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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Líbia, Síria e agora Ucrânia – Revolução Colorida à força

27/1/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Roupas usadas pelos "Black bloc"  e recomendadas por organização
financiada pela CIA. (Clique na imagem para aumentar)
As mesmas forças que instigaram manifestações em 2011 na Síria agora instigam as mesmas manifestações na Ucrânia. Isso, pelo menos, o que se conclui do fato de que os mesmos impressos e desenhos são usados para treinar manifestantes “decididos”, dispostos a enfrentar tudo e todos.

Que outra explicação haveria para os dois panfletos que se veem na imagem aqui incluída, um escrito em árabe, o outro em letras cirílicas?

As manifestações e a ocupação de prédios do governo, ações nos dois casos ilegais, são igualmente brutais; como são ilegais e brutais os ataques criminosos contra policiais e outras forças do estado. Na Síria, a parte “muscular” da violência ficou a cargo de jihadistas pagos por interessados estrangeiros; na Ucrânia, foram usadas gangues de neonazistas.

As manifestações e os ataques contra o estado ucraniano são planejados e andam juntos. Nada há de “pacífico” nas manifestações de rua em Kiev.

As manifestações de rua são só fachada, espécie de ação de Relações Públicas, para encobrir o ataque contra o estado ucraniano. E políticos e agentes da empresa-imprensa imediatamente se puseram a manifestar “preocupações” e a ver “grave ameaça” nas respostas absolutamente legais e normais que o estado ucraniano deu àquelas manifestações nada pacíficas. Lixo e mais lixo: tudo está sendo feito para mascarar o apoio ocidental aos manifestantes nacionalistas neonazistas e para gerar cada vez mais violência.

Neonazistas ucranianos paramentados conforme recomendado pela CIA aos "Black bloc"
O objetivo é “mudança de regime”: mudar regimes de governos legítimos, por regimes de governos de alguns pequenos grupos. No caso de o regime legítimo resistir, o “plano B” é destruir o estado e toda a sociedade. Sobre isso, ninguém manifesta “preocupação” alguma, nem ninguém vê aí qualquer “grave ameaça”.

Vários veículos da imprensa-empresa alemã repetiram hoje essa mesma conversa sobre “manifestações pacíficas”, e nem uma palavra sobre os policiais que, em Kiev, estão sendo agredidos com coquetéis Molotov.

O que está acontecendo é absolutamente claro, e a imprensa-empresa faz o mesmo jogo dos políticos, dos militares e dos serviços secretos que estão agindo por trás dessas “revoluções”.

As velhas “revoluções coloridas” já se tornaram óbvias demais, e o modelo perdeu a serventia. O conceito então foi expandido: passou a usar amplamente a força, com mercenários armados e apoio externo para esses mercenários, com armas, munição, treinamento e outros meios.

Depois da Líbia, onde forças gadaffistas ainda resistem, a Síria foi destruída e, agora, o alvo é a Ucrânia. Provavelmente há listas de outros países a serem atacados por esses mesmos meios e planos. O que está realmente por trás das manifestações do parque-Gezi na Turquia? E por trás dos protestos em Bangkok? Há potências estrangeiras também por trás desses protestos? Ou não passam de macaqueação, por grupos locais, do que aprendem pela televisão e jornais? E onde entra o Egito, nisso tudo?

E qual a melhor defesa legítima que um governo pode construir para resistir?

E como devem os governos reagir contra esse tipo de ataque-intervenção?
___________________ 


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ontem (5/10/2013), dois “raids” fracassados, dos EUA

6/10/2013, Moon of Alabama, EUA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário de “Gareth”, nesse postado: “Negócio de traficantes de drogas que deu errado, talvez?”


Ontem, dois raids norte-americanos tentaram sequestrar um homem na Líbia e matar um homem na Somália. O raid na Líbia chegou ao alvo, mas teve grave impacto no governo líbio. O raid na Somália, pelas chamadas “forças de elite” dos SEALs, fracassou completamente.

Na Líbia, foi sequestrado um homem, de nome Abu Anas Al-Libi, acusado de ter conexão com a explosão da embaixada dos EUA no Quênia há cerca de 15 anos. O raid também matou 15 soldados líbios. O homem, Abu Anas Al-Libi, viveu muito tempo fora da Líbia e voltou ao país depois que as forças de EUA-OTAN atacaram o governo líbio do general Ghaddafi. Desde então, o homem parece ter vivido livremente, sem se esconder, na capital, Trípoli:

Seu irmão, Nabih, disse à Associated Press que, logo depois das orações da tarde, no sábado, três veículos cheios de homens armados aproximaram-se da casa de Abu Anas e o cercaram quando ele estacionava o carro. Os homens rebentaram as janelas, tomaram a armas de Abu Anas, meteram-no num carro e sumiram com ele, disse o irmão.

O raid, já começou a gerar controvérsias:

A CNN disse que o governo líbio tinha conhecimento do raid. Hoje, a notícia foi desmentida pelo governo líbio, que distribuiu declaração por sua página no Facebook em que diz que nada sabia sobre o sequestro noticiado. O governo líbio também disse que já fizera contato com os EUA, para obter “esclarecimentos”.


As várias gangues armadas que são hoje o real poder na Líbia verão esse raid como (mais um) ataque contra a soberania da Líbia. Deve-se esperar a reação, que certamente virá, contra o governo provisório e outros alvos. Já houve uma resposta tribal contra o governo líbio, mas a única notícia sobre ela foi enterrada no fundo do 25º parágrafo da versão que o New York Times distribuiu sobre os eventos:

A captura de Abu Anas também coincidiu com pesado tiroteio que matou 15 soldados líbios num posto de controle num bairro na área sudeste de Trípoli, área próxima da residência tradicional do clã de Abu Anas.

Quanta “coincidência”...

O raid fracassado na Somália foi tentado contra uma casa de praia, que seria utilizada por jihadistas do grupo Al Shaabab local. O raid foi noticiado por moradores próximos e em seguida pelo próprio grupo Al Shaabab:

O Xeique Abdulaziz Abu Musab, porta-voz da ala militar do grupo Al Shabaab, confirmou o raid e informou, em declaração gravada para a imprensa, que os militantes “rechaçaram um raid tentado à meia-noite, por soldados infiéis brancos”.

Abu Musab disse que:

Rechaçamos o ataque dos soldados infiéis brancos com balas e bombas, e eles voltaram correndo para os seus barcos. Um membro do Al Shabaab foi morto, e a missão dos soldados infiéis brancos fracassou. Pela manhã, encontramos sangue e equipamento abandonado perto da costa – acrescentou ele, em declaração postada em websites de grupos militantes.

Houve imensa confusão em torno desse raid, e demorou um dia inteiro antes de os EUA confirmarem que suas forças haviam sido rechaçadas. Em dado momento, o New York Times e a rede Fox News diziam que um alto comandante do grupo al Shabaab havia sido morto; a rede NBC dizia que fora capturado; e a AP dizia que não fora encontrado. Faz lembrar a propaganda que se distribuiu em torno do raid contra Bin Laden.

Mas dessa vez os fatos se esclareceriam, porque o livro sobre o raid dos SEAL já estava escrito antes do raid, como informara, um ano antes, um conhecido autor de livros sobre os SEALs. [1]

Mas o que é óbvio é que esse ataque, por pessoal dos SEALs, em barcos, foi detectado e houve reação de fogo pesado. Os SEALs teriam tido de pedir socorro a helicópteros e foram obrigados a recuar sob fogo.

Baraawe, vila de pescadores na Somália onde foi rechaçada a invasão dos SEALs
Na Somália, a equipe dos SEALs da Marinha emergiu do Oceano Índico antes do sol nascer e trocou tiros com militantes que faziam a guarda da casa de um alto comandante de militantes somalianos do grupo Shabab.
...

A equipe dos SEALs foi forçada a recuar e sumir, antes de poder confirmar se teriam assassinado ou não o comandante Shabab – disse um alto funcionário da segurança norte-americana, que não quis identificar-se nem identificou o alvo do atentado.

E fica-se a pensar o que o governo Obama espera obter com esses raids.

O homem sequestrado na Líbia, caso alguma coisa se confirme, é ligado a um caso que já tem 15 anos. Será difícil provar que é culpado de alguma coisa, ainda que seja possível construir um processo que seja aceito por tribunal sério. A repercussão que esse raid terá na Líbia só agravará os difíceis problemas que o governo de transição “amigo do ocidente” já enfrenta lá.

O mesmo vale para o fracassado raid na Somália. Não só aprofunda as dificuldades com o grupo Al Shaabab, mas, além disso, incita o nacionalismo somaliano contra a agressão à soberania da Somália. E mostra também que 20 anos depois do fracasso da Operação Blackhawk Down [2], nem as mais especializadas forças de elite dos EUA são facilmente bem sucedidas naquela região.

Esses raids não fazem sentido algum. São acionados por um conceito idiota de vingança, não assustam ninguém a ponto de impedir que alguém se aliste à Al-Qaeda ou a algum de seus grupos afiliados, e, sempre, criam ainda mais inimigos. Nesse sentido, os dois raids de ontem foram retumbantes fracassos.



Notas dos tradutores

[1]Navy SEALs To Infiltrate Libya In Secret Mission, Book Publisher Reports” [SEALs da Marinha vão-se infiltrar na Líbia em missão secreta, informa editor de livros], matéria assinada por Smelly Infidel [Infiel Fedido], 13/9/2012:

VIRGINIA BEACH, VA – Um grande editor de livros de memórias de SEALs da Marinha informou hoje que é “iminente” um ataque de retaliação na Líbia. Imediatamente depois das primeiras notícias sobre o ataque ao Consulado dos EUA em Benghazi, Líbia, o porta-voz de Random Day, Bill Klein, disse que vários de seus clientes já haviam telefonado com manuscritos preliminares para possíveis livros.
“O primeiro que nos telefonou foi Steve Faulkner” – disse Klein. – “Você sabe, ele está com os DEVGRU, você sabe, a Equipe 6 dos SEALs. Faulkner nos ligou tarde da noite e disse que queria oferecer um novo capítulo de sua biografia, que incluiria vários subcapítulos sobre raids contra campos de terroristas no deserto líbio”.
Klein disse que a conversa foi interrompida, porque Faulkner disse que estava de saída, já na manhã seguinte, e que ficaria fora por várias semanas. “Esse pessoal é muito cuidadoso com a segurança e o sigilo” – disse Klein. – “Por isso, quando há eventos de repercussão mundial e eles têm de partir, eles logo nos mandam um primeiro manuscrito para um novo livro, antes mesmo de embarcar no avião e partir em missão secreta”. [Continua].

[2] Em outubro de 1993, durante a guerra civil da Somália, soldados americanos participaram da Batalha de Mogadíscio. Uma força de elite estadunidense foi enviada ao local para capturar generais que obedeciam ao líder Mohammed Farah Aidid. Porém, dois helicópteros UH-60 Black Hawk foram derrubados e a operação, que deveria levar em torno de meia hora, tornou-se uma batalha de 15 horas, terminando com 19 soldados estadunidenses mortos e 73 feridos, além de 1.000 somalianos mortos. A história foi usada no roteiro de um filme Falcão Negro em perigo (dir. Ridley Scott, 2001).

sábado, 3 de agosto de 2013

“Relatório” sobre a Líbia - Corte Criminal Internacional e condenações à morte

1/8/2013, [*] Vijay Prashad, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muammar al-Gaddafi

No dia 31 de julho, Ahmed Ibrahim foi condenado a pena de morte por um tribunal de Misrata, na Líbia, por incitação à violência contra o levante do 15 de fevereiro de 2011. 

Ahmed Ibrahim, primo de Muammar al-Gaddafi, era membro da Velha Guarda da Jamahiriya. Outros primos, como Omar Ishkal, Mansour Dhao Ibrahim e Abdullah Othman, desempenharam papel chave no processo de conter o colapso da hegemonia da revolução de Gaddafi ao longo dos anos 2000s.

Saif al-Islam
O filho de Gaddafi, Saif al-Islam, recebeu a tarefa de “abrir” a economia, finalidade para a qual contratou um grupo de especialistas com vasta experiência na gestão do dinheiro do Golfo Árabe – como Mahmoud Jibril e Shukri Ghanem (Jibril lideraria a ala política da rebelião contra Gaddafi; Ghanem desertaria daquela rebelião, mas acabaria tropeçando e caindo no Danúbio em 2012, afogado num dos melhores ternos que jamais vestira).

Ahmed Ibrahim, cabeça da tribo Gaddadfa e braço armado de Gaddafi, o Velho, rejeitou todas as reformas inventadas por Ghanem e entrou em conflito direto e público com ele, em várias ocasiões.

Quando o projeto de Ghanem de privatização da economia abalou o controle que a tribo Gaddadfa mantinha sobre alguns setores (como a empresa de transporte marítimo comandada por Hannibal Gaddafi), Ahmed Ibrahim apresentou-se como dirigista. Mas jamais foi realmente dirigista. Sempre foi, isso sim, leal aos Gaddafis; e tornou-se ferozmente fiel, depois que eclodiu o golpe contra o regime em 2011.

Ahmed Ibrahim
Ahmed Ibrahim foi capturado com Gaddafi em Sirte, depois que a OTAN atacou o comboio em que viajavam. Ibrahim foi quem comandou as orações fúnebres ante o corpo de Gaddafi, antes de que o cadáver fosse sequestrado para ser enterrado em local secreto no deserto.

Capturado pelas milícias de Misrata, o destino de Ibrahim estava selado. Aquela foi a milícia que mais diretamente conheceu o ódio de Gaddafi e sua gente; e nas mãos dessa milícia Gaddafi enfrentou morte horrenda. Um relatório da ONU, de março de 2012, mostrou que Gaddafi foi levado vivo, depois de ter sido ferido, carregando um turbante branco como bandeira de rendição. Apesar dos filmes feitos por telefones celulares que o mostravam sendo arrastado de um lado para outro e apesar do que as próprias milícias encenaram e divulgaram, a comissão da ONU dirigida pelo jurista canadense Philippe Kirsch “não conseguiu confirmar que a morte de Muammar Gaddafi tenha sido resultado de crime e considera necessárias novas investigações”. Jamais se fizeram as tais “novas investigações”. Um dos membros da comissão declarou, em privado, que está praticamente provado que Gaddafi foi assassinado (“execução extra-judicial”). Assim sendo, o processo de Misrata merece pouca confiança. A sentença emitida pelo tribunal de Misrata não é a última palavra do processo: ainda tem de ser confirmada pela Suprema Corte Líbia.

O caso de Ahmed Ibrahim não é caso de um só homem, por mais que abundem acusações contra ele. Esse caso é importante, sobretudo, porque foi julgado antes dos casos de Saif al-Islam Gaddafi e Abdullah Senussi – ambos mantidos prisioneiros em prisões líbias, e ambos objeto de mandados de prisão 15125371-ICC (emitidos pela Corte Criminal Internacional). O governo líbio insiste em que os dois acusados sejam julgados em tribunais líbios. Assim sendo, o julgamento de Ahmed Ibrahim é uma espécie de “precedente” do que virá. Trípoli acredita que, se conseguir provar que Ahmed Ibrahim recebeu julgamento justo, conseguirá meio para descumprir os mandados de prisão da Corte Criminal Internacional. Mas, sem que se possa examinar devidamente o processo de julgamento que condenou Ahmed Ibrahim, dificilmente alguém poderá assegurar que outros processos sejam “mais justos”.

Navi Pillay
O levante líbio começou dia 15/2/2011. Dia 22/2, a Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, Navi Pillay denunciou que 250 pessoas haviam sido assassinadas na Líbia, “embora seja difícil confirmar os números reais”. Mesmo assim, Pillay denunciou “ataques disseminados e sistemáticos contra a população civil”, que “provavelmente configuram crimes contra a humanidade”. Pillay repetiu o que dissera o vice-representante da Líbia na ONU, Ibrahim Dabbashi, que desertara e unira-se aos golpistas, e declarou que “Gaddafi iniciou o genocídio contra o povo líbio”. Em pouco tempo, inúmeros governantes em todo o mundo já se serviam dessas palavras indiscriminadamente: “genocídio” e “crimes contra a humanidade”. Esses conceitos criaram a impressão de que as forças de Gaddafi estariam matando quantidades imensas de pessoas ou que se preparariam para massacre de proporções ruandenses. 

Praticamente tudo isso era mentira ou, no mínimo, era exagero, como demonstrei em Arab Spring, Libyan Winter (AK Press, 2012), o que foi em seguida comprovado pelas organizações Human Rights Watch e Amnesty International e por investigação conduzida pelo próprio conselho de Direitos Humanos da ONU (2/3/2012).

Luis Moreno Ocampo
Sob pressão política intensa feita por Pillay, e os exageros cenografados do promotor da Corte Criminal Internacional, Luis Moreno Ocampo, emitiram-se ordem de prisão contra Gaddafi e seu círculo mais íntimo de assessores (inclusive seu filho, Saif al-Islam; e Sensussi). 

O papel da Corte Criminal Internacional e da Alta Comissária, Navi Pillay, que criaram a justificação indispensável para a intervenção pela OTAN, foi crucialmente decisivo. Aquele discurso permitiu que Barack Obama, David Cameron e Nicolas Sarkozy embarcassem na carruagem dourada do intervencionismo liberal, mesmo depois de terem dado carta branca à Casa de Saud para que esmagasse a rebelião no Bahrain e na própria Arábia Saudita. O mesmo discurso do Alto Comissariado da ONU, reproduzido incansavelmente pela imprensa-empresa ocidental também permitiu que França e EUA livrassem-se também, simultaneamente, de suas imundas relações com Ben Ali da Tunísia e Hosni Moubarak do Egito, respectivamente.

Gaddafi não passou incólume pela Primavera Árabe, e fulminou o YouTube e “Kleenex” [como chamava WikiLeaks] – “A internet é um aspirador de pó, que chupa qualquer coisa ”.

Dia 15/2, suas forças saíram à caça dos “rebeldes”, que o próprio Gaddafi e seus generais ameaçaram com atos de grave violência. Em apenas alguns dias, todo o leste da Líbia já estava sob controle das forças Gaddafistas e as coisas iam pelo mesmo rumo nas cidades do noroeste como Mistrata, Az Zawiyah e Tajoura. A intervenção pela OTAN, com apoio da Corte Criminal Internacional; da Alta Comissária para Direitos Humanos; do Conselho de Segurança da ONU; e da Liga Árabe aconteceu menos para evitar algum massacre na Líbia e, mais, para tentar controlar os efeitos da Primavera Árabe no Norte da África. Era empreitada condenada ao fracasso.

HOJE, depois de terem servido como folha de parreira que encobriu as vergonhas da intervenção pela OTAN, o que está posto em questão é a credibilidade das agências internacionais.

Amr Moussa
O Conselho de Segurança da ONU não se deixará enganar, como aconteceu na Resolução n. 1.973; nem a Liga Árabe – motivos pelos quais não haverá intervenção na Síria com apoio da ONU. Não se trata só de russos e chineses que já conhecem os riscos de garantir apoio ilimitado, pela ONU, a seja quem for; agora já se trata também dos países-membros do G-77 – o chamado grupo “do Sul”. A Liga Árabe horrorizou-se, quando constatou que a “zona aérea de exclusão” fora transformada em apoio aéreo ativo aos rebeldes, contra o governo de Gaddafi (foi o que disse Amr Moussa, que teve de ser arrastado até os microfones por Ban Ki-moon, para desdizer-se e jurar fidelidade imorredoura à missão).

Conclamações para que se abrisse investigação sobre os bombardeios da OTAN contra a Síria, baseadas na Resolução n. 1.973 da ONU caíram em ouvidos surdos. A OTAN recusou-se a dar acesso à ONU aos seus documentos e registros de guerra na Líbia e nega à ONU até o direito de supervisionar missões realizadas por mandado da ONU!

Se o Conselho de Segurança não tem autoridade nem para ordenar uma investigação, é claro que a Corte Criminal Internacional não tem autoridade para executar seus mandados de prisão ou outros. O novo governo líbio, apoiado pelas potências da OTAN recusou-se a entregar Saif al-Islam e Senussi à guarda da Corte Suprema em Haia.

Abdullah Senussi
As coisas chegaram ao impasse absoluto dia 31 de maio de 2013, quando a Corte Criminal Internacional declarou que o governo líbio não teria como assegurar julgamento justo para aqueles dois homens.

Em sua decisão de 91 páginas sobre a admissibilidade do caso contra Saif al-Islam na Corte Criminal Internacional, os três juízes designados concluíram que “a Líbia, como se comprova hoje, não é capaz de levar avante de modo genuíno nem a investigação nem a instrução do processo para julgamento do Sr. Gaddafi” – motivo pelo qual requereram que o prisioneiro seja entregue à Corte Criminal Internacional em Haia.

Dia 24 de junho, o governo líbio respondeu com dossiê de mais de 98 páginas à Corte Criminal Internacional, argumentando a favor de um seu alegado direito de julgar Saif na Líbia. Esse dossiê, contudo, não faz qualquer referência ao problema mais substancial no caso de Saif al-Islam: ele é mantido preso em Zintan, e o governo de Trípoli não consegue sequer transferi-lo para uma de suas prisões. Se Trípoli não se pode responsabilizar sequer pela presença física dos prisioneiros, como esperar que tenha meios para organizar julgamento justo

Declaração do governo líbio, datada de 7 de junho, para livrar-se do dever de entregar o prisioneiro foi rejeitada dia 18 de julho. A Corte Criminal Internacional observou que “a Líbia continua obrigada a entregar o Sr. Gaddafi a essa Corte”. O clima mudou na Corte Criminal Internacional em janeiro desse ano, quando uma equipe de quatro advogados da Corte foi visitar Saif al-Islam em Zintan. As autoridades locais, lideradas por Ajmi al-Atiri, detiveram um dos advogados, a Dra. Melinda Taylor, que foi acusada de ter entregue documentos ao prisioneiro. A equipe da Corte Criminal Internacional observou que a situação de Saif al-Islam era “kafkeana” e que, naquelas circunstâncias, o prisioneiro de modo algum receberia julgamento justo. Nesse contexto, Ahmed Ibrahim foi julgado em Misrata. A sala de julgamento estava tomada por miasmas da justiça do vencedor. É péssimo para a Corte Criminal Internacional, é péssimo para a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay; e é péssimo para a lei internacional

Não há qualquer investigação em curso sobre os crimes da OTAN no bombardeio da Líbia autorizado pela ONU. Dificilmente haverá qualquer investigação para que se saiba como a Corte Criminal Internacional e a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU operaram para justificar a guerra da OTAN na Líbia, e como, na sequência, foram marginalizadas.


Não haverá investigação de tipo algum. E, sim, com certeza deveria haver.
____________________________

[*] Vijay Prashad é um historiador hindu, jornalista e comentarista. Professor de Estudos Internacionais do Trinity College em Hartford, Connecticut, EUA. Autor de quinze livros. Em 2012 publicou cinco, incluindo a Primavera Árabe, Inverno da Líbia (AK Press) e Uncle Swami: sul-asiáticos na América de hoje (The New Press). Dois de seus livros mais conhecidos, Karma of Brown Folk (2000) e Everybody Was Kung Fu Fighting (2002),, foram escolhidos pelo Village Voice como livros do ano.. Seu livro The Darker Nations: A People's History of the Third World (2007) foi escolhido como o melhor livro de não-ficção pela Asian American Writers’ Workshop em 2008 e ganhou o Prêmio Muzaffar Ahmed, em 2009. Em 2013, Verso publicou seu livro The Poorer Nations: A Possible History of the Global South.
Prashad escreve para Frontline (a "Carta da América" e artigos ocasionais relatados coluna) e The Hindu. Além disso, os textos podem ser encontrados nos sítios Newsclick.in e Counterpunch.org, bem como na revista Himal.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Se os EUA não fizermos o que Israel diz-que Deus disse... Estamos fritos!


21/4/2013, Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Paul Craig Roberts
Os governos dos EUA estão em guerra há 11 anos. Os militares norte-americanos destruíram o Iraque, deixando em ruínas o país e milhões de vidas, e abriram as porteiras do sectarismo sanguinário que o governo secular de Saddam Hussein mantivera bem contido. Qualquer dia que se observe o Iraque hoje “libertado”, o número de mortos é maior do que durante o auge da tentativa norte-americana para ocupar o país.

No Afeganistão, depois de 11 anos de tentativas norte-americanas para ocupar o (outro) país, o sucesso é ainda menor que depois de uma década de tentativas soviéticas. Os afegãos não se entregam, apesar de duas décadas de guerra contra duas superpotências. Como os soviéticos, os norte-americanos também deram jeito de matar muitas mulheres, crianças e velhos, mas número bem menor de valentes combatentes, que continuam vivos. Em lugar do governo fantoche dos soviéticos, há lá um governo fantoche dos EUA. Só isso mudou, e o fantoche dos norte-americanos é ainda mais frágil que o fantoche dos soviéticos.

Na Líbia, Washington usou seus fantoches corruptos da OTAN e bandidos recrutados pela CIA para derrubar outro governo estável, de Muammar Gaddafi, e deixou a Líbia entregue à violência sectária. Um país estável e próspero foi simplesmente destruído por governos ocidentais que muito falam sobre respeito aos direitos humanos e tanto condenam China e Rússia por não fazer o que eles fazem.

John Kerry
No Paquistão e no Iêmen, Washington mata civis, usando drones em ataques aéreos. Paquistão e Iêmen são dois países com os quais Washington não está em guerra, mas cujos governos foram subornados para que dessem aos EUA direito de assassinar os paquistaneses e iemenitas e norte-americanos em seu território, para assim desestabilizar também os dois países.

E agora, na Síria, Washington está ocupadíssima destruindo mais um governo secular e estável, chefiado por um médico oftalmologista formado na Inglaterra.

Os 11 anos de agressão ilegal a países muçulmanos cometida por Washington – que configura crime de guerra, nos termos definidos pelo Tribunal de Nuremberg que condenou nazistas – resultaram em número muito maior de civis mortos que de militares mortos; resultaram também numa política doméstica, cá nos EUA, que já destruiu o Estado de Direito e todas as proteções constitucionais de que gozavam os cidadãos norte-americanos. Washington e sua imprensa-empresa prostituída (presstitutes) vivem a repetir que esse seria o preço a pagar para salvar os norte-americanos dos ataques dos terroristas da al-Qaeda – nenhum dos quais foi jamais encontrado ou preso em território dos EUA.

Submetido à agressão ininterrupta da propaganda com a qual Washington e seu Ministério da Propaganda “midiático” bombardeiam meus ouvidos e olhos há 11 anos, imaginem qual não foi minha surpresa, atônito e boquiaberto, ao ver duas manchetes justapostas: “Frente Al-Nusra jura fidelidade à al-Qaeda” (BBC) e “Movimento para ampliar ajuda aos rebeldes sírios ganha velocidade no Ocidente” (NY Times).

Frente al-Nusra, terroristas da al-Qaeda financiados pelos EUA na Síria
A Frente Al-Nusra é o principal grupo militarizado dos “rebeldes sírios” e jurou fidelidade ao mais mortal inimigo dos EUA – a al-Qaeda de Osama bin Laden.

Parem as máquinas!

O governo dos EUA jurou a nós, cidadãos, durante 11 anos, que estava torrando trilhões de dólares em guerras e mais guerras para proteger os norte-americanos contra os ataques da al-Qaeda. Em nome disso, destroçaram a assistência social, Social Security, Medicare, toda a rede de seguridade social, o valor de câmbio do dólar, a avaliação do valor de câmbio dos papéis do Tesouro Norte-americano e todas as nossas liberdades civis. TUDO, para salvar os EUA, dos ataques dos terroristas da al-Qaeda. Assim sendo... por que, agora, Washington está apoiando a mesma al-Qaeda que trabalha para derrubar um governo secular não islamista na Síria, o qual nunca, em tempo algum, ameaçou, nem de longe, os norte-americanos!?

William Hague
Duas presstitutes do The New York Times, Michael R. Gordon e Mark Landler, encarregaram-se de elevar a organização terrorista al-Qaeda ao status de “oposição síria”. Numa reunião-almoço, reunida com esse fantoche de Washington, o secretário de Relações Exteriores britânico, William Hague, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, a “oposição síria” – quer dizer: a al-Qaeda – “solicitou” jatos bombardeiros e armamento antitanques. Um alto funcionário norte-americano esclareceu que “nossa ajuda está em trajetória ascendente. O presidente Obama ordenou que sua equipe de segurança nacional identifique outros meios pelos quais possamos ampliar nossa ajuda” (à al-Qaeda!).

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, anunciou um “pacote de ajuda para defesa”, no valor de $123 milhões, para a “oposição síria” (hoje comandada pela al-Qaeda!). Washington já enviou $117 milhões em “alimentos e suprimentos médicos e hospitalares” para a “oposição síria”; e ordenou que seus fantoches no Oriente Médio mandem armas.

Observem o duplifalar orwelliano: os EUA estão fornecendo armas a uma força terrorista estrangeira, para que destrua um governo secular e uma população inteira com os quais os EUA não estamos em guerra; e a isso se dá o nome de “pacote de ajuda para defesa”.

Dia 11/4, o jornal Le Monde, do establishment francês, noticiou que a Frente al-Nusra afiliada à al-Qaeda é a força militar que domina a “oposição síria”, não algum grupo de democratas revolucionários. Apesar disso, os fantoches de Washington, França e Grã-Bretanha, estão empurrando a União Europeia para que também forneça armas à tal “oposição síria”, quero dizer, à al-Qaeda. E o senador John McCain quer que os EUA ataquem diretamente o governo Sírio (bombardeio aéreo, é o que ele quer), apesar de os EUA não estarem em guerra contra a Síria, porque o senador McCain acha imprescindível que os EUA ajudem a al-Qaeda a assumir o governo por lá.

John McCain
Simultaneamente, os xiitas islamistas, aos quais os EUA entregaram o controle do Iraque, anunciaram que se aliaram às forças de al-Qaeda-EUA (?!), interessados em também radicalizar e fundamentalizar a Síria.

Os números mais recentes da ONU indicam que os ataques contra a Síria organizados por procuração pelos fantoches de Washington já mataram 70 mil pessoas. Mas os norte-americanos só pensam nas bombas da Maratona de Boston, que mataram três pessoas.

Mais uma vez “a única nação indispensável” está levando morte e destruição a um país inteiro... talvez para oferecer “liberdade e democracia” a pilhas de cadáveres. Nenhum sírio jamais pediu para ser assim “libertado” da própria vida.

Americanos, orgulhem-se! Estamos cumprindo nosso dever com nossa arrogante hegemonia sobre o mundo e também nosso dever com Israel, que já alugou o governo dos EUA. Temos todo o direito de nos impor como potência hegemônica no planeta Terra, passando pelo Mar Mediterrâneo. Portanto... Washington tem todo o direito de destruir a Síria... para acabar com a base naval russa! Os romanos jamais toleraram que potência estrangeira tivesse base naval ali. Não podemos deixar por menos! Afinal, não somos estado-pateta, com medo da própria sombra. O Mediterrâneo foi mare nostrum – nosso mar – dos romanos. Agora é nosso. Portanto... temos todo o direito de destruir a Síria.

Israel, claro, recebeu o título de “Grande Israel” das mãos de Deus em pessoa – e quem sou eu para discordar dos pregadores cristãos sionistas que engordam com o dinheiro israelense – para os quais parte da “Grande Israel” seria o rio no sul do Líbano que fornece preciosa, preciosa água.

Militantes do Hezbollah
O Hezbollah, ajudado por Síria e Irã impediu que Israel confiscasse o sul do Líbano para pôr as mãos na água que Deus dera pessoalmente aos israelenses. Portanto, os EUA, para fazermos nosso dever de fantoches de Israel, temos agora de destruir tudo – a Síria e o Irã, para isolar o Hezbollah, tirá-lo do caminho que nos leva à água, indispensável à “Grande Israel”.

As igrejas cristãs sionistas nos EUA repetem essa mensagem todos os domingos. Se você não acredita neles, é porque é algum tipo de antiamericano antissemita e tem de se exterminado. Ou talvez seja um desprezível terrorista muçulmano a ser submetido a simulação de afogamento, até confessar. A Segurança Doméstica fará picadinho de você, como fizeram dos russos/chechenos muçulmanos terroristas em Boston, que tentaram explodir a Maratona.

Quero dizer é que... como nós, povo indispensável, levaremos liberdade e democracia ao mundo, se os russos mantêm uma base naval em nosso mar? Como projetaremos força, se projetamos tal fraqueza a ponto de admitir base de potência estrangeira na nossa exclusiva esfera de influência, a milhares de milhas de distância de nossas fronteiras? Não esqueçam: as fronteiras dos EUA são as fronteiras do mundo. Como diz nosso hino: “Do mar ao mar brilhante”. Não esqueçam.

Vladimir Putin
Claro, não queremos confrontos com outra potência militar nuclear, mas o jeito de contornar isso é demonizar o governo sírio e a Rússia por apoiar o governo de um oftalmologista e “brutal ditador” que resiste contra a tentativa da al-Qaeda para tomar a Síria e financiada com dinheiro de Washington. Nossos mestres em Washington podem usar a ONU e todos os nossos bem pagos estados-satélites para pressionar os russos a calarem o bico e saírem do nosso caminho. Quer dizer: por que Putin não aceita todas aquelas ONGs pagas com nosso dinheiro pelas ruas de Moscou empenhadas em derrubar seu governo? Quero dizer, quem Putin pensa que é, para atravessar-se à frente de nossa hegemonia sobre o universo e, além do mais, também à frente da hegemonia sobre o Oriente Médio que Deus deu a Israel? Quero dizer, Putin está em campo, e em campo estão aqueles malditos chineses. Quero dizer, sério, quem essa gente pensa que é? Norte-americanos?! Aqueles chinas nunca ouviram falar do nosso controle sobre todo o Pacífico? Quero dizer, qual é? Os chinas são surdos? Saíram para o almoço?

Quero dizer, sério, como poderemos os norte-americanos chegar ao Paraíso, se não obedecemos ao que Deus mandou fazer e entregamos todo o Oriente Médio a Israel, como Israel reza e rezam as sagradas escrituras? Quero dizer, sério, vocês querem desobedecer à vontade de Deus e assar no Inferno? Ali, em vez das virgens que os muçulmanos prometem, é só fogo, você será queimado vivo. Melhor você escolher o lado certo, antes de morrer.

Quero dizer, sério, quem quer acabar assim? Melhor os EUA darmos cabo da Síria, o mais depressa possível, como Israel ordenou. Se os EUA não obedecermos ao que Israel diz-que Deus disse... estamos fritos!