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domingo, 20 de maio de 2012

Crise sistêmica global: 2º semestre 2012 – GEAB No. 65


Convergência de quatro fatores explosivos: Bancos, Bolsas, Aposentadorias e Dívidas

por GEAB [*]

Aguardando que a Eurolândia se dote, daqui até o fim de 2012, de um projeto político, econômico e social comum de médio e longo prazos, na sequência nomeadamente da eleição do novo presidente francês François Hollande, antecipada há numerosos meses pelo LEAP/E2020, os operadores permanecerão prisioneiros dos reflexos de curto prazo ligados aos sobressaltos políticos gregos, às incertezas sobre a governança da Eurolândia e aos riscos das dívidas públicas.

Paralelamente, nos Estados Unidos, o desaparecimento da ilusão de uma retomada [1] acumulada à renovação de inquietações quanto ao estado de saúde do sector financeiro americano (de que o JPMorgan acaba de ilustrar a fragilidade) e ao grande retorno do problema do endividamento do país levam os atores econômicos e financeiros a encarar um futuro cada vez mais inquietante [2].

No Reino Unido, o retorno em recessão do país conjuga-se com o fracasso em dominar déficits e com a ascensão de uma cólera popular face a uma austeridade que não está senão nos seus princípios [3].

No Japão, a atonia econômica e o enfraquecimento das exportações num contexto de recessão mundial [4] fazem ressaltar o espectro do endividamento excessivo do país.

Neste contexto, de acordo com o LEAP/E2020, o segundo semestre de 2012 vai ser o momento privilegiado da convergência de quatro fatores explosivos para as economias ocidentais: bancos, bolsas, aposentadorias e dívidas.

Para os operadores econômicos, financeiros ou políticos assim como para as simples famílias, esta convergência vai significar riscos importantes tanto sobre o estado das suas finanças como sobre a sua aptidão para enfrentar próximos desafios.

Neste GEAB nº 65, nossa equipe desenvolve pois suas antecipações referentes a estes quatro fatores explosivos do segundo semestre de 2012 assim como as recomendações para minimizar as consequências negativas. Além disso, o LEAP/E2020 apresenta sua nova antecipação sobre as consequências da crise sistêmica global em matéria de línguas internacionais (em nível mundial e na Europa) no horizonte 2030 a fim de ajudar pais e filhos, assim como as instituições pedagógicas, a fazer boas escolhas de aprendizagem linguística a partir de hoje.

Neste comunicado público do GEAB nº 65, nossa equipe optou por apresentar o fator explosivo correspondente às dívidas públicas e privadas.

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Dívidas: dívidas públicas dificilmente domináveis e dívidas privadas destruidoras... os credores aproximam-se dolorosamente da hora das contas e os povos de uma explosão de cólera

O LEAP/E2020 anunciou desde 2008 e repetiu numerosas vezes. Havia cerca de US$30 trilhões de ativos fantasmas no sistema financeiro mundial. Restam cerca de US$15 trilhões que vão no essencial esfumar-se daqui até o fim de 2012. A boa notícia é que a partir deste momento poder-se-á encarar seriamente a reconstrução de um sistema financeiro mundial são. A má notícia, é que é no decorrer dos próximos trimestres que estes US$15 trilhões se vão esfumar. Isso implica, naturalmente, como havíamos evocado anteriormente, a falência (e/ou o salvamento pelos Estados) de 10% a 20% dos bancos ocidentais. E desta vez, ao contrário de 2008/2009, os acionistas serão as primeiras vítimas (inclusive nos Estados Unidos), qualquer que seja a hierarquia dos seus direitos [5]. Só os acionistas que possuírem um peso geopolítico importante serão tratados com respeito (fundos soberanos, Estados amigos, ...).

Em matéria de dívidas privadas, as famílias vão no essencial, nomeadamente nos Estados Unidos e no Reino Unido, ter de enfrentar por si só as consequências das altas de taxas e da insolvabilidade induzida que as vão afetar. Capturados na armadilha da austeridade e da recessão, os Estados ocidentais não têm mais os meios de prestar socorros às classes médias enquanto o crescimento não tiver retomado por pouco que seja. E, infelizmente, não será esse o caso daqui até o fim de 2012. Vê-se atualmente nos Estados Unidos que a questão da dívida dos estudantes está em vias de se transformar em “subprime bis” [6]. Alta de taxas devido ao fim da política de bonificação pelo Estado federal e à paralisia política em Washington num pano de fundo de tentativas de domínio do déficit federal que está em vias de criar uma situação desastrosa para milhões de jovens americanos e seus pais.

Na Europa, o Reino Unido já decidiu deixar sua classe média enfrentar sozinha seu endividamento recorde. Isso equivale a fazê-la cair na classe desfavorecida. Os próximos meses vão assistir a uma nova confrontação brutal entre esta classe média britânica e seus dirigentes, pertencentes quase todos à classe alta (upper-class).

No continente, através dos votos de rejeição dos dirigentes adeptos da austeridade como solução única e exclusiva para a crise do endividamento público, os povos abriram uma grande confrontação democrática com as elites estabelecidas desde há uma vintena de anos, e ao serviço dos credores. A tentativa que o novo presidente francês encarna, de abrir um caminho médio entre austeridade e relançamento keynesiano, ambas fracassadas pois são impossíveis politicamente ou pelo controle orçamentário, vai vencer (pois doravante é a única viável em termos políticos e orçamentais [7]) mas não antes do fim de 2012 [8].

Nesse intervalo de tempo, sobressaltos políticos como na Grécia e negociações complexas no seio da Eurolândia vão dominar a agenda, tornando cada vez mais nervosos os credores e a sua emanação, os mercados [9]. E este nervosismo dos mercados é agravado pela consciência da infinita fragilidade das instituições financeiras da Wall Street e da City face ao risco de não pagamento dos créditos: dívidas públicas ou privadas. Isto são quase os últimos restos do ativo do seu balanço e eles esperam poder recuperar um valor significativo.

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Desde o fim do Verão de 2012, o retorno do tema do endividamento inadministrável dos Estados Unidos, ligado às reduções orçamentais automáticas impostas em caso de não acordo do Congresso sobre a redução do endividamento, vai desencadear um “Taxmageddon” [10] nos EUA. Assistir-se-á assim ao remake da dupla detonador-bomba que as dívidas europeia e americana já jogaram no Verão de 2011, mas desta vez numa versão muito mais violenta. Com efeito, se os temores de ver o euro e a Eurolândia explodir desapareceram [11], eles serão substituídos por um perigo muito mais aterrador para os mercados: a monetização maciça e brutal da dívidas estadunidense [12]. Esta situação apresentar-se-á nos Estados Unidos com a agravante de ser dar num contexto de paralisia política completa [13], com um Congresso que será segmentado pela emergência de facções radicais tanto entre os republicanos (“Tea Party”, p.ex.) como entre os democratas (“Occupy” p. ex.) [14].

Notas de rodapé:

[1] Retomada de tal forma ilusória que provoca um retorno às práticas das “subprimes”. E mesmo o preço do leite, indicador fiável dos amortecimentos econômicos, aponta para a recessão. Fontes: CNBC, 26/04/2012; New York Times, 10/04/2012 .

[2] A este respeito, lembramos que doravante o governo dos EUA e o Fed devem criar US$2,50 de dívida para gerar US$1,00 de crescimento. É o problema com que se depara toda economia cujo endividamento se torna excessivo. Isto é o gênero de “pormenor” que os keynesianos, como Krugman, se esquecem de precisar quando clamam às tontas e loucamente que as políticas de austeridade são aberrantes. Como em toda abordagem de bom senso, que leva em conta o mundo real e não as teorias econômicas, é preciso um equilíbrio entre redução do endividamento e apoio ao crescimento. Este é igualmente o caminho que vai tomar a Eurolândia a partir deste Verão; ao passo que os Estados Unidos continuam a negar a necessidade de tratar o seu endividamento descontrolado.

[3] Fonte: WallStreetJournal , 13/05/2012

[4] Fontes: TimesofIndia, 11/05/2012; MarketWatch, 10/05/2012; ChinaDaily, 06/05/2012; ChinaDaily, 28/03/2012; Washington Post, 11/05/2012; USAToday, 13/04/2012; CNBC, 06/04/2012

[5] Fonte: MarketWatch, 10/05/2012

[6] Fonte: CERF, 21/04/2012

[7] Desde Fevereiro de 2012 e do GEAB nº 62, nossa equipe pormenorizou amplamente sua antecipação sobre a evolução 2012-2016 da Eurolândia e os acontecimentos em curso confirmam a nossa análise (se quiser ter uma apresentação "viva" das perspectivas da Eurolândia e da Europa, pode assistir o discurso de Franck Biancheri pronunciado em inglês a 2 de Maio último perante os 1000 delegados da principal rede estudantil europeia, AEGEE-EUROPE). Daqui até o Verão, após as eleições legislativas francesas de Junho de 2012, um acordo a seis sobre o equilíbrio austeridade/crescimento será encontrado (França/Alemanha/Itália/Países Baixos/Bélgica/Espanha) que será levado à Eurolândia + (Eurolândia mais os outros países participantes do MEE).

[8] Na Alemanha também se tornam cada vez mais numerosas e fortes as vozes que exigem um caminho mais equilibrado pois o custo social do êxito económico alemão começa a ser pesadamente ressentido por uma parte crescente da população. Fonte: Spiegel, 04/05/2012

[9] Por exemplo: o fundo soberano norueguês decidiu desembaraçar-se dos seus activos em dívida soberana dos países frágeis da Eurolândia. Entretanto, o LEAP/E2020 lembra que no que se refere ao euro, não há inquietações a ter e, ao contrário, daqui até o fim de 2012 é o US dólar que experimentará o choque baixista. Fontes: Le Figaro, 05/05/2012; MarketWatch, 09/05/2012

[10] Neologismo criado a partir das palavras “Tax” e “Armageddon”. Designa o caos fiscal que vai reinar no fim de 2012 no momento em que se irão impor opções de cortes orçamentais maciços no orçamento federal dos EUA. Desde há aproximadamente um ano, os Estados Unidos e a imprensa financeira internacional optou por ignorar cuidadosamente este enorme problema. Será ainda mais difícil administrá-lo quando se impuser novamente na paisagem.

[11] Como sublinhávamos em janeiro último, é uma das grandes diferenças entre a crise grega atual e a histeria anti-euro de 2010/2011. Se é teoricamente possível encarar hoje uma saída da Grécia para fora da Eurolândia sem por em causa a moeda única, não é menos verdadeiro que na realidade esta saída é impossível. Este é igualmente um dos problemas com que se acham confrontados os dirigentes gregos. Sublinhamos este ponto para lembrar que acerca deste assunto os economistas, que vivem em mundos teóricos em geral sem relação com a realidade, há meses que se enganam sem cessar. Os cantores do fim do euro, de Krugman a Roubini, têm neste assunto tanta credibilidade quanto os sacerdotes romanos que liam o futuro nas entranhas dos animais. Para retornar à Grécia, o LEAP/E2020 considera que na media em que os dirigentes dos dois principais partidos de governo (PASOK e ND) pertencem às gerações que conduziram o país a esta crise histórica, não haverá saída política viável sem confiança popular... Cabe portanto aos dirigentes da Eurolândia, e em particular a Angela Merkel através do PPE e François Hollande através do PSE, fazerem pressão sobre os seus "partidos-irmãos" respectivos para que daqui a Setembro de 2012 e às próximas eleições, o conjunto dos dirigentes destas duas formações seja renovado em proveito de responsáveis com menos de 45 anos. O êxito atual do partido de extrema-esquerda Syrisa deve-se tanto às suas ideias como à idade do seu chefe: 38 anos. Um processo deste tipo foi bem utilizado para fazer com que deixasse o poder um Silvio Berlusconi em fim de carreira. Os meios existem portanto. E neste assunto, trata-se de permitir ao povo grego reencontrar confiança em dirigentes novos, de direita ou de esquerda, sem exclusão. Para bem entender porque uma saída da Grécia para fora da zona euro é na prática impraticável, basta um só exemplo: se fosse grego e se se propusesse trocar vossos euros por novos dracmas, o que faria? No comment!

[12] Mesmo Robert Rubin, o antigo secretário do Tesouro dos EUA, doravante junta a sua voz àqueles que advertem deste grave risco a curto prazo. Fonte: Reuters , 10/05/2012. 

[13] Quer seja Barack Obama ou Mitt Romney que ganhem a eleição presidencial.

[14] Ver GEAB n°60

15/Maio/2012

[*] GEAB - Global Europe Anticipation Bulletin
Communiqué public GEAB N°65 (15 mai 2012)

Esta tradução foi extraída de Resistir  e adaptada ao português do Brasil pela redecastorphoto

terça-feira, 20 de março de 2012

Crise sistêmica global: GEAB No. 63


“Os cinco furacões devastadores do Verão de 2012 – no centro do abalo geopolítico mundial”

por GEAB [*]

No seu número de Janeiro de 2012, o LEAP/2010 colocou o ano em curso sob o signo do abalo geopolítico mundial. O primeiro trimestre de 2012 começou em grande medida a estabelecer que uma época estivesse, com efeito, em vias de terminar com, nomeadamente: as decisões da Rússia e da China de bloquear toda tentativa ocidental de ingerência na Síria [1]; a vontade de afirmada dos mesmos, associados à Índia [2] em particular, de ignorar ou contornar o embargo petrolífero decidido pelos Estados Unidos e a UE [3] contra o Irã; as tensões crescentes nas relações entre os Estados Unidos e Israel [4] ; a aceleração da política de diversificação em afastamento do US dólar conduzida pela China [5] e os BRICs (mas igualmente pelo Japão e a Eurolândia [6] ); as premissas da mudança de estratégia política da Eurolândia por ocasião da campanha eleitoral francesa [7]; e a intensificação dos atos e discursos alimentando a ascensão de potência de guerras comerciais trans-blocos [8] . Em Março de 2012 está-se longe de Março de 2011 e do “assalto” à ONU pelo trio EUA/Reino Unido/França para atacar a Líbia. Março de 2011 ainda estava no mundo unipolar pós 1989. Março de 2012 já está no mundo multipolar pós crise a hesitar entre confrontações e parcerias.

Assim, tal como antecipado pelo LEAP/E2020, o tratamento da “crise grega” [9] fez desaparecer rapidamente a chamada “crise do Euro” das manchetes dos media e das inquietações dos operadores. A histeria coletiva mantida a respeito no decorrer do segundo semestre de 2011 pela imprensa anglossaxônica e os eurocéticos extinguiu-se lentamente: a Eurolândia impõe-se cada vez mais como uma estrutura perene [10] , o Euro está novamente em voga nos mercados e para os bancos centrais dos países emergentes [11] , o duo Eurogrupo/BCE funcionou eficazmente e os investidores privados tiveram de aceitar um desconto indo até 70% dos seus haveres gregos, confirmando assim a antecipação do LEAP/E2020 que falava então de um desconto de 50% quando quase ninguém imaginava que a coisa fosse possível sem uma “catástrofe” significando o fim do Euro [12]. Finalmente, os mercados dobram-se sempre à lei do mais forte e ao medo de perder mais, seja o que for que digam os teólogos do ultraliberalismo. Trata-se de uma lição que os dirigentes políticos vão guardar cuidadosamente na memória, pois há outros descontos que estão para vir, nos Estados, no Japão e na Europa. Aí voltaremos neste GEAB nº 63.

Paralelamente, e isso contribui para explicar a doce euforia que alimenta os mercados e certo número de atores econômicos e financeiros nestes últimos meses, por causa do ano eleitoral e por necessidade de fazer boa figura a qualquer custo numa zona Euro que não afunda [13], a imprensa financeira dos EUA relançam o golpe dos “green shootsdo princípio de 2010 e da “retomada” [14] do princípio de 2011 a fim de pintar uma América em “saída da crise”. Contudo, neste princípio de 2012 os Estados Unidos parecem uma decoração deprimente pintada por Edward Hooper [15] e não com um cromado rutilante da década de 60 estilo Andy Warhol. Tal como em 2010 e 2011, a Primavera vai igualmente ser o momento do retorno ao mundo real.



Neste contexto, tanto mais perigoso porque todos os atores estão adormecidos numa perigosa ilusão de “retorno à normalidade”, em particular do “rearranque do motor econômico estadunidense” [16], o LEAP/E2020 considera necessário alertar seus leitores sobre o fato de que o Verão de 2012 verá esta ilusão voar em estilhaços. Com efeito, antecipamos que o Verão de 2012 verá a concretização de cinco choques devastadores que estão no cerne do processo de abalo geopolítico mundial em curso. As nuvens negras que se deslocam desde o princípio da crise em matéria econômica e financeira são agora reunidas pelas nuvens sombrias dos afrontamentos geopolíticos.

São estes, segundo o LEAP/E2020, os cinco furacões devastadores que vão marcar o Verão de 2012 e acelerar assim o processo de abalo geopolítico mundial:

  • Nova queda dos EUA na recessão, sobre o fundo da estagnação europeia e do enfraquecimento dos BRICs
  • Impasse para os bancos centrais e re-elevação das taxas
  • Tempestade nos mercados de divisas e das dívidas públicas ocidentais
  • Irã, a guerra “desnecessária”
  • Novo crash dos mercados e das instituições financeiras.

Neste GEAB nº 63 a nossa equipa analisa, portanto, em pormenor, estes cinco choques do Verão de 2012.

Paralelamente, em parceira com as Editions Anticipolis, publicamos um novo extracto do livro de Sylvain Périfel e Philippe Schneider, “2015 – La grande chute de l'immobilier occidental”, por ocasião da colocação à venda da sua versão francesa. O livro trata das perspectivas do mercado imobiliário residencial americano.

Finalmente, apresentamos nossas recomendações mensais focadas neste número sobre o ouro, as divisas, os ativos financeiros, as bolsas e as matérias-primas.

Notas de rodapé:  
(1) Um artigo de CameroonVoice , publicado em 06/03/2012, apresenta uma vista panorâmica interessante acerca desta situação de bloqueio que nos parece útil analisar tanto sob o ângulo geopolítico como sob o ângulo humanitário que tende a camuflar numerosos parâmetros atrás das "evidências da justa causa". Recordemo-nos do ataque à Líbia e das consequências desastrosas que implica hoje para numerosos líbios e para toda a região; a última até à data: a desestabilização de toda uma parte da África sub-saariana, como por exemplo o Mali. A este respeito, pode-se ler uma análise muito interessante de Bernard Lugan em Le Monde de 12/03/2012.

(2) E o Japão que se mantém discreto, mas não tem intenção de cessar de abastecer-se de petróleo iraniano. A China e a Índia por sua vez aumentam seus abastecimentos de petróleo iraniano e saciam-se no vazio deixado pelos ocidentais. Doravante os indianos utilizam mesmo o Irã como uma porta para o petróleo da Ásia Central. Fontes: Asahi Shimbun , 29/02/2012; Times of India , 13/03/2012; IndianPunchline , 18/02/2012

(3) Aguardemos para ver no segundo semestre de 2012 qual será a vontade da UE na matéria . Com o fim da tutela estadunidense sobre a política externa francesa seguida da mudança de presidente francês, numerosos aspectos da política internacional da Europa vão mudar.

(4) Numerosos são os responsáveis israelenses e americanos que se perguntam em que estado vão estar as relações entre os dois países no fim desta confrontação sem precedente sobre a questão de um eventual ataque ao Irã. Para alguns, aproxima-se do momento de "exaustão" de Israel por parte dos Estados Unidos, como analisa o artigo de Gideon Levy no Haaretz de 04/03/2012.

(5) Últimos exemplos até à data: o acordo dos BRICs para organizar entre si intercâmbios em divisas nacionais, e particularmente em Yuan devido à vontade de Pequim de internacionalizar a sua divisa; e a decisão do Japão de comprar títulos do tesouro chinês em acordo com Pequim. Pequim age assim de modo oposto ao Japão "dominante" dos anos 1980 que jamais ousou promover a internacionalização do Yen. Basta este aspecto para reduzir a nada todas as comparações entre a ascensão abortada do Japão e a situação da China hoje. Tóquio estava sob controle de Washington; Pequim não está. Fontes: FT, 07/03/2012; JapanToday. 13/03/2012

(6) Os bancos da Eurolândia estão a retirar-se das suas actividades de empréstimos em US$. Fonte: JournalduNet, 23/02/2012

(7) Nomeadamente o fim do social-liberalismo que ocupou o lugar da social-democracia europeia durante estas duas últimas décadas; e o retorno da "economia social de mercado" no cerne do modelo renano, modelo histórico europeu continental. Da Eslováquia do novo primeiro-ministro Fico à França do futuro presidente Hollande (isto não é uma opção política, mas o resultado das nossas antecipações publicadas desde Novembro de 2010 no GEAB nº 49) passando pela Itália de Mario Monti e uma Alemanha onde conservadores e sociais-democratas devem doravante fazer em conjunto o caminho europeu uma vez que é preciso para obter a maioria necessária à ratificação dos novos tratados europeus, vê-se desenharem-se os contornos da futura estratégia econômica e social da Eurolândia: fiscalidade progressiva reforçada, solidariedade social, eficácia econômica, colocação sob controle do setor financeiro, vigilância aduaneira, em resumo: afastamento a grande velocidade do modelo anglossaxônico em moda desde há 20 anos entre as elites do continente europeu.

(8) Últimos episódios até à data: o ataque diante da OMC da política comercial chinesa quanto às "terras raras" por parte dos Estados Unidos, apoiados pela UE e o Japão; os novos desenvolvimentos das acusações recíprocas EUA/UE sempre diante da OMC referentes às subvenções à Boeing e Airbus; a "guerra monetária" desencadeada pelo Brasil contra os Estados Unidos e a Europa. Fontes: CNNMoney , 12/03/2012 ; Bloomberg, 13/03/2012 ; Mish's GETA , 03/03/2012.

(9) Igualmente, impensável para muitos há apenas três meses, a agência Fitch de classificação acaba de subir a nota da Grécia. Fonte: Le Monde, 13/03/2012.

(10) As questões de democratização destas estruturas colocam-se como havíamos sublinhado. Mas estas estruturas (MEE, BCE, etc.) doravante estão estabelecidas. Cabe aos atores e forças políticas dos dois próximos anos encetar a sua colocação sob controle pelos cidadãos ao invés de passar seu tempo lamentando um tempo maravilhoso em que os cidadãos não tinham sequer a menor ideia de como o seu país geria a sua dívida. E não é atacado os tecnocratas que fizeram o "trabalho sujo" no meio da tempestade que os políticos encontrarão o caminho da legitimação democrática das instituições da Eurolândia, mas propondo novos mecanismos e processos de implicação dos povos nas decisões. A este respeito, é útil saber que no Parlamento Europeu o grupo PPE (em que tem assento nomeadamente os partidos de Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) tenta matar no ovo uma proposta transpartidária de criação de 25 cadeiras do Parlamento Europeu que seriam eleitas em listas transnacionais com a UE como circunscrição única. Segundo o LEAP/E2020 esta proposta é um pequeno passo no único caminho que pode conduzir a um controle cidadão das decisões europeias. É lamentável que cantores da necessidade da aproximação da Europa dos povos sejam, de fato, cúmplices do bloqueio de uma primeira tentativa séria nesta direção. Fonte: European Voice, 11/03/2012.

(11) Mesmo o Financial Times, apesar de ser um dos atores chave da histeria anti-euro, deve doravante reconhecer que os mercados emergentes (atores públicos e privados) reencontraram o seu apetite pela divisa europeia. Fonte: Financial Times, 26/02/2012.

(12) Insistimos sobre estes pontos, pois não se pode esquecer demasiado rapidamente os discursos dominantes de 2010 e 2011 que instigaram os investidores a comprarem da dívida grega, pois era uma "oportunidade de ouro"! A seguir os mesmos "peritos" também prognosticaram uma paridade €/US$ o que levou muitos operadores a venderem seus euros para comprar dólares de acordo com esta mesma lógica. Resultado: estes "peritos", que pululam nas manchetes dos media e as emissões financeiras, fizeram perder muito dinheiro a uns e outros. Para saber antecipar o futuro também é preciso preservar a sua memória!

(13) Não esquecemos que sem a histeria coletiva mantida em torno da "crise do euro", desde o fim de 2011, os Estados Unidos teriam sido incapazes de financiar os seus enormes déficits. Wall Street e City tiveram de pintar uma Europa à beira do precipício para poder manter o fluxo de compras dos seus títulos. Agora que esta propaganda já não funciona é, pois vital tentar embelezar a situação dos EUA para que a fonte externa de financiamento da economia americana não seque. Ver GEAB n°58 à 61.

(14) Para registro: em meados de 2010 o FMI preocupava-se em não "prejudicar a retomada". E em Janeiro de 2011 os peritos perguntavam como aproveitar da "recuperação" demonstrada pelos famosos "indicadores chave"! Fontes: FMI , 07/07/2010; CreditInfocenter, 27/01/2011.

(15) Nossa equipe quer deixar claro que não aprecia o talento de Hopper e que ele é aqui citado apenas porque é o pintor por excelência da classe média da "era dourada" dos Estados Unidos, que ele, contudo, em geral, mostrou numa atmosfera muito depressiva. Não podemos imaginar o que seria o ambiente dos seus quadros nos dias de hoje com uma classe média em perdição numa "era de ferro" do país.

(16) Recordamos que este é o credo fundamental sobre o qual repousa todo o sistema económico e financeiro global. E em três anos de crise, pela primeira vez desde 1945, este motor já não funciona. Assim, é necessário afirmá-lo durante tanto tempo quanto possível, à espera de um milagre. No Verão de 2012, as tempestades provocarão relâmpagos mas nenhum deles será miraculosos, muito pelo contrário.

Originalmente publicado em 15/Março/2012

NR: resistir.info ao publicar um texto não tem necessariamente de concordar com todo o seu conteúdo.

[*] Global Europe Anticipation Bulletin No. 63.

Este Comunicado GEAB No. 63, original em francês, pode ser lido em: Crise systémique globale - Les cinq orages dévastateurs de l'été 2012 au cœur du basculement géopolitique mondial”  

Esta tradução foi extraída do sítio: Resistir

domingo, 22 de janeiro de 2012

Crise sistêmica global 2012: O ano da grande perturbação geopolítica mundial


por GEAB 61

Com este GEAB Nº 61 completar-se-ão seis anos que a cada mês a equipe do LEAP/E2020 compartilha com os seus assinantes e os leitores do seu comunicado público mensal suas antecipações sobre a evolução da crise sistêmica global. E pela primeira vez, por ocasião do número de janeiro que apresenta uma síntese das nossas antecipações para o ano que decorrerá, nossa equipe antecipa um ano que não se traduzirá unicamente por um agravamento da crise mundial mas que será também caracterizado pela emergência dos primeiros elementos construtivos do “mundo após a crise”, para retomar a expressão de Franck Biancheri no seu livro Crise mundial: A caminho do mundo de amanhã".

Segundo o LEAP/E2020, 2012 será, com efeito, o ano da grande perturbação geopolítica mundial: um fenômeno que será, sem qualquer dúvida, portador de graves dificuldades para grande parte do planeta, mas que permitirá igualmente a emergência das condições geopolíticas propícias a uma melhoria da situação nos próximos anos. Ao contrário dos anos anteriores, 2012 não será um ano “perdido”, preso ao “mundo de antes da crise”, por falta de audácia, de iniciativa e de imaginação por parte dos dirigentes mundiais e pela grande passividade dos povos desde o princípio da crise.

Havíamos qualificado 2011 como o ano implacável pois fez explodir em estilhaços as ilusões de todos aqueles que pensavam que a crise estava sob controle e iam poder retomar seus “pequenos negócios quotidianos” como no passado. E 2011 foi implacável para numerosos dirigentes políticos, para o setor financeiro, para os investidores, para as dívidas ocidentais, para o crescimento mundial, para a economia dos EUA e para a ausência de governança da Eurolândia. Aqueles que se acreditavam intocáveis ou inamovíveis descobriram brutalmente que a crise não poupava nada nem ninguém. Esta tendência vai certamente prosseguir em 2012, pois a crise não respeita tampouco o corte do calendário gregoriano. Os últimos "intocáveis" vão experimentar: Estados Unidos, Reino Unido, dólar, títulos do tesouro, dirigentes russos e chineses, etc... [1] Mas 2012 verá igualmente afirmarem-se, sobretudo no seu segundo semestre, as forças e os atores que permitirão em 2013 e nos anos seguintes começar a reconstruir um novo sistema internacional, refletindo expectativas e relações de força do século XXI e não mais as dos meados do século XX. Quanto a isto, 2012 vai ser o ano da grande perturbação com a transição entre o mundo de ontem e o de amanhã. Como ano de transição, será uma mescla entre o pior [2] e o melhor. Mas, ainda assim, segundo a nossa equipe, será o primeiro ano construtivo desde 2006 [3].

Neste GEAB Nº 61 apresentamos igualmente os 35 temas/acontecimentos, que são também recomendações, que antecipamos caracterizarem o ano de 2012: 20 temas em alta e 15 temas em baixa. Esta lista pode muito concretamente ajudar o leitor do GEAB a preparar-se para o decorrer. Reduzir o tempo perdido em ler artigos sobre assuntos que já são secundários em termos de impacto sobre o rumo dos acontecimentos, ou ao contrário aproveitar o tempo para aprofundar temas que amanhã estarão no cerne das próximas evoluções, não se deixar apanhar de surpresa pelas grandes evoluções do ano que vem, é para isso que serve esta lista dos 35 “Up and Down” de 2012. Com uma percentagem de êxito que varia entre 75% e 85% nos últimos seis anos, esta antecipação anual é, portanto, uma ferramenta de ajuda à decisão particularmente concreta para os próximos doze meses.

Por outro lado, neste GEAB Nº 61 a nossa equipe analisa em profundidade a natureza e as consequências de uma possível QE3 que a Reserva Federal dos EUA lançasse em 2012 [4]. Esperada por uns, temida por outros, a QE3 (QE = Quantitative Easing) geralmente é apresentada como a arma final para salvar a economia e o sistema financeiro dos EUA que, ao contrário do discurso dominante nestas últimas semanas, continuam a degradar-se [5]. Que o Fed se lance ou não no QE3, isto será sem qualquer dúvida o grande acontecimento financeiro de 2012 cujas consequências marcarão definitivamente o sistema financeiro e monetário mundial. Este GEAB Nº 61 permitirá fazer uma ideia precisa acerca da questão.
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O QE3 desempenhará um papel determinante na grande perturbação geopolítica mundial de 2012, pois este ano veáa nomeadamente as últimas tentativas das potências dominantes do mundo-anterior-à-crise de manter o seu poder global, quer em matéria estratégica, econômica ou financeira. Quando utilizamos o termo “últimas” estamos querendo sublinhar que após 2012 a sua potência estará demasiado enfraquecida para ainda poder pretender manter esta situação privilegiada. A recente degradação da maior parte dos países da Eurolândia pelo S&P é um exemplo típico destas tentativas de última instância: pressionados pela Wall Street e pela City, e devido às suas necessidades insaciáveis de financiamento [6], os Estados Unidos e o Reino Unido chegaram ao ponto de empreenderem uma guerra financeira aberta contra os seus últimos aliados, os europeus. Trata-se de suicídio político pois esta atitude obriga a Eurolândia a reforçar-se integrando-se cada vez mais e dissociando-se dos Estados Unidos e do Reino Unido; enquanto a imensa maioria dos dirigentes e das populações da zona euro compreenderam finalmente que havia uma transatlântica e trans-Canal da Mancha contra si [7]. A este respeito, o LEAP/E2020 apresentará suas antecipações “Europa 2012-2016” no GEAB Nº 62 que aparecerá em 15 de Fevereiro de 2012.
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Num outro registro, as tentativas de criar uma “pequena guerra fria” com a China ou de estender uma armadilha ao Irã sobre a questão da livre circulação no Estreito de Ormuz decorrem do mesmo reflexo [8]. Voltaremos ao assunto com mais pormenores neste GEAB Nº 61.

A grande perturbação de 2012 é também a dos povos. Pois 2012 também será o ano da cólera dos povos. É o ano em que eles vão entrar maciçamente na cena da crise sistêmica global. O ano de 2011 terá sido um “pré aquecimento” em que pioneiros terão testado métodos e estratégias. Em 2012 os povos irão afirmar-se como as forças motivadoras das grandes perturbações que vão marcar este ano charneira (ponto de convergência). Eles o farão de maneira pró ativa porque criarão as condições para mudanças políticas decisivas via eleições (como será o caso em França com a expulsão de Nicolas Sarkozy [9]) ou via manifestações maciças (Estados Unidos, Mundo Árabe, Reino Unido, Rússia). E também o farão de maneira mais passiva gerando o temor junto aos seus dirigentes, obrigando-os a uma atitude “preventiva” para evitar um grande choque político (como será o caso na China [10] ou em vários países europeus). Em ambos os casos, seja o que for que pensem as elites dos países afetados, é um fenômeno construtivo, pois nada de importante nem de duradouro pode emergir desta crise se os povos nela não se envolverem [11].

A grande perturbação de 2012 será ainda o colapso acelerado do poder dos bancos e das instituições financeiras ocidentais, uma realidade que descrevemos neste GEAB contrariando o discurso populista atual, o qual esquece que o céu estrelado que contemplamos é uma imagem de uma realidade desaparecida desde há muito. A crise é uma aceleração tal da História que muitos ainda não compreenderam que o poder dos bancos com que se inquietam é aquele que eles tinham antes de 2008. É um assunto que pormenorizamos neste número do GEAB. Ao mesmo tempo, continua-se a ver os investidores fugirem das bolsas e dos ativos financeiros, nomeadamente nos EUA [12]
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E a grande comoção será também a chegada do BRICSs à maturidade. Após cinco anos de ensaios e experimentações, em 2012 eles vão começar a pesar fortemente e pró ativamente nas decisões internacionais [13]. Eles constituem, sem qualquer dúvida, um dos atores essenciais para a emergência do mundo pós crise. E um ator que, ao contrário dos Estados Unidos e do Reino Unido, sabe que o seu interesse é ajudar a Eurolândia a atravessar esta crise [14].

Com uma Eurolândia estabilizada e dotada de uma governança sólida, o fim de 2012 apresentar-se-á, portanto, como uma primeira oportunidade de fundar as bases de um mundo cujas raízes já não mergulharão mais no pós Segunda Guerra Mundial. Ironicamente, é provavelmente a cimeira do G20 de Moscou, em 2013, a primeira a efetuar-se fora do campo ocidental, que concretizará as promessas da segunda metade de 2012.


Notas de rodapé:

(1) E o folhetim da crise das dívidas europeias até o fim do primeiro semestre de 2012. O ano será muito difícil também para a Eurolândia como o mostram os cenários preparados pelo OFCE. Mas ela se demonstrará claramente menos difícil que o antecipado hoje pelos peritos e media financeiros pois eles subestimam, por um lado os progressos feitos em matéria de governação da Eurolândia que vão trazer os seus frutos no segundo semestre de 2012 e, por outro, a mudança de contexto psicológico uma vez que a atenção do mundo será transferida para os problemas americanos e britânicos. A este respeito, eis um novo exemplo de desinformação sobre o Euro publicado por MarketWatch em 09/01/2012: o editorialista David Marsh tenta fazer acreditar a ideia de que a eleição presidencial francesa da Primavera de 2012 será uma outra má notícia para o Euro, afirmando explicitamente que François Hollande é um eurocéptico! Como toda a gente sabe em França, François Hollande é, pelo contrário, um pró europeu e pró Euro convicto, o que não deixa senão duas pessoas quanto ao MarketWatch/Marsh: ou eles não sabem do que falam, ou mentem deliberadamente. Em ambos os casos, isso esclarece o valor das opiniões da grande imprensa financeira dos EUA sobre o Euro e seu futuro. Aqueles que os seguem perderão muito dinheiro! Ainda no que se refere à Eurolândia, a Spiegel de 03/01/2012 apresenta um mergulho interessante no funcionamento do Merkozysmo que mostra quanto os dois países estão em vias de ligar definitivamente seus destinos: uma evolução que será acelerada após a eleição de François Hollande que não terá, como Sarkozy, um pé na Eurolândia e outro pé em Washington.

(2) Em particular um prosseguimento da subida generalizada do desemprego. Fonte: Tribune, 31/10/2011

(3) Um toque poético permite ilustrar nossa abordagem da matéria, a qual segue a metodologia de antecipação política descrita no "Manuel d'Anticipation Politique" de Mari-Hélène Caillol, presidente do LEAP. O que é preciso notar no solestício de Inverno? Que ele assinala o centro do Inverno porque os dias nessa altura são mais curtos? Ou que anuncia a Primavera porque a partir desta data os dias se prolongam? As duas respostas são correctas. Mas a primeira não diz grande coisa sobre o futuro senão que vai continuar a fazer sombra e provavelmente frio durante um certo tempo; é uma fotografia, uma análise estática. A segunda resposta em contrapartida conduz o olhar para um futuro mais longínquo e sublinha a existência de um processo em curso que vai conduzir a mudanças em termos de duração do dia e talvez de temperatura; é uma visão dinâmica dos acontecimentos. A metodologia de antecipação política tem doravante o seu lugar no debate científico uma vez que Marie-Hélène Caillol foi convidada a contribuir para um número dedicado especialmente à antecipação (Volume 41, nº 1, 2012) (coordenado pelo professor Mihai Nadin) da revista científica americana "The International Journal of General Systems" (Francis & Taylor), um periódico multidisciplinar consagrado à publicação de trabalhos de investigação originais em ciências dos sistemas, fundamentais e aplicadas. O artigo que resultou desta colaboração intitula-se: "Antecipação política: observar e compreender as tendências sócio-económicas globais a fim de guiar os processos de tomada de decisão".

(4) As recentes publicações das minutas dos debates do Fed em 2006 ilustram perfeitamente uma das nossas hipóteses de trabalho: os responsáveis de um sistema complexo geralmente são incapazes de perceber o momento em que ele vai mergulhar na crise ou no caos. Foi o caso de Alan Greenspan, Thimothy Geithner e colaboradores em 2006. É o caso dos mestres da City, da Wall Street ou de Washington em 2012. Aliás, trata-se das mesmas pessoas para um certo número deles. Fonte: New York Times, 12/01/2012

(5) A degradação da situação dos EUA produz-se apesar da vontade de escondê-la por parte dos media dominantes e das agências de classificação; ao passo que na Eurolândia a situação não se degrada tanto quanto estes mesmos media e agências desejariam fazer crer. Com o decorrer do tempo, os resultados não deixam dúvidas. No que se refere à degradação económica estado-unidense, basta constatar o colapso dos lucros bancários, do consumo (os anúncios atroadores sobre as festas deram lugares números bem medíocres), o encerramento ou a falência contínua de redes de retalhistas, a manutenção do desemprego em taxas históricas, o problema crescente do pagamento dos aposentados, o colapso dos orçamentos das grandes universidades públicas, ... Fontes: YahooNews, 12/01/201; Bloomberg, 12/01/2012; USAToday, 12/01/2012; CNBC, 28/12/2011; Washington Post , 27/12/2011

(6) Como mostra o quadro abaixo, com endividamento de 900% do PIB o Reino Unido é como um animal preso na armadilha da dívida. E devido ao peso gigantesco da dívida do sector financeiro britânico, ele está condenado a tentar por todos os meios obrigar a Eurolândia a pagar as dívidas da Grécia, etc... O desconto das dívidas públicas ocidentais é uma bazuca apontada ao coração do Reino Unido, a City. Fonte: Guardian , 01/01/2012

(7) Tanto melhor pois não há nada pior que estar em guerra sem o sabe, como escreveu a respeito Franck Biancheri na sua conta Twitter que comenta a campanha presidencial francesa. twitter.com/Fbiancheri2012 .

(8) A Rússia já optou por desenvolver o seu comércio com o Irão em rublos e rials, eliminando o US dólar das transacções entre os dois países. Quanto à Europa, ela gesticula sob pressão dos EUA, mas acabará por não fazer grande coisa em matéria de embargo porque daqui até Junho (nova data para tomar uma decisão), o mapa político terá mudado muito. Fontes: Bloomberg , 07/01/2012; Le Monde , 09/01/2012

(9) O que a propósito recolocará a França na sua lógica histórica "gaullista-europeia" ao invés da ancoragem ocidentalista encarnada pelo parênteses Sarkozy. Fonte: Le Monde , 11/01/2012

(10) Na China, segundo o LEAP/E2020, o risco de uma grande explosão popular encontra-se no cruzamento de uma situação económica tensa (não será o caso em 2012 – ver neste GEAB nº 61) e de um grande acidente de saúde pública; muito mais do que num contexto diretamente político.

(11) O anúncio pelos Irmãos Muçulmanos egípcios de que submeterão a referendo o tratado de paz com Israel pertence a esta mesma tendência. Fonte: Haaretz , 02/01/2012

(12) Fonte: CNBC , 06/01/2012

(13) Os dirigentes chineses por exemplo parecem mais determinados do que nunca a seguir o caminho que consideram o melhor (nele incluído a conquista espacial, símbolo por excelência de liderança), rejeitando as pressões externas. Fonte: Caixin , 04/01/2012; ChinaDaily , 30/12/2011; NewYorkTimes , 29/12/2012

(14) Fonte: 20Minutes/Suisse , 08/01/2012

15/Janeiro/2012

Esta tradução foi extraída de: “Resistir

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Crise sistêmica global: “EUA 2012/2016: um país insolvente e ingovernável”

por GEAB No. 60 [*]

Como anunciado nos GEAB anteriores, nossa equipe apresenta neste nº 60 suas antecipações sobre a evolução dos Estados Unidos para o período 2012-1016. Este país, epicentro da crise sistêmica global e pilar do sistema internacional desde 1945, vai atravessar um período particularmente trágico da sua história no decurso destes cinco anos. Já insolvente, irá tornar-se ingovernável – provocando para os americanos e aqueles que dependem dos Estados Unidos choques econômicos, financeiros, monetários, geopolíticos e sociais violentos e destruidores. Se os Estados Unidos de hoje já são bem diferentes da "hiper-potência" de 2006, ano de publicação dos primeiros GEABs que anunciavam a crise sistêmica global e o fim do poderio estadunidense, as mudanças que antecipamos para o período 2012-2016 são ainda mais importantes e vão transformar radicalmente o país, seu sistema institucional, seu tecido social e seu peso econômico e financeiro.

Paralelamente, como a cada mês de dezembro, avaliamos nossas antecipações para o ano decorrido. Este exercício, muito raramente praticado pelos think-tanks, peritos e imprensa [1], é um instrumento que permite tanto aos assinantes [2] como aos nossos investigadores verificar que o nosso trabalho mantém um forte valor acrescentado e que está em ligação direta com a realidade. Neste ano o nosso desempenho melhorou ligeiramente e o LEAP/E2020 atingiu um resultado de 82% de êxito nas suas antecipações para 2011.

Pormenorizamos igualmente nossas recomendações referentes às divisas, ao ouro, às bolsas e às consequências da marginalização do Reino Unido no seio da UE [3] sobre a libra, o ouro e a dívida britânica e apresentamos alguns conselhos quanto às evoluções do sistema institucional americano [4].

Neste comunicado público optamos por apresentar um extrato da nossa antecipação sobre a evolução dos Estados Unidos para o período 2012-2016. Mas antes de abordar o caso americano, queremos frisar conceitos sobre a situação europeia [5] .

Da não deslocação da Eurolândia à deslocação do Reino Unido

Como antecipado pela nossa equipe, a cimeira europeia de Bruxelas dos dias 7 e 8 de Dezembro últimos desembocou em dois acontecimentos chave:
  • A busca da integração da Eurolândia com uma aceleração e um reforço das integrações orçamentais e financeiras e o esboço de uma integração fiscal [6]
  • Os governos da zona euro, Alemanha à frente, confirmaram a sua vontade de ir até o fim deste processo, ao contrário de todos os discursos anglo-saxões e eurocéticos que há dois anos prediziam que a Alemanha abandonaria o euro. Paralelamente, recusam-se a seguir o caminho do Fed e do Banco da Inglaterra proibindo-se de fazer rodar a impressora de papel-moeda (Quantitative Easing, QE) enquanto a disciplina orçamentária não estiver assegurada no seio da Eurolândia [7] . Os fracassos evidentes das QE tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido [8] confirmam a pertinência desta opção que permitirá no fim de 2012 iniciar a criação de Eurobonds [9] .
 

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Em contrapartida, a “garantia” de que o caso grego, de “imposição voluntária” de um desconto de 50% aos credores privados do país, permanecerá uma exceção é uma promessa que não compromete senão aqueles que nela acreditam. Ela foi igualmente avançada pelo presidente francês Nicolas Sarkozy cujos concidadãos sabem muito bem, após cinco anos de prática, que os seus compromissos não têm nenhum valor duradouro e são sempre de natureza táctica [10].

A marginalização duradoura (pelo menos 5 anos) do Reino Unido no seio da União Europeia confirma de modo gritante que doravante é a Eurolândia que dirige os assuntos europeus. A incapacidade de David Cameron para reunir nem que fossem dois ou três dos “aliados tradicionais” do Reino Unido [11] ilustra o enfraquecimento estrutural da diplomacia britânica e a falta de confiança geral na Europa sobre a capacidade do Reino Unido para ultrapassar a crise [12] . Também é um indicador fiável da perda de influência dos Estados Unidos sobre o continente uma vez que o envio do secretário do Tesouro Tim Geithner e do vice-presidente Joe Biden, em perambulação no continente alguns dias antes da cimeira, não serviu para nada e não permitiu evitar o fracasso britânico [13] .
 



Esta cimeira terá sido histórica, mas não ainda por ter resolvido os problemas financeiros e orçamentais europeus. Como havíamos antecipado em Dezembro de 2010, e como Angela Merkel acaba de recordar no Bundestag, o caminho da Eurolândia é um percurso longo, complexo e caótica, à imagem da rota percorrida desde os anos 1950 em matéria de integração econômica [14] . Mas é um caminho que reforça o nosso continente e vai colocar a Eurolândia no coração do mundo de após a crise [15] . Se os mercados não estão contentes com esta realidade, o problema é deles. Eles vão continuar a ver seus ativos-fantasmas esvaírem-se em fumaça, seus bancos e hedge funds abrirem falência, tentando, em vão, fazer subir as taxas de juros sobre as dívidas europeias [16] com o resultado de verem as notas das agências de crédito anglo-saxônicas perderem toda credibilidade [17] .
 


Esta cimeira é histórica, pois confirma e dinamiza o retorno dos países fundadores da UE aos comandos do projeto europeu e porque mostra que longe de assistir a um deslocamento da Eurozona, o choque tentado por David Cameron obedecendo ordens dos financistas da City [18] levou a uma aceleração do deslocamento do Reino Unido [19]. Além do enfrentamento entre liberais-democratas e conservadores que a atitude de Cameron iniciou, fragilizando sempre mais uma coligação já em más condições; esta marginalização britânica provoca uma oposição determinada na Escócia e no País de Gales, cujos dirigentes proclamam seu apego à UE e sua vontade, no que se refere à Escócia [20] , de aderir ao euro uma vez posto em marcha o processo de independência por volta de 2014 [21].

E, cereja em cima do bolo, a conivência entre a City e o governo britânico, doravante, é um tema que ultrapassa as fronteiras britânicas e reforça a determinação do continente de por sob controle definitivo esta entidade “fora da lei”. Como havíamos descrito desde Dezembro de 2009 e do início dos ataques contra a Grécia e a Eurolândia, a City, alarmada pelas consequências da crise em matéria de regulamentação europeia, lançou-se num ataque contra a Eurolândia em gestação, pondo ao seu serviço o Partido Conservador e a imprensa financeira anglo-saxônicos [22]. O episódio da recente cimeira de Bruxelas marca uma grande derrota para a City nesta guerra cada vez mais pública, expondo de passagem o rancor de uma maioria de britânicos não contra a Eurolândia, mas contra a City [23] , acusada de parasitar o país [24]. 

Com 1.800 bilhões de libras de dinheiro público investidos nos bancos para evitar o seu colapso em 2008, os contribuintes britânicos são, efetivamente, os que pagaram mais caro para o salvamento dos estabelecimentos financeiros. E o governo inglês pode muito bem continuar a excluir esta soma do cálculo do seu endividamento público pretendendo que se trata de um “investimento”, quando, de fato, cada vez menos pessoas do mundo imaginam que os bancos da City se recuperarão da crise, sobretudo desde o agravamento do segundo semestre de 2011: as ações compradas pelo Estado, de fato, já não valem mais nada. O “hedge fund UK” está à beira do precipício [25] e graças à David Cameron e à City, ele está isolado, sem ninguém para lhe acudir, nem na Europa nem nos Estados Unidos.

Com a bolha chinesa [26] prestes a juntar-se à recessão europeia e à depressão americana, a tempestade de 2012 vai determinar se David Cameron e seu ministro das Finanças George Osborne são descendentes dignos dos grandes navegadores britânicos.
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Mas retornemos agora ao extrato da nossa antecipação sobre o futuro dos Estados Unidos para o período 2012-2016.

EUA 2012/2016: Um país insolvente e ingovernável

Neste GEAB Nº 60, nossa equipe apresenta suas antecipações do futuro dos Estados Unidos para o período 2012-2016. Recordamos que desde 2006 e os primeiros GEAB, o LEAP/E2020 descreveu a crise sistêmica global como um fenômeno caracterizando o fim do mundo tal como se conhece desde 1945, marcando o colapso do pilar americano sobre o qual esta ordem mundial tem repousado há cerca de sete décadas. Desde 2006 havíamos identificado os anos 2011-2013 como aqueles no decorrer dos quais o “Muro Dólar”, sobre o qual assenta a potência dos Estados Unidos, ia se deslocar. O Verão de 2011, com a degradação da classificação de crédito dos EUA pela agência S&P marcou uma viragem histórica e confirmou que o “impossível” [27] estava mesmo em vias de se concretizar. Parece-nos, portanto, essencial proporcionar hoje aos nossos leitores uma visão antecipadora e clara sobre o que espera o “pilar” do mundo de antes da crise no momento, desde o Verão de 2011, em que esta crise passou à “velocidade superior” [28].

Assim, segundo o LEAP/E2020, o ano eleitoral 2012 que se abre sobre um fundo de depressão económica e social, de paralisia completa do aparelho de estado federal [29], de forte rejeição do bipartidarismo tradicional e de questionamentos crescentes sobre a pertinência da Constituição, inaugura um período crucial da história dos Estados Unidos. No decorrer dos próximos quatro anos, o país vai ser submetido a choques políticos, econômicos, financeiros e sociais jamais experimentados desde o fim da Guerra de Secessão que, acaso da história, começa muito precisamente há 150 anos, em 1861. No decorrer deste período, os Estados Unidos vão ser simultaneamente insolventes e ingovernáveis, transformando em “barco à deriva” (“bateau-ivre”) o que foi o “navio almirante” do mundo destes últimas décadas.

Para tornar compreensível a complexidade dos processos em curso, nossa equipe optou por organizar suas antecipações neste assunto em torno de três grandes polos:

1. A paralisia institucional estadunidense e o deslocamento do bipartidarismo tradicional.
2. A espiral econômica infernal dos EUA: recessão/depressão/inflação
3. A decomposição do tecido sócio-político estadunidense.

A espiral económica infernal dos EUA: recessão/depressão/inflação (extrato)

Os Estados Unidos terminam o ano de 2011 num estado de fraqueza sem equivalente desde a Guerra de Secessão. Já não exercem nenhuma liderança significativa em nível internacional. A confrontação entre blocos geopolíticos aguça-se e acham-se confrontados com quase todos os grandes atores do mundo: China, Rússia, Brasil (e mais geralmente quase toda a América do Sul) e doravante a Eurolândia [30].

Paralelamente, não chegar a dominar um desemprego cuja taxa real está estagnada em tornos dos 20%, no pano de fundo de uma redução contínua e sem precedente da população ativa (que caiu ao seu nível de 2011 [31]).

O setor imobiliário, fundamento da riqueza das famílias estadunidenses juntamente com a bolsa, continua a ver os seus preços caírem ano após ano, apesar das tentativas desesperadas do Fed [32] ao facilitar os empréstimos à economia através da taxa zero. A bolsa retomou sua baixa interrompida artificialmente pelas duas Quantitative Easing de 2009 e 2010. Os bancos americanos, cujos balanços estão muito mais carregados de produtos financeiros derivados do que os seus homólogos europeus, aproximam-se perigosamente de uma nova série de falências de que a MF Global é um sinal precursor, demonstrando a inexistência dos procedimentos de controle ou de alerta três anos após o colapso da Wall Street em 2008 [33] .

A pobreza estende-se cada dia um pouco mais através do país, em que um americano em cada seis depende doravante de cartões de alimentação [34] e em que uma criança em cada cinco experimenta episódios de vida na rua [35] . Os serviços públicos (educação, seguros sociais, polícia urbana, policiais rodoviários, etc.) foram consideravelmente reduzidos em todo o país para evitar as falências de cidades, municípios ou Estados. O êxito encontrado pela revolta das classes médias e dos jovens (Tea Party e Occupy Wall Street) é explicado por estas evoluções objetivas. E os próximos anos verão estas tendências agravarem-se.

O estado de fraqueza da economia e da sociedade estadunidense de 2011 é, paradoxalmente, o resultado das tentativas de “salvamento” efetuadas em 2009/2010 (planos de estímulo, QE, ...) e da degradação de uma situação “normal” pré 2008. O ano de 2012 vai assinalar o primeiro ano de degradação a partir de uma situação já muito deteriorada [36].

As PMEs, as famílias, as coletividades locais [37] , os serviços públicos, não têm mais “colchões amortecedores” para atenuar o choque da recessão em que o país caiu de novo [38]. Havíamos antecipado que o ano de 2012 veria uma baixa de 30% do US dólar em relação às principais divisas mundiais. Nesta economia que importa o essencial dos seus bens de consumo, isso se traduzirá por uma baixa quase equivalente ao poder de compra das famílias estadunidenses num fundo de inflação com dois algarismos.

Os Tea Party e Occupy Wall Street têm, portanto, belos dias pela frente pois a cólera de 2011 tornar-se-á a fúria de 2012/2013...

Notas de rodapé

(1) Sem falar sequer das agências de classificação que passam o seu tempo a modificar as suas avaliações, prova de que não dispõe de nenhuma metodologia fiável e que vagam ao sabor das pressões e das modas.

(2) Que assim podem julgar diretamente tanto a pertinência das nossas antecipações como a honestidade das nossas avaliações.

(3) Uma evolução antecipada há muito pela nossa equipe.

(4) A pedido de numerosos leitores estadunidenses.

(5) É no GEAB 61 ou 62 que apresentaremos nossas antecipações para a UE 2012-2016.

(6) O presidente da UE, Herman Van Rompuy, quase tem razão ao dizer que dentro de alguns anos julgar-se-á este fim de ano 2011 como um "annus mirabilis" para a Europa. Para a nossa equipe, é 2012 que será de facto o ano chave. Fonte: Le Soir, 13/12/2011

(7) Fonte: New York Times, 10/12/2011

(8) O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla em inglês) acaba de assinalar ao Reino Unido que a sua política de Quantitative Easing estava em vias de fracassar. Fonte: Telegraph, 12/12/2011

(9) Seja o que for que Angela Merkel diga hoje.

(10) Os alemães, holandeses e outros países com excedente estão igualmente determinados a retornar a este ponto quando chegar o momento certo. E mantemos nossa antecipação de que 30% da dívida pública ocidental não será reembolsada em 2012: na Europa, no Japão e nos Estados Unidos.

(11) Ou seja, os países europeus ainda enfeudados a Washington como a Chéquia de Vaclav Klaus, os países bálticos ou a Suécia.

(12) Todos os países da zona euro, salvo o Reino Unido, alinharam-se sabiamente por trás da bandeira da moeda única europeia. Mas sem dúvida são “irresponsáveis”, “idiotas” ou “inconscientes”... ao contrário dos comentaristas de imprensa anglo-saxônicos que sabem estar tudo condenado ao fracasso. Assim como antes de 2008 eles estavam persuadidos da invencibilidade das finanças anglo-saxônicas ou, até o segundo semestre de 2011, de que a crise estava sob controle! Fonte: Libération, 13/12/2011

(13) Este tipo de visitas estadunidenses de alto nível ou telefonemas presidenciais, amplamente divulgados pela imprensa dos EUA, pouco antes de uma cimeira europeia tornou-se uma característica da administração Obama. Impossibilitada de poder influir sobre os acontecimentos – uma vez que os eurolandenses fizeram compreender a Washington que devia ocupar-se dos seus próprios assuntos – isso permite fazer com que a opinião pública americana acredite que Washington continua sempre o “deus ex machina” dos assuntos europeus; embora nunca desde 1945 a influência dos EUA foi tão fraca sobre a evolução da Europa. É verdade que sem dinheiro, sem ameaça comum e sem credibilidade em matéria econômica e financeira, a tarefa dos enviados americanos não é fácil!

(14) Fonte: Euronews, 14/12/2011

(15) Segundo o LEAP/E2020, Angela Merkel é, hoje sem contestação, o único “homem de estado” europeu e mesmo ocidental. Ela não é uma grande visionária, mas é a única responsável política que combina a necessidade de políticas difíceis com uma visão positiva do futuro. E seja o que for que se pense, ela dá prova de uma inegável determinação, uma qualidade necessária para realizar as coisas que têm importância em política e que são sempre coisas difíceis.

(16) Dizemos “em vão” por duas razões. Por um lado, porque as taxas reais atuais não são de todo aquelas que a imprensa utiliza (ver gráfico acima) e, por outro, porque, segundo as nossas análises, a Eurolândia em 2012 ou princípio de 2013, se as taxas continuarem a subir, tratará de arrecadar directamente uma parte da imensa poupança europeia para desligar-se nas suas próprias condições dos mercados financeiros anglo-saxônicos ... que deverão aceitar um enorme desconto (haircut).

(17) A este respeito, a composição dos accionistas das três agências esclarece a ausência total de independência das suas decisões uma vez que estão nas mãos de alguns grandes bancos e fundos de investimento estado-unidenses (fonte: Bankster). Já é tempo de elas degradarem a classificação da Eurolândia em vários pontos ... para que os investidores façam a sua opção: acreditar nas classificações das agências ou confiar nas suas próprias opiniões (fonte: CNBC, 15/12/2011). Haverá uma diferença no fim. Segundo o LEAP/E2020, aqueles que seguirem as agências serão os maiores perdedores desta crise financeira. E a tentativa dos governos europeus de “manter a todo preço o seu AAA”, como é o caso de Nicolas Sarkozy, demonstra apenas uma coisa: eles não fazem senão ouvir os seus amigos financeiros. Quando se está na Eurolândia e se é o primeiro bloco comercial do mundo, o detentor da maior poupança mundial, etc..., pode-se zombar das agências de classificação. Ou se as ignora ou se lhes rompe as rédeas. Duas coisas que estarão igualmente no programa de 2012.

(18) Os “hedge funds” da City tornaram-se os maiores doadores do Partido Conservador (ver gráfico acima) que, de fato, é o seu intermediário político. E estes mesmos “hedge funds” têm naturalmente uma ternura particular pelos eurocéticos britânicos de que Roger Cohen esboça um quadro particularmente edificante no New York Times de 13/12/2011. O que os eurocéticos britânicos reprovam em Angela Merkel não é que ela seja alemã e sim que não seja nazi. Se fosse o caso, as suas ideias de "raça superior" poderiam exprimir-se mais facilmente no seio da UE.

(19) Que se encontra privado de influência sobre decisões que o afetarão de qualquer maneira. Fonte: Guardian, 10/12/2011

(20) Fontes: Scottish TV, 12/12/2011; Wales Online, 10/12/2011; Independent, 05/12/2011

(21) A propósito disto, nossa equipe aproveita para partilhar as suas reflexões sobre a utilização do termo “Unido” nos nomes de países. Consideramos que todos os países ou entidades políticas que põem a palavra Unido ou União no seu nome estão condenados à desunião no dia em que uma crise grave modifica os equilíbrios internos. O fato de utilizar o termo “Unido” mascara,de fato, um problema fundamental de identidade comum. É por isso que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas entrou em colapso; que as Províncias Unidas estão desunidas e que os Estados Unidos assim como o Reino Unido enfrentam tendências centrífugas crescentes. Também é por isso que a União Europeia não é uma entidade política viável (está destinada a não ser senão um grande mercado, fonte: Spiegel, 18/11/2011) ... ao contrário da Eurolândia que não tem necessidade de acrescentar União ou Unido para ter uma identidade comum. Franck Biancheri, diretor do LEAP/E2020, exprimiu assim, por estas razões, sua oposição à adoção da expressão União Europeia em lugar de Comunidade Europeia no princípio dos anos 1990.

(22) E utilizando plenamente sua capacidade de manipular as cotações das divisas e de outros ativos financeiros. Uma aptidão em declínio rápido devido à crise e ao desmascaramento crescente da manipulação em curso.

(23) Fonte: Independent, 10/12/2011

(24) A City é uma sobrevivência feudal que escapa a toda regulamentação séria no seio do Reino Unido. Nem que seja por ser um imenso centro financeiro que muito poucos controladores "controlam", apoiada sobre a vasta rede de paraísos fiscais formada por confetis do antigo império britânico. Para informação, a France Télévisions acaba de difundir uma notável reportagem sobre a City em 11/2011. Poder-se-ia dizer que a City é uma espécie de base de “piratas” à imagem das costas bárbaras que as potências europeias finalmente dominaram através de campanhas militares no século XIX, após séculos de piratarias e de tráficos de toda espécie.

(25) Seja devido ao fator de a dívida ser pública ou privada. Assim, em 2012 os investimentos imobiliários britânicos serão incapazes de refinanciar US$156 bilhões de empréstimos. Fonte: Bloomberg, 09/12/2011

(26) Fontes: Telegraph, 14/12/2011; Les Echos, 01/12/2011

(27) Recordemos que apenas um ano antes parecia totalmente louco antecipar tal degradação. Os peritos financeiros e a imprensa especializados e outros especialistas do “futuro como cópia conforme do passado” consideravam impossível tal degradação, ou eventualmente a prazo de cinco ou dez anos se a situação financeira do país continuasse a degradar-se.

(28) Esta exigência é tanto mais forte porque as esferas mediáticas e financeiras são totalmente parasitadas pelo “chamariz” que constitui a “crise do euro”, destinada, como sublinhamos desde há dois anos, e ocultar a gravidade da situação no cerne do sistema financeira mundial, a saber, a Wall Street e a City. O clamoroso fracasso de David Cameron em Bruxelas, na semana passada, ilustra igualmente o pânico que reina no coração das finanças anglo-saxônicas.

(29) A Eurolândia, apesar das suas “desvantagens” constantemente recordadas pela imprensa anglo-saxônica e dos sarcasmos histéricos dos intermediários da Wall Street e da City, conseguiu desde há cerca de dois anos construir toda uma nova aparelhagem político-institucional para atravessar a crise e preparar-se para o mundo de amanhã. Os Estados Unidos, ao contrário, verificaram-se totalmente incapazes da menor iniciativa para adaptarem-se à nova ordem mundial como mostrou recentemente o fracasso da super-comissão de redução do déficit apesar do seu objetivo bem limitado de 1,5 trilhões de reduções ao longo de 10 anos (ver o gráfico acima). A História dos Estados, tal como a das espécies, mostra, entretanto, que a capacidade de adaptação é essencial para a sobrevivência; e que isto é uma lei que não tem exceção.

(30) No seu belo poema “Se”, Rudyard Kipling escrevia “...Se puderes suportar ouvir tuas palavras / Travestidas por trapaceiros para enganar tolos, / E ouvir mentirem sobre ti suas bocas loucas / Sem que mintas tu mesmo uma única palavra... Então os Reis, os Deuses, a Fortuna e a Vitória / Serão para sempre seus escravos submissos”. E este conselho vale tanto para as coletividades quanto para os indivíduos pois a leitura imprensa anglo-saxônica a propósito do euro e da Eurolândia faz com que a nossa equipe pense irresistivelmente nesta passagem do poema. Contudo, com a marginalização do Reino Unido no seio da UE e a aceleração da integração da Eurolândia (conforme as nossas antecipações), constatamos a ultrapassagem de uma barreira psicológica na Eurolândia: já não é tempo de poupar as susceptibilidades dos nossos "aliados" anglo-saxônicos, mas muito simplesmente de nos protegermos dos ataques dos nossos adversários anglo-saxônicos. Ao contrário da imprensa e dos peritos “mainstream” da Wall Street e da City, os eurolandenses não perdem tempo em “travestir as palavras para enganar tolos”; eles contentam-se em levar em conta a realidade, a avançar ignorando-os e a cortar uma por uma as cordas que os ligam às praças financeiras (e amanhã políticas) britânicas e americanas. Nossa equipe não pode resistir ao prazer de apresentar uma nova ilustração da manipulação quotidiana de informação em que a maior parte dos media britânicos e americanos se tornou especialista. Assim, no quadro da nossa rubrica “os trapaceiros falam aos tolos”, MarketWatch publicou em 14/12/2011 um artigo intitulado “Os gestores de fundos temem um deslocamento da zona euro”. Ora, o que é que se descobre no interior do artigo? Que o seu principal temor (para 75% dentre eles) era uma nova degradação da classificação dos EUA (48% pensam que acontecerá em 2012) e que somente 44% deles pensavam que havia um risco de que um país saia um dia da zona euro, sem mencionar o prazo. Uma titulação honesta deveria portanto ter sido “Os gestores de fundos tem uma nova degradação da classificação dos EUA”. Mas, como se diz em francês, “à la guerre, comme à la guerre!” (faça o que é preciso fazer).

(31) Quanto no mesmo tempo a população dos EUA aumentou em 30 milhões de pessoas, ou seja, uma alta de 10%. Fonte: Washington Post, 02/12/2011

(32) Para a nossa equipe, 2013/2014 vai proporcionar, através do Congresso e devido a um apoio maciço na opinião pública, uma ocasião sem precedentes para reclamar um desmantelamento do Fed. As convicções anti-federais dos Tea Parties e aquelas anti-Wall Stret encontrarão aí um ponto de convergência irresistível.

(33) A este respeito, é particularmente interessante constatar que as agências de classificação, Moody's à frente, mais uma vez nada viram aproximar-se uma vez que no fim do Verão de 2011 a MF Global era recomendada por estas agências ... quando aquela sociedade já estava mesmo em vias de retirar dinheiro das contas dos seus clientes para tentar sobreviver. Aqueles que acreditam que os seus investimentos estão mais bem protegidos na Wall Street ou na City que meditem sobre este “pormenor”.

(34) Fontes: MSNBC, 11/2011; RT, 08/12/2011

(35) São números que doravante classificam o país integralmente na categoria “terceiro mundo” em matéria social. Fonte: Beforeitsnews, 29/11/2011

(36) O país já não gera crescimento, como explica Gregor McDonald em SeekingAlpha de 05/12/2011.

(37) Fonte: Washington Post, 29/11/2011

(38) O país, de fato, nunca saiu desde 2008, salvo tecnicamente devido a medidas macroeconómicas. Mas ninguém se alimenta de macroeconomia, salvo os economistas.

[*]  Global Europe Anticipation Bulletin. (15/12/2011)

 

·         O original deste comunicado encontra-se em: GEAB N°60 est disponible! Crise systémique globale - USA 2012/2016 : Un pays insolvable et ingouvernable  (em francês)