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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A inevitabilidade da 3ª Intifada

23/10/2013, Dmitry Minin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A necessidade de uma 3ª Intifada...
A diplomacia norte-americana, que vem sofrendo fracasso após fracasso no Oriente Médio, enfrenta agora a possibilidade de mais um fracasso gigante, que ameaça fazer ruir de uma vez toda a estratégia da Casa Branca para aquela região.

Veem-se a cada dia sinais cada vez mais claros, de que o indolente processo da reconciliação palestinos-israelenses, que por hora permanece nas sombras, pode ser rompido a qualquer momento, e converter-se na fase mais quente de uma 3ª Intifada.

Tendo arrogantemente posto de lado o “quarteto” de mediadores, Washington nada obteve em termos de reconciliação, e isso pode levar a mais dores e dificuldades no novo Oriente Médio. Para vários especialistas, ao fazer do processo de paz no Oriente Médio sua absoluta prioridade, o secretário de Estado Kerry elevou de tal modo a aposta que:

(...) se seus esforços derem em nada, demorará muito tempo para que outro volte a tentar.

Elliott Abrams
Elliott Abrams, por exemplo, que foi alto funcionário do Conselho de Segurança Nacional do governo do presidente George W. Bush, disse que não vê possibilidade realistas de que, agora, se possa alcançar qualquer tipo de acordo.

Só espero que haja duas equipes do Departamento de Estado: uma para manter as conversações; e a outra para planejar o que fazer quando as conversações derem em nadadisse ele.

As ações do “único mediador” deliberadamente condenaram as negociações ao fracasso. Os EUA usaram um truque simples: prometeram aos dois lados que atenderiam todas as respectivas “demandas legítimas”, e ofereceram cartas de garantia a israelenses e palestinos. Os EUA prometeram aos palestinos que negociariam usando, como base, as fronteiras de 1967; e prometeram a Israel que as fronteiras finais não seriam as de 1967. Os palestinos reclamam que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, lhes garantiu a inviolabilidade das fronteiras de 1967; e que só por isso aceitaram retomar o processo de paz. Agora, os norte-americanos refutam essa informação. Netanyahu também nega a existência de tais cartas de garantias.

Noam Sheizaf 
Washington concordou, essencialmente, com o que o primeiro-ministro israelense exigiu (que não se discutissem, nas negociações, as questões das fronteiras de 1967 nem a divisão de Jerusalém. Como Noam Sheizaf escreveu no jornal israelense Maariv, os esforços de John Kerry para mostrar algum tipo de resultado de suas atividades no Oriente Médio levaram-no a trair os acordos fundamentais firmados durante o doloroso processo de negociação (que começou com o programa de Clinton e terminou com o “mapa do caminho”).

Segundo especialistas,

(...) Netanyahu também enganou os americanos (quem pagará o preço dessa vitória de Pirro é outra história). Depois de três anos de obstinação, o governo Obama cedeu e aceitou que se anulassem todos os acordos já firmados antes entre as partes, durante as negociações em Taba e Annapolis.

Tzipi Livni
No momento, Netanyahu não está tão preocupado com a posição de Washington, mas com as ações independentes da negociadora israelense oficial, a ministra da Justiça Tzipi Livni, indicada por insistência dos norte-americanos e que tende a tomar posições mais suaves que as do primeiro-ministro. Tzipi Livni apóia a ideia de dividir Jerusalém; Netanyahu opõe-se totalmente. Livni pode vir a aceitar a demolição parcial das construções israelenses em territórios palestinos ocupados; Netanyahu insiste em que as construções nas colônias são intocáveis. Livni está disposta a aceitar o uso de forças internacionais no vale do Jordão; Netanyahu insiste na presença de forças israelenses.

Mas os medos do primeiro-ministro de Israel são muito exagerados. Livni tem de conseguir aprovação do chefe de governo, para as posições que defenda, o que implica que o governo tem a palavra final. Além disso, Yitzhak Molcho, representante pessoal de Netanyahu, participa de todas as negociações e monitora as ações de Livni.

No campo palestino, ninguém, tampouco, conta com alguma possibilidade de sucesso.

Decidimos reagir positivamente aos pedidos infindáveis dos EUA para que se reiniciasse o tal “processo de paz”, para satisfazê-los e evitar possíveis acusações de que estaríamos fazendo alguma política de recusa eterna – admitiu um dos negociadores da OLP.

Os palestinos sabem que, na atual situação,

(...) Israel jamais concordará em devolver a terra que roubou na guerra de 1967, nem, e muito menos, em admitir o retorno dos refugiados palestinos.

Os palestinos, sobretudo, entendem que, se se levam em conta os sentimentos que hoje predominam em Israel,

(...) qualquer governo israelense que aceite devolver a Cisjordânia e retirar-se de volta para as fronteiras de 4/6/1967 estará cometendo suicídio político.

É verdade que, resultado de muitos anos de propaganda, a grande maioria dos israelenses não estão inclinados a apoiar qualquer concessão aos palestinos. Resultados de pesquisa feita no país, com 4.774 respondentes, são desanimadores. 70% dos pesquisados, por exemplo, sentem que não faz sentido algum assinar qualquer tratado de paz com o governo de Mahmud Abbas. Apenas 17,5% dos respondentes entendem o contrário disso. Mais de 87% creem que não será possível chegar à assinatura de um tratado de paz entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina, como resultado das atuais negociações. Só 2% creem que tal resultado seja possível. 73% entendem que o conflito Israel-Palestino jamais terá solução. 14,5% entendem que, sim, chegará ao fim; mas só depois de 2030.

Uma das perguntas dessa pesquisa foi:

Que concessões você considera aceitáveis, em nome de alcançar-se um acordo de paz com o governo da Autoridade Palestina?

Cerca de 48% responderam “Nenhuma”. 1,5% consideram aceitável a volta dos refugiados palestinos ; 2,4% consideram aceitável a completa evacuação de toda a população de judeus da Cisjordânia; 3,1% consideram aceitável o retorno às fronteiras de 1967; e menos de 7% dos entrevistados consideram aceitável dividir Jerusalém.


Essas reações e pensamentos são alimentados por argumentos doutrinários dos estrategistas israelenses. Merece destaque um relatório preparado pelo Centro Begin-Sadat (BESA) para Pesquisa Estratégica, que leva o característico título de “O Tempo corre a favor de Israel”. O relatório argumenta que a vantagem de Israel sobre os adversários regionais, em termos de medidas agregadas de poder nacional, jamais foi tão ampla quanto hoje, e que essa tendência continuará no longo prazo. Em vasta medida, essa situação foi consequência da desestabilização de países vizinhos, depois da “Primavera Árabe”. Os argumentos do campo da esquerda em Israel, para um rápido acordo da questão palestina, podem ser considerados sem substância. Não há qualquer real ameaça contra Israel e, assim, não se vê qualquer necessidade, para Israel, de fazer concessões.

O desacordo entre os países árabes e o Irã cresceu ao ponto de que a preocupação deles com a questão palestina foi deslocada para o fundo da cena, e eles vão-se tornando potenciais aliados de Israel. Essa é a razão pela qual Telavive insiste tanto sobre “a ameaça iraniana”. Depois de 65 anos de existência, Israel já pode confiar que superará os desafios que apareçam pela frente.

Por mais que a paz seja desejável, não é condição necessária para a sobrevivência – conclui Efraim Inbar, autor do relatório do BESA Center.

Não surpreende que algumas das sugestões de Israel, nesse ponto das negociações, sejam deliberada e acintosamente inaceitáveis, para não dizer que são acintosamente zombeteiras. Por exemplo, segundo informação do jornal Maariv, nas negociações com os palestinos, os israelenses têm planos de oferecer um acordo parcial, sob o princípio da “anexação em troca de anexação”. Na essência, Israel oferecerá anexar parte da Cisjordânia ao sul (Gush Etzion), em troca de Israel transferir parte do território da Cisjordânia ao norte (na área de Shechem), hoje sob controle dos israelenses e da Autoridade Palestina. Em outras palavras,Israel oferece aos palestinos não território israelense, como definido nos acordos de Camp David em 2000 e de Annapolis em 2008, mas... território palestino! O próprio Ariel Kachane, autor do artigo, admite que há poucas chances de os palestinos aceitarem essa oferta.

O jornal pan-árabe Al-Hayat noticia que Israel insiste em manter o controle e a presença de soldados israelenses no vale do rio Jordão; quer criar estações de alerta ao longo do rio; monitorar a movimentação de pessoas entre a Cisjordânia e a Jordânia; e preservar as bases militares nos pontos mais altos da Cisjordânia. O vale do Jordão seria parte do futuro estado palestino, mas será transferido a Israel, em “empréstimo” de longo prazo. Os israelenses continuam a insistir que toda a fronteira com a Jordânia permaneça sob controle do exército de Israel.

Naturalmente, todas essas sugestões são absolutamente inaceitáveis para os palestinos. Na Assembleia Geral da ONU, o presidente palestino [Abbas] disse claramente que só há acordo possível, nas fronteiras de 1967. Os palestinos recusam-se a:

(...) entrar no sorvedouro de um novo acordo provisório que vai eternizando – disse Abbas. Nosso objetivo é obter acordo amplo e permanente, e um acordo de paz entre os estados da Palestina e de Israel que decida todas as grandes questões e responda todas as perguntas; que nos permita declarar oficialmente o fim do conflito e das exigências.

Mahmoud Abbas discursa na Assembleia Geral da ONU
E alertou que essa, provavelmente, é a última oportunidade para que Israel e Palestina decidam o conflito pela via pacífica.

Nos dois campos vai-se instalando a conclusão de que é cada dia mais inevitável o início de uma terceira Intifada. O jornal israelense Haaretz escreveu que:

Se o processo de negociação desandar completamente, por causa da inabilidade de Netanyahu, incapaz de enfrentar a pressão dentro de seu partido, começarão os tumultos nos territórios, que podem converter-se numa nova Intifada.

O atual governo de Israel está convicto de que se se mantiver irredutível, acabará por conseguir impor-se. De fato, não há dados de realidade que justifiquem toda essa autoconfiança; afinal, os desafios que aguardam Israel podem ser mais assimétricos. Um novo levante palestino é perfeitamente capaz de complicar muito a situação em toda a região e de gerar graves perdas econômicas e diplomáticas para Telavive.

Como alerta o Haaretz, Netanyahu está pondo seu país em risco. Tradicionalmente, o fracasso de negociações sempre foi o gatilho para o início de mais uma onda de violência no Oriente Médio. O fracasso dessa específica rodada de negociações, escreve o jornal,

(...) comprometerá ainda mais o status de Israel. O mundo está farto de ocupações, e nenhuma explicação, nunca mais, conseguirá eximir Israel de sua responsabilidade.




sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tribunal Penal Internacional rejeita investigar crimes de Israel contra palestinos


Pedido foi feito pela Autoridade Palestina após ataque militar que matou quase 1,5 mil civis em Gaza. Organizações de direitos humanos denunciam (e Baby Siqueira Abrão comprova) que a decisão não tem amparo legal

Enviado por Baby Siqueira Abrão via e-mail
Correspondente no Oriente Médio


A promotoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) rejeitou na terça-feira, 3 de abril, pedido da Autoridade Nacional Palestina (ANP) para realizar uma investigação sobre os “atos praticados em território palestino” por Israel desde julho de 2002. A solicitação foi feita em janeiro de 2009, ao término do ataque israelense que, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, fez cerca de 1,5 mil vítimas (a maioria, mulheres e crianças), destruiu total ou parcialmente mais de 5 mil imóveis na Faixa de Gaza e deixou 20 mil pessoas sem casa.

A justificativa do promotor Luis Moreno-Ocampo para impedir a apuração dos crimes de Israel contra os palestinos foi uma “artimanha”, como a classificouMarek Marczynski, chefe da campanha por justiça da Anistia Internacional. Moreno-Ocampo alegou que a Palestina não tem o direito de recorrer ao Tribunal porque não é membro pleno das Nações Unidas.

Para chegar a essa conclusão, o gabinete do promotor levou três anos, tempo que durou o inquérito preliminar que analisou o pedido da ANP. Mesmo admitindo que 132 países-membros das Nações Unidas já reconhecem a Palestina como Estado, Moreno-Ocampo afirmou que compete a “organismos relevantes da ONU ou à Assembleia dos Estados-membros determinar se, legalmente, a Palestina se qualifica como Estado para o propósito de aceder ao Estatuto de Roma” [o tratado que fundou o TPI].

Em outras palavras, só a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, segundo o promotor, poderão decidir se a Palestina tem o direito de recorrer ao Tribunal Penal Internacional. Caso a ONU negue esse direito ao país árabe, a única alternativa para fazer justiça aos palestinos é algum membro pleno tomar a iniciativa de solicitar a apuração dos crimes cometidos por Israel na Palestina. Se nenhum deles fez isso até agora, porém, nada leva a crer que o fará no futuro.

Decisão sem fundamento legal

Há alguns problemas muito sérios envolvendo as alegações da promotoria do TPI. O primeiro, levantado por Marek Marczynski, da Anistia Internacional, diz respeito à falta de competência de Moreno-Ocampo para tomar esse tipo de decisão. “O Estatuto de Roma deixa claro que casos assim devem ser resolvidos pelos magistrados do Tribunal Penal Internacional, não pelo promotor”, denunciou ele.

Baby Siqueira Abrão foi conferir e deu razão a Marczynski. De fato, o artigo 42, § 1 do Estatuto de Roma estabelece que a promotoria “encarregar-se-á de receber remissões e informação comprovada sobre crimes da competência do Tribunal, para examiná-las e realizar investigações ou para exercitar a ação penal diante do Tribunal”. 

Em nenhum ponto do texto do Estatuto é dito que cabe à promotoria decidir se um país pode ou não pode recorrer ao Tribunal. O artigo 19, § 3, ao estabelecer que o promotor “poderá pedir ao Tribunal que se pronuncie sobre uma questão de competência ou de admissibilidade”, deixa claro que ele não tem poder de decisão nesses casos. Mesmo assim, a “admissibilidade” diz respeito aos fundamentos da investigação, não a uma situação prévia, relativa ao direito de um país solicitar a apuração de fatos criminosos.

O artigo 15, que trata das atribuições do promotor, tampouco lhe dá esse poder de decisão. A ele compete analisar a veracidade das informações que recebeu sobre o crime e, se as julgar procedentes, iniciar as investigações. Mas só pode fazer isso se receber autorização da Sala de Questões Preliminares do TPI. Outro artigo, o 54, também fala das funções e atribuições do promotor, mas apenas no que diz respeito às investigações, não a etapas anteriores a elas.

Parcialidade política

Todos os artigos apontados aqui demonstram que Moreno-Ocampo agiu sem respaldo no Estatuto da instituição a que pertence, e isso é falta gravíssima, que coloca em dúvida a idoneidade de um organismo internacional do porte do TPI. Não à toa, Marek Marczynski, na Anistia Internacional, classificou a decisão do promotor de “perigosa”: “Ela expõe o Tribunal a acusações de parcialidade política e não corresponde à independência da instituição”, afirmou ele.

Suponhamos, porém, que o Estatuto de Roma concedesse ao promotor Ocampo competência para decidir se um país pode, ou não, apelar ao Tribunal Penal Internacional. Nem assim ele teria como negar esse direito à Palestina, e aqui está o segundo problema sério que envolve o caso. O artigo 12, § 3 do Estatuto prevê que Estados não signatários – aqueles que não são considerados membros do TPI – também podem recorrer ao Tribunal. O parágrafo determina que “dito Estado poderá, mediante declaração depositada em poder do Secretário, consentir em que o Tribunal exerça sua competência em relação ao crime de que se trata”.

O artigo 4, § 2, afirma que, por acordo especial, o TPI pode exercer suas “funções e atribuições, em conformidade com o disposto no presente Estatuto, no território de qualquer Estado-parte e, por acordo especial, no território de qualquer outro Estado”.

A declaração exigida no artigo 12 e o acordo especial citado no artigo 4 do Estatuto de Roma existem. Em janeiro de 2009, Ali Khashan, ministro da Justiça da ANP, entregou-os ao Tribunal, aceitando abrir o território palestino para as investigações do TPI.

Por que então Moreno-Ocampo, em oposição a mais essa determinação do Estatuto de Roma, escolheu tomar uma decisão sem nenhum respaldo legal?

A resposta talvez esteja numa reportagem publicada no site de notícias israelense Ynet.

Nela, Avigdor Lieberman, ministro das Relações Exteriores de Israel, afirma que os diplomatas israelenses trabalharam contra o pedido palestino ao Tribunal Penal Internacional. “Poucos entendem quanto esforço dedicamos a esse assunto”, declarou Lieberman. “Mantivemos tudo longe da mídia. O ministro agiu de maneira muito profissional, discreta e silenciosa”.

Como se vê, Israel atua de maneira ilegal também nos bastidores, e a chamada “comunidade internacional” não move um dedo para impedir essa atitude ou para impor sanções ao país sionista. 

Quanto aos palestinos, vão desaparecendo, de modo brutal, da face da Terra. Um crime, aliás, previsto no Estatuto de Roma, que lhe dá um nome nada “discreto”: genocídio.

Baby Siqueira Abrão
Brazilian journalist - Middle East correspondent
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domingo, 9 de outubro de 2011

Colonos terroristas judeus juram vingança

Khaled Amayreh

29/9-6/10/2011, Khaled Amayreh, Al-Ahram Weekly, n. 1.066, Cairo
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ramallah. - Colonos judeus, doutrinados pela teologia talmúdica extremista, ameaçam transformar a Cisjordânia em vasto campo de matança.

Reagindo contra o até agora bem-sucedido movimento palestino para obter apoio internacional para um estado palestino nos territórios que Israel ocupou em 1967, alguns líderes de colonos em Israel ameaçaram transformar os centros de população palestina em outra Srebrenica.

Em 1995, soldados sérvios foram responsáveis por um genocídio, naquela cidade bósnia, onde cerca de 8.000 homens e meninos foram massacrados, mortos a sangue frio.

Líderes de colonos, nas colônias israelenses em terras palestinas, que são efetivamente apoiados pelo governo e pelo exército de Israel, têm feito repetidas declarações, sempre ameaçando massacrar palestinos, no caso de a ONU reconhecer o estado palestino, ou garantir à Autoridade Palestina o status de representante de estado membro.

Os colonos não fazem ameaças à toa. Terroristas judeus, reunidos numa organização paramilitar conhecida como “Hilltop Youth” [Juventude da Colina], estão ativos numa campanha de assassinato e terror em vários pontos da Cisjordânia, incendiando plantações de oliveiras e mesquitas e matando palestinos inocentes.

O rabi assassino
O rabino Kiryat Arba Rabbi Dov Lior, mestre talmúdico extremista, segundo os jornais, estaria pregando “castigo coletivo” para os palestinos. Relançou um antigo édito talmúdico incendiário, segundo o qual até as crianças não judias devem ser mortas, “porque não há inocentes, na guerra”.

O mesmo rabino endossou um livro editado recentemente, em hebraico, que ordena o assassinato “das crianças do inimigo”, especialmente em tempos de guerra.

Outro judeu assassino
Em 1994, esse velho rabino abraçou apaixonadamente o massacre executado por um terrorista judeu norte-americano, Baruch Goldstein, de centenas de palestinos que rezavam na Mesquita Ibrahimi, no centro de Hebron, do qual resultaram centenas de mortos e feridos. O rabino declarou santo e grande herói, o assassino. 

Esse rabino tem dezenas de milhares de apoiadores e seguidores fanáticos e sabe-se que é temido pelo establishment político em Israel.

Dia 24 de setembro, colonos e soldados israelenses atirara contra um homem palestino desarmado, pai de cinco filhos na vila de Qusra, perto de Nablus, e o mataram. Testemunhas descreveram o assassinato de Isam Badran, 37, como assassinato a sangue frio.

Segundo o presidente do conselho da vila de Qusra, Abdel-Azim Wadieh, bandos de colonos judeus, pesadamente armados, invadiram a vila, para incendiar os olivais. “Quando os locais tentaram defender suas árvores, os soldados israelenses que assistiam à invasão sem intervir puseram-se a atirar massivamente contra os palestinos donos dos olivais.”

Wadieh disse que dúzias de soldados israelenses invadiram a vila, tarde da noite, atirando para todos os lados, aparentemente para aterrorizar a população. No final do assalto, havia um palestino morto, sete feridos à bala, ferimentos de muito graves a superficiais, e várias pessoas foram presas.

Há duas semanas, a principal mesquita da vila foi seriamente danificada, quando terroristas judeus incendiaram o prédio central. Os incêndios de mesquitas na Cisjordânia, por colonos judeus, já atingem grandes proporções, sem que o exército ou o governo do estado judeu tenham investigado ou prendido um único terrorista.

Observadores na Cisjordânia estão convencidos de que as gangues de judeus terroristas têm ‘mulas’ ou agentes infiltrados no exército do estado judeu nos territórios ocupados, o que permite que os terroristas executem atos de terror e vandalismo contra os palestinos, sem jamais serem presos.

Em Hebron, no sul da Cisjordânia, um colono israelense atropelou um palestino, que ficou gravemente ferido. Dia 23 de setembro, uma 6ª-feira, colonos judeus mobilizaram-se, exigindo que o exército de Israel atirasse e matasse palestinos que, naquele momento, paravam para ver um acidente de trânsito, no qual dois colonos haviam sido atropelados.

Os colonos dizem que o acidente aconteceu porque palestinos atiraram pedras contra o carro. O exército israelense distribuiu duas versões diferentes do incidente. Fontes palestinas citam testemunhas, que viram o carro aproximar-se em alta velocidade e capotar; e que não havia palestinos na área, quando ocorreu o acidente.

Antes disso, um colono atropelara uma criança palestina próximo do local onde ocorreu o acidente. A criança, Farid Jaber, de oito anos, morreu na 2ª-feira, por causa dos ferimentos no atropelamento. Fontes palestinas noticiaram que a opinião generalizada na área é que os colonos atropelam deliberadamente pedestres palestinos naquele ponto e, sempre, notificam os atropelamentos deliberados como acidentes de trânsito.

Os colonos, se não todos, com certeza a maioria, são defensores e pregadores de uma violenta ideologia religiosa que prega a aniquilação de todos os não judeus que vivem no estado judeu. Segundo essa ideologia, ainda que sejam pacificados e ‘passem a respeitar a lei’, os não judeus devem ser escravizados para “carregar água e cortar lenha”, a serviço dos senhores da raça superior.

Em anos recentes, vários colonos têm divulgado essa ideologia fascista, contra os palestinos. Citam “éditos” de antigos textos talmúdicos que – se aplicados – obrigariam milhões de palestinos a escolher entre viver como escravos dos judeus, ser expulsos por meios violentos ou o extermínio físico.

Os colonos israelenses, que seguem a ideologia do sionismo religioso, creem que a vida de um não judeu não é vida santificada e que um judeu pode, mesmo, matar um não judeu sem que se admita qualquer impedimento legal e sem remorso. Algumas autoridades rabínicas em Israel admitem até o assassinato de não judeus para extrair órgãos vitais, no caso de haver judeu que deles necessite.

A ideologia do Gush Emunim, também conhecido como Bloco do Sionismo Messiânico existe há várias décadas, mas sempre foi marginal na população de judeus israelenses. Hoje, porém, essa ideologia parece estar-se tornando dominante, ao tempo em que toda a sociedade judeu-israelense continua a caminhar, a passos largos, para o fascismo declarado.

Há alguns meses, o líder espiritual do partido Shas, poderoso partido político, de forte influência no atual governo, que representa judeus de estados árabes e muçulmanos, declarou, numa homilia do Sabbath, que o estatuto de não-judeus em geral é equivalente ao de bestas de carga, e que Deus criou os não-judeus, inclusive os que apóiam os cristãos, ainda que apóiem Israel, exclusivamente para que sirvam os judeus.

A Autoridade Palestina, que tem a seu serviço dezenas de milhares de soldados de segurança, não tem conseguido proteger os palestinos, sobretudo em vilas e vilarejos localizados em áreas próximas das colônias exclusivas para judeus. Além disso, “acordos” e “entendimentos” entre Israel e a Autoridade Palestina proíbem que as forças de segurança da Autoridade Palestina entrem em zonas definidas como Áreas C, nas quais se localizam a maioria das vilas e vilarejos palestinos atacados.

Um oficial da Autoridade Palestina disse recentemente que a Autoridade Palestina perde a própria razão de ser, se não consegue proteger os cidadãos palestinos contra o terrorismo judeu, sobretudo se o exército israelense de ocupação nada faz para deter os colonos terroristas judeus israelenses.

domingo, 2 de outubro de 2011

Um presidente que sabe voltar atrás

Evo Morales - Presidente da Bolívia

Publicado em 02/10/2011por *Mário AugustoJakobskind

O Presidente boliviano Evo Morales deu exemplo para os demais dirigentes de como se pode voltar atrás em determinadas circunstâncias. Uma estrada que passaria pelo  Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS) foi contestada por indígenas que consideravam a obra, financiada pelo brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), atentatório ao meio ambiente e divisória de suas terras.

Uma dura repressão, segundo informaram as agências de notícias, não ordenada por Morales se abateu sobre os manifestantes. Morales não pensou duas vezes, suspendeu a obra e agora quer que seja submetida ao julgamento popular através de um plebiscito. O Presidente boliviano garantiu que não foi dele a ordem da repressão, fato que será investigado e os responsáveis punidos.

Embora em um primeiro momento a culpa tenha recaído sobre Evo Morales, quem se lembra de como os movimentos sociais na Bolívia eram reprimidos não poderia acreditar que a ordem da repressão tenha partido dele. Afinal, como líder dos cocaleiros antes de ser Presidente, conheceu de perto a repressão ordenada por governos neoliberais em episódios que remontam o ano 2000, como, por exemplo, a Guerra da Água em Cochabamba e assim sucessivamente.  

É possível que a construção da tal estrada sem consultar os indígenas da região tenha sido precipitada. Deve-se cobrar do BNDES como liberou verbas para uma obra que seria executada pela empresa brasileira OAS e é denunciada como atentatória ao meio ambiente. Isso é contra os princípios e a legislação que regula o próprio banco de fomento.  Como o BNDES ainda não tinha propriamente liberado a verba para a construção, agora se espera que os técnicos responsáveis do setor sejam mais prudentes e voltem atrás, bem como daqui para frente analisem melhor os projetos polêmicos na hora de dar o sinal verde para a sua execução.

Se assim procedesse no caso da estrada na Bolívia, críticas ao Brasil do tipo expansionista e único interessado na obra em questão poderiam ter sido evitadas. E não percam por esperar, a mídia de mercado do Rio e São Paulo provavelmente vai cair em cima de Morales acusando-o de não respeitar compromissos assumidos e coisas do gênero. Claro, os editoriais deverão defender os interesses da empreiteira OAS. Faz parte do DNA da mídia de mercado.

De qualquer forma, uma análise sobre os acontecimentos na Bolívia não pode deixar de considerar o recuo de Morales atendendo os apelos dos seus irmãos índios. Em qual país da América Latina e do resto do mundo tal fato acontece?

O acontecimento na Bolívia remete à usina de Belomonte, onde indígenas e movimentos sociais estão denunciando que os moradores do local não foram consultados para a realização das obras e mesmo assim elas estão sendo tocadas sem obedecer preceitos de conservação do meio ambiente, o que o IBAma nega.

***

Já na Espanha, segundo o jornal El Pais, depois de 75 anos foi descoberta uma vala comum com restos de republicanos assassinados sumariamente pelas forças do fascista Francisco Franco, que acabou vitorioso na guerra civil e governou o país ibérico por mais de 40 anos.  Familiares de vítimas de massacres em lugarejo próximo de Cádiz e Málaga não desistiram das buscas dos restos mortais, finalmente encontradas.

Tal fato também remete ao Brasil, onde familiares das vitimas da repressão da guerrilha do Araguaia não desistem de encontrar os restos de opositores que foram mortos fora de combate. O Estado brasileiro por sinal tem até o mês de dezembro para responder uma petição da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos sobre onde se encontram os restos das vítimas do Araguaia.

A luta de 75 anos dos espanhóis serve para demonstrar os que pensam ao contrário, ou seja, como é importante não desistir no meio do caminho, mesmo que o Estado não se mostre tão interessado em desvendar os mistérios sobre vítimas da repressão. Esse raciocínio é válido para todos os quadrantes do mundo onde a repressão truculenta predominou. O Brasil do pós 64 está enquadrado nesse contexto.

***

Nem bem o líder palestino Mahmoud Abbas apresentou formalmente na Assembleia geral da ONU o pedido de reconhecimento com Estado membro das Nações Unidas, o governo extremista de Benyamin Netanyahu ordenou a construção de 1.100 casas na parte oriental de Jerusalém, em Gilo, área os palestinos residem e Israel ocupa.

Nem preciso dizer que se trata de uma pura provocação de quem não quer a criação do Estado Palestino e usa de sofismas do tipo que em vez de pedir o reconhecimento na ONU os palestinos deveriam negociar com os israelenses. Trata-se de uma mentira deslavada, porque negociações ocorrem desde 1990 e os resultados são praticamente nulos.  É o caso também de perguntar: que tipo de negociação deseja o troglodita político Netanyahu e seus correligionários?

Este teatro do absurdo tem o respaldo do governo estadunidense, que não exerce nenhum tipo de pressão sobre Israel e na prática também não quer a criação de um Estado Palestino livre e soberano. O que querem Israel e os Estados Unidos é apenas um Estado que nasça condenado a ter seu território dividido e totalmente submisso aos interesses sionistas.

Esta é uma realidade que não se pode fugir e que Israel tenta evitar utilizando como argumento que críticas ao desempenho de qualquer governo do país, seja ele Netanyahu ou trabalhista, é de tendência antissemita. Este é o exemplo típico de como o oprimido de ontem vestiu hoje a camisa do opressor.

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de "América que não está na mídia", "Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE".


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MANIFESTO DO HAMÁS: sobre pedido de reconhecimento do Estado Palestino à ONU

Simone Daud

18/9/2011, MondoWeiss, a guerra de ideias no Oriente Médio 
(traduzido do original em árabe para o inglês por Simone Daud)
Traduzido do inglês para o português pelo pessoal da Vila Vudu


Sobre o pedido, apresentado pela Autoridade Palestina em Ramallah, para que a Palestina receba status de estado-membro da Organização das Nações Unidas 

O que foi discutido e acordado por toda a força nacional palestina, como programa político nacional é:

– estabelecimento de um estado palestino com real soberania, nas linhas de junho  (Huzairan) de 1967;

– com Jerusalém como capital de estado;

– com retorno dos refugiados;

– com a evacuação de todas as colônias; e

– sem reconhecer a entidade sionista. 

Nós, do movimento Hamás, apoiamos qualquer esforço e manobra política que vise a obter apoio internacional e solidariedade para: 

– o direito dos palestinos à liberação e à autodeterminação;

– o estabelecimento de estado plenamente soberano;

– a obtenção de direitos nacionais palestinos; e que

– resulte na condenação da entidade sionista, que nega todos os direitos dos palestinos e revele a verdadeira natureza da entidade sionista.

Mas não se aceita nenhuma manobra política que se faça à custa de qualquer dos direitos nacionais dos palestinos.

Infelizmente, o pedido a ser apresentado pelos irmãos da Autoridade Palestina em Ramallah, para obter que a Palestina seja aceita como estado membro das Nações Unidas tem caráter unilateral, e está ainda muito distante de contar com o consenso de todos os palestinos. Além disso, não brotou de acordo coerente, nos termos da estratégia de toda a luta de libertação nacional de todos os palestinos. 

O pedido a ser encaminhado à ONU é, nesse sentido, extensão do processo de paz. A ideia de insistir em repetir a ideologia das negociações está muito longe da decisão pela resistência e por buscar construir “posição forte” para negociar.

Enfatizamos nossa firme convicção de que a resistência, em seu significado essencial, e, perifericamente, todas as formas da luta política de massas, é a via real que pode libertar a Palestina, conquistar nossos direitos e estabelecer um estado palestino que tenha soberania genuína.

A urgente necessidade dos palestinos é a libertação real de nosso território, para que ali se estabeleça um verdadeiro estado da Palestina independente e soberano. 

Não há qualquer necessidade ou urgência de continua a discutir sobre um estado que não existe e não poderá ser ‘inventado’ pela ONU. 

Não há qualquer urgente necessidade de tanta preocupação com passos simbólicos, todos de impacto limitado, nem de gerar resultados ambíguos, que não estão livres de alguns riscos.

Apelamos nesse momento aos nossos irmãos da liderança da Autoridade em Ramallah, irmãos  do movimento Fatah, e a todas as forças e facções palestinas, para que retomem o diálogo entre nós, para procedermos a uma revisão política em profundidade.

É a via que há para construir uma estratégia palestina, patriótica, de combate e resistência, que manifeste acordo nacional. 

Temos de continuar a reunir, na base desse acordo nacional, todas as “cartas de poder” [vantagens, posições de força], sobretudo a resistência, até estarmos realmente preparados para exercer o direito de autodeterminação, libertar nossa terra da ocupação sionista e conquistar nossos direitos nacionais, se deus permitir.

Movimento da Resistência Islâmica, HAMAS
Setor de Imprensa
Sábado, 19 Shawwal, 1432 H
APROVADO dia 17/9/2011