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A derrubada de um hotel em Jerusalém foi considerada um entrave às negociações de paz com os palestinos |
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Demolição de hotel em Jerusalém agrava confrontos no Oriente Médio
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Jerusalém: o “apartheid de rua”

10/7/2010, Mya Guarnieri, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido por
Mahmoud Alami, motorista de táxis em Jerusalém, conhece a cidade como a palma da mão. Conhece cada bairro, todas as ruas. E conhece os semáforos. Um dos semáforos, sobretudo, intriga-o muito, não profissionalmente, mas pessoalmente.
Esse semáforo fica entre Beit Hanina, bairro palestino, e Pisgaat Zeev, colônia exclusiva para judeus.
“O sinal fica verde [para os colonos judeus], por cinco minutos. Mas e para sair e entrar em Beit Hanina? Só dois ou três carros conseguem atravessar”, diz Alami. Na direção de Beit Hanina, o sinal fica aberto só por alguns segundos. “Não dá tempo de passar. Por isso, na direção de Beit Hanina, sempre há engarrafamentos-monstro. E ninguém passa.”
Al Jazeera foi conferir: o farol que abre na direção das colônias e bairros exclusivos para judeus permanece aberto por um minuto e meio. Nas áreas palestinas, por 20 segundos. Em todos os casos, o sinal verde, em todas as áreas predominantemente árabes de Jerusalém Leste, fecha em menos de 10 segundos.
“[Os palestinos] vivem engarrafados, sem poder avançar”, diz Amir Daud, também motorista de táxi. “É reflexo da situação terrível em que as pessoas vivem.”
Discriminação no orçamento
Engarrafamentos de trânsito são um dos problemas das áreas de infraestrutura e serviços nas áreas palestinas de Jerusalém. As estradas não recebem qualquer tipo de manutenção. São estreitas e esburacadas. E praticamente não há sinalização de trânsito nas ruas e calçadas.
As latas de lixo são quase sempre comunitárias, e sempre em número menor que o necessário. Os pedestres são obrigados a andar pelos acostamentos, tentando evitar as pilhas de lixo. (...)
O orçamento municipal de Jerusalém é dividido de modo absolutamente desigual. O exemplo mais dramático é o departamento de esportes da cidade: apenas 0,5% dos fundos são alocados nos bairros árabes; 99,5% dos fundos municipais para esportes são alocados nas áreas exclusivas para judeus.
Qualidade de vida
Nisreen Alyan, advogado da Association for Civil Rights
A falta de coleta regular de lixo afeta a saúde e a qualidade de vida, diz Alyan. O lixo atrai cães. Tem havido casos de moradores atacados por cães portadores de raiva. As crianças têm medo de sair à rua.
“Não há áreas de lazer. Não há absolutamente nada para as crianças”, Alyan continua. “As ruas são o único lugar que há, onde se encontram as crianças, o lixo, os carros, os cães contaminados.”
A petição protocolada pela ACRI exige que a prefeitura cumpra seus deveres legais, “nada mais, nada menos”, diz Alyan. “É dever da prefeitura garantir melhores condições de saúde pública aos moradores da cidade – inclusive aos palestinos.”
Alyan já várias vezes levou ao conhecimento das autoridades as condições de vida dos moradores de Tsur Baher
Um morador de Tsur Baher explica que as ruas são problemáticas, no bairro árabe, porque ali há poucas ruas.
Enquanto quase todos os demais bairros palestinos de Jerusalém são submetidos a restrições para construir, não há qualquer restrição em Tsur Baher, mas grande parte do território do bairro foi confiscada pela grande colônia exclusiva para judeus que está em construção ao lado do bairro, Har Homa; parte do bairro árabe de Jerusalém está localizada do lado israelense do Muro da Vergonha; e não há qualquer infraestrutura de atendimento à parte deixada do lado palestino.
A falta de vias, ruas e estradas, implica que nenhum serviço de emergência pode chegar àquelas ruas. Tem havido casos de crianças mortas em incêndios. E a polícia proíbe a entrada de ambulâncias, nos bairros palestinos, se não for acompanhada por escolta policial; por isso, em muitos casos, os residentes morrem por falta de socorro rápido.
“O problema é que nunca se encontram policiais disponíveis para a escolta”, diz um morador. “A ambulância tem de ficar à espera da escolta, às vezes por meia hora. E os doentes morrem.” “Estamos [a ACRI] preparando outra petição exatamente contra a exigência dessa escolta” – diz Alyan.
Impostos pagos
Alyan diz também que não há semáforos nas ruas de Tsur Baher, em Jerusalém. Preocupados com a segurança das crianças, os moradores coletaram dinheiro entre eles para construir lombadas e obrigar os veículos a reduzir a velocidade.
Em outros bairros palestinos de Jerusalém, os palestinos cotizam-se para pagar serviços de coleta de lixo e varredura das ruas. Tudo isso, apesar de pagarem impostos municipais.
90% dos árabes-israelenses vivem em bairros cercados, separados da população de judeus israelenses. Por causa disso, os judeus israelenses justificam a diferença de tratamento com o argumento de que “as prefeituras e subprefeituras árabes” são pobres e sem recursos. Porque são pobres, dizem os judeus, os árabes não pagariam impostos ou não pagariam taxas suficientes. Assim sendo, seus bairros e vilas não podem esperar gozar dos mesmos serviços de outros bairros nos quais os judeus pagam regularmente seus impostos. É argumento que poderia fazer algum sentido em outras cidades israelenses, mas não em Jerusalém.
Jerusalém é praticamente rachada ao meio, entre áreas exclusivas para judeus e outras nas quais os palestinos são ‘admitidos’. Se se visita Nof Tzion (“Panorama de Sion”), colônia exclusiva para judeus localizada no centro de Jabel Mukhaber, bairro tradicional palestino, as diferenças são óbvias e gritantes.
“Durante muitos anos, não houve rua principal [em Jabel Mukhaber]”, conta Alyan. “Depois que construíram a colônia exclusiva para judeus de Nof Tzion, [a prefeitura de Jerusalém] construiu ótima rua lá, com pavimentação e iluminação pública.” Mas a rua só existe dentro da colônia exclusiva para judeus. Daquele ponto em diante, a estrada volta a ser esburacada, sem iluminação, coberta de detritos e sujeira, na área do bairro dos palestinos.
É evidente que se trata da mesma prefeitura. E é ato da prefeitura beneficiar só os israelenses judeus que vivem em Jerusalém. O que não implica que os palestinos de Jerusalém não tenham importância alguma para a prefeitura de Jerusalém. De fato, são importantíssimos, porque pagam impostos, exatamente como os judeus israelenses que também vivem em Jerusalém.
“Os palestinos são obrigados a pagar seus impostos municipais, mesmo que não recebam quaisquer serviços públicos da Prefeitura de Jerusalém”, Alyan explica, “porque o recibo dos impostos pagos é o único documento que eles têm para provar a propriedade de suas casas. E quem não tiver casa em seu nome, perde o direito de residir em Jerusalém. Sem direito de residir onde sua família reside há séculos, os palestinos tornam-se cidadãos sem Estado, sem cidadania, refugiados.”
“Os palestinos residentes em Jerusalém desesperam-se mais para conseguir dinheiro para pagar os impostos municipais, do que para alimentar os filhos”, diz Alyan.
As subprefeituras de Tsur Baher e a vizinha Umm Tuba pagam aproximadamente 7 milhões de dólares anuais em taxas e impostos, a uma prefeitura para cuja eleição não podem votar.
“Guerra psicológica”
Yousef Jabareen, diretor do Dirasat, Centro Árabe de Direito e Política, explica que os serviços públicos recebem também subsídios nacionais. E aí está outro ponto de desigualdade.
Jabareen lembra que o programa “Prioridade Nacional” distribui incentivos governamentais para áreas selecionadas. Quando o programa foi implantado, em 1998, 500 colônias exclusivas para judeus e cidades israelenses receberam status de prioridade nacional. Os palestinos são cerca de 20% da população de Israel e constituem metade da população mais pobre; apesar disso, só quatro cidades israelenses de maioria árabe foram incluídas no programa nacional.
“É mais um exemplo clássico de o quanto é discriminatória a alocação de recursos governamentais”, diz Jabareen. E, diz ele, também há graves desigualdades no sistema educacional público.
Tudo – das condições da infraestrutura que está em ruínas, até a total ausência de serviços públicos – contribui para que os palestinos de Jerusalém sintam-se rejeitados e desconectados, diz Jabareen.
“É um sentimento de frustração, de desenraizamento, de não pertencer a lugar algum (...). Os palestinos sentimos como se, em Jerusalém, o governo e o Estado existissem para nos excluir, como se não fôssemos seres humanos.”
Pode-se dizer que as desigualdades que se observam em Jerusalém e as diferenças de tratamento pelo governo e pelo Estado israelenses caracterizam situação de apartheid?
“Em várias áreas, não há dúvida que há características de apartheid, o que gera graves preocupações sobre o futuro das pessoas”, diz Jabareen.
Para um jovem israelense, judeu, que acaba de prestar o serviço militar obrigatório, a coisa é simples: “É guerra psicológica. A ideia é conseguir que os palestinos saiam daqui.”
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Israel's “street apartheid”
Comentário do Arnaldo Carrilho (Embaixador do Brasil na RPDC)
E a água? No alto de cada casa e cada edifício, há caixas d'água brancas e negras, as primeiras servindo domicílios israelenses, as outras, palestinos. As brancas recolhem o líquido o tempo inteiro 24h/dia; as negras, uma hora/semana, e, às vezes, falham.
O curioso é que 97% dessas águas somadas provêm de mananciais palestinos, mas, na agora do pega-pra-capar, naturalizam-se israelenses. Num território sob ocupação, e já se completam 43 anos a da Palestina, tudo, no quotidiano de velhos, adultos, mulheres e crianças, é traumatizante e sem-saída. Escritores brasileiros amigos de Israel (Rubem Fonseca, Affonso Romano de Santanna, Marina Colassanti, o tal do
Abraços do
Arnaldo C.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
O novo plano-piloto de Israel de “decapitação”, em Jerusalém
1-7/7/2010, Khaled Amayred, Al-Ahram Weekly,
Poucos dias antes da data marcada para sua visita a Washington, dia 7/7, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu parece estar deliberadamente minando os esforços do presidente Obama para fazer avançar as “conversações indiretas” entre Israel e a Autoridade Palestina (AP).
Essa semana, organizou-se um grupo, no governo israelense, para aprovar “plano-piloto sem precedentes” de expansão das colônias exclusivas para judeus, que conseguirá efetivamente – em palavras de funcionário da AP – “decapitar” a identidade árabe de Jerusalém Leste.
O plano implica a construção de dezenas de milhares de unidade habitacionais exclusivas para judeus em Jerusalém Leste, a serem construídas em terras que são hoje propriedade de árabes.
O Conselho Municipal de Jerusalém, controlado por fanáticos judeus radicais, que pregam a limpeza étnica (expulsão) dos não-judeus, está trabalhando para obter do governo qualquer sinal de luz verde.
Em essência, o projeto que está sendo elaborado não deixará espaço algum para a expansão dos árabes em Jerusalém, definindo como “reserva para desenvolvimento judeu” todas as “áreas verdes” e espaço não construído.
A população de cerca de 270 mil árabes jerusalemitas já vivem confinados em apenas 13% da área de Jerusalém Leste; mais de 85% da área da cidade já foi tomada por autoridades israelenses desde 1967, quando Israel ocupou Jerusalém Leste e o que restava da Cisjordânia.
Segundo funcionários palestinos, o plano – se executado – será ponto sem volta no conflito entre israelenses e palestinos e sem dúvida determinará o colapso, potencialmente violento, do já incerto e periclitante processo de paz.
“Não creio que o processo de paz sobreviva àquele plano para expandir as colônias israelenses exclusivas para judeus em Jerusalém. De fato, o objetivo do plano é matar e enterrar qualquer esperança de paz que ainda haja”, disse Ghassan Al-Khatib, porta-voz da AP em Ramallah. “É mais que provocação. É a decapitação do processo de paz.”
O presidente Mahmoud Abbas da AP disse a jornalistas em Ramallah, dia 29/6, que “Nada ouvimos vindo de Israel que nos estimule a continuar negociando. Veremos o que Mitchell [enviado dos EUA] traz, dessa vez. Se trouxer respostas positivas dos israelenses, talvez seja possível evoluir para conversações diretas. Mas até agora nada ouvimos que nos estimule a dar andamento a qualquer conversação.”
Mitchell era esperado em Ramallah na 5ª-feira, 1/7; e os planos de colonização e expansão dos israelenses devem ter prioridade na agenda de discussão com Abbas. Desde que assumiu a missão de enviado à Região, Mitchell já esteve 18 vezes em Ramallah, sem, até agora, tem obtido qualquer progresso real.
Funcionários israelenses, inclusive Netanyahu, têm evitado cuidadosamente qualquer referência mais detalhada ao plano. Essa reticência parece motivada pelo desejo de não tumultuar a próxima visita de Netanyahu a Washington.
A mídia em Israel tem noticiado que o governo Obama mostra-se frustrado pelo passo muito lento do processo de paz, sobretudo pelo adiamento das conversações diretas entre israelenses e palestinos. Washington tem insistido em que os dois lados encontrem-se para conversações diretas, ainda que nada sugira que contatos diretos impliquem qualquer diferença no resultado nenhum das conversações até aqui.
Netanyahu também tem exigido que a Autoridade Palestina aceite conversações diretas. Mas é bem evidente que essas exigências só visam a dar a falsa impressão de que os palestinos dedicam-se a impedir o ‘avanço’ do processo de paz. O premier israelense pode também ter interesse em não atrair atenção para os planos radicais de expansão das colônias de ocupação exclusivas para judeus, depois de expirado o prazo de uma muito mal intencionada moratória nas construções em terras árabes, imposta, de fato, por pressão dos EUA, no início do ano.
Por outro lado, Netanyahu parece convencido de que o governo Obama é, em grande parte, tigre de papel, e que o poderoso lobby dos judeus norte-americanos derrotará o presidente, em qualquer confronto sobre Israel. Nesse ponto, o cálculo de Netanyahu não parece desprovido de boas razões. Muitos senadores e deputados dos dois partidos, nos EUA, já censuraram Obama por “pressionar excessivamente Israel”.
Ilustração dessa excessiva confiança de Israel, essa semana o governo israelense aprovou plano para demolir 22 casas de famílias árabes na área de Silwan,
Os palestinos em Jerusalém Leste, exasperados pelos incansáveis esforços israelenses para expulsá-los ou cercá-los em gueto, ameaçam levante geral. “É como se os israelenses nos empurrassem para uma situação em que nada mais temos a perder”, disse H Abu Saud, morador antigo da cidade. “Israel empurra os jerusalemitas para o confronto. O que você faria se enfrentasse perseguição e violência diária, há tanto tempo?”
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Israel's new master plan




