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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Os ricos cada vez mais ricos

6/5/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch
Titanic Stock Bubble Fueled by Buyback Blitz – The Rich Get Richer
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bolha tamanho Titanic no mercado de ações: o assalto de recompra

 
New York Stock Exchange - NYSE
Por que as ações continuam sempre em alta, agora que o dinheiro especulativo voou para outras paragens e a economia dos EUA estagnou?

Segundo Marketwatch:

Pela oitava semana em sequência, fundos mútuos de longo prazo viram mais dinheiro saindo de ações norte-americanas para ações internacionais, segundo o Investment Company Institute. (...) Para a semana que terminou em 22/4/2015, saíram US$ 3,4 bilhões de fundos mútuos de longo prazo (...). No ano, até aqui, a saída líquida para ações norte-americanas é de US$ 13,79 bilhões, e a saída para ações internacionais é de US$ 41,12 bilhões.

Esses números contudo não incluem fundos cambiais. Só em abril, fundos mútuos e fundos cambiais focados em ações internacionais tiveram influxo de US$ 31,8 bilhões líquidos, e saída de US$ 15,4 bilhões, segundo . (Why U.S. stocks are near highs even as fund investors flee) [Por que as ações norte-americanas estão no pico, apesar da fuga dos fundos de investimento], Marketwatch).

Assim sendo, se os pequenos investidores estão mudando o dinheiro deles para Europa e Japão (para aproveitar as vantagens do “afrouxo monetário” [orig. Quantitative Easing, QE]), e os sinais vitais da economia dos EUA continuam indetectáveis (o PIB do primeiro trimestre chegou ao fundo do abismo dos 0,1%), nesse caso por que as ações continuam a apenas 2% do pico mais alto de todos os tempos?

Resposta: a recompra de ações.

Dirigentes Corporativos: - Continue enchendo!
Investimento Imobiliário: - Pense em lucros de curto prazo!
Especuladores: - E não pense em 1929!

A política monetária super-super acomodatícia do Fed de Bernanke criou um ambiente no qual os altos executivos e grandes empresários de grandes empresas podem tomar emprestado caminhões de dinheiro pagando as taxas mais baixas da história, e, na sequência usam o mesmo dinheiro para comprar ações de suas próprias empresas. Quando uma empresa reduz o número de ações no mercado, o preço da ação sobe, o que gera recompensa para ambos, para a empresa e para os acionistas. Claro que esse inchaço de preços nada acrescenta à produtividade da companhia ou a suas possibilidades de crescimento. De fato, o processo mina ganhos futuros, porque acrescenta mais números vermelhos no balanço. Mas esses “negativos” nunca são considerados na tomada de decisões, focada exclusivamente em ganhos de curto prazo. Tomem aí uma dose de Morgan Stanley, via Zero Hedge:

Em 2014, as [empresas que aparecem no índice das 500 maiores de Stanley and Poor] S&P 500 recompraram, em números líquidos, o equivalente a ~US$ 430bilhões em ações comuns e gastaram outros ~US$ 375bilhões para pagar dividendos. O capital total que voltou aos acionistas foi apenas um pouco inferior aos ganhos anuais reportados. No front da renda fixa, o mercado de ações de empresas com grau de investimento viu um recorde de US$ 577bilhões de emissão líquida em 2014. Embora os universos de ações e obrigações não se correspondam 100%, entendemos que esses números revelam história bem simples, mas importante. As corporações norte-americanas têm, essencialmente, emitido níveis recordes de ações e usado parcela significativa de seus ganhos e reservas de caixa para recomprar níveis recordes de ações comuns. (“Buyback Bonanza, Margin Madness Behind US Equity Rally”, Zero Hedge).

Quer dizer: as empresas estão tomando emprestado centenas de bilhões de dólares dos investidores, pelo mercado de ações. Estão usando esse capital barato para recomprar ações delas mesmas, para conseguir mandar para as alturas a recompensa [“bônus” por desempenho] devida aos executivos, e ganhar muito dinheiro à custa dos investidores. Ao mesmo tempo, vão enfraquecendo a estrutura de capital da empresa, carregando-a com mais dívidas. (Vale a pena observar que “empresas não financeiras com alto grau de investimento” estão hoje mais alavancadas do que estavam em 2007 antes do crash).

Ocupação econômica dos EUA
Essa farra ensandecida de recompra atingiu tais níveis de enlouquecimento, que as recompras atualmente já excederam os lucros em dois trimestres em 2014. Eis o que diz Bloomberg:

[As empresas que aparecem no índice das 500 maiores de Stanley and Poor] realmente amam seus acionistas (...). O dinheiro que voltou aos donos de ações excedeu os lucros no primeiro trimestre e pode exceder também no terceiro. A proporção do fluxo de dinheiro usado para recompras quase dobrou ao longo da última década, segundo Jonathan Glionna, diretor de pesquisa de estratégia de ações dos EUA em Barclays Plc.

As recompras ajudaram a alimentar uma das altas mais fortes dos últimos 50 anos, com as ações mais recompradas ganhando mais de 300% desde março de 2009. (Bloomberg)

Mas talvez estejamos sendo pessimistas demais. Talvez as ações tivessem subido de qualquer modo, por causa de ganhos recordes e melhoras na economia. Sim, é possível, não é? Não, não é. Não, pelo menos, segundo Morgan Stanley. Veja aí:

Desde 2012, mais de 50% do aumento nos Ganhos por Ação [orig. Earnings Per Share, EPS] nas [empresas] S&P 500 foi puxado por recompras, e o crescimento sem as recompras tem sido de meros 3,3% anualizado.

“Mais de 50%!” Aí está o resumo do seu mercado, numa só e desgraçada expressão. Sem recompras significa sem qualquer crescimento no mercado de ações em cinco anos. Ponto final. Parágrafo.

DÍVIDA dos EUA: - Ela vai EXPLODIR!
Não fosse pela engenharia financeira e o dinheiro fácil do Fed, as ações estariam no mesmo ponto em que, no geral, está toda a economia: girando em volta do buraco do ralo. É isso.

O mais frustrante de todo esse atual fenômeno é que o Fed sabe exatamente o que se passa, mais vira a cabeça e olha para outro lado. Assim, enquanto a bolha das ações cresce e cresce, o gasto de capital [orig. Capital Expenditure, CAPEX] – que é investimento em produtividade e crescimento futuros – continua a deteriorar-se, o PIB desaba para zero e a demanda vai-se tornando cada vez mais fraca. Não basta isso para que se deva repensar a política toda?

Santo Deus, não, não basta. O Fed está decidido a continuar agarrado à mesma política manca, até que o inferno congele. Que a política deles funcione ou não funcione não é questão que importe a alguém.

Agora considere essa informação, que nos deixa de olhos esbugalhados, de Wolf Street:

A GE, para encobrir perda líquida de US$ 13,6 bilhões e entradas declinantes no primeiro trimestre, disse, dia 10/4/2015, que vai recomprar US$ 50 bilhões das próprias ações. (Wolf Street)

Não sei dizer quantas vezes tenho lido notícias semelhantes nos últimos poucos anos. As entradas da companhia estão encolhendo, estão perdendo dinheiro a rodo e fazem o quê? Anunciam que vão recomprar US$ 50 bilhões das próprias ações.

Parece piada. Mas não fica por aí. As políticas do Fed também dispararam um frenesi de atividade nos empréstimos marginais. Eis o que noticia a rede CNBC:

A dívida marginal da Bolsa de Valores de NY [orig. New York Stock Exchange NYSE] bateu todos os recordes em março/2015, segundo dados recentemente distribuídos (...) A dívida marginal da NYSE alcançou US$ 476,4 bilhões, depois de chegar aos US$ 464,9 bilhões no final de fevereiro/2015. (ATENÇÃO: Esse valor é US$ 95 bilhões superior aos números de 2007, no auge da bolha).

Surge dívida marginal quando os investidores tomam empréstimos para comprar ações. Se um investidor compra US$ 100 em ações, com US$ 50 em capital, esse indivíduo tem US$ 50 de dívida marginal. Dado que a dívida marginal provê alavancagem, ela amplifica os ganhos, mas também aumenta o risco para o investidor. (“What record-high margin debt means for stocks” [O que significa a dívida marginal recorde, para as ações],CNBC). Gráfico a seguir:


Mais empréstimos tomados, mais riscos, mais instabilidade financeira. E aí está tudo que o Fed tem feito. Se as taxas estivessem neutras, os preços se normalizariam e os altos executivos não estariam metidos nessa temerária roleta-russa. Em vez disso, é mandar às favas a prudência; continuar a pilhagem do endividamento até que todo o mercado desabe, direto ao poço, como aconteceu há seis anos.

Na verdade, já estamos, hoje, nessa trajetória. Segundo [pesquisa de] TrimTabs Investment Research,

(...) as recompras em fevereiro alcançaram US$ 104 bilhões, o maior número mensal desde quando começou esse acompanhamento, há vinte anos.

A verdade é que as coisas estão piorando, não melhorando. Resumo da história: o Fed levou os EUA à beira do precipício, mais uma vez, e o mais leve toque para cima nas taxas de juros empurrará o país, em queda livre.

Mas... por quê? Por que o Fed só faz “conduzir” o país de uma catástrofe financeira, até a seguinte?

Essa é a pergunta que os economistas Atif Mian e Amir Sufi respondem muito convincentemente, com um único e singelo gráfico. Vejam aí:

No gráfico abaixo se vê a proporção dos ativos financeiros, em relação à distribuição nacional de riqueza nos EUA. Dados tirados da 2010 Survey of Consumer Finances do Fed, gráfico a seguir:


Os 20% mais ricos detêm mais de 85% dos ativos financeiros em toda a economia. É claro, portanto, que os ganhos diretos do capital vão só para os lares mais ricos dos EUA”. (Capital Ownership and Inequality [Propriedade do capital e desigualdade], House of Debt).

Por que o Fed cria uma bolha depois da outra, sem parar? Ora! Agora você já sabe.

____________________________________________

[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Egito: “Não pagaremos as dívidas da tirania”


Wael Gamal

Wael Gamal وائل جمال 
 Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

Na transição de uma oligarquia ou tirania para uma democracia (...) acontece de as pessoas negarem-se a cumprir contratos e quaisquer outras obrigações, porque são contratos e obrigações contraídas pelo tirano, não pelo Estado. 
Aristóteles, Política, livro III [1]

O Egito deve cerca de 35 bilhões de dólares (ou 210 bilhões de libras egípcias) de dívida externa, o que impõe aos egípcios carga anual de cerca de 18 bilhões de libras egípcias. São dívidas que se acumular durante o regime anterior seguindo as prioridades políticas e econômicas daquele governo. Pagamos aquela dívida de nosso próprio bolso, dinheiro que poderia ser gasto em serviços sociais, saúde ou educação. 

Por isso, organizações e ativistas sociais no Egito e no exterior decidiram que o dia 31/10/2011 seja declarado Dia Mundial para o Cancelamento da Dívida do Egito. 

É o início de uma campanha popular para tirar essa carga dos ombros do povo egípcio, que não foi nem é de modo algum responsável pelas decisões de assumir aquelas dívidas, nem jamais foi consultado sobre como se gastou aquele dinheiro, e ao qual o antigo governo jamais prestou contas.

Cancelar a “dívida odiosa”

“Dívida odiosa” [2] é conceito jurídico cunhado pelo teórico Alexander Sack, que teria sido ministro das Finanças da Rússia em 1927, no período posterior à Revolução Russa. O conceito prega que se aplique a contratos firmados pelo governo um princípio jurídico que rege os contratos privados. Por esse princípio, para que uma dívida continue a ser legalmente vinculante ela deve servir a fins legítimos. Nesse contexto, entende-se que são “odiosas” as dívidas contraídas por ditador ou governo ilegítimo em nome da nação, mas para enriquecer o governante (quer dizer, para engordar as contas bancárias pessoais do tirano e de seus herdeiros) ou para financiar a repressão contra os cidadãos (para, por exemplo, a compra de gás lacrimogêneo ou armas a serem entregues a francos atiradores, como as armas utilizadas para assassinar os mártires da revolução).

“Dívidas odiosas” associam-se frequentemente ao saque financeiro em vários âmbitos, como o financiamento de projetos falidos (como Toshka, o projeto de fosfatos de Abu Tartour, o projeto de ferro de Assuã etc.); o apoio a projetos de desenvolvimento viciados por corrupção (como a privatização de terras públicas e a contratação de empresas privadas, por Estado ilegítimo e corrupto); e ao controle dos recursos do Estado, movimentados a serviço dos “sócios” do tirano – empresas e empresários “amigos”, à custa do sacrifício do povo.

“Dívida odiosa” é dívida contraída por regime que não representa o povo e que – com pleno conhecimento do credor – serve para fins que em nada beneficiam o povo nem visam ao bem público. Por tudo isso, muitos definem como “dívida odiosa” a dívida que enriquece os tiranos e empobrece a sociedade. A nação é obrigada, nesses negócios, a canalizar todos os seus recursos para pagar dívidas já existentes – o que limita a capacidade da sociedade para desenvolver-se. 

Apoiados nessa lógica propôs-se a ideia de que a dívida odiosa do Egito fosse cancelada no momento em que fosse derrubada a ditadura endividada – como no caso do Iraque depois da queda de Saddam Hussein [3], e da África do Sul, depois de derrubado o regime do apartheid. 

A Dívida do Egito escraviza os egípcios
Do ponto de vista legal, o conceito de “dívida odiosa” aplicado às dívidas de ditaduras depostas implica um desafio a um velho princípio do direito internacional – que exige que aquelas dívidas sejam pagas, mesmo que assumidas por regimes ditatoriais já inexistentes. Apesar do desafio, o conceito de “dívida odiosa” foi invocado em vários casos históricos. Alguns remontam ao século 19, sobretudo uma sentença da Suprema Corte dos EUA, que confirmou a legalidade do não pagamento das dívidas de Costa Rica aos credores Grã-Bretanha e Canadá, por serem dívidas contraídas sob regime ditatorial. E o Equador é exemplo ainda mais recente de modelo que prosperou.

Durante a década dos 1970s o Equador, como muitos outros países do Terceiro Mundo, caíram na armadilha do endividamento externo a baixas taxas de juros que, contudo, imediatamente depois começaram a subir muito. Assim, pelo aumento das taxas de juro cobradas por bancos norte-americanos (de 6% em 1979, para 21% em 1981), a dívida externa do Equador aumentou mais de 12 vezes a partir do valor inicial: de 1,174 bilhão de dólares em 1970, para 14,250 bilhões de dólares em 2006. E só 14% da dívida externa contraída entre 1989 e 2006 foram usados para projetos novos; todo o restante foi comprometido para pagarem-se dívidas antigas. 

Logo no início da greve geral que derrubou o presidente Lucio Gutiérrez em 2005, formou-se uma comissão para auditar a dívida do país. Essa comissão ofereceu ao governo do Equador os fundamentos legais e políticos nos quais se baseou para decidir não pagar as dívidas odiosas em novembro de 2008. Em junho de 2009, o Equador obteve um acordo pelo qual sua dívida externa foi reduzida em mais de dois terços. Por acordo firmando com 90% dos credores internacionais, o Equador teve de pagar apenas 35 centavos por cada dólar da “dívida odiosa” – com o que o país livrou-se daquela carga. De fato, o valor dos títulos já caíra drasticamente depois da greve geral e da deposição do presidente por movimento popular, o que levou a pagamentos ainda menores do que os devidos antes. 

O Equador conduziu suas negociações com boa informação e prudência, o que gerou esperanças para todos os países do Terceiro Mundo que manifestem vontade política para livrar-se do peso morto da “dívida odiosa”. 

Atualmente, a sociedade civil e os movimentos populares na Irlanda e na Grécia organizam comissões populares de auditagem da dívida e já pressionam para que se constituam comissões oficiais. Túnis já tem uma comissão para auditar as dívidas odiosas contraídas pelo governo de Zine Abdine Ben Ali e trabalha para que sejam canceladas. 

Com isso, temos nós, no Egito, boa margem de manobra para pressionar, coordenar esforços e mobilizar as pessoas na direção de conseguir que se cancelem também as dívidas do regime de Mubarak. 

Adam Hanieh, professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, diz que, apesar de o Egito já ter pago 24,6 bilhões de dólares entre 2000 e 2009, a dívida aumentou cerca de 15% durante o mesmo período. Em artigo sobre as transformações em curso na economia egípcia depois da revolução, Hanieh acrescenta: “Essas cifras deixam à vista a surpreendente realidade de que a relação financeira entre o Egito e os credores da economia global opera na direção de extrair a riqueza dos pobres do Egito e de redistribuí-la entre os bancos mais ricos dos EUA e da Europa”. 

A “dívida odiosa” não é só um inimigo do passado que atenta contra nossa vida e nosso sustento; é também uma carga que ameaça nosso futuro. Livrar-se dela é imperativo econômico, moral e legal. Apesar disso, é pouco provável que a batalha se decida nas instituições financeiras internacionais e nos bancos: muito provavelmente exigirá também confrontação interna. 

A dívida egípcia: “Todos os olhos atentos à dívida”

“Abre os olhos! O dinheiro para pagar a dívida sai do teu bolso” – é o lema da Campanha Popular pelo Cancelamento das Dívidas do Egito, a ser lançada dia 31/10/2011, para livrar nossa revolução de um peso acumulado por um governo que nunca representou os egípcios – peso que continuar a pesar sobre nossos salários, nosso nível de vida e sobre nossas oportunidades de futuro. 

A Dívida do Egito esmaga  os egípcios
A campanha será posta em marcha simultaneamente com iniciativas que também começam em Londres e Berlim, das quais participam movimentos da sociedade civil e organizações da Grã-Bretanha e da Alemanha. O lema acima indica que criar comissão independente para auditar a dívida externa, associada a campanha popular que pressione para o cancelamento da dívida não é o fim do caminho. É, antes, o começo de uma mudança radical no modo de fazer a gestão da política econômica no Egito. 

O problema não está só em o Egito estar pagando juros a credores internacionais em volume que supera o que o país gasta em bem-estar social para os 85 milhões de egípcios, por exemplo, na área da saúde. O problema mais grave é a orientação das políticas econômicas do país, a falta de transparência na formulação de políticas econômicas e a nenhuma oportunidade garantida aos cidadãos para que participem da formulação daquelas políticas, para atender seus próprios interesses. 

Cancelar a dívida do Egito com credores da União Europeia foi a primeira proposta apresentada por Samir Radwan, que serviu como ministro da Economia depois da revolução. Essa reivindicação, contudo, foi apagada poucas semanas depois, substituída por proposta para que se fizesse o contrário: mais pagamentos às instituições internacionais. Adiante, decidiu-se congelar as dívidas externas, mas num preço alto demais para os pobres e para a economia; principalmente sob um orçamento de austeridade que privilegiava os interesses dos ricos, tanto em termos de impostos como em termos da prioridade dada aos subsídios distribuídos pelo governo. Esse fato mostra que uma coisa é certa: se tivermos de pagar as prestações da dívida de nosso próprio bolso, no futuro a decisão de tomar empréstimos de instituições nacionais ou internacionais deve ser submetida a amplas supervisões, nas quais a sociedade civil tenha papel mais importante, incluídas as organizações de direitos civis, ONGs, grupos de proteção ao consumidor, sindicatos e o público em geral. Esse exemplo deixa claro que o cancelamento das dívidas odiosas da ditadura não acontecerá sem confronto contra a ordem econômica que herdamos, confronto que não terá êxito sem a participação da maioria dos interessados. 

Portanto, a auditoria da dívida deve ser verdadeira porta de entrada para uma economia mais democrática, que reflita as necessidades das pessoas, antes que a necessidade de lucrar, de uns poucos. Pode ter função importante no movimento para enfrentar a elite rica que se esconde nas trincheiras que protegem a economia da ditadura e os tecnocratas leais que servem àqueles interesses. Pode fazer frente à liderança política, que usa o pretexto da dívida do regime de Mubarak para ocultar e justificar a supressão de nosso direito a salário justo, a empregos adequados, a melhores serviços de saúde e de educação, e que continua a repetir o mesmo slogan fracassado: “E de onde querem que tiremos dinheiro para tudo isso?”




Notas dos tradutores

[1] Em inglês, Aristotle's Ethics and Politics, tr. by J. Gillies, p. 169. ARISTÓTELES, Política, pode ser baixado, gratuitamente, em português. 
 
[2] Odious Debts: Loose Lending, Corruption, and the Third World's Environmental Legacy , Cap. 17: “The Doctrine of Odious Debts.

[3] “Em 2004, o chamado Clube de Paris, para favorecer os interesses ianques perdoou em 80% o valor da dívida atribuída ao Iraque porquanto, como foi concluído, tinha sido obra iníqua de Saddam Hussein e, como assim, os novos ocupantes não queriam despender somas demasiado excessivas por factos cuja responsabilidade enjeitaram” (A viagem dos Argonautas, português europeu).

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

“71 milhões em dívidas. Esse foi o Clube que recebi de Marcelo Teixeira”

Em entrevista exclusiva ao jornal “A Tribuna”, de Santos, o atual Presidente do Santos Futebol Clube, fala sobre dívidas , rejeição de contas e até “leilão” dos craques.

Herança
Impostos e taxas 6.667.000,00
Empréstimos bancários 42.821.000,00
Empréstimos do Santa Cecília 15.610.000,00
Dívidas a jogadores 6.076.000,00
Fornecedores em atraso 791.000,00
Total 71.965.000,00

DA REDAÇÃO

O presidente do Santos, Luís Álvaro Ribeiro, diz que herdou de seu antecessor, Marcelo Teixeira, uma dívida de mais de R$ 71milhões. Eacusa o ex-presidente de ter gasto, em dois anos, R$ 20 milhões de juros. O presidente "peixeiro" rompeu um silêncio de 11 meses para, em entrevista exclusiva à A Tribuna, falar do calvário que tem enfrentado por causa da administração anterior, de Teixeira. Ele frisa que até agora se manteve "rigorosamente sob um recatado silêncio". E isso porque entende que "levar os assuntos internos do Santos ao conhecimento do grande público não costuma ser saudável para a instituição". Só mudou de idéia, entre outros motivos, porque Marcelo Teixeira levou o Santos às barras dos tribunais, "para cobrar uma dívida contraída por ele no passado, resultado de sua desastrosa gestão dos negócios financeiros do clube". A dívida que ele recebeu do antecessor, segundo Luis Álvaro, chega exatamente a R$ 71,965 milhões e é a soma dos seguintes itens: impostos e taxas não recolhidos, R$ 6,667 milhões; empréstimos bancários, R$ 42,82 milhões: fornecedores em atraso, R$ 791 mil; empréstimos da Universidade Santa Cecília, R$ 15,61 milhões; dívidas junto a jogadores, R$ 6,76 milhões.

Joias fatiadas
Além disso, "foram vendidos percentuais de sete atletas para um investidor (a DIS), incluindo nesse elenco Paulo Henrique Ganso, Wesley e André. Arrecadou com isso apenas R$ 3,85 milhões". Luís Álvaro compara: "Enquanto pagou (Marcelo Teixeira) 20 milhões de juros, cedeu ponderáveis fatias dos jogadores que notoriamente teriam sucesso, como esses três".

Vender as joias
O presidente relata uma proposta que recebeu, indiretamente, de seu antecessor: "Eu soube que havia interesse de se marcar uma reunião com a nova direção propondo a seguinte questão: o Santos prefere que sejam vendidos alguns atletas Neymar e Ganso, especificamente - e se zere o caixa ou entregue o caixa com o buraco que tem (R$ 71 milhões) e os atletas não sejam vendidos? Isso depois da eleição. Eu não fui oficialmente consultado, mas fui informalmente consultado se eu toparia participar de uma reunião, que eu não topei. Eu me recusei a ter esse tipo de conversa porque a venda de atletas formalmente é proibida pelo Conselho três meses antes das eleições. E os números que se falavam de Neymar e do Ganso estavam muito aquém daquilo que eu entendi que valiam. Então é você vender o jantar para comer o almoço."

Alívio?
Luís Álvaro comenta a dívida do Santos com a Universidade Santa Cecília, contraída por Teixeira: "Nós queríamos entender como é que essa dívida se deu. E porque ela aconteceu. Isso gerava um processo de investigação que levava algum tempo. Mas nós tínhamos confiado na palavra do presidente, com quem eu falei por telefone. Ele dizia, recorrentemente, desde o tempo em que eu era conselheiro, que o dinheiro devido à sua família não deveria ser objeto de nossa preocupação, porque não era um dinheiro necessário para sobrevivência deles. Que os interesses do Santos estava acima de tudo. Mas, surpreendentemente, me disse que se precisasse mais recursos dessa origem ele poderia levar à apreciação da família. Isso antes do Natal do ano passado. O que me deixou razoavelmente aliviado, porque pelo menos esses recursos não iam ser cobrados do Santos com a faca no pescoço".

Decepção
"Nós tínhamos confiado na palavra do presidente, com quem eu falei pelo telefone. Ele sempre dizia que o dinheiro devido à sua família não era problema. Não era necessário para a sobrevivência deles; os interesses do Santos estavam acima de tudo"

"Em qualquer atividade econômica, de uma banca de camelô a uma quitanda de bairro ou uma grande multinacional, ou mesmo na vida pessoal, quem gasta mais do que ganha quebra. E o Santos vinha fazendo isso"

Rejeição das contas
O presidente informa que Teixeira propôs um parcelamento da dívida do Santos com a Santa Cecília se as contas de sua gestão fossem aprovadas. "O Conselho Deliberativo se reuniu. A Comissão Fiscal examinou as contas auditadas (gestão Teixeira) e entendeu por reprová-las. Ele,Marcelo,e o seu conjunto de advogados, voltam a nos procurar, propondo um parcelamento em condições razoáveis de amortização. Mas exigindo, como condição "sine-qua-non", que o parecer da Comissão Fiscal fosse rejeitado e as contas dele aprovadas". Luís Álvaro explica sua postura no episódio: "Eu disse que eu não era membro da Comissão Fiscal, não era conselheiro em exercício. Portanto, eu não podia assumir nenhum compromisso em nome de terceiros. Ao contrário, eu entendia, por convicção e por ideologia, que o Conselho Deliberativo é um poder diferente do Poder Executivo. E essa promiscuidade do presidente do clube opinar ou exigir que a Comissão Fiscal seja composta por a, b ou c, ou que a Mesa seja indicada pelo presidente do clube, não era minha prática. Nem era minha visão de democracia. O plenário do Conselho manteve o parecer da Comissão Fiscal e rejeitou as contas".

Na justiça
Segundo Luís Álvaro, quando a proposta de Teixeira não foi aceita, ele ingressou na Justiça contra o Santos. Com a penhora de bens do clube e o bloqueio de suas contas. O presidente considera "incompreensível" a atitude do antecessor, porque "difere do discurso dele". Segundo esse discurso, "o Santos era o mais importante, os interesses da família eram menores".E cita:"Quando eu era conselheiro, perguntei um dia, na tribuna do Conselho, quanto o Santos devia a ele e a sua família. Ele respondeu (deve estar gravado) que isso não deveria ser objeto da nossa preocupação, porque a família tinha voluntariamente procurado ajudar o Santos e que o Santos era muito mais importante do que esse dinheiro emprestado. O que, aparentemente, me deixaria sossegado, não fosse o desenrolar da novela e a venda do elenco campeão de 2002 para, entre outras coisas, quitar dívidas que ele contraiu".

E os 200 milhões?
Luís Álvaro acusa Marcelo Teixeira de ter sido eleito em 2000 e contratar "medalhões", não aproveitando os meninos da base. "Vocês lembram, ele saiu comprando Márcio Santos, Rincón, Valdo, Edmundo, Marcelinho Carioca, Carlos Germano, jogadores de muita exposição, mas quase sempre no fim de carreira. Portanto, a política dele não era a de prestigiar os meninos. O técnico Leão declarou que em 2002 o Marcelo queria contratar mais medalhões e jogadores veteranos. Ele, Leão, recusou e disse que havia na base garotos muito bons. Agora ele (Marcelo) vem dizer que foi uma decisão dele dar chance aos meninos Elano, Diego, Alex etc. E que ele estranhou que, tendo sido vendido esse elenco, por 200 milhões de reais, afirmação dele, esse dinheiro tenha sumido e o Santos, ao fim de um tempo, estivesse devendo 71 milhões de reais."

Como quebrar
O presidente critica o antecessor por gastar sem controle quando esteve à frente do clube. "Nesses últimos anos o Santos tem gastado mais do que arrecada, de forma sistemática. Em qualquer atividade econômica, de uma banca de camelô a uma quitanda de bairro, ou uma grande multinacional, ou mesmo na vida pessoal, quem gasta mais do que ganha quebra, é inexorável". E dá uma pista, com base em um relatório preliminar de auditoria, de como os 200 milhões de reais viraram fumaça: "Grande parte desses recursos foi gasto em amortizações de dívidas, entre as quais a da própria família, nos pagamentos de juros e no pagamento de despesas correntes".

Presente de grego
Luís Álvaro conta, pela primei- ra vez, como foi o pior aniversário de sua vida. "No dia 16 de dezembro, o primeiro da minha gestão, às quatro da tarde recebi a informação de que o cofre estava vazio e que precisaríamos pagar, em 48 horas, R$ 5 milhões. Se não pagos, o Santos perderia os direitos econômicos de praticamente todo o elenco. Saí do clube às 11 da noite, com meu vice Odílio Rodrigues. Como eu, aparvalhado diante da situação que a gente tinha que enfrentar. Odílio me perguntou: é dia do seu aniversário, você vai jantar em algum lugar? Comi um sanduíche, tomei dois chopinhos e fui dormir. Nessa noite acordei doze vezes, uma das noites mais intranqüilas em toda minha vida.

Aos 48 do segundo tempo
O presidente acredita que Deus é torcedor do Santos. E dá suas razões: "Depois da eleição, fomos convidados para uma festa do Clube dos 13 na CBF. O ex-presidente não foi. E lá descobrimos que ele estava tentando sacar uma importância muito considerável em cima do Campeonato Brasileiro de 2010. A operação estava para ser concluída quando alguém me consultou. Eu mostrei que isso não era ético, não era razoável e não era sério. Conseguimos abortar essa operação".

Patético
As críticas de Luís Álvaro voltam-se, agora, para Milton Teixeira, pai de Marcelo e também ex-presidente: "Ele (Marcelo) cita, em matéria no seu site, que os méritos de 1978 (gestão Rubens Quintas, com os primeiros Meninos da Vila) devem ser creditados ao pai dele, que ganhou o campeonato paulista de 1984. Eu acho isso patético, para não dizer surrealista, porque quando o pai deixou de ser presidente em 84 a situação do Santos era tão absolutamente precária que não havia quem se dispusesse a se candidatar a presidente do Santos.
As disposições estatutárias foram comprometidas e acabou se descobrindo, para a presidência, alguém que não era torcedor do Santos. A partir daí foi o calvário de mais de uma década em que nós pagamos o preço da falta de responsabilidade na gestão dos recursos do clube. Só alterado de novo quando, por obra de um treinador com mais visão (Emerson Leão), nós usamos os jogadores da base para formar o time competitivoqueganhouotítulode2002".

Segunda divisão
O presidente "peixeiro" relembra "dois anos trágicos na história do Santos": 2008 e 2009. "Em 2008 fomos salvos do rebaixamento por um gol marcado por um atleta colocado por um investidor. Chutando a bola desastradamente na direção da bandeira de escanteio, ela resvalou no Gustavo Nery, que tinha sido revelado pelo Santos, entrou no gol e nos livrou da Série B. E no ano passado até às duas últimas rodadas nós eram os candidatos ao rebaixamento. E tínhamos trazido jogadores da Seleção Brasileira, como Emerson, por exemplo, em fase de ocaso de sua carreira. Enquanto isso, Neymar e Paulo Henrique eram considerados despreparados para assumir a titularidade do Santos. Um era alcunhados pelo então treinador (Luxemburgo) de filé de borboleta.O outro era considerado lento para o ritmo do Santos, ditado por Emerson, talvez mais capacitado fisicamente..."

CARLOS NOGUEIRA

B-8
Esportes
A TRIBUNA - Sexta-feira, 19 de novembro de 2010