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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Tensões EUA-Rússia borbulham no Oriente Médio

17/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sede europeia da ONU em Genebra onde será realizado a reunião Genebra-2 sobre a Síria
A menos de uma semana do início da conferência Genebra-2 sobre a Síria, o grupo de oposição moderada Coalizão Nacional Síria [orig. Syrian National Coalition (SNC)] ainda não decidiu se participará ou não. Os representantes curdos dissociaram-se; a oposição dentro da Síria exige representação separada; os grupos rebeldes que combatem dentro da Síria mostram-se desinteressados. É quadro desencorajador.

Entrementes, os dois principais promotores de Genebra-2 – Moscou e Washington – também endureceram suas posições. A reunião “trilateral” (Rússia, Irã e Síria) de ministros de Relações Exteriores, na 5ª-feira (16/1/2014) em Moscou, carrega muito mais simbolismo político e será vista em Washington como show de desafio, digam os envolvidos o que disserem. A página israelense DebkaFile, que tem laços com agências de segurança, já fala de um plano máster iraniano. 

 (E) Mohammad Javad Zarif, MRE do Irã, (C) Sergey Lavrov, MRE da Rússia e o (D) MRE da Síria, Walid al-Moallen, após a conferência de imprensa em Moscou (16/1/2014)

Já se especula até sobre um “eixo” russo-iraniano-sírio (virada dramática, é claro, no roteiro). De fato, o importante é que o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, apareceu com resposta rápida.

Em declaração dura, num briefing organizado às pressas no Departamento de Estado em Washington, John Kerry fez referência quase às claras ao “revisionismo recente” da Rússia sobre Genebra-2. Kerry disse que “o único objetivo” de Genebra-2 será implementar o comunicado de 2012 [EUA-Rússia]. Alertou contra “os que estão procurando re-escrever a história, ou agitar as águas” nesse momento:

John Kerry
[Genebra-2] é para estabelecer um processo essencial à formação de um corpo governamental de transição – um corpo de governo com plenos poderes executivos estabelecido por consentimento mútuo (...) Qualquer nome para a liderança da transição na Síria deve ser apresentado conforme os termos de Genebra-1. E todas as reiterações disso sendo o coração e a alma de Genebra-2, os nomes devem ser aprovados pelos dois lados, pela oposição e pelo regime. É a própria definição de consentimento mútuo. Significa que qualquer figura considerada inaceitável por qualquer dos lados, seja o presidente Assad ou membro da oposição, não pode ser parte do futuro.


(...) embora a Síria tenha-se convertido no “mais forte ímã para o terror, de todos os locais, hoje – para “jihadistas e extremistas” – é “um desafio à lógica imaginar” que a luta contra isso possa jamais ser liderada por Assad. Kerry repetiu que “está além de qualquer lógica e de qualquer bom senso” que Assad possa de algum modo levar a Síria “rumo a um melhor futuro”.

Tomando emprestada a conhecida expressão de T.S. Eliot para o mundo da estética, Kerry serviu-se de um correlato objetivo [1] para expressar forte emoção quanto aos recentes movimentos diplomáticos dos russos. Vários fatores contribuem para a irritação crescente em Washington.

Primeiro e sobretudo, há o problema do Irã. Dito de forma simples: exatamente quando é fator absolutamente crítico que não haja intervenção de terceiros na agenda de engajamento em conversações diretas entre o governo Obama e o Irã, que está entrando em fase crucial, a Rússia decide aparecer com alarido.

No instante em que ouviu que o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, estava viajando para Moscou, Kerry telefonou para seu contraparte russo Sergey Lavrov, para dissuadir a Rússia de concluir o negócio de troca de petróleo por produtos com o Irã, que pode resultar em 50% de aumento nas exportações iranianas de petróleo e acrescentar $18 bilhões aos ganhos de Teerã com exportações, catapultando a Rússia para o posto de principal comprador do cru iraniano. Lavrov teria respondido “Nyet” [ru. “Não”].

Evidentemente, Washington sabe que a Rússia, czar do petróleo mundial, não precisa importar cru iraniano – nem as refinarias russas são preparadas para usar o cru iraniano, nem a Rússia tem portos de petróleo organizados para gerir importações. O governo Obama deve ter avaliado que a Rússia poderia embarcar o cru iraniano, re-rotulá-lo simplesmente como “russo”, e vendê-lo – digamos, para Índia ou China. (Menciono a Índia, porque a União Soviética certa vez forneceu cru iraquiano obtido numa troca entre Moscou e Bagdá, numa situação semelhante de tensões regionais).  

Em termos econômicos, a Rússia estaria garantindo uma linha salva-vidas essencial ao Irã, agindo como intermediário na exportação de seu cru, escapando às sanções ocidentais. E em termos políticos, Moscou estaria abrindo espaço diplomático muito maior para o Irã nas próximas negociações com os EUA. Washington está evidentemente abalada.

Vladimir Putin retratado por Maurício Porto
Não há dúvidas de que o Kremlin movimenta-se no tabuleiro do Oriente Médio com firmeza de Grande-Mestre de xadrez. O presidente Putin é esperado em visita a Teerã “em breve”. As duas potências regionais caminham na direção de uma ampla re-estruturação de sua parceria estratégica.

Estão renegociando o controverso fornecimento, pelos russos, do sistema de mísseis S-300 de defesa (que é ponto ainda sensível dos laços bilaterais); a Rússia vê com bons olhos a construção de mais usinas nucleares no Irã; as empresas russas de petróleo buscam parceiros para explorar e desenvolver campos iranianos de petróleo e gás.

Bem evidentemente, a Rússia está se posicionando em vantajosamente no mercado iraniano, antes da chegada das empresas ocidentais (o jornal russo Kommersant oferece excelente apanhado [não encontramos versão em outra língua] do conjunto de motivações que estão impulsionando a avançada diplomática de Moscou na direção de Teerã).

Outros fatores do relacionamento Rússia-EUA também estão entrando em cena. A Rússia está agora desafiando abertamente a prerrogativa, que o governo Obama entende que seria dele, de convidar o Irã a participar de Genebra-2. Interessante: Putin mencionou o Afeganistão, dentre outras questões, na conversa que teve com Zarif, no Kremlin, ontem, como área na qual poderia haver coordenação e cooperação russo-iraniana.

A Rússia, em breve, poderá se tornar o maior comprador de petróleo iraniano do mundo
Mas, por outro lado, Moscou agora terá de enfrentar o revide. O governo Obama fará de tudo para ser o desmancha prazeres nos próximos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, que o Kremlin prepara com atenção extrema. Além disso, a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA reuniu-se em Washington na 4ª-feira(15/1/2014), para discutir a Ucrânia; as críticas concentraram-se contra as aberturas do Kremlin na direção do presidente Viktor Yanukovich.

A Ucrânia está no primeiro círculo dos interesses geoestratégicos russos; e, na avaliação de Washington, a absorção da Ucrânia na área da União Europeia (e da OTAN) é absolutamente imperativa, para empurrar a Rússia para posição de xeque-mate na Eurásia.

Ao que parece, os EUA estão arregimentando seus parceiros europeus para que façam oposição unida às políticas de Moscou na Ucrânia e expandindo a campanha de propaganda pró democracia e direitos humanos.
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Nota dos tradutores
[1]. Em português, há alguma coisa sobre o conceito em: Teoria da Literatura II/Aula 02/ Formalismo/ New Criticism e Fenomenologia.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bandar “Bush”(Arábia Saudita) apresenta plano revisto sobre a Síria... Putin rejeita tudo.

11/12/2013, Al-Manar TV
(traduzido do árabe/inglês e interpretado por Intibah & Ghassan)
Distribuído (em inglês) no Facebook, por Pepe Escobar)
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu

“Putin recomendou que Bandar consulte um bom taxidermista”

Bandar bin Sultan e Vladimir Putin na reunião de 6/12/2013
A reunião, semana passada em Moscou, entre Putin e Bandar, foi simplesmente apagada da imprensa-empresa universal e nada transpirou para o resto do mundo, até que Al-Manar mais uma vez publicou “vazamentos” detalhados, hoje, no artigo que se lê (em árabe) no endereço acima. São mais uma vez “vazamentos” obtidos de “fonte segura e confiável” na Rússia. É óbvio que depois do fracasso abissal da primeira visita de Bandar a Putin em agosto, e depois de seu desapontamento, quando os EUA não atacaram a Síria, Bandar voltou à Rússia com uma agenda revista, numa desesperada tentativa de obter algum resultado, qualquer um, que o salve de descomunal humilhação, seja em casa, seja em todo o planeta.

O artigo é de autoria de Daoud Rammal e cobre basicamente os seguintes pontos:

Bandar teve a ousadia de voltar e dizer a Putin que aceita que, quando se reunir a conferência de Genebra-2, Al-Assad permaneça no governo durante uma etapa de transição, sob a condição de que o poder administrativo seja entregue a um colegiado a ser constituído, e que deverá incluir representantes de todas as facções, apoiadores e oposição, e sob a condição de que seja chefiado por membro da oposição. Durante esse período, a Arábia Saudita deseja que a liderança russa pressione Assad para que não convoque eleições presidenciais em 2014 e permaneça no poder como interino até que se redija e aprove-se nova Constituição, depois do que, sim, pode haver eleição presidencial. Disse também que a Arábia Saudita está preparada para considerar a possibilidade de contribuir para a reconstrução da Síria.

A resposta de Putin foi:

  • A Síria está obtendo incontáveis vitórias; e a oposição armada por Arábia Saudita e Qatar e Turquia só tem conhecido derrotas.
  • As forças armadas apoiadas pela Arábia Saudita nada têm a ver com a oposição que deseja mudanças democráticas; e a intervenção dos sauditas destruiu aquela oposição, para dizer o mínimo.
  • As forças armadas de que a Arábia Saudita fala como se fossem alguma oposição não passam – do ponto de vista da Rússia – de bandos terroristas; a verdadeira oposição é representada por civis.
  • Nem a Rússia nem a Síria precisam de dinheiro saudita para reconstruir a Síria.
  • A Síria tem aliados – russos, iranianos ou chineses, dentre outros – que têm comprovada competência técnica e capacidade financeira para reconstruir a Síria, até, para que seja melhor do que antes.
  • A Federação Russa e os EUA já obtiveram entendimento estável e final sobre a situação na Síria e na região, e o lado americano está tão convencido quanto nós, russos, de que o terrorismo Takfiri representa perigo para a segurança dos EUA, para a segurança da Rússia e para a segurança global.
  • A Europa já está muito próxima de alinhar-se com a posição dos EUA e já se ouvem vozes de temor, que falam de os terroristas começarem a voltar à Europa, depois de terem sido autorizados a sair de lá para ir para a Síria.
  • Os russos aconselhamos vivamente a Arábia Saudita e todos os que trabalham contra uma solução política e pacífica para o conflito sírio a modificar suas políticas e a parar com qualquer ato de provocação e instigação sectária; aconselhamos também vivamente que cortem todo o apoio ao terrorismo, porque essa é espada de dois gumes que repercutirá também dentro da Arábia Saudita, e com tal impulso que o governo da Arábia Saudita não conseguirá contê-la.
  • A atual posição da Arábia Saudita e a constituição do Reino Saudita não os põem em posição para liderar “mudanças de regime” em outros pontos do mundo, nem para fixar parâmetros de respeito a direitos humanos e democracia, enquanto o povo saudita padece sem liberdade política, religiosa e de informação; com as mulheres sauditas sem direito a usufruir sequer os direitos mais mínimos.
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[*] Daoud Rammal é um jornalista libanês sediado em Beitute. Escreve usualmente na imprensa do Oriente Médio (Al Manar, Al Monitor e outras publicações em papel ou eletrônicas). Algumas vezes seus trabalhos são publicados na imprensa eletrônica ocidental como no sítio Rebelión da Espanha, p.ex..

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Síria: Em vez de cortejar islamistas, por que a Casa Branca não conversa com Assad?

4/12/2013, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jabhat (Frente) al-Nusra, braço da al-Qaeda, dialogando com os EUA
Funcionários dos EUA estão conversando com comandantes da nova Frente Islamista na Síria; e inventando que essa seria agora alguma alternativa “moderada” à Al-Qaeda:

Os EUA e aliados mantiveram conversações diretas com milícias islamistas chaves na Síria, disseram funcionários ocidentais, com o objetivo de conter a al-Qaeda, ao mesmo tempo em que reconhecem que as milícias religiosas tantas vezes combatidas por Washington venceram no campo de batalha.

Simultaneamente, a Arábia Saudita vai ainda mais longe, cuidando de armar diretamente e financiar um dos grupos islamistas, o Exército do Islã, o que tem gerado muitas preocupações em Washington.

...

Os sauditas e o ocidente estão em movimento de pivô na direção de uma coalizão recém criada de milícias religiosas chamada Frente Islâmica, que exclui os principais grupos ligados à al-Qaeda que lutam na Síria – a Frente Nusra e o Exército Estado Islâmico do Iraque e Levante (Islamic State of Iraq and the Sham, ISIS).
...

Diplomatas ocidentais disseram que seu engajamento com os islamistas também visa a afastar algumas milícias poderosas para longe da Frente Al-Nusra e de outros grupos ligados à al-Qaeda. “Entendemos que são grupos que, se não fizermos nada, podem caminhar na direção de mais radicalização” – disse um diplomata ocidental.

Puro absurdo. Os principais grupos que formaram a Frente Islâmica são Liwa al-Tawhid e Ahrar al-Sham, os quais, ambos, regularmente trocam recursos e cooperam com a Frente Jabhat al- Nusra ligada à al-Qaeda e com o grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante. Têm as mesmas raízes e constituíram-se antes do início dos primeiros protestos na Síria. Os dois grupos estiveram envolvidos em vários pogroms contra o povo sírio que não aceita o programa desses grupos, de imposição da Lei da Xaria.

Liwa al-Tawhid aliados à al-Qaeda, combatem contra Assad
A única alternativa a uma anarquia comandada pela Al-Qaeda na Síria é um estado presidido pelo presidente Bashar al-Assad e seu partido. Cooperar com Assad é a única via que o “ocidente” tem para impedir que se forme mais um novo estado de islamistas fanáticos junto à fronteira sul da OTAN. E isso já era óbvio há dois anos, quando escrevi, em fevereiro de 2012:

Uma Síria derrotada pelo terror, seguida de grandes massacres sectários e de vastos fluxos de refugiados, o que com certeza fará com que os combates se alastrem para os países vizinhos. Isso não pode interessar a ninguém.

É hora de o “ocidente” não só retroceder, mas dar meia volta e passar a ajudar Assad a combater os terroristas que querem destruir o país dele.


Ryan C. Crocker
Partes do governo Obama parecem estar, finalmente, chegando à mesma conclusão óbvia:

Temos de começar a conversar outra vez com o governo de Assad sobre contraterrorismo e outras questões de nosso mútuo interesse – disse Ryan C. Crocker, veterano diplomata que serviu na Síria, no Iraque e no Afeganistão. – Terá de ser feito muito, muito discretamente. Mas, por pior que Assad seja, ele não é tão ruim quanto os jihadis que assumirão se Assad não estiver lá.

Infelizmente, a Casa Branca (ainda) não está prestando atenção a Crocker:

Ainda não está claro se, ou quando, a Casa Branca se disporá a uma mudança tão abrupta em sua abordagem, depois de anos de apoio à oposição síria e de muito clamar pela deposição do presidente Assad. Com certeza, serão necessárias delicadas negociações com aliados no Oriente Médio que são apoiadores generosos, e há muito tempo, de grupos rebeldes na Síria, sobretudo a Arábia Saudita.

Não sei qual seria o problema com a Arábia Saudita. Esse país não tem alternativa, a não ser permanecer sob o guarda-chuva de segurança dos EUA. A Casa Branca deve dizer ao rei Abdullah saudita que ponha fim ao exército de terroristas mercenários do príncipe Bandar bin Sultan na Síria, “porque se não...”.

Os sauditas realmente desejam confrontação fundamental com os EUA, exatamente quando o Irã já se apresenta como alternativa viável para influenciar o Golfo Persa a favor dos EUA?




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A inevitabilidade da 3ª Intifada

23/10/2013, Dmitry Minin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A necessidade de uma 3ª Intifada...
A diplomacia norte-americana, que vem sofrendo fracasso após fracasso no Oriente Médio, enfrenta agora a possibilidade de mais um fracasso gigante, que ameaça fazer ruir de uma vez toda a estratégia da Casa Branca para aquela região.

Veem-se a cada dia sinais cada vez mais claros, de que o indolente processo da reconciliação palestinos-israelenses, que por hora permanece nas sombras, pode ser rompido a qualquer momento, e converter-se na fase mais quente de uma 3ª Intifada.

Tendo arrogantemente posto de lado o “quarteto” de mediadores, Washington nada obteve em termos de reconciliação, e isso pode levar a mais dores e dificuldades no novo Oriente Médio. Para vários especialistas, ao fazer do processo de paz no Oriente Médio sua absoluta prioridade, o secretário de Estado Kerry elevou de tal modo a aposta que:

(...) se seus esforços derem em nada, demorará muito tempo para que outro volte a tentar.

Elliott Abrams
Elliott Abrams, por exemplo, que foi alto funcionário do Conselho de Segurança Nacional do governo do presidente George W. Bush, disse que não vê possibilidade realistas de que, agora, se possa alcançar qualquer tipo de acordo.

Só espero que haja duas equipes do Departamento de Estado: uma para manter as conversações; e a outra para planejar o que fazer quando as conversações derem em nadadisse ele.

As ações do “único mediador” deliberadamente condenaram as negociações ao fracasso. Os EUA usaram um truque simples: prometeram aos dois lados que atenderiam todas as respectivas “demandas legítimas”, e ofereceram cartas de garantia a israelenses e palestinos. Os EUA prometeram aos palestinos que negociariam usando, como base, as fronteiras de 1967; e prometeram a Israel que as fronteiras finais não seriam as de 1967. Os palestinos reclamam que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, lhes garantiu a inviolabilidade das fronteiras de 1967; e que só por isso aceitaram retomar o processo de paz. Agora, os norte-americanos refutam essa informação. Netanyahu também nega a existência de tais cartas de garantias.

Noam Sheizaf 
Washington concordou, essencialmente, com o que o primeiro-ministro israelense exigiu (que não se discutissem, nas negociações, as questões das fronteiras de 1967 nem a divisão de Jerusalém. Como Noam Sheizaf escreveu no jornal israelense Maariv, os esforços de John Kerry para mostrar algum tipo de resultado de suas atividades no Oriente Médio levaram-no a trair os acordos fundamentais firmados durante o doloroso processo de negociação (que começou com o programa de Clinton e terminou com o “mapa do caminho”).

Segundo especialistas,

(...) Netanyahu também enganou os americanos (quem pagará o preço dessa vitória de Pirro é outra história). Depois de três anos de obstinação, o governo Obama cedeu e aceitou que se anulassem todos os acordos já firmados antes entre as partes, durante as negociações em Taba e Annapolis.

Tzipi Livni
No momento, Netanyahu não está tão preocupado com a posição de Washington, mas com as ações independentes da negociadora israelense oficial, a ministra da Justiça Tzipi Livni, indicada por insistência dos norte-americanos e que tende a tomar posições mais suaves que as do primeiro-ministro. Tzipi Livni apóia a ideia de dividir Jerusalém; Netanyahu opõe-se totalmente. Livni pode vir a aceitar a demolição parcial das construções israelenses em territórios palestinos ocupados; Netanyahu insiste em que as construções nas colônias são intocáveis. Livni está disposta a aceitar o uso de forças internacionais no vale do Jordão; Netanyahu insiste na presença de forças israelenses.

Mas os medos do primeiro-ministro de Israel são muito exagerados. Livni tem de conseguir aprovação do chefe de governo, para as posições que defenda, o que implica que o governo tem a palavra final. Além disso, Yitzhak Molcho, representante pessoal de Netanyahu, participa de todas as negociações e monitora as ações de Livni.

No campo palestino, ninguém, tampouco, conta com alguma possibilidade de sucesso.

Decidimos reagir positivamente aos pedidos infindáveis dos EUA para que se reiniciasse o tal “processo de paz”, para satisfazê-los e evitar possíveis acusações de que estaríamos fazendo alguma política de recusa eterna – admitiu um dos negociadores da OLP.

Os palestinos sabem que, na atual situação,

(...) Israel jamais concordará em devolver a terra que roubou na guerra de 1967, nem, e muito menos, em admitir o retorno dos refugiados palestinos.

Os palestinos, sobretudo, entendem que, se se levam em conta os sentimentos que hoje predominam em Israel,

(...) qualquer governo israelense que aceite devolver a Cisjordânia e retirar-se de volta para as fronteiras de 4/6/1967 estará cometendo suicídio político.

É verdade que, resultado de muitos anos de propaganda, a grande maioria dos israelenses não estão inclinados a apoiar qualquer concessão aos palestinos. Resultados de pesquisa feita no país, com 4.774 respondentes, são desanimadores. 70% dos pesquisados, por exemplo, sentem que não faz sentido algum assinar qualquer tratado de paz com o governo de Mahmud Abbas. Apenas 17,5% dos respondentes entendem o contrário disso. Mais de 87% creem que não será possível chegar à assinatura de um tratado de paz entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina, como resultado das atuais negociações. Só 2% creem que tal resultado seja possível. 73% entendem que o conflito Israel-Palestino jamais terá solução. 14,5% entendem que, sim, chegará ao fim; mas só depois de 2030.

Uma das perguntas dessa pesquisa foi:

Que concessões você considera aceitáveis, em nome de alcançar-se um acordo de paz com o governo da Autoridade Palestina?

Cerca de 48% responderam “Nenhuma”. 1,5% consideram aceitável a volta dos refugiados palestinos ; 2,4% consideram aceitável a completa evacuação de toda a população de judeus da Cisjordânia; 3,1% consideram aceitável o retorno às fronteiras de 1967; e menos de 7% dos entrevistados consideram aceitável dividir Jerusalém.


Essas reações e pensamentos são alimentados por argumentos doutrinários dos estrategistas israelenses. Merece destaque um relatório preparado pelo Centro Begin-Sadat (BESA) para Pesquisa Estratégica, que leva o característico título de “O Tempo corre a favor de Israel”. O relatório argumenta que a vantagem de Israel sobre os adversários regionais, em termos de medidas agregadas de poder nacional, jamais foi tão ampla quanto hoje, e que essa tendência continuará no longo prazo. Em vasta medida, essa situação foi consequência da desestabilização de países vizinhos, depois da “Primavera Árabe”. Os argumentos do campo da esquerda em Israel, para um rápido acordo da questão palestina, podem ser considerados sem substância. Não há qualquer real ameaça contra Israel e, assim, não se vê qualquer necessidade, para Israel, de fazer concessões.

O desacordo entre os países árabes e o Irã cresceu ao ponto de que a preocupação deles com a questão palestina foi deslocada para o fundo da cena, e eles vão-se tornando potenciais aliados de Israel. Essa é a razão pela qual Telavive insiste tanto sobre “a ameaça iraniana”. Depois de 65 anos de existência, Israel já pode confiar que superará os desafios que apareçam pela frente.

Por mais que a paz seja desejável, não é condição necessária para a sobrevivência – conclui Efraim Inbar, autor do relatório do BESA Center.

Não surpreende que algumas das sugestões de Israel, nesse ponto das negociações, sejam deliberada e acintosamente inaceitáveis, para não dizer que são acintosamente zombeteiras. Por exemplo, segundo informação do jornal Maariv, nas negociações com os palestinos, os israelenses têm planos de oferecer um acordo parcial, sob o princípio da “anexação em troca de anexação”. Na essência, Israel oferecerá anexar parte da Cisjordânia ao sul (Gush Etzion), em troca de Israel transferir parte do território da Cisjordânia ao norte (na área de Shechem), hoje sob controle dos israelenses e da Autoridade Palestina. Em outras palavras,Israel oferece aos palestinos não território israelense, como definido nos acordos de Camp David em 2000 e de Annapolis em 2008, mas... território palestino! O próprio Ariel Kachane, autor do artigo, admite que há poucas chances de os palestinos aceitarem essa oferta.

O jornal pan-árabe Al-Hayat noticia que Israel insiste em manter o controle e a presença de soldados israelenses no vale do rio Jordão; quer criar estações de alerta ao longo do rio; monitorar a movimentação de pessoas entre a Cisjordânia e a Jordânia; e preservar as bases militares nos pontos mais altos da Cisjordânia. O vale do Jordão seria parte do futuro estado palestino, mas será transferido a Israel, em “empréstimo” de longo prazo. Os israelenses continuam a insistir que toda a fronteira com a Jordânia permaneça sob controle do exército de Israel.

Naturalmente, todas essas sugestões são absolutamente inaceitáveis para os palestinos. Na Assembleia Geral da ONU, o presidente palestino [Abbas] disse claramente que só há acordo possível, nas fronteiras de 1967. Os palestinos recusam-se a:

(...) entrar no sorvedouro de um novo acordo provisório que vai eternizando – disse Abbas. Nosso objetivo é obter acordo amplo e permanente, e um acordo de paz entre os estados da Palestina e de Israel que decida todas as grandes questões e responda todas as perguntas; que nos permita declarar oficialmente o fim do conflito e das exigências.

Mahmoud Abbas discursa na Assembleia Geral da ONU
E alertou que essa, provavelmente, é a última oportunidade para que Israel e Palestina decidam o conflito pela via pacífica.

Nos dois campos vai-se instalando a conclusão de que é cada dia mais inevitável o início de uma terceira Intifada. O jornal israelense Haaretz escreveu que:

Se o processo de negociação desandar completamente, por causa da inabilidade de Netanyahu, incapaz de enfrentar a pressão dentro de seu partido, começarão os tumultos nos territórios, que podem converter-se numa nova Intifada.

O atual governo de Israel está convicto de que se se mantiver irredutível, acabará por conseguir impor-se. De fato, não há dados de realidade que justifiquem toda essa autoconfiança; afinal, os desafios que aguardam Israel podem ser mais assimétricos. Um novo levante palestino é perfeitamente capaz de complicar muito a situação em toda a região e de gerar graves perdas econômicas e diplomáticas para Telavive.

Como alerta o Haaretz, Netanyahu está pondo seu país em risco. Tradicionalmente, o fracasso de negociações sempre foi o gatilho para o início de mais uma onda de violência no Oriente Médio. O fracasso dessa específica rodada de negociações, escreve o jornal,

(...) comprometerá ainda mais o status de Israel. O mundo está farto de ocupações, e nenhuma explicação, nunca mais, conseguirá eximir Israel de sua responsabilidade.