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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Impressionante: todos falam (besteiras), mas ninguém se deu ao trabalho de ler a pesquisa rodoviária da CNT!

Enviada em 8 de agosto de 2010

Mais uma vez, a imprensa volta a falar (besteira) na pesquisa rodoviária da CNT (Confederação Nacional dos Transportes) para fazer uma afirmação completamente oposta ao que mostram os resultados da pesquisa 2009.

Leiam o que diz o jornal O Globo, em matéria cujo título é “Rodovias - estudos confirmam críticas / Dados de CNT e IPEA mostram estradas federais em péssimo estado. País também vai mal em portos e aeroportos”. Vejam se não tenho razão!

Já publiquei análises aqui neste T1 mostrando que nenhum desses juízos são sustentados em fatos (clique aqui, aqui e aqui). Além do mais, demonstramos que os estudos do IPEA são tecnicamente mal fundamentados, já que se baseiam em matérias de jornais e revistas, sem ter consultado qualquer estudo sério como o Plano Nacional de Logística e Transportes - PNLT, do MInistério dos Transportes.

1. Um argumento geral que desmonta o juizo de que “tudo vai mal”

A partir de 2002, a corrente de comércio exterior quase triplicou, passando de cerca de US$ 100 bilhões em 2002 para cerca de US$ 280 bilhões em 2007. A quantidade de contêineres (cargas de maior valor agregado) aumentou 2,5 vezes, passando de cerca de dois milhões, em 2002, para cerca de cinco milhões, em 2007.

Essas cargas chegaram aos portos, em grande parte, através de caminhões e trens. Se houve esse crescimento, em apenas cinco anos, significa que as exportações e importações fluíram e tinham custos logísticos adequados para se tornarem competitivos e atraentes, ainda que possam ser menores, no futuro.


2. Pesquisa rodoviária da CNT

A pesquisa, realizada em 2009 e divulgada em 28/10/09, mostra o seguinte quadro, em relação aos 87.552 quilômetros avaliados:

.
Pavimentação (págs. 32 a 35, do Relatório Gerencial):

.
94,3% não apresentam buracos (87,1% em 2007);
A condição do pavimento não obriga a redução de velocidade em 95,3% da malha (86,4% em 2007);
83,3% dos pavimentos dos acostamentos estão em boas condições (73,2% em 2007);
Em 2007, 94,4% dos pavimentos não apresentavam pontos críticos. Em 2009, não foi feita essa avaliação.

Obs.: A CNT não fez a pesquisa em 2008, daí compararmos com 2007

.
Sinalização (págs. 36 a 44):

.
• Pinturas das faixas centrais com boa visibilidade: 75,4%
• Pinturas das faixas laterais com boa visibilidade: 64,3%
• Placas existentes de sinalização de limites de velocidade: 70,2%
• Placas existentes de indicação: 68,5%
• Visibilidade das placas: 73,4%
• Legibilidade total das placas: 64,8%

Considerando apenas os números relativos à pavimentação e à sinalização, a pesquisa CNT 2009 mostra que a malha rodoviária nacional (federal e estaduais, concedidas e com operação estatal) melhorou muito nos últimos anos.

Graças aos elevados investimentos realizados pelo governo federal, pelas concessionárias e pelos governos estaduais, via recursos próprios e via repasses da CIDE, pelo governo federal.

A pergunta que fica no ar é: porque ninguém lê a pesquisa da CNT 2009, já que dou o número das páginas do Relatório Gerencial, que mostra o oposto do que se afirma há muitos anos?

Aos repórteres do Globo Geralda Doca e Gustavo Paul recomendo a leitura da pesquisa rodoviária CNT 2009 e, proximamente, a de 2010, que mostrará lá dentro (não no release) que o quadro é muito bom, o que explica o crescimento acelerado da economia.

Ou alguém pode acreditar que a economia estaria crescendo nos patamares em que está sem uma infraestrutura logística adequada?

Numa próxima análise, falaremos sobre os graves erros da mesma matéria sobre o sistema portuário.

Porque os repórteres ficam repetindo o que dizem entidades, sem checar as informações que sustentam os falsos juízos?

José Augusto Valente - Diretor Técnico do T1
extraído do
T1

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pochmann: País caminha para índice inédito de emprego formal

Ana Cláudia Barros

Para Pochmann, geração de 1,5 milhão de empregos formais sinaliza que o Brasil saiu mais forte da crise financeira internacional

O Brasil criou cerca de 1,5 milhão de empregos formais nos primeiros seis meses de 2010. A estimativa é do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que divulga, nesta quinta-feira (15), em Brasília, os números relativos a junho do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Na análise do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, o desempenho do primeiro semestre, considerado histórico, sinaliza, em primeiro lugar, que o País conseguiu sair mais forte da crise financeira internacional, que atingiu o mundo entre 2008 e 2009.

- Em segundo lugar, significa que os empregos estão não apenas sendo impulsionados pela capacidade instalada, que havia sido reduzida em função da crise. Mais do que isso: vêm sendo puxados pelos novos investimentos.

Sobre as projeções do ministro Lupi, que espera fechar 2010 com com 2,5 milhões de contratações com carteira assinada, Pochmann considera a estimativa factível.

- Nós trabalhamos na passagem do ano passado para este, com o número de 2 milhões, mas a expectativa de crescimento da economia nacional não era como está agora. Portanto, dada a evolução até o momento, esse novo ritmo, é bastante provável que nós tenhamos um universo de empregos gerados acima de 2 milhões, aproximando-se dos 2,5 milhões.

Mais do que expressivo, segundo o economista, o número é inédito na história do Brasil. Na prática, significa dizer que, a cada dez postos de trabalhos gerados, nove já são formais, conforme explica o presidente do Ipea.

- Desde a introdução da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que não havia se registrado experiência como essa. Isso acontece depois de toda a avalanche de argumentos, nos anos 90, de que o Brasil não geraria empregos com carteira assinada porque a CLT estava ultrapassada e impossibilitava isso.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Economista critica tentativa de tirar Serra da oposição a Lula

João Sicsú, Diretor de Macroeconomia do IPEA, acusa oposição e veículos de mídia de tentar fazer Serra parecer situação

Por: Anselmo Massad, Rede Brasil Atual

Publicado em 12/07/2010, 15:46

Última atualização às 18:30

São Paulo – Para João Sicsú, diretor de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a tentativa de apontar um cenário político "pós-Lula" de continuidade tenta despolitizar o voto para presidente da República. Em artigo publicado na edição de abril da revista Inteligênciaintitulado "Revisões do desenvolvimento", o economista vê a tentativa de repelir a pecha de oposição ao governo Lula é a única alternativa ao PSDB e seus aliados.

"O voto dado com consciência política é sempre um voto pela mudança ou pela continuidade", escreve Sicsú. "Portanto, a tentativa de construir um cenário pós-Lula (de continuidade independentemente dos eleitos) tem o objetivo de despolitizar o voto, isto é, retirar do voto a sua possibilidade de fazer história", prossegue.

O conceito do "pós-Lula" criticado por Sicsú seria a tentativa de impedir que a avaliação do governo Lula seja feita comparando-o com seus antecessores e vetar que os candidatos ocupem papéis de situação e de oposição. "O termo 'oposição' deveria ser usado pelo PSDB com um único sentido: 'oposição a tudo o que está errado' – e não oposição ao governo e ao projeto do presidente Lula", explica.

Ele atribui à imprensa e à coordenação de campanha do tucano a estratégia de "vender" a ideia de que "a história é feita pela própria história". "A construção de um cenário pós-Lula (com essas características) é a única alternativa do PSDB e de seus aliados, já que comparações de realizações têm números bastante confortáveis a favor do projeto do presidente Lula quando comparados com as '(não)realizações' (sic) do presidente Fernando Henrique Cardoso", vaticina.

Segundo ele, Dilma nunca é qualificada nas reportagens da mídia como candidata do governo ou do presidente Lula. O principal beneficiado desse tratamento dado às eleições seria José Serra (PSDB), mas também Marina Silva (PV) teria vantagens. "Serra e Marina não são apresentados como candidatos da oposição, mas sim como candidatos dos seus respectivos partidos políticos", constata. "Curioso é que esses mesmos veículos de comunicação quando tratam, por exemplo, das eleições na Colômbia se referem a candidatos do governo e da oposição", compara.

Dois projetos

Sicsú defende, ainda no artigo, que o Brasil assistiu, nos últimos 20 anos, a uma disputa de dois projetos para o país. O representado pelo PSDB e pelos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso é qualificado como "projeto estagcionista, que aprofundou vulnerabilidades sociais e econômicas". Já o desenvolvimentismo, de Lula, "busca, acima de tudo, o crescimento social do indivíduo, portanto, é um projeto desenvolvimentista – além de ser ambientalmente sustentável e independente no plano internacional", elogia.

Ele pondera que o projeto de desenvolvimento liderado pelo presidente Lula ficou mais evidente em seu segundo mandato, depois de superadas "heranças do período FHC" que contaminaram, na visão do economista, a primeira gestão.

"Os resultados da aplicação do modelo desenvolvimentista são muito bons quando comparados com aqueles alcançados pelo projeto aplicado pelo PSDB e seus aliados. Contudo, ainda estão distantes das necessidades e potencialidades da economia e da sociedade brasileiras. Logo, tal modelo precisa ser aperfeiçoado – e muito", reconhece.

Ele conclui que "o que está em disputa, particularmente neste ano de 2010, são projetos, já testados, que pregam continuidade ou mudança". Porém, defende que um eventual mandato que mantenha as políticas desenvolvimentistas adotadas no segundo mandato de Lula adote medidas de planejamento para garantir esse traço a todas as políticas públicas. "Sem planejamento, uma trajetória desenvolvimentista promissora pode se transformar em 'salto de trampolim'", arremata.

Comparação

Desenvolvimentismo

Estagnacionismo

Objetivos econômicos

1. Manutenção da inflação em níveis moderados

2. Administração fiscal que busca o equilíbrio das contas públicas associado a programas de realização de obras de infraestrutura e a políticas anticíclicas

3. Redução da vulnerabilidade externa e algum nível de administração cambial;

4. Ampliação do crédito

5. Aumento do investimento público e privado.



1. Estabilidade econômica, que era sinônimo, exclusivamente, de estabilidade monetária, ou seja, o controle da inflação era o único objetivo macroeconômico

2. Abertura financeira ao exterior e culto às variações da taxa de câmbio como a maior qualidade de um regime cambial

3. Busca do equilíbrio fiscal como valor moral ou como panaceia, o que justificava corte de gastos em áreas absolutamente essenciais

4. Privatização de empresas públicas sem qualquer olhar estratégico de desenvolvimento

Objetivos sociais

1. Geração de milhões de empregos com carteira assinada

2. Melhoria da distribuição da renda

3. Recuperação real do salário mínimo



1. Desmantelamento do sistema público de seguridade social

2. Criação de programas assistenciais fragmentados e superfocalizados

3. Desmoralização e desmobilização do serviço público

Fonte: Revisões do desenvolvimento, edição de abril, maio e junho, de João Sicsú.

Comparações

FHC 1 (1995-1998)

FHC2 (1999-2002)

Lula 1 (2003-2006)

Lula 2 (2007-2010)

Inflação
(variação % do IPCA)
Média por ano no período1

9,7

8,8

6,4

4,8*

Criação de empregos com carteira assinada
Média por ano no período (em mil)2

-296

454

1.163

1.466*

Recuperação real do SM no período
em relação ao governo anterior
3

17

15

19

31

Valor médio real de cada benefício
pago pelo INSS no período
(em reais)4

481,66

532,02

599,49

657,24

(1) Dados do IBGE

(2) Dados do IBGE

(3) Dados do Ipeadata

(4) Dados do MPS

*2010: Valor estimado entre 4% e 5%
para a variação do IPCA

**2010: criação líquida de emprego
formal estimada em 1.800.000

Fonte: Revisões do desenvolvimento, edição de abril, maio e junho, de João Sicsú.

Publicado em 12 de julho de 2010 por Brasil Atual

copiado do Gilson Sampaio

sábado, 3 de julho de 2010

Economist na íntegra: “Dilma só perde a eleição se quiser”

julho 2nd, 2010

Reproduzo na íntegra a matéria da revista Economist publicada em 1/07/2010. A tradução é de Diego Casaes.

Ah! sim, Economist não pesquisou sobre o custo Brasil dos pedágios de Serra, não fez uma única menção à ciranda dos vices e à dependência tucana ao Demo. A matéria não traz grandes novidades em relação a outras que a revista já publicou. O melhor desta aqui foi a foto do Serra escolhida para a matéria, assim como a sua legenda :)

Campanha presidencial do Brasil: Nos passos de Lula

Dilma Roussef está cruzando em direção à vitória na casaca de um popular presidente. Mas há muito mais em jogo nas eleições de outubro do que pode ser visto

Economist

1° de julho de 2010 | São Paulo

dilma economist

Atualmente só uma coisa importa para os brasileiros: a performance da seleção de futebol na Copa do Mundo, onde levantar o troféu pela sexta vez é considerado quase um direito. Mesmo uma cidade normalmente trabalhadora como São Paulo, onde os supermercados abrem às 07h e o trânsito intenso é um modo de vida, parou para ver as partidas do Brasil. Por todo o país, fábricas, escritórios e até mesmo postos de saúde fecharam. Mas os políticos do país estão se aquecendo para uma competição diferente. No dia 06 de julho, a campanha para as eleições gerais de outubro começam oficialmente. Será a primeira eleição presidencial desde que a democracia foi restaurada na década de 1980 que o nome de Luiz Inácio Lula da Silva não aparece na cédula. Mas Lula, presidente do Brasil desde 2003, é, contudo, uma figura dominante na campanha.

Pelos últimos 18 meses, ele colocou todos os seus esforços na tentativa de eleger Dilma Roussef, sua ex-ministra da Casa Civil, como sua sucessora. Ela não é uma candidata presidencial óbvia: uma administradora eficiente, outrora notoriamente mal-humorada, somente se uniu ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula em 2001 e nunca se candidatou para um cargo político. Todavia, muitas outras figuras antigas no PT foram forçadas a sair da política por causa de um escândalo de corrupção durante o primeiro mandato do Lula, e outros se revelaram fiascos eleitorais.

gráfico1

Gráfico1.

Pouco conhecida pelo público desde o início, Roussef passou metade do ano se recuperando de um câncer linfático. Apesar de todas estas desvantagens, ela subiu inexoravelmente nas pesquisas de opinião pública. Este mês, ela ultrapassou pela primeira vez o representante da oposição, José Serra, ex-governador do estado de São Paulo (ver gráfico 1). A única outra candidata plausível é Marina Silva, membro do PT durante muito tempo, e que está se candidatando pelo pequeno Partido Verde. Assim como Lula, ela nasceu na pobreza, mas se desentendeu com o presidente no que diz ser a falha do governo Lula em defender o meio ambiente.

Roussef agora só perde a eleição se quiser. Sua elevação nas pesquisas mostra que Lula conseguiu transferir sua própria popularidade extraordinária para ela. Um ex-sindicalista, Lula tem uma conexão com os brasileiros comuns que nenhum outro político desfruta. Mas ele também pode listar realizações sólidas. Lula governou tanto por um aumento firme no crescimento econômico que está agora, convenientemente, alcançando novos níveis, quanto por uma forte redução na pobreza. Mesmo se permitindo uma desaceleração esperada, a economia crescerá cerca de 8% no ano que precede a votação. (grifos nossos)

As pesquisas mostram que aproximadamente 75% dos brasileiros aprovam o trabalho de Lula. Alexandre Marinis, um consultor de política em São Paulo, nota que as eleições recentes mostram uma correlação próxima entre a popularidade do presidente e o sucesso de sua candidata.

Tudo isso torna o trabalho de José Serra excepcionalmente difícil. Ministro durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, predecessor de Lula, ele triunfa sobre a Roussef em experiência política, e tem sido um governador efetivo do estado de São Paulo, o segundo cargo mais poderoso do país. Seus apoiadores estão contando que sua oponente cometa gafes. Mas Roussef parece cada vez mais segura, e ele está se esforçando para fazer com que sua experiência conte em uma eleição na qual a maioria dos brasileiros –especialmente nas áreas mais pobres do país— querem continuidade. (grifos nossos)

Para entender o motivo, visite lugares como o Jardim Iguatemi, uma favela dispersa sobre montes íngremes no extremo leste de São Paulo. Fazendo fronteira com uma floresta, a favela está há uma hora e meia de distância do centro da cidade. O governo estadual do Serra construiu uma grande nova escola e uma clínica de saúde no local, mas é o presidente que rende a simpatia de muitos moradores. Eles dão os créditos a Lula com o Bolsa Família, um programa no qual 12 milhões das famílias brasileiras mais pobres recebem uma ajuda de custo mental de até R$200, paga às mães desde que mantenham seus filhos na escola e façam o acompanhamento médico deles. Seu governo também abriu uma escola técnica gratuita próximo à Itaquera. “Ele fez um grande esforço, e pensou bastante sobre problemas concretos,” diz Milene Ribeiro, uma mãe solteira de três crianças, cuja ambição de ser professora foi frustrada quando ela teve de deixar a universidade por falta de recursos. “Vivendo aqui, tão distante do mundo, temos de votar para alguém que fará algo por nós,” diz Quitéria de Souza, divorciada, mãe de três garotas.

As estatísticas do progresso social no Brasil são excepcionais. O número de pessoas vivendo na pobreza caiu em 20 milhões no governo de Lula, de 49.5 milhões (ou 28,5% da população) em 2003 para 29 milhões (16% da população) em 2008, de acordo com cálculos de Marcelo Neri, um perito em políticas sociais da Fundação Getúlio Vargas. Embora a recessão mundial e seu breve impacto no Brasil interrompeu temporariamente o progresso, não o reverteu. Usando critérios diferentes, Ricardo Paes de Barros do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão ligado ao governo, retrata um cenário semelhante. Ele descobriu que o número de brasileiros pobres demais para se alimentar de maneira adequada caiu de 17% da população em 2003 para 8,8% em 2008. (grifos nossos)

Nivelando o campo de jogo

gráfico 2

Gráfico 2

Ao mesmo tempo que a notória distribuição de renda desigual do Brasil está diminuindo (ver gráfico 2), o coeficiente de Gini, uma medida estatística do padrão de desigualdade, caiu firmemente desde 2001 (embora continue muito alto para os padrões internacionais). Durante esse tempo, a renda dos 10% mais pobres da população aumentou 8% ao ano, enquanto que os 10% mais ricos aumentou somente 1,5% ao ano, de acordo com Paes de Barros. (grifos nossos)

De diversas maneiras, o Brasil está começando a se tornar uma sociedade mais homogênea. A desigualdade regional também tem diminuído: a renda média na região pobre do Nordeste tem crescido mais rapidamente que a média nacional. Uma maioria dos brasileiros (cerca de 52%, acima dos 44% em 2002) agora pertencem ao que os mercadólogos chamam de classe social C, ou a baixa classe média, significando que eles possuem uma renda familiar de 1.064 a 4.561 reais. (grifos nossos)

Esse progresso é oriundo de uma mistura de crescimento econômico acelerado e políticas de governo. Embora haja um debate acerca dos detalhes, cerca de metade da redução na pobreza vem do aumento da renda com a empregabilidade. Políticas sociais melhores são responsáveis por uma grande parcela na queda da desigualdade –ou pelo menos no afunilamento na base da pirâmide. A Bolsa Família tem sido particularmente efetiva em ajudar os mais pobres. (grifos nossos).

Quanto de créditos o Lula merece por tudo isso? Seu governo transformou a Bolsa Família no maior programa condicional de transferência de dinheiro do mundo a partir de uma experimento em pequena escala. Ele também aumentou o salário mínimo em duas vezes e meia desde 2003, levando o poder de compra ao nível mais alto desde 1979. Isso não destruiu os empregos: foram criados aproximadamente 13 milhões de novos empregos na economia formal desde 2003. Lula também tem orgulho de um programa de governo no qual 12 milhões de pessoas nas áreas ruais ganharam acesso à eletricidade, e outro programa que provê o subsídio de habitação para os pobres. Acima de tudo, as enquetes sugerem, ele deu aos brasileiros mais pobres tanto um sentimento de auto-estima quanto a noção de que seu governo não é somente para os ricos. (grifos nossos).

Mas o crescimento econômico acelerado e a transformação social também são resultados de tendências de longo prazo. Os dois governos de Fernando Henrique Cardoso dominaram a inflação, criando a estabilidade que permitiu o crescimento do crédito, de investimentos e de empregos. E parte da queda na desigualdade (que começou em 2001, antes de Lula assumir a presidência) se origina de um grande esforço nos últimos 25 anos para expandir o mísero sistema educacional do Brasil. O trabalhador brasileiro médio agora tem 8.3 anos de educação escolar, acima dos 6.1 de 1995.

Lula certamente merece elogios por não imitar o populismo econômico de alguns dos outros líderes de esquerda que chegaram ao poder na América Latina na última década. Em termos gerais, seu governo se ateve às políticas macroeconômicas responsáveis que mantiveram a inflação em baixa. Após alguma procrastinação, também continuou o progresso na educação. Seu ministro da educação, Fernando Haddad, introduziu, por exemplo, testes nacionais padronizados para os alunos. E como aponta Roussef, o governo respeitou os contratos nos quais as empresas privadas, incluindo as estrangeiras, tinham investido no Brasil.

O estado e a nação

A pergunta que os candidados têm de responder nos próximos três meses é como manter o legado de Lula e construir em cima disto. Há um concenso político amplo a respeito da estabilidade política, a importância da educação e, a um certo nível, sobre as políticas sociais (Serra manteria a Bolsa Família, por exemplo). Independentemente da política internacional (importante para alguns brasileiros, mas não para a maioria dos eleitores), as diferenças entre os dois candidatos principais são mais nítidas sobre o papel do estado na economia.

De várias maneiras, Lula tem sido um presidente sortudo. O Brasil se beneficiou altamente com a industrialização da China. O apetite da China para gêneros alimentícios e minério de ferro impulsionou as exportações do Brasil, ajudando no crescimento e eliminando os problemas de balança comercial que tão frequentemente perseguiram o país no passado. Mas isso mascarou algumas fraquezas importantes que Lula não consertou, e podem ter até mesmo sido exacerbadas.

Serra gosta de dizer que o Brasil possui três recordes negativos mundiais: as mais altas taxas de juros no mundo, a carga tributária mais pesada de qualquer país emergente, e um dos menores níveis de investimento público. Todos esses itens, argumenta Serra, têm origem em um governo federal “obeso”, que gasta demais em empregos no setor público para seus apoiadores. Ele diz que reduziria gastos públicos muito extravagantes, abrindo espaço para que as taxas de juro caiam (o benchmark de juros do Banco Central é 10,25%). Em troca, isso permitira ao Real, sobrevalorizado, enfraquecer, ajudando fabricantes a lidarem com a competição da China. Ele simplificaria e reformaria o labirinto do sistema tributário. O objetivo seria impulsionar investimentos, tanto públicos quanto privados, para que o Brasil leve vantagem da oportunidade concedida pelo seu boom de commodities, que não vai durar para sempre.

O déficit no investimento significa que, de comum acordo, o Brasil não pode sustentar o arranco de crescimento deste ano. Se a economia deve continuar a se expandir a 5% ao ano, o Brasil precisa duplicar seu investimento anual em infraestrutura para 4% do PIB, de acordo com Marcelo Carvalho, da Morgan Stanley, um banco de investimentos.

Os aeroportos estão entupidos. Em Santos, o maior porto do Brasil, uma fila de navios aguardando carregamento se estende ao horizonte. A falta de boas estradas e rodovias aumenta os custos dos negócios. Esse ano, os produtores de soja do Mato Grosso gastaram até 38% de suas receitas somente para enviar suas colheitas das fazendas até as docas, de acordo com José Roberto Mendonça de Barros, um consultor econômico em São Paulo. Sob o governo Lula, o preço da eletricidade para usuários industriais mais que duplicou.

O governo tem cautelosamente permitido o investimento privado nas estradas, ferrovias e portos. Mas aeroportos são gerenciados por um corpo estadual ineficiente. Essa má administração é um luxo do qual o Brasil mal pode se dispor. –supondo que somente porque o país precisará lidar com visitantes da Copa Mundial de Futebol em 2014, e os jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, dois anos depois.

Enquanto isso, o governo está gastando mais e mais em pensões. Fábio Giambiagi, um economista do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), nota que embora somente 6% dos brasileiros têm idade para se aposentar, o país gasta 11,3% de seu PIB com esse grupo; nos Estados Unidos, ao contrário, os 12% da população pensionista recebe cerca de 6% do PIB. Gastos com pensões para trabalhadores do setor privado na economia formal triplicaram enquanto uma parcela do PIB do Brasil desde 1988. Isso se dá parcialmente porque a economia cresceu de forma bastante lenta (até recentemente), mas principalmente por causa da generosidade do regime de aposentadoria. Muitos brasileiros afluentes se aposentam aos seus 50 anos, e muitas aposentadorias cresceram de forma íngreme por estarem ligadas ao salário mínimo.

O resultado é que o governo federal afiança o sistema de aposentadoria nacional a 1,5% do PIB. Giambiagi aponta que o número de pensionistas crescerá em torno de 4% ao ano pelos próximos dez anos. Desde que a economia cresça a taxas semelhantes e que o próximo governo desacelere o crescimento do salário mínimo, o peso da aposentadoria será administrável, mas reforçará as desigualdades do Brasil. Paes de Barros nota que o governo transfere dez vezes mais dinheiro aos pensionistas do que para crianças. Ele está aconselhando a terceira candidata, Marina Silva –a única que fala sobre reforma na previdência.

Investindo em políticas industriais

As críticas do governo também preocupam a respeito das implicações de uma grande expansão do papel dos bancos estatais (o Brasil possui três destes). Isso surgiu parcialmente como um resultado da crise financeira mundial, quando os bancos privados temporariamente cortaram os empréstimos. Mas o BNDES, em particular, tornou-se um agente importante na política industrial do governo Lula. Nos últimos dois anos, o governo federal impulsionou a base capital do banco com dois empréstimos de longo prazo no valor de 180 bilhões de reais. Seus empréstimos anuais alcançaram a margem de 4,5% do PIB, e devem dobrar o nível de 2008 até o final do ano. Seus empréstimos geralmente são de longo prazo (para até 30 anos), com prioridade para infraestrutura, investimento na indústria e serviços, e verba para inovação. Eles custam em torno de metade do benchmark de juros do Banco Central.

O BNDES concedeu grandes empréstimos para empresas de eletricidade estatais (revividas por Lula) e para a Petrobras, a gigante de petróleo controlada pelo governo. Mas também financiou aquisições por grandes empresas privadas, tanto dentro do país como no exterior, criando campeões nacionais em negócio desde o setor de alimentação, a polpas e papel. Eduardo Giannetti, um economista de São Paulo, preocupa-se que tudo isso envolva subsídios grandes, porém opacos (ou talvez 8 a 12 bilhões de reais por ano, ele acredita) na medida em que extende a influência do governo nos negócios.

Luciano Coutinho, presidente do BNDES (apontado como Ministro da Fazenda caso Roussef ganhe a eleição), insiste que o banco implanta técnicas profissionais de análise de crédito e destitui como “ficção conservadora” a noção de que seus empréstimos são governados por critérios políticos. O papel do banco é passageiro, ele diz, até os mercados de capital privado desenvolverem instrumentos de poupança e empréstimos a longo prazo.

Rousseff defende políticas industriais –de fato, suas críticas a exibem mais dirigista que o Lula, cujos instintos são pragmáticos. Mas Coutinho diz que isso não envolve um retorno ao grande estado brasileiro e a alta proteção de tarifas das décadas de 1960 e 1970, como acusam os críticos. A economia do Brasil está mais aberta hoje. Coutinho diz que sua inspiração vem dos países asiáticos como a Coréia do Sul e China (embora as tarifas médias ainda são mais altas no Brasil do que nesses países).

O debate é mais intenso no que diz respeito a como desenvolver os novos vastos depósitos de petróleo encontrados nas profundezas do Oceano Atlântico em 2007. Sua descoberta seguiu a decisão do FHC de abrir a indústria do petróleo para a competição e sujeitar a Petrobras à disciplina do mercado (embora a companhia continue a ser controlada pelo governo, uma maioria de suas ações são negociadas abertamente). (grifos nossos)

Já que a administração de Lula acha óbvio que há muito mais petróleo a ser descoberto, quer mudar as regras que regem a indústria. Em vez de concessões sob as quais as empresas de petróleo pagam royaltes e impostos, mas mantêm o petróleo que extraem, nos campos futuros o petróleo pertencerá à uma nova empresa estatal e a Petrobras será a única operadora (no entanto, ela poderá se aliar com parceiros sob acordos de produção-compartilhamento). Estas mudanças estão incorporadas em quatro leis, mas somente uma –permitindo ao governo investir nos depósitos de petróleo na Petrobras como uma forma de aumentar seu capital—foi aprovada pelo Congresso até agora.

O governo também espera criar uma indústria nacional fornecedora de petróleo e está rascunhando os requisitos de que equipamentos, de petroleiros a plataformas de serviço e plataformas de perfuração, devem ser sobretudo produzidos localmente. A Petrobras já está fazendo muito de sua intervenção localmente, e oficiais apontam para um renascimento na indústrial de produção de navios do Brasil enquanto um sucesso antecipado. Uma vez que tais restrições são temporárias, elas podem ter êxito para a indústria do petróleo, mas há riscos. Um deles é a repetição dos erros de 1970, quando uma tentativa do governo de desenvolver uma indústria de computação ao banir importações cortou o Brasil do acesso a novas tecnologias. Outro é a colocação de muita tensão sobre a Petrobas, que também foi solicitada pelo governo a construir quatro novas refinarias.

serraolho

Serra pondera como ficou para trás

Esse mês, a Petrobras revelou um grande crescimento no seu plano de investimento de cinco anos, de $187 para $224 bilhões. Mas o dia de amanhã é abruptamente adiado até setembro por uma planejada oferta de ações avaliada em $25 bilhões. O preço das obrigações da empresa caiu recentemente por causa dos receios que o acidente da plataforma de perfuração da British Petroleum no Golfo do México adicionaram ao custo de operações de petróleo em águas profundas.

O petróleo agora responde por 12% do PIB do Brasil, um aumento de quatro vezes desde 1997. Essa taxa subirá em até 20%, avalia Adrian Pires, um regulador da indústria durante o governo FHC. O pesadelo da oposição é que Roussef possa usar a receita do petróleo para entrincheirar o PT atualmente no poder e que o Brasil possa seguir o caminho de outros Estados ricos em petróleo na América Latina, como a Venezuela de Hugo Chávez ou o México sob o governo do Partido Revolucionário Instuticional. Mas os oficiais têm outros modelos em mente, como o da democrática Noruega, que economizou muito da sua receita vinda do petróleo. “Queremos usar a riqueza do petróleo de maneiras que não contaminem o resto da economia,” diz Márcio Zimmermann, ministro da energia. (grifos nossos)

Portanto, os brasileiros estão de frente à uma escolha em outubro. Serra lhes forneceria um estado forte, mas improdutivo, que abriria caminho para mais investimentos privados e iniciativas, e cobraria menos impostos de seus cidadãos. Os conselheiros da Roussef acham que o Brasil tem tempo para derrubar as taxas de juros e impostos de maneira gradual, e que o Estado deve promover o desenvolvimento industrial e redistribuir a renda. (grifos nossos). Após 16 anos de estabilidade e continuidade política nos governos FHC e Lula, nenhum dos candidatos oferece uma mudança radical de curso. O que está em jogo é a velocidade do progresso do país.

Esta postagem foi inteiramente sugada do Maria Frô - Blog da Conceição Ó

terça-feira, 15 de junho de 2010

Para onde vai São Paulo?

MARCIO POCHMANN

Veículo: FOLHA DE S. PAULO - SP

Editoria: TENDÊNCIAS

Data: 15/06/2010

Assunto: Política Econômica no Estado de São Paulo

O esforço governamental para expansão e integração da infraestrutura urbana e social poderia estimular decisivamente a economia

A estabilidade monetária alcançada a partir do Plano Real, em 1994, abriu nova perspectiva para que o Estado de São Paulo voltasse a protagonizar novo ciclo de expansão econômica e social, já que respondia por quase 37% da população ocupada não pobre do país. Para isso, contudo, deveria impulsionar, em bases inovadoras, a sua estrutura produtiva, especialmente industrial, com a finalidade de potencializar o avanço das fontes contemporâneas de riqueza, cada vez mais presentes no interior do setor terciário da economia.

Esse processo de modernização constituiria peça fundamental na promoção e difusão do conhecimento, ou seja, a educação, as tecnologias de informação e comunicação e o trabalho imaterial como o esteio central da geração da riqueza e do bem-estar social.

Paralelamente, o esforço governamental voltado à expansão e integração da infraestrutura urbana e social poderia estimular decisivamente a economia de serviços para o crescente atendimento da demanda interna e externa. As decisões governamentais que poderiam operar como faróis a iluminar o futuro foram sendo transformadas em lanternas de freio a clarear o passado.

Pelas informações geradas pelo IBGE para a contabilidade dos Estados brasileiros, verifica-se o retrocesso paulista na fase recente da estabilidade monetária alcançada pelo país. O setor industrial paulista regrediu de 43% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 1996 para menos de 35% em 2007.

No mesmo sentido, o setor da construção civil teve sua participação relativa diminuída de 37% para 27% no mesmo período de tempo, assim como no caso do setor produtor e distribuidor de eletricidade e gás, de água e esgoto e de limpeza (de 45% para 27%); do comércio (de 41% para 33%); da administração pública (de 21% para 19%); e de serviços (de 35% para 34%).

Apesar dessas quedas relativas na participação econômica do Estado de São Paulo na produção nacional, percebe-se que houve crescimento do peso paulista em outros setores, não necessariamente estimulantes em termos da construção exitosa do seu futuro.

O setor da agropecuária ampliou sua participação de 8,6%, em 1996, para 11,7%, em 2007, e o de intermediação financeira teve ampliação de 49,9% para 51,4% no mesmo período de tempo. Mesmo reconhecendo a importância dos setores agropecuários e financeiros, sabe-se que eles não são suficientes para contribuir decisivamente na construção de uma sociedade superior.

O que se verifica, inclusive, são sinais de decadência, com a queda da importância relativa de São Paulo na economia nacional, de quase 36% em 1996 para 33% em 2007, e a queda da importância paulista no conjunto da população brasileira não pobre, de 37% para menos de 32%. Ademais, observa-se que as escolhas governamentais mais recentes apostam mais no passado do que no futuro.

Em geral, a trajetória do desenvolvimento capitalista tem sido a evolução da sociedade agrária para a sociedade urbano-industrial, e desta para a pós-industrial.

No caso paulista, entretanto, constata-se a sinalização de interrupção na passagem da sociedade industrial para o pós-industrial, com importante retorno ao velho agrarismo.

O setor agropecuário gera riqueza empregando cada vez menos mão de obra, enquanto a intermediação financeira opera com crescente tecnologia de informação poupadora de força de trabalho, o que compromete o futuro de inclusão e coesão social paulista.

MARCIO POCHMANN, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

Recuperado no “Linear Clipping”