único tudo se mistura e se mescla no reino dos serviços financeiros chineses, onde realpolitik encontra real dinheiro grosso.

Os quatro grandes bancos estatais – o Banco da China, o Banco Industrial e Comercial da China, o Banco Chinês da Construção e o Banco Agrícola da China – todos eles evoluíram de organizações governamentais, para entidades mistas, sob controle meio-estatal meio-privado. Beneficiam-se consideravelmente dos dois lados: do dinheiro e das conexões com o governo, ou guanxi, que opera tendo em mente um misto de objetivos comerciais e governamentais. Essas são as alavancas que não se deve perder de vista para tudo que tenha a ver com o formidável processo de remodelar o modelo econômico chinês.

Quanto à proporção dívida chinesa/PIB, ainda não é grande coisa. Numa lista de 17 países, essa proporção aparece abaixo da do Japão e da dos EUA, segundo o Standard Chartered Bank, e diferente do ocidente, o crédito ao consumidor é apenas uma pequena fração da dívida total. É verdade, o Ocidente manifesta especial fascinação pela indústria chinesa deshadow banking: produtos para gerenciamento de riqueza, finança subterrânea, empréstimos “por fora” do balanço. Mas essas operações mal chegam a 28% do PIB. Segundo o Fundo Monetário Internacional, nos EUA essa porcentagem é muito mais alta.

China e a região dos Uigures
É possível que os problemas da China surjam de áreas não econômicas, onde a liderança em Pequim tem-se mostrado bem mais propensa a movimentos errados. Está, por exemplo, em movimento de ofensiva em três frentes, cada uma das quais pode reservar seu específico tipo de revide: está apertando o controle ideológico sobre o país, sob a rubrica de trabalhar para alijar “valores ocidentais”; está apertando o controle sobre a informação online e mídias e redes sociais, inclusive reforçando a “Grande Muralha de Fogo [firewall] da China, para policiar a Internet; e está apertando ainda mais o controle sobre minorias étnicas agitadas, especialmente sobre os uigures na província chave, ocidental, de Xinjiang.

Em dois desses fronts – na controvérsia sobre “valores ocidentais” e no controle sobre a Internet –, a liderança em Pequim pode obter benefícios muito mais significativos, especialmente entre os cidadãos mais jovens e bem educados, globalmente conectados, se promover o debate, mas não é assim que opera a maquinaria hipercentralizada do Partido Comunista Chinês.

No que tenha a ver com aquelas minorias em Xinjiang, o problema essencial pode nada ter a ver com os novos princípios orientadores da política étnica do presidente Xi. Segundo a analista Gabriele Battaglia, que vive em Pequim, Xi planeja gerir o conflito étnico aplicando “os três Js”: jiaowang, jiaoliu, jiaorong (“contato interétnico”, “troca” e “mestiçagem”). Mas isso, que pode significar disposição de Pequim para assimilar os hans/uigures, vale bem pouco na prática quando a política do dia-a-dia em Xinjiang é conduzida por quadros hans mal preparados, que tendem a ver os uigures como “terroristas”.

Se Pequim erra a mão na operação de seu Extremo Oriente, Xinjiang não chegará a ser, como se espera, um entroncamento pacífico, estável de uma parte crucial da estratégia da rota da seda. Mas já é considerada elo comunicacional essencial na visão de Xi da integração eurasiana, além de conduíte crucial para o massivo fluxo de suprimento de energia que vem da Ásia Central e da Rússia. O gasoduto Ásia Central-China, por exemplo, que traz gás natural da fronteira turcomena-uzbeque através do Uzbequistão e sul do Cazaquistão, já está acrescentando uma quarta linha para Xinjiang. E um dos dois novos gasodutos que acabam de ser acertados entre Rússia-China também chegará até Xinjiang.

O livro de Xi

A extensão e a complexidade da miríade de transformações pelas quais passa a China praticamente não chegam até a imprensa-empresa norte-americana. As matérias, nos EUA tendem a enfatizar o “encolhimento” da economia chinesa e o nervosismo, por lá, quanto ao futuro papel global do país, o modo como a China “burlou” os EUA sobre seus objetivos, e a “ameaça” que a China seria para Washington e o mundo.

Xi Jinping
A imprensa nos EUA está acometida de uma febre que resulta em matérias sempre febris sobre a China, que nada informam sobre o país ou o líder chinês. Nesse frenesi, muito se perde. Boa prescrição para eles seria ler The Governance of China, compilação dos principais discursos, palestras, entrevistas e da correspondência do presidente Xi. Já ébestseller de três milhões de cópias vendidas da edição em mandarim e oferece visão extraordinariamente digerível de o que o “Sonho Chinês”, proclamado em tom tão alto por Xi, significará no novo século chinês.

Xi Dada (“Xi Big Bang”, como é apelidado aqui) não é divindade pós-Mao. Está mais para fenômeno pop, o que não é de surpreender. Nesse remix de “enriquecer é glorioso”, não se poderia pensar em lançar a tarefa sobre-humana de remodelar o modelo chinês, se se tem no comando um burocrata-cara-de-pepino. Xi tocou num nervo vivo da coletividade, quando insistiu em que o governo do país seja baseado em competência, não em negociações e arranjos corruptos com o Partido; e espertamente embalou a transformação que tem em mente num “sonho” estilo EUA.

Por trás do pop star claramente há um homem de substância, do qual a imprensa-empresa ocidental já deveria estar procurando dar conta. Ninguém, afinal de contas, administra por acaso uma história de tamanho sucesso. Pode ser particularmente importante ver com quem se está lidando, porque Xi já tomou providências para ver com quem teria de lidar em Washington e no ocidente; viu e decidiu que o destino e a fortuna da China não estão por ali.

Resultado, em novembro passado Xi promoveu uma virada geopolítica de chacoalhar placas tectônicas. Daqui em diante, Pequim pararia de tratar os EUA ou a União Europeia como principal prioridade estratégica; em vez disso, voltaria a focar-se nos vizinhos asiáticos da China e demais países BRICS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, com foco especial na Rússia). Os BRICS são conhecidos na China como “as grandes potências em desenvolvimento” (kuoda fazhanzhong de guojia). E, para que conste nos anais, a China já não mais se considera “país em desenvolvimento”. 


Não surpreende que tenha havido recentemente tal blitz de meganegócios e mega-acordos chineses por todo o Oleogasodutostão. Sob a presidência de Xi, Pequim está rapidamente concentrando seu poder de fogo intelectual e econômico contra Washington, embora sua ofensiva de investimento global tenha apenas começado, as Novas Rotas da Seda inclusive.

George Yeo, ex-ministro de Relações Exteriores de Cingapura vê a nova ordem mundial que está emergindo como um sistema solar com dois sóis: EUA e China. A nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Obama afirma que:

(...) os EUA foram e permanecerão como potência do Pacífico; e afirma que:embora haja competição, rejeitamos a inevitabilidade do confronto com Pequim.

As “grandes potências em desenvolvimento”, intrigadas como estão pelo extraordinário salto infraestrutural da China, tanto internamente como para fora, pelas Novas Rotas da Seda, perguntam-se se esse sistema solar com dois sóis não acabará por levar a nada. A questão portanto é: Que “sol” brilhará sobre o Planeta Terra? Será esse, talvez, afinal, o século do dragão?
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto. 
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 

Império do Caos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pepe Escobar − Rússia e Turquia: pivô dentro da Eurásia

4/12/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online [recebido p/e-mail, ainda não publicado, mas pode ser lido no The Vineyard of the Saker francês]
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu


O mais recente espetacular gambito no Oleogasodutostão – “Sai o Ramo Sul, entra o Ramo Turco” – continuará ainda por algum tempo a disparar massivas ondas geopolíticas de choque por toda a Eurásia. Disso, precisamente, trata o Novo Grande Jogo na Eurásia.


Em resumo: há alguns anos a Rússia concebeu um gasoduto Ramo Norte [orig. North Stream] – completamente operacional – e um gasoduto Ramo Sul – ainda em projeto – para contornar a Ucrânia considerada pouco confiável como país-de-trânsito para o gás. Agora, a Rússia concebe um novo bom negócio com a Turquia, para contornar a abordagem “não construtiva” (palavras de Putin) da Comissão Europeia (CE).

Para entender o jogo em curso, o contexto é indispensável. Acompanho em detalhe, já há cinco anos, a opera-das-óperas do Oleogasodutostão – a Guerra entre os gasodutos rivais Ramo Sul e Nabucco. Nabucco foi atropelado e abandonado no acostamento. O Ramo Sul pode até ressuscitar, mas só se a CE recuperar a razão (e não aposte nisso).

O gasoduto Ramo Sul com 3.600 km deveria estar construído em 2016, abraçando da Áustria aos Bálcãs/Itália. A Gazprom é proprietária de 50% (além da ENI italiana, 20%; da EDF francesa, 15%; e da Wintershall alemã, subsidiária da BASF, dona de 15%. No pé em que estão as coisas, nenhuma dessas gigantes europeias da energia está exatamente nadando em dinheiro – para dizer o mínimo. Durante meses, a Gazprom e a Comissão Europeia procuraram alguma solução. No fim, Bruxelas sucumbiu, previsivelmente, à própria mediocridade – e à incansável pressão dos EUA sobre o elo mais fraco: a Bulgária.

Gasodutos e Oleodutos em serviço e previstos para a Região
A Rússia continuará a construir um gasoduto sob o Mar Negro – mas agora redirecionado para a Turquia e, crucialmente importante, bombeando para lá a mesma quantidade de gás que o Ramo Sul bombearia. Para nem dizer que a Rússia terá uma nova central para distribuição de Gás Natural Liquefeito (GNL) no Mediterrâneo. A Gazprom portanto não gastou em vão os seus US$5 bilhões (financiamentos, custos de engenharia). O redirecionamento faz perfeito sentido comercial. A Turquia é a segunda maior cliente da Gazprom, depois da Alemanha, muito maior que Bulgária, Hungria e Áustria somadas.

A Rússia avança também numa rede unificada de distribuição de gás capaz de entregar gás natural extraído de qualquer ponto da Rússia, a qualquer central de distribuição em qualquer ponto das fronteiras russas.

E, como se fosse necessário, a Rússia exibe mais uma prova cabal, definitiva, de que o seu mercado consumidor em real crescimento para o futuro é a Ásia, sobretudo a China – não uma União Europeia acovardada, estagnada, devastada por políticas de “austeridade” e politicamente paralisada. A parceria China−Rússia que não para de crescer implica a Rússia como complementar da China, campeã dos grandes projetos de infraestrutura, da construção de barragens à implantação de oleodutos e gasodutos. É business trans-Eurásia, de vasto alcance geopolítico – não submetido a políticos afogados de ideologia.

“Derrota” dos russos? É mesmo? Onde?!

A Turquia também marcou um ponto. E não é só o negócio com a estatal russa Gazprom; Moscou construirá nada menos que toda a indústria nuclear da Turquia, além de aumentar a interação dos poderes soft (mais comércio e mais turismo). Além disso tudo, a Turquia está agora a poucos passos de converter-se em membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); Moscou faz ativo lobby para ajudar os turcos. Implica a Turquia ascendendo a uma posição privilegiada, como principal eixo de distribuição simultaneamente no Cinturão Econômico Eurasiano e, claro, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda(s) chinesa(s). A União Europeia bloqueia a Turquia? A Turquia vira-se para o leste. É a integração eurasiana em andamento.

Putin e Erdogan promovem a UNIÃO EURASIANA
Washington tenta furiosamente criar um novo Muro de Berlin, dos Bálticos ao Mar Negro, para “isolar” a Rússia. Pois nem assim a equipe que trabalha pela doutrina do “Não façam merda coisa estúpida” em Washington conseguiu antecipar mais um contra-ataque de Putin, jogada de judô/xadrez/go. E aplicada precisamente através do Mar Negro.

ATol noticia há anos o quanto é imperativo estratégico chave indispensável para a Turquia configurar-se como entroncamento de condução de energia do Oriente para o Ocidente – fazendo transitar qualquer coisa, do petróleo iraquiano ao gás do Mar Cáspio. O petróleo do Azerbaijão já atravessa a Turquia via o oleoduto BTC (Baku-Tblisi-Ceyhan), alavancado por Bill Clinton/Zbig Brzezinski. A Turquia também estaria no entroncamento se algum óleo/gasoduto Trans-Caspiano vier a ser construído (as chances são poucas, considerada a atual situação), para bombear gás natural do Turcomenistão para o Azerbaijão, dali transportado para a Turquia e afinal, para a Europa.

Assim sendo, o contragolpe de judô/xadrez/GO que Putin aplicou num único movimento implica forçar as estúpidas sanções que a UE aplicou à Rússia a ferirem, mais uma vez, a UE. A economia alemã já está padecendo amargamente a perda de negócios com a Rússia.

A brilhante “estratégia” da CE (EU) baila em torno do chamado Terceiro Pacote de Energia da União Europeia, que exige que os dutos e o gás natural que flui por eles pertençam a empresas diferentes. O alvo desse pacote sempre foi a empresa Gazprom – proprietária de gasodutos em muitos países da Europa Central e da Europa Oriental. E o alvo dos alvos sempre foi o gasoduto Ramo Sul.

Modelo da Central Nuclear da Turquia que deverá ser construída pela empresa russa ROSATOM na província de Mersin com entrada em serviço prevista para 2016
Agora, cabe a Bulgária e Hungria – países que, vale anotar, sempre se opuseram à “estratégia” da CE – explicar o fiasco às suas respectivas populações, e continuar a pressionar Bruxelas; afinal de contas, todos por ali estão condenados a perder fortunas, para nem falar que logo estarão sem gás, com o Ramo Sul fora de jogo.

O resumo da história é, pois, o seguinte: a Rússia vende ainda mais gás – à Turquia; a Turquia obtém seu muito necessário gás, com belo desconto; e a União Europeia, pressionado pelo Império do Caos, fica reduzido a dançar, dançar, dançar, feito galinhas degoladas, pelos escuros corredores de Bruxelas, sem entender o que desabou sobre elas. E enquanto os atlanticistas voltam ao modo-padrão, o único que conhecem – de cozinhar mais e mais sanções – a Rússia só faz comprar mais e mais ouro.

Cuidado com aquelas espadas

Não é o fim do jogo – longe disse. No futuro próximo, muitas variáveis entrecruzam-se.

O jogo de Ancara pode mudar – mas nada assegura que mude. O presidente Erdogan – o sultão de Constantinopla – com certeza identificou um califa desafiante, afamado no ISIS/ISIL/Daesh, que tenta roubar seu poder de feitiço. Assim sendo, o sultão pode flertar com a ideia de suavizar seus sonhos neo-otomanos, e conduzir a Turquia de volta à sua doutrina anterior de “zero problemas com os vizinhos”.

Sim, mas, devagar. O jogo de Erdogan, até aqui foi o mesmo que da Casa de Saud e da Casa de Thani: livrar-se de Assad, para possibilitar um oleoduto desde a Arábia Saudita, e um gasoduto desde os megacampos de Pars Sul/Dome Norte, no Qatar. Esse oleogasoduto seria Qatar-Iraque-Síria-Turquia, rivalizando com o já proposto Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões. Consumidores finais: União Europeia, claro, desesperada em sua ofensiva de “fuja da Gazprom”.

-- Caro vizinho, como vão seus extremistas?
Assim sendo... o que acontecerá? Será que Erdogan abandonará sua obsessão de “Assad tem de sair”? Ainda é cedo para saber. O ministro turco de Relações Exteriores anda espalhando que Washington e Ancara estão próximas de definir uma zona aérea de exclusão ao longo da fronteira turco-síria – embora a Casa Branca, no início da semana, tenha insistido em que a ideia fora abandonada.

A Casa de Saud está como camelo perdido no Ártico. O jogo letal da Casa de Saud sempre se resumiu na mudança de regime para que pudesse ser construído o oleoduto patrocinado pelos sauditas da Síria até a Turquia. Agora os sauditas veem a Rússia a um passo de fornecer toda a energia de que a Turquia precisa – além de já estar posicionada para vender mais gás à União Europeia, em futuro próximo. E a coisa de “Assad tem de sair” não sai.

Mas são os neoconservadores nos EUA quem afiam, com fúria, as respectivas espadas envenenadas. Já nos primeiros dias de 2015 estará em votação na Câmara de Representantes uma “Lei de Liberdade para a Ucrânia” [orig. Ukrainian Freedom Act]. Tradução: a Ucrânia convertida em “principal aliado não-OTAN dos EUA”, o que, na prática, significa virtual anexação da Ucrânia pela OTAN. Passo seguinte: mais provocações turbinadas, pelos neoconservadores, contra a Rússia.

Um cenário possível é estados fantoches/vassalos como Romênia ou Bulgária – pressionados por Washington – decidir permitir pleno acesso aos navios de guerra da OTAN dentro do Mar Negro. Quem liga se o movimento viola os tratados atualmente vigente para o Mar Negro, que afetam ambas, Rússia e Turquia?  

E há ainda um perigoso “não sabido sabido” rumsfeldiano: como se sentirão os frágeis Bálcãs, subordinados aos desejos de Ancara. Assim como Bruxelas mantém Grécia, Bulgária e Sérvia num colete apertado, em termos de energia eles começarão a depender da boa vontade da Turquia.

Por hora, apreciemos a magnitude das ondas geopolíticas de choque, depois da jogada combode judô/xadrez/go. E nos preparemos para mais um capítulo do “pivô cruzando a Eurásia”, da Rússia. Semana que vem Putin visitará Delhi. Preparem-se para mais notícias-bomba geopolíticas.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.