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quarta-feira, 11 de março de 2015

Como criar um estado de insegurança

O cientista político como serviçal da imprensa-empresa: para dar formato racional às sandices


8/3/2015, [*] Andrew J. BacevichTomDispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Gafieira da Roparrota, na Vila Vudu: 

O artigo original levava o título de “The Intellectual as Servant of the State” [O cientista político como serviçal do Estado].

Mudamos, porque nós aqui somos comunistas e acreditamos no Estado. Nós NÃO SOMOS “liberais-democráticos-fascistas-de-mercado”!
Nós acreditamos em Estado e NÃO ACREDITAMOS em jornais e jornalistas e jornalismos & marketagens, entidades bifrontes do tipo Cantanhede & Rampazzo e/ou Lavareda & Tucanaria Privateira Ltda. e/ou jornalões & Consultoria Tendêncy e/ou e tal e tal e a lista é looooonga.

Entendemos, portanto, que um dos mais graves problemas no Brasil 2015 são os falso-intelectuais, falso-inteligentíssimos, falsos-bem-informados JORNALISTAS e comentaristas empregados da imprensa-empresa.

Quem não conheça essa cambada, basta dedicar-se a ouvir, por cinco minutos, o opinionismo tosco de qualquer Boechat, Neubarth, Cantanhede, LoPrete, Sardembergh, Mirian Leitão et cataerva “jornalística” “adjunta – repetido incansavelmente, o dia inteeeeeiro, sempre a mesma “notícia” & “comentário”, dez vezes por dia, nas rádios FM Estadão, CNN e Band FM.
Então o artigo aí vai, porque é excelente informação histórica.

Mas, para nosso real proveito, o artigo deve ser lido não como comentário ao trabalho de acanalhamento do Brasil que faz a canalha metida a “cientista social dominante”. Essa cambada nós JÁ DERRUBAMOS DO PODER, quando derrotamos nas urnasa República USP-Chicago-Pindamonhangaba & TFP Aécin.

O artigo que aí vai deve ser lido como comentário à canalha golpista metida a cientista-social & economista & historiador à moda Villa, porque é a canalha metida a “intelectual” que foi incorporada – depois de derrotada nas urnas – à canalha golpista metida a “jornalística”.

Essa cambada é paga para trabalhar diariamente contra o voto da maioria democrática. Por sorte, são incompetentes, mal informados e alguns, inclusive, são cornos politológicos sociológicos histÓÓricos!:-D))


W.W. Rostow (D) mostra ao Presidente Lyndon Johnson maquete da área de Khe Sahn no Vietnã  (15/2/1968)
Cientistas políticos e comentaristas políticos, – gente de ar esnobe que vive de “assessorar” os reles mortais que recebem votos dos eleitores – são uma praga da república. Como espécies invasivas, eles infestam a Washington de hoje, onde sua presença sufoca o bom-senso e já levou à beira da extinção a simples capacidade de perceber a realidade. Sempre em ternos outailleurs & colarzinhos caros – aquel@s almofadinhas dão aulas ao Congresso, pontificam na imprensa-empresa escrita e falada, e até já esquentam cadeira em posições chaves no Executivo, sempre com impacto maléfico. São como a carpa asiática jogada nos Grandes Lagos.

E dizer que tudo começou tão inocentemente! Nos idos de 1933, com o país nas garras da Grande Depressão, o presidente Franklin Delano Roosevelt foi o primeiro a atrair para o estado um punhado de cientistas sociais e políticos, ansiosos para incorporarem-se às fileiras de seu Novo Negócio [orig. New Deal]. Crise econômica sem precedentes exigia algum pensamento novo – pensou FDR. Se as contribuições desse Brains Trust [alguma coisa como “poupança em cérebros”, ou “Fundo Cérebros”] tiveram qualquer impacto positivo ou se só ajudaram a retardar a recuperação econômica (e foram total desperdício de tempo e dinheiro) é tema que ainda se discute até hoje. No mínimo, contudo, a chegada de Adolph Berle, Raymond Moley, Rexford Tugwell e outros elevaram o cenário de uísque e charutos de Washington. Como membros beneméritos da “intelligentsia”, recebiam então uma espécie de cachê artístico, como pianistas de boate.

Então, veio a IIª Guerra Mundial, seguida imediatamente pela implantação da Guerra Fria. Esses eventos trouxeram a Washington uma segunda leva de “pensadores profundíssimos”, cuja agenda cerebral estava agora integralmente dedicada à “segurança nacional”. Esse conceito elástico pela própria natureza – melhor seria identificar logo o problema e chamar a coisa, para sempre, de “insegurança nacional” – reunia simplesmente qualquer coisa que tivesse a ver com prontidão para fazer guerras, ou sobreviver a elas, incluindo economia, tecnologia, desenho de armas, tomada de decisões, estrutura das Forças Armadas e outros temas ditos de vital importância para a sobrevivência da nação.

A insegurança nacional tornou-se então – e assim permanece até hoje – a política mundial que é como um maná, presente que nunca para de cair dos céus.

Gente que se especializou em pensar sobre a insegurança nacional veio a ser conhecida como “intelectuais da defesa” [mais ou menos como, na imprensa-empresa brasileira, um tal de “Godoy” d’O Estadão é o único “especialista em armas” que há no Brasil inteiro! (NTs)].

Roberto Godoy (Estadão)
Os “especialistas” pioneiros nessa empreitada, lá nos anos 1950s, recebiam o cheque de pagamento semanal de think tanks como a prototípica Corporação RAND, e de instituições acadêmicas mais tradicionais. Entre essa gente havia figuras muito sinistras, como Herman Kahn, que se vangloriava por “pensar o impensável”; e Albert Wohlstetter, que distribuíatutorials” em Washington sobre as complexidades de manter-se “o delicado equilíbrio do terror”.

Nesse ensandecido mundo, a moeda em circulação foi então, como continua a ser até hoje, “relevância política”. Significa inventar produtos que sugiram alguma impressão de novidade, ao mesmo tempo em que só sirvam, mesmo, para perpetuar a empreitada “oficial” que esteja em andamento. Exemplo radical de “insight” de alta relevância política é a descoberta, pelo Dr. Fantástico (Dr. Strangelove) , de um “mine shaft gap” [aprox. “atraso no escavamento do buraco de mina”] – sucessor do “bomber gap” [aprox.. “atraso na construção do bombardeiro”] e do “missile gap” [aprox.. “atraso na construção do míssil”] os quais, nos anos 1950s, deixaram os EUA supostamente atrasados em relação aos soviéticos na corrida armamentista e precisando alucinadamente se igualarem a eles. Naquele momento, com uma troca de tiros de bombas termonucleares a um passo de destruir o planeta, os EUA mais uma vez estavam atrasados – diz o Dr. Fantástico. – Daquela vez, porque não cavaram suficientes abrigos subterrâneos para salvar pelo menos uma pequena parte da humanidade, que fosse.

George C. Scott no papel de “Buck” Turgidson
Num único brilhante meneio frasal, o Dr. Fantástico postula uma nova raison d'être para todo o aparelho de insegurança nacional, assegurando assim que o jogo possa prosseguir mais ou menos eternamente. Sequência do filme de Stanley Kubrick estaria mostrando o general “Buck” Turgidson e outros medalhados na Sala de Guerra, hoje, desenvolvendo planos para vedar o mine shaft gap, como se nada no mundo tivesse acontecido de lá até hoje.

Nasce o Estado de Insegurança Nacional

Mas foi nos anos 1960s, bem quando o Dr. Strangelove foi visto pela primeira vez nos cinemas, que os intelectuais-na-mídia, cientistas sociais e politólogos (no Brasil, o politólogo mais importante é o Prof. Bolívar Lamounier, o que pouco informa que realmente interesse ao avanço do Brasil, mas ajuda, pelo menos, a avaliar todos os demais politólogos pátrios ativos nos jornalões idem [NTs]) realmente ganharam palancão só deles. A imprensa-empresa nos EUA passou a chamá-los de “intelectuais da ação” (?) sugerindo energia e atividade importante.

Os “intelectuais da ação” eram pensadores, mas também fazedores, membros de um “corpo amplo e em crescimento, de homens que escolheram sair dos seus nichos silenciosos e tranquilos nas universidades e envolver-se nos problema complexíssimos que a nação enfrenta” [é vêêê o Villa!que não olha no olho NEM DA CÂMERA :-D)))))))] – como definiu-os a revista “LIFE”, em 1967. Dentre os tais complexíssimos problemas, o mais complexíssimo era o que fazer sobre o Vietnã – problema complexíssimo que vinha como de encomenda para que os intelectuais da ação partissem logo prá cima dele e o cobrissem de tabefes.

Ao longo de um século e meio antes, os EUA haviam feito guerras por muitas razões, dentre as quais ganância, medo, pânico, ira arrogante e legítima autodefesa. Em diferentes ocasiões, cada uma dessas causas, isoladas ou em diferentes combinações, empurrara os norte-americanos à luta. O Vietnã marcou a primeira vez que os EUA foram à guerra, pelo menos em grande parte, em resposta a um punhado de ideias perfeitamente imbecis, postas em circulação por gente metida a super mega over inteligentíssima que ocupava postos de influência.

Ainda mais surpreendente, os intelectuais da ação continuaram a falar a favor de continuar em guerra, mesmo já muito depois de ser perfeitamente evidente, até para membros do Congresso, que a causa era causa mal concebida, mal pensada, mal propagandeada e mal dita, condenada a terminar em fracasso.


Em seu excelente livro American Reckoning: The Vietnã War and Our National Identity, Christian Appy, historiador que leciona na Universidade de Massachusetts, nos lembra de o quanto aquelas ideias eram perfeitamente imbecis.

Como “Prova 1”, o professor Appy apresenta McGeorge Bundy, conselheiro para segurança nacional, primeiro do Presidente John F. Kennedy, depois de Lyndon Johnson. Bundy é produto de estufa de Groton e Yale, e ganharia fama como o mais jovem reitor da Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, premiado com o posto, mesmo sem ter nem diploma de graduação.

Como “Prova 2”, lá estava Walt Whitman Rostow, que sucedeu Bundy no cargo de conselheiro de segurança nacional. Rostow também era de Yale, e formou-se no mesmo ano no curso colegial e como PhD. Adiante, passou dois anos em Oxford, na cátedra Rhodes. Como professor de história econômica no MIT, Rostow chamou a atenção de Kennedy com seu livro de 1960, título modesto, “The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto”, no qual oferece uma grandiloquente teoria do desenvolvimento, de aplicabilidade ostensivamente universal. Kennedy trouxe Rostow para Washington, para testar suas teorias de “modernização” em locais como o Sudeste Asiático.

Por fim, como “Prova 3”, Appy discute rapidamente a contribuição do professor Samuel P. Huntington para a Guerra do Vietnã. Huntington frequentou também Yale, antes de obter seu PhD em Harvard, e depois voltou para lecionar, tornando-se dos mais afamados cientistas políticos do pós IIª Guerra Mundial.

Traço que se observa nos três, além da suspeita “formação” adquirida em New Haven: rendição e comprometimento inabaláveis com as supostas verdades da Guerra Fria. A principal dessas supostas verdades era a seguinte: um monólito denominado “Comunismo”, controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos dentro do Kremlin, era ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas contra a própria liberdade considerada em si. A ideia veio com o corolário essencial: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico seria os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça comunista onde quer que ela erguesse a cabeçorra.

McGeorge Bundy (1919 - 1996)
Compre essas hipóteses gêmeas, e você aceita o imperativo de que os EUA tinham de impedir a qualquer custo que a República Democrática do Vietnã, também chamada Vietnã do Norte, viesse a absorver a República do Vietnã, também chamada Vietnã do Sul, criando um país unificado; em outras palavras: o imperativo de que o Vietnã seria causa pela qual valia a pena matar e morrer. Bundy, Rostow e Huntington não só engoliram a hipótese com anzol, linha e carretel, como, além disso, passaram a dedicar-se a conseguir que outros em Washington também fossem igualmente fisgados.

Mas já em 1965, quando clamava pela “americanização” da Guerra do Vietnã, Bundy começava a duvidar de que se fosse possível vencer aquela guerra. Mas... ninguém precisa se preocupar: ainda que o esforço termine em fracasso, como disse ele, aconselhando, ao presidente Johnson, “a política faz valer a pena”. 

Como assim?! “No mínimo” – Bundy escreveu – “esvaziaremos as críticas de que não fizemos tudo que poderíamos ter feito, e o que fizemos será importante em muitos países, inclusive no nosso”. Se os EUA acabaram por perder o Vietnã do Sul, pelo menos os norte-americanos morreram tentando impedir que perdessem – e essa, graças a uma lógica pervertida e na avaliação do mais jovem reitor de Harvard em todos os tempos, seria a garantia da salvação. Bundy acreditava que o ponto essencial seria impedir que outros vissem os EUA como “tigre de papel”. Negar-se à guerra, mesmo que guerra perdida, implica(ria) perder credibilidade. Tinham de se dedicar, isso sim, a qualquer custo, a “Não deixar que pensem que quando nos envolvemos, esquecemos de considerar algum grande perigo”. Esse o problema do qual tinham de fugir!

Rostow até superou Bundy em linha-durismo. Além de defender incansavelmente os bombardeios coercitivos para influenciar os políticos do Vietnã do Norte, Rostow foi também o arquiteto-chefe de algo que ficou conhecido como Strategic Hamlet Program. A ideia era acelerar o processo Rostowiano de modernização, realocando à força os camponeses vietnamitas, de suas vilas ancestrais, para campos montados pelo governo de Saigon, onde encontrariam segurança, educação, assistência médica e para plantar. Assim se conquistariam corações-e-mentes. Os camponeses nunca mais teriam qualquer contato com os comunistas, e a derrota do levante comunista decorreria automaticamente, com o pessoal do Vietnã do Sul já introduzido na “era do alto consumo de massas”, à qual toda a humanidade ascenderia como destino final.

Vietnã - derrota total
Assim rezava a teoria. A realidade foi um pouco diferente. Os Hamlets Estratégicos que chegaram a ser tentados eram exatamente iguais a qualquer campo de concentração dos nazistas. O governo de Saigon revelou-se fraco demais, incompetente demais e corrupto demais para cumprir sua parte do trato. Em vez de ganhar corações-e-mentes, o programa gerou alienação em níveis altíssimos e, de fato, só conseguiu desestabilizar a sociedade camponesa nas áreas onde chegou a ser iniciado. Outro resultado da “ideia” foi que número crescente de camponeses arrancados de suas terras e casas afluiu para as cidades do Vietnã do Sul onde praticamente não havia trabalho além do serviço doméstico para a crescente população militar dos EUA – atividade que muito dificilmente levaria a algum tipo de desenvolvimento sustentável.

Fato é que mesmo depois de a Guerra do Vietnã já ter acabado em derrota total, completa, avassaladora para os EUA, Rostow ainda insistia que sua teoria teria sido “confirmada”. “Nós e os asiáticos de sudeste”, escreveu ele, usamos os anos de guerra “tão bem que nem houve pânico [quando Saigon caiu], que fatalmente teria havido se não tivéssemos intervindo”. Por incrível que pareça, contado hoje, fato é que Rostow “comprovou” inúmeras boas notícias, todas atribuíveis à guerra norte-americana.

“Desde 1975, houve expansão geral do comércio de outros países daquela mesma região com o Japão e o Ocidente. Na Tailândia, vimos surgir uma nova classes de empresários. Malásia e Singapura tornaram-se países de bens manufaturados diversificados para exportação. E vê-se hoje a emergência de uma classe muito mais densa de tecnocratas na Indonésia.

Pronto. Aí está. Você queria saber por que 58 mil norte-americanos (e número vergonhosamente muito maior de vietnamitas) morreram na Guerra Americana [que é como se conhece, no Vietnã, o que nos EUA chama-se Guerra do Vietnã (NTs)]? Morreram para estimular o surgimento de empresários, aumentar as exportações e fazer emergir muitos tecnocratas por todo o sudeste da Ásia.

Samuel Huntington (1927-2008)
Appy descreve o professor Huntington como outro intelectual da ação com grande facilidade para ver “o bom” de todas as catástrofes. Na visão de Huntington, o deslocamento interno de sul-vietnamitas causado pelo uso desproporcional do poder de fogo dos EUA, e o fracasso dosHamlets Estratégicos de Rostow, foram notícias realmente muito boas. Estava agora muito facilitado o processo de garantir aos norte-americanos, pleno domínio sobre os insurgentes.

A chave para a vitória final, Huntington escreveu, foi “urbanização e modernização por alistamento forçado, que rapidamente tirou o país em questão da fase na qual um movimento revolucionário rural pode esperar gerar força suficiente para chegar ao poder”. Ao esvaziar o país rural, os EUA poderiam vencer a guerra nas cidades. “A favela urbana, que parece tão horrível aos olhos dos norte-americanos de classe média, muitas vezes se converte, para o camponês pobre, em portal para vida nova e muito melhor”. O fraseado pode ter recebido gotas de desinfetante, mas a ideia continua clara e bem suja: os desafios da vida na cidade, em estado de miséria indescritível, transformariam como por milagre aqueles mesmos camponeses, em gente bem mais interessada em fazer um pé de meia, do que em se alistar em revoluções sociais.

Revisitadas décadas depois, essas ideias defendidas de modo descaradamente público pelos Bundy-Rostow-Huntingtons – ação de primeira qualidade de intelectuais da ação! – parecem piores que obscenas e escandalosas. Elas insultam qualquer inteligência mediana e nos fazem pensar como é possível que alguém, algum dia, tenha levado a sério quantidade tão absoluta de imbecilidades.

[Para ter experiência direta dessa emoção, basta reler,hoje, o “artigo” do polítólogo-em-chefe do Estadão & Tucanaria Privateira, o tal “professor” [só rindo] Bolívar Lamounier, publicado em 2010, e que leva o IMPRESSIONANTE título de “A mexicanização em marcha”].

Como aconteceu que, durante a Guerra do Vietnã, ideias tão ruins tenham tido tanta influência, tão perversa? Por que essas ideias foram tão impermeáveis a qualquer crítica? Por que não se as pôde desconstruir devidamente? Por que, em resumo, foi tão difícil para os norte-americanos, naquele momento, farejar a merda que lhe era impingida como “pensamento”?

Criar um Vietnã em câmera lenta, para o século XXI

Essas perguntas absolutamente não interessam só por terem algum valor histórico. Elas são muitíssimo importantes ainda hoje, aplicadas ao trabalho de tecelagem da versão “século XXI”, dos cientistas sociais e politólogos que operam, HOJE, todos especializados em insegurança nacional, cuja CONVERSA TOTALMENTE FIADA serve de “fundamento”, HOJE, para políticas que absolutamente NÃO SÃO mais coerentes que as políticas usadas para justificar o início e a continuação da Guerra do Vietnã.

Oriente Médio expandido
(clique na imagem para aumentar)
Os sucessores dos Bundy-Rostow-Huntingtons subscrevem hoje as suas próprias pressupostas “verdades”. Dentre elas, a principal suposta “verdade” é que um fenômeno chamado “Terrorismo” ou “Radicalismo Islamista”, inspirado por um pequeno grupo de fanáticos controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos em diferentes pontos no Oriente Médio Expandido é ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas – sim, sim, a coisa ainda vive entre nós! – contra a própria liberdade considerada em si.

E a ideia veio com o corolário essencial empoeirado e importado da Guerra Fria: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico é os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça terrorista/islamista, onde quer que ela erga a cabeçorra.

Pelo menos desde o 11/9/2001, e pode-se dizer que pelo menos ao longo das duas últimas décadas, sem faltar um dia, os políticos norte-americanos tomaram essas “ideias” como teorias fartamente confirmadas e sem erro possível. Acontece assim, em parte, porque pouquíssimos dos intelectuais especializados em insegurança nacional deram-se o trabalho de questionar as tais “ideiazinhas”.

A verdade é que esses especialistas impediram o estado de ter o DEVER de tratar dessas questões e problemas. Pense nessa canalha toda como “intelectuais” devotados a fugir e renegar toda e qualquer atividade intelectual genuína. Mais ou menos como Herman Kahn e Albert Wohlstetter (ou o Dr. Fantástico), a função deles é perpetuar a empreitada em curso.

O fato de já ninguém ver com clareza de que empreitada afinal se trata, realmente facilita a vida deles. Antes se falava sempre de Guerra Global ao Terror, era uma “Global War on Terror, GWOT”. Hoje, já é Guerra Sem Nome. É mais ou menos como aquela famosa sentença da Suprema Corte sobre pornografia: não sabemos definir; só sabemos que é quando vemos “a coisa”. É assim, também, com o “ISIL/ ISIS/ Daesh/ Estado Islâmico”, a mais recente manifestação etérea a capturar todas as atenções de Washington.

A única coisa que se pode dizer com certeza sobre a empreitada Sem Nome é que ela continua e não há fim à vista. Já está convertida numa espécie de Vietnã em câmera lenta, favorecendo reflexão espantosamente rarefeita sobre o curso até agora e sobre rumos futuros. Se ainda há “Brains Trust” funcionando em Washington, foi esquecido lá, no piloto automático. Hoje, a segunda e terceira gerações bastardas da RAND que ocupam vastos andares na zona noroeste de Washington – Centro disso, Instituto daquilo – concentram-se dia e noite em discussões sobre os equivalentes atualizados para HOJE dos “Strategic Hamlets”, sem nem um instante de dedicação a qualquer pensamento mais fundamental, mais aproveitável.

Ashton Carter
O que me empurrou para essas mal traçadas linhas foi a notícia de que Ashton Carter está de volta ao Pentágono, como 4º secretário de Defesa do presidente Obama. O próprio Carter foi intelectual da ação do jeitão dos Bundy-Rostow-Huntingtons e fez carreira alternando períodos de “serviço” em Harvard com idem “lá” (no Pentágono). Carter também é “de Yale” e também foi “professor da cátedra Rhodes”, com um PhD de Oxford.

“Ash” – porque em Washington, quando acontece de você ser identificado só pelo primeiro nome (“Henry,” “Zbig,” “Hillary”) é sinal de que você REALMENTE-REALMENTE chegou-lá – é autor de quaquilhões de livros e artigos, inclusive uma coluna co-assinada com o ex-secretário da Defesa William Perry em 2006 na qual a dupla “exige” guerra preventiva contra a Coreia do Norte. “Não há ação militar sem perigos” – reconheceu ele, valentemente, naquele momento. “Mas o perigo da inação continuada ante a corrida da Coreia do Norte para ameaçar nosso país é muito maior” – exatamente o mesmo tipo de lógica à qual periodicamente recorrem todos os Herman Kahn e Albert Wohlstetter.

Agora que Carter retomou as rédeas do Pentágono, está tendo muito trabalho, dia e noite, para dar a impressão de que é um verdadeiro neo-Aristóteles em matéria de pensamento. Como anunciava (ameaçava?) uma manchete do Wall Street Journal, “Ash Carter Quer Novos Olhos Contra as Ameaças Globais”. Claro que há uma pilha de ameaças globais. Claro também que o Secretário de Defesa dos EUA tem mandado divino para enfrentá-las todas, claro, todo mundo sabe! Seu predecessor, Chuck Hagel (sem título de Yale), era dado a andar com cautela. Carter, não. Carter é o contrário. Já chegou mostrando que vem para agitar o pedaço.

Com esse objetivo em mente, logo no segundo dia de trabalho no Pentágono, já jantou com Kenneth Pollack, Michael O’Hanlon e Robert Kagan, todos intelectuais de alta patente na insegurança nacional, e velhos paus para toda obra em Washington. À parte o fato de os três prestarem serviços à Brookings Institution, os três orgulham-se de ter apoiado a Guerra do Iraque nos idos de 2003. Hoje, eles “exigem” redobrados esforços contra o ISIL/ ISIS/ Daesh. Para termos certeza, nós todos, de que a orientação fundamental da política exterior dos EUA é firme, sólida, confiável (só temos de tentar mais, com mais empenho, mais empenho), onde encontrar melhores conselheiros que PollackO’Hanlon  e Kagan  (qualquer Kagan)?


Será que Carter contava com receber novos “insights” dos seus parceiros de jantar? Ou estaria “sinalizando” para as redes de professores-adjuntos, professores-convidados, professores-doutores, professores-em-chefe e sociólogos-politólogos-comunicólogos que as verdades vigentes da insegurança nacional permanecerão sacrossantas? Decida você, amigo leitor.

Logo depois, a primeira viagem internacional de Carter ofereceu mais uma oportunidade para sinalizar suas intenções. No Kuwait, reuniu um conselho de guerra, de altos funcionários militares e civis para que o atualizassem sobre a guerra contra o ISIL/ ISIS, Daesh. Em ousado movimento que o separou crucialmente das práticas padrão, o senhor do Pentágono PROIBIU RELATÓRIOS EM POWER POINT. Um dos participantes descreveu o evento como “seminário escolar de cinco horas” – todos puderam falar de coração aberto, lavar a alma. “Isso é revirar todos os paradigmas”, comentou, ainda tomado de assombro, um oficial sênior do Pentágono. Todos confirmaram que, sim, Carter desafiou seus subordinados a “olhar com outros olhos para esse problema”.

É claro que Carter pode ter dito “Vamos olhar a coisa como se fosse outro problema”. Mas essa seria postura radical demais para ser levada a sério – seria o equivalente de ele sugerir, lá nos idos dos anos 1960s que os pressupostos dos EUA para o Vietnã deveriam ser reexaminados.

Seja como for – e para surpresa de ninguém – o “olhar novo” não levou a qualquer conclusão diferente da velha. Em vez de revirar algum paradigma, Carter reafirmou a existência do mesmo velho paradigma: a atual abordagem que os EUA têm implantado para enfrentar oISIL/ ISIS /Daesh é confiável e ótima. Só precisa de uns beliscões – a “deixa” para os Pollacks, O’Hanlons e Kagans escreverem qualquer bobagem – só para manter o conversê fiado que tomou o lugar de debate sério.

A política externa dos EUA
E alguém precisa desse conversê fiado “jornalístico” “intelectual” “sociológico-politológico-histórico” de araque sem fim? Ele melhora de algum modo a qualidade das políticas norte-americanas? Se os intelectuais da ação/ da politologia/ da defesa calassem o bico, de vez, os EUA seriam menos seguros?

Permitam-me propor um experimento. Ponham TODO esse pessoal em quarentena. Nada radical. Não é para sempre. Só até que a última neve do inverno degele na Nova Inglaterra. Mandem essa gente de volta para Yale para reeducação. E vamos ver se conseguimos sobreviver sem eles, por um mês, dois meses.

Enquanto isso, convidemos veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, para que ensinem ao país o melhor meio de enfrentar o ISIL/ ISIS/Daesh. (...)

Entrevistem, no horário nobre, domingo à noite, diretores de escolas públicas. Sabe-se lá... Quanta sabedoria pode haver, escondida por aí?!
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[*] Andrew J. Bacevich (nascido em 5/7/1947) é um Cientista Político norte-americano especializado em Relações Internacionais, estudos de Segurança, Política Externa e diplomática e também História Militar dos EUA. Atualmente é professor de Relações Internacionais e História na Universidade de Boston. É militar de carreira aposentado como Coronel na Divisão de Blindados do Exército dos Estados Unidos. Ex-diretor do Centro da Universidade de Boston de Relações Internacionais (1998-2005)
Bacevich tem sido um crítico tenaz da ocupação do Iraque pelos EUA, considerando a invasão um erro catastrófico. Em março de 2007, descreveu George W. Bush  pelo endosso das tais guerras preventivas como imoral, ilícito, e imprudente. Seu filho, também um oficial do Exército, morreu lutando na Guerra do Iraque maio 2007. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Boykinismo* - Joe McCarthy compreenderia


25/9/2012, Andrew J. Bacevich, American Empire Project
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Andrew J. Bacevich
Primeiro, foi o bru-ha-ha em torno da “Mesquita no Marco Zero”. Depois, o pastor Terry Jones de Gainesville, Florida, nas manchetes, promovendo o “Dia Internacional de Queimar Alcorão”. Mais recentemente, um norte-americano que postou vídeo antimuçulmano escandaloso na internet, com o consequente torvelinho.

Durante todo esse tempo, a posição oficial dos EUA permaneceu imutável: o governo dos EUA condena a islamofobia. Os norte-americanos respeitam o Islã como religião de paz. Incidentes que sugiram coisa diferente são serviço de alguma minoria insignificante – doidos, semeadores de ódios e caçadores de publicidade. Entre os muçulmanos, de Benghazi a Islamabad, a “explicação” não pegou.

E não sem razão: embora seja confortador desqualificar as irrupções de anti-islamismo nos EUA, como serviço de uns poucos fanáticos, o quadro, de fato, é muito mais complicado. E as complicações, por sua vez, ajudam a explicar por que a religião, antes considerada ativo da política externa dos EUA, converteu-se, nos últimos anos, em dívida exigível de curto prazo.

Comecemos por rápida aula de história. Do final dos anos 1940s ao final dos 1980s, quando o comunismo oferecia argumento guarda-chuva ideológico para o projeto do globalismo norte-americano, a religião foi tema destacado da política externa dos EUA. A antipatia comunista contra a religião ajudou a conferir notável durabilidade ao consenso da política exterior da Guerra Fria. Bastava declarar que comunistas eram gente sem deus, para excluí-los da ordem humana. Para muitos norte-americanos, a Guerra Fria ganhou toda a clareza moral que chegou a ter, graças à convicção de que havia uma disputa em que se confrontavam fiéis tementes a Deus e infiéis negadores de Deus. Dado que os EUA estavam do lado de Deus, passou a ser verdade axiomática que Deus retribuiria a deferência.

De tempos em tempos, ao longo das décadas durante as quais o anticomunismo foi a alma mater que animou o espírito das políticas norte-americanas, estrategistas judeu-cristãos em Washington (eles mesmos nem sempre crentes), obraram sobre a noção teologicamente correta de que cristãos, judeus e muçulmanos todos cultuavam um mesmo Deus, não raras vezes alistando muçulmanos, às vezes de crenças fundamentalistas, para lutarem diretamente em eventuais escaramuças contra infiéis locais. Exemplo notável disso foi a Guerra Soviético-Afegã de 1979-1989.

Para causar dano máximo aos ocupantes soviéticos, os EUA apostaram seu peso no apoio à resistência afegã, elegantemente apresentada em Washington como “combatentes da liberdade”, e canalizaram sua ajuda (com a intermediação de sauditas e paquistaneses) para o grupo mais religiosamente extremista dos que por ali havia. Quando esse esforço resultou em massiva retirada dos soviéticos, os EUA celebraram o apoio que haviam dado aos mujahedin afegãos como prova do gênio estratégico dos EUA. Foi praticamente como se Deus assim o tivesse decidido e sentenciado.

Mas, poucos anos depois da retirada soviética, os combatentes da liberdade viraram os ferozes Talibã antiocidente, que deram santuário à al-Qaeda enquanto planejava – com pleno sucesso – atacar os EUA. Evidentemente, alguém enfiara uma cunha na engrenagem dos planos de Deus.

Com o lançamento da Guerra Global ao Terrorismo, o islamismo substituiu o comunismo como corpo de crenças que, se não fossem contidas, ameaçavam espalhar-se pelo mundo, com terríveis consequências para a liberdade humana. Os mesmos que Washington armara como “combatentes da liberdade” tornaram-se então os mais perigosos inimigos dos EUA. Ou, pelo menos, nisso acreditavam membros do establishment da segurança nacional, ou diziam que acreditavam. E, assim, sumiu de pauta qualquer discussão sobre se o globalismo militarizado seria ou não abordagem adequada para promover globalmente os valores liberais ou, mesmo, só os interesses das grandes empresas dos EUA. 

Verdade que, como palavra-de-ordem, fazer guerra ao islamismo sempre foi empreitada difícil, desde o início. Com políticos obrando para impedir que o islamismo se confundisse com o Islã na mente popular, muitos norte-americanos – por sincero medo, ou mal-intencionadamente – viram aí uma diferença sem diferença alguma. Muitos esforços fez o governo Bush nesse terreno, tentando meter a ameaça pós-11/9 na rubrica “terrorismo”. Mas não deu certo, porque “terrorismo”, como explicação genérica, nada explicava sobre os motivos dos ataques. Por mais que o governo Bush tenha feito e refeito, o único motivo que se via, para explicar os ataques, “tinha a ver” com religião.

Onde exatamente situar Deus, na política dos EUA no pós-11/9 foi verdadeiro desafio para os políticos, especialmente para George W. Bush, que acreditava, com profunda e sincera fé, que Deus o escolhera para defender os EUA naquele momento de perigo máximo. Não foi fácil porque, diferentes dos comunistas, em vez de negadores da existência de Deus, os islamistas eram afirmadores, cada vez mais furiosos, de Sua existência. De fato, nas ácidas denúncias contra os EUA, e na prática de atos de violência antiamericana, eles audaciosamente se apresentavam como instrumentos da realização da vontade de Deus, na guerra contra o Grande Mal, o Grande Satan-EUA.

Guerra em nome de Jesus

O debate sobre quem realmente representa a vontade de Deus é um dos debates que dois governos, de George W. Bush e de Barack Obama, atenta e dedicadamente trataram de evitar. Os EUA não estão em guerra contra o Islã per se, insistem os funcionários do governo. Mas, para os muçulmanos do outro lado do mundo, de pouco servem as repetidas negativas de Washington: a suspeita persiste, e não sem razão.

William Boykin
Veja-se, por exemplo, o caso do tenente-general William G. (“Jerry”) Boykin. Ainda na ativa, em 2002, esse oficial altamente condecorado do Exército falou, fardado, num congresso no qual se reuniam cerca de 30 igrejas e organizações religiosas, ocasião em que respondeu diretamente à famosa pergunta do presidente Bush: “Por que nos odeiam?” E o general tinha opinião bem diferente da opinião de seu comandante-em-chefe: “Eles nos odeiam porque somos nação cristã. Somos odiados porque somos nação de crentes fiéis” – discursou ele.

Noutra ocasião, o general recordou encontro com um senhor-da-guerra da Somália, que se jactava de ser protegido de Alá. O senhor-da-guerra estava redondamente enganado, declarou Boykin, e explicou: “Eu sabia que meu Deus era maior que o dele. Eu sabia que meu Deus é Deus de verdade. E o dele é só um ídolo”. Sendo nação cristã, Boykin esclareceu, os EUA só conseguiriam esmagar o inimigo se “nos erguermos contra eles em nome de Jesus”.

Quando as frases de Boykin chegaram às manchetes, choveram declarações do alto – da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono – todos aflitos para se desassociar dos discursos do general. Mas imediatamente começaram a aparecer sinais de que, embora com excessiva clareza, Boykin, sim, manifestava ideias que prosperavam na cabeça de não poucos de seus concidadãos.

Um desses sinais surgiu imediatamente: apesar do furor espalhafatoso, o general não perdeu seu importante emprego no Pentágono como vice-subsecretário de Defesa para questões de inteligência; sinal de que o governo Bush não vira, nas declarações do general, crime muito grave. Talvez Boykin tenha falado fora de hora; mas ofender alguém, não, não ofendeu. (Diferente seria, se um funcionário de alto escalão do governo dos EUA e fardado, dissesse, falando do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que “meu Deus é Deus de verdade; o dele é só um ídolo”).

Um segundo sinal apareceu imediatamente depois que Boykin aposentou-se do serviço ativo. Em 2012, o influente Family Research Council (FRC) em Washington contratou o general para o posto de vice-presidente executivo. Dedicado a promover “a fé, a família e a liberdade”, o FRC apresenta-se como órgão cristão enfático. Todos os peso-pesados do Partido Republicano são presenças frequentes nos eventos do FRC. A organização é parte do núcleo mais duro dos conservadores, tão constitutiva dele como, digamos, a American Civil Liberties Union é constitutiva da esquerda-esquerda.

Não há dúvidas de que é digno de registro que o FRC contrate, para a função de chefe de operações, um general que pensa e diz o que Boykin pensa e diz sobre o Islã. No mínimo, os que o contrataram nada viram de problemático, no modo como o general vê o mundo. Nada viram de politicamente indesejável, ou arriscado, em associarem-se ao Boykinismo. Boykin é gente deles. O mais provável é que, ao contratar Boykin, o FRC tenha querido enviar uma mensagem: nas questões nas quais o novo diretor é especialista – questões de guerra, sobretudo – o mais politicamente incorreto, declarado, é virtude.

Depois que o FRC adotou o general Boykin, uma coisa é certa: já não se pode – e será erro grave fazê-lo – reduzir a islamofobia nos EUA a qualquer simples minoria insignificante.

Joseph McCarthy
Como os apoiadores do senador Joseph McCarthy, que, nos primeiros tempos da Guerra Fria viam comunistas debaixo de cada mesa do Departamento de Estado, essa gente já se atreve a expressar abertamente suas ideias porque sabem que outros, em maior número, partilham as mesmas ideias. Dito de outro modo: o que, nos anos 1950s, os norte-americanos conhecemos como McCarthyismo, já reapareceu, sob a forma de Boykinismo.

Há divergência entre os historiadores sobre se o McCarthyismo foi uma perversão do anticomunismo ou sua mais perfeita tradução. Do mesmo modo, hoje, haverá quem discuta se o Boykinismo é apenas resposta ardente, ou completamente ensandecida, ao que há quem veja como “ameaça islamista”. Mas uma coisa é indiscutível: assim como o senador de Wisconsin em seus dias de glória incorporou um traço não trivial da política norte-americana, assim também acontece com o ex-agente-de-operações especiais e general “ordenado pastor com vocação para pregar o Evangelho de Jesus Cristo”.

Chama a atenção que, como líder supremo do Boykinismo, as ideias do ex-general são espantosamente semelhantes às do falecido senador. Como McCarthy, Boykin acredita que, se o inimigo externo é perigoso, muito mais perigoso é o inimigo interno: “Estudei a guerrilha marxista” – disse ele num vídeo de 2010. – “Foi parte do meu treinamento. E sei que tudo que é feito nos governos marxistas está sendo feito hoje nos EUA”. Comparando explicitamente os EUA governados por Barack Obama à URSS de Stálin, à China de Mao Tse Tung e à Cuba de Fidel, Boykin já disse que, sob o disfarce de reforma da saúde, o governo Obama está organizando uma “força militar que controlará toda a população dos EUA”. Será força maior que o exército dos EUA e funcionará como os Camisas Marrons de Hitler. E tudo aí, sob nossos narizes!

Boykinismo: o novo McCarthyismo

Quantos norte-americanos endossaram o delírio conspiratório que era o modo como McCarthy via a política nacional e mundial? Difícil saber com certeza, mas número suficiente para reelegê-lo ao Senado em Wisconsin, em 1952, com maioria confortável de 54% contra 46% de votos em seu concorrente. O que bastou para insuflar medo mortal no coração de muitos políticos, que estremeciam à simples ideia de serem acusados por McCarthy de serem “moles contra o comunismo”.

Quantos norte-americanos endossam as ideias igualmente incendiárias de Boykin? Número suficiente para persuadir os fundadores e financiadores do FRC a contratá-lo, confiantes de que a contratação promoveria, sem em nada denegrir, a marca do grupo. Com certeza, Boykin de modo algum compromete a capacidade do FRC de funcionar como usina de projetos da direita doméstica nos EUA. O recente evento “Cúpula dos valores do eleitor” promovido pelo FRC reuniu luminares, como o candidato a vice-presidente Paul Ryan, o ex-senador Republicano e candidato à presidência Rick Santorum, Eric Cantor, líder da maioria na Câmara de Deputados, e a deputada Michele Bachmann – além do próprio Jerry Boykin, que discursou sobre “Israel, Irã e o Futuro da Civilização Ocidental”. (No início de agosto, Mitt Romney manteve encontros privados com um grupo de “destacadas lideranças conservadoras”, entre os quais, Boykin).

A presença no evento do FRC significa que Ryan, Santorum, Cantor e Bachmann subscrevem os fundamentos do Boykinismo? Tanto quanto os que exploraram o momento do auge do McCarthyismo para extrair vantagens políticas – Richard Nixon, por exemplo – mesmo sem concordar com todos os delírios de McCarthy. Mas a presença de lideranças Republicanas em evento do qual Boykin é um dos conferencistas sugere que nada veem de especialmente objetável ou politicamente daninho, no que ele diz e prega.

As comparações entre o McCarthyismo e o Boykinismo param por aí. O Senador McCarthy fez seu inferno sobretudo no plano doméstico, pregando a caça às bruxas, destruindo carreiras e atropelando direitos civis, dando à política dos EUA ares ainda mais circenses que o habitual. Em termos de relações internacionais, o McCarthyismo só fez reforçar um consenso anticomunista que já havia no mundo. As loucuras de McCarthy não criaram inimigos em outros países, todos contra os EUA. O McCarthyismo simplesmente reafirmou que o inimigo eram os comunistas, e tornou ainda mais dificultosa a tarefa de exercer o pensamento crítico no campo político.

O Boykinismo, não. O Boykinismo tem impacto em todo o mundo. Diferente do McCarthyismo, não inspira medo algum a candidato algum, a cargo algum, aqui mesmo nos EUA. Atrair ou o apoio ou a ira do general Boykin não definirá o rumo de nenhuma eleição. Mas as várias manifestações de Boykinismo ajudam a alimentar o sentimento antiamericano no mundo islâmico. Reforçam a crença, entre os muçulmanos, de que a Guerra Global ao Terror é, isso sim, guerra contra eles.

O Boykinismo confirma o que muitos muçulmanos já tendem a crer: que os valores muçulmanos e os valores norte-americanos seriam irreconciliáveis. Presidentes e secretários de Estado dos EUA dedicam-se a repetir que o Islã é umas das maiores tradições religiosas e patrimônio imaterial da humanidade, e relembram as muitas ações militares que os americanos empreenderam para defender (pelo menos à primeira vista), povos muçulmanos. É mijar contra o vento, se se considera o que os EUA fazem hoje a iraquianos, paquistaneses, afegãos e outros povos do Oriente Médio Expandido.

Se nem nos EUA há número significativo de americanos que engulam o argumento ideológico inventado para justificar a intervenção dos EUA no mundo islâmico – invadir e ocupar e detonar e destruir, sim, mas respeitando a concepção de liberdade (inclusive a liberdade religiosa) dos muçulmanos – ainda muito menos os muçulmanos a engolem. Nesse sentido, os apoiadores do Boykinismo que rejeitam (até) aquela tentativa de argumento, estimulam os muçulmanos a odiar cada vez mais os norte-americanos. E assim, cada vez mais, reafirma-se a indispensabilidade da violência de forças armadas, forças especiais, forças clandestinas e outras, como único instrumento da política dos EUA no mundo islâmico. E continuam a reproduzir-se os erros e vícios que criaram e definiram a era pós-11/9.



Nota dos tradutores
*Do Urban Dictionary: Boykinism. Fanatismo religioso imbecil, que se expressa mediante ignorância da história mundial, de teologia e da história da Cristandade. É uma forma de terrorismo teológico do mais primitivo. Ocorre boykinismo quando um adulto pensa como criança em questões de religião. É uma doutrina da imaturidade religiosa e da incompetência. É palavra derivada do nome do tenente-general William G. (“Jerry”) Boykin (detalhes no texto). [verbete assinado por Kasala Djibwanda Musema Kweli].