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sábado, 15 de setembro de 2012

A Utilidade da Literatura



Chico Soares, Canhoto da Paraíba 

Publicado em 11/09/2012 por Urariano Motta*

Em um dia distante, as letras já foram chamadas de belas letras. E apesar de assim se chamarem, de belas, e para melhor belo belo terem como objeto a beleza, nem assim defenderam à altura os seus cultivadores. O poeta Geraldino Brasil, que bem conhecia o tratamento dado aos escritores, assim viu como são recebidas as belas letras na boa sociedade:

CLASSE MÉDIA

Um médico.
Ótimo na família.
Um executivo.
Ótimo.
Um engenheiro
Um arquiteto
Um magistrado.
Ótimo.
Um poeta.
Melhor na família dos outros.

Mas falar nesse tom, irônico e apolíneo, infelizmente não nos serve. Bem que eu gostaria de continuar nesse diapasão, para, defendido pela paciência e método, construir um discurso sobre a serventia da literatura.

E para melhor estilo, o que sempre impressiona, concluir por sua absoluta inutilidade. Mas deixemos de lado esses maneirismos de elegância e falsa altura. Deixemos, porque, meus amigos e inimigos, este artigo é sobre a grande, absoluta e imprescindível utilidade da literatura.

Falarei apenas do que sei, falarei apenas do vivido. Nada do que adiante se escreve foi copiado, ocorrido a outros, em outras vidas ou experiências. Falarei apenas da minha própria, miserável ou medíocre, pouco importa.

Minha primeira impressão prática, material, das letras me veio na adolescência.

Eu tenho um amigo, eu tenho um inimigo (e assim deveríamos nos referir sempre aos amigos, pois em circunstâncias históricas estão do nosso lado, ao nosso lado, e em outras mudam de lado e amizade), eu tenho um amigo que um belo dia me pediu uma redação. Não lembro do tema, desconfio que era sobre a Ciência e o Nordeste Brasileiro. Lembro do real motivo que me moveu: meu amigo, meu inimigo, se achava em dificuldade, porque a depender daquela redação ele seria aprovado ou reprovado em português, no terceiro ano do que então se chamava curso científico.

Movido, pois de bom espírito, escrevi sobre o tema com a inexperiência dos meus 18 anos, e invoquei Prometeu e seu fígado para fortalecer as precárias linhas que deveriam unir a mais avançada ciência ao Nordeste do Brasil.

Soube muitos anos depois, quando a minha própria necessidade material não era das mais nordestinas de Vidas Secas, que aquela redação servira para meu amigo ganhar um prêmio. A redação tinha sido para um concurso no colégio, e ele assim pôde andar pelas noites do bairro com uma belíssima camisa, fruto do primeiro lugar alcançado com o fígado de Prometeu e meu suor. E melhor lembro da sua argumentação, para justificar o ato com palavras dignas de outros gregos, os sofistas:


– O prêmio era somente uma camisa. Uma e somente uma, e dois eram pobres necessitados.

Como é que eu ia dividir o prêmio? Eu podia cortar a camisa no meio com uma tesoura? 

Era justo. A sorte e a esperteza não escolhem cara. Os que não são espertos apenas possuem a favor a persistência, e um prudente afastamento dos abençoados da sorte. No entanto, poucos anos depois, narrei uma aventura vivida com esse mesmo amigo num prostíbulo, na forma de um conto, sob o nome de Uma noite na Bahiana. Publicado na Revista Ficção, editada por Fausto Cunha, misturado a Millôr Fernandes e Fernando Sabino como joio no trigo, o conto rendeu um pagamento melhor que uma camisa, pois até hoje rende uma certa alegria, e sorrisos, em quem o lê.

Pois bem, até aqui, está visto, falei do que me aconteceu, mas não uni a própria e miserável experiência ao título do artigo.

Qual é mesmo a utilidade da literatura? De um ponto de vista estrito de grana, de moeda que compra alimento, álcool, camisa que sirva além do corpo de quem escreve, que vá além da vaidade do autor, existe alguma utilidade na literatura? Existe algo nela que diga somos todos humanos, e o reino da felicidade que venha a ser a socialização da carne do espírito? Existe nela algo que, sem cair dos objetos mais nobres, chame a atenção para que a poesia tem um poeta em estado de necessidade, e por isso lhe traga um pouco mais de carinho e pão?

Sim, sim, sim, e sim. Aqui eu deveria encerrar. Mas se assim faço, fica a parecer uma profissão de fé, de crença fanática e cerrada nas letras, de um romântico suicida e mais nada. Por isso, convido-os a ler a crônica Oração por Chico Soares, Canhoto da Paraíba. E esqueçam, por favor, o gênero do escrito, se é um artigo jornalístico, se é uma crônica, se é uma oração, se é uma beatice, se é um poema em prosa, ou se é uma pura, simples e reles apelação. Esqueçam gênero, limite e autor, que, saibam, é imensamente inferior, para não dizer, ou dizendo melhor, não existe diante da imensa pessoa e arte e má sorte do violonista Canhoto da Paraíba.

E saibam então que a literatura, mesmo quando se traveste de artigo, de crônica, de má literatura, de oportunismo e apelação, saibam que a literatura tem utilidades, práticas, ao largo e além de quem escreve. Assim digo porque, depois que a Oração por Chico Soares, Canhoto da Paraíba foi transmitida no dia 7 de setembro de 2004 pela Rede Globo de Televisão, no programa Mais Você, de Ana Maria Braga, a sorte de Canhoto mudou um pouco.

Dirão, os amigos: “o que dizes da literatura, para chamar a atenção para a tua crônica, enquanto finges falar de outro…”, dirão os amigos, “o que dizes da literatura, do seu poder de melhorar a sorte de outros, nada mais é que o extraordinário poder da Rede Globo de Televisão”. E concluem, ou melhor respiram, para melhor desferir: “Canhoto continuaria igual, por tua crônica, se Ana Maria Braga não tivesse entrado no circuito”.

A estes amigos respondo: já não é uma grande coisa que um texto, publicado na Internet, tenha recebido essa divulgação? Já não é, para usar o mote da Oração, em si mesmo um milagre? Outros, mais cautelosos, ou mais inteligentes, perguntam: “Como você conseguiu isso? Qual foi a fórmula de aparecer no Mais Você?”, o que é o mesmo que perguntar: “Quais instrumentos sórdidos, baixos, muito espertos, você usou para conseguir tamanha divulgação?”. Esqueçamos de responder a tão alta pergunta, assim como não respondemos àqueles que nos restringem com um: “Como é que pode um ateu, um materialista, pedir socorro à Santíssima Virgem Maria?”. Existe, acreditem, esse gênero de restrição.

Passemos ao que importa.

Depois do texto, o violonista Canhoto da Paraíba recebeu uma pensão do Governo da Paraíba, pensão pequena, é certo, de dois salários mínimos, mas pensão, que antes ele não possuía. Existe agora a Lei Canhoto da Paraíba, para beneficiar os artistas paraibanos que se encontram em situação semelhante à dele. É pouco ainda, mas nesse quase nada, músicos visitaram a sua casa, e para ele fizeram um sarau, somente para ele, em sua cadeira de rodas. Ele, o mesmo artista que sozinho, numa noite de aguaceiro forte em Maranguape I, na periferia do grande Recife, quando eu queria sair, me reteve com um pedido:

– Não vá agora não. A chuva passa.

Foi pouco, mas antes da crônica, Canhoto já era tido como um artista morto.

Está aí para que serve a literatura. Para sair na Rede Globo de Televisão, para ser lida como um poema no Mais Você, para fazer de Ana Maria Braga uma atriz. Para no dia 7 de setembro de 2004, Vitória, a filha do violonista, ligar para um ateu e dizer: “O governador da Paraíba acaba de ligar. Papai vai receber uma pensão”. E ouvir, como resposta: “Este é o melhor 7 de setembro da minha vida”.

Assim o autor disse porque não poderia na voz dizer: obrigado, amiga, acabas de me anunciar para que serve a literatura. Para diminuir um pouquinho que seja o sofrimento e a dor de toda a gente.
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Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). 

Texto enviado pelo autor


segunda-feira, 19 de março de 2012

Oração por Chico Soares, o “Canhoto da Paraíba”


Fecho os olhos, para melhor falar, abro-os e ergo-os para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isto mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.

Publicado por *Urariano Mota em 19 de março de 2012 

 
Chico Soares, o "Canhoto da Paraíba"

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba. 

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos.

Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada.

(É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?).

Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado dessa referência, ao ser encontrado na Avenida Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz do sol, como uma criança que se descobre despida em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

E dessa maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente.

Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade da sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar estas desrazões:

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro: 

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não esta terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isso, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isso já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disso ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. 

Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. 

Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será! Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação. 

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia da sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. 

Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo; e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente. 

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.


*Urariano Motta é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado pelo autor

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Última conversa com Canhoto da Paraíba

 

Publicado em 20/04/2011 por Urariano Mota

No próximo domingo, faz três anos que o gênio do violão Canhoto da Paraíba partiu.

Lembro da última vez em que o visitei.

Naquele dia, Canhoto da Paraíba estava com 81 anos, sentado em uma cadeira, como sempre esteve durante 16 horas, todos os dias em seus últimos três anos. Depois de um AVC, ele falava com dificuldade e baixo. Eu havia ido à sua casa como portador de um presente, os CDs Vale dos Tambores, do compositor e intérprete Carlos Henrique Machado. 

Descobri dessa vez que ele via mal por somente uma das vistas. Mas Canhoto era um homem com mania de felicidade. O seu prazer era sorrir, procurar o sorriso, buscar a felicidade. Ele sofria, claro, ele percebia o sofrimento, mas isso não o levava ao desespero. Naquele domingo, carregava comigo meio litro de uísque, para beber enquanto ouvisse os choros de Carlos Henrique Machado. Então eu pedi à sua filha Vitória um copo com gelo. Que fez Canhoto? Pediu um também, porque desejava me acompanhar na bebida. Mas Vitória, filha, secretária, enfermeira e companheira repôs a nossa alegria no quintal da realidade:

- Ele não pode beber, por causa do remédio. Ele toma Gardenal.

Então eu, o caridoso – e a caridade se confunde com a crueldade em mais de uma rima – levei o meu copo de uísque a seu nariz, para que ele, se não podia beber, pelo menos sentisse o aroma do álcool no domingo. O diabo era que ele, gripado, estava com as narinas cheias de vick. O frustrado, acreditem, fui eu. Canhoto, não, ele foi do desejo de me acompanhar à paciência de viver com o que era possível. E por isso, para não afrontá-lo com a minha temporária saúde, bebi menos, somente três doses, em respeito a seu estado. E assim melhor pude ver e observar a sua pessoa.

Aos primeiros acordes do choro Canto dos Quilombos ele sorriu. Melhor dizendo, pôs um sorriso que não voltou a se fechar nos lábios. Então entraram o cavaquinho, o bandolim, os violões. Para quê? Como é que se podia ser infeliz a ouvir uma composição assim? Não sei se descobri a pólvora, mas Canhoto era feliz porque era um homem musical. Ele retirava do som o remédio para a desgraça.  Porque a sorrir ele se pôs a balançar a cabeça também, a dizer e a se repetir “sim” em silêncio. Então eu senti que ele estava liberto. Ele não estava mais naquela cadeira, ou melhor, estando sentado nela, a cadeira era um objeto de profundo conforto. Era como estar na dor e integrar a dor em algo maior, em outro lugar, onde a própria dor não tem razão, como canta Paulinho da Viola. Então ele comentou, baixinho, à sua maneira, mas com um ar no rosto que não admitia outra frase:

- Como tem gente boa no Brasil. 

E dessa vez fui eu que balancei a cabeça. Vieram outros choros, até chegar na composição Catira. E ele, esquecido do nome do artista que ouve:

- É João Pernambuco?

- Não, Canhoto, é Carlos Henrique Machado, eu lhe respondi.

Senti que ele não me via, não mais pela falta de visão, mas porque a ausência de luz era um elemento para sua viagem. E ele estava mais que certo, não era uma ilusão, um escapismo, como qualquer idiota de manual podia escrever. Aquilo era típico da arte: fazer do circunstancial um elemento de composição, sempre. Na dor, na alegria, na felicidade, no sofrimento, no riso, na raiva - tudo era matéria para a expressão.

Mas isso que acabo de escrever, no calor do que percebo agora, ele sabia sem conceito cerebral, ele sabia por sentimento, a balançar a cabeça e a sorrir. Impossibilitado que estava de ele próprio executar a beleza, com as suas gordas e canhotas e generosas mãos – porque era todo esquerdo, agora sinto, o que nele era destro era apenas auxílio para o outro lado -, ele passou a compor de outra maneira, enquanto acompanhava os movimentos do choro do CD. Então eu percebi que Canhoto estava tocando! Acreditem, porque eu vi Canhoto a executar o violão, apesar do AVC, tocando. Como? – Ele estava com uma das pernas cruzada, posta sobre o joelho. Com a mão esquerda, imóvel, repousada em um braço da cadeira, com a direita ele marcava posições de acompanhamento na tíbia, no tornozelo!

Essas coisas a gente vê e deve olhar para o outro lado em sinal de respeito. Mas era irreprimível. Ver as notas a correr com o polegar, com o médio, o indicador, em marcações imaginárias em uma tíbia que se transformara em braço de violão. Eu bebi e silenciei ali, como silencio aqui.

O mais que escrever será inútil.

Enviado por Direto da Redação