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domingo, 29 de agosto de 2010

Palestina: a construção de colônias do apartheid tem de parar

Em Damasco – Síria, o líder do Hamás, Khaled Meshaal, espõe para jornalistas a situação atual dos palestinos. (photo: Reuters)

26/8/2010, Khaled Amayreh, Al-Ahram n. 1013, Cairo

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu

O anúncio essa semana de que a liderança da Autoridade Palestina (AP) concordara com reiniciar “conversações diretas” com Israel, virtualmente sem impor qualquer condição, gerou consternação entre os palestinos e entre praticamente todos os grupos políticos.

Uma Autoridade Palestina visivelmente embaraçada e frustrada continua a tentar justificar e explicar uma decisão que parece ter sido tomada sob pressão, dado que o governo Obama não se cansa de pressionar aqueles líderes políticos vulneráveis, acusando-os de estar “metendo lascas de madeira nas engrenagens do processo de paz".

Líderes políticos e porta-vozes da AP têm negado veementemente que a AP tenha, finalmente, capitulado ante Israel. Afirmam e reafirmam as posições anteriores, de que a AP continua comprometida com preservar os direitos dos palestinos, e que a meta central das negociações de paz ainda é a criação de um estado palestino viável e territorialmente contíguo.

Mas nenhum dos pronunciamentos dos líderes em Ramallah é levado a sério, nem por Israel nem pelas principais forças políticas palestinas, que já acusaram a AP de ignorar a opinião pública palestina que desaprova fortemente qualquer tipo de conversação com Israel, nas atuais circunstâncias. A questão já pôs na defensiva o Fatah – principal grupo político da Autoridade Palestina.

Os porta-vozes da AP evitam atentamente qualquer contato com a imprensa, aparentemente porque nada têm a dizer que sirva como bom argumento a favor da decisão de retomar as conversações com Israel. E alguns figurões do Fatah, inclusive o presidente Mahmoud Abbas, já declararam que boicotarão as conversações previstas, a menos que Israel congele completamente a construção de novos prédios nas colônias exclusivas para judeus nos territórios ocupados. Israel e Washington já rejeitaram a precondição. Funcionários do Departamento de Estado têm repetido que “as questões sobre as quais não há acordo” serão discutidas durante as conversações (?).

Do ponto de vista ‘superior’ dos EUA, isso significa que a decisão já tomada por Israel, de recomeçar as construções nos territórios ocupados – ao final do prazo fixado para “o congelamento” (que jamais foi total) adotado há vários meses e cujo prazo expirará no próximo mês de setembro – não deve ser considerada motivo suficiente para impedir o início das conversações. Anteriormente, Abbas já alertara, em cartas a Obama e a representantes do “Quarteto”, que se Israel não mantivesse suspensas as construções de novos prédios nos territórios ocupados, as conversações de paz ficariam presas num impasse. “É impossível conduzir conversações, ao mesmo tempo em que prossegue a construção de colônias” – escreveu Abbas.

Os norte-americanos, negociadores, árbitros e juízes do “processo de paz”, ainda não se pronunciaram sobre o congelamento das construções. Fontes em Washington sugeriram que o governo de Obama mantenha-se “no ponto médio” da questão, e permita que Israel construa nas suas grandes colônias (as que estão planejadas para serem anexadas a Israel, no contexto de qualquer acordo de paz final ao qual se chegue algum dia), ao mesmo tempo em que novas construções continuem proibidas nas colônias menores a leste do Muro do Apartheid.

Alguns funcionários de Israel apóiam essa fórmula, como, dentre outros o Ministro dos serviços de inteligência Dan Meridor. Mas os ministros da direita mais linha dura que constituem o Gabinete de governo opõem-se a qualquer concessão de caráter ideológico.

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu já repetiu suas condições draconianas para a criação de um estado palestino. Falando em sessão do governo essa semana, Netanyahu avisou que não haverá qualquer tipo de acordo de paz com os palestinos, a menos que a Autoridade Palestina reconheça Israel como estado judeu. No léxico político e ideológico de Israel, “estado judeu” significa esquecer que Israel é estado colonialista e institucionalizar a discriminação religiosa contra os palestinos não judeus que vivem em Israel, como cidadãos árabes-israelenses. A expressão invoca também a possibilidade da “evicção” de centenas de milhares de cidadãos israelenses não-judeus.

Netanyahu disse que são três as condições que, se não forem atendidas, jamais haverá acordo: os palestinos deverão atender a todas as exigências de segurança de Israel; deverão reconhecer Israel como estado judeu; e deverão reconhecer também que o acordo que seja alcançado será o fim do conflito. A insistência de Netanyahu nessas condições, que tem repetido sempre, em todas as oportunidades, significa que não haverá jamais acordo de paz com os palestinos, seja qual for a intensidade da honestidade que haja nos esforços dos EUA.

Círculos em Israel esperam que os EUA, mais dia menos dia, consigam obrigar a fraca Autoridade Palestina, mediante táticas de porrete-e-cenoura, a render-se ao fato consumado, e aceitar um “para-estado” palestino, sob virtual controle de Israel. Esses círculos têm sido encorajados pela atitude “positiva” como a AP estaria “administrando” a questão das conversações, sobretudo depois da chegada, ao poder, do governo liderado pelo partido Likud, há mais de um ano. O fato de a Autoridade Palestina sempre, como agora, ter desistido de precondições cruciais, para reiniciar conversações com o governo israelense, para os mesmos círculos, mostraria que a AP pode fazer concessões a Israel, desde que suficientemente pressionada por Washington.

O Hamás, que se tem beneficiado politicamente do que considera “concessões vergonhosas feitas pela AP” a Israel, tem atacado os líderes da AP, que estariam “jogando com a causa nacional do povo palestino”. “É evidente, para quem tenha olhos e ideias na cabeça, que os líderes de Ramallah não são confiáveis, e que não se pode entregar a eles a defesa da causa dos palestinos. Só os norte-americanos confiam nesses líderes falidos. Os palestinos não confiam neles”, disse Sami Abu Zuhri, importante porta-voz de grupos islâmicos da Faixa de Gaza.

Abu Zuhri denunciou o Fatah pelo “silêncio e descaso com a causa nacional dos palestinos, que lhes valem [ao Fatah], dentre outros, alguns benefícios imediatos”. E acrescentou: “Nós, no Hamás, consideramos essas conversações catastróficas. Estão sendo organizadas para liquidar a causa palestina.”

No mesmo tom, outro partido islâmico, o Hizbul Tahrir, Partido da Libertação, atacou os líderes da AP por “viverem à espera de um Estado sem soberania nem controle sobre as próprias fronteiras, um estado controlado por Israel, um estado cuja razão de existir seria brutalizar o povo palestino, a favor de Israel.”

Se se consideram o claro viés dos EUA pró-Israel, as evidentes más intenções e a insolência do governo israelense, e a inerente fragilidade da posição dos palestinos, é mais que provável que a próxima rodada de conversações diretas entre Israel e a Autoridade Palestina leve a lugar nenhum. Em última análise, o imenso fosso que separa os dois lados não pode mais ser transposto apenas com as ferramentas clássicas das relações internacionais.

Além disso, é pouco provável que Washington, com toda a experiência que tem acumulada em questões do Oriente Médio, não perceba que é praticamente impossível alcançar qualquer conciliação histórica efetiva, para o conflito Israel-Palestina. Talvez Washington tenha decidido que a melhor solução seja manter eternamente ‘aberto’, sempre inconcluso, um processo de paz interminável.

Para os palestinos, isso significaria, apenas, que Israel continuará a criar fatos e factóides, ao mesmo tempo em que continuará a ocupar terra palestina, a fingir que negocia uma falsa paz que jamais fará, e a lamuriar-se. Em síntese, absurdum ad infinitum.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Settlement must stop


quinta-feira, 22 de julho de 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O novo plano-piloto de Israel de “decapitação”, em Jerusalém

1-7/7/2010, Khaled Amayred, Al-Ahram Weekly, Cairo traduzido por Caia Fittipaldi

Poucos dias antes da data marcada para sua visita a Washington, dia 7/7, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu parece estar deliberadamente minando os esforços do presidente Obama para fazer avançar as “conversações indiretas” entre Israel e a Autoridade Palestina (AP).

Essa semana, organizou-se um grupo, no governo israelense, para aprovar “plano-piloto sem precedentes” de expansão das colônias exclusivas para judeus, que conseguirá efetivamente – em palavras de funcionário da AP – “decapitar” a identidade árabe de Jerusalém Leste.

O plano implica a construção de dezenas de milhares de unidade habitacionais exclusivas para judeus em Jerusalém Leste, a serem construídas em terras que são hoje propriedade de árabes.

O Conselho Municipal de Jerusalém, controlado por fanáticos judeus radicais, que pregam a limpeza étnica (expulsão) dos não-judeus, está trabalhando para obter do governo qualquer sinal de luz verde.

Em essência, o projeto que está sendo elaborado não deixará espaço algum para a expansão dos árabes em Jerusalém, definindo como “reserva para desenvolvimento judeu” todas as “áreas verdes” e espaço não construído.

A população de cerca de 270 mil árabes jerusalemitas já vivem confinados em apenas 13% da área de Jerusalém Leste; mais de 85% da área da cidade já foi tomada por autoridades israelenses desde 1967, quando Israel ocupou Jerusalém Leste e o que restava da Cisjordânia.

Segundo funcionários palestinos, o plano – se executado – será ponto sem volta no conflito entre israelenses e palestinos e sem dúvida determinará o colapso, potencialmente violento, do já incerto e periclitante processo de paz.

“Não creio que o processo de paz sobreviva àquele plano para expandir as colônias israelenses exclusivas para judeus em Jerusalém. De fato, o objetivo do plano é matar e enterrar qualquer esperança de paz que ainda haja”, disse Ghassan Al-Khatib, porta-voz da AP em Ramallah. “É mais que provocação. É a decapitação do processo de paz.”

O presidente Mahmoud Abbas da AP disse a jornalistas em Ramallah, dia 29/6, que “Nada ouvimos vindo de Israel que nos estimule a continuar negociando. Veremos o que Mitchell [enviado dos EUA] traz, dessa vez. Se trouxer respostas positivas dos israelenses, talvez seja possível evoluir para conversações diretas. Mas até agora nada ouvimos que nos estimule a dar andamento a qualquer conversação.”

Mitchell era esperado em Ramallah na 5ª-feira, 1/7; e os planos de colonização e expansão dos israelenses devem ter prioridade na agenda de discussão com Abbas. Desde que assumiu a missão de enviado à Região, Mitchell já esteve 18 vezes em Ramallah, sem, até agora, tem obtido qualquer progresso real.

Funcionários israelenses, inclusive Netanyahu, têm evitado cuidadosamente qualquer referência mais detalhada ao plano. Essa reticência parece motivada pelo desejo de não tumultuar a próxima visita de Netanyahu a Washington.

A mídia em Israel tem noticiado que o governo Obama mostra-se frustrado pelo passo muito lento do processo de paz, sobretudo pelo adiamento das conversações diretas entre israelenses e palestinos. Washington tem insistido em que os dois lados encontrem-se para conversações diretas, ainda que nada sugira que contatos diretos impliquem qualquer diferença no resultado nenhum das conversações até aqui.

Netanyahu também tem exigido que a Autoridade Palestina aceite conversações diretas. Mas é bem evidente que essas exigências só visam a dar a falsa impressão de que os palestinos dedicam-se a impedir o ‘avanço’ do processo de paz. O premier israelense pode também ter interesse em não atrair atenção para os planos radicais de expansão das colônias de ocupação exclusivas para judeus, depois de expirado o prazo de uma muito mal intencionada moratória nas construções em terras árabes, imposta, de fato, por pressão dos EUA, no início do ano.

Por outro lado, Netanyahu parece convencido de que o governo Obama é, em grande parte, tigre de papel, e que o poderoso lobby dos judeus norte-americanos derrotará o presidente, em qualquer confronto sobre Israel. Nesse ponto, o cálculo de Netanyahu não parece desprovido de boas razões. Muitos senadores e deputados dos dois partidos, nos EUA, já censuraram Obama por “pressionar excessivamente Israel”.

Ilustração dessa excessiva confiança de Israel, essa semana o governo israelense aprovou plano para demolir 22 casas de famílias árabes na área de Silwan, em Jerusalém Leste. A demolição gigante é parte de plano mais amplo para demolir centenas de casas árabes naquela área densamente povoada de árabes. Israel diz que planeja construir um parque talmúdico e instalações para turistas, que tornem a área mais “atraente”.

Os palestinos em Jerusalém Leste, exasperados pelos incansáveis esforços israelenses para expulsá-los ou cercá-los em gueto, ameaçam levante geral. “É como se os israelenses nos empurrassem para uma situação em que nada mais temos a perder”, disse H Abu Saud, morador antigo da cidade. “Israel empurra os jerusalemitas para o confronto. O que você faria se enfrentasse perseguição e violência diária, há tanto tempo?”

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Israel's new master plan