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sábado, 7 de abril de 2012

Pepe Escobar: “Queremos guerra e tem de ser agora”


6/4/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Era tarde da noite, em algum ponto sobre a Sibéria, num voo de Moscou a Pequim (BRIC a BRIC?), quando a ideia surgiu-me como um raio e começou a ganhar corpo.

O que diabos, há de errado com aqueles árabes?

Talvez tenha sido o efeito narcotizante daquele eternamente sinistro Terminal F do aeroporto de Sheremetyevo – saído diretamente de um gulag de Brejnev. Talvez, a ansiedade, querendo descobrir mais sobre as manobras navais conjuntas Rússia-China, marcadas para o final de abril.

Ou foi só mais um caso de “você pode tirar o cara de dentro do Oriente Médio, mas você não pode tirar o Oriente Médio de dentro do cara”.

Com amigos como esses...

Teve tudo a ver com o encontro daqueles “Amigos da Síria” (os doidos por guerra?), em Istambul. Imaginem o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, Saud al-Faisal – que parece ter um dom especial para aquecer os instintos belicosos da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton – argumentando fervorosamente que a Casa de Saud, aqueles píncaros da democratização – teriam “um dever” de armar a oposição síria “revolucionária”.

E imaginem al-Faisal ordenando imediato cessar-fogo ao governo de Bashar al-Assad, culpado – segundo a Casa de Saud – não só por cruel repressão, mas também por crimes contra a humanidade.

Não, não é cena imaginada por Monty Python.

Para garantir que ordenhava a vaca certa, al-Faisal disse também que o Clube Contrarrevolucionário do Golfo, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), quer meter-se ainda mais na mesma cama, com os EUA. Tradução, se necessária: a equipe que leva a griffe EUA-CCG, como se viu pelo plano para armar até os dentes os “rebeldes” sírios, quer ir para o corpo-a-corpo com o Irã.

Para ambos (a Casa de Saud e o Qatar; os demais só fazem figuração no CCG), não se trata da Síria, na Síria: a coisa ali sempre foi o Irã.

Tem a ver especialmente com a promessa dos sauditas, de inundar o mercado global com produção extra de petróleo, da capacidade ociosa de extração que os sauditas dizem ter, e que qualquer especialista de petróleo que se dê ao respeito sabe que os sauditas não têm (ou que, se têm, não usarão); afinal, a Casa de Saud precisa muito de petróleo a preços altíssimos, para subornar a população da província do leste, e impedir que avancem, naquelas ideias alucinadas de Primaveras Árabes.

Clinton obteve a promessa da Casa de Saud em pessoa, antes de pousar em Istambul. O presente-retribuição de Washington foi presente à moda Pentágono: o Conselho de Cooperação do Golfo passará em breve a ser protegido do “demônio” iraniano, mediante um escudo de mísseis fornecido pelos EUA. Isso implica que se pode descartar qualquer ataque ao Irã em 2012 – mas com certeza estará “sobre a mesa” em 2013.

Nações asiáticas – especialmente os países BRICS China e Índia – continuarão a comprar petróleo do Irã; problema é, só, o que farão os poodles europeus. Outros problemas reais são os curdos do norte do Iraque, que estão tirando seu petróleo do mercado até que Bagdá pague a parte que ficou acertado que pagaria. E lá estão os 400 mil barris/dia da Síria, desperdiçados nos últimos meses.

Mesmo assim, os sauditas continuarão a brincar nesse faz-de-conta-que-temos-petróleo, como presente oferecido a Washington – e em troca os EUA pressionam as economias dos poodles europeus servis e alguns asiáticos muito desconfiados, insistindo em que não teriam qualquer razão para continuar comprando petróleo iraniano.

Pois foi quando, nessa confusão em Istambul, o primeiro-ministro do Iraque, Nuri al-Maliki – cujo poder é hoje consequência direta de os EUA terem invadido e destruído o Iraque – entrou em cena e provocou um terremoto.

Eis o que disse, palavras dele:

“Rejeitamos qualquer arranjo para armar [os rebeldes sírios] e todo o processo para derrubar o regime [Assad], porque isso levará a uma crise muito maior em toda a região (...) A posição desses dois estados [Qatar e Arábia Saudita] é estranhíssima (...). Querem meios para mandar mais armas para lá, em vez de tentar apagar o fogo. Então, que ouçam nossa voz: o Iraque é contra armar os rebeldes e contra qualquer tipo de intervenção estrangeira (...). Somos contra a interferência de alguns países em assuntos internos da Síria. Esses países que agora estão interferindo em assuntos internos da Síria logo estarão interferindo em assuntos internos de qualquer país (...). Já tentam derrubar o governo de Assad há um ano, e o governo não caiu. E não cairá. E por que deveria cair?[1]

Maliki sabe muito bem que o processo, já em andamento e de fato já em escalada, de armar os sunitas sírios – muitos são salafistas, do tipo jihadistas – fatalmente respingará sobre o próprio Iraque, e ameaça o governo de maioria xiita. E, isso, ainda sem considerar que seu governo apoia a íntima relação que liga Irã e Síria.

Maliki, vale lembrar, voltou ao poder no outono de 2010, porque Teerã operou habilmente para assegurar que os sadristas o apoiassem. Para aumentar a fúria de Maliki, o Qatar tem-se recusado a extraditar o vice-presidente do Iraque, Tareq al-Hashemi, acusado de chefiar um golpe de estado pró-sunitas em Bagdá.

Como era verde o meu Jihad-vale...

O que quer dizer que Washington está agora embarcando alegremente num remix da jihad afegã dos anos 1980s – a qual, como sabem todos os grãos de areia, do Hindu Kush à Mesopotâmia – levou ao surgimento da Al-Qaeda, entidade fantasmagórica, e ao subsequente Transformer, a “guerra ao terror”.

A Casa de Saud e o Qatar institucionalizaram aquela turba conhecida como Exército Sírio Livre, como griffe mercenária: está já na folha de pagamento, ao custo de $100 milhões, só até agora. A democracia não é mesmo linda – quando as monarquias do Golfo aliadas dos EUA, só com uns trocados, conseguem comprar um exército de mercenários? Não é fantástico ser revolucionário, com salário garantido?

Sem perder tempo, Washington também já criou sua própria linha de pagamento, para garantir assistência “humanitária” aos sírios, e ajuda “não letal” aos “rebeldes”. Por “não letal” entende-se um equipamento de comunicações por satélite adaptado para combate, além de óculos para visão noturna. A versão Clinton-sedosa diz que o equipamento permitirá que os “rebeldes” consigam “escapar” dos ataques do governo sírio. E não diz que terão acesso à inteligência que os EUA oferecem, graças a um enxame de aviões-robôs, drones, que já congestionam os céus da Síria.

Maliki está vendo claramente o que qualquer um vê escrito no muro (sunita). A Casa de Saud invadiu o Bahrain de maioria sunita, para proteger a dinastia sunita al-Khalifa no poder, extremamente impopular – “primos” dos sauditas. Maliki sabe que Síria pós-Assad significaria os sunitas da Fraternidade Muçulmana síria no poder – com salpicos de jihadistas salafistas. Em seu pior pesadelo, Maliki vê esse possível futuro distópico como remix & esteroides de uma al-Qaeda no Iraque.

Eis aí no que deu aqueles “Amigos da Síria” from Istambul: a despudorada legitimação, por árabes aliados aos EUA, de uma guerra civil, em mais um país árabe. As vítimas, dessa vez, serão os sírios comuns apanhados no fogo cruzado.

Essa guerrificação e farta distribuição de armas promovida por EUA-CCG liquefaz completamente o plano de paz, de seis pontos, do enviado da ONU à Síria, o ex-secretário geral Kofi Annan. O plano propõe um cessar-fogo; que o governo sírio faça cessar “o movimento de tropas” e “inicie a retirada das concentrações militares”; e o início de negociações para um acordo político.

Não haverá cessar-fogo. O governo Assad aceitou o plano. Os “rebeldes” hiper armados rejeitaram. Imaginem se o governo sírio iniciará alguma “retirada de concentrações militares”, enquanto “rebeldes” hiper armados e mercenários de todos os tipos (vindos da Líbia, do Líbano e do Iraque) continuam a matar e torturar, mantendo fogo de barreira de dispositivos explosivos improvisados.

Cheguei a Pequim, querendo saber mais sobre os próximos exercícios navais conjuntos de China e Rússia, no Mar Amarelo. Em vez disso, fui surpreendido por coluna assinada por Henry Kissinger publicada no Washington Post [2] [e, é claro, também, imediatamente, n’O Estado de S. Paulo  [3]].

A Primavera Árabe é apresentada como revolução regional, de jovens, em nome dos princípios liberais democráticos. Mas não na Líbia, onde essas forças não governam; a Líbia, praticamente, já nem é Estado. Tampouco o Egito, onde os eleitores são, na maioria, (e talvez para sempre) islâmicos. E nada leva a crer que os democratas predominem, na oposição síria.

O consenso da Liga Árabe sobre a Síria não foi modelado por países conhecidos pela prática ou defesa da democracia. Em vez disso, o que se vê na Síria é o conflito milenar entre xiitas e sunitas, com os sunitas exigindo o poder sobre uma minoria sunita. É exatamente o mesmo que acontece onde há tantos grupos minoritários, como drusos, curdos e cristãos: todos inquietos ante a mudança de regime na Síria. (Nisso, pelo menos, Dr. K, especialista em China, acertou – e concorda integralmente com Maliki, nada mais nada menos).

Um vasto exército mercenário pago por árabes autocratas para derrubar governo árabe é posto como pura e simplesmente “mudança de regime” – apesar de toda a retórica norte-americana sobre “democracia” e “liberdade”. 

Kissinger volta, nada mais nada menos, que à velha conversa do dividir para governar: e obra para jogar sunitas contra xiitas.

E foi quando meu divino pato laqueado revelou que o Dr. K, esse campeão da realpolitik, não está encontrando muito eco em Washington, nos últimos tempos.



Notas dos tradutores 
[1] 1/4/2012, no Al-Arabiya,em: “Syrian regime will not fall: Iraqi PM
[2] Em 30/3/2012,no Washington Post, em: “A new doctrine of intervention?
[3] N’O Estado de S.Paulo, em: “Visão Global: Nova política de intervenção” (trad.)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Hezbollah e a revolução árabe

21/6/2011, Larbi Sadiki, Al-Jazeera
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu

“Esse artigo poderia ser escrito por qualquer ongueiro metido a “ético”, desses que nada entendem de nenhuma luta política, acreditam que a revolução seja um convescote e que o ex-FHC seja intelectual de renome.
Claro que a resistência pacífica é mais confortável, segura, limpinha e desejável que a resistência não-pacífica.
Mas essa não é escolha que se faça em botecos da Vila Madalena ou de Ipanema.
Se Nasrallah mandou os caras apoiarem Bashar, é porque ele sabe que agora, na Síria, trata-se de não perder tudo. Então, estou com Nasrallah e Bashar. Mas o artigo é interessante porque, embora faça o discurso metido a “ético” do onguismo universal metido a “pacifista” (sempre muito arrogante!), também consegue explicar com alguma precisão o que é o Hezbollah – o que, no Brasil, NINGUÉM sabe fazer. Meu voto é: traduza-se a coisa! A luta continua.” 

Anunciado por milhões de seguidores como “o mentor da resistência” - e demonizado por EUA e Israel como um “terrorista”, a retórica Sayyed Hassan Nasrallah em direção à Síria é igualmente divisionista. [GALLO / GETTY]
O que está acontecendo com o Hezbollah? [1]

O movimento cresceu da ignomínia e da exclusão, da exploração feudal, do viés sectário e ocupa hoje o centro da política libanesa. Em menos de 30 anos, converteu a absoluta insignificância sociopolítica dos xiitas, em contrapeso político decisivo.

Enfrentou o Golias israelense. Sobreviveu aos “incêndios” lançados por políticos árabes que se uniram contra ele, de Amã ao Cairo. Superou os inimigos dentro e fora do Líbano, com política imaginativa e afinada análise política, contra todas as expectativas.

Agora, enquanto resiste ao Golias de Telavive, mas abraça o leão de Damasco, o Hezbollah – Partido de Deus – expõe-se ao risco de ver encolher o compromisso com a revolução árabe e com o próprio passado revolucionário.

Sayyed Hassan Nasrallah: nascido da revolta

Muitos líderes políticos nascem dentro de partidos já existentes. Com Sayyed Hassan aconteceu o contrário: nasceu quatro anos antes de o Hezbollah ser fundado

Mas sempre esteve próximo da revolta dos palestinos e dos iranianos. Sua liderança foi concebida no seio da revolução iraniana.

Aos 21 anos, Nasrallah foi saudado como estrela em nascente pelo falecido Aiatolá Khomeini em Jamaran Husseiniyyah, Norte de Teerã, em 1981. O jovem Nasrallah estava acompanhado de companheiros-em-armas do Amal, outra organização política xiita, e a discussão centrou-se em meios para apoiar a causa palestina e derrotar as potências suprematistas ocidentais. 

Impressionado com o jovem Nasrallah, Khomeini selou a liderança de Sayyid Hassan, ao consagrá-lo e dar-lhe autoridade para coletar e distribuir as taxas religiosas conhecidas como hisbiyyah – inclusive o khums (um quinto de todos os ganhos ou lucros) e o zakat (espécie de imposto islâmico obrigatório, de traços redistributivos).

Khomeini sempre foi muito seletivo, além de frugal, na distribuição das funções do hisbiyyah, funções que não foram do primeiro-secretário geral Subhi al-Tufaily até 1987 e nem de seu sucessor, Sayyid Abbas Musawi, mentor do jovem Nasrallah, em 1986.

Além disso, o papel de Nasrallah foi definido também pelo gesto de Khomeini, que se dirigiu ao jovem chamando-o de "Hojjat al-Islam", título de reconhecimento de superior formação intelectual.

Musawi, que foi professor de Nasrallah no seminário de estudos islâmicos de Najaf, e depois seu mentor no posto de secretário-geral de Hezbollah até ser assassinado em 1992, também via o potencial do jovem Nasrallah como liderança política. Os dois homens foram ligados por profunda camaradagem pessoal, política e intelectual. Ligaram-se e depois desligaram-se do grupo Amal, depois o combateram, e dessas lutas criaram, com outros, uma pequena falange de combatentes zelosos e eficientes que, adiante, se converteria em formidável organização política e militar – o Hezbollah.

“O Che Guevara do Líbano” 

“Deus seja louvado. Deus escolheu um mártir de minha família, ofereceu-nos o dom do martírio e assim nos incluiu na comunidade de famílias dos Santos Mártires”. Com essa fala, Sayyed Hassan enterrou seu filho mais velho, Hadj, morto em combate contra Israel, em setembro de 1997.

No mesmo discurso, Nasrallah agradeceu a Deus a graça de, pelo martírio de Hadj, tê-lo posto, com toda a família, em condições de igualdade com todas as famílias que perderam filhos na luta contra Israel.

A história de Nasrallah merece ser conhecida em detalhes, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque Sayyed Nasrallah, no comando político do Hezbollah, rapidamente estabeleceu contato direto e profundo com o eleitorado árabe, porque sempre agiu, pensou e falou como árabe, igual aos mais pobres: conheceu a pobreza, combateu em armas e consistentemente comprometeu-se, também pessoalmente, com os ideais que sempre pregou como pregador muçulmano.

Em segundo lugar, mas não menos importante, e especificamente no que tenha a ver com o triste grupo de líderes árabes que, um a um, estão sendo varridos pela grande revolta árabe de 2011, Nasrallah é caso único: nenhum dos privilégios que os demais líderes árabes fizeram chover sobre as próprias famílias, filhos e filhas – da Líbia à Síria – jamais foram aceitos pelo Hezbollah.

Hadi Nasrallah é mártir da luta contra Israel. Não foi jamais um Saif Gaddafi nem um Gamal Mubarak; e um primo de Nasrallah, Hashim Safi Al-Din, que desde novembro de 2010 comanda a região do sul do Líbano não é algum Rami Makhlouf, conhecido e corrupto bilionário sírio.

“A voz e oráculo dos oprimidos” 

Para mim, dois leitmotifs explicam o Hezbollah: a luta contra a miséria e as carências sociais; e a resistência. Ambos aparecem sempre associados. E ambos ajudaram intelectuais e pensadores políticos como Raghd Harb, e antes dele Musa Al-Sadr, a construir o empoderamento político dos xiitas, traçando uma impressionante trajetória política, pela resistência contra a miséria e as carências dos mais pobres. E a luta de resistência contra a ocupação israelense.

No primeiro manifesto político do Hezbollah, de 1985, “A Carta Aberta” ["al-Risalah al-Maftuhah"], ainda ressoa a retórica de Che- Khomeini: contra o imperialismo, na defesa “dos oprimidos”, “dos mais pobres”, com “justiça”, “autodeterminação” e “liberdade”.

O mar de gente que vi em agosto de 2006, que acorreu para saudar e ouvir Nasrallah depois da guerra de 34 dias contra Israel, foi atraído por essas mensagens. E como naquele dia, acontece ainda hoje. E milhões de árabes o ouvem com reverência, de Rabat a Sana'a.

A oratória de Nasrallah na “Promessa Divina” [al-Wa'd al-Sadiq] quando falou a centenas de milhares de pessoas, foi empolgante – como sempre, o oráculo dos excluídos e humilhados, um gigante, contra a injustiça e a ocupação. No mantra de Nasrallah – a resistência como instrumento para mudar, muqawamah, os pobres encontram consolo e força, uma espécie de redenção, e esperança e força para se reconstruírem como iguais, como seres humanos livres.

Por isso, em 2006, como em 2000, quando Israel foi obrigada a retirar-se do sul do Líbano ocupado, Nasrallah foi envolvido numa onda gigantesca de popularidade pan-árabe e pan-islâmica que o mundo árabe não via desde a morte de Nasser, em setembro de 1970. Um líder de uma seita islâmica minoritária xiita substituiu o sunita Nasser, como encarnação da resistência e da luta por liberdade e igualdade.

Inspirado pelo Imã Khomeini, Nasrallah modernizou o Hezbollah e articulou um projeto político de empoderamento das massas pobres, transformando a Ashura e todo o imaginário da Karabala em potente conjunto de ideias para reinventar, não só a identidade política, mas também a identidade xiita no Líbano.

O Hezbollah e a revolução síria 

Vinda do homem que para milhões de muçulmanos é “o braço e a alma da resistência”  – e o “Che Guevara muçulmano”  – demonizado pelo Congresso dos EUA e por Israel como “terrorista”, a retórica de Nasrallah sobre o regime sírio surpreende por pelo menos dois motivos.

Primeiro, porque a resistência não é divisível. Resistir é resistir, seja a um opressor colonial seja a um ditador local que, no caso da Síria, ocupa estado. Tampouco a liberdade é divisível. Resistir é lutar por liberdade, na Palestina e no Líbano ocupados, ou na Síria ou Iêmen ocupados por ditadores.

Nasrallah foi dos primeiros que manifestou apoio às revoluções no Egito e Tunísia e, mais tarde, aos xiitas que foram às ruas protestar contra a marginalização no Bahrain. Mas não apoiar o levante na Síria – porque o regime apóia amuqawamah e opõe-se ao imperialismo norte-americano e a Israel – é falar com duas línguas.

Na Síria, são as massas que sempre apoiaram a resistência do Hezbollah. A dinastia Assad pouco tem a ver com isso. Além do mais, por razões ou interesses específicos, os Assads apóiam a resistência em Gaza e no sul do Líbano – mas não nas colinas do Golan. Um dia os Assads desaparecerão para sempre. Os sírios lá estarão, sempre. 

Síria: a disputa entre Maher e Bashar

Em segundo lugar, Nasrallah não precisa do apoio do regime sírio – embora, no discurso de maio, Nasrallan tenha manifestado tanto apreço ao povo sírio quanto preocupação com a estabilidade.

Em 2006, em momento de muita sabedoria, Sayyed Hassan disse aos líderes da Jordânia e do Egito, que segurassem a língua e não criticassem o Hezbollah em momento tão crítico – quando no sul do Líbano e em al-Dahiya o Hezbollah enfrentava a chuva de bombas israelenses. O silêncio teria sido mais eloquente também agora, em vez de falar a favor de um regime que, hoje, é culpado de ataque brutais contra cidades e populações sírias.

Os sírios, nas ruas, estão dizendo eloquentemente que desejam uma Síria do povo, para o povo e pelo povo. Não uma dinastia. Há dúvidas sobre se o atual regime ainda conta com o apoio da maioria – Nasrallah parece ter informações que indicam que não, ou não teria falado a favor do governo sírio.

As revoluções árabes tem sido como referendos, em países onde não há eleições e, quando há, têm resultado antecipadamente resolvido.

Tampouco se sabe se Bashar al-Assad ainda está no comando – ou se já é presidente pato-manco, sem poder, completamente controlado por seu irmão mais jovem, Maher, e os asseclas de seu cunhado Asef Shawkat. Se assim for, Bashar já não pode ajudar a muqawamah do Hezbollah no Líbano, como já não pode defender nem os próprios sírios.

É possível que Bashar represente a face melhor da política síria – como pareciam indicar os planos de reformas. Mas o que garante que seja assim, se as reformas jamais acontecerem? Além do mais, hoje que fala grosso na Síria são os tanques de Maher.

Bashar ainda estará no comando? Se estiver, ainda pode conter os massacres comandados por seu irmão Maher.

Hirman – marginalização e miséria 

Os pobres e humilhados do Líbano, inclusive a população xiita, sabem bem o que significam o hirman – marginalização e miséria. Por isso, foram os primeiros a associar-se à revolução árabe.

A linguagem da resistência contra a marginalização e a miséria são laço inquebrável que une os miseráveis das ruas de al-Dahiya al-Janubiyyah e Sidi Bouzid, Dar'aa, Taiz ou Imbaba. Sayyed Hassan Nasrallah sempre manteve o ouvido colado ao chão, atento ao eco dos passos dos mais pobres, dos despossuídos, dos humilhados. Essa sensibilidade é a fonte de onde brota o poderoso arsenal moral do Hezbollah, que não depende de seus mísseis e grandes vitórias militares.

Temos de esperar que Nasrallah reencontre aquela sensibilidade e aquela linguagem, e que corrija o que disse, em apoio a Bashar Al-Assad. Que aconselhe aos sírios reformas radicais, governo eleito, como se lê na “Carta Aberta”, o manifesto do Hezbollah de 1985. Só assim voltará a conectar-se ao ethos da resistência pacífica, como direito dos pobres e humilhados. Em política, nunca é tarde para redescobrir essa via. 




Nota de tradução

[1] Esse artigo está relacionado à fala de Hassan Nasrallah, do Hezbollah, dia 25/5/2011, no qual pediu aos sírios que apóiem o presidente Bashar al-Assad e aceitem o diálogo com o governo, para por fim aos confrontos na Síria. “Bashar fala com seriedade sobre fazer reformas, mas tem de fazê-las gradualmente. Os sírios devem apoiá-lo nesse projeto” – disse Nasrallah, em fala transmitida por televisão. Foi a primeira vez que Nasrallah referiu-se à situação do governo de Assad na Síria, tradicional aliado do Hezbollah. Nasrallah condenou as sanções que EUA e União Europeia aplicaram contra Assad e outros membros de seu governo e disse que o Hezbollah (que participa do governo do Líbano) rejeitará qualquer movimento do governo libanês para implementar aquelas sanções. Disse também que o Hezbollah apóia o governo sírio, que sempre apoiou “os movimentos de resistência” na região (há matéria sobre a fala de Nasrallah, em: Nasrallah calls on Syrians to support Assad.