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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A disputa pelos restos da Líbia: “A Líbia é a próxima Somália?”


25/7/2012, Thomas C. Mountain, Counterpunch  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Thomas C. Mountain é o jornalista independente mais credenciado da África. Vive e trabalha na Eritreia desde 2006. Suas entrevistas podem ser assistidas no jornal Russia Today TV e PressTV (Irã). Recebe e-mails em: thomascmountain@yahoo.com



A Líbia dá sinais de estar-se convertendo na próxima Somália, com grande parte do país já controlado por milícias armadas de clãs ou tribos. Como se viu acontecer na Somália, a Líbia está no processo de dividir-se, criando-se a leste a Cirenaica, rica em petróleo, que já lançou sua proclamação de independência de facto.

Trípoli, a capital da Líbia, parece estar andando na direção de converter-se no que foi Mogadishu, capital da Somália há 20 anos, com incontáveis milícias bem armadas, de áreas das periferias urbanas, que se instalam nas cidades e envolvem-se em infindáveis confrontos por território, disputando os restos de poder.

O único governo nacional real e modernizante que a Líbia jamais conheceu foi o governo de Gaddafi, assim como o único governo modernizante que houve na Somália foi o governo de Siad Barre.

Os dois países foram criados pelo colonialismo italiano e passaram a integrar o Império Colonial Italiano na África. Nenhum dos dois jamais teve qualquer unidade histórica. Antes do colonialismo italiano, a Líbia era algumas cidades-estado e as tribos, a maioria das quais absolutamente nômades.

Antes do colonialismo italiano, jamais existiu nem algum Rei da Somália nem alguma Terra da Somália governada por conselho tribal ou clânico, chefes ou conselhos de grandes chefes.

Nem num país nem no outro jamais se constituiu nação, antes exatamente o contrário. Mesmo assim, durante algum tempo, os dois países viveram bem – por difícil que seja acreditar, no caso da Somália.

A Líbia antes e depois do"Bombardeio Humanitário" da OTAN
(Clique na imagem para aumentar)
Em 2011, a Líbia foi destruída por bombardeio aéreo quase sem precedentes, com mais de 10 mil ataques aéreos, que despejaram sobre os líbios cerca de 40 mil peças explosivas de alto poder de destruição, durante cerca de oito meses. 40 mil bombas, matando cada uma duas pessoas em média, e, só até aí, já seriam 80 mil líbios mortos pela OTAN em 2011. De uma população muito pequena, de cerca de 6 milhões.

A destruição que a OTAN provocou na Líbia equivale a cerca de 100 mil ataques aéreos sobre a Grã-Bretanha, com cerca de 400 mil bombas que matassem 800 mil britânicos em oito meses. Assim, afinal, se pode ter ideal realista da escala da desgraça que a OTAN levou à Líbia.

A Líbia hoje exporta mais de 90% de sua produção de petróleo e gás de antes da guerra, quase 2 milhões de barris/dia, de um dos melhores tipos de petróleo que há no planeta. Para onde vão os quase 200 milhões de dólares diários, 6 bilhões por mês, mais de 70 bilhões de dólares ao final de 2012, permanece mistério quase absoluto.

Abdelhakim Belhadj
O chefão da Al-Qaeda e dos rebeldes líbios que fez o serviço mais sujo depois do bombardeio pela OTAN é o muitas vezes infame Abdelhakim Belhadj, ex-comandante da Al-Queda no Iraque e capo da Al-Queda no Norte da África. Hoje, comanda a maior, a mais militarmente bem organizada e a mais eficiente milícia que opera em Trípoli. Sob seu comando, operam milícias tribais de diferentes tamanhos e competências, entre as quais as milícias de Zintan que mantêm preso Saif al Islam Gaddafi.

Em relações de uma paz difícil com essas milícias, está o Conselho Nacional de Transição, chefiado, pelo menos em parte, por vários dos ex-comandantes de Gaddafi.

Eleições comandadas por um “governo” lá implantado pela OTAN não passam de artifício para encobrir a ilegitimidade do atual regime, cujo único projeto de governo é receber os 70 bilhões anuais da renda do petróleo e os dividendos dos $100 bilhões do fundo soberano líbio depositado em bancos ocidentais.

No campo oposto, contra, ao mesmo tempo, Belhaj e o Conselho Nacional de Transição, está o que se conhece como “Resistência Verde”, que a imprensa-empresa ocidental chama de “militantes pró-Gaddafi”. São grande parte da maior tribo que há na Líbia, os Warfalla, tribo da mãe de Saif al Islam, e dos quais se diz que, aos poucos, começam a organizar forças de autodefesa, para proteger suas comunidades contra ataques de senhores-da-guerra e respectivas milícias.

Saif al Islam Gaddafi
Belhaj esteve preso na Líbia, onde foi torturado por gente que, hoje, circula entre os capi do Conselho Nacional de Transição, entregue a eles como prisioneiro, pela CIA-EUA, num dos programas pelos quais prisioneiros da CIA eram entregues a outros países para serem interrogados. A tortura de Belhaj só acabou quando Saif al Islam Gaddafi convenceu seu pai a perdoar Belhaj e seus chefes, em troca de uma promessa de coexistência pacífica que Belhaj imediatamente traiu.

O que se sabe é que Belhaj tem manifestado alguma espécie de benevolência em relação a Saif al Islam, o que pode explicar por que o filho de Gaddafi continua vivo, mantido a salvo, longe do alcance, ao mesmo tempo, da Corte Internacional de Justiça e do Conselho Nacional de Transição, entregue à proteção de aliados de Belhaj em Zintan.

É altamente provável que Belhaj esteja operando para assumir o controle sobre os bilhões do petróleo, mantendo-os fora do alcance do governo imposto pela OTAN, ao mesmo tempo em que trabalha para vingar-se de seus ex-torturadores, hoje no Conselho Nacional de Transição confinados em Benghazi (quando não estão fora do país).  

Para conseguir o que almeja, Belhaj pode bem se interessar por aceitar um acordo de cessar-fogo com a Resistência Verde, a qual também quer o fim do governo do Conselho Nacional de Transição fantoche da OTAN. Descartado o Conselho Nacional de Transição, poder-se-á talvez cogitar de um acordo de paz entre Belhaj e Saif al Islam, para tentar pôr fim ao fogo e ao sangue que ainda pinga dos sabres, na Líbia.

Mas isso também pode não passar de delírio desejante, e depende de a OTAN não intervir militarmente para defender “seu” Conselho Nacional de Transição – ameaça presente que, por sua vez, pode explicar a paciência de que Belhaj e seus aliados têm dado várias provas.

Quem sabe? A verdade muitas vezes é mais estranha que qualquer ficção. E o que hoje parece delírio desejante pode converter-se em realidade, amanhã ou depois de amanhã. Mas, no que tenha a ver com a Líbia estar caminhando na direção de converter-se numa nova Somália, sim, a história indica precisamente esse rumo.

domingo, 10 de junho de 2012

Líbia: “De Trípoli a Mitiga”


7-13/6/2012, Gamal Nkrumah, Al-Ahram Weekly, n. 1101, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Gamal Nkrumah
As poderosas milícias locais estão, simultaneamente e muito estranhamente, ao mesmo tempo, minando as bases do nascente processo democrático na Líbia e fortalecendo o conceito de justiça social.

Nos últimos meses, cresce a onda de reclamações e protestos, sobretudo entre os mais jovens, contra a situação corrente na Líbia, de caos generalizado e condições cada dia mais degradadas de segurança. Impossível não se solidarizar com aqueles jovens, pelo menos até certo ponto.

A verdade é que quanto mais se batem os tambores de guerra, mas se faz avançar a agenda do caos. No ocidente, poucos têm ouvido falar sobre as milícias que varrem o interior da Líbia e espalham terror pelas calçadas das cidades líbias.

O sentimento da importância de não se render aos comandantes do Conselho Nacional de Transição líbio é cada vez mais forte entre as milícias armadas, que suspeitam que seus interesses estejam sendo devastados pelo novo governo líbio, o qual, por sua vez, dá sinais cada dia mais claros de não estar comprometido com as agendas locais das várias milícias.

As milícias reuniram-se pelas mesmas linhas de divisão clânica e tribal, por cidades e vilas, que, de início, definiam-se como as que apoiavam o líder deposto, Muammar Gaddafi, e as tribos e os clãs que se viam como os revolucionários que depuseram o ditador; e as correspondentes milícias armadas.

Os controversos eventos dessa semana na Líbia pintam quadro perturbador do atual estado da política da Líbia pós-Gaddafi. Seria injusto e errado não ver o sentimento profundamente enraizado de indignação que foi gerado pelo modo selvagem como Gaddafi foi assassinado.

A Líbia sempre foi profundamente marcada pelo tribalismo – plantado e cevado durante décadas pelos italianos, depois pelos britânicos e franceses e respectivos governos coloniais ao longo do século 20 e, em certo sentido, reinventado pelo próprio Gaddafi, por mais que dissesse defender uma identidade nacional árabe, não tribal, para todos os líbios.

Os amazighs autóctones, ou berberes, foram ultrajados, divididos e perderam poder político. Os tuaregues, amazighs de pele escura e nômades dos desertos líbios, tenderam a aproximar-se de Gaddafi, que, em associação com os anciãos tuaregues e as novas gerações, recrutou milhares de tuaregues para o exército líbio. Os tebus, outra tribo autóctone também de pele escura, não amazighs, grupo de etnia não árabe que vive no sul do país, também foram bem acolhidos por Gaddafi.

Milícias paramilitares (Al-Awfea) ocupam aeroporto de Trípoli
A surpresa veio com o evento ainda não completamente noticiado, da tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli na 2ª-feira, 4/6 [1], pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], presumivelmente leal a Gaddafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas gaddafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios evidentemente, de pele escura.

Se é verdade que a queda de Gaddafi trouxe outra vez para o palco da política líbia o fator tribal e racial, também é verdade que o governo de transição não passa de cortina que nada encobre e, simultaneamente, nada faz para reconciliar conflitos antigos.

A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios de pele negra, no período pós-Gaddafi.

Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade.

A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Gaddafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli.

Brigada Al-Awfea impede a partidas e chegadas no aeroporto de Trípoli
Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária.

Mas nem tudo, nesse evento, pode ser debitado a disputas intertribais, de chefes líbios que disputariam entre eles o controle sobre a Líbia pós-Gaddafi. Claro: os serviços públicos não são o que antes eram. No aeroporto, cancelaram-se alguns voos, mas, na 3ª-feira pela manhã as autoridades rapidamente retomaram o controle do aeroporto.

De interessante, o incidente permitiu que as forças de oposição renovassem os ataques contra o Conselho Nacional de Transição, que foi acusado de incompetente. As tribos líbias, historicamente, sempre desempenharam papel considerável no processo de criticar o poder central em Trípoli – papel semelhante ao que desempenham várias organizações da sociedade civil em outros países árabes.

De fato, mesmo que os conselhos dos anciãos, nas tribos, não sejam hoje o que foram e estejam substancialmente alterados, as disputas entre clãs rivais sempre foi traço constante da sociedade líbia. Gaddafi várias vezes serviu-se disso, jogando uma tribo ou clã contra outra, embora tenha mantido também alguma estrutura nacional de lei e ordem, que perdurou durante os 42 anos durante os quais governou o país.

Governos fracos sempre são criticados, em todo o mundo e em todos os tempos. E quanto mais fracos e vacilantes sejam ou pareçam ser aos olhos das massas, mais os governos inoperantes e ineficientes vão-se tornando alvo de protestos populares.

Os procedimentos de segurança linha-dura dos tempos de Gaddafi já não existem. Mas, depois do assassinato de Gaddafi, viu-se crescer em Trípoli uma falsa sensação de segurança nos aeroportos, palpável para quem visitasse a cidade. Mesmo assim, também era palpável na cidade a sensação de que a segurança em todo o país e a estabilidade estão em processo de rápida deterioração. Há armas demais, pelas ruas. Mesmo com tudo isso, a tomada do aeroporto por uma milícia tribal tem de ser interpretada em contexto político mais amplo.

Conjurar os velhos fantasmas de Gaddafi não pode distrair os líbios e levá-los a não ver os fracassos do Conselho Nacional de Transição. A falta de segurança na Líbia já é fonte de controvérsia no país. A Líbia prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso propriamente dito indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição.

Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos islamistas – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia.

Mas o Conselho Nacional de Transição parece estar metendo os pés pelas mãos. A missão da ONU de apoio à Líbia deve, presumivelmente, estar supervisionando o alistamento de eleitores. O processo de alistamento, nem sempre adequada e homogeneamente conduzido nos vastos países do norte da África cria, mais uma vez, o risco de que haja arbitrariedades, sobretudo dado o grande número de partidos políticos fundados depois da queda de Gaddafi.

O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é, de longe, o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica.

A incerteza paira, como nuvem carregada, sobre a Líbia a ser democratizada pelos padrões ocidentais de democracia. Os líbios estarão preparados – e, sobretudo, será do interesse dos líbios – para abraçar um complexo pluralismo multipartidário, imediatamente depois de um processo de transição que pode, sem exagero, ser descrito como caótico? Ou tudo isso ainda levará a mais sangue e lágrimas?



Nota dos tradutores
[1]  Há notícia no Huffington Post, em: “Libya's Tripoli Airport Attacked By Disgruntled Militia (em inglês). O Estado de S.Paulo, como sempre, apenas copiou-colou matéria da Reuters, em: Milícia armada da Líbia cerca aeroporto de Trípoli—autoridade. O Globo, também como sempre, fez o mesmo, também como sempre: repetiu matéria da BBC “e agências” (?!) e diz que alguém disse sei-lá-o-quê à rede (pasmem!) Al-Jazeera.

sábado, 10 de março de 2012

Líbia: Começa a divisão


9/3/2012, Farirai Chubvu, The Herald Online, Zimbábue 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

De “Leitor comenta”, na mesma página Musa - Friday, March 9, 2012 at 04:01 AM: “Basta mandar a OTAN, agora, bombardear o Conselho Nacional de Transição”.


Quando a OTAN assassinou a sangue frio o líder líbio Muammar Gaddafi, observadores previram que a morte de Gaddafi não marcaria o final da guerra, mas, de fato, a escalada [1]. A Líbia estava no olho do furacão. Agora, os ventos voltaram a soprar. A retomada de Ben Walid por gaddafistas e a recente declaração de autonomia por líderes de milícias tribais armadas no leste da Líbia (onde está o petróleo) são só as primeiras escaramuças da guerra que virá.

O chefe do Conselho Nacional de Transição instalado na Líbia pela OTAN e com base em Trípoli ameaça usar “a força” para impedir a divisão do país, mas suas palavras cairão em ouvidos surdos, pela suficiente razão de que o Conselho Nacional de Transição não tem poder para fazer o que diz: não passa de um fantoche do ocidente. 

De fato, vários membros do Conselho Nacional de Transição estão sitiados em Trípoli e não podem sequer movimentar-se livremente pela Líbia. Alguns pernoitam em Malta, do outro lado do Mediterrâneo, por medo de represálias.

Quase cinco meses depois do assassinato-linchamento de Muammar Gaddafi e de a OTAN ter declarado vitoriosa sua guerra para mudança de regime na Líbia, o confronto entre Trípoli e Benghazi, cidade do leste, onde foi tomada a decisão de dividir o país, já faz ressurgir o monstro de uma guerra civil.

Em comunicado pela televisão, na 4ª-feira, da cidade de Misrata, Mustafa Abdel Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição rejeitou categoricamente a divisão do país.

“Não estamos preparados para dividir a Líbia”, disse ele. “Os divisionistas deveriam saber que há interesses infiltrados entre eles, além de remanescentes do regime de Gaddafi, que agora tentam manipulá-los. Estamos prontos a impedir que alcancem seu objetivo, inclusive pela força”. 

Em conferência de imprensa em Trípoli, Jalil acusou “países árabes” (que não identificou) de estarem financiando “a sedição” na Líbia. “Algumas nações árabes irmãs estão infelizmente apoiando e financiando essa sedição que está acontecendo no leste” – disse ele. Jalil, que foi ministro da Justiça do governo de Gaddafi, declarou, mais uma vez, que o Conselho Nacional de Transição seria “o único representante legítimo do povo líbio”; e, Trípoli, “a eterna capital” líbia.

Mais cedo o primeiro-ministro interino do Conselho Nacional de Transição, Abdel Rahim al-Kib, também rejeitara qualquer iniciativa na direção de criar-se um estado federado na Líbia. “Não queremos regredir 50 anos”, disse ele. Referiu-se assim, sem dar nomes, ao regime reacionário e corrupto do rei Idris, que governou a Líbia até ser destronado pelo Movimento dos Oficiais Livres, de inspiração nasserista, liderado por Gaddafi.

O rei Idris sempre serviu como fantoche do imperialismo norte-americano e britânico, assegurando àqueles governos o direito de manter bases militares na Líbia, inclusive a gigantesca base Wheelus, da Força Aérea dos EUA, na Líbia ocidental.

Depois da descoberta de petróleo no país, Idris serviu como complacente braço armado das grandes empresas norte-americanas de petróleo, que redigiram as leis líbias sobre petróleo e asseguraram para elas mesmas direitos irrestritos de exploração. Ao assumir o poder, Gaddafi fechou as bases militares de Grã-Bretanha e EUA e impôs rígido controle sobre todas as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo no país.

A conexão entre o projeto do rei Idris e o movimento separatista é hoje muito direta e muito fácil de ver. O rei deposto por Gaddafi governava uma monarquia federada, absolutamente dominada pelas potências imperialistas e pelas empresas que exploravam o petróleo. 

Os três estados – a Cirenaica, no leste; a Tripolitânia, no oeste; e Fezzan, no sul, eram jurisdições territoriais herdadas do governo italiano fascista e, antes dele, do Império Otomano – tinham tanto poder quanto o governo central. O próprio rei Idris vivia em Benghazi e considerava-se, antes de tudo, rei da Cirenaica. 

O Xeique Ahmed Zubair al-Senussi emergiu da conferência em Benghazi, como escolha dos 3.000 representantes de tribos, milícias e grupamentos políticos ali reunidos, como chefe de um novo Conselho Provisório da Cirenaica, em árabe, Barqa. O objetivo já declarado do novo conselho é reviver a constituição de 1951 imposta pelo rei Idris. 

Al-Senussi, que é membro do Conselho Nacional de Transição, é também sobrinho-neto do deposto rei Idris. Tem repetido que a declaração de autonomia da Cirenaica não é movimento de “sedição” e que o conselho de Benghazi não tem qualquer interesse em trocar nem a bandeira nem o hino nacionais, e que deixará as questões de política exterior a cargo do Conselho Nacional de Transição, em Trípoli.

Mas, em entrevista à CNN, falando de Benghazi, al-Senussi disse que “questões sociais” devem ser assunto dos governos locais, inclusive saúde e educação. Sob o governo de Gaddafi, parte significativa dos lucros do petróleo era canalizada para garantir saúde e educação públicas, completamente gratuitas, a todos os líbios. A ideia de entregar esses setores a governos regionais é ameaça clara e direta à sobrevivência da maioria da população, mas pesa mais sobre os líbios que dependem dos programas públicos no leste da Líbia, onde está organizado o movimento separatista.

Segundo a Companhia Árabe de Petróleo do Golfo [Arabian Gulf Oil Company (AGCO)], que tem sede em Benghazi, ¾ das reservas de petróleo da Líbia estão em território da Cirenaica. Perguntado pela Agência Reuters sobre se a criação do novo Conselho de Benghazi alterara o modo como a AGCO opera ali, um porta-voz da empresa respondeu: “Até agora, nada mudou”. A declaração de autonomia de Benghazi está sendo vista por muitos na região como mais um passo na direção de concentrar nessa região todo o controle sobre o petróleo líbio – o que significa o fim de qualquer projeto de distribuição nacional da riqueza gerada pelo petróleo.

O movimento para criar um governo autônomo com base em Benghazi é parte do projeto mais amplo para fraturar o território da Líbia de Gaddafi ao longo de linhas regionais de divisão. Mais de 100 diferentes milícias tribais e milícias instaladas na cidade – as forças que a OTAN apoiou com armamento, instrutores e bombardeios aéreos no ataque para derrubar Gaddafi – controlam hoje grandes áreas do país. 

O Conselho Nacional de Transição, apesar de instalado na Líbia por EUA e OTAN como governo oficial, já se comprovou incapaz de controlar sequer a capital, Trípoli, cujo principal aeroporto continua até hoje controlado por milícias.




Nota dos tradutores
[1] Ver, por exemplo, 9/10/2011, “Resistência e guerra sem fim, na Líbia”, Pepe Escobar, entrevista a Russia Today(traduzida).  

sábado, 28 de janeiro de 2012

Líbia racha, sem ter sido unificada


27/1/2012, Hurriyet Daily, Turquia
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Ver também
9/10/2011, “Resistência e guerra sem fim, na Líbia”, Pepe Escobar 
31/12/2011, “2012: guerras tribais na Líbia?”, Franklin Lamb 
27/1/2012, “O islã norte-americano avança no Oriente Médio”, MK Bhadrakumar

Entreouvido na Vila Vudu: “É IMPRESSIONANTE: sempre houve imensa quantidade de “jornalistas” ocidentais a postos, quando se tratou de divulgar os ‘feitos’ bélicos de EUA-OTAN na Líbia, ou a fundação do Banco Central do Conselho de Transição Nacional (a Líbia é o único caso na história da humanidade, na qual, antes até de haver novo poder constituído, os golpistas fundaram seu próprio banco!).
E agora, quando se trata de noticiar o fracasso político do golpe contra a Líbia e do tal “Conselho Nacional de Transição”, inventado pela secretária Hilária dos EUA, a Vila Vudu tem de recorrer a um JORNAL DA TURQUIA, para encontrar alguma notícia, insuficiente e truncada, mas, pelo menos, alguma notícia que tenha a ver com o que REALMENTE está acontecendo na Líbia. E nem se trata de investigação jornalística: quem está investigando a verdadeira situação da Líbia hoje não é nenhum jornal ou jornalista: é a ONU”.


Ex-“rebeldes” da Líbia se reúnem em 25 de janeiro um posto de controle perto de uma mesquita, a 60 quilômetros da cidade de Bani Walid, o ex-base das forças leais a-Kadafi. A violência entre as forças do CNT – Conselho Nacional de Transição e milícias locais, que começou a 23 de janeiro em Bani Walid, deixou pelo menos cinco pessoas mortas.


Bani Walid – Apesar do noticiário conflitante, o governo líbio reconheceu um governo de tribos em Bani Walid, comprovando o que a ONU tem relatado, que as chamadas “milícias” estão fora de controle, ao questionar a capacidade do Conselho Nacional de Transição para estabelecer a ordem no país. “Irrupções similares de violência podem espalhar-se pelo país” – diz a ONU, depois que combatentes pró-Gaddafi tomaram, dia 25/1/2011 um posto de controle militar próximo de uma mesquita, a 60 km da cidade de Bani Walid, ex-base de Gaddafi. A violência entre forças do Conselho Nacional de Transição e grupos gaddafistas, que começou dia 23/1 em Bani Walid, já fez pelo menos cinco mortos.

O Governo Nacional de Transição reconheceu um governo de caráter tribal em Bani Walid no dia 25/1, o que comprova a força de líderes tribais, que começam a fazer oposição ativa contra o frágil governo de transição. No mesmo dia, relatórios da ONU informam que outras milícias armadas mantêm milhares de prisioneiros em prisões secretas, sem que o governo de transição consiga impor qualquer ordem.

Essa semana, membros armados da tribo Warfallah, dominante na região de Bani Walid e a mais numerosa tribo líbia, expulsou da área a milícia que ali havia. Salah al-Maayuf, membro do Conselho de Anciãos dos Warfallah em Bani Walid, disse que a tribo designou um novo conselho local e que o ministro da Defesa do Conselho Nacional de Transição, em conversações com a tribo dia 25/1, já reconheceu o novo governo em Bani Walid. 

“O ministro da Defesa nos disse que se nós, como tribo, acreditamos que o novo conselho local conseguirá governar, ele também acredita” – disse Maayuf à agência Reuters falando de Bani Walid, região que concentrava grande número de apoiadores do governo de Gaddafi durante os ataques do ano passado. “Dissemos a ele que nosso desejo é manter a paz em todo o país, e que a unidade da Líbia é nossa prioridade” – Maayuf acrescentou. Funcionário do ministério da Defesa confirmou que o ministério havia aceitado o novo conselho, mas não acrescentou detalhes. 

O Conselho Nacional de Transição desmente 

Apesar de haver confirmado as notícias, al-Juwali disse à Agência France-Presse que Bani Walid continuava controlada pelo CNT, quando visitou a cidade. 

“A cidade continua sob controle do governo líbio” – disse al-Juwali. – “O problema que houve lá já foi resolvido” – continuou, referindo-se aos confrontos violentos na cidade no dia 23/1, que deixou cinco mortos.

Repetindo as mesmas queixas de moradores, segundo os quais soldados do Conselho Nacional de Transição haviam perseguido moradores, feito prisões e torturado prisioneiros, um dos anciãos do conselho da cidade disse, dia 24/1, que a cidade não aceitaria interferência das autoridades de Trípoli nem dos representantes do Conselho Nacional de Transição. Essas reações reacenderam as dúvidas quanto à capacidade do CNT para estabelecer qualquer controle sobre os grupos milicianos armados.

Representantes da ONU confirmam os conflitos

A Comissária para Direitos Humanos da ONU Navi Pillay e o Representante Especial da ONU na Líbia Ian Martin manifestaram preocupação quanto à ação dos milicianos que foram arregimentados para combater as tropas leais a Gaddafi mas que, depois do estabelecimento do Conselho Nacional de Transição, não foram desmobilizadas nem desarmadas pelas autoridades legais em Trípoli. Martin informou que os confrontos em Bani Walid – que inicialmente haviam sido atribuídos a gaddafistas – aconteceram entre a população local e uma unidade de soldados de Trípoli. Disse também que essa brigada foi responsável por ataques com mortes em Trípoli e em outras cidades, ao longo do mês. (...)

Pillay disse estar “extremamente preocupada” com milhares de pessoas que as brigadas mantêm em centros de detenção, muitos dos quais de outros países africanos, acusados de serem partidários de Gadhafi. Pillay disse que mais de 8.000 partidários de Gaddafi são mantidos prisioneiros das milícias, e que há denúncias de torturas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

“Eleições” na Líbia 2012


·        “Plataforma política” e “utilidade” da Fraternidade Muçulmana
·        “Pagamentos” aos países da OTAN por serviços de “mudança de regime”
·        Nova “legislação” eleitoral, escrita pelo CNT

Franklin Lamb
6-8/1/2012, Franklin Lamb (de Trípoli), Counterpunch
“Ten per cent is about what the Brotherhood thinks we are worth”
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Nas entrevistas e conversas com muitos líbios – estudantes, advogados, juízes no Ministério da Justiça, donos de lojas e conhecidos em Trípoli, a impressão que se têm é que a Fraternidade Muçulmana (FM) não tem apoiadores nessa sociedade religiosa, conservadora, de muçulmanos sunitas. A opinião que mais se ouve segue, em linhas gerais, alguma coisa como “a Fraternidade é muito diferente de como os líbios vemos o Islã”; “São estrangeiros e querem intervir na vida dos líbios”; e “Não nos interessa trocar um regime autoritário, por outro.” 

Isso posto, para muitos observadores na Líbia, é altamente provável que a Fraternidade Muçulmana vença as eleições previstas para o mês de junho.

A causa de a Fraternidade Muçulmana estar ganhando força, segundo a opinião de vários especialistas, é o apoio do Qatar e o fato de a FM ter organizações muito bem estruturadas no Egito, Tunísia, Marrocos, Argélia e Turquia. Os voos que chegam a Trípoli, vindos do Egito, vêm sempre lotados de agentes da FM, segundo o professor [que chamaremos de] “Dr. Ali”, cientista político pro-Gaddafi que, pelo menos até agora, ainda não foi demitido da universidade onde dá aulas.

A FM já está muito bem organizada e trabalha com grandes orçamentos nas periferias de várias cidades líbias, recrutando membros e organizadores de campanhas sociais, operando sempre com extrema discrição. Os membros foram instruídos a raspar as barbas; prometer governo sem corrupção; evitar discussões acaloradas; lembrar aos líbios mais ansiosos que “a Líbia não é o Afeganistão” e que, na Líbia, todos querem segurança, paz doméstica e nenhuma interferência externa.

Mesmo assim, um novo documento de orientação geral distribuído pelo Guia Geral da FM no Egito, Dr. Mohammad Badih, e que sugere que a FM estaria trabalhando a favor de um Califato Islâmico, conforme os princípios definidos pelo fundador da FM, o Imã Hassan al-Banna, gerou muita controvérsia nos círculos políticos líbios, depois de ter também gerado muita discussão no Egito.

EUA, Grã-Bretanha e França apenas observam, por hora, tentando avaliar o rumo dos acontecimentos – como me disse o embaixador de um país do sul da África. 

Muitos – entre os quais funcionários do Conselho Nacional de Transição, além de advogados e juízes do Ministério da Justiça (onde estive semana passada para entrevistas, durante dois dias, à procura de informação sobre várias pessoas que permanecem sob custódia do Conselho Nacional de Transição e das milícias) – dizem que o Departamento de Estado dos EUA dá a impressão de ainda não ter definido qualquer política clara para a Líbia, porque os americanos ainda não têm posição clara sobre a Fraternidade Muçulmana. 

Para várias das pessoas com quem falei, alguns especialistas norte-americanos insistem na ideia de que estaria em rápida formação um “crescente”, um “arco” da FM, por todo o Magreb; que esse “arco” também estaria crescendo na Turquia; e que a FM rapidamente dominará a Síria, a partir do momento em que (e se) o governo Assad for derrubado.

A Fraternidade Muçulmana pode ser muito útil a Washington. 

Muitos no Congresso e no governo Obama (e o lobby sionista dentro e fora do Congresso) entendem que, depois de o governo dos EUA ter falhado no esforço para provocar guerra entre sunitas e xiitas em toda a região; a Fraternidade Muçulmana pode ser a ferramenta inesperada com a qual contarão para o mesmo objetivo – que é a única política dos EUA para essa parte do mundo, desde o final dos anos 1980s.

Esses mesmos grupos também dão sinais de esperar que, depois de obter fatia considerável de poder no próximo governo da Síria, a Fraternidade Muçulmana conseguirá, em pouco tempo, implantar-se também no Líbano; com isso, a comunidade sunita reencontraria, afinal, a liderança política forte que perdeu há sete anos, desde o assassinato do primeiro-ministro Rafiq Hariri; e teria meios para deslocar do poder o Hezbollah xiita.

Em resumo, é bem provável que os países da OTAN nada façam para alterar o atual rumo das eleições; que se ‘descolem’ do Conselho Nacional de Transição (o qual, de qualquer modo, só tem mais seis meses no poder); e que deixem que a Fraternidade Muçulmana aproxime-se cada vez mais de controlar o próximo governo na Líbia.

A Fraternidade Muçulmana na Líbia tem, de fato, muitas propostas a encaminhar, todas diretamente conectadas com vários dos problemas cruciais que os líbios enfrentam; e o grupo tem longa experiência na organização de partidos políticos à moda das democracias representativas, algo de que os líbios estão distantes desde 1972, quando se organizaram os Comitês Populares Revolucionários com competência para tomar decisões legislativas e administrativas.

Os líbios enfrentam hoje muitas graves questões, dentre as quais as seguintes:

– falta de segurança, com as milícias cada vez mais agressivas, tanto nos confrontos com a população quanto nas disputas entre as próprias milícias (como aconteceu em Trípoli, essa semana);

– rumores crescentes de corrupção dentro do Conselho Nacional de Transição. Um dos assuntos de que mais se fala em Trípoli é que não há dinheiro no Banco Central da Líbia para abastecer os bancos em todo o país. Não há dúvidas de que algo há aí, e mais dia menos dia, à medida que se acumulem as dificuldades bancárias, o escândalo explodirá. Ainda no verão, o governo Gaddafi limitou os saques a 500 dinars mensais ($475). O novo “governo” aumentou esse limite para 750 dinars mensais, o que ainda não é suficiente, com preços que aumentaram quase 18% em média desde aquelas primeiras regras, que incluíram congelamento de preços, ainda sob Gaddafi; e preços que não param de aumentar.

Começaram a acumular-se suspeitas de corrupção, no caso das dificuldades bancárias, porque – segundo funcionário do novo Banco Central Líbio, que trabalhou durante 15 anos nos serviços que monitoram pagamentos recebidos por petróleo líbio exportado –, embora o petróleo continue a ser embarcado e enviado, como sempre foi, e as transações apareçam na contabilidade como pagamentos feitos, nenhum dinheiro entra, realmente, no caixa do Banco Central. Isso, explicou aquele funcionário, porque os países da OTAN estão recebendo petróleo (também o Qatar, rico em gás e petróleo) gratuito. Esse é o arranjo que o Conselho Nacional de Transição fez com a OTAN, para “pagamento” dos serviços prestados pela Aliança na “mudança de regime”.

Não há dúvidas de que, mais dia menos dia, o escândalo eclodirá, por menos noticiadas que sejam essas questões. Tentando verificar a verdade das informações que obtive daquele funcionário, falei também com a funcionária encarregada diretamente da entrada daqueles pagamentos. Ouvi dela que os funcionários do Banco Central estão indignados, porque falta moeda em todas as agências pelo país, onde se formam filas de clientes desesperados que, muitas vezes, têm de esperar horas e, quando chegam ao caixa, são informados que terão de voltar outro dia, para sacar os 750 dinars do próprio dinheiro que podem sacar, por mês. 

Essa semana, assisti a cenas tristes nas agências bancárias próximas à face sul da Praça Verde e na rua Omar Muktar, onde eu tentava, em vão, encontrar uma máquina de saque automático que funcionasse. É triste, sim, ver idosos em fila, sob chuva forte, por horas, tentando sacar dinheiro que é deles; e quando afinal chegam ao caixa, ficam sabendo que terão de voltar outro dia, quando, enshallah, talvez ainda haja dinheiro para os que estavam no fim da fila. Muita gente diz que deveria ter sacado todo o dinheiro dos bancos, logo em fevereiro, quando ainda era possível. Agora é tarde, e a irritação é crescente.

O candidato preferido do Qatar, Abdel Hakim Belhaj – comandante do Conselho Militar de Trípoli; ex-líder do Grupo de Combate Líbio Islâmico [ing. Libyan Islamic Fighting Group] ligado à Al-Qaeda; e que está processando ministros e o M-16 britânicos, acusando todos de cumplicidade no complô do qual resultou que ele e sua esposa foram entregues em março de 2004 ao serviço secreto da Líbia, em cujas mãos, segundo Belhaj, ele teria passado sete anos sob tortura – está prometendo que, se eleito, resolverá o problema dos bancos. Conta, provavelmente, para isso, com a ajuda do Qatar, enquanto se aproximam as eleições previstas para junho.

A Fraternidade Muçulmana, por sua vez, converteu em item de sua “plataforma eleitoral” na Líbia o pagamento devido aos combatentes, com promessa de criar empregos para os arregimentados nas milícias mercenárias, vários dos quais absolutamente não confiam em Belhaj (dentre outros motivos porque prosseguem os confrontos armados entre milícias do leste e milícias do oeste da Líbia).

A Fraternidade Muçulmana apoia até os direitos das mulheres... ou quase. O grupo fala sempre mais de reconstruir a cidade; de limpeza urbana e recolhimento do lixo; de organizar o trânsito – os engarrafamentos praticamente paralisam algumas ruas do centro de Trípoli (mais de um milhão de líbios acorreram à capital e não dão mostras de pensar em voltar às cidades de onde fugiram, ainda completamente destruídas); e nunca esquece o diálogo entre as seitas.

A necessidade de desarmar as milícias, de conseguir que os jovens armados entreguem as armas às autoridades; que se alistem, se quiserem, nas forças policiais ou num novo exército líbio regulares; ou que procurem emprego ‘normal’, abrindo mão dos soldos que as milícias ainda pagam – são apenas algumas das questões extremamente sensíveis, sobre as quais a Fraternidade Muçulmana absolutamente não fala, ou fala sem qualquer convicção. 

Internamente, a Fraternidade Muçulmana e o Conselho Nacional de Transição já admitem que ninguém conseguirá desarmar as milícias, no curto prazo. Jovens com os quais conversei ontem durante uma manifestação na Praça Verde disseram, com todas as letras, que “sentem saudade” dos dias de guerra: “Era quase sempre muito emocionante. E fiz lá grandes amigos” – disse-me um rapaz muito jovem, de Benghazi, decidido a permanecer em Trípoli, vivendo com seus companheiros de milícia.

Mais um desenvolvimento que operará a favor da Fraternidade Muçulmana nas próximas eleições é a nova lei de alistamento eleitoral implantada na 2ª-feira passada: a nova legislação elimina, na prática, vários dos principais opositores da Fraternidade Muçulmana. 

A nova lei regulamenta a eleição de uma assembleia nacional que deverá redigir uma nova constituição para a Líbia e formar um segundo governo de “transição”– e espera-se que toda a nova legislação esteja completada no prazo de um mês.

Pela nova legislação, “ex-membros do governo Gaddafi” não se podem candidatar nas próximas eleições. Dentre os juízes com os quais conversei no Ministério da Justiça, alguns manifestaram profunda preocupação, porque, disseram, mais de 80% da equipe que trabalha naquele e em muitos outros ministérios – juízes e advogados, dentre outros funcionários –, já trabalhavam nas mesmas funções durante o governo de Gaddafi e são todos bons líbios e bons funcionários, que jamais se aproximaram de qualquer tipo de corrupção. O escopo e a aplicação das novas leis gerarão ali muita discussão.  

Pela nova legislação, também não se pode candidatar às eleições líbias nenhum professor ou acadêmico cuja produção intelectual e acadêmica publicada tenha algum dia considerado ou citado as formulações do Livro Verde – o livro-manifesto em que Gaddafi expôs sua teoria da sociedade e do governo, e no qual declara a Líbia uma “república dos muitos”. Essa restrição da nova lei atinge milhares de líbios, porque, em todos os casos, exibir currículo acadêmico no qual houvesse estudos da Jamayrya e do Livro Verde serviu, durante décadas, como meio para abrir portas. Aconteceu também na China, quando inúmeros intelectuais usavam, como meio para abrir portas na carreira acadêmica, muitas referências ao Livro Vermelho de Mao, sempre presentes, também, nos currículos acadêmicos. Intelectuais, professores, alunos, jornalistas e outros, que durante décadas escreveram sobre e citaram o Livro Verde de Gaddafi – no qual se discutem questões de política e de economia e há reflexões sobre a organização social e a participação política – estão, todos eles, nos termos da nova lei eleitoral, impedidos de candidatar-se.

A nova legislação de alistamento eleitoral é preconceituosa e limita o número de assentos com votos reservados a mulheres no Parlamento, a apenas 10% dos 200 lugares; mas a lei nada diz sobre garantir votos a representantes das áreas tribais. Uma senhora com quem conversei comentou, indignada: “Para a Fraternidade Muçulmana, uma mulher vale 20 vezes menos que um homem”.

Nada sugere que o Conselho Nacional de Transição tenha interesse em criar obstáculos eleitorais contra a Fraternidade Muçulmana, sobretudo nos últimos tempos, quando começam a acumular-se críticas sobre ação do governo de transição, que estará extinto dentro de poucos meses. 

Mês passado, uma organização guarda-chuva, que se apresentou como representante de 70% dos mercenários das milícias de Benghazi exigiu que o Conselho Nacional de Transição lhes garantisse, no mínimo, 40% dos postos de trabalho no governo. O Conselho Nacional de Transição ignorou o grupo e nomeou tecnocratas. Mustapha Abdul Jalis já esqueceu a promessa de aposentar-se em junho; e tem sido criticado também por não ter cumprido a promessa de renunciar ao cargo depois da queda de Sirte.