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sábado, 10 de março de 2012

Líbia: Começa a divisão


9/3/2012, Farirai Chubvu, The Herald Online, Zimbábue 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

De “Leitor comenta”, na mesma página Musa - Friday, March 9, 2012 at 04:01 AM: “Basta mandar a OTAN, agora, bombardear o Conselho Nacional de Transição”.


Quando a OTAN assassinou a sangue frio o líder líbio Muammar Gaddafi, observadores previram que a morte de Gaddafi não marcaria o final da guerra, mas, de fato, a escalada [1]. A Líbia estava no olho do furacão. Agora, os ventos voltaram a soprar. A retomada de Ben Walid por gaddafistas e a recente declaração de autonomia por líderes de milícias tribais armadas no leste da Líbia (onde está o petróleo) são só as primeiras escaramuças da guerra que virá.

O chefe do Conselho Nacional de Transição instalado na Líbia pela OTAN e com base em Trípoli ameaça usar “a força” para impedir a divisão do país, mas suas palavras cairão em ouvidos surdos, pela suficiente razão de que o Conselho Nacional de Transição não tem poder para fazer o que diz: não passa de um fantoche do ocidente. 

De fato, vários membros do Conselho Nacional de Transição estão sitiados em Trípoli e não podem sequer movimentar-se livremente pela Líbia. Alguns pernoitam em Malta, do outro lado do Mediterrâneo, por medo de represálias.

Quase cinco meses depois do assassinato-linchamento de Muammar Gaddafi e de a OTAN ter declarado vitoriosa sua guerra para mudança de regime na Líbia, o confronto entre Trípoli e Benghazi, cidade do leste, onde foi tomada a decisão de dividir o país, já faz ressurgir o monstro de uma guerra civil.

Em comunicado pela televisão, na 4ª-feira, da cidade de Misrata, Mustafa Abdel Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição rejeitou categoricamente a divisão do país.

“Não estamos preparados para dividir a Líbia”, disse ele. “Os divisionistas deveriam saber que há interesses infiltrados entre eles, além de remanescentes do regime de Gaddafi, que agora tentam manipulá-los. Estamos prontos a impedir que alcancem seu objetivo, inclusive pela força”. 

Em conferência de imprensa em Trípoli, Jalil acusou “países árabes” (que não identificou) de estarem financiando “a sedição” na Líbia. “Algumas nações árabes irmãs estão infelizmente apoiando e financiando essa sedição que está acontecendo no leste” – disse ele. Jalil, que foi ministro da Justiça do governo de Gaddafi, declarou, mais uma vez, que o Conselho Nacional de Transição seria “o único representante legítimo do povo líbio”; e, Trípoli, “a eterna capital” líbia.

Mais cedo o primeiro-ministro interino do Conselho Nacional de Transição, Abdel Rahim al-Kib, também rejeitara qualquer iniciativa na direção de criar-se um estado federado na Líbia. “Não queremos regredir 50 anos”, disse ele. Referiu-se assim, sem dar nomes, ao regime reacionário e corrupto do rei Idris, que governou a Líbia até ser destronado pelo Movimento dos Oficiais Livres, de inspiração nasserista, liderado por Gaddafi.

O rei Idris sempre serviu como fantoche do imperialismo norte-americano e britânico, assegurando àqueles governos o direito de manter bases militares na Líbia, inclusive a gigantesca base Wheelus, da Força Aérea dos EUA, na Líbia ocidental.

Depois da descoberta de petróleo no país, Idris serviu como complacente braço armado das grandes empresas norte-americanas de petróleo, que redigiram as leis líbias sobre petróleo e asseguraram para elas mesmas direitos irrestritos de exploração. Ao assumir o poder, Gaddafi fechou as bases militares de Grã-Bretanha e EUA e impôs rígido controle sobre todas as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo no país.

A conexão entre o projeto do rei Idris e o movimento separatista é hoje muito direta e muito fácil de ver. O rei deposto por Gaddafi governava uma monarquia federada, absolutamente dominada pelas potências imperialistas e pelas empresas que exploravam o petróleo. 

Os três estados – a Cirenaica, no leste; a Tripolitânia, no oeste; e Fezzan, no sul, eram jurisdições territoriais herdadas do governo italiano fascista e, antes dele, do Império Otomano – tinham tanto poder quanto o governo central. O próprio rei Idris vivia em Benghazi e considerava-se, antes de tudo, rei da Cirenaica. 

O Xeique Ahmed Zubair al-Senussi emergiu da conferência em Benghazi, como escolha dos 3.000 representantes de tribos, milícias e grupamentos políticos ali reunidos, como chefe de um novo Conselho Provisório da Cirenaica, em árabe, Barqa. O objetivo já declarado do novo conselho é reviver a constituição de 1951 imposta pelo rei Idris. 

Al-Senussi, que é membro do Conselho Nacional de Transição, é também sobrinho-neto do deposto rei Idris. Tem repetido que a declaração de autonomia da Cirenaica não é movimento de “sedição” e que o conselho de Benghazi não tem qualquer interesse em trocar nem a bandeira nem o hino nacionais, e que deixará as questões de política exterior a cargo do Conselho Nacional de Transição, em Trípoli.

Mas, em entrevista à CNN, falando de Benghazi, al-Senussi disse que “questões sociais” devem ser assunto dos governos locais, inclusive saúde e educação. Sob o governo de Gaddafi, parte significativa dos lucros do petróleo era canalizada para garantir saúde e educação públicas, completamente gratuitas, a todos os líbios. A ideia de entregar esses setores a governos regionais é ameaça clara e direta à sobrevivência da maioria da população, mas pesa mais sobre os líbios que dependem dos programas públicos no leste da Líbia, onde está organizado o movimento separatista.

Segundo a Companhia Árabe de Petróleo do Golfo [Arabian Gulf Oil Company (AGCO)], que tem sede em Benghazi, ¾ das reservas de petróleo da Líbia estão em território da Cirenaica. Perguntado pela Agência Reuters sobre se a criação do novo Conselho de Benghazi alterara o modo como a AGCO opera ali, um porta-voz da empresa respondeu: “Até agora, nada mudou”. A declaração de autonomia de Benghazi está sendo vista por muitos na região como mais um passo na direção de concentrar nessa região todo o controle sobre o petróleo líbio – o que significa o fim de qualquer projeto de distribuição nacional da riqueza gerada pelo petróleo.

O movimento para criar um governo autônomo com base em Benghazi é parte do projeto mais amplo para fraturar o território da Líbia de Gaddafi ao longo de linhas regionais de divisão. Mais de 100 diferentes milícias tribais e milícias instaladas na cidade – as forças que a OTAN apoiou com armamento, instrutores e bombardeios aéreos no ataque para derrubar Gaddafi – controlam hoje grandes áreas do país. 

O Conselho Nacional de Transição, apesar de instalado na Líbia por EUA e OTAN como governo oficial, já se comprovou incapaz de controlar sequer a capital, Trípoli, cujo principal aeroporto continua até hoje controlado por milícias.




Nota dos tradutores
[1] Ver, por exemplo, 9/10/2011, “Resistência e guerra sem fim, na Líbia”, Pepe Escobar, entrevista a Russia Today(traduzida).  

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Trípoli, Líbia: os estudantes perguntam

Franklin Lamb

22/24/7/2011, Franklin Lamb (na Universidade Nasser, em Trípoli), Counterpunch, EUA

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Conversei durante cinco horas com estudantes da Universidade Nasser, em Trípoli. O tema escolhido para o que foi previsto para ser uma palestra professoral, mas convertemos logo em conversa entre iguais, foi “Mas... o quê, diabos, estão fazendo da Líbia, e por quê?”      

Um ponto em relação ao qual a maiorias dos estrangeiros e da população concorda, no oeste da Líbia é que não havia praticamente sinal algum, no início de fevereiro, de que o leste da Líbia estaria a ponto de levantar-se contra o governo; esse processo ainda é obscuro para muitos, que não sabem por quê e como aconteceu o que aconteceu. Por isso, quando meia dúzia de líbios brilhantes, enérgicos e nacionalistas, alunos de graduação e pós-graduados, concordaram em organizar discussão franca sobre essas e outras questões, tratei logo de juntar-me a eles.

Não se pode dizer que as questões específicas propostas pelos estudantes líbios em Trípoli e subúrbios sejam manifestação do leste da Líbia, onde um terço do país continua, em boa parte, sob controle dos rebeldes. Isso, apesar de muitos estudantes de Al Fatah dizerem que a maioria de seus amigos, famílias e tribos de Benghazi e no leste, mesmo que nessas regiões se venerem os salafistas e os bolsões de jihadistas, concordariam, em boa parte, com as opiniões que ouvimos frequentemente em Trípoli.      

O leste da Líbia tem longa história de antipatia contra o governo de Trípoli desde os dias (1951) quando o já decadente Império Britânico instalou Idris Senussi como rei, com assentimento da Itália, para ali defender seus interesses. O rei da Líbia, Idris I, foi derrubado pela Revolução Fatah, comandada pelo coronel Gaddafi, em 1969. Hoje, um dos objetivos dos grupos que formam o “Conselho Nacional de Transição” é restaurar a monarquia, projeto estimulado pela tribo Senussi. 

Os estudantes, em Trípoli, dizem que alguns de seus parentes e amigos na tribo Senussi que vivem em Benghazi sabem que a Al-Qaeda jamais admitirá qualquer monarquia, mesmo que, hoje, esteja calada, cumprindo o roteiro traçado pela CIA, que fala de democracia e direitos humanos para todos, inclusive para as mulheres.      

O Fórum – que decidimos batizar de “Libyan Forum 101” – pediu que os alunos líbios formulassem e encaminhassem à organização perguntas cujas respostas, na avaliação deles, ajudariam a compreender e a resolver o que, por aqui, se chama “nossa crise”.      

As perguntas logo começaram a aparecer e são manifestação de sentimentos muito presentes no oeste da Líbia, tenham ou não ecos em Benghazi e arredores.

Meu jovem amigo Hassan, aluno de literatura inglesa logo ofereceu três perguntas para que fossem discutidas, depois de pedir desculpas pelo atraso, devido, como explicou, aos bloqueios da segurança em Trípoli, depois de denúncias de que haveria rebeldes infiltrados e sabotadores, de que Gadaffi falara pela televisão na noite anterior. Hassan repetiu o que ouvimos de outros, de que teria havido tiros no centro da cidade; e a rede Al-Jazeera falou de uma explosão no hotel Sheraton Four Points, que está em construção.        

Ismail, aluno da escola de comércio, riu quando se falou da Al-Jazeera, a qual, como a BBC e a CNN, são vistas como fonte de noticiário distorcido e de declarada propaganda pró-rebeldes. A página da BBC está novamente bloqueada pelo governo aqui em Trípoli, e a sucursal acaba de receber um produtor substituto, Daniel Fisher, sujeito simpático, que apareceu hoje cedo e apresentou-se, e que parece ter-me confundido com Jack Nicholson. A chegada de Daniel acontece depois de o governo líbio ter protestado, porque o jornalista que trabalhava aqui além de não ter noticiado a manifestação pró-Gaddafi na Praça Verde dia 11/9/2011, escreveu, no dia seguinte, que vira multidões “fugindo de Trípoli” e que o quartel-general de Gaddafi estaria na iminência de “ser implodido a qualquer instante”. 

Essa matéria da BBC foi total nonsense. As famílias que, para os jornalistas da BBC e da CNN estariam “fugindo”, estavam simplesmente retornando aos subúrbios de Trípoli, onde vivem, depois das manifestações da noite anterior e depois de terem pernoitado na cidade.      

Hassan encaminhou as seguintes perguntas à mesa: “Quem indicou o Grupo de Contato da Líbia, para que se imiscuísse em nosso país? E que legitimidade poderiam receber da OTAN, para que o secretário geral da ONU (dia 17/7/2011) impusesse condições para resolver a crise sem que nem Trípoli nem os grupos de Benghazi fossem ouvidos?

A OTAN, agora que criou o Grupo de Contato da Líbia, teria o direito de afastar do processo o Conselho de Segurança da ONU e a secretaria-geral e toda sua equipes?

Amani, que acaba de conseguir emprego na Libyan Sports TV, encaminhou várias perguntas à discussão de todos:

“Como podem EUA e OTAN repetir que estariam respeitando a lei internacional, se a OTAN já matou mais de 1.000 civis líbios, sob a falsa alegação de que estariam protegidos pelas Resoluções no. 1.970 & 1.973, as quais a OTAN interpreta como autorização para todas as suas operações militares que têm objetivos políticos? As Resoluções da ONU relativas ao nosso país limitam o envolvimento da OTAN exclusivamente a estabelecer uma “zona aérea de exclusão” – o que foi feito em dois dias. Depois disso, a ONU teria talvez autorizado os quatro meses seguintes de bombardeios ou a expansão da missão original, para que incluísse inúmeras tentativas de assassinato  e destruição massiva da infraestrutura do nosso país?”      

Amani acrescentou: “Além disso, por que ninguém se dedicou a enviar ao nosso país uma comissão de investigação da ONU, para realmente investigar o que está sendo feito na Líbia, as notícias falsas que a imprensa está distribuindo, todas vindas dos rebeldes, apesar de inúmeras solicitações feitas pela Líbia e por outros países africanos e árabes, para que uma comissão oficial de investigação estabelecesse a verdade dos fatos?”      

Sanaa, estudante de enfermagem, perguntou: “Por que a Líbia? Sempre tivemos boas relações com EUA e Europa desde 2003. É sabido que a CIA e a Líbia tinham operações conjuntas até bem recentemente, em 2009-2010. Será que os EUA só atacam quando o país tem petróleo? O governo do Zimbabwe tratou seu povo com terrível crueldade, mas nem por isso os EUA invadiram o país. Por quê, então, invadiram a Líbia? E quanto ao Bahrain, Iêmen e Síria? E os muitos civis ameaçados nesses países, que tanto precisam da intervenção humanitária de Obama?”

Nadia, aluna de Medicina, propôs a seguinte pergunta: “É possível acreditar que todas as informações distorcidas que se divulgam sobre nosso país, desde o início da terceira semana de fevereiro, sejam divulgadas por acaso, ou por mera incompetência dos jornalistas?  Por exemplo, aquelas histórias sobre distribuição de Viagra e bebidas alcoólicas para estimular estupros; ou “notícias” sobre massacres de civis líbios por nosso governo. Ou sobre a cidade de Trípoli, que estaria armada para derrubar nosso governo. Ou as ‘declarações’ de que o coronel Gaddafi não teria legitimidade nem apoio popular, que há caos nas ruas de Trípoli, que a população estaria petrificada de medo, ou que o coronel Gaddafi teria sido ferido ou fugira para a Venezuela e tantas outras mentiras. Quem criou essas falsas notícias jornalísticas e por quê foram e continuam a ser criadas e distribuídas?”

Imad, estudante de engenharia, perguntou: “Por que a OTAN bombardeou a torre de controle (civil) de tráfego aéreo no final de semana, ferindo (outros) tantos civis? Até o diretor de nosso aeroporto disse que o sistema de controle do tráfego aéreo é feito por civis, pessoal 100% civil. Funcionários da IATA e até norte-americanos disseram o mesmo. Por que a torre de controle de tráfego aéreo foi atacada pela OTAN?”      

Hind, estudante de Tecnologias da Informação e voluntária num grupo de mulheres, perguntou: “Será que EUA e OTAN esperam que alguma Líbia pós-Gaddafi os receberá bem, se conseguirem derrubar o coronel Gaddafi? Será que fazem, pelo menos, alguma ideia de o quanto a invasão estrangeira enfureceu e enfurece o povo líbio? São os invasores quem, hoje, estão tornando o coronel Gaddafi ainda mais popular, não só na Líbia e na África, mas entre muitos que se opõem às guerras dos EUA como tentativa para implantar seu controle imperial sobre nosso país. Será que EUA e OTAN algum dia pensaram em promover a reconciliação, a paz? Quem assegura que algum novo governo seja melhor que o atual governo líbio?” 

As perguntas dos estudantes ainda não foram respondidas. E são questões que se vão tornando mais frequentes e mais insistentes.

Os estudantes da Universidade Al Nasser e seus concidadãos exigem respostas que nunca vêm, nem da Casa Branca, nem da OTAN. E que não vêm, tampouco, de jornalistas ocidentais já completamente desacreditados, hospedados – pode-se dizer “escondidos” no Rexis Hotel, em Trípoli. Até agora, nenhum desses atores foi capaz de oferecer respostas coerentes àquelas perguntas.

sábado, 2 de abril de 2011

Gaddafi e o toque da trombeta da cavalaria dos EUA

Raul Longo

Comentário de Raul Longo

Enviada pela poeta Maura Soares, segue uma análise do artigo do Chico Villela – logo abaixo - para melhor compreensão das razões do ataque a Kadafi ou Gaddafi, antecedida por lembranças de exemplos históricos a serem consideradas para a resposta de uma questão: quando os EUA promoveram alguma ofensiva de real interesse humanitário ou por causa justa e justificável? Quando realmente se preocuparam em salvar vidas de civis?

Pearl Harbor é o primeiro exemplo que surge quando se ignora que o serviço nazista de espionagem não apenas deteve informações de possível rompimento da omissão estadunidense às invasões alemãs na Europa, alguns efetivados por artefatos da indústria bélica norte americana e com investimento de instituições financeiras daquele país; como também sabiam que o conflito europeu seria usado como justificativa para a destruição das maiores cidades japonesas a partir da base militar de Pearl Harbor.

Alguns analistas da época, inclusive pela imprensa exortavam a esse ataque como estratégia de domínio do extremo asiático para, pelo flanco oriental, auxiliar Hitler contra o então considerado verdadeiro inimigo dos Estados Unidos: a U.R.S.S., com a qual o governo japonês mantinha acordo de neutralidade.

O ataque japonês à Pearl Harbor não foi uma precipitação, mas defesa prévia. De toda forma improfícua, pois o plano de ataque às maiores cidades japonesas foi consumado em 1945. Por seis meses os Estados Unidos destruíram 67 cidades. Só no bombardeio à Tóquio em março de 45 o saldo foi mais de 100 mil mortos. Ao longo de três anos e meio desde Pearl Harbor, incluindo os combates em Europa, os Estados Unidos perderam durante todo o conflito 200 mil vidas.

Em Julho de 45, frente ao pedido de rendição do Japão, Henry Trumann fez redigir a Declaração de Potsdam que dobrava o inimigo à total subserviência. O governo japonês negociava termos mais honrosos quando em 6 de agosto o Enola Gay (nome da mãe do piloto do avião) despejou a “Little Boy” sobre Hiroshima, matando 80 mil pessoas instantaneamente. Eram as primeiras horas da manhã e muitos pequenos garotos e garotas deixavam suas casas para ir à escola. Sobreviventes deste primeiro momento vieram a morrer ao longo dos anos futuros por contaminação nuclear e os de melhor sorte procriaram gerações de aleijões e doentes incuráveis.

A debilidade do Japão incentivou Stálin à quebra do acordo de neutralidade e a meia noite do dia 9 de agosto as forças russas invadiram a Manchúria, região ao norte da China ocupada pelo japoneses. Menos de 12 horas depois 80 mil vidas foram exterminadas em Nagasaki como advertência ao líder soviético sobre o poder destrutivo dos Estados Unidos.

Entre Hiroshima e Nagasaki foram extintos diversos militares aliados ali mantidos como prisioneiros de guerra, por cuja liberdade o imperador japonês apostava no abrandamento dos termos de rendição impostos por Trumann. Esses oficiais também vitimados pelo bombardeio atômico em maioria eram estadunidenses, mas também havia aliados britânicos, holandeses e australianos.

Para o Primeiro Ministro Britânico, Winston Churchill: “Seria errado supor que o destino do Japão tenha sido determinado pela bomba atômica”.

Para o General MacArthur, comandante das Tropas Aliadas no Pacífico: “Não havia nenhuma necessidade militar de empregar a bomba atômica em 1945.”

Para Leo Szilard, um dos cientistas responsáveis pela criação da Bomba Atômica: “Se tivessem sido os alemães a lançar bombas atômicas sobre cidades ao invés de nós, teríamos considerado esse lançamento como um crime de guerra e sentenciado à morte e enforcado os alemães considerados culpados desse crime”.

Para o relatório das investigações sobre o bombardeio atômico United States Strategic Bombing Survey: “... o Japão ter-se-ia rendido mesmo se as bombas atômicas não tivessem sido lançadas, mesmo se a Rússia não tivesse entrado na guerra e mesmo se a invasão não tivesse sido planejada”.

Resgatando estas memórias e lembrando das “armas químicas” e de “destruição em massa” de Saddam Hussein, fica mais fácil compreender a matéria a seguir:

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Os “heróis” de Benghazi e as mentiras e omissões da mídia grande

Por Chico Villela em 23/03/2011

Thomas C. Mountain é ativista pela paz e editor. Em 1987 foi membro da I Delegação de Paz enviada pelos EUA à Líbia. Boa parte de sua vida foi passada na região, em missões na Eritréia, Somália etc. Há cerca de 25 anos acompanha os acontecimentos líbios e da região. Assim, Mountain coloca na mesa questões que aclaram muito além da falsificação da mídia grande que, agora, clama ser Gaddafi um ditador sanguinário e os resistentes, heróis no combate pela liberdade. Nem Gaddafi sempre foi execrável, nem os resistentes são anjos do bem.

Um ano antes, em abril de 1986, os EUA haviam bombardeado o complexo residencial de Gaddafi em Trípoli, ferido familiares e matado sua filha adotiva de 15 anos. Haviam bombardeado também um complexo residencial civil afastado de qualquer base militar, matando muitos moradores, a maioria crianças. Mountain cita que domingo dia 20 de março passado assistiu na TV a uma família líbia enterrando sua filha de três anos, morta pelos ataques dos EUA iniciados no sábado.

O coronel Muammar al-Gaddafi subiu ao poder na liderança partilhada com outros de um golpe que depôs o rei Idris, único da história líbia, que reinou de 1951 a 1969. Idris pouco antes havia passado o poder ao filho, por razão de doença. Aliado do Ocidente na Segunda Guerra, colocou os poços de petróleo à disposição do Reino Unido e dos EUA, país que também mantinha uma base aérea próximo a Trípoli, sem compensações vantajosas ao país, o que acirrava os ânimos dos nacionalistas. Sua capital era Benghazi, maior cidade da Cirenaica, região em que reinava; a Líbia atual abrange mais duas regiões.

O golpe de Gaddafi expulsou as petroleiras britânicas e outras do país e nacionalizou o petróleo. De família tradicional, Gaddafi à época posava como um entre os vários nacionalistas  que haviam se espelhado no coronel egípcio Gamal Abdel Nasser, criador e inspirador do pan-arabismo. Apoiou movimentos e grupos contrários a monarquias e à presença ocidental. Radical islâmico, implantou medidas como fechamento de bordéis e proibição de jogos e bebidas alcoólicas.

Gaddafi, a par de seu apoio a grupos extremistas nacionais e do exterior, como os Black Panthers dos EUA, e de seu ódio a Israel, foi responsável por muitos avanços sociais no país. Em nome do ‘socialismo árabe’, posteriormente transformado em doutrina própria, colocou as rendas do petróleo a serviço da população, promoveu as mulheres, expandiu o sistema educacional e implantou sistema de saúde considerado dos melhores entre os países árabes. Isso explica o grande apoio que ainda tem no país.

Hoje a Líbia é um dos países em desenvolvimento mais bem classificados. No ranking do IDH, situa-se na posição 53, o que a coloca na primeira posição entre os países africanos e acima de Rússia (65), Brasil (73) e Tunísia (81). A expectativa de vida cresceu incríveis 20 anos durante o longo regime de Gaddafi.

Por ocasião da invasão do Iraque, Gaddafi guinou para o lado do Ocidente e reaproximou-se dos EUA, e abandonou seu apoio a terroristas e suas pretensões nucleares. Passou, assim, a ser tolerado, mas nunca foi considerado verdadeiro aliado dos EUA e seus parceiros, embora tenha aberto as portas do país para dezenas de corporações estrangeiras. E, como é natural em quem exerce o poder por longo tempo, aos poucos aprofundou suas arbitrariedades de ditador e exerceu forte repressão contra seus próprios dissidentes, tendo sofrido golpes e sido ferido numa tentativa de assassinato.

Mas, para Mountain, apenas isso não é suficiente para explicar a resistência dos atuais dissidentes, principalmente os mais celebrados, de Benghazi, onde se iniciou a revolta. Mountain anota que nenhuma mídia grande do mundo toca num espinhoso assunto: Benghazi , por ser um ponto do continente africano próximo da Europa, tornou-se de uns quinze anos para cá o “epicentro da migração africana para a Europa”, da ordem de cerca de 1 mil por dia.

Mountain: “A indústria de tráfico humano, um dos mais selvagens e desumanos negócios do planeta, cresceu para cerca de 1 bilhão de dólares anuais em Benghazi. Uma grande, viscosa máfia do submundo deitou fundas raízes em Benghazi, emprega milhares em várias atividades e corrompe a polícia líbia e funcionários do governo. Foi apenas no ano passado que o governo líbio, com apoio da Itália [destino de boa parte dos migrantes], finalmente adquiriu controle desse câncer.

“Com seu meio de vida destruído e muitos dos seus líderes na prisão, a máfia do tráfico humano tem estado à frente em financiar e apoiar a rebelião líbia. Muitas das gangues de tráfico e outros elementos lumpen de Benghazi são conhecidos por pogroms racistas contra trabalhadores africanos de fora, enquanto na década passada eles regularmente roubavam e assassinavam africanos em Benghazi e seus arredores. Desde que a rebelião estourou em Benghazi, algumas centenas de trabalhadores sudaneses, somalis, etíopes e eritreus têm sido roubados e assassinados pelas milícias racistas rebeldes, fato bem omitido pela mídia internacional.
“Benghazi tem sido também um bem conhecido centro de extremismo religioso. Fanáticos líbios que passaram algum tempo no Afeganistão concentram-se lá e um certo número de células terroristas tem realizado bombardeios e assassinatos de funcionários governamentais nas últimas duas décadas. Uma célula, auto-intitulada Grupo Islâmico Guerreiro, declarou-se afiliado à Al Qaeda em 2007. Essas células foram as primeiras a empunhar armas contra o governo líbio”.

Outro problema apontado por Mountain é que os jovens educados nas escolas líbias recusam trabalhos considerados ‘sujos’, exatamente como os cidadãos dos EUA, que empregam nesses gêneros de trabalho os ‘chicanos’ latino-americanos. Assim, o desemprego é mais grave ainda entre a juventude líbia, e os trabalhadores desqualificados de outros países africanos enfrentam oposição. Exatamente como os imigrantes latino-americanos são vistos por grupos de direita dos EUA como o Tea Party. O ócio forçado leva muitos jovens líbios para álcool e drogas.
A primeira medida dos rebeldes de Benghazi foi invadir as prisões de segurança máxima e libertar seus chefes, e assim passou-se a atacar contingentes e órgãos do governo. À parte Mountain, deve-se ter em  mente que no Kosovo os EUA e a OTAN colocaram no poder os chefes da máfia e do tráfico regional, e que Hashin Thaçi, o homem no poder, é hoje acusado por corte da União Européia até mesmo de assassinar prisioneiros e adversários para traficar órgãos humanos.

O apoio de grande parte da população líbia ao ditador Gaddafi levou os EUA e alguns membros sempre fiéis da OTAN a atacar Gaddafi para evitar a derrota dos opositores baseados em Benghazi. À mídia grande coube o eterno papel de justificar as ações do império e ridicularizar o governante líbio de todas as formas. Inda mais que Gaddafi manda em boa parte do petróleo consumido pela Europa, o que o torna insuportável, pela sua independência, aos olhos dos governantes e das corporações de negócios.

As alegações são sempre as mesmas falsidades. Na hora líbia, o pretexto é “evitar a morte de civis nas mãos de Gaddafi”. Para tanto, acionam-se mísseis e aviões com bombas superpoderosas, que matam civis sem conta, omitidos convenientemente pela mídia grande. Assim, a única intervenção armada das forças ocidentais dá-se contra um governo que, entre as mais de dez odiosas ditaduras árabes, sempre foi o único que se opôs aos desígnios do império. Com o coro subserviente da mídia grande. É de dar asco, por mais repelente que seja Muammar al-Gaddafi.

Mountain, como muitos outros analistas, pergunta-se sobre os desdobramentos da questão. As revoltas legítimas que ocorrem nas ditaduras apoiadas pelos EUA e aliados ainda estão em seu início. O massacre da Líbia pode incendiar ainda mais os ânimos dos revoltosos em todos os países, que se opõem às elites que, como no Egito e na Tunísia, tentam perpetuar-se com outros agentes, inclusive militares. É uma aposta arriscada, esta do malabarista BHObama. Pode ir contra as intenções do império.