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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ele que a quis com z


ele que a quis com z
Homero Mattos Jr


solitário em canto quieto ele bebe e a mulher brilhosa deslumbrada qual novela das oito vem vê acha que vai vencer e a seu lado senta. mas ela não é a mulher quele tem. é a mulher que ela poderia ser se ser pudesse a mulher quele tem. mas não é. então caetano que o perdoe ela não o supreende por ser óbvia mas por insistir em permanecer exótica quando melhor seria ter ficado oculta. porém longe de oculta ser ela assume quele é tímido e pergunta se é assim mesmo desse jeito que ele é. não. ele não é tímido coisa nenhuma apenas não é de graça oferecido. mas sim sou sou tímido ele diz ao quê ela confessando gostar de homens tímidos completa não sei acho qué porque eles tem um jeito assim assim quela não sabe explicar direito. nem ele. que não é tímido ao ponto de ficar surpreso com o você é casado? que logo em seguida vem. não não sou mas é como se fosse ele responde. ela ri e pergunta como é que é esse se fosse. mas ele não sabe assim ao certo pois não faz a mínima idéia a respeito de como se fosse poderia ser pois com ele nada é como é é tudo como se fosse. acho qué com zê ele conclui. com zê como assim? ela quer saber e então tomado talvez pelo sibilino daquelas sibilâncias todas sem eiras em torvelinho tornadas e pelas beiradas sua alma sszchrup! como sopa sorvida sendo tomada ele diz assim por exemplo repare e começa a declamar para ela eu que te quis com zê ríspido como a marca do zorro indecifrável como uma incógnita algébrica monótono e ruidoso como um ronco de mangá como tal foi possível te ter tão a torto e tolo querido assim esquecido de qué com ésse o querer queu suave e sutil como um caractere sino japonês simples e sereno como uma aquarela em tons pastéis sentida e saudosamente como uma curva do sena com um êne ou do senna com dois tanto faz rio ou autódromo é tudo a mesma estrada só nunca quis pois equívoco é  querer com zê tanto quanto o é desejar-te sem que separação haja. mas nessa loucura toda se vai e se um maluco dispara do empire state outro dispara da rocinha e assim inconscientes coletiva e indiscriminada mente todos vão disparando por quê não é mesmo? não podemos eu e você de onde ninguém espera só desespera sair em disparada dessa parada desesperada onde ninguém diz pára! fugir para um daqueles agora ex paços onde em noites seguras haviam árvores de verdade fantasmas de mentira  e ladrões de coração logo presos pelos próprios corações que roubavam e que mais não existem. é isso. foi isso que por fim desse jeito ele disse.
posso tomar um golinho do seu copo? ela pergunta confiante de que vai descobrir o segredo dele. vai nada. o segredo dele nem está com ele. está com a mulher que ela poderia ser se seu segredo soubesse.
mas não sabe.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

estática










então ela comentou que tinha brigado com o namorado por causa do jeito que ele havia dado atenção pra umazinha quéla não tinha ido com a cara apesar dele não ter feito nada de mais mas que era mais por causa dele também pois assim como ele não havia feito nada de mais com a outra ele também num havia feito nada de mais com ela pois se ele tivesse dado atenção para ela do mesmo jeito que ele havia dado atenção pra outra que tinha uma cara que assim só vendo ela não teria ficado tão zangada como ficou feito o que fez  e falado o que falou na frente de todo mundo coisas das quais agora ela estava arrependida pois no fim das contas aquilo tudo poderia ter sido resolvido de uma maneira mais tranqüila do jeito quéla havia acabado de propor a ele no telefone mas que agora ele num tava mais afim e nem ela também se você quer saber porque o quéla tava mesmo era puta da vida com ele e com ela.
ah mas isso passa bobage ficar assim
passa não ele é vingativo é escorpião
e você ?
também mas só que apesar dela ser escorpião ela era escorpião com ascendente em peixes o que a tornava muito mas muito mais flexível ao perdão mas de qualquer modo ela achava que aquele rolo num ia dar certo mesmo porque para ela que adorava falar sem parar a relação a dois era como a conversa que a gente não sabe como começa e nem como termina e que é assim quiném quando a gente abre a boca e simplesmente as palavras vão saindo assim sem planejamento simples mente saem sem saber lá pra onde ou direção pré definida até que no final uma coisa que não havia sido planejada com antecedência nem adivinhada na bola de cristal se realiza construída por duas ou mais pessoas que jamais prévia mente combinaram concluir coisa alguma a qualquer tempo que fosse e que era isso quéla achava que era uma relação a dois gostosa que toda vez que você tinha que ficar buscando razões ou se explicando muito tipo cê num entendeu não foi isso queu quis dizer isso não era bom não era sinal de ruído na comunicação sinal de estática.
a relação.
a dois.
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Enviado por Homero Mattos Jr.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O quinto dos infernos

Homero Mattos Jr.

por Homero Mattos Jr.
nota
Escrevi pela primeira vez O quinto dos infernos em 2001, mais ou menos à época da descoberta da existência dos tristemente famosos personagens reais, nele e ao final, citados. Personagens os quais o leitor informado, certamente, haverá de lembrar-se.

No momento atual, em que minorias sombrias e poderosas da sociedade brasileira intentam -ao que parece na tentativa de reconquistar um poder perdido- disseminar por entre a população a idéia de que a violência urbana e a corrupção apresentam-se de modo inédito ou como algo jamais visto neste país, decidi reeditar (ad hoc) este conteúdo, elaborado há mais de dez anos e que, creio, haveria de ser considerado atual por qualquer brasileiro que pudesse lê-lo a vinte, trinta, quarenta, cinquenta ou sessenta televisivos anos atrás.

Relativo à epígrafe creio, também, ser oportuno informar àqueles que ainda não haviam nascido quando seus autores a compuseram: a menção a São José -capital da Costa Rica, é uma homenagem à Convenção Americana dos Direitos Humanos ali realizada no obscuro ano de 1969. Obscuro para toda a América Latina e (não particularmente) o Brasil, que haveria de ratificar os termos da convenção apenas em 1992. 



"
Quero a utopia, quero tudo e mais.
 Quero a felicidade, nos olhos de um pai.
 Quero a alegria, muita gente feliz.
 Quero que a justiça reine em meu país...
 São José da Costa Rica, coração civil,
 me inspire no meu sonho de amor, Brasil
 ...doido prá ver meu sonho teimoso um dia se realizar."
 Coração Civil
 Milton Nascimento e Fernando Brant

cinco andares para baixo um apartamento dois ambientes.

no andar -1 à direita reside uma minoria organizada. são pais e mães de crianças de zero a sete anos que buscando transformar os filhos em pequenos mozarts tentam educá-los em conformidade aos mais modernos princípios pedagógicos. no momento confusos entre o que pode e o que não pode estão tentando recuperar a capacidade de dizer não.

no outro lado à esquerda reside a maioria desorganizada. são pais e mães de crianças de zero a sete anos que sem ter com quem deixar os filhos durante o trabalho os deixam aos cuidados de outros parentes crianças ou conhecidos despreparados os quais por entre maus tratos ou descuidos lhes traumatizam os filhos de forma indelével.

no andar -2 do lado esquerdo outra maioria desorganizada. são professores de crianças de oito a treze anos que mal alimentadas e freqüentando escolas feias imundas e desaparelhadas têm dificuldades absurdas de aprendizado que desestimulam a todos o seguir em frente -crianças e professores. 

à direita está a minoria organizada. também são os professores de crianças de oito a treze anos. professores que temendo com razão a retaliação por parte dos pais junto à direção da escola sentem-se incapazes de repreender seus pequenos alunos arrogantes para os quais não há limites nem disciplina necessários para a convivência em sociedade.

no andar -3 à direita reside a minoria organizada dos amigos amigas namorados e namoradas dos adolescentes de quatorze a vinte e um anos que um horizonte de possibilidades ilimitadas transformou em tipinhos anormais ou pequenas bestas para as quais a vida se resume em roupas de grife malhação e balada.

no outro lado está a maioria desorganizada dos amigos amigas namorados e namoradas de adolescentes de quatorze a vinte e um anos portadores de televisivas atitudes e idéias cínicas e medíocres a lhes atenuar as dores decorrentes de um tudo nivelado tudo por baixo.

no andar -4 à direita encontra-se a minoria organizada de homens e mulheres maduros cuja crueldade inconsciente os leva a enxergar no outro um incômodo competidor a ser vencido ou superado no perde-e-ganha de uma moral darwinista sempre disposta a levar vantagem em tudo.

à esquerda está uma maioria desorganizada de homens e mulheres maduros que a rejeição por parte dos vizinhos do outro lado transformou em bárbaros dispostos a conquistar pela violência o quê uma indiferença de séculos lhes nega por conta de um eventual futuro grandioso que nunca chega.

o quinto dos andares é diferente.

 não tem direita nem esquerda. estão todos juntos. matando-se uns aos outros por motivos à todos justificáveis. matam-se por meio das armas e drogas legais e ilegais que para júbilo de traficantes os regulamentados e os marginais às partes ainda mais só faz dissociar.

construído por sérgios nayas incorporado por georginas do i êne éssa essa e administrado por lalaus esta construção situa-se à beira mar sob a luz do céu profundo.

uma
obra-prima
da exclusão social
da falta de consciência coletiva
e do pouco-caso com os problemas dos
semelhantes que como tais não são reconhecidos
feios e sujos moradores da periferia gente miúda e ignorante
   larga maioria por fina minoria como bandi..................excluídos.

Brazil com zê seus tristonhos campos tem mais dores seus bosques tem mais morte e a morte em seu seio menos dor. bobão da américa. desamor eterno é símbolo o avaro que ostenta blindado. 


Enviado pelo autor

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A moça da re-cepção, a maquinista do trem e a co-rupção


Homero Mattos Jr.



“co”         - elemento entre moléculas capazes de se combinarem (entre si ou com outras) para formar moléculas maiores...

“rupção”  - ruptura, fratura, rompimento, arrombamento...

“cepção” - tomar, pegar, agarrar

“re”         - voltar, retornar, retroceder...
   Dicionário Houaiss da língua portuguesa

o que eu tô dizendo é que o alceu tá certo o ciúme é a véspera do fracasso e o fracasso provoca o desamor e é aí que tá o problema na falta de amor pensa bem fal-ta-de-a-mor é disso que nós estamos tratando falta de amor a ême ó érre amor pronto é só isso nada mais cê entende? ela falou. 
…!?!... 
que foi?
taxa de cheque especial a cento e sei lá quantos por cento ao ano é falta de amor? eu perguntou.
é! 
metrô lotado é falta de amor? eu quis saber.
é!
faltar no congresso ou na reunião de condomi...
...também! 
tá entendi só o amor constrói é isso que cê quer dizer? 
constrói e cura ela completou.
ai que lindo qué uma cerveja?
não cerveja estufa podia ser com zê ou com xis.
cerveja?
estufa.
por telefone tanto faz eu disse
então ela pegou o telefone e pediu além da cerveja uma porção de piztache e ouviu a moça da recepção dizer que cerveja tinha mas desse negócio aí num tinha. então ela falou um minutinho só e em seguida olhou pra mim tá vendo? ninguém conhece pistache com zê.
imediatamente eu pegou o telefone e perguntou pra moça da recepção e pistaxe tem? ao quê a moça respondeu que já tinha falado pra senhora aí que não não tinha então eu perguntou não tem nem com ésse nem com cêagá? e a moça começou a rir o quê  fez com que eu algo zangado começasse a explicar em tom professoral que na verdade aquilo era um teste por assim dizer semântico/vocabular ou fonológico melhor dizendo  uma vez que nós aqui o casal do quarto dezessete estamos interessados em saber se as pessoas conseguem distinguir pelo telefone palavras ditas com ésse zê xis ou cêagá entendeu agora?
mas aqui é um motel e não a academia brasileira de letras que são como pecinhas de lego quero dizer sinais gráficos a compor morfemas que originam fonemas que mas afinal pôxa! ceis tão aí fazendo prova de português ou namorando? disse a moça da recepção.
nossa! como você ta descompensada! eu falou pra moça que assim abrupta mente desligou.
interessante essa moça eu comentou com ela.
por que?
fala coisas que não combinam com o personagem que representa.
cervantes diz a mesma coisa sobre sancho no começo do capítulo cinco da segunda parte do quixote dizia ela quando o telefone tocou e ela mesma atendeu.
ó vão desculpando aí viu? eu já tô trabalhando há mais de dez horas e ainda tenho que pegar a condução que demora uma hora pra chegar no ponto e mais uma pra chegar em casa então vão desculpando qualquer coisa aí tá? porque eu nada fiz por mal que de meu seja mas sim por mal que a mim causam.
sei como é ela falou tem nada não.
pois é continuou a moça da recepção mas acredite tô sempre desejando tudo de bom pra todo mundo então que nossa senhora abençoe a senhora e ao senhor que aí com a senhora está e queira deus que ele o senhor que com a senhora aí está possa corresponder a tudo aquilo que a senhora imaginou que ele corresponderia quando aceitou o convite dele pra vir aqui óquei?
ouvindo aquelas palavras ela ficou assim tão mexida que acabou convidando a moça da recepção pra tomar o café da manhã com a gente e foi assim que diferentemente do roberto que pedia café pra nós dois nós acabamos pedindo o café da manhã pra nós três e coincidente porém não exata mas justa mente o roberto foi o tema inicial da proveitosa instrutiva e edificante conversa do café da manhã quando então a moça da recepção nos contou que como boa e dedicada funcionária que era estava sempre dando sugestões interessantes aos sócios daquele motel de modo que aumentando o movimento eles os sócios é claro haveriam de aumentar também como não? o salário dela.
que tipo de sugestões? eu quis saber.
assim por exemplo a pessoa liga pra casa de qualquer um dos sócios e diz jesus cristo eu estou aqui! e se a ligação da pessoa for sorteada quer dizer escolhida ela e um acompanhante da livre escolha dela da pessoa tem direito a tomar um café da manhã com a presidente lá em brasília.
presidenta.
é! é! isso mesmo a mulher de vermelho que dirige o trem né?
a moça da recepção falava com uma desenvoltura inimaginável para moças de recepção no Brasil até mil novecentos e oitenta e cinco porém perfeitamente compreensível naquele a partir de dois mil e três eu pensou com uma ponta de inveja ou ciúme sei lá não faz diferença ao ver ela que eu queria só para si assim daquele jeito tão tão tão não é  bem a palavra mas vá lá íntima da moça da recepção...
então eu teve uma idéia.
e o quê você acha da corrupção atual? eu perguntou pra moça.
atual? surpreendeu-se a moça para logo em seguida dizer que na modesta opinião dela a corrupção não possuía essa contemporaneidade que alguns por raiva ou ignorância ou talvez os dois desejavam fazer embarcar no trem que a mulher de vermelho dirigia e que era um trem como dizia a avó dela do tamanho de um bonde que começara a ter os vagões engatados talvez desde mil quinhentos e trinta quando por aqui desembarcaram os primeiros colonos de fato e quando aos poucos lenta e nem sempre sub reptícia mente alguns deles que poderiam facilitar na boa e por dever a vida da maioria dos outros sabe como é né? perceberam  ser possível ganhar unzinhos a mais por fora sem fazer força e começaram a se aproveitar do trabalho de outros que olhando pra tudo aquilo disseram ah é assim que funciona é? então eu também quero! e assim desse modo por pensamentos palavras atos e omissões e por suas e de outros culpa tão grandes culpas passaram a possibilitar por séculos e séculos quase cinco ao todo um acúmulo cada vez maior de erros em cima de erros a ocasionar o lento mas seguro e inexorável rompimento dos padrões morais capazes de obrigar ébrios de poder a sujeitarem-se às mesmas leis obrigações e deveres às quais devem submeter-se todos quantos mas por quanto a maioria dos de baixo segue o exemplo da minoria dos de cima acabam aqueles sempre imitando estes na esperança de tal como eles tornarem-se mais iguais do que outroszinhos cujas vidas transcorrem sofridas em meio a agruras escassez e sobressaltos causados por um sistema aos poucos mas sempre segura e inexoravelmente capturado e idealmente desordenado pelos mais espertos entre os espertinhos a possuírem em comum além da riqueza furtada a mais absoluta falta de respeito para com os outrozinhos que embora semelhantes como tais não são percebidos pelos outros tais os mesmos que talvez desde martim afonso de souza mas certamente até os dias de hoje  tendo recebido autoridade para educar curar e proteger decidem ao invés postar o olhos no além-mar sequiosos de não aqui mas para lá na corte do imperador destinar filhos economias esperanças e sobretudo o amor sem o qual são inúteis quaisquer tentativas de juntar as dissociadas partes da engrenagem social díspar injusta obra dos já mencionados e portanto passados séculos e séculos quase cinco ao todo de imprevidentes ações erráticas arroubos faraônicos e consumistas das majestosas porém lamentáveis personas dotadas de poder para mudar mas também portadoras de uma sombra horrorosa miserável e mesquinha a consumir com ávida e gananciosa voracidade tudo o quê de consumível existe e pela frente estiver desde os meios até as condições propícias estas principalmente estas! para  punir com rigor perpétuo uma irredutível ousada militante juramentada e hoje inacreditavelmente cínica e galhofosa canalhice própria de pares a não reconhecer autoridade outra senão aquela que com tanto afã e denodo usurparam descrentes e desacreditados que são e estão de e por sua própria gente gente como ela a moça da recepção para quem ser maquinista daquele trem do tamanho de um bonde era como esfregar um monte de roupa encardida ou arear panelas engorduradas pela ação do tempo.

Muito tempo.
Séculos e séculos.
Quase cinco ao todo.

                                                          www.homerotextos.blogspot.com

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

12 humanos e nenhum segredo

 
                         Ilford Byron[1]


“Por que nos acostumamos à rapinagem das privatizações, que provocaram a perda da solidariedade, da responsabilidade, da ajuda mútua...? Os setores mais doentios e perversos de nossa sociedade vieram à tona enquanto nós -talvez por medo de enfrentar a realidade de nossas vidas- nos dedicávamos com grande prazer a todo tipo de coisas concebidas para embrutecer nossos sentidos e ocultar essa realidade. ... deixamos que a televisão comercial preenchesse o vazio em nossa consciência coletiva e passamos a nos definir em função de lutas pela sobrevivência e comportamentos predadores; a atacarmo-nos uns aos outros sem piedade e a depreciar qualquer um que se mostrasse mais frágil, diferente ou menos belo, menos rico ou menos preparado. ...Ao final das contas, em um clima de cobiça e egoísmo, como não haveríamos de agredir e pulverizar o outro se é isso, precisamente, o quê nos ensinam a todo instante: salve-se quem puder.  Quanto mais nos deprimíamos negando, cem cessar, a realidade, mais instigávamos a opressão, a manipulação e o embrutecimento de nossos sentidos e, desse modo, fomos nos convertendo em vítimas.”
David Grossman escritor [2]

“A natureza não pode ser reduzida a entidades fundamentais, a blocos de construção, mas deve ser entendida por completo com base na autoconsistência. As coisas existem em virtude de suas relações.”
Geoffrey Chew  físico [3]

“A estrutura da natureza e a estrutura da mente são reflexos uma da outra. Mente e natureza são necessariamente uma unidade.” 
Gregory Bateson antropólogo [4]

“O comportamento do paciente é parte de uma rede muito mais ampla de comportamentos perturbados, de padrões perturbados e perturbadores de comunicação. Não existe uma pessoa esquizofrênica; existe apenas um sistema esquizofrênico. Os místicos e os esquizofrênicos estão no mesmo oceano, mas os místicos nadam, os esquizofrênicos se afogam.”
Ronald D. Laing psiquiatra [5]

“Nos tornamos tão obcecados pelo conhecimento racional, a objetividade e a quantificação, que sentimos extrema insegurança ao lidarmos com a experiência e os valores humanos.”
Margaret Lock médica e antropóloga [6]

“A questão do estresse emocional, a retenção de emoções é um fator crucial no desenvolvimento do câncer em geral, e do câncer do pulmão em particular. Se recebo estímulos alarmantes e não expresso nada, estou obstruindo o fluxo de energia.”
Carl Simonton médico oncologista [7]

“A idéia de que possa haver um crescimento patológico, prejudicial, destrutivo e acelerador é, para o economista moderno, uma idéia pervertida que não deve jamais vir à tona. Ao contrário de todos os sistemas naturais que se equilibram, se ajustam e se purificam por si mesmos nosso pensamento econômico e tecnológico não admite nenhum princípio de auto-limitação. A sabedoria exige uma nova orientação da ciência e da tecnologia em direção àquilo que é orgânico, brando, não-violento, terno e belo.”
E.F.Schumaker economista [8]

“Déficits e endividamentos generalizados, destruição incessante do meio ambiente, persistência da pobreza em meio ao progresso, lucros pessoais obtidos à custa do prejuízo público, conceitos de eficiência e produtividade distorcidos... Eficiente para quem? ...indivíduo, empresa, sociedade ou ecossistema?... A economia glorificou algumas de nossas predisposições menos louváveis: cobiça material, competitividade, gula, orgulho, egoísmo, imprevidência e ganância pura e simples. A consciência masculina que domina nossa cultura encontrou sua realização num tipo de tecnologia machista, voltada para a manipulação e o controle, e não para a cooperação. As origens da economia moderna coincidem com as da ciência newtoniana. Naqueles tempos, o raciocínio crítico, o empirismo e o individualismo tornaram-se os valores dominantes. A lei da oferta e da procura também se encaixava muito bem com a noção matemática de Newton, o cálculo diferencial... Hoje em dia, empresas gigantescas controlam a oferta de bens, criam demandas artificiais por meio da publicidade, e exercem uma influência decisiva nas políticas nacionais. Mercados livres, equilibrados pela oferta e procura... só existem na cabeça de Milton Friedman.”
Hazel Anderson ativista social [9]

“As guerras, rebeliões, golpes, guerrilhas, greves, guetos, enormes diferenças no acesso às vantagens econômicas e educativas, difundem seus efeitos dilaceradores através de toda a ordem social. Como se isso não fosse suficiente, o cidadão comum é acossado pelo balanço de pagamentos desfavorável, drogas, alienação, aumento populacional acelerado, remodelagem arbitrária da superfície terrestre com o desvio de rios, aplainamento de montanhas, derrubada de florestas, abertura de túneis sob a terra e a água, capeamento do solo com cimento e asfalto. Mesmo os conservadores se apercebem da ruína iminente, mas os interesses comerciais lutam cada vez mais por uma oportunidade de auferir lucros. As medidas de força só podem suprimir os sintomas, sem alterar suas causas… e o desespero cresce à medida que se torna evidente a inoperância dos remédios policiais e militares para os males sociais do nosso tempo. Só a compreensão é o primeiro passo para a ação racional. E só combinando outras perspectivas com a nossa própria, poderemos distinguir entre a verdade e a distorção e alcançar, finalmente, uma compreensão realista do processo civilizatório. A conquista de tal percepção é crucial para a existência humana.”
Betty J. Meggers arqueóloga [10]

“O sistema capitalista global gerou um campo de jogo muito desigual. A distância entre ricos e pobres está aumentando. Isso é um perigo, pois um sistema que não oferece alguma esperança e benefícios aos perdedores, corre o risco de ver-se dilacerado por atos de desespero.”
George Soros financista e mega-investidor [11]

“As regras do Jogo são as da acumulação de riqueza obtida no mercado mediante a competição feroz entre empresas, Estados e indivíduos. Em sua roupagem neoliberal, este jogo pressupõe a violação permanente e sistemática das regras, no estabelecimento de relações entre o poder e o dinheiro destinadas a remover quaisquer obstáculos à acumulação comandada pela grande empresa e pelo capital financeiro internacionalizado, sempre apoiados na força militar e política do Estado imperial.”
 Luiz Gonzaga Belluzzo economista [12]
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 Notas
 [1] “Para se ter alegria é necessário compartilhá-la.”
 [2] em jornal El País p. 2 Una ventana a un futuro diferente domingo 7 de agosto de 2011
 [3] Fritjof Capra Sabedoria Incomum p 41ed. Cultrix São Paulo, SP 1990
 [4] op.  cit. p 66
 [5] id.  p. 105-106
 [6] id.  p. 139
 [7] id.  p. 159-162
 [8] id.  p. 171-172
 [9] id.  p. 192-203
 [10] prólogo à edição estadunidense do livro O Processo Civilizatório de Darcy Ribeiro (1968) ed. Cia. Das Letras, São Paulo, SP 1997
 [11] em A Crise do Capitalismo  ed.Campus 1999
 [12] em Democracia e capitalismo Folha de São Paulo p. B2 4 ago. 2002

Enviado por Homero Mattos Jr

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Moloch e a pedra de Sísifo



Segue, abaixo, um trecho da conferência de Günter Grass à Associação Alemã de Jornalistas, publicada na íntegra na edição dominical do jornal espanhol El País.
O mito (grego) de Sísifo é mais um de seus congêneres a ilustrar o inconformismo humano diante da vontade dos deuses, estes nem sempre ao par com nossas expectativas sobre o quê é ou como deveria ser  a vida.
Sísifo (“o mais solerte e audacioso dos mortais”) [1] consegue enganar a Morte (duas vezes!) até que esta, finalmente, o captura e, pela ousadia, o condena a rolar eternamente um bloco de pedra montanha acima. Eternamente por quanto ao chegar no cume da montanha o bloco, sempre, volta a rolar montanha abaixo...

Günter Grass, na mencionada conferência, remete à Sísifo por conta de uma citação de Albert Camus relativa à importância “da luta”: “Há que imaginar-se a Sísifo, feliz”.
Certo. É uma interpretação. Boa e plausível. Afinal é Camus.
Contudo, a pedra de Sísifo pode significar, também, a própria Morte e, neste caso, seu contínuo rolar sugere algo como o samsara dos hindus.
Daí, talvez -de uma interpretação subjetiva- a preferência pela imagem do deus Moloch para ilustrar esta breve apresentação de palavras selecionadas de Günter Grass.
Ao citar Moloch (e não Murdoch...) Grass, claramente, o faz dentro de um contexto no qual a mais conhecida das características de Moloch parece-lhe servir a contento, no sentido da audiência melhor introjetar sua crítica a uma característica dos deuses contemporâneos: engolir os rebentos da sociedade que os louva.

Com a palavra Günter Grass.
_______________________________________
[1] Junito de Souza Brandão Mitologia Grega vol. I p. 226 3a. edição ed. Vozes Petrópolis RJ 1987

(Nobel de Literatura 1999)
Excertos [1] 

...representações de interesse, ou lobbies, em uma sociedade considerada pluralista...
Esses lobbies, com sua ganância, existem e visam a República... grupos da indústria farmacêutica ...  seguros de saúde... até hoje impedem uma reforma socialmente sustentável na Saúde Pública .
Não em último lugar estão os todo-poderosos bancos, cuja atividade extorsiva toma como refém o Parlamento e o Governo. Os bancos apresentam-se como um destino inevitável. Eles têm vida própria. Seus conselhos de administração e os principais acionistas estão organizados como uma sociedade paralela. Ao final as conseqüências de uma gestão financeira baseada no risco hão de recair sobre o contribuinte. Somos nós a responder pelos bancos cujas bocas bilionárias jamais se dão por saciadas.
Naturalmente também os jornais e revistas, isto é, os jornalistas, estão expostos a essa onipotência. Não há necessidade de nenhuma censura à moda antiga, basta, apenas, a mera concessão ou negação de anúncios para chantagear uma imprensa cuja existência (de qualquer modo) encontra-se ameaçada. No entanto, a despeito dos pactos-de-silêncio subliminares, será necessário chegar ao fundo das coisas através de um jornalismo consciente e informar o público sobre o ilegítimo exercício de poder dos lobistas.

Também não é aceitável que políticos (de alto nível inclusive) tão logo deixem seus mandatos públicos, passem a ocupar cargos de direção e generosamente remunerados em consórcios, associações ou grupos de interesse privado. ... saber que o Sr. X -que por muito tempo trabalhou em um Ministério Federal e em seguida no Banco Central- atenderá ao elogioso convite que lhe faz uma associação nacional de empresários... ora! A condição de insider do Sr. X beneficiará ainda mais um grupamento já poderoso. Esta e outras mudanças de posições ilustram situações claramente abusivas.

O desvio desagregador em direção a uma sociedade de classes com uma maioria a empobrecer e uma minoria rica separando-se aos poucos; incapacidade e impotência dos parlamentares eleitos diante do poder concentrado dos grupos de interesse e o arrocho imposto pelos bancos tornam urgente a realização de algo até agora impronunciável: colocar em discussão o modelo do sistema. ... trata-se de, a partir de toda a sociedade, formular questões reivindicativas? É aceitável -mesmo em um sistema capitalista democrático- que uma economia financeira em larga medida dissociada da economia real possa ameaçar a sociedade com as crises que fabrica? Devemos aceitar como válidas para nós questões de fé como: mercado, consumo e lucro?

Para mim, em qualquer caso, está claro que o sistema capitalista, fomentado pelo neoliberalismo e sem alternativa, tal como agora se apresenta, se degenerou em uma máquina de destruição do capital e, distante da (em outros tempos) bem sucedida economia social de mercado, tornou-se um Moloch: consome os rebentos da economia real apenas para satisfazer um apetite a-social e impossível de ser refreado por qualquer lei.
Então, surge a pergunta: o modelo de sociedade que escolhemos, isto é, a democracia parlamentar... ?ainda tem a força e a vontade necessárias para evitar o processo de desintegração ao qual encontra-se submetida? Ou, doravante, deverá ser relegada qualquer tentativa de reforma e de controle dos bancos e seus métodos de administrar o capital, quero dizer: obrigá-los a trabalhar para o bem comum...

Uma coisa parece certa: se as democracias ocidentais demonstrarem-se incapazes de realizar as reformas fundamentais necessárias para enfrentar os perigos concretos e iminentes (bem como os previsíveis), não poderão suportar o quê, nos próximos anos, será inevitável: crises a produzir outras crises, aumento incontrolável da população mundial, fluxos de refugiados desencadeados pela falta de água, fome, empobrecimento, e mudanças climáticas provocadas pela ação humana. E, entre tantas ocorrências desastrosas, uma quebra da ordem democrática propiciaria –e neste sentido não nos faltam exemplos- um vazio que poderá ser ocupado por forças cujos possíveis perfis ultrapassam nossa imaginação, por mais que sejamos gatos escaldados e marcados pelas consequências ainda visíveis do fascismo e do stalinismo.

Suponho que essas idéias possam ser adequadas para definir o trabalho dos jornalistas.
... a existência da humanidade sobre este planeta azul é fato recente e nossa continuidade depende do que fizermos ou deixarmos de fazer. Somos responsáveis pelo planeta e nossa condição de vida. O temos espoliado e desfigurado muito, de modo a deixar para nossos descendentes uma herança inevitável. De tal modo que se impõe reconhecermos e identificar essas e outras verdades.

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[1] de conferência proferida em Hamburgo (02. 07. 2011) e publicada na íntegra no jornal espanhol El País Domingo p.10/11(24.07.2011). Traduzidos da versão espanhola realizada por Miguel Saénz.

Enviado por Homero Mattos Jr.