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domingo, 2 de outubro de 2011

Um presidente que sabe voltar atrás

Evo Morales - Presidente da Bolívia

Publicado em 02/10/2011por *Mário AugustoJakobskind

O Presidente boliviano Evo Morales deu exemplo para os demais dirigentes de como se pode voltar atrás em determinadas circunstâncias. Uma estrada que passaria pelo  Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS) foi contestada por indígenas que consideravam a obra, financiada pelo brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), atentatório ao meio ambiente e divisória de suas terras.

Uma dura repressão, segundo informaram as agências de notícias, não ordenada por Morales se abateu sobre os manifestantes. Morales não pensou duas vezes, suspendeu a obra e agora quer que seja submetida ao julgamento popular através de um plebiscito. O Presidente boliviano garantiu que não foi dele a ordem da repressão, fato que será investigado e os responsáveis punidos.

Embora em um primeiro momento a culpa tenha recaído sobre Evo Morales, quem se lembra de como os movimentos sociais na Bolívia eram reprimidos não poderia acreditar que a ordem da repressão tenha partido dele. Afinal, como líder dos cocaleiros antes de ser Presidente, conheceu de perto a repressão ordenada por governos neoliberais em episódios que remontam o ano 2000, como, por exemplo, a Guerra da Água em Cochabamba e assim sucessivamente.  

É possível que a construção da tal estrada sem consultar os indígenas da região tenha sido precipitada. Deve-se cobrar do BNDES como liberou verbas para uma obra que seria executada pela empresa brasileira OAS e é denunciada como atentatória ao meio ambiente. Isso é contra os princípios e a legislação que regula o próprio banco de fomento.  Como o BNDES ainda não tinha propriamente liberado a verba para a construção, agora se espera que os técnicos responsáveis do setor sejam mais prudentes e voltem atrás, bem como daqui para frente analisem melhor os projetos polêmicos na hora de dar o sinal verde para a sua execução.

Se assim procedesse no caso da estrada na Bolívia, críticas ao Brasil do tipo expansionista e único interessado na obra em questão poderiam ter sido evitadas. E não percam por esperar, a mídia de mercado do Rio e São Paulo provavelmente vai cair em cima de Morales acusando-o de não respeitar compromissos assumidos e coisas do gênero. Claro, os editoriais deverão defender os interesses da empreiteira OAS. Faz parte do DNA da mídia de mercado.

De qualquer forma, uma análise sobre os acontecimentos na Bolívia não pode deixar de considerar o recuo de Morales atendendo os apelos dos seus irmãos índios. Em qual país da América Latina e do resto do mundo tal fato acontece?

O acontecimento na Bolívia remete à usina de Belomonte, onde indígenas e movimentos sociais estão denunciando que os moradores do local não foram consultados para a realização das obras e mesmo assim elas estão sendo tocadas sem obedecer preceitos de conservação do meio ambiente, o que o IBAma nega.

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Já na Espanha, segundo o jornal El Pais, depois de 75 anos foi descoberta uma vala comum com restos de republicanos assassinados sumariamente pelas forças do fascista Francisco Franco, que acabou vitorioso na guerra civil e governou o país ibérico por mais de 40 anos.  Familiares de vítimas de massacres em lugarejo próximo de Cádiz e Málaga não desistiram das buscas dos restos mortais, finalmente encontradas.

Tal fato também remete ao Brasil, onde familiares das vitimas da repressão da guerrilha do Araguaia não desistem de encontrar os restos de opositores que foram mortos fora de combate. O Estado brasileiro por sinal tem até o mês de dezembro para responder uma petição da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos sobre onde se encontram os restos das vítimas do Araguaia.

A luta de 75 anos dos espanhóis serve para demonstrar os que pensam ao contrário, ou seja, como é importante não desistir no meio do caminho, mesmo que o Estado não se mostre tão interessado em desvendar os mistérios sobre vítimas da repressão. Esse raciocínio é válido para todos os quadrantes do mundo onde a repressão truculenta predominou. O Brasil do pós 64 está enquadrado nesse contexto.

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Nem bem o líder palestino Mahmoud Abbas apresentou formalmente na Assembleia geral da ONU o pedido de reconhecimento com Estado membro das Nações Unidas, o governo extremista de Benyamin Netanyahu ordenou a construção de 1.100 casas na parte oriental de Jerusalém, em Gilo, área os palestinos residem e Israel ocupa.

Nem preciso dizer que se trata de uma pura provocação de quem não quer a criação do Estado Palestino e usa de sofismas do tipo que em vez de pedir o reconhecimento na ONU os palestinos deveriam negociar com os israelenses. Trata-se de uma mentira deslavada, porque negociações ocorrem desde 1990 e os resultados são praticamente nulos.  É o caso também de perguntar: que tipo de negociação deseja o troglodita político Netanyahu e seus correligionários?

Este teatro do absurdo tem o respaldo do governo estadunidense, que não exerce nenhum tipo de pressão sobre Israel e na prática também não quer a criação de um Estado Palestino livre e soberano. O que querem Israel e os Estados Unidos é apenas um Estado que nasça condenado a ter seu território dividido e totalmente submisso aos interesses sionistas.

Esta é uma realidade que não se pode fugir e que Israel tenta evitar utilizando como argumento que críticas ao desempenho de qualquer governo do país, seja ele Netanyahu ou trabalhista, é de tendência antissemita. Este é o exemplo típico de como o oprimido de ontem vestiu hoje a camisa do opressor.

*Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de "América que não está na mídia", "Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE".


sexta-feira, 27 de maio de 2011

A #spanishrevolution explicada a um brasileiro

Por *Bernardo Gutiérrez

He hecho un texto matriz para prensa, blogosfera e medios informativos de Brasil, que iré adaptando según las necesidades. Lo cuelgo tal cual en portugués porque hay poco en esta lengua en la red. Podéis traducirlo gracias a nuestros comunes amigos Google Chrome y Google Language:



Escrevi este texto-matriz para a imprensa, blogsfera, e demais meios de informação brasileiros, que irei adaptando conforme a necessidade. Publico em português porque há poucos informes nessa língua na internet. Sempre se pode traduzí-lo ao espanhol ou inglês via Google Chrome e/ou Google Language
 


Muitos amigos brasileiros estão me perguntando sobre a #spanishrevolution. A imprensa mainstream brasileira publicou pouco e entendeu quase nada. Por isso, vou fazer um exercício muito simples para entender a chamada #spanishrevolution.

Imagine que uma ministra de Cultura (Ana Buarque do Holanda, por exemplo) aprova uma lei sobre direitos autorais da Internet que despreza licenças como Creative Commons, corta liberdades civis na rede e faz o jogo da indústria audiovisual.

Um grupo de ativistas digitais cria uma plataforma #navoteneles, pedindo para castigar os partidos que aprovaram a lei (imaginemos aqui, PT, PSDB e PMDB).

O grupo, indignado com os casos de corrupção, começa fazer “wikimapas” feitos em redes com os candidatos corruptos. Depois, milhares de grupos que lutam por causas diferentes entram na luta pedindo uma “democracia real” mais participativa e transparente e outro sistema econômico alternativo ao liberalismo.

A revolução #democraciareal estoura quando a policia despeja um grupo de pessoas que estavam acampadas na principal praça da capital do país.

As redes sociais espalham rapidamente a #brazilianrevolution e os cidadãos, altamente conectados, descentralizados e organizados, invadem as praças do país inteiro e discutem, no asfalto e na Internet, uma nova sociedade.

A campanha política em andamento para as eleições regionais fica paralizada e o mundo começa olhar para uma nova revolução digital de consequências imprevisíveis.

Entendeu agora o que aconteceu na Espanha e as ideias que se espalham pelo mundo?

Só falta temperar isso com uma crise econômica (internacional) e a explosão de uma gigantesca bolha imobiliária (espanhola) para completar a equação.

O fácil para a imprensa brasileira era falar que o alto desemprego da Espanha (por volta do 20%) provocou a revolta. É lógico: a crise e o desemprego influenciaram, mas o desemprego não foi o motivo principal, entre outras coisas porque ainda funciona o seguro desemprego.

O simples era comparar a #spanishrevolution às reviravoltas do mundo árabe. Só tem um ponto em comum, a importância das redes sociais no processo.

A Espanha tem democracia consolidada. As causas da revolta foram outras, várias, muitas. Os objetivos também são diferentes aos do mundo árabe.

92% dos jovens espanhóis usa Internet, doce pontos por cima do resto da Europa, segundo o próprio Estado. A Espanha lidera, também, o uso de banda larga nos celulares (19,5% da população, 6,9% na Europa). O cocktail se completa com uma elevadíssima porcentagem de jovens formados na universidade: 39% da população espanhola entre 25 e 34 anos tem formação superior (ano 2009), mais que a França ou outros países europeus. E muitos estão desempregados.

Chama minha atenção que a poderosa conta de @wikileaks no Twitter, a reportagem de Preseurop.

A revolta islandesa da Espanha, reparou na hora que um dos links mais importantes da #spanishrevolution vem do norte, da Islândia, o país que já teve o Índice de Desenvolvimento Humano (IDN) mais elevado do mundo e que afundou na tormentas dos mercados . De fato, uma das principais petições da #spanishrevolution é exigir do governo que não ajude mais ao sistema bancário que provocou a crise internacional. O link islandês-espanhol, a procura de alternativas a um mundo governado pelos mercados e as agências de rating, é tão claro que Hordur Torfason, o homem que fez o povo islandês reagir contra banqueiros e políticos, gravou um video para parabenizar o povo espanhol.

A juventude espanhola, é claro, admira o que aconteceu nos países árabes. Foi um exemplo para todos. Mas a #spanisrevolution é diferente. É um passo à frente. É claramente europeia. E sem pretendê-lo, se converteu na revolta digital mais avançada do mundo. Gerou o debate sobre a democracia. E pode ser fundamental para o mundo atingir um Sistema 2.0 verdadeiramente participativo. Um detalhe: a plataforma de ciberativismo Actuable.es, que nasceu no final de ano 2010, foi vital para evitar que o Governo despejasse a Puerta del Sol de Madri. Em menos de 24 horas, quando a Junta Elitoral proibiu o protesto, Actuable.es incentivou o envio de mais 150.000 mails para Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior e evitou a represãao policial e um banho de sangue.

O suplemento do Estadão publicou na passada segunda-feira o melhor trabalho sobre o assunto na imprensa brasileira: Reiniciar o sistema. Esse é o foco. E nem todo o mundo entendeu.

As duas principais forças políticas espanholas, Partido Socialista Operário Espanhol (no poder) e o direitista Partido Popular (PP), depois das eleições regionais do passado domingo, fizeram de conta que nada aconteceu. Se a abstenção (pessoas que não votaram) fosse uma força política, teria sido a grande vencedora, com 33% dos votos.

O Partido Popular, que foi o grande ganhador, só foi votado por 24% do eleitorado. Por exemplo, em Madri, só 1 em cada 3 votantes deu a sua confiança ao Partido Popular, mas governará com maioria. Em Barcelona, o escândalo foi maior. 47% dos votantes ficou em casa (ou seja, muitos do gigantesco acampamento da Plaza de Catalunya, no centro de Barcelona). E a Convergència i Unió (CiU), nacionalistas conservadores, vão governar a cidade com um 14% dos votos.

A #spanishrevolution quer uma lei eleitoral mais justa, mais representativa. Quer uma lei de transparência das contas públicas. Quer criar um espaço para participação constante da política nacional, regional e local. Quer fazer um redesenho profundo da democracia. Mas, por enquanto, ninguém parece ter entendido o recado. E os protestos continuam. E as praças estão ainda cheias de pessoas. E já tem iniciativas, como “Madrid toma los barrios”  para expandir o debate e participação nos bairros, praças e ruas das cidades.

Existem causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution? Os mesmos motivos que lá e , suponho, que outros.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Espanha, apesar da crise, ainda é um dos mais elevados do mundo.

O Brasil, apesar do crescimento econômico, tem alguns motivos para uma #brazilianrevolution: uma nova ministra de Cultura, Ana Buarque de Holanda, que não respeitou a herança de cultura livre do Governo Lula; altos níveis de corrupção (muitos mais que lá); democracia pouco participativa; um rumo econômico focado no macro e não no micro (agronegócio, exportação, grandes obras); sérios problemas ambientais; inflação; uma especulação imobiliária crescente que vai rumo ao da bolha que estourou na Espanha; desigualdade; violência…

Além disso, o Brasil tem um ativismo admirável. Foi onde nasceu o Fórum Social Mundial e o orçamento participativo. Lá cresceu o apoio de governos ao software livre e licenças como o Creative Commons. O Brasil foi e é importantíssimo na luta pela cultura livre e os direitos civis na Internet, uma referência internacional. O ciberativismo brasileiro, até agora, era mais forte que o espanhol, que só estourou depois da crise, quando o país inteiro saiu da mordomia da prosperidade. Os brasileiros, conseguiram encaminhar uma lei de “ficha limpa”. O Brasil é dos países mais ativos em redes sociais e tem a terceira maior penetração de Twitter do mundo (23%).

Não serei eu, um estrangeiro, quem vai inventar uma #brazilianrevolution, um movimento além das esquerdas e direitas, um movimento que lute pela liberdade, pela transparência e pela democracia 2.0.

Isso corresponde ao meu querido povo brasileiro. Mas pense bem: Existiriam causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution?

Democracia Real Brasil no Facebook.  

*Bernardo Gutiérrez é espanhol, jornalista, escritor e consultor de mídia. Mora em São Paulo. Seus trabalhos aparecem em La Vanguardia (Barcelona), Esquire (Madri), Expresso (Lisboa), Tage Spiegel (Berlim) ou National Geographic Brasil, entre muitos outros.