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sábado, 26 de maio de 2012

A batalha pela alma do mundo islâmico


24/5/2012, Ahmed Daak e Harry Verhoeven, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
A comunidade internacional terá que aprender a conviver com o mundo vibrante da religião islâmica, dizem os autores (Foto: Al Jazeera)

Cartum, Sudão e Oxford, UK – Das eleições no Egito pós-Mubarak [1] aos debates na Tunísia sobre liberdade de imprensa [2]: está em curso uma batalha pela alma política do mundo islâmico. Mas, diferente do que se previa nos dias da Guerra Global ao Terror [Global War on Terror (GWOT)], as visões em confronto não são o terrorismo jihadi e o secularismo à moda ocidental.

Ahmed Daak
As novas realidades que emergem da Primavera Árabe mostram que o Islã ocupará posição chave no debate político, do Marrocos à Indonésia. Mas ainda não se vê com clareza se isso levará a maior coesão das sociedades ou aumentará as tensões no mundo islâmico e entre ele e atores externos. Para entender que feições terá o futuro, temos de analisar a luta que se trava no campo dos que creem: reformistas islamistas versus salafistas arquiconservadores.

Proliferam concepções erradas sobre a luta, resultado de condições sociopolíticas contemporâneas, mas que nada têm de novas: é a volta do confronto entre rivais ancestrais, com novos interesses em disputa. Debates sobre o papel adequado do Islã na política vêm despertando paixões desde o final do Califato Rashidun [3].

Harry Verhoeven
Enquanto os reformistas destacam o caráter dinâmico do Islã – os textos não podem jamais ser alterados, mas nossas interpretações mudam em função de novos desafios – os salafistas partem de interpretação literalista do Corão e da Sunna do Profeta Maomé. Reforçam o conservadorismo tanto na esfera pessoal como no reino da política, o que produz posição muito ambivalente, para dizer o mínimo, em relação aos processos democráticos.

Ibn Taymiyyah, intelectual ativo no século 13, [4] e padrinho intelectual dos salafistas do século 21, rejeitou a participação popular nos processos de mudança política:

“O que governa pode exigir obediência dos governados, porque até um governador injusto é melhor que a guerra e a dissolução da sociedade”.

As disputas de hoje revisitam a antiga divisão entre os que creem na emancipação da sociedade mediante reformas sancionadas pelo Islã e os que questionam a inovação e o debate livre, seja na teologia seja na política.

Salafistas versus islamistas

Apesar das muitas diferenças, há importantes semelhanças entre salafistas e islamistas. Não se trata de escolher entre “ocidentalização” e “Islã tradicional”: nenhum desses campos existe nas categorias-caricatura da Guerra Global ao Terror. As duas fórmulas são produtos da modernidade [5], que pensa sobre política e sobre religião de modo profundamente moderno, e que responde à modernização com discursos, instituições e ideias que estão, todos, profundamente enraizados no imaginário do século 21.

O papel da religião na eleição egípcia

Apesar da retórica candente, não se trata de voltar à Arábia do século 7º. Ambos, salafistas e islamistas lamentam a perda de status nos séculos passados e propõem vias para um Renascimento do mundo islâmico. Ambos contestam a injustiça social, a corrupção do “Islã real” e a inabilidade dos muçulmanos para enfrentar os desafios que lhes chegam do ocidente. Ambos falam de um perdido passado de glórias e pregam que se reinvente o status-quo. Mas, enquanto os salafistas destacam a ordem, o ritual externo e a diferença religiosa dentro e fora do mundo islâmico, os islamistas destacam que a civilização islâmica sempre foi, historicamente, uma força progressista no mundo; que abraçou a inovação, a ciência e a racionalidade e engajou-se em livre debate dentro de um contexto islâmico que visa a integrar, não a dividir.

As questões nucleares em que salafistas e islamistas confrontam-se hoje são as questões da democracia liberal, da liberdade e da inclusão social. As respostas produzidas pela rivalidade entre eles – nas eleições no Egito; na guerra civil na Síria, onde já há três lados em guerra; dentro do Regime de Salvação do Sudão, etc. – estão determinando o futuro do mundo islâmico. Ambos, islamistas e salafistas, têm relacionamento difícil com eleições.

No tempo da descolonização, os dois grupos desejavam um renascimento político-espiritual, não apenas uma independência meramente formal.

Mas a ascensão do pan-arabismo e de governos socialistas – no Egito de Nasser, no Iraque de Saddam, na Líbia de Gaddafi – marginalizou todos os projetos de inspiração religiosa. Com esses regimes tornando-se cada vez mais autoritários, as opções de mudança de dentro para fora se reduziram drasticamente. Os salafistas firmaram um pacto faustiano: seguindo Ibn Taymiyyah, tornaram-se indiferentes aos desafios e provocações, e ganharam, a partir dos anos 1970s, a liberdade necessária para desenvolver suas próprias redes sociais, com apoio dos sauditas, para competir contra os islamistas. O levante salafista de 2012, incluindo a evidência de que o Partido Al-Nour [6] conquistou 25% dos assentos com direito a voto no Parlamento do Egito, é resultado direto [7] dessa decisão e de seus desenvolvimentos.

Mudando o centro político

Os islamistas têm mostrado relações mais amigáveis com a democracia eleitoral que os salafistas, mas houve experiências traumáticas, no passado, que levaram muitos a questionar as intenções da Fraternidade Muçulmana do Egito [8] e do Partido Ennahda da Tunísia. No Sudão e na Argélia, coalizões islamistas candidataram-se ao Parlamento, mas o processo levou a violência em larga escala. Em Cartun, os islamistas abandonaram o compromisso com a democracia, aliando-se aos militares para um golpe de estado em 1989 – aliança controvertida [9] que veio, depois, a dividir o Movimento Islâmico Sudanês, solapando suas promessas de modernização e de  democratização. Em Argel, a Frente Islâmica de Salvação (FIS) alcançou maioria absoluta nas eleições parlamentares em 1991, mas recusaram-se a acomodar os interesses da poderosa classe militar da Argélia. Radicais dos dois lados enfrentaram-se numa guerra civil [10] que custou entre 150 mil e 200 mil vidas.

Os erros cometidos pelos islamistas da Argélia e Sudão chegaram ao ápice quando, já no quadro do poder absoluto, os teóricos da Guerra Global ao Terror conseguiram ignorar a divisão entre islamistas e salafistas: e os dois lados deixaram-se abordar pelo prisma da al-Qaeda e de uma radicalização possível, ao contrário do que se viu entre os “bons” secularistas. Mas a Primavera Árabe mudou o centro de gravidade político do confronto entre salafistas e islamistas e forçou os dois lados a um novo engajamento com a democracia.

Enquanto os salafistas começaram, relutantes, mas com sucesso, a participar de eleições, os islamistas abraçaram sua agenda islâmica original de liberdade, enfatizando as reformas econômicas, a governança participativa e a liberdade religiosa. Hoje, o momento é de grandes oportunidades no mundo islâmico, mas, também, de riscos extremos.

Apesar do ímpeto eleitoral crescente nos últimos anos, uma vitória dos salafistas nessa luta parece improvável, no longo prazo: a rígida teologia salafista oferece fraca orientação sobre como enfrentar o declínio econômico, a crise na educação [11] no mundo árabe e as massas jovens. Mesmo assim, os salafistas ainda ajudam a impedir que os islamistas alcancem vitória ampla. Os mais otimistas [12] argumentam que o envolvimento nas instituições políticas forçará os salafistas a construir soluções pragmáticas para as questões arroz-com-feijão. É pensamento de excessivo otimismo, que ainda pode ser eclipsado pela aliança entre os velhos establishments militares e os zelosos salafistas para torpedear o projeto de seus arqui-inimigos islamistas. Esse arranjo ameaça aprofundar a divisão entre sunitas e xiitas no Islã, pondo em risco a posição de minorias religiosas e levando a irrupções (nem sempre propriamente “espontâneas”) de violência contra “infiéis”, como se viu recentemente em ataques a igrejas no Iraque, Egito [13] e Sudão [14].

O renascimento islâmico

Escolher entre islamistas e salafistas não é escolher entre seis e meia dúzia. Muitos líderes islamistas amadureceram dramaticamente desde as experiências na Argélia e no Sudão e começaram a abandonar suas utopias revolucionárias, sem sacrificar os princípios. Embora muitos deles ainda se equivoquem muito sobre os direitos humanos “ocidentais”, o compromisso da grande maioria dos islamistas com o constitucionalismo, com dar maior destaque às mulheres muçulmanas na vida política e com promover maior harmonia no relacionamento com outras fés religiosas já não pode ser questionado. Vozes islamistas tornaram-se empenhadas e confiáveis defensoras desses princípios, mais, até, que muitos secularistas na Tunísia, na Argélia e no Egito, os quais, no passado, muitas vezes, empenharam-se mais em “dissolver a democracia para salvá-la”.

A comunidade internacional terá de aprender a conviver com um vibrante mundo islâmico religioso, com papel maior e mais visível para o Islã, na política do dia a dia: modernizar não significa ocidentalizar. Os que se preocupem com segurança internacional, liberdade de expressão e justiça social devem considerar bem-vindo o projeto trazido pelos islamistas, para derrotar o salafismo e as ditaduras. Há movimentos fortes, da Mauritânia à Malásia, por um renascimento social ético amplo, e por um renascimento islâmico que lance a civilização islâmica de volta à posição de destaque que lhe cabe, no cenário global.

Os que se interessem por ver, para além das discussões sobretudo simbólicas sobre turistas de biquinis e consumo de bebidas alcoólicas, um islamismo modernizante, como o de Tayyep Recip Erdogan na Turquia, não é fuga reacionária da realidade, mas grito sincero pela reestruturação progressista, a partir de direitos, no plano social doméstico e global. É também um modo de resistir contra uma forma de globalização que, para muitos, não realizou o projeto da modernidade – de plena mobilidade social e cada vez mais amplas liberdades individuais – e que, na prática, continua a aprofundar as injustiças e a gerar desorientação psicossocial.




Notas de rodapé

[1] Al-Jazeera, “Anger in Egypy”

[2] 21/4/2012, Huffington Post, em: “Is Tunisia's Post-Revolution Media Freedom Slipping?”

[3] Vide: “Rashidun Caliphate”

[4] Vide: “Ibn Taymiyyah”

[5] 16/4/2012, Foreign Policy em: “The New Islamists”

[6] 4/12/2011, Al-Ahram, Egito, em: “Al-Nour Party” 
[7] 15/2/2011, Telegraph, UK, WikiLeaks – “SALAFISM ON THE RISE IN EGYPT CAIRO 00000202 001.2 OF 00”

[8] 11/2/2011, Mother Jones, EUA, em: “What Is the Muslim Brotherhood, and Will It Take Over Egypt?”


[10] 29/9/2011,Christian Science Monitor, em: “Q&A with Syrian jihadist: Minorities have nothing to fear in post-Assad Syria”

[11] 7/2/2011, United Nations Development Programme - UNDP, “The Arab Human Development Report: Worth a Second Read”


[13] 9/5/2011, Al-Jazeera, “Cairo tense after religious clashes”

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A volta dos islamistas? [1]


Uma forma questionável de liberdade para o norte da África

Sugestão do prof. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, que nos ajuda, da Alemanha, e a quem agradecemos.

28/9/2011, Clemens Höges e Thilo Thielke, Spiegel Online
(trad. para o inglês, Christopher Sultan)
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

Prof. Moniz Bandeira
Foram-se os ditadores, mas quem herdará o poder na Líbia, na Tunísia e no Egito? A influência islamista é significativa em toda a região e grupos políticos conservadores já exercitam os músculos. Os próximos meses definirão o quanto de democracia o norte da África pode suportar.

Caixas de munição, agora vazias, passado o mais recente bombardeio pesado, estão empilhadas à frente de barracas militares no aeroporto de Trípoli. Um dos vitoriosos, fatigado de muitos combates militares, está sentado numa luxuosa poltrona de couro, no prédio do aeroporto. Pressiona os coturnos de combate sobre o tapete alto, o rosto, rígido, parece talhado em pedra. O homem fala com intensidade. Quer garantir que a gravação em vídeo não perca nenhuma de suas frases e que tudo seja bem compreendido.
 
As agências de inteligência de EUA e Grã-Bretanha caçaram Abdel Hakim Belhaj, durante anos. O homem, hoje, é comandante dos rebeldes líbios, da brigada de Trípoli. Mas foi caçado, antes, porque se acreditava que fosse terrorista e aliado do então líder da al-Qaeda, Osama bin Laden. Sabe-se que aquelas agências o sequestraram, que foi torturado com seringas e água gelada. Mas hoje, o ocidente e muitos, na Líbia, prestam extrema atenção ao que ele diz, bebem suas palavras.

Abdel Hakim Belhaj é o comandante de todas as tropas rebeldes em Tripoli.  Ele também é ...
Abdel Hakim Belhaj é o comandante das tropas “rebeldes”em Trípoli. Também é um ex aliado de Osama Bin Laden. Sua influência na Líbia mostra que os islamistas podem acabar tendo poder considerável no país
“A verdade é que nosso grupo nada tinha a ver com a al-Qaeda naquele tempo” – diz Belhaj, combatente veterano da guerra no Afeganistão e ex-líder do Grupo de Combate Islâmico Líbio [ing. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)], que, perseguido pelo regime de Muammar Gaddafi, viveu vários anos refugiado no Afeganistão. Belhaj, islamista endurecido em muitas batalhas, é hoje o comandante das tropas rebeldes na capital da Líbia.
 
Seus comandados movimentam-se, dirigindo caminhonetes, armados com armas automáticas, enquanto as cabeças civis tentam mapear um caminho para o futuro da Líbia. Belhaj diz que o poder “está nas mãos do povo líbio” e que, agora, os líbios podem decidir democraticamente o que querem fazer da vida. “Queremos país secular” – diz ele. Mas muitos líbios não acreditam sequer numa palavra do que os islamistas andam dizendo.

Diferenças profundas 

Afinal, há mais coisas em jogo, hoje, do que apenas a questão de quem está atualmente no poder. Trata-se de modelar o futuro da Líbia. Os levantes da Primavera Árabe já são passado no Norte da África e, quando começam a mudar os regimes na Tunísia e no Egito, emergiu na Líbia, vitoriosa, uma coalizão de islamistas e insurgentes seculares. Os combates são dados por encerrados, ou quase; e as profundas diferenças entre os dois grupos da coalizão vão-se tornando mais visíveis.

Como na Tunísia e no Egito, logo se verá o quanto democrática poderá ser a nova Líbia. Acompanhará as linhas do modelo turco, divulgado pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, em celebrada viagem pelo mundo árabe? Ou, no outro extremo, a Líbia seguirá o modelo da teocracia iraniana?

Os ditadores eram convenientes, do ponto de vista do ocidente, porque mantiveram os islamistas sob controle. Agora, os povos derrubaram os ditadores, e as novas liberdades aplicam-se a todos, inclusive a islamistas e jihadists que querem ver introduzida em seus respectivos países a lei da Xaria. Reclamam sua fatia de poder, que dificilmente será pequena.

As brigadas islamistas combateram muito, na Líbia. Não fizeram feio. De fato, desde décadas antes das revoluções no norte da África, os islamistas já eram o grupo mais bem organizado da oposição nos três países. Muitos de seus líderes foram presos, torturados e mortos. Os islamistas pagaram pesado preço, o que fez deles combatentes muito resistentes. Sempre tiveram, também, mais recursos financeiros que outros grupos de oposição, em parte graças ao apoio de ricos xeiques do Golfo, como do Qatar.

Está para ser eleita, em quatro semanas, uma assembleia constituinte na Tunísia, [2] e pesquisas mostram que o partido religioso Nahda pode receber 20-30% dos votos. Os islamistas, com isso, teriam maioria sobre qualquer dos partidos seculares.

Potencial estimado 

Não chega a surpreender, porque os islamistas são mobilizados para fazer as maiores campanhas eleitorais, mantêm projetos sociais, distribuem bolsas de estudo, são onipresentes e ativos nas mesquitas. Muitas mulheres já reclamam contra ataques à luz do dia. Quando, em Túnis, exibiu-se um filme com críticas à religião, os islamistas invadiram o cinema e atacaram os proprietários da sala.

Observadores no Egito estimam que os islamistas egípcios – a Fraternidade Muçulmana e os salafistas – tenham os mesmos cerca de 20-30% de eleitores em potencial. A Fraternidade Muçulmana, que hoje se chama Partido Justiça e Liberdade, já cogita criar regras rígidas de indumentária para mulheres estrangeiras, proibindo-as de usar biquínis nas praias egípcias. Os fiéis salafistas já criaram vários diferentes partidos.

Quando os dois grupos organizaram manifestação conjunta na Praça Tahrir no Cairo, reuniram dezenas de milhares de seguidores, que exigiam estado islamista. Muitos, hoje, responsabilizam os salafistas por recente ataque a igrejas cristãs coptas no Egito.
Abdul-Jalil Mustafa, chefe do Conselho Nacional de Transição da Líbia, shakes ...
Abdul Jalil Mustafá,  Chefe do Conselho Nacional de Transição da Líbia, cumprimenta o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, semana passada. Jalil apresentou o roteiro para a democratização da Líbia que exige a eleição de 200 membros do Congresso Nacional dentro de 8 meses.

A situação na Líbia é muito mais caótica que nos dois países vizinhos, em parte porque os rebeldes ainda enfrentam resistência de defensores de Muammar Gaddafi. Mesmo assim, o Conselho Nacional de Transição, presidido por Mustafa Abdul Jalil, e o chamado Comitê Executivo, liderado por Mahmoud Jibril, apresentou um roteiro para a democratização do país que prevê eleição de um Congresso Nacional de 200 membros, a serem eleitos dentro de oito meses. Com prazo de um ano, esse congresso deverá redigir uma constituição, organizar um referendum para que os cidadãos aprovem a nova constituição e, então, organizar eleições gerais.

Belhaj, comandante militar de Trípoli, sente-se suficientemente poderoso para opor-se a Jibril, que opera como primeiro-ministro de facto. Belhaj trabalha para derrubar Jibril do cargo que hoje ocupa.

Acusações de corrupção 

Mas os islamistas líbios mais influentes são, provavelmente, os irmãos Salabi. Ismail Salabi comanda uma da mais violentas brigadas rebeldes em Benghazi. O irmão, Ali, considerado líder religioso no país, viaja sem parar entre Líbia e Qatar, a monarquia árabe do Golfo Persa que supriu com armas os rebeldes e treinou soldados.

Os irmãos Salabi já várias vezes tentaram desacreditar os membros do Conselho Nacional de Transição, com acusações de corrupção. Ali Salabi diz que o conselho está repleto de “secularistas radicais” que tentam deslocar os grupos religiosas antes das eleições, e que Jibril quer inaugurar “nova era de tirania e ditadura”.

Os islamistas líbios planejam constituir um partido religioso. Mas Ali Salabi diz que, se não se saírem bem nas eleições, respeitarão a vontade do povo. Salabi insiste que acredita na democracia.

Mas muitos desconfiam de radicais como os irmãos Salabi, sobretudo depois do assassinato de Abdul Fattah Younis. Ex-ministro do Interior no governo de Gaddafi, Younis juntou-se aos rebeldes alguns dias depois do início da rebelião, e, como comandante-em-chefe, organizou o exército rebelde. Seu cadáver foi encontrado, com dois outros mortos, dia 28/7, perto de Benghazi. Até hoje não se sabe quem matou Younis e os dois companheiros e incineraram os corpos, mas os islamistas são os principais suspeitos.

Fathi Bin Issa, editor-chefe do novo jornal Arus al-Bahr, de Trípoli, nos recebeu em sua sala longa e estreita, iluminada com lâmpadas fluorescentes, frias. Ao lado da mesa, tem a bandeira verde e preta da nova Líbia. Bin Issa foi porta-voz dos rebeldes logo depois que ocuparam a capital, e seus editores escrevem agora regularmente sobre os islamistas. Diz que, só na semana passada, recebeu várias ameaças de morte, gente que diz que vai explodir as salas do jornal.

Bons contatos e uma agenda 

“Há gente aqui tentando construir um Hezbollah líbio”, diz Bin Issa. “Há grande risco de que assumam o poder”. Em alguns bairros, diz o jornalista, já circulam fatwas que proíbem as mulheres de saírem desacompanhadas. Diz também que vários salões de beleza foram fechados, e que elementos de uma autoproclamada polícia religiosa já começam a circular pelas ruas. “Esse pessoal tem bons contatos e tem agenda. Por isso são tão perigosos”. Para Bin Issa, tudo agora depende de como a sociedade civil reagirá às mudanças. “Se não conseguirmos conter esse pessoal, as condições aqui ficarão parecidas com o Irã, ou com os tempos dos Talibã”, diz ele.

Apoiador dos rebeldes, Bin Issa acredita que os líbios não tenderão na direção do Islã radical. “Aqui na Líbia, as mulheres trabalham como pilotos de avião e juízas, e foram importantes para promover as mudanças que temos hoje. Nosso Islã é moderado.” 

O coronel Ali Ahmed Barathi, 53 é o novo chefe da polícia militar em Trípoli. Está instalado no prédio que abrigava a conhecida 32ª Brigada, grupo de torturadores comandado por Khamis, filho de Gaddafi, nos arredores de Trípoli. O coronel nos recebe em sua sala, sentado a uma mesa enorme. Usa os óculos escuros obrigatórios e tem mãos grossas, de soldado profissional. Mas fala com suavidade.

O coronel Barathi é nascido em Benghazi, onde imediatamente se reuniu aos rebeldes. “Reuni minha unidade e disse que tinha planos de mudar de lado. Cada soldado escolheu ficar, ou nos acompanhar. Toda a unidade desertou.”

Escaramuças com islamistas 

As atividades dos islamistas não preocupam Barathi. “Os líbios não querem ser governados por essa gente. Até Belhaj já reconheceu isso e tem sido reservado nos comentários”.

Mas, então, fala sobre escaramuças com islamistas e diz que seus homens desmontaram uma unidade inteira de islamistas, logo no início da rebelião. “Os islamistas foram isolados pelas tribos, que não queriam contato com eles. E lhes demos um ultimato: ou uniam-se a nós, ou depunham armas. Muitos entregaram as armas. Outros desertaram”.

Aref Nayed, coordenador da chamada equipe de estabilização do governo rebelde tem esperanças de que a disputa entre islamistas e seculares leve a um bom resultado – um verdadeiro pluralismo. Rico empresário da indústria informática, acadêmico islâmico e filósofo, Nayed é frequentemente encontrado no saguão do Hotel Corinthia, em Trípoli, à beira mar, como vários outros dos principais políticos do país.

Homem elegante, de barba bem aparada, Nayed estudou no Canadá e nos EUA e trabalhou na Itália. É adepto de costurar acordos entre partidos que se oponham.

“As tribos mantêm coesa a sociedade”

Depois do mal pensado discurso do papa Bento 16, em 2006, em que o papa incitou os muçulmanos religiosos contra a igreja católica, Nayed foi um dos acadêmicos muçulmanos que assinou uma carta ao papa, para reiniciar os contatos. Quando Nayed uniu-se ao Conselho Nacional de Transição, o Vaticano anunciou que o papa muito se alegrara ao ver que “um velho amigo” se tornara figura chave, na Líbia.

Nayed sonha com uma conciliação entre a Líbia secular e a Líbia islamista, arranjo que poderia vir a servir de modelo para o mundo árabe, com os islamistas reconhecidos como força política, talvez até com mulheres no Gabinete. Nada disso, diz Nayed, contrariaria qualquer dos postulados do Islã. O presidente do Conselho Nacional de Transição, Abdul Jalil, que é muçulmano devoto, também apóia a conciliação. Além do mais, diz Nayed, não são os políticos, mas as tribos líbias, “que mantêm coesa a sociedade.” 

Por mais que cite entusiasmadamente antigos filósofos, a arma está na cintura, por baixo do paletó caro. O cinto fino não suportaria a pesada pistola 9-mm. “Não planejo usar isso” – Nayed sussurra. Diz que os guarda-costas insistiram que andasse armado, para que não ficasse desprotegido quando andasse em público.

Na Praça dos Mártires – a Praça Verde, antes da chegada dos rebeldes –, em Trípoli, vê-se uma grande fotografia do general Younis, que foi assassinado. O general rebelde sabia manejar muito bem a pistola. De pouco lhe serviu.




Notas dos tradutores

[1] Optamos pela palavra “islamista”, numa decisão tradutológica. Acompanhamos, nessa decisão, o partido Ennahda [renascimento], de islâmicos moderados, fundado em 1981 e que se apresentou às eleições na Tunísia, dia 24/10/2011 (segundo notícias recentes, ainda antes do anúncio oficial do resultado, o partido alcançou de 30-50% dos votos). Segundo a BBC, “Membros do Partido Ennahda referem-se a eles mesmos como “islâmicos”, não como “islamistas”, sob o argumento de que a expressão “partido islamista” carrega conotações pejorativas” (BBC, “Perfil do Partido Ennahda”).

[2] Esse artigo é datado de setembro. Realizaram-se eleições na Tunísia, dia 23/10/2011, ainda sem resultados divulgados.