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sexta-feira, 29 de março de 2013

Por que o Vaticano é notícia... e a República Popular da China não é?!


20/3/2013, Gamal Nkrumah*, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
Multidão na Praça de São Pedro para primeira aparição do Papa Francisco
Ambas as instituições, a Igreja Católica Romana e a República Popular da China lutam para encontrar novo espaço para elas no mundo contemporâneo. Pois o mais estranho é que, enquanto a seleção do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Líder Supremo da Igreja Católica, que tem 1,2 bilhões de crentes em todo o mundo, manteve hipnotizada a imprensa-empresa internacional, a eleição do novo governo chinês não recebeu senão escassa cobertura.

Apesar dos escândalos financeiros e sexuais, vista do ponto de vista africano ou árabe, a Igreja Católica Romana é tema muito mais atraente que o Partido Comunista da China. Jihad Al-Khazen no diário panárabe, que tem sede em Londres, Al-Hayat, deu bom uso à obsessão dos jornais árabes com a seleção papal e a considerável influência no papa, numa região do mundo onde tem poucos seguidores:

 Jihad Al-Khazen
O cardeal argentino conservador adotou o nome de Papa Francisco e será o 266º líder supremo da Igreja de São Pedro. Sugiro que Al-Azhar Al-Sharif e seu líder, o Dr Ahmed Al-Tayeb, iniciem diálogo com o novo papa, para fazer avançar a cooperação contra o governo de Israel e suas políticas colonialistas racistas – disse Al-Khazen. – Espero ter sido bem claro: não me interessa qualquer tipo de aliança declarada ou secreta; quero saber de cooperação; e não contra os judeus, nem contra Israel, mas contra um governo de assassinos criminosos de guerra que deixaram Israel em posição de perigoso isolamento no mundo, como até o AIPAC, o lobby pró-Israel, disse há poucos dias em Washington, DC – concluiu Jihad Al-Khazen.

A questão é por que os jornais árabes estão preocupados com o papa e não estão preocupados com os chineses comunistas? Alguém ouviu falar do Fórum de Cooperação Sino-Árabe? Quantos leitores árabes sabem que o califa otomano, Ibn Affan enviou um embaixador à corte de Tang, em Chang’an?

Talvez não seja justo comparar o Vaticano e Pequim. A China e a Igreja Católica têm “populações” comparáveis: 1,4 bilhão e 1,2 bilhão, respectivamente. A Igreja Católica é instituição religiosa influente, a China é a maior potência econômica global.

Não é critério para comparação, mas a questão permanece: por que o Papa Francisco, não a nova recém eleita alta hierarquia do Partido Comunista Chinês, é o iluminado pelos holofotes da imprensa-empresa internacional? Quantos leitores árabes conhecem o nome do novo presidente da China? Ou do novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês?

Papa Francisco dirige-se ao púlpito em sua primeira aparição na Praça de São Pedro
Mais um enigma: por que todos os papas que apareceram no púlpito máximo da Igreja Romana foram ou magnificados ou demonizados a ponto de se tornarem irreconhecíveis, senão pela máscara que lhe tenha sido pespegada? O Vaticano, afinal, é estado microscópico, absolutamente sem qualquer importância econômica para os mundos africano ou árabe. Sua única significação é, talvez, a autoridade religiosa e moral.

O que talvez haja de comum em Pequim e no Vaticano é que, nos dois casos, a importância global advém do exemplo que são. Mas são exemplo do quê? O Partido Comunista Chinês, apesar do autoritarismo totalitário, arrancou o povo chinês da pobreza abjeta em que vivia, do atraso que castigava os mais pobres.

Aí está um sucesso digno de nota. Assim sendo, por que o exemplo que vem do Vaticano assumiria tal significação e seria tão influente, sem qualquer relação e fora de qualquer proporção com suas proezas econômicas?

Exposição “A Estrada da China Rumo à Renovação”

A história do partido governante na China e seu principal corpo político nacional consultivo, a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC [orig. in. Chinese People’s Political Consultative Conference (CPPCC)] é notável precisamente porque é caso exemplar das barreiras e antagonismo que dificultam a marcha do estado totalitário mais poderoso do mundo e segunda maior economia, depois dos EUA.

12a. Conferência Política Consultiva do Povo Chinês - CPCPC em 3/3/1013
A CPCPC tem sido, ao longo de sua tumultuada história, vítima da própria ambiguidade ideológica e das pré concepções subconscientes de outros, inclusive das potências estrangeiras, quase sempre adversárias; de dissidentes chineses locais e de comunidades chinesas em outros países, quase sempre críticas, as quais, nas últimas décadas já têm papel cada vez mais proeminente nas questões chinesas domésticas, além de influenciar também na arena econômica.

A democracia multipartidária à ocidental e o regime de partido único na China são dois sistemas de governo incompatíveis e em perene disputa. Muitos países em desenvolvimento na África e no mundo árabe optaram por seguir os passos de seus velhos senhores coloniais, todos eles potências ocidentais. Isso posto, é interessante perceber que as pré concepções erradas sobre o sistema comunista chinês de governo vão muito mais fundo que as caricaturas contemporâneas que se fazem do stalinismo soviético.

Seria erro pressupor que a CPCPC, fora de moda como talvez pareça, num mundo de democracias à moda ocidental, seria manifestação de algum monopólio sobre o estado do partido único em todas as esferas da vida da nação mais populosa do planeta. E os principais conselheiros políticos do governo chinês, que representam amplo espectro de figuras destacadas nos negócios, na academia, nas finanças e noutras esferas, encerraram seu encontro anual, dia 12 de março, jurando lealdade ao Partido Comunista Chinês; e declararam que rejeitam a democracia multipartidária à ocidental.

Yu Zhengsheng
Esse corpo de conselheiros do Estado representa, por definição, a democracia chinesa em ação. O novo presidente da CPCPC, recentemente eleito e empossado, Yu Zhengsheng, disse, no encerramento da reunião de 2013 da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, que aquele corpo de conselheiros cerrava fileiras em torno dos novos líderes do Partido Comunista, tendo ao timão o novo timoneiro, Xi Jinping. Exatamente como, em contexto completamente diferente, os católicos reúnem-se em torno (e abaixo) do novo Papa.

Na China comunista, a luta contra a miséria, o subdesenvolvimento, a fome e o analfabetismo é crucialmente importante. Mesmo assim, o fosso que separa os mais ricos e os mais pobres está aumentando na China contemporânea. Os líderes do Partido estão agudamente conscientes e bem pouco confortáveis ante o risco de deixarem essa desgraçada herança para seus filhos e netos. Além do mais, o partido que governa é o principal poder político e os postos do governo são entregues a membros do partido, selecionados a dedo.

Temos de seguir mais estritamente a via socialista do desenvolvimento político com características chinesas, não imitar, em nenhum caso, os sistemas políticos ocidentais” – disse Yu à assembleia de mais de 2.000 conselheiros do Parlamento chinês e membros da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, CPCPC – que são vistos no ocidente como pseudo parlamento, que só oficializaria decisões tomadas no comando central do partido, sem qualquer influência ou poder político reais.

Yu, conhecido pelo pedigree comunista, foi indicado para presidir a Conferência Política Consultiva do Povo Chinês no dia 11 de março. A CPCPC, embora se suponha que não tenha poder algum, tornou-se hoje uma espécie de fórum popular no qual se apresentam e defendem-se questões populares candentes, como segurança alimentar, poluição e ocupações de terra.

A indicação de Yu foi recebida com eloquente silêncio pela imprensa-empresa árabe ou africana, apesar de a China ser o mais importante parceiro comercial de todo o continente africano. A ascensão de Yu na hierarquia do Partido Comunista Chinês foi o último passo de uma transição política que só acontece uma vez em cada década. E num sistema que, sim, gerou impressionantes resultados econômicos, mas que nem assim atrai a atenção de países árabes e africanos.

A ascensão de Yu foi o início de uma semana de alterações sistemáticas no governo chinês, já fortemente encaminhada desde as promoções no Congresso do Partido Comunista Chinês, em novembro passado. Yu era um dos sete líderes que ascenderam então ao círculo superior do comando do PCC, na mesma ocasião em que Xi foi nomeado secretário-geral. Yu, é o 4º na hierarquia do Partido, já posicionado para desempenhar papel ainda mais importante no futuro político do país.

Zhou Xiaochuan
Na China contemporânea, a economia vai-se tornando tão significativa quanto as questões políticas e militares. O presidente do Banco do Povo da China, Zhou Xiaochuan, foi nomeado para uma das vice-presidências da CPCPC. Essa semana, com muita pompa e cerimônia, o Congresso Nacional do Povo concluiu a transição nas principais posições políticas e aprovou os nomes indicados para os principais postos de governo: Xi Jinping sucede Hu Jintao como Presidente da China; e Li Keqiang, o 2º na hierarquia do Partido, foi nomeado Primeiro-Ministro, e comandará o gabinete chinês.

A evidência de que o Papa Francisco foi objeto de atenção mundial e de que a nova liderança chinesa permanece praticamente desconhecida no ocidente não se explica apenas por alguma oposição de uma imprensa-empresa ocidental hostil. Na verdade, é como se nada tivesse mudado; a China continua a ser objeto de interesse: sempre a degradação do meio ambiente, de água, terra e ar chineses, resultado de décadas de crescimento econômico muito rápido.

Mas há também mudanças sociais e políticas sutis a serem observadas. A crescente classe média chinesa, empoderada pelas tecnologias das redes sociais, fala cada vez mais sobre as próprias demandas, quer mudanças e quer organizar manifestações. Não há qualquer “primavera árabe” à vista na China, mas o novo presidente Xi encara uma nova China em gestação e sabe bem disso.

Em novembro do ano passado, inaugurou a exposição “Estrada da China Rumo à Renovação” [1] em Pequim, prometendo prosseguir rumo à meta de fazer “a grande renovação da nação chinesa”. (...)

Xi Jinping
Durante a visita que fez àquela exposição, Xi observou como o ocidente ocupara territórios da China, estabelecera concessões e demarcara esferas de influência, num passado não muito distante. Parou à frente da primeira versão chinesa do Manifesto Comunista, de documentos e fotos da fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921; da autobiografia de um dos fundadores do PCC, Li Dazhao; da primeira bandeira nacional da República Popular da China; e de fotografias da 3ª Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China, ocasião em que o legendário Deng Xiaoping lançou o movimento de modernização, que mudaria a história da China contemporânea (e do mundo).

Mao Tse Tung
Em importante discurso naquela ocasião, Xi citou um dos poemas de Mao Tse Tung, que lembra as dificuldades históricas que a China enfrentou em seus dias. “Mas o povo chinês jamais se rendeu, lutou sem parar e, afinal, assumiu o controle do próprio destino e iniciou o grande processo de construir nossa nação” – disse ele. – “A China mostrou, plenamente, o nosso grande espírito nacional”.

Mas, mesmo ali, Xi anotou as complexas pressões que desafiam a China contemporânea. “Essa é a estrada do socialismo com características chinesas”, concluiu, em frase que correu o mundo.

A perspectiva chinesa

Yu Zhengsheng disse coisa semelhante num simpósio do qual participaram os presidentes dos oito partidos não comunistas chineses [2] e da Federação de Indústria e Comércio de Toda a China, além de personalidades sem filiação partidária. Yu também destacou sua convicção de que o trabalho da China contemporânea é promover e construir um socialismo específico, com características chinesas. A questão realmente interessante é por que, num determinado momento, todos esses altos dirigentes comunistas puseram-se a falar tanto dessas “características chinesas”.

A CPCPC inclui representações de compatriotas de Hong Kong, Macau e Taiwan, de chineses retornados e também alguns convidados internacionais. Yu (...) mencionou a “cooperação multipartidária”. Manifestou esperança de que os partidos não comunistas conseguissem aprimorar seus sistemas ideológicos e organizacionais e o estilo de trabalho, para que também ali se produzissem profundas mudanças, quando da eleição de novos dirigentes em seus respectivos congressos nacionais, para gerar efetiva cooperação multipartidária. Presumia, provavelmente, que todos acompanharão as mudanças que se veem entre os comunistas chineses.

À primeira vista, talvez pareça que os atuais membros da CPCPC teriam invertido os mandamentos do maoísmo. A CPCPC, tecnicamente ou teoricamente, é constituída de representantes do PCC e dos partidos não comunistas, de pessoas sem filiação partidária e de representantes da sociedade civil e das chamadas organizações populares, das minorias étnicas e de vários estratos sociais.

O discurso sobre o tema “Manter-se firme e desenvolver o socialismo com características chinesas, e estudar, promover e implementar o espírito do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês” foi feito por Xi, numa reunião de trabalho da qual participaram todos os membros da Comissão Política do Comitê Central do PCC.

Li Keqiang
Seria erro supor que a atitude dos mais altos dirigentes no 18º Congresso Nacional do PCC não seria influenciada por princípios longamente elaborados. Embora se pressinta uma crescente crise ambiental, um terço dos delegados rejeitaram uma importante medida antipoluição. Os analistas chineses antecipam agora grandes reformas econômicas, a partir do novo governo em Pequim, depois que o premiê Li Keqiang declarou que mais setores da economia terão de ser entregues a empresas privadas. “A China é uma grande nação, plena de criatividade” – disse Xi Jingping. – “Criamos essa cultura chinesa e saberemos ampliar nossa rota rumo ao desenvolvimento chinês”.

Uma nova geração de dirigentes chineses parecem comprometidos com o capitalismo, mesmo sem esquecer o comunismo. O mundo terá de prestar máxima atenção, agora que os novos dirigentes põem a China numa trilha chamada “o sonho chinês”.

Devem-se perdoar os que estudam mitos históricos, se lhes ocorre a ideia de que a China veio ao mundo exclusivamente para demonstrar que Mao tinha razão e que o ocidente sempre esteve errado. Com mitos ou sem, é difícil escapar à conclusão de que, no que tenha a ver com os que governam na África e no mundo árabe, não é porque a China não dê grande atenção às liberdades civis, que Francisco I atrai todas as atenções da imprensa-empresa. Se a Igreja Católica, não a China, atrai hoje todos os holofotes midiáticos, a causa está em outro lugar; o motivo é outro.



Notas dos tradutores
[1] Sobre essa exposição – de quadros históricos, mapas, objetos e vídeos da história  da China desde meados do séc.19, inaugurada dia 29/11/2012 no Museu Nacional da China, em Pequim – ver 3/12/2012, Celebrating China’s Road Toward Renewal [Comemorando a Estrada da China Rumo à Renovação], Beijing Review, com foto:

Xi Jinping (centro), secretário-geral do PCC; Li Keqiang (3º dir.), Zhang Dejiang (3º esq.), Yu Zhengsheng (2º dir.), Liu Yunshan (2º esq.), Wang Qishan (1º dir.) e Zhang Gaoli (1º esq.)
[2] Sobre os partidos não comunistas chineses, ver 16/3/2012, redecastorphoto em: “Partidos não comunistas na China: há OITO!”.
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Gamal Gorkeh Nkrumah*, jornalista ganense, nasceu em 1959 em Accra, é panafricanista e editor do jornal Al Ahram Weekly. Filho mais velho do primeiro Presidente de Gana, Kwame Nkrumah,  casado com uma egípcia, Fathia Nkrumah. Recebeu seu doutorado em Ciência Política na School of Oriental and African Studies em Londres. Trabalhou como jornalista político no Al-Ahram Weekly no Cairo por cerca de 15 anos antes de assumir a Editoria da Seção Assuntos Internacionais do jornal. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mali: “De volta a Bamako”


6/2/2013, Gamal Nkrumah, Al-Arham Weekly, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gamal Nkrumah
À caça da alma do Saara: As expressões de júbilo eram palpáveis quando o avião que trazia o presidente François Hollande da França pousou na pista em Timbuktu. O infiel vencedor emergiu triunfante do jato presidencial, para ser saudado à tradicional moda africana, com muita festa, exaltação, danças, cantos. Era o herói do dia. Os ignóbeis militantes islamistas, eles, em plena retirada. Hollande foi entusiasticamente elogiado no Mali por seus talentos de navegador em quadro de crise. Os malianos, a esmagadora maioria dos quais são muçulmanos, vivem cada vez mais desconfiados de islamistas de todos os naipes.

Meninas pequenas arrastavam os odiados hijabs pelo chão poeirento. Medo e frustração fervilhavam sob o chão arenoso daquela cidade milenar. O nível de ira e desespero entre os islâmicos aproximava-se perigosamente do ponto de ebulição. Ironia, mesmo, que os infiéis franceses ali estivessem, tratados como salvadores. Meninas de menos de 10 anos obrigadas a cobrir-se dos pés à cabeça com o traje tradicional da modéstia obrigatória.

É jogo bem aberto, muito às claras, no desolado Saara maliano. Comandar um oceano de cidadãos indignados provou-se impossível nas legendárias cidades medievais de Timbuktu e Gao, no Mali. Esses bastiões da civilização islâmica na Ásia Ocidental rejeitaram as rígidas estruturas do islamismo militante contemporâneo.

Simpatizantes se reúnem para saudar Hollande durante sua curta visita de duas horas em Timbuktu, Mali, sábado (2/2/2013) (Foto: AP)
Os frágeis manuscritos de Timbuktu, alguns dos quais sobreviventes de mais de 1.000 anos, sempre foram tidos como repositório da herança cultural islâmica na África Ocidental – dos mais antigos legados da grande arte literária do continente africano ao sul do Saara, tesouros de sabedoria em diversos campos, astronomia, zoologia, história cultural, geografia e lei islâmica.

Hollande desfilou para as câmeras, inspecionando os destroços de uma herança cultural desonrada. Os anfitriões malianos assistiam a tudo, com ar de horror e medo. Os ataques dos jatos franceses começados dia 11 de janeiro salvaram aqueles governantes e seus círculo de amigos-do-rei, dos salafistas e de uma linhagem de islamistas wahhabistas avessa a qualquer concessão. O povo do Mali é muçulmano, mas não são doidos fanáticos. A carnificina no norte do Mali, que irrompeu no momento em que os salafistas tomaram o poder, e a perspectiva de constituir-se ali um estado islamista, forçaram um reposicionamento ideológico e político em toda a África Ocidental.

Conspiração neocolonialista: Os malianos foram informados, em termos absolutamente claros, de que valeria a pena ouvir o que dizia Paris.

Caberá a nós, africanos, por um lado, unir os pontos entre o genuíno júbilo da população maliana ante a presença francesa em seu país predominantemente muçulmano e, por outro, a assertividade sempre crescente das antigas potências colonialistas como franceses e britânicos na região do oeste da África? Os líderes africanos saberão o que fazem e o farão seriamente, quando admitem a implantação de soldados franceses como poder militar dominante no Mali? Afinal de contas, os franceses não se cansam de repetir que sua presença no Mali é temporária.

Nas declarações públicas, políticos franceses só falam das vantagens de o Mali contar com a potência militar francesa. O presidente Hollande da França, saudado como redentor, ganhou de presente um camelo recém-nascido, dádiva de gratidão do povo do Mali, ao exército francês de intervenção. Mas Hollande cuidou de lembrar aos anfitriões que “os terroristas foram abalados, mas não desapareceram”.

Paris joga sua cartada de longo prazo, a sempre mesma velha visão da grandeur francesa. “Não podemos tolerar o que aconteceu em Timbuktu” – Hollande insistiu na referência ao inferno criado pelos islamistas armados do grupo Ansar al-Dine, que incineraram cerca de 2.000 manuscritos de valor histórico incalculável, em Timbuktu.

A França passa agora a usar força militar, além da diplomacia, como instrumento de política externa para a África. Claro: essa estratégia beligerante será levada a efeito em conjunção com potências regionais, como a Argélia, e grupamentos regionais, como a Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental [orig.Economic Community of West African States (ECOWAS)] e seu braço armado, ECOMOG, o grupo de monitoramento da ECOWAS. Um candente ressentimento contra salafistas e todos os tipos de militantes islamistas armados irradia-se de todas as esquinas da África Ocidental.

Salafistas versus secularistas: Um dos solipsismos dos secularistas consiste em atribuir salafismo a todo o Golfo Árabe, especialmente à Arábia Saudita, como uma espécie de “dano colateral” da diplomacia dos petrodólares. Mas em tempos de ódios incontrolados, desemprego e juventude sem qualquer perspectiva de futuro político, nada mais fácil para os grupos salafistas da África Ocidental, que arregimentar seguidores.

Leopold Senghor
Os militantes islamistas armados supuseram que teriam desmontado todo o establishment político secularista na África Ocidental, ou que, no mínimo, estariam a um passo de desmontá-lo. Digam e pensem o que disserem ou pensarem os apressados arrogantes, o secularismo é tradição perfeitamente respeitável na África Ocidental. O primeiro presidente do Senegal, o falecido Leopold Senghor, foi católico romano devoto e secularista; apesar disso, governou nação predominantemente muçulmana. O Senegal e o Mali já foram governados como nação única. E Senghor era conhecido por consultar e ouvir intelectuais muçulmanos e autoridades religiosas muçulmanas.

Para Senghor era normal e lógico cultivar a amizade de clérigos muçulmanos da África Ocidental e os líderes venerados de diversas ordens sufis. Foi traço que redimiu o secularismo aos olhos dos locais – o talento para acomodar-se ao Outro. Essas são as políticas ainda corretas e adequadas, de fato, são políticas imperativas, ainda hoje e aqui, no mundo contemporâneo.

Faz sentido, pois, para Hollande e seus contrapartes da África Ocidental, perseguir políticas de acomodação. Mas o problema é que esse ideal de viver-e-deixar-viver é anátema, no que tenha a ver com militantes islamistas armados. Os salafistas da África Ocidental têm seus campos de caça entre massas assoladas pela miséria em estados falidos, com medidas que interferem na vida diária, como códigos de conduta e vestuário, tanto quanto nos valores culturais e nas práticas sociais, que são parte fundante de seu discurso de proselitismo.

O ocidente ganha terreno: Os muçulmanos moderados da África Ocidental sonham com manter terreno no campo intermediário. Os militantes islamistas armados, em agudo contraste, demonstraram o quanto são falhadas as suas estratégias de engenharia e controle sociais. No Mali, é indispensável uma autoridade centralizada na capital Bamako, que se encarregue de buscar solução para os problemas de subdesenvolvimento, analfabetismo, miséria e periferialização das massas empobrecidas.

Mas Bamako carece desesperadamente de dinheiro para operar como deve operar, se ainda resta esperança de evitar o futuro trágico de converter-se em mais um estado falhado. Os pobres são em larga medida ignorados pela opinião pública ocidental, sobretudo nos corredores do poder em Paris e nas novas cortes francesas que se vão instalando na África Ocidental.

Hollande junta as mãos com Traore do Mali na Independence Plaza, em Bamako, Mali, sábado (2/2/2013) (Foto: Reuters)
Contra esse pano de fundo, entende-se que a França seja amplamente vista como força benéfica. No quadro duríssimo da política real na África, os líderes africanos são subservientes aos patrões ocidentais. Hollande enfeitiçou as multidões no Mali. Bem diferente disso, o digno e respeitável presidente interino Dioncounda Traore teve gélida recepção em seu próprio país. Só a França conta. Só a França interessa. Isso ficou impressionantemente claro. No que tenha a ver com complacência com os lacaios neocolonialistas, as massas, nas neocolônias, entendem que a implantação do capitalismo, da democracia e o respectivo desenvolvimento dependem da generosidade ocidental.

Mobutu Sese Seko
O ocidente pode facilmente isolar líderes da África Ocidental e mantê-los distantes do que acontece em seus próprios países. Caso exemplar de homem forte da África neocolonizada nos anos 1970s e 1980s foi Mobutu Sese Seko, do Zaire. Dioncounda Traore é ator muitíssimo menos importante do que foi Mobutu em seus dias de glória.

O presidente do Mali dá-se por muito satisfeito se puder andar à sombra do presidente francês. A França e a Europa padecem sob a húbris econômica, mas a África vive sob desespero sem limites. Os anos de ouro da diplomacia árabe do petrodólar na África já são passado. O último prego do caixão foi o assassinato de Muammar Gaddafi, da Líbia. A pergunta mais óbvia que os africanos se fazem é se os árabes ainda poderiam promover qualquer mínima prosperidade. A resposta é um simples “não”.

Apesar do quase sempre descrédito que os árabes geram na África, ainda há os que se arrastam sob a noção nostálgica e surreal de um estado salafista no Saara. O ocidente não tolerará tal ultraje. As potências ocidentais não cederão o urânio do Níger, país que fornece 40% do combustível nuclear que faz funcionar as usinas nucleares francesas. Nem o ocidente sequer considera a possibilidade de vir a perder o controle sobre a fabulosa riqueza, em petróleo, que há na Argélia e na Líbia.

O primeiro-ministro britânico David Cameron fez a jogada do policial “bonzinho”, ao fazer uma visita surpresa à Líbia, depois de rápida visita a Argel. “O povo britânico quer estar com vocês e ajudar a suprir a maior segurança de que a Líbia carece” – disse Cameron aos seus anfitriões líbios. “Por isso oferecemos treinamento e apoio da nossa polícia e dos nossos exércitos. Esperamos trabalhar juntos nos anos que virão” – Cameron lançou a isca, para relacionamento de longo prazo.

A tentação do paganismo: Hoje, o alto establishment religioso islâmico na África ocidental veste cinto e suspensórios. As regras dos jogos religiosos mudaram radicalmente. Os malianos são muçulmanos, mas atraí-los para as mesquitas só se os militantes islâmicos forem impedidos de usar o púlpito para arregimentar novos seguidores. Muitos malianos, e não só da elite, veem a intervenção militar francesa como primeiro passo forte para reformar a cultura islâmica no país.

O resultado das incursões de militantes islamistas armados no Mali foi o pior possível. Por mais de mil anos, o Mali viveu sob um robusto código islâmico de conduta. Relações entre diferentes grupos étnicos baseavam-se em valores tradicionais de confiança mútua. O povo do Mali não precisou de muito tempo para compreender como funcionam os militantes islamistas armados. Mas o problema não começa e termina com os salafistas. As ideias que os militantes islamistas armados promovem perderam o apoio e a confiança populares.

A presença militar dos franceses no Mali levou a visível aumento do otimismo entre a população. Não raras vezes, é muito difícil definir o que seja “cultura”. Mas o retorno a modos culturais de vida pré-islâmica é perceptível. O cristianismo jamais deitou raízes no Mali, em boa parte porque os colonizadores franceses, eles mesmos, eram indiferentes à religião. Mesmo assim, que os franceses neocolonialistas não contem com vitória fácil sobre os salafistas do Saara.

Iyad Ag Ghaly
Os grupos salafistas no Mali são absolutamente todos eles desmembramentos do Grupo de Salafistas da Argélia Para Pregação e Combate [orig. Algerian Salafist Group for Preaching and Combat (GSPC)], a organização que lançou a guerra civil da Argélia na “Década Perdida” dos anos 1990s, que levou à morte 250 mil argelinos. Outros grupos malianos de islamistas militantes armados emergiram daquelas cinzas, inclusive o violentíssimo “Batalhão Assinado em Sangue” [orig.Signed-in-Blood Battalion]. Outros são o Movimento por Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO) e o Movimento Islâmico pela Libertação do Azawad, uma milícia tuaregue salafista. Evidentemente, Iyad Ag Ghaly, o líder tuaregue étnico do temido grupo Ansar al-Dine – milícia responsável por muitas das atrocidades cometidas durante a ocupação salafista do norte do Mali – só fez, infelizmente, endurecer o comportamento de muçulmanos malianos não tuaregues e não árabes contra esses dois grupos étnicos, facilmente identificáveis pelo tom de pele acentuadamente mais claro. Malianos de pele mais escura já ameaçam com retaliações.

Ninguém sabe com razoável certeza a extensão do poder desses grupos dentro do Mali. No momento, dispersaram-se pelo deserto. Os malianos dizem hoje aos militantes islamistas armados: “Se não apreciam nossos valores culturais, sumam daqui”. Foi o que eles fizeram. Ou, pelo menos, é o que dizem os franceses e a neocorte francesa local.

Retaliações racistas: A bem visível tensão racial no Mali, hoje, é sinal alarmante de uma espiral descendente rumo ao caos político e social no país, em escala jamais vista. Há luta racial latente desde a independência do Mali, da França, em 1960. Os tuaregues, de tempos em tempos, tentaram declarar-se independentes e criar um estado exclusivamente Azawad no norte do Mali. Nos vizinhos Mauritânia e Senegal, houve confronto racial nos anos 1990s. Infelizmente, talvez seja, agora, a vez do Mali.

Mas Bamako tem fracassado repetidamente na tentativa, se houve, de articular alguma alternativa, e há sinais de que alguns políticos no sul do Mali já tentam beneficiar-se do revide contra árabes e tuaregues, apadrinhados pela França.

O que esperar depois da partida dos franceses? As tensões aumentam em torno de territórios disputados no deserto, onde se escondem imensas reservas minerais; deve-se esperar que militantes islamistas armados ressurjam de seus esconderijos nas montanhas, com força militar para lutar contra o governo central do Mali em Bamako?

Em vez de todos se concentrarem na fragilidade psicológica pressuposta nos adversários que hoje se espalham pelas vastidões desérticas do Mali na parte norte do país, a sociedade civil maliana teria de ser fortalecida e capacitada para implantar, ela mesma, a democracia no país, de tal modo que nem os tuaregues secularistas nem os islamistas armados tenham espaço para, novamente, levantar-se contra o governo central em Bamako.

O que emergiu bem claramente, como guia e eixo para o futuro político do Mali é que, se os dois campos – árabes e tuaregues, por um lado; e africanos nativos, por outro – não conseguirem construir algum consenso, não apenas mergulharão todos, sem dúvida, num mesmo poço sem fundo, como, também, o Mali se condenará ao destino de ser mais um estado falhado, na cena política africana.

domingo, 10 de junho de 2012

Líbia: “De Trípoli a Mitiga”


7-13/6/2012, Gamal Nkrumah, Al-Ahram Weekly, n. 1101, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Gamal Nkrumah
As poderosas milícias locais estão, simultaneamente e muito estranhamente, ao mesmo tempo, minando as bases do nascente processo democrático na Líbia e fortalecendo o conceito de justiça social.

Nos últimos meses, cresce a onda de reclamações e protestos, sobretudo entre os mais jovens, contra a situação corrente na Líbia, de caos generalizado e condições cada dia mais degradadas de segurança. Impossível não se solidarizar com aqueles jovens, pelo menos até certo ponto.

A verdade é que quanto mais se batem os tambores de guerra, mas se faz avançar a agenda do caos. No ocidente, poucos têm ouvido falar sobre as milícias que varrem o interior da Líbia e espalham terror pelas calçadas das cidades líbias.

O sentimento da importância de não se render aos comandantes do Conselho Nacional de Transição líbio é cada vez mais forte entre as milícias armadas, que suspeitam que seus interesses estejam sendo devastados pelo novo governo líbio, o qual, por sua vez, dá sinais cada dia mais claros de não estar comprometido com as agendas locais das várias milícias.

As milícias reuniram-se pelas mesmas linhas de divisão clânica e tribal, por cidades e vilas, que, de início, definiam-se como as que apoiavam o líder deposto, Muammar Gaddafi, e as tribos e os clãs que se viam como os revolucionários que depuseram o ditador; e as correspondentes milícias armadas.

Os controversos eventos dessa semana na Líbia pintam quadro perturbador do atual estado da política da Líbia pós-Gaddafi. Seria injusto e errado não ver o sentimento profundamente enraizado de indignação que foi gerado pelo modo selvagem como Gaddafi foi assassinado.

A Líbia sempre foi profundamente marcada pelo tribalismo – plantado e cevado durante décadas pelos italianos, depois pelos britânicos e franceses e respectivos governos coloniais ao longo do século 20 e, em certo sentido, reinventado pelo próprio Gaddafi, por mais que dissesse defender uma identidade nacional árabe, não tribal, para todos os líbios.

Os amazighs autóctones, ou berberes, foram ultrajados, divididos e perderam poder político. Os tuaregues, amazighs de pele escura e nômades dos desertos líbios, tenderam a aproximar-se de Gaddafi, que, em associação com os anciãos tuaregues e as novas gerações, recrutou milhares de tuaregues para o exército líbio. Os tebus, outra tribo autóctone também de pele escura, não amazighs, grupo de etnia não árabe que vive no sul do país, também foram bem acolhidos por Gaddafi.

Milícias paramilitares (Al-Awfea) ocupam aeroporto de Trípoli
A surpresa veio com o evento ainda não completamente noticiado, da tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli na 2ª-feira, 4/6 [1], pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], presumivelmente leal a Gaddafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas gaddafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios evidentemente, de pele escura.

Se é verdade que a queda de Gaddafi trouxe outra vez para o palco da política líbia o fator tribal e racial, também é verdade que o governo de transição não passa de cortina que nada encobre e, simultaneamente, nada faz para reconciliar conflitos antigos.

A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios de pele negra, no período pós-Gaddafi.

Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade.

A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Gaddafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli.

Brigada Al-Awfea impede a partidas e chegadas no aeroporto de Trípoli
Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária.

Mas nem tudo, nesse evento, pode ser debitado a disputas intertribais, de chefes líbios que disputariam entre eles o controle sobre a Líbia pós-Gaddafi. Claro: os serviços públicos não são o que antes eram. No aeroporto, cancelaram-se alguns voos, mas, na 3ª-feira pela manhã as autoridades rapidamente retomaram o controle do aeroporto.

De interessante, o incidente permitiu que as forças de oposição renovassem os ataques contra o Conselho Nacional de Transição, que foi acusado de incompetente. As tribos líbias, historicamente, sempre desempenharam papel considerável no processo de criticar o poder central em Trípoli – papel semelhante ao que desempenham várias organizações da sociedade civil em outros países árabes.

De fato, mesmo que os conselhos dos anciãos, nas tribos, não sejam hoje o que foram e estejam substancialmente alterados, as disputas entre clãs rivais sempre foi traço constante da sociedade líbia. Gaddafi várias vezes serviu-se disso, jogando uma tribo ou clã contra outra, embora tenha mantido também alguma estrutura nacional de lei e ordem, que perdurou durante os 42 anos durante os quais governou o país.

Governos fracos sempre são criticados, em todo o mundo e em todos os tempos. E quanto mais fracos e vacilantes sejam ou pareçam ser aos olhos das massas, mais os governos inoperantes e ineficientes vão-se tornando alvo de protestos populares.

Os procedimentos de segurança linha-dura dos tempos de Gaddafi já não existem. Mas, depois do assassinato de Gaddafi, viu-se crescer em Trípoli uma falsa sensação de segurança nos aeroportos, palpável para quem visitasse a cidade. Mesmo assim, também era palpável na cidade a sensação de que a segurança em todo o país e a estabilidade estão em processo de rápida deterioração. Há armas demais, pelas ruas. Mesmo com tudo isso, a tomada do aeroporto por uma milícia tribal tem de ser interpretada em contexto político mais amplo.

Conjurar os velhos fantasmas de Gaddafi não pode distrair os líbios e levá-los a não ver os fracassos do Conselho Nacional de Transição. A falta de segurança na Líbia já é fonte de controvérsia no país. A Líbia prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso propriamente dito indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição.

Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos islamistas – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia.

Mas o Conselho Nacional de Transição parece estar metendo os pés pelas mãos. A missão da ONU de apoio à Líbia deve, presumivelmente, estar supervisionando o alistamento de eleitores. O processo de alistamento, nem sempre adequada e homogeneamente conduzido nos vastos países do norte da África cria, mais uma vez, o risco de que haja arbitrariedades, sobretudo dado o grande número de partidos políticos fundados depois da queda de Gaddafi.

O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é, de longe, o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica.

A incerteza paira, como nuvem carregada, sobre a Líbia a ser democratizada pelos padrões ocidentais de democracia. Os líbios estarão preparados – e, sobretudo, será do interesse dos líbios – para abraçar um complexo pluralismo multipartidário, imediatamente depois de um processo de transição que pode, sem exagero, ser descrito como caótico? Ou tudo isso ainda levará a mais sangue e lágrimas?



Nota dos tradutores
[1]  Há notícia no Huffington Post, em: “Libya's Tripoli Airport Attacked By Disgruntled Militia (em inglês). O Estado de S.Paulo, como sempre, apenas copiou-colou matéria da Reuters, em: Milícia armada da Líbia cerca aeroporto de Trípoli—autoridade. O Globo, também como sempre, fez o mesmo, também como sempre: repetiu matéria da BBC “e agências” (?!) e diz que alguém disse sei-lá-o-quê à rede (pasmem!) Al-Jazeera.