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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

No limiar de 2013

Adriano Benayon

I - Mundo

A “crise global” vai completar seis anos em 2013, e não há sinal de que termine sequer nos próximos anos. Mas o que é essa crise?

2. Um de seus aspectos é o colapso financeiro, iniciado nos EUA, em 2007, com o estouro da bolha dos derivativos, nos quais os bancos empacotavam hipotecas e outros débitos de cidadãos guiados para o consumismo, enquanto a renda deles decrescia, e a oligarquia acumulava lucros e bônus de dimensão jamais vista.

3. O outro aspecto é a depressão econômica, cuja manifestação mais dolorosa é o crescimento do desemprego, de já centenas de milhões de pessoas.

4. A “crise” abrange principalmente os EUA, o Japão e a Europa, e grande número de países da América Latina, Ásia, Oriente Médio e África, com alto grau de dependência em relação àqueles centros.

5. Mas a “crise” não é mundial. A China apresenta dinamismo considerável e está perto de ter a maior economia do Mundo, se é que já não a tem. Assume papel de economia central e atenua a queda da demanda e dos preços dos bens intensivos de recursos naturais, provenientes de países como o Brasil.

6. Também Taiwan, Coréia do Sul, Hong Kong e mais um ou outro tigre asiático prosseguem desenvolvendo-se, e países maiores - como Índia, Rússia e Irã - também crescem.

7. Se a China e esses países combinarem os respectivos mercados internos, as trocas regionais e a intensificação do intercâmbio entre todos eles, é possível que permaneçam fora da crise.

8. Seja como for, é deliberada, e muito profunda, a “crise” nos domínios dos grupos financeiros anglo-americanos, pois oferece aos concentradores do capital a oportunidade de concentrá-lo mais ainda, fazendo liquidar, ou adquirindo, empresas que sobreviveram e prosperaram quando a economia crescia.

9. Então os concentradores obtiveram lucros gigantescos não só de suas empresas “produtivas”, mas ainda mais das manipulações do mercado financeiro, propiciadas  pelas “autoridades reguladoras” ao permitir aos bancos criar dinheiro do nada e inventar todo tipo de derivativos, ilimitadamente.

10. Essas facilidades são a origem do próprio colapso financeiro, do qual os manipuladores saíram ilesos, graças ao socorro dos governos, em montantes que passam de US$ 30 trilhões.

11. Pois, sendo ilimitada a possibilidade de concentrar capital, os que o concentram, controlam por completo as instituições financeiras e também todas as políticas do Estado.

12. Dizem haver democracia, mas desta só há teatro. Seu espetáculo mais notório são as eleições, nas quais os candidatos são como jóqueis cujas blusas têm cores diferentes, mas todos pertencem à mesma escuderia.

13. No setor “produtivo”, o segmento que prospera são as indústrias bélicas. Resumo: tudo decai, exceto a finança, que não é produtiva, e as armas, que servem para destruir. A oligarquia parece bem assessorada para seu objetivo: o poder absoluto, a tirania inconteste. Como ensinou o arguto Maquiavel, o poder vem do ouro e das armas.

14. Essas armas são usadas em intervenções militares no exterior, que se multiplicaram a partir de 1990, após o fim da União Soviética. Desde os auto-ataques de 2001 (implosão das Torres em Nova York e o míssil atirado em fachada do Pentágono), as agressões externas tornaram-se mais frequentes e brutais (à exceção da devastação do Iraque em 1991).

15. Os EUA implantaram leis inconstitucionais, de repressão a nacionais e estrangeiros, que podem ser presos e torturados, sem ordem judicial. Os movimentos de resistência têm sido contidos por métodos violentos.

16. Na Espanha, Grécia, Inglaterra, etc. têm sido reprimidas com armas as manifestações de protesto dos que trabalham e dos desempregados massacrados pelas políticas de “austeridade”.

17. Fica claro que a oligarquia não teme mudança de regime, ao contrário da atitude tomada após a 2ª Guerra Mundial, quando não impediu ampliar as políticas de bem-estar social, diante da proximidade do poder militar soviético e de partidos comunistas dentro de casa.

II - Brasil

18. No Brasil tanto a situação econômica como a política inspiram sérios cuidados. E deveria preocupar-nos, ainda mais, isto: não se costuma perceber ou admitir que a grave doença de ambas não pode ser debelada senão a partir da eliminação de suas causas profundas e estruturais.

19. Leva a muito pouco dar razão aos keynesianos que recomendam aumentar a bolha do crédito, preferentemente aos “neoliberais”, que, de modo maligno, pregam parar com as quedas na taxa de juros da SELIC, enquanto, incoerentemente, reclamam crescimento da economia.

20. Nenhuma das receitas para a política macroeconômica - de qualquer escola - pode impedir a descida do Brasil para o abismo a que se encaminha. Quem quiser sonhar com o afastamento desse desenlace, tem que – para começo de conversa - exigir intensa cura estrutural, norteada pela reversão da desnacionalização e da concentração financeira e econômica.

21. Do lado político, a oligarquia financeira e midiática local - subordinada à oligarquia financeira mundial – está promovendo a desestabilização dos atuais ocupantes do Executivo federal, como bodes expiatórios “responsáveis” pelo descalabro que se avizinha, com qualquer curso na política econômica.

22. Os casos de corrupção têm dossiês prontos, à espera da hora propícia para virem à tona. Seus personagens pertencem aos mais variados partidos, pois a corrupção é intrínseca ao sistema concentrador. Ainda mais, nos países periféricos, riquíssimos em recursos naturais, e com mercado de razoável dimensão, como o Brasil, presa de colossal saqueio.

23. Tais casos vêm a público, como o do mensalão, punido pelo STF - afora os demais que estão vindo - sempre que o sistema de poder real decide afastar do poder oficial um “governante” – não necessariamente resistente àquele sistema - cuja queda lhe seja de interesse.

24. Serve para desviar o foco das reais causas do desastre econômico e social, e também para podar as asas de “governantes” que alcançaram ou almejam grande popularidade, além de abrir as portas do “governo” para outros agentes não menos corruptos e mais entreguistas. Carreiristas de qualquer partido, desde que aprovados pela oligarquia mundial, podem desempenhar esse papel.

25. Fica fácil concluir que a indispensável transformação da estrutura econômica só é possível juntamente com a substituição das instituições políticas (e vice-versa).

Artigo de Adriano Benayon, doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Crise Sistêmica Global: Alerta vermelho para Setembro-Outubro/2012



Quando as Trombetas de Jericó soarão sete vezes

por GEAB*

A evolução dos acontecimentos mundiais desenrola-se conforme as antecipações elaboradas pelo LEAP/E2020 durante trimestres recentes. A Eurolândia está finalmente saindo do seu torpor político e do curto-prazismo desde a eleição de François Hollande [1] à presidência da França e o povo grego acaba de confirmar a sua vontade de resolver os seus problemas no seio da Eurolândia [2], desmentindo assim todos os “prognósticos” das mídias anglossaxônicas e dos eurocéticos. A partir de agora, a Eurolândia (de fato a União Europeia menos o Reino Unido) vai, portanto, poder avançar e dotar-se de um verdadeiro projeto de integração política, de eficácia econômica e de democratização para o período 2012-2016, como o LEAP/E2020 antecipou em Fevereiro último (GEAB nº 62). É uma notícia positiva, mas nos próximos semestres, este "segundo Renascimento"  do projeto europeu [3] constituirá mesmo a única boa notícia a nível mundial.

Todas as outras componentes da situação global estão efetivamente orientadas num sentido negativo, mesmo catastrófico. Aqui, mais uma vez, os media dominantes começam a refletir uma situação antecipada desde há muito pela nossa equipe para o Verão de 2012. Com efeito, de uma forma ou de outra, mais frequentemente em páginas internas do que em grandes manchetes (monopolizadas há meses pela Grécia e o Euro [4] ), doravante encontra-se os 13 temas seguintes:

  1. Recessão global (mais nenhum motor de crescimento em parte alguma/fim do mito da “retomada estadunidense”) [5]
  2. Insolvência crescente, e doravante parcialmente reconhecida como tal, do conjunto do sistema bancário e financeiro ocidental.
  3. Fragilidade crescente dos ativos financeiros-chaves, como as dívidas soberanas, o imobiliário e os CDS na base dos balanços dos grandes bancos mundiais.
  4. Queda do comércio internacional [6]
  5. Tensões geopolíticas (nomeadamente no Médio Oriente) que se aproximam do ponto de explosão regional
  6. Bloqueio geopolítico global duradouro na ONU
  7. Colapso rápido de todo o sistema ocidental de aposentadoria por capitalização [7]
  8. Fraturas políticas crescentes no seio de potências "monolíticas" mundiais (EUA, China, Rússia)
  9. Ausência de soluções “milagrosas”, como em 2008/2009, devido à impotência crescente de vários grandes bancos centrais ocidentais (Fed, BoE, Boj) e ao endividamento dos Estados-nação.
  10. Credibilidade em queda livre para todos os Estados-nação que tenham de assumir o duplo encargo de um endividamento público e de um endividamento privado excessivos.
  11. Incapacidade para dominar/atenuar a progressão do desemprego em massa e de longa duração
  12. Fracassos das políticas de estímulos monetaristas e financeiras assim como das políticas de austeridade “pura”
  13. Ineficácia doravante quase sistemática dos grupos fechados internacionais alternativos ou recentes, G20, G8, Rio+20, OMC, etc. sobre todos os temas-chave do que já não é, de fato, uma agenda mundial [8] dada a ausência de qualquer consenso: na economia, finanças, ambiente, resolução de conflitos, combate contra a pobreza...
Segundo o LEAP/E2020, e conforme suas antecipações já antigas, assim como aquelas de Franck Biancheri desde 2010 no seu livro “Crise mondiale: En route pour le monde d'après”, este segundo semestre de 2012 vai realmente assinalar um ponto de inflexão importante da Crise Sistêmica Global e das respostas que lhe são dadas. 


Ele será caracterizado por um fenômeno, de fato, muito simples de compreender: se a Eurolândia está hoje em condições de abordar este período de modo prometedor [9] é porque atravessou nestes últimos anos uma crise de intensidade e profundidade sem igual desde o arranque do projeto de construção europeia após a Segunda Guerra Mundial [10] . A partir do fim deste Verão de 2012 serão todas as outras potências mundiais, Estados Unidos à cabeça [11] , que deverão enfrentar um processo idêntico.

É a este preço, e só a este preço, que elas estarão a seguir, em alguns anos, em condições de encetar uma lenta reascensão para a luz. 

Mas hoje, depois de terem tentado retardar o fracasso por todos os meios, chega a hora da fatura. E como em tudo, a capacidade retardar o inevitável paga-se com um custo extra, a saber o agravamento do choque de ajustamento à nova realidade. Trata-se, de fato, do fim de jogo para o mundo de antes da crise. Os sete clarins das trombetas de Jericó que assinalarão o período Setembro/Outubro 2012 provocarão a derrocada dos últimos pedaços do “Muro Dólar” e das muralhas que protegeram o mundo tal como o conhecemos desde 1945.

O choque do Verão de 2008 parecerá um pequeno furacão estival em comparação com aquele que vai afetar o planeta dentro de alguns meses.

O LEAP/E2020 jamais constatou a convergência temporal de uma tamanha série de fatores explosivos, e de fatores tão fundamentais (economia, finanças, geopolítica, ...), desde 2006, data do início dos seus trabalhos sobre a Crise Sistêmica Global.

Logicamente, na nossa modesta tentativa de publicar regularmente uma “meteorologia da crise” devemos, portanto, emitir para os nossos leitores um “alerta vermelho” pois é realmente a esta categoria que pertence o fenômeno que se prepara para impactar o sistema mundial em Setembro/Outubro próximo.


Neste GEAB nº 66 desenvolvemos nossas antecipações em relação a sete fatores-chaves deste choque de Setembro-Outubro 2012, “Os Sete Clarins das Trombetas de Jericó [12] que marcam o fim do mundo de antes da crise. Tratam-se de quatro fatores geopolíticos no Oriente Médio e de três componentes econômicos e financeiros no cerne do choque que vem aí:

  1. Irã/Israel/EUA: A guerra supérflua verificar-se-á
  2. A bomba assíria: o fósforo israelense-americano-iraniano no paiol Síria-Iraque
  3. O caos afegão-paquistanês: o exército dos EUA e da NATO, reféns de uma saída de conflito cada vez mais difícil
  4. O Outono árabe: os países do Golfo lançados na tormenta
  5. Estados Unidos: o “Armagedon fiscal” começa a partir do Verão de 2012 – A economia estadunidense em queda livre no Outono.
  6. A grande insolvência bancária chega em Setembro-Outubro/2012: Bankia versão City-Wall Street
  7. A insustentável leveza das Quantitative Easing do Verão de 2012 – os bancos centrais americano, britânico e japonês fora de jogo.
Desenvolvemos igualmente recomendações precisas sobre a maneira de minimizar o impacto do choque em preparação sobre a sua própria situação, quer seja um simples particular ou um decisor em empresas ou instituições públicas. Apresentamos igualmente o GlobalEurope Dollar Index do mês.

Finalmente, o LEAP/E2020 anuncia a retomada das suas formações em antecipação política, no próximo Outono, que doravante serão efetuadas on line a fim de responder aos pedidos chegados dos quatro cantos do planeta. Se o GEAB é um “peixe”, um produto acabado da antecipação, com estas formações esperamos ensinar um número crescente de pessoas a “pescar” o sentido nas águas turvas do futuro. Pois, se desejarmos que o fim de jogo do mundo de antes da crise desemboque na construção de um mundo melhor após a crise, parece-nos essencial desenvolver as capacidades de antecipação do maior número de pessoas.

Foi de fato esta ausência de antecipação que em grande parte provocou os erros na origem da crise atual.

Estas formações serão organizadas em parceria com a fundação espanhola não lucrativa FEFAP (Fundacion para la Educacion y la Formación en Anticipación Política) criada recentemente graças a uma doação de Franck Biancheri [13] .

Notas de rodapé

(1) Doravante os debates, saudáveis sobretudo se forem francos e amplos, preocupam-se com o médio-longo prazo, a integração políticas e as novas instituições necessárias. Daqui até o fim do Verão, a evidência de que a dimensão da Eurolândia é central impor-se-á e permitirá contornar a dificuldade das instituições a 27 membros que estão hoje num estado ruína e da omnipresença britânica a qual não permite nesta fase confiar-lhe uma tarefa importante para estabelecer a governança da Eurolândia. A problemática Hollande-Merkel tem a ver muito mais com esta realidade do que com uma divergência “instituições comum” ou “abordagem intergovernamental”. As instituições de Bruxelas também pertencem ao mundo anterior à crise e são inaptas a fundar a Europa do pós crise. Fontes: Deutsche Welle, 11/06/2012; Spiegel, 06/05/2012; El Pais, 10/06/2012; La Tribune, 10/06/2012.

(2) Que em contrapartida vai tornar mais tolerável o difícil ajustamento do país após 30 anos perdidos no seio da UE, perdidos, pois desperdiçados sem qualquer modernização do Estado grego. Fonte: YahooNews, 18/06/2012.

(3) MarketWatch de 14/06/2012 chega mesmo a prever para a Suíça uma inevitável integração na Eurolândia... como já havia feito do LEAP há algum tempo.  

(4) Estratégia de diversão obriga!

(5) Fontes: Bloomberg, 15/06/2012; Albawaba, 12/06/2012; ChinaDaily, 05/06/2012; CNNMoney, 11/05/2012; Telegraph, 04/06/2012; MarketWatch, 05/04/2012 .

(6) Fontes: IrishTimes, 12/04/2012 ; CNBC, 08/06/2012 .

(7) Fontes: WashingtonPost, 11/06/2012; Telegraph, 11/06/2012; The Australian, 15/06/2012; Spiegel, 06/05/2012; ChinaDaily, 15/06/2012 .

(8) Em dois anos houve realmente um deslocamento da agenda diplomática mundial.  

(9) A este respeito, o LEAP/E2020 antecipa a entrada das questões de defesa no cerne do debate sobre a integração política. Assim como o Euro foi criado no âmbito de um acordo complexo implicando um forte apoio francês à unificação alemã contra a mutualização do Deutsche Mark, a integração política que se perfila vai implicar a mutualização da “assinatura alemã” em contrapartida de uma forma de mutualização (pelo menos para o núcleo da Eurolândia) da dissuasão nuclear francesa. Os dirigentes franceses vão assim descobrir três coisas: que a questão da segurança/defesa preocupa muito seus parceiros da Eurolândia contrariamente às aparências (devido nomeadamente à perda de credibilidade rápida da proteção estadunidense); que não há razão para que um debate complexo e difícil seja provocado por esta nova fase de integração unicamente na Alemanha (a França também vai ter de se envolver) e finalmente que as opiniões públicas não são contra este tipo de abordagem muito concreta ao contrário dos tratados jurídicos incompreensíveis (como em 2005). Em matéria de defesa, assiste-se já a uma evolução importante: a França afasta-se silenciosamente de toda parceria significativa com o Reino Unido para se recentrar na cooperação com a Alemanha e os países do continente. O fato de o Reino Unido sempre prometer e nunca cumprir seus compromissos em matéria de defesa europeia (último até à data: o desenvolvimento comum de porta-aviões é posto em causa pela decisão britânica de não adaptar seu porta-aviões para receber os aparelhos franceses) foi finalmente analisado pelo que é, ou seja, uma tentativa ininterrupta de impedir a emergência de uma defesa europeia. E a redução drástica da capacidade de defesa britânica, por razões orçamentais tornaram-no, de fato, um parceiro cada vez menos atrativo. Fontes: Monde Diplomatique, 15/05/2012; Telegraph, 06/06/2012; Le Point, 14/06/2012.

(10) Choque ampliado na psicologia coletiva europeia e mundial pela incapacidade dos europeus durante este período de impedir serem instrumentalizados pela City e a Wall Street em matéria mediática, a fim de, por um lado, desviar a atenção das suas próprias dificuldades e, por outro, tentar “partir” esta Eurolândia em emergência que balouça a ordem estabelecida após 1945.  

(11) País que viu a riqueza dos seus habitantes ser reduzida em 40% entre 2007 e 2010 segundo um estudo recente realizada pela Reserva Federal dos EUA. Permitimo-nos lembrar que quando em 2006 indicávamos, desde os primeiros números do GEAB, que esta cria iria provocar uma baixa de 50% da riqueza das famílias americanas, a maior parte dos “peritos” consideravam esta antecipação como totalmente aberrante. E o estudo vai só até 2010. Como indicamos, ainda há pelo menos 20% de baixa que aguarda as famílias dos EUA. Este recordatório visa sublinhar que uma das maiores dificuldades do trabalho de antecipação é a imensa inércia das opiniões e a falta de imaginação dos peritos. Cada uma reforça a outra para fazer crer que nenhuma mudança negativa importante está ali na esquina. Fonte: WashingtonPost, 11/06/2012; US Federal Reserve, 06/2012.

(12) Para saber mais sobre o mito das Trombetas de Jericó: Wikipedia.  

(13) Ele deve ser um dos muito poucos operadores a terem feito entrar dinheiro no sistema bancário espanhol nestas últimas semanas. Prova de convergência entre análise e ação.

Junho/2012

Esta tradução foi extraída de Resistir e adaptada ao português do Brasil pela redecastorphoto.

Observação da redecastorphoto: Os “links” das Fontes mencionadas nas Notas de rodapé estão no Comunicado Público original em francês.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O mundo sobreviverá à ambição arrogante de Washington?


28/6/2012, Paul Craig Roberts, Institute of Political Economy
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu


Paul Craig Roberts
Quando o presidente Reagan nomeou-me para o cargo de vice-secretário do Tesouro para Política Econômica, disse-me que tínhamos de restaurar a economia dos EUA, resgatá-la da estagflação, para voltarmos a ter economia forte, para enfrentar os soviéticos e convencê-los a negociar o fim da Guerra Fria. Reagan disse que não havia motivo algum para continuarmos a viver sob a ameaça de uma guerra nuclear. O governo Reagan alcançou os dois objetivos.

Mas, imediatamente depois, esses dois sucessos do governo Reagan foram descartados pelos governos que vieram depois dele. Foi o próprio vice-presidente de Reagan e seu sucessor na presidência, George Herbert Walker Bush, quem primeiro violou o acordo Reagan-Gorbachev: ao incorporar à OTAN partes do Império Soviético; e ao instalar bases militares ocidentais junto à fronteira da Rússia.

O processo de cercar a Rússia com bases militares prosseguiu sem descanso ao longo de vários governos nos EUA, com inúmeras “revoluções coloridas” pagas pelo Fundo Nacional dos EUA para a Democracia [orig. US National Endowment for DemocracyNED] que, para muitos, não passa de fachada para ações clandestinas da CIA. Washington tentou ‘mudança de regime’ na Ucrânia, para instalar ali um governo controlado por Washington; e na Georgia ex-soviética, terra natal de Joseph Stalin, conseguiu.

Mikheil Saakashvili
Presidente da Georgia
O presidente da Georgia, país entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, é reles fantoche de Washington. Anunciou, há pouco tempo, que a Georgia ex-soviética será incorporada à OTAN, como membro pleno, em 2014.

Os mais velhos ainda lembrarão que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, é aliança criada entre a Europa Ocidental e os EUA, contra o perigo de o Exército Vermelho tomar toda a Europa Ocidental. O Atlântico Norte fica muito, muito longe do Mar Negro e do Mar Cáspio. Por quê a Georgia seria convertida em membro da OTAN... a menos que se trate de, assim, oferecer a Washington uma base militar no “baixo ventre macio da Rússia” [ing. russian soft underbelly, expressão criada por Churchill, no início do século 20]?

É absolutamente evidente, evidente demais, que os EUA – os dois principais partidos – já decidiram que Rússia e China são os inimigos “da hora”. Ainda não se sabe se o “projeto” é destruir os dois países ou apenas incapacitá-los e torná-los impotentes, para que não se possam opor ao avanço imperial de Washington. Seja qual for o projeto, todos os caminhos levam à guerra nuclear.

A prostituída imprensa-empresa norte-americana [orig, presstitute American press] insiste em que um diabólico governo Sírio “do mal” estaria assassinando civis inocentes, que só ansiariam por democracia; que se a ONU não intervier militarmente, os EUA terão de agir, em nome da defesa de direitos humanos. Rússia e China são pintadas como demônios-assessores do demônio-mor sírio, até por altos funcionários do governo dos EUA, porque se opõem ativamente à ideia ensandecida de que a OTAN “deve” atacar a Síria.

"Presstitute" (Imprensa-empresa prostituída)
Os fatos são muito diferentes e absolutamente não aparecem na prostituída imprensa-empresa norte-americana e nas “declarações” de altos funcionários do governo dos EUA. Os “rebeldes” sírios estão armados com armamento militar. Os “rebeldes” estão lutando contra o exército sírio. Os “rebeldes” massacram civis. Os mesmos “rebeldes”, em seguida, “informam” às mídias prostituídas que lhes prestam o sujo serviço de distribuir propaganda no ocidente, que os massacres seriam obra do governo sírio. E subprostitutas da subimprensa-empresa de repetição repetem para todo o ocidente a mesma propaganda.

Dado que as armas que se veem nas mãos dos “rebeldes” não estão à venda nos mercados sírios nem em banca de frutas, é óbvio que alguém está armando os “rebeldes”. Os melhores analistas e observadores do mundo têm repetido que aquelas armas são fornecidas aos “rebeldes” pelos EUA ou por subalternos aos quais os EUA atribuem a tarefa (local) de armar “rebeldes” (locais), em vários pontos do mundo.

Assim sendo, já não é segredo que Washington provocou uma guerra civil na Síria, exatamente como fez na Líbia. Apenas que, dessa vez, russos e chineses perceberam a tempo e absolutamente não permitirão que se aprove, no Conselho de Segurança da ONU, resolução-golpe semelhante à que o ocidente conseguiu arrancar do CS e usou contra Gaddafi.

Para contornar esse impedimento, peguem aí um avião Phantom velho, dos anos 1960s, da Guerra do Vietnã, e mandem a Turquia mandar o Phantom voar para dentro das fronteiras sírias. Os sírios derrubarão o jato velho e, então, a Turquia apelará aos seus aliados na ONU, para que acorram em seu socorro contra a Síria. Fracassada a opção ONU, Washington poderá invocar algum neo “dever-de-atacar”, nos termos do tratado que criou a OTAN, para defender aliado membro da OTAN... contra a Síria já eficazmente demonizada.

Presstitute (imprensa-empresa protituída)
A mentira neoconservadora que continua a ser usada como justificativa por trás das chamadas “guerras de hegemonia” de Washington é a mentira de que os EUA estariam levando democracia aos países que invade, ocupa e destrói com bombardeios. Mal parafraseando Mao, “a democracia nasce do cano do fuzil”. Contudo, pouca democracia há à disposição da Primavera Árabe; menos ainda, no Iraque e no Afeganistão, dois países que foram “libertados” na invasão-ocupação-bombardeio “democráticos” dos EUA.

Os EUA estão distribuindo guerras civis e países estilhaçados, pelo mundo. Exatamente o que o presidente Bill Clinton distribuiu na ex-Iugoslávia. Quanto maior o número de países desmontados, reduzidos a cacos e dilacerados por guerras entre grupos locais rivais... maior o poder de Washington.

A Rússia de Putin entende claramente que a própria Rússia está sob ameaças, não só porque Washington paga para criar uma “oposição russa”, mas, também, porque Washington trabalha para criar guerras entre facções islamistas, também em estados seculares de população muçulmana, como o Iraque e a Síria. Essas cisões respingam também sobre a Rússia e fazem despertar questões russas, como o terrorismo checheno.

Quando um estado secular é derrubado, as facções islamistas ficam liberadas para saltar, umas ao pescoço das outras. A guerra interna paralisa o país, torna-o impotente. Como já escrevi outras vezes, o ocidente sempre conseguiu controlar o oriente porque as facções islamistas odeiam-se umas as outras mais do que odeiam o conquistador ocidental. Assim, quando Washington destrói governos seculares não islamistas, como destruiu o Iraque e, agora, tenta destruir a Síria, os islamistas emergem e põem-se a disputar a supremacia entre eles mesmos. Nada melhor, do ponto de vista de Israel e Washington, que esses estados que perdem as condições de agir como adversário resistente coerente.

A Rússia é hoje vulnerável, porque Putin é demonizado pela mídia nos EUA em geral e por Washington em especial, e porque a oposição a Putin, dentro da Rússia é financiada por Washington e trabalha a favor dos interesses dos EUA, não dos russos. O inferno que Washington está construindo e espalhando pelos estados muçulmanos respinga sobre as populações muçulmanas dentro da Rússia.

Já se sabe que é mais difícil para Washington interferir nos assuntos internos da China, embora já haja sinais de que a semeadura de discórdia já começa a brotar em algumas províncias. Espera-se que, dentro de alguns anos, a economia chinesa suplante, em valores, a economia dos EUA; pela primeira vez na história, uma potência asiática aparecerá à frente das demais economias mundiais e à frente das mais poderosas economias ocidentais .

Essa possibilidade, já bem real, abala profundamente Washington. Washington, que se deixou derrotar e é hoje governada por Wall Street e outros grupos de negócios específicos, é absolutamente impotente para deter o continuado declínio da economia norte-americana.

Os especialistas que vivem da jogatina em Wall Street, aos quais só interessam os ganhos de curtíssimo prazo; o complexo militar/segurança, que lucra com a guerra; e as empresas que exportaram, com a produção de bens e serviços, também os postos de trabalho dos norte-americanos, e que hoje lucram com isso são as forças que elegem representantes e nomeiam autoridades em Washington. E assim, enquanto a economia norte-americana naufraga, a economia chinesa prospera.

A resposta de Washington a essa situação? Militarizar o Pacífico. A secretária de Estado Hillary Clinton “área de interesse nacional dos EUA”, o Mar do Sul da China.

Os EUA estão chantageando o governo das Filipinas, usando lá a “carta chinesa” (a ameaça viria da China) e trabalhando para conseguir que a Marinha dos EUA seja convidada a voltar para a base naval que ocupou, há tempos, na Baía Subic. Recentemente, houve manobras conjuntas entre exércitos e marinhas dos EUA e das Filipinas: treinamento para enfrentar “a ameaça chinesa”.

A Marinha dos EUA está deslocando navios para o Pacífico e construindo nova base naval numa ilha da Coreia do Sul. Os Marines dos EUA já estão baseados na Austrália e estão sendo realocados, do Japão, para outros países asiáticos. Os chineses nada têm de idiotas. Sabem perfeitamente que Washington está tentando encurralar a China.

Para um país incapaz de ocupar o Iraque depois de oito anos de guerra; e incapaz de ocupar o Afeganistão depois de 11 anos de guerra... imaginar-se capaz de tomar e ocupar simultaneamente duas potências nucleares é, simplesmente, ato de insanidade.

A húbris, a arrogância enlouquecida, alimentada diariamente em Washington por doidos neoconservadores que ainda não viram, até hoje, o extraordinário fracasso dos EUA no Iraque e no Afeganistão, meteram-se, agora, a provocar duas potências gigantes – Rússia e China. A história do mundo, em todos os tempos, jamais, antes, assistiu a tamanha imbecilidade.

Psicopatas, sociopatas, doidos varridos e idiotas “normais” que mandam em Washington estão arrastando os EUA e o mundo, para vastíssima desgraça. Os governos que se sucedem em Washington – tanto faz que sejam governos Democratas ou Republicanos – e independente de quem venha a ser o próximo presidente dos EUA são, hoje, a mais grave ameaça à vida nesse planeta, que jamais houve, em todos os tempos. Como se não bastasse, os criminosos de Washington contam com a cumplicidade incondicional da empresa-imprensa.

Em próxima coluna, examinarei a chance que talvez ainda haja de os criminosos de guerra que comandam Washington e sua empresa-imprensa de repetição conseguirem levar a termo o total colapso da economia dos EUA, antes de que os mesmos criminosos de guerra consigam por fogo no mundo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O cartório dos bancos


Adriano Benayon

*Adriano Benayon
O ininterrupto crescimento dos lucros dos bancos constitui um seriado da categoria horror. Recapitulando: em junho de 2011, publiquei o artigo “Os lucros dos bancos crescem sem parar”, onde se lê:
“Nos oito anos de FHC, a média anual de crescimento real dos lucros dos bancos foi 11%, acumulando 230% em oito anos. De 2003 a 2007, ela foi 12%, acumulando 176% em 5 anos. De 2003 a 2010 os lucros dos cinco maiores bancos - Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Caixa Econômica Federal - elevaram-se de R$ 11,1 bilhões para R$ 46,2 bilhões, em sete anos. Elevação sustentada, à média de 17,7% ao ano, ou seja, 313%. Em termos reais (correção pelo IPCA): 12,1 % aa., acumulando 222%”.
2. Em artigo de março de 2010, “Brincando à Beira do Abismo”, salientei a concentração no setor, já enorme em 2009:
Apenas cinco bancos (Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Caixa Econômica) somam lucro de R$ 37,3 bilhões, superando o lucro total dos 31 bancos computados em 2007.”
3. Em 2011, os lucros desses cinco bancos alcançaram R$ 51 bilhões: Itaú: 14,6; Banco do Brasil 12,1: Bradesco: 11; Santander: 7,8; CEF: 5,2 bilhões.
4. Esse é só o “lucro líquido”. No cálculo deste as empresas usam técnicas contábeis para deduzirem muita coisa do lucro real, aproveitando permissões e brechas da legislação tributária. O imposto de renda só incide sobre aquele. Ademais, a alíquota do imposto é 15%, enquanto as pessoas físicas que ganham acima de R$ 3.750 mensais, estão sujeitas à de 27,5%.
5. Há anos, assinalo que os bancos gozam de vantagens mais que cartoriais: a garantia de lucros monopolistas para seu cartel, uma vez que, juntamente com as grandes corporações transnacionais, controlam o Estado.
6. Talvez por isso, não abusaram dos derivativos, os detonadores do colapso financeiro mundial, que levou os governos dos EUA e europeus a socorrer grandes bancos com dezenas de trilhões de dólares e de euros.
7. A União Federal propicia aos bancos em operação no Brasil aplicarem em títulos da dívida pública, para si próprios, o dinheiro dos depositantes, auferindo os juros reais mais altos do mundo, há quase vinte anos. E o ganho não vem só das taxas, mas também da dimensão do mercado desses títulos, cujo crescimento se deu principalmente pela capitalização dos juros.
8. O estoque da dívida pública mobiliária interna atingiu, em fevereiro último, R$ 1,760 trilhão, sem contar os títulos em poder do Banco Central, os quais já somavam R$ 749 bilhões no final de novembro de 2011. Também notável é o curtíssimo prazo médio desses títulos (menos de quatro meses), o que implica rolagem quadrimestral da ordem de R$ 600 bilhões.
9. Além disso, as outras aplicações rendem aos bancos taxas de juros que são múltiplos da SELIC, usada nos títulos públicos, com margens fantásticas, como em empréstimos a empresas e a indivíduos e, ainda maiores, nos cartões de crédito, tudo isso favorecido pelo Banco Central. Este, ademais, admite tarifas por serviços bancários tão elevadas, que lhes custeiam todos os custos administrativos.  
10. Desse modo, o crédito à economia produtiva fica mais por conta dos bancos públicos, à frente deles o BNDES, seguido de Banco do Brasil, CEF e o Nossa Caixa, estadual, que sobreviveu à razzia das privatizações. Mas o BNDES financia sobre tudo transnacionais e outras  grandes empresas, e os bancos comerciais públicos atuam, cada vez mais, de maneira semelhante à de seus congêneres privados.
11. A mais escandalosa das privatizações, a do BANESPA, assumido pelo estrangeiro SANTANDER, foi comentada extensamente no artigo “Os lucros dos bancos crescem sem parar”, junho de 2011. Com a eliminação do BANESPA, dotado de grande rede de agências, especialmente no interior de São Paulo, o desenvolvimento desse Estado e do País foram grandemente prejudicados.
12. Um banco comercial é uma concessão incrível, que lhe enseja criar moeda, fazendo empréstimos, só com lançamentos nos computadores, em múltiplos dos depósitos, deduzidos os compulsórios junto ao Banco Central. Ainda assim, dado que têm lucros altíssimos garantidos pelo mercado dos títulos públicos, evitam os riscos dos empréstimos ao setor privado.
13. Apesar disso, o crédito a empresas e a pessoas físicas cresceu muito desde 2003, quando equivalia a 26% do PIB. No final de 2011 foi a 49,1%, sendo 31,5% o estendido por bancos comerciais (16,3% em 2003). O BNDES responde pelo grosso dos 17,6% restantes.
14. Especialmente apreciável foi a expansão do crédito imobiliário, ajudada, a partir de 2005, por mudanças na lei que facilitaram a tomada dos imóveis pelos bancos em caso de inadimplência do mutuário. O professor de finanças da USP de Ribeirão Preto, Alberto B. Matias aponta a espantosa concentração nesse setor: “Em 1994, tínhamos 16 grandes bancos privados de varejo. Sobraram dois.”

15. Há também, em relação com os fatores comentados no artigo do último mês, “Brasil Privatizado”, o risco de bolha imobiliária, após a vertiginosa alta dos preços dos imóveis. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias com o sistema financeiro alcançou, em novembro, 42,51% da renda acumulada nos 12 meses anteriores.

16. Por fim, não contentes com os mercados cativos que já têm, inclusive seguros e resseguros, os concentradores financeiros fizeram a presidente da República pôr no Congresso, o fundo de previdência complementar dos servidores públicos (FUNPRESP), mais uma etapa da privatização da previdência, colocando as aposentadorias e pensões à mercê do cassino das bolsas de valores.

*Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento”

terça-feira, 20 de março de 2012

Crise sistêmica global: GEAB No. 63


“Os cinco furacões devastadores do Verão de 2012 – no centro do abalo geopolítico mundial”

por GEAB [*]

No seu número de Janeiro de 2012, o LEAP/2010 colocou o ano em curso sob o signo do abalo geopolítico mundial. O primeiro trimestre de 2012 começou em grande medida a estabelecer que uma época estivesse, com efeito, em vias de terminar com, nomeadamente: as decisões da Rússia e da China de bloquear toda tentativa ocidental de ingerência na Síria [1]; a vontade de afirmada dos mesmos, associados à Índia [2] em particular, de ignorar ou contornar o embargo petrolífero decidido pelos Estados Unidos e a UE [3] contra o Irã; as tensões crescentes nas relações entre os Estados Unidos e Israel [4] ; a aceleração da política de diversificação em afastamento do US dólar conduzida pela China [5] e os BRICs (mas igualmente pelo Japão e a Eurolândia [6] ); as premissas da mudança de estratégia política da Eurolândia por ocasião da campanha eleitoral francesa [7]; e a intensificação dos atos e discursos alimentando a ascensão de potência de guerras comerciais trans-blocos [8] . Em Março de 2012 está-se longe de Março de 2011 e do “assalto” à ONU pelo trio EUA/Reino Unido/França para atacar a Líbia. Março de 2011 ainda estava no mundo unipolar pós 1989. Março de 2012 já está no mundo multipolar pós crise a hesitar entre confrontações e parcerias.

Assim, tal como antecipado pelo LEAP/E2020, o tratamento da “crise grega” [9] fez desaparecer rapidamente a chamada “crise do Euro” das manchetes dos media e das inquietações dos operadores. A histeria coletiva mantida a respeito no decorrer do segundo semestre de 2011 pela imprensa anglossaxônica e os eurocéticos extinguiu-se lentamente: a Eurolândia impõe-se cada vez mais como uma estrutura perene [10] , o Euro está novamente em voga nos mercados e para os bancos centrais dos países emergentes [11] , o duo Eurogrupo/BCE funcionou eficazmente e os investidores privados tiveram de aceitar um desconto indo até 70% dos seus haveres gregos, confirmando assim a antecipação do LEAP/E2020 que falava então de um desconto de 50% quando quase ninguém imaginava que a coisa fosse possível sem uma “catástrofe” significando o fim do Euro [12]. Finalmente, os mercados dobram-se sempre à lei do mais forte e ao medo de perder mais, seja o que for que digam os teólogos do ultraliberalismo. Trata-se de uma lição que os dirigentes políticos vão guardar cuidadosamente na memória, pois há outros descontos que estão para vir, nos Estados, no Japão e na Europa. Aí voltaremos neste GEAB nº 63.

Paralelamente, e isso contribui para explicar a doce euforia que alimenta os mercados e certo número de atores econômicos e financeiros nestes últimos meses, por causa do ano eleitoral e por necessidade de fazer boa figura a qualquer custo numa zona Euro que não afunda [13], a imprensa financeira dos EUA relançam o golpe dos “green shootsdo princípio de 2010 e da “retomada” [14] do princípio de 2011 a fim de pintar uma América em “saída da crise”. Contudo, neste princípio de 2012 os Estados Unidos parecem uma decoração deprimente pintada por Edward Hooper [15] e não com um cromado rutilante da década de 60 estilo Andy Warhol. Tal como em 2010 e 2011, a Primavera vai igualmente ser o momento do retorno ao mundo real.



Neste contexto, tanto mais perigoso porque todos os atores estão adormecidos numa perigosa ilusão de “retorno à normalidade”, em particular do “rearranque do motor econômico estadunidense” [16], o LEAP/E2020 considera necessário alertar seus leitores sobre o fato de que o Verão de 2012 verá esta ilusão voar em estilhaços. Com efeito, antecipamos que o Verão de 2012 verá a concretização de cinco choques devastadores que estão no cerne do processo de abalo geopolítico mundial em curso. As nuvens negras que se deslocam desde o princípio da crise em matéria econômica e financeira são agora reunidas pelas nuvens sombrias dos afrontamentos geopolíticos.

São estes, segundo o LEAP/E2020, os cinco furacões devastadores que vão marcar o Verão de 2012 e acelerar assim o processo de abalo geopolítico mundial:

  • Nova queda dos EUA na recessão, sobre o fundo da estagnação europeia e do enfraquecimento dos BRICs
  • Impasse para os bancos centrais e re-elevação das taxas
  • Tempestade nos mercados de divisas e das dívidas públicas ocidentais
  • Irã, a guerra “desnecessária”
  • Novo crash dos mercados e das instituições financeiras.

Neste GEAB nº 63 a nossa equipa analisa, portanto, em pormenor, estes cinco choques do Verão de 2012.

Paralelamente, em parceira com as Editions Anticipolis, publicamos um novo extracto do livro de Sylvain Périfel e Philippe Schneider, “2015 – La grande chute de l'immobilier occidental”, por ocasião da colocação à venda da sua versão francesa. O livro trata das perspectivas do mercado imobiliário residencial americano.

Finalmente, apresentamos nossas recomendações mensais focadas neste número sobre o ouro, as divisas, os ativos financeiros, as bolsas e as matérias-primas.

Notas de rodapé:  
(1) Um artigo de CameroonVoice , publicado em 06/03/2012, apresenta uma vista panorâmica interessante acerca desta situação de bloqueio que nos parece útil analisar tanto sob o ângulo geopolítico como sob o ângulo humanitário que tende a camuflar numerosos parâmetros atrás das "evidências da justa causa". Recordemo-nos do ataque à Líbia e das consequências desastrosas que implica hoje para numerosos líbios e para toda a região; a última até à data: a desestabilização de toda uma parte da África sub-saariana, como por exemplo o Mali. A este respeito, pode-se ler uma análise muito interessante de Bernard Lugan em Le Monde de 12/03/2012.

(2) E o Japão que se mantém discreto, mas não tem intenção de cessar de abastecer-se de petróleo iraniano. A China e a Índia por sua vez aumentam seus abastecimentos de petróleo iraniano e saciam-se no vazio deixado pelos ocidentais. Doravante os indianos utilizam mesmo o Irã como uma porta para o petróleo da Ásia Central. Fontes: Asahi Shimbun , 29/02/2012; Times of India , 13/03/2012; IndianPunchline , 18/02/2012

(3) Aguardemos para ver no segundo semestre de 2012 qual será a vontade da UE na matéria . Com o fim da tutela estadunidense sobre a política externa francesa seguida da mudança de presidente francês, numerosos aspectos da política internacional da Europa vão mudar.

(4) Numerosos são os responsáveis israelenses e americanos que se perguntam em que estado vão estar as relações entre os dois países no fim desta confrontação sem precedente sobre a questão de um eventual ataque ao Irã. Para alguns, aproxima-se do momento de "exaustão" de Israel por parte dos Estados Unidos, como analisa o artigo de Gideon Levy no Haaretz de 04/03/2012.

(5) Últimos exemplos até à data: o acordo dos BRICs para organizar entre si intercâmbios em divisas nacionais, e particularmente em Yuan devido à vontade de Pequim de internacionalizar a sua divisa; e a decisão do Japão de comprar títulos do tesouro chinês em acordo com Pequim. Pequim age assim de modo oposto ao Japão "dominante" dos anos 1980 que jamais ousou promover a internacionalização do Yen. Basta este aspecto para reduzir a nada todas as comparações entre a ascensão abortada do Japão e a situação da China hoje. Tóquio estava sob controle de Washington; Pequim não está. Fontes: FT, 07/03/2012; JapanToday. 13/03/2012

(6) Os bancos da Eurolândia estão a retirar-se das suas actividades de empréstimos em US$. Fonte: JournalduNet, 23/02/2012

(7) Nomeadamente o fim do social-liberalismo que ocupou o lugar da social-democracia europeia durante estas duas últimas décadas; e o retorno da "economia social de mercado" no cerne do modelo renano, modelo histórico europeu continental. Da Eslováquia do novo primeiro-ministro Fico à França do futuro presidente Hollande (isto não é uma opção política, mas o resultado das nossas antecipações publicadas desde Novembro de 2010 no GEAB nº 49) passando pela Itália de Mario Monti e uma Alemanha onde conservadores e sociais-democratas devem doravante fazer em conjunto o caminho europeu uma vez que é preciso para obter a maioria necessária à ratificação dos novos tratados europeus, vê-se desenharem-se os contornos da futura estratégia econômica e social da Eurolândia: fiscalidade progressiva reforçada, solidariedade social, eficácia econômica, colocação sob controle do setor financeiro, vigilância aduaneira, em resumo: afastamento a grande velocidade do modelo anglossaxônico em moda desde há 20 anos entre as elites do continente europeu.

(8) Últimos episódios até à data: o ataque diante da OMC da política comercial chinesa quanto às "terras raras" por parte dos Estados Unidos, apoiados pela UE e o Japão; os novos desenvolvimentos das acusações recíprocas EUA/UE sempre diante da OMC referentes às subvenções à Boeing e Airbus; a "guerra monetária" desencadeada pelo Brasil contra os Estados Unidos e a Europa. Fontes: CNNMoney , 12/03/2012 ; Bloomberg, 13/03/2012 ; Mish's GETA , 03/03/2012.

(9) Igualmente, impensável para muitos há apenas três meses, a agência Fitch de classificação acaba de subir a nota da Grécia. Fonte: Le Monde, 13/03/2012.

(10) As questões de democratização destas estruturas colocam-se como havíamos sublinhado. Mas estas estruturas (MEE, BCE, etc.) doravante estão estabelecidas. Cabe aos atores e forças políticas dos dois próximos anos encetar a sua colocação sob controle pelos cidadãos ao invés de passar seu tempo lamentando um tempo maravilhoso em que os cidadãos não tinham sequer a menor ideia de como o seu país geria a sua dívida. E não é atacado os tecnocratas que fizeram o "trabalho sujo" no meio da tempestade que os políticos encontrarão o caminho da legitimação democrática das instituições da Eurolândia, mas propondo novos mecanismos e processos de implicação dos povos nas decisões. A este respeito, é útil saber que no Parlamento Europeu o grupo PPE (em que tem assento nomeadamente os partidos de Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) tenta matar no ovo uma proposta transpartidária de criação de 25 cadeiras do Parlamento Europeu que seriam eleitas em listas transnacionais com a UE como circunscrição única. Segundo o LEAP/E2020 esta proposta é um pequeno passo no único caminho que pode conduzir a um controle cidadão das decisões europeias. É lamentável que cantores da necessidade da aproximação da Europa dos povos sejam, de fato, cúmplices do bloqueio de uma primeira tentativa séria nesta direção. Fonte: European Voice, 11/03/2012.

(11) Mesmo o Financial Times, apesar de ser um dos atores chave da histeria anti-euro, deve doravante reconhecer que os mercados emergentes (atores públicos e privados) reencontraram o seu apetite pela divisa europeia. Fonte: Financial Times, 26/02/2012.

(12) Insistimos sobre estes pontos, pois não se pode esquecer demasiado rapidamente os discursos dominantes de 2010 e 2011 que instigaram os investidores a comprarem da dívida grega, pois era uma "oportunidade de ouro"! A seguir os mesmos "peritos" também prognosticaram uma paridade €/US$ o que levou muitos operadores a venderem seus euros para comprar dólares de acordo com esta mesma lógica. Resultado: estes "peritos", que pululam nas manchetes dos media e as emissões financeiras, fizeram perder muito dinheiro a uns e outros. Para saber antecipar o futuro também é preciso preservar a sua memória!

(13) Não esquecemos que sem a histeria coletiva mantida em torno da "crise do euro", desde o fim de 2011, os Estados Unidos teriam sido incapazes de financiar os seus enormes déficits. Wall Street e City tiveram de pintar uma Europa à beira do precipício para poder manter o fluxo de compras dos seus títulos. Agora que esta propaganda já não funciona é, pois vital tentar embelezar a situação dos EUA para que a fonte externa de financiamento da economia americana não seque. Ver GEAB n°58 à 61.

(14) Para registro: em meados de 2010 o FMI preocupava-se em não "prejudicar a retomada". E em Janeiro de 2011 os peritos perguntavam como aproveitar da "recuperação" demonstrada pelos famosos "indicadores chave"! Fontes: FMI , 07/07/2010; CreditInfocenter, 27/01/2011.

(15) Nossa equipe quer deixar claro que não aprecia o talento de Hopper e que ele é aqui citado apenas porque é o pintor por excelência da classe média da "era dourada" dos Estados Unidos, que ele, contudo, em geral, mostrou numa atmosfera muito depressiva. Não podemos imaginar o que seria o ambiente dos seus quadros nos dias de hoje com uma classe média em perdição numa "era de ferro" do país.

(16) Recordamos que este é o credo fundamental sobre o qual repousa todo o sistema económico e financeiro global. E em três anos de crise, pela primeira vez desde 1945, este motor já não funciona. Assim, é necessário afirmá-lo durante tanto tempo quanto possível, à espera de um milagre. No Verão de 2012, as tempestades provocarão relâmpagos mas nenhum deles será miraculosos, muito pelo contrário.

Originalmente publicado em 15/Março/2012

NR: resistir.info ao publicar um texto não tem necessariamente de concordar com todo o seu conteúdo.

[*] Global Europe Anticipation Bulletin No. 63.

Este Comunicado GEAB No. 63, original em francês, pode ser lido em: Crise systémique globale - Les cinq orages dévastateurs de l'été 2012 au cœur du basculement géopolitique mondial”  

Esta tradução foi extraída do sítio: Resistir