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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

1967: a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”, como ferramenta para atacar quem desmentisse narrativas “oficiais”

23/2/2015, George WashingtonZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Antes, os Teóricos da Conspiração eram gente como a gente

A democracia e o capitalismo de livre mercado nasceram sobre a base de teorias de conspiração.

Magna Carta, a Constituição e a Declaração de Independência e outros documentos ocidentais fundacionais nasceram de teorias conspiracionais. A democracia grega e o capitalismo de livre mercado, idem.

Mas, isso, só naqueles velhos maus tempos. Depois, tudo mudou.

Em 1967, a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”

Nos anos 1960, tudo mudou.

Exatamente em abril de 1967, a CIA redigiu um despacho, no qual cunhou a expressão “teorias da conspiração” (...) e recomendou práticas para desacreditar tais teorias. O despacho/memorando levava um carimbo, “psico”, fórmula abreviada para “operações psicológicas” ou “ação de desinformação”; e outro carimbo, “CS”, sigla da unidade de “Clandestine Services” da CIA.

O despacho da CIA foi redigido em resposta ao requerimento de informações feito a uma corte judicial, nos termos do Freedom of Information Act [“Lei da Liberdade de Informar”], pelo jornal New York Times, em 1976.
  

A CIA, naquele documento diz que:

2. Essa tendência é motivo de preocupação para o governo dos EUA, inclusive para nossa organização.

***
O objetivo desse despacho é oferecer material que contradiga e desacredite os argumentos dos Teóricos da Conspiração, e também inibir a circulação dessas opiniões em outros países. Aqui se oferece informação de fundo, apresentada em seção sigilosa, e vários anexos não sigilosos.

3. Ação. Não recomendamos que a questão [conspirações] seja iniciada onde já não esteja implantada. Onde a discussão já esteja ativada são indispensáveis algumas medidas:
a. Discutir publicamente o problema com contatos amigáveis na elite (especialmente políticos e editores de imprensa), mostrando que [a investigação oficial do evento em discussão] foi investigação tão exaustiva quanto humanamente possível; que as acusações dos críticos não têm qualquer fundamento; e que mais discussões sobre o tema só favorecem a oposição. Deve-se também destacar as partes das conversas sobre alguma conspiração que mais pareçam deliberadamente geradas por propagandistas.

Conclamar aquelas elites para que usem a influência que têm e desencorajem qualquer especulação sem fundamento e irresponsável.

b. Usar todos os recursos de propaganda acessíveis para refutar os ataques vindos dos críticos.Colunas assinadas por especialistas amigáveis e resenhas de livros são especialmente adequadas para esse objetivo. Os anexos desse documento de orientação contêm material útil para ser passado aos agentes.

Nosso discurso deve destacar, sempre que couber, que os críticos (I) já diziam a mesma coisa antes de haver qualquer indício ou prova; que (II) têm interesses políticos; que (III) têm interesses financeiros; que (IV) dizem qualquer coisa, sem qualquer pesquisa ou investigação que o comprove; ou que (V) só dão atenção a teorias que eles mesmos inventem.

***
4. Em contatos privados com a mídia, não dirigidos diretamente a qualquer jornalista, colunista ou editor ou escritor em particular, ou para atacar publicações que ainda não estejam nas ruas, os seguintes argumentos podem ser úteis:

a. Não surgiu nenhuma nova prova, que a Comissão de investigação não tenha considerado.

***
b. Regra geral, os críticos sobrevalorizam itens específicos e ignoram outros. Tendem a dar mais ênfase às lembranças de testemunhas individuais (sempre menos confiáveis e mais divergentes – e, portanto, mais vulneráveis a críticas) (…)

***
c. Seria impossível ocultar as grandes conspirações seguidamente sugeridas nos EUA, especialmente porque os informantes poderiam ganhar muito dinheiro se denunciassem as conspirações, etc..

***
d. Os críticos sempre são tomados por alguma espécie de vaidade intelectual:falam de uma teoria e apaixonam-se por ela para sempre; e criticam os investigadores porque nem sempre respondem com prova cabal e decisão absoluta numa direção ou noutra.

***
f. Quanto a acusações de que os relatórios da comissão de investigação seria serviço apressado, sem cuidado: só foi distribuído três meses depois do prazo marcado inicialmente. Mas a Comissão muito se esforçou para apressar a divulgação do relatório; o atraso explica-se pela pressão de especulação irresponsável que já surgia antes até do relatório ser conhecido, em alguns casos vinda dos mesmos críticos que, se recusando a admitir os próprios erros, aparecem agora com novas críticas.

g. Acusações vagas como “mais de dez pessoas morreram misteriosamente” sempre podem ser explicadas por via natural(…).

5. Sempre que possível, reagir contra a especulação forçando a referência ao próprio relatório da Comissão. Leitores estrangeiros de mentalidade aberta sempre podem ser impressionados pelo cuidado, atenção, objetividade e velocidade do trabalho da Comissão de Investigação. Especialistas em resenhar livros para a imprensa, devem ser encorajados a acrescentar, ao que digam sobre [seja o que for], a ideia de que, recorrendo sucessivas vezes ao texto do relatório da comissão de investigação, perceberam que o relatório foi trabalho muito mais bem feito que o trabalho dos que o criticam.

Abaixo se vêem fotos de partes do memorando da CIA.

(clique na imagem para aumentar)

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Resumo das táticas que o despacho/memorando da CIA recomendava, contra os “Teóricos da Conspiração”:

●– Diga sempre que seria impossível que tanta gente mantivesse segredo sobre alguma grande conspiração

●– Consiga que pessoal amigável ataque as ideias de conspiração, e insistam na ideia de repetir sempre o relatório da comissão de investigação

●– Diga sempre que testemunho ocular não é confiável

●– Diga sempre que são notícias velhas [porque] “não surgiu nenhuma nova prova”.

●– Ignore completamente o que se diga sobre conspirações, exceto se a discussão já estiver ativa demais

●– Diga sempre que especular é comportamento irresponsável

●– Acuse os teóricos da conspiração de serem vaidosos de suas próprias ideias e de não serem capazes de superá-las

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem motivação política

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem interesses financeiros na promoção de teorias de conspirações.

Em outras palavras, a unidade de serviços clandestinos da CIA criou argumentos para atacar o que chamou de  “Teorias de conspirações” e “declará-las” não confiáveis, nos anos 1960s, como parte de suas operações de guerra psicológica.

Mas teorias da conspiração são de fato... total piração?

[...] Evidentemente não. Por exemplo, o esquema Ponzi de Bernie Madoff foi um crime de conspiração, movido por uma teoria daquela específica conspiração.

Esquema Ponzi de Bernard Madoff

Conspirar é crime muito claramente tipificado na lei norte-americana, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de Direito como item do currículo básico. Dizer a um juiz que alguém está envolvido numa “Teoria de Conspiração” é como dizer em juízo que o sujeito matou, roubou, invadiu propriedade alheia, roubou um carro. É conceito legal claro e conhecido.

Madoff não é o único. Diretores da Enron foram também condenados por crime de conspiração, e também do diretor de Adelphia [há muitos e muitos casos de funcionários do estado também condenados pelo mesmo crime (thisthisthisthis e this)].

Justin Fox, colunista de finanças da Time Magazine escreve:

Algumas conspirações no mercado financeiro são reais (...) Muitos bons repórteres investigativos são teóricos de conspirações, por falar nisso.

E também são criminosos, pela prática do crime de conspiração – desde que os crimes sejam denunciados e provados e os réus sejam condenados – a Agência de Segurança Nacional e as empresas de tecnologias que ajudem na prática do crime (se algum dia forem condenadas).

Mas “nossos líderes NUNCA fariam tal coisa...”

Embora já haja quem admita que empresários e funcionários de baixo escalão possam envolver-se em conspirações – ainda há muita gente que resiste à ideia de que os mais ricos e os muito poderosos também podem ter praticado o crime de conspirar.

Cass Sunstein
Verdade é que até os mais poderosos conspiram; alguns até confessaram. Por exemplo, o administrador do Gabinete de Informações e Assuntos de Regulação do governo Obama, Cass Sunstein, escreveu:

Claro que algumas teorias conspiracionais, conforme nossa definição, comprovaram-se verdadeiras. O quarto do hotel Watergate usado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata foi realmente invadido e teve instalados equipamentos para escuta clandestina, por funcionários do Partido Republicano a mando da Casa Branca. Nos anos 1950s, a CIA realmente administrou LSD e outros alucinógenos a participantes do Projeto MKULTRA, para investigar possibilidades de “controle da mente”. A Operação Northwoods, muito discutido plano do Departamento de Defesa para simular atos de terrorismo e culpar a Cuba, foi realmente proposto, como conspiração, por funcionários de alto escalão do governo.

Mas “alguém teria dado co’a língua nos dentes”...

Argumento sempre repetido por quem queira desviar a atenção de uma investigação, “diagnosticando” alguma “conspiração” no ar é que “alguém teria dado com a língua nos dentes”, caso houvesse ali realmente alguma conspiração.

Quem explica é o conhecido demolidor de mentiras e whistleblower Daniel Ellsberg:

Ouve-se muito que “não se consegue guardar segredos em Washington” ou que “numa democracia, não importa o quanto o segredo seja sensível, é provável que, dia seguinte, seja publicado no New York Times”. Não há tolice maior, nem truísmo mais falso. Há, sim, histórias ocultadas, meios para enganar e desviar a atenção de jornalistas e leitores, que são parte do processo para encobrir o que é realmente secreto. Claro que eventualmente muitos segredos acabam por ser revelados, que talvez não fossem jamais revelados numa sociedade absolutamente totalitária. Mas a verdade é que a vastíssima maioria dos segredos jamais chegam ao conhecimento da opinião pública norte-americana. É verdade mesmo quando a informação ocultada é bem conhecida de algum inimigo e quando é claramente essencial para a operação do poder de guerra do Congresso e para algum controle democrático sobre a política externa.

A realidade desconhecida do público e de muitos membros eleitos do Congresso e da imprensa é que segredos da mais alta importância para muitos deles podem, sim, permanecer confortavelmente ocultados por autoridades do Executivo durante décadas, mesmo que sejam bem conhedicos por milhares de insiders.


Daniel Ellsberg
A história prova que Ellsberg tem razão. Por exemplo:

●– 130 mil pessoas, de EUA, Grã-Bretanha e Canadá trabalharam no Projeto Manhattan. O segredo foi mantido durante anos.

●– Documentário da BBC mostra que:

Houve uma tentativa de golpe nos EUA em 1933, organizado por um grupo de empresários norte-americanos de extrema direita (...) O golpe pretendia derrubar o presidente Franklin D Roosevelt, com o auxílio de meio milhão de veteranos de guerra. Os golpistas, entre os quais estavam algumas das mais famosas famílias norte-americanas (proprietários de Heinz, Birds Eye, Goodtea, Maxwell Hse & George Bush [avô], Prescott) acreditavam que o país devesse adotar políticas de Hitler e Mussolini para superar a grande depressão”.

Mais que isso, os magnatas disseram ao general Butler que o povo norte-americano aceitaria o novo governo, porque aquelas famílias controlavam todos os jornais. Alguém ouvira falar, antes, dessa conspiração? Com certeza foi conspiração vastíssima. E, se os golpistas controlavam a imprensa-empresa naquele momento, muito mais controlam hoje, com as empresas-imprensas já “consolidadas”.

●– sete de oito bancos gigantes quebraram nos anos 1980, durante a “Crise latino-americana”, e a resposta do governo foi ocultar a insolvência. A ocultação-falcatrua durou várias décadas

●– bancos foram envolvidos em comportamento criminoso sistemático e manipularam todos os mercados.

●– há 50 anos governos encobrem derretimento de núcleo radiativo de usinas nucleares, para proteger a indústria nuclear. Governos sempre operaram para encobrir a gravidade de inúmeros outros eventos com comprometimento do meio ambiente. Durante muitos anos os funcionários do Texas intencionalmente informaram índices diminuídos de radiação na água potável, para evitar ter de notificar violações das normas.

●– A vigilância ilegal do governo dos EUA sobre os cidadãos começou sete meses antes do 11/9 (confirmado here e here). E vejam essa discussão gravada há mais de 30 anos. Mas o público só soube sobre isso muitos anos depois. Na verdade, o New York Times adiou a publicação, de modo que não afetasse o resultado da eleição presidencial de 2004.

●– A decisão de iniciar a guerra do Iraque foi tomada antes do 11/9. De fato, o ex-diretor da CIA George Tenet disse que a Casa Branca queria invadir o Iraque desde muito antes do 11/9, e inseriu “lixo” em suas justificativas para invadir o Iraque. O ex-secretário do Tesouro, Paul O’Neill – membro do Conselho de Segurança Nacional – também diz que Bush planejou a guerra do Iraque antes do 11/9. E altos funcionários britânicos dizem que os EUA discutiram mudança de regime no Iraque um mês antes de Bush ser empossado. Dick Cheney ao que parece até converteu os campos de petróleo iraquianos em prioridade nacional dos EUA antes do 11/9

E há muito tempo se sabe que um punhado de pessoas foi responsável por deliberadamente ignorar as muitas evidências de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. São fatos que só recentemente foram abertos para conhecimento público. De fato, Tom Brokaw até explicou que “todas as guerras são baseadas em propaganda”.

E esforço organizado para gerar propaganda é uma conspiração – e é crime nos EUA. Tais como:



11/9/2001, o maior "False Flag Attack" de História

(...) A admissão sempre ocorre várias décadas depois dos eventos. O que mostra que, sim, é possível manter conspirações em segredo por muito tempo, sem que alguém “dê coa língua nos dentes”.

(...) Além do mais, os que supõem que conspiradores dariam com a língua nos dentes esquecem que pessoal militar ou de inteligência – e quem tenha quantias gigantescas de dinheiro investido numa “operação” secreta – tende a ser muitíssimo disciplinado. Dificilmente se embebedam num balcão de bar e põem-se a contar “vantagem” do que fazem e de quem conhecem...

Por fim, pessoas que se envolvem em operações clandestinas podem fazê-lo por profunda convicção ideológica. Jamais subestime a convicção de um ideólogo!

Conclusão

A conclusão disso tudo é que há conspirações inventadas, mas há conspirações reais. Umas e outras têm de ser avaliadas pelos fatos que lhes dão forma. (...)

Quem opera longe dos contrapesos e controles democráticos – e sem a força desinfetante da luz do sol da supervisão democrática – tende a pensar mais nos próprios interesses; e os mais fracos são os mais prejudicados. (...) Gente de poder podem não ser más pessoas. Mas podem ser sociopatas, bandidos, doidos perversos.

Na dúvida, se alguém tentar dissuadi-lo de investigar, e acusá-lo de ter sucumbido a alguma “ridícula Teoria da Conspiração” – expressão que a CIA inventou para afastar bons cidadãos de boas investigações – não pare, não veja, não ouça (a CIA) e... investigue mais e mais. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo e Fredou: Jornalismo vagabundíssimo? Na gaveta de quem?

16/1/2015, Equipe de Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Helric Fredou
Na 5ª-feira, 8 de janeiro/2015, o canal France 3, o segundo maior canal público de televisão da França, noticiou a morte, naquela manhã, de um comissário de Polícia que estava investigando os ataques do dia 7 de janeiro contra a revista satírica francesa Charlie Hebdo.

O comissário, Helric Fredou, 45, foi encontrado morto em seu escritório em Limoges, capital administrativa da região do Limousin, região centro-oeste da França, à 1h da madrugada, tendo aparentemente usado a própria pistola de serviço para tirar a própria vida. Sabia-se que, antes, ele havia informado que estivera com a família de uma das vítimas do ataque contra Charlie Hebdo – e morreu antes de completar o relatório que estava preparando.

Até aí, interessante. Quase tão interessante quanto o total desinteresse da imprensa-empresa ocidental por mais essa tragédia que se soma ao affair Charlie Hebdo – desinteresse que um repórter resumiu como “blecaute no noticiário mainstream” – e foco pronto para mais uma teoria conspiracionista.

O contraponto daquelas primeiras notícias que emergiram dizia que o comissário sofrera de depressão e passara por um surto de esgotamento. A morte dele, imediatamente depois de ser incluído na investigação do equivalente francês do “11/9” teria sido, aparentemente, simples coincidência, ou consequência de mais um grande peso que lhe foi posto às costas, pesado demais para ele. Ainda assim, o atraso ou a total ausência de qualquer cobertura na imprensa-empresa de língua inglesa é, no mínimo, intrigante.

Teria havido blecaute? Ou apenas jornalismo vagabundíssimo? E onde, então, encontrar notícias e noticiário atualizado? Nas grandes redes e veículos de notícias (CNNFoxNew York TimesThe Guardian, etc. etc. etc.), ou em veículos obscuros os quais, pelo menos, dão sinal de que já acordaram e saíram da cama-quente – literalmente ou metaforicamente? Observe a grade de horários que aí vai, para ajudá-lo a responder.

5ª-feira, 8/1/2015, 1h da manhã: Fredou é encontrado morto.

5ª-feira, 8/1/2015, 11h24, o canal France 3, segundo maior canal francês de televisão pública, noticia em primeira mão.

Domingo, 11/1/2015, 1h da manhã, Sputnik, que em novembro de 2014 substituiu a agência de notícias russa RIA Novosti e Voice of Russia, parece ter sido o primeiro veículo “mainstream” a noticiar a morte do comissário Fredou.

Mas Sputnik não foi o primeiro veículo a recolher o relato de France 3, que se pode considerar razoavelmente acurado, no que tenha a ver com os fatos: que o comissário estava morto, que morrera por tiro, que fora encontrado naquela manhã e que, de algum modo, investigava o ataque contra Charlie Hebdo.

Charlie Hebdo e Helric Fredou
Mas poucos leitores algum dia ouviram falar dos demais veículos que repercutiram o resto da história.

Na 6ª-feira, 9/1/2015, Medha News na Índia, publicou a história.

Na mesma 6ª-feira, 9/1/2015, Up rooted Palestinians publicou a história.

Na mesma 6ª-feira, 9/1/2015, Free Radio Revolution estava acordada e alerta nos EUA.

No sábado, 10/1/2015, 21st Century Wire tampouco perdia tempo.

Dia 11/1/2015, Epoch Times (edição em alemão de site que se dedica à China, muito preocupado com e sempre disposto a apoiar os perseguidos da seita Falung Gong) também publicou a matéria.

Àquela altura, já começavam as perguntas sobre por que a “grande-mídia” nada noticiava do que bem podia ser matéria importante, de grande interesse público – ou talvez nem fosse, mas... se ninguém noticia, quem afinal decidirá se é notícia importante ou não?! – como  Global Research perguntava, dia 11/1/2015.  

Se alguém argumentar que são veículos pequenos, dados a material muitas vezes duvidoso, não há nesse caso, motivo para preocupação, porque a fonte, nesse caso é boa (France 3) – e não há dúvida quanto aos fatos.

Pois só no dia 12/1/2015 a imprensa-empresa britânica começou a acordar: o Mirror  noticiou logo depois do meio-dia; três horas mais tarde, foi a vez do Daily Mail.

Afundado cada vez mais, também naquela 2ª-feira, 12/1/2015, às 7h37 da noite, o britânico Daily Telegraph afinal noticiou evento ocorrido quatro dias antes, e à distância de apenas uma rápida viagem de trem da redação londrina do Telegraph, e ainda muito mais perto do escritório parisiense do mesmo jornal.

(Os jornalistas muito apreciarão a ambígua urgência do bordão it has emerged [aprox. “segundo notícias recém-recebidas” (NTs)] – “Um chefe de alto escalão da polícia judiciária em Limoges cometeu suicídio na 4ª-feira, 7/1/2015, horas depois de ser encarregado de redigir relatório sobre as mortes em Charlie Hebdosegundo notícias recém-recebidas”. Em outras palavras: dormimos no ponto (ou pior que isso, mas, uau!, aí está a “notícia”).  

Só na 3ª-feira seguinte, 13/1/2015, é que a imprensa acordou nos EUA, sob o formato doWashington Times. E quando afinal acordaram, já não havia dúvida quanto a direção a imprimir à manchete: “Helric Fredou, chefe de polícia francês, suicidou-se sob intensa pressão do terror em Paris”.

NÓS SOMOS (CHARLIE) MANIPULADOS
Quando escrevemos agora, dia 15/1/2015, já há matérias na imprensa-empresa de língua inglesa, mas procure pelo Google e logo verá que absolutamente não houve cobertura para essa morte. É suficientemente estranho, para merecer pesquisa mais detalhada: nada naCNN, nada no New York Times, nada no Washington Post, nada no Guardian, etc. etc. etc. (Um artigo, publicado pelo Ron Paul Institute dia 14/1/2015, que faz referência à morte daquele comissário de Polícia, atraiu algumas críticas por levantar essa e outras questões mais amplas).

Ninguém precisa de teoria conspiracionista: basta(ria) um relatório sério de autópsia para pôr fim às elucubrações. Mas ninguém perderia coisa alguma se houvesse melhor trabalho de reportagem e melhor jornalismo. Afinal de contas, grande parte da reação contra o massacre no Charlie Hebdo teve a ver com liberdade de imprensa – e liberdade de imprensa exige livre trabalho de repórter, para começar.

A ausência de qualquer reportagem sobre a morte de um alto oficial da Polícia francesa, Helric Fredou, envolvido de algum modo na investigação do massacre na redação de Charlie Hebdo que acontecera praticamente na véspera, muito rapidamente pode passar a significar ausência de liberdade para noticiar. Nesse caso, surge a questão de verificar-se quem está acordado para noticiar eventos importantes, e quem está na cama [no Brasil, se diz “na gaveta” (NTs)]. E, no caso de haver jornalistas na cama [ou na gaveta], cama de quem? [Gaveta de quem?].