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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dar direção aos movimentos


Adriano Benayon

2011-10-19  - *Adriano Benayon
1. Crescem os protestos contra as intoleráveis injustiças sofridas pelos povos em grande parte deste mundo. Na Espanha, na Itália, na Grécia e em Portugal surgem grandes manifestações, desencadeadas pelo brutal aumento dos sacrifícios exigidos dos já sacrificados, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu, a fim de beneficiar bancos europeus e estadunidenses. [1]
2. Experiência semelhante foi suportada, muitas vezes, por países latino-americanos. Entre eles o Brasil, que está menos distante do que imagina de mais uma crise nas contas externas, acompanhada de agravamento das já degradadas condições de vida da maioria de sua população.
3. Merecem atenção também as manifestações de resistência civil nos EUA e Reino Unido (Inglaterra), sedes da oligarquia financeira que comanda a tirania mundial. Especialmente, o “Ocupemos Wall Street” aponta para o alvo correto: os grandes bancos internacionais, cujos controladores e associados dominam não só as finanças, mas também o petróleo, os armamentos, a grande mídia, a  indústria químico-farmacêutica etc.
4. Em suma: os concentradores do poder econômico-financeiro exercem absolutismo político cada vez maior, mandando nos governos “democráticos” eleitos pelo dinheiro e pela mídia. Esses não passam de gerentes da “democracia” e do cinismo que dá esse nome à tirania e que chama de liberdade a opressão, e de defesa de direitos humanos o genocídio cometido contra nações com armas de destruição de massa.
5. Se, em muitos países há alguma consciência da fonte do problema, no Brasil o povo parece anestesiado pelo ópio da TV enganadora.  Os governistas pintam tudo de cor de rosa, como se não houvesse razão para manifestações contrárias ao status quo, enquanto oposicionistas, ainda mais submissos ao império, tentam capitalizar o élan dos indignados com a corrupção.
6. Os promotores das marchas “contra a corrupção” não entendem ou fingem não entender que - embora ela seja praticada por políticos e por muitos do serviço público - a mega-corrupção começa no setor privado, especialmente nas transnacionais sediadas no exterior, grandes beneficiárias das políticas públicas implantadas no País desde 1954.
7. A partir de então e crescentemente, tornou-se legal.  e não identificada como corrupção, a mega-corrupção que entrega o mercado brasileiro à exploração de cartéis e oligopólios e que desnacionalizou o setor produtivo privado, além de privatizar a quase totalidade das empresas e bancos estatais e de pôr o que restou do setor público ao inteiro serviço das grandes empresas, principalmente estrangeiras.
8. O Brasil só faz figura de potência emergente para quem gosta de se iludir. A pobreza da grande maioria e também o atraso relativo do País resultam do modelo de dependência financeira e tecnológica. Ele não foi implantado por equívoco, mas de caso pensado: foi desenhado para isso, sob a influência e a pressão das potências imperiais que intervieram em 1954, 1961, 1964 e organizaram, entre 1982 e 1988, a pretensa volta ao “regime democrático”
9. A concentração da economia nas mãos das transnacionais só poderia dar no que deu: recorrentes crises nas contas externas, que geraram a dívida externa. Quando esta e seus juros se avolumaram, a ponto de levar à inadimplência forçada e ao consequente freiamento de sua expansão (final dos anos 70, início dos 80), despontou, em perene crescimento, a dívida pública interna.
10. Esta constitui enorme fardo, que inviabiliza o desenvolvimento do País, reduzindo a níveis ridículos os investimentos da União Federal e dos Estados. Aquela assumiu as dívidas destes e lhes exige juros tão absurdos como os que ela própria paga ao sistema financeiro.
11. Formou-se assim o esquema de quádrupla sugação dos brasileiros: a primeira, pagar impostos altíssimos e mal distribuídos: os pobres (mais de 83% da população) entregam mais de 30% do que ganham; os de renda média (menos de 15% da população) têm carga tributária acima de 50%, e as grandes empresas, bancos e outros investidores, além de poder evadir impostos, só são tributados nos ganhos financeiros em, no máximo, 15%.
12. A segunda sangria é as pessoas gastarem elevadas quantias com serviços que deveriam ser públicos, gratuitos ou módicos, nas áreas de saúde, educação etc., além de sofrerem  prejuízos com  saneamento e transportes inadequados e com energia injustificadamente cara,  devido às privatizações e à falta de investimentos públicos na infra-estrutura que ainda lhe cabe prover.
13. Os pobres e a classe média são mal atendidas ou nem o são, porque não têm como pagar clínicas, hospitais e escolas privadas, de qualidade, de resto, questionável e favorecidas pelo mercado com que o Estado lhes presenteia ao não proporcionar esses serviços à sociedade.
14. A terceira sugação são os juros escorchantes, múltiplos da taxa SELIC dos títulos públicos, de longe a mais alta do mundo, com 5,5% aa., corrigida a inflação. Chegam a cerca de 240% aa. no cartão de crédito, 180% no cheque especial e a 90% em empréstimos a pequenas empresas.
15. A quarta é adquirir bens e serviços a preços muitíssimo mais altos que os praticados em países mais dotados de indústrias intensivas de tecnologia, e mesmo que na Argentina, México e outros latino-americanos.
16. Exemplo gritante é a indústria automobilística transnacional favorecida com subsídios escandalosos desde o golpe de 1954, aumentados por JK. Isso prossegue, até hoje, com empréstimos do BNDES a juros baixos e outras benesses prestadas às transnacionais em geral.
17. De fato, elas se cevam também com incríveis subsídios à exportação, desde o final dos anos 60 (Delfim Neto), - isentadas de gravames em suas superfaturadas importações – bem como com a isenção do ICMS na exportação, presenteada pela Lei Kandir/Collor. Cresceram no Brasil com capital formado no próprio mercado brasileiro e com dinheiro público.
18. Este ano, em oito meses, só as montadoras de veículos transferiram ao exterior mais de US$ 4 bilhões em lucros registrados, o que não inclui os ganhos com o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações, nem os serviços superfaturados ou fictícios pagos às matrizes.
19. Agora, e mais uma vez, as montadoras estrangeiras foram agraciadas com proteção à “indústria nacional”, mediante elevações do IPI para veículos importados, alegadamente para evitar a “invasão” de carros chineses e coreanos. As montadoras aqui instaladas estão livres do IPI majorado, utilizando 65% de componentes produzidos no MERCOSUL.  A reserva de mercado, que não existe para a indústria nacional, mesmo porque acabaram com ela, tornou-se política governamental para favorecer os “investimentos diretos estrangeiros - IDES”.
20. Os IDEs estão na raiz dos problemas, inclusive o da dívida interna, cujos juros são a expressão maior da submissão do País à escravização financeira, em nível injustificável conforme os parâmetros que  balizam as taxas em todo o mundo. Por isso, a dívida adveio da capitalização de juros,  estando os bancos e os aplicadores financeiros entre os grandes beneficiários do modelo econômico e político que inviabiliza o Brasil como nação.
21. Para concluir: sem liderança capaz de compreender as grandes sugações e de identificar os causadores delas, não há como fazer que qualquer movimento popular leve às transformações que se impõem, por mais que ganhe ímpeto em função das insuportáveis condições de vida do povo.
*Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento
Recebe e-mails em: abenayon.df@gmail.com
Nota de rodapé
[1] Em Barcelona, 15.10.2011, 250 mil pessoas, segundo os organizadores, participaram de marcha encabeçada por cartaz onde se lia “Da indignação à acão. As nossas vidas ou os lucros deles”. Em Sevilha: 50 mil pessoas, com gritos de “Chamam-lhe democracia, mas não é”; “A solução: banqueiros na prisão”.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Começa uma revolução anticapitalista?

Atílio A. Boron

22 de junho de 2011

“Os protestos e mobilizações na Europa, talvez possam ser a ante-sala de uma revolução anticapitalista”, afirma o sociólogo Atilio A. Boron em artigo no Página/12, 21-06-2011.
A tradução é do Cepat.
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Eis o artigo.

Em uma memorável passagem do Manifesto Comunista, Marx e Engels afirmam que com o seu ascenso a burguesia rasgou impiedosamente o véu ideológico que impedia que os homens e mulheres percebessem a verdadeira natureza de suas relações sociais afogando “o sagrado êxtase do fervor religioso, o entusiasmo cavalheiresco e o sentimentalismo pequeno-burguês na gélidas águas do cálculo egoísta”.

A atual crise do capitalismo e os crescentes protestos e mobilizações populares contra as políticas de ajuste promovido pelo FMI, o Banco Mundial e o Banco Central Europeu corroboram as palavras proféticas do Manifesto.

A nova crise geral do capitalismo mergulhou as ilusões fomentadas pelos mentores e beneficiários da democracia liberal “nas águas geladas do cálculo egoísta”.

Como dizia um dos cartazes pendurados em Puerta del Sol de Madrid “isto não é uma crise, é uma farsa”. E ao lado dessa dolorosa descoberta, segue outra: a farsa não apenas se executava no terreno econômico.

A fraude também foi montada no âmbito político ao ter induzido a maior parte da população a que acreditasse que a sórdida e inescrupulosa plutocracia a que estavam submetidos era uma democracia.

Por isso, a reivindicação exigindo uma “democracia real já” e uma “democracia verdadeira” para substituir a pseudo democracia cujo interesse excludente é a preservação da riqueza dos ricos e o poderio dos poderosos.

A crise teve o efeito de tornar as pessoas conscientes do mundo desenvolvido, de que tanto eles, como nós no Sul global, somos vítimas de um sistema que tendo sido despojado das roupas que escondiam a sua verdadeira natureza de ontem, submetendo a todos a uma “exploração aberta, descarada, direta e brutal”. E o que chamam de democracia é, na verdade, a ditadura da oligarquia financeira, que, como lembrava Che na Conferência de Punta del Este, é incompatível com a democracia.

Dias atrás, o Financial Times de Londres publicou um relatório sobre os salários recebidos pelos altos executivos das maiores empresas. A nota diz que  “em relação aos banqueiros, a era da contenção (salarial) terminou”.

Em 2010, enquanto o mundo continuava em sua queda livre na direção do desemprego em massa, as execuções hipotecárias e o empobrecimento generalizado da população, “a remuneração média dos chefes de 15 grandes bancos europeus e dos EUA aumentaram 36% até (atingirem uma média de) 9,7 milhões de dólares”.

Na Espanha, abalada até em seus fundamentos por uma onda de manifestações de “indignação”, o presidente do BBVA, Francisco González, ganha cerca de 8 milhões de dólares por ano, enquanto seu colega do Banco Santander, o mais importante da Espanha foi mais ambicioso e os seus esforços em prol dos seus investidores, recompensados com 13 milhões de dólares.

Nesta situação cabe perguntar pelo destino dessas orgulhosas e arrogantes pseudo democracias, desmistificadas ao calor de uma crise que demonstrou que são regimes políticos fraudulentos à serviço de oligarquias e da opressão dos povos. Serão estes protestos e mobilizações o precipitar de revolução anticapitalista? Difícil saber, mas parece certo que “os de baixo não podem e não querem continuar vivendo como antes”, para usar a formulação clássica de Lênin.

Os protestos, que agora comovem a Europa, talvez possam ser a ante-sala de uma revolução anticapitalista, mas isso é um processo e não um ato. A luta de classes e a resistência ao imperialismo e seus “cães-de-guarda” no sistema financeiro global (o FMI, o Banco Mundial, o BCE) podem fazer com que o princípio iniciado como um protesto contra o desemprego, a redução salarial e os cortes nas verbas sociais terminem sendo o motor que impulsiona até agora a improvável e imprevisível revolução no coração do capitalismo desenvolvido.

É muito cedo para dizer, mas nós sabemos que a partir de agora as coisas serão diferentes: a de que os condenados da terra não querem continuar vivendo como antes e os ricos estão começando a perceber que eles não podem continuar dominando como antes.

São condições necessárias - embora insuficientes – para uma revolução, o que não é pouca coisa.

Extraído do IHU/Página 12
Enviado por Vanderley Caixe

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O 15M de toda a Espanha reúne-se na Puerta del Sol

3/6/2011, Cuba Debate
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Notícias atualizadas, em espanhol perfeitamente legível, em: 

La acampada en el centro de Madrid
Acampada da Puerta del Sol

Nesse fim de semana, dias 3, 4 e 5 de junho acontece na Acampada Sol o primeiro encontro estadual de porta-vozes de praças do Movimiento 15M.

Na 6ª-feira, 3/6, acontece a primeira reunião da Assembleia Geral de Sol, programada inicialmente para as 21h30, que será ato de boas vindas e apresentação de todos os participantes, quando informarão a situação e as expectativas de suas respectivas prazas.

No sábado, 4/6, a partir das 10h, começa uma jornada de trabalho que se estenderá por todo o dia. Durante o sábado, se discutirão, dentre outros temas, a coordenação entre as praças, ou a realização de futuras assembleias com caráter vinculante.

Afinal, no domingo, 5/6, às 12h, haverá uma assembleia informativa, na qual se exporão as ideias propostas que tenham surgido das reuniões da véspera.

O encontro será um espaço de reflexão e debate do qual sairão propostas comuns a serem discutidas nas respectivas praças, levadas de volta pelos porta-vozes. Espera-se que, assim, se dará passo importante para a consolidação e a expansão do Movimento 15M.

PROGRAMA

V 21:30(*) Asamblea General - Bienvenida y e intervención informativa de todos los portavoces de otras acampadas

S 10:00 Plaza del Carmen - Primera reunión estatal de portavoces de plazas del Movimiento 15M

S 16:00 Patio Maravillas - Segunda reunión estatal de portavoces de plazas del Movimiento 15M

D 12:00 Oso y Madroño - Lectura de conclusiones.

*A Assembleia Geral da Acampada Sol foi atrasada para as 21h30, porque um coletivo alheio ao movimento convocou manifestação para o final da tarde, na praça.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A #spanishrevolution explicada a um brasileiro

Por *Bernardo Gutiérrez

He hecho un texto matriz para prensa, blogosfera e medios informativos de Brasil, que iré adaptando según las necesidades. Lo cuelgo tal cual en portugués porque hay poco en esta lengua en la red. Podéis traducirlo gracias a nuestros comunes amigos Google Chrome y Google Language:



Escrevi este texto-matriz para a imprensa, blogsfera, e demais meios de informação brasileiros, que irei adaptando conforme a necessidade. Publico em português porque há poucos informes nessa língua na internet. Sempre se pode traduzí-lo ao espanhol ou inglês via Google Chrome e/ou Google Language
 


Muitos amigos brasileiros estão me perguntando sobre a #spanishrevolution. A imprensa mainstream brasileira publicou pouco e entendeu quase nada. Por isso, vou fazer um exercício muito simples para entender a chamada #spanishrevolution.

Imagine que uma ministra de Cultura (Ana Buarque do Holanda, por exemplo) aprova uma lei sobre direitos autorais da Internet que despreza licenças como Creative Commons, corta liberdades civis na rede e faz o jogo da indústria audiovisual.

Um grupo de ativistas digitais cria uma plataforma #navoteneles, pedindo para castigar os partidos que aprovaram a lei (imaginemos aqui, PT, PSDB e PMDB).

O grupo, indignado com os casos de corrupção, começa fazer “wikimapas” feitos em redes com os candidatos corruptos. Depois, milhares de grupos que lutam por causas diferentes entram na luta pedindo uma “democracia real” mais participativa e transparente e outro sistema econômico alternativo ao liberalismo.

A revolução #democraciareal estoura quando a policia despeja um grupo de pessoas que estavam acampadas na principal praça da capital do país.

As redes sociais espalham rapidamente a #brazilianrevolution e os cidadãos, altamente conectados, descentralizados e organizados, invadem as praças do país inteiro e discutem, no asfalto e na Internet, uma nova sociedade.

A campanha política em andamento para as eleições regionais fica paralizada e o mundo começa olhar para uma nova revolução digital de consequências imprevisíveis.

Entendeu agora o que aconteceu na Espanha e as ideias que se espalham pelo mundo?

Só falta temperar isso com uma crise econômica (internacional) e a explosão de uma gigantesca bolha imobiliária (espanhola) para completar a equação.

O fácil para a imprensa brasileira era falar que o alto desemprego da Espanha (por volta do 20%) provocou a revolta. É lógico: a crise e o desemprego influenciaram, mas o desemprego não foi o motivo principal, entre outras coisas porque ainda funciona o seguro desemprego.

O simples era comparar a #spanishrevolution às reviravoltas do mundo árabe. Só tem um ponto em comum, a importância das redes sociais no processo.

A Espanha tem democracia consolidada. As causas da revolta foram outras, várias, muitas. Os objetivos também são diferentes aos do mundo árabe.

92% dos jovens espanhóis usa Internet, doce pontos por cima do resto da Europa, segundo o próprio Estado. A Espanha lidera, também, o uso de banda larga nos celulares (19,5% da população, 6,9% na Europa). O cocktail se completa com uma elevadíssima porcentagem de jovens formados na universidade: 39% da população espanhola entre 25 e 34 anos tem formação superior (ano 2009), mais que a França ou outros países europeus. E muitos estão desempregados.

Chama minha atenção que a poderosa conta de @wikileaks no Twitter, a reportagem de Preseurop.

A revolta islandesa da Espanha, reparou na hora que um dos links mais importantes da #spanishrevolution vem do norte, da Islândia, o país que já teve o Índice de Desenvolvimento Humano (IDN) mais elevado do mundo e que afundou na tormentas dos mercados . De fato, uma das principais petições da #spanishrevolution é exigir do governo que não ajude mais ao sistema bancário que provocou a crise internacional. O link islandês-espanhol, a procura de alternativas a um mundo governado pelos mercados e as agências de rating, é tão claro que Hordur Torfason, o homem que fez o povo islandês reagir contra banqueiros e políticos, gravou um video para parabenizar o povo espanhol.

A juventude espanhola, é claro, admira o que aconteceu nos países árabes. Foi um exemplo para todos. Mas a #spanisrevolution é diferente. É um passo à frente. É claramente europeia. E sem pretendê-lo, se converteu na revolta digital mais avançada do mundo. Gerou o debate sobre a democracia. E pode ser fundamental para o mundo atingir um Sistema 2.0 verdadeiramente participativo. Um detalhe: a plataforma de ciberativismo Actuable.es, que nasceu no final de ano 2010, foi vital para evitar que o Governo despejasse a Puerta del Sol de Madri. Em menos de 24 horas, quando a Junta Elitoral proibiu o protesto, Actuable.es incentivou o envio de mais 150.000 mails para Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior e evitou a represãao policial e um banho de sangue.

O suplemento do Estadão publicou na passada segunda-feira o melhor trabalho sobre o assunto na imprensa brasileira: Reiniciar o sistema. Esse é o foco. E nem todo o mundo entendeu.

As duas principais forças políticas espanholas, Partido Socialista Operário Espanhol (no poder) e o direitista Partido Popular (PP), depois das eleições regionais do passado domingo, fizeram de conta que nada aconteceu. Se a abstenção (pessoas que não votaram) fosse uma força política, teria sido a grande vencedora, com 33% dos votos.

O Partido Popular, que foi o grande ganhador, só foi votado por 24% do eleitorado. Por exemplo, em Madri, só 1 em cada 3 votantes deu a sua confiança ao Partido Popular, mas governará com maioria. Em Barcelona, o escândalo foi maior. 47% dos votantes ficou em casa (ou seja, muitos do gigantesco acampamento da Plaza de Catalunya, no centro de Barcelona). E a Convergència i Unió (CiU), nacionalistas conservadores, vão governar a cidade com um 14% dos votos.

A #spanishrevolution quer uma lei eleitoral mais justa, mais representativa. Quer uma lei de transparência das contas públicas. Quer criar um espaço para participação constante da política nacional, regional e local. Quer fazer um redesenho profundo da democracia. Mas, por enquanto, ninguém parece ter entendido o recado. E os protestos continuam. E as praças estão ainda cheias de pessoas. E já tem iniciativas, como “Madrid toma los barrios”  para expandir o debate e participação nos bairros, praças e ruas das cidades.

Existem causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution? Os mesmos motivos que lá e , suponho, que outros.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Espanha, apesar da crise, ainda é um dos mais elevados do mundo.

O Brasil, apesar do crescimento econômico, tem alguns motivos para uma #brazilianrevolution: uma nova ministra de Cultura, Ana Buarque de Holanda, que não respeitou a herança de cultura livre do Governo Lula; altos níveis de corrupção (muitos mais que lá); democracia pouco participativa; um rumo econômico focado no macro e não no micro (agronegócio, exportação, grandes obras); sérios problemas ambientais; inflação; uma especulação imobiliária crescente que vai rumo ao da bolha que estourou na Espanha; desigualdade; violência…

Além disso, o Brasil tem um ativismo admirável. Foi onde nasceu o Fórum Social Mundial e o orçamento participativo. Lá cresceu o apoio de governos ao software livre e licenças como o Creative Commons. O Brasil foi e é importantíssimo na luta pela cultura livre e os direitos civis na Internet, uma referência internacional. O ciberativismo brasileiro, até agora, era mais forte que o espanhol, que só estourou depois da crise, quando o país inteiro saiu da mordomia da prosperidade. Os brasileiros, conseguiram encaminhar uma lei de “ficha limpa”. O Brasil é dos países mais ativos em redes sociais e tem a terceira maior penetração de Twitter do mundo (23%).

Não serei eu, um estrangeiro, quem vai inventar uma #brazilianrevolution, um movimento além das esquerdas e direitas, um movimento que lute pela liberdade, pela transparência e pela democracia 2.0.

Isso corresponde ao meu querido povo brasileiro. Mas pense bem: Existiriam causas, motivos e condições para uma #brazilianrevolution?

Democracia Real Brasil no Facebook.  

*Bernardo Gutiérrez é espanhol, jornalista, escritor e consultor de mídia. Mora em São Paulo. Seus trabalhos aparecem em La Vanguardia (Barcelona), Esquire (Madri), Expresso (Lisboa), Tage Spiegel (Berlim) ou National Geographic Brasil, entre muitos outros.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre os acontecimentos na Espanha

24.Mai.11 :: Colaboradores

Miguel Urbano Rodrigues
As grandes mobilizações de “indignados” assumem como denúncia central a ausência de democracia autêntica. Neste início do século XXI, no contexto de uma gravíssima crise mundial de civilização, o capitalismo, em fase senil, cola o rótulo de democracia representativa a ditaduras da burguesia de fachada democrática.

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Puerta del Sol
Os acontecimentos da Espanha, pelo seu significado, estão a polarizar a atenção da Europa e de milhões de pessoas noutros continentes. Em Washington, Berlim, Paris e Londres, o acampamento da Puerta del Sol, inicialmente encarado como iniciativa folclórica de jovens pequeno burgueses frustrados, gera agora preocupação.

Quando o chamado Movimento M-15 alastrou a dezenas de cidades do país e nas capitais europeias centenas de pessoas se manifestaram frente às embaixadas espanholas, a indiferença evoluiu para um sentimento de temor.
Porquê?

O protesto espanhol insere-se na crise global de civilização que a humanidade enfrenta, cujas raízes arrancam da crise estrutural de um sistema de opressão: o capitalismo.

Seria um erro concluir que os jovens que criaram o Movimento «Democracia Real Ya » são revolucionários e o seu objetivo é a destruição do regime. O M-15 atraiu gente muito diferente. Alguns nem sequer rejeitam a obsoleta e corrupta monarquia bourbônica. Mas rapidamente a contestação popular excedeu as previsões. O Movimento, após a repressão do primeiro dia, foi olhado quase com benevolência pelo PP e pelo PSOE os dois grandes partidos da burguesia. Mas, ao assumir proporções torrenciais, o protesto adquiriu os contornos de uma condenação do regime na qual as massas emergiam como sujeito histórico.

Na Puerta del Sol começaram a ouvir-se brados inesperados: «No al FMI »; «No a la farsa electoral»; «PSOE y PP, la misma gente!»; «No a las guerras de los EEUU!». Soou até a palavra «Revolução!»
Daí o medo.

Os jovens de Madrid sabem o que não querem, mas a grande maioria não tem uma ideia minimamente clara sobre o que fazer e como atuar. As reivindicações aprovadas a 20 de Maio, na Assembleia do acampamento, são moderadas, algumas ingênuas. Espontaneísta, o M-15 não acampa no centro de Madrid em função de uma estratégia de Poder.

Quando aquilo principiou, o que unia a multidão heterogênea de jovens pouco mais era que a recusa da caricatura de democracia. Terá sido uma surpresa para o pequeno núcleo inicial a adesão maciça de adultos, de desempregados, de reformados. Foi ainda numa atmosfera de confusão que surgiram as primeiras lideranças embrionárias, os porta-vozes do acampamento.

Jovens entrevistados pela imprensa internacional manifestaram espanto ao tomar conhecimento da repercussão internacional da iniciativa e das concentrações de solidariedade em cidades espanholas e europeias.

DE TUNIS A MADRID

O protesto dos «indignados» de Espanha foi obviamente inspirado pelo modelo da Tunísia e do Egito. Na época da comunicação instantânea, as redes sociais permitiram que em tempo rapidíssimo os apelos à concentração popular na Puerta del Sol fossem atendidos por milhares de jovens. A praça madrilena foi a Tahrir egípcia.

Tal como ocorrera no Norte de África, a exigência de «democracia» funcionou como motor da mobilização popular.

Mas enquanto nas rebeliões contra Ben Ali e Hosni Mubarak as massas reivindicavam liberdades, eleições livres, um parlamento tradicional, destruição de aparelhos repressivos, o fim de ditaduras ferozes e a sua substituição por regimes representativos similares aos da União Europeia, na Espanha a «democracia real ya» reclamada pelos «indignados» partia dialeticamente da recusa do figurino pelo qual se batiam os africanos.

O que para os árabes era ambição e sonho aparece hoje a muitos dos acampados da Puerta del Sol como caricatura da democracia, rosto de um regime cuja prática nega os valores e princípios que invoca, que concentra a riqueza numa ínfima minoria e promove o desemprego, amplia a desigualdade social.

Enquanto a burguesia tunisiana e egípcia se solidarizava com os rebeldes que se manifestavam contra Ali e Mubarak e o imperialismo rompia com os seus aliados da véspera, a burguesia espanhola, os partidos tradicionais e os poderosos da União Europeia condenavam os «indignados» peninsulares, identificando neles arruaceiros de um novo tipo.

Merece reflexão a dualidade antagônica da posição assumida pelo imperialismo americano. Na Casa Branca, o presidente Obama compreendeu que as reivindicações dos rebeldes da Tunísia e do Egipto não colidiam com a sua estratégia para a Região e, agindo com rapidez e eficácia, estimulou e aplaudiu nesses países a instalação de Governos de transição ditos democráticos, sob a tutela de personalidades militares e civis que, com poucas excepções, tinham servido as ditaduras eliminadas. Na Líbia, bombardeia Tripoli ; no Golfo, pede à Arábia Saudita que afogue em sangue rebeliões incômodas como a do Bahrein, sede da V Esquadra da US Navy.

O imperialismo encara, naturalmente, com desconfiança e apreensão o alastramento do protesto inorgânico dos jovens «indignados». Obama e o Pentágono interrogam-se sobre as consequências imprevisíveis de um movimento que condena com dureza o envolvimento da Espanha nas guerras asiáticas dos EUA.

ADESÕES INTERNACIONAIS

A direita arrasou o PSOE nas eleições municipais de domingo. Os acampados da Puerta del Sol reagiram com indiferença aparente aos resultados. «Eles não nos representam», declararam porta vozes do M-15, sublinhando que na engrenagem do poder, o PSOE e o PP, embora com discursos, histórias , percursos e bases sociais diferentes, praticam no governo políticas neoliberais muito semelhantes, e políticas externas caracterizadas pela submissão às exigências dos EUA e de Bruxelas.

Significativamente, o espaço e o tempo que os media espanhóis dedicaram durante a última semana aos «indignados» diminuíram drasticamente desde sábado. O tema quase desapareceu das primeiras páginas dos grandes jornais e do programa dos canais de televisão. A vitória do PP e o avanço das Autonomias monopolizaram a atenção de políticos, analistas e jornalistas do sistema.

Oposta é a atitude assumida pela maioria dos intelectuais progressistas. Na Espanha e também na América Latina, personalidades de prestigio, em artigos e entrevistas publicados em revistas Web de informação alternativa como Resumen Latino Americano e Rebelión e outras, expressam a sua solidariedade com os jovens do M-15 e refletem sobre o significado e as consequências da contestação.

Cito alguns exemplos expressivos.

O filósofo e escritor marxista Santiago Alba Rico, num artigo intitulado «La Qasba en Madrid» sublinhou que a Espanha «não é uma democracia». E acrescenta, realista: «Não haverá uma revolução em Espanha. Mas uma surpresa, um milagre, uma tormenta, uma consciência nas trevas, um gesto de dignidade na apatia, um ato de coragem na anuência, uma afirmação anti-publicitária de juventude, um grito coletivo de democracia na Europa, não é já um pouco uma revolução?»

Carlos Taibo, professor da Universidade Autônoma de Madrid, esteve na Puerta del Sol levando solidariedade, e dirigindo-se aos acampados disse ao saudá-los: «Os que aqui estamos somos, obviamente, pessoas muito diferentes. Temos na cabeça projetos e ideais diferentes. Mas conseguimos, apesar disso, chegar a acordo quanto a um punhado de ideias básicas». E, parafraseando Santiago Alba Rico, afirmou: «Aquilo a que na Espanha chamam democracia, não o é!».

O escritor italiano Carlo Frabetti escreveu: «Desde o protesto dos Goya de 2003 que não se conseguira um aproveitamento tão eficaz de contestação interna do sistema e a sua expressão cultural do espetáculo».

Atilio Borón, um sociólogo marxista argentino de prestígio internacional, dedica aos jovens acampados um artigo entusiástico intitulado «Os indignados e a Comuna de Paris». Lembra que aquilo que a democracia de Moncloa propõe para enfrentar a «crise é o despotismo do mercado, irreconciliável com qualquer projeto democrático». E, cedendo a um impulso romântico, conclui o artigo com estas palavras: «Se persistirem (os indignados) na sua luta poderão derrotar a prepotência do capital e, eventualmente, iniciar uma nova etapa na história não só da Espanha, mas da Europa».

Angeles Maestro, a destacada dirigente de «Corriente Roja», da Espanha, mais realista, salienta que os acampamentos em dezenas de cidades espanholas «têm um conteúdo anticapitalista» e neles ondula «uma multidão de bandeiras republicanas». Enfatiza o descrédito da montagem eleitoral e afirma que «As mobilizações maciças que se iniciaram em numerosas cidades do estado espanhol a 15 de Maio e que tiveram continuidade em acampamentos, assembleias e convocatórias para novas manifestações expressam o alto nível de indignação e raiva de uma juventude que não tem qualquer esperança de chegar a ter os direitos básicos que a Constituição pomposamente proclama: direito ao trabalho, à habitação, à educação e saúde publica de qualidade, a uma pensão digna, etc.».

Quanto ao futuro do Movimento, adverte como revolucionaria experiente: «Nos processos sociais não há atalhos. Se é um fato que a fagúlha da espontaneidade está sempre presente e serve para desencadear as mobilizações, somente o avanço da organização é a medida da acumulação de forças; e sem acumulação de forças as lutas leva-as o vento.»

AMANHÃ INCERTO

Esperanza Aguirre, a reeleita prefeita de Madrid, não esconde a sua hostilidade aos acampados. Se dela dependesse, declarou, ordenaria à Policia que expulsasse da Puerta del Sol os acampados. A repressão inicial foi esclarecedora da sua posição. Mas carece de poderes para recorrer à força.
Qual o desfecho do protesto dos «indignados»?
Por ora é imprevisível.
Vai persistir, transformando-se em desafio ao Poder?

Uma Assembleia, improvisada e tumultuosa como as anteriores, decidiu manter o acampamento até ao próximo domingo. Durante a semana os ativistas irão aos bairros. Depois se verá.

Em Barcelona e noutras cidades, as concentrações de protesto também não se dissolveram, mas os próprios organizadores admitem que o número de participantes diminua nos próximos dias.

Repito: os jovens «indignados» sentem dificuldade em definir um rumo para a luta que iniciaram. A maioria talvez não tenha consciência da complexidade do desafio lançado ao Poder.

Volto a citar Angeles Maestro: «O processo de confluência múltipla em torno a um programa comum somente poderá abrir caminho se criar raízes nas lutas operárias e populares. Em outras palavras, se a construção do referente político beber a seiva na luta de classes e demonstrar a sua utilidade para abordar um longo processo de acumulação de forças».

A consciência demonstrada pelos «indignados» de Madrid de que a «democracia representativa» é uma ficção no Estado Espanhol deve, porém, ser saudada como acontecimento importante no âmbito das lutas de massa europeias e não ignorada, subestimada ou mesmo criticada com sobranceria em atitudes irresponsáveis por alguns dirigentes de partidos de esquerda da União Europeia.

Não compartilho a euforia prematura de Atilio Boron, mas julgo oportuno reafirmar que a Espanha não é exceção na Europa. Não há democracia autêntica sem participação decisiva do povo. Na União Europeia um sistema mediático perverso e desinformador esconde a realidade. Os regimes existentes nos 27 diferenciam-se muito. Mas existe um denominador comum: a ausência de uma democracia autêntica. Neste início do século XXI, no contexto de uma gravíssima crise mundial de civilização, o capitalismo, em fase senil, cola o rótulo da democracia representativa a ditaduras da burguesia de fachada democrática.

Vila Nova de Gaia, 23 de Maio de 2011.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A primavera árabe conquista a Iberia

Pepe Escobar

25/5/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

But to live outside the law you must be honest [para viver fora da lei, é preciso ser honesto] Bob Dylan, “Absolutely Sweet Marie” [1]

“Ninguém espera a #spanishrevolution”. É um dos signos na icônica – e ocupada – praça Puerta del Sol em Madri: Monty Python revistos para a era do Twitter.

“Estava em Paris em maio de 68 e estou muito emocionado. 72 anos”. É um dos signos na icônica – e ocupada – Praça Catalunya em Barcelona: as barricadas revistas como protesto pacífico à Gandhi.

Os excitantes ventos norte-africanos da grande revolta/primavera árabe de 2011 cruzaram o Mediterrâneo e atingiram a Ibéria com força. Numa rebelião social sem precedentes, a Geração Y [2] na Espanha protesta forte contra – dentre outras coisas – a terrível crise econômica; o desemprego em massa, que alcança espantosos 45% entre os de menos de 30 anos; e contra o encarquilhado sistema político espanhol que trata o cidadão como mero consumidor.

Esse movimento de cidadãos produz manifestos que recebem cinco adesões por segundo. Pode ser acompanhado pelo Twitter (#spanishrevolution); ao vivo da Puerta del Sol pela Soltv.tv . Sentem-se as reverberações por toda a Espanha e pelo mundo, de Los Angeles a Sydney. Uma mini-Revolução Francesa começou na Bastilha em Paris. Os italianos planejam suas revoluções de Roma e Milão a Florença e Bari.

Indignados do mundo uni-vos 
Eles chamam-se “los indignados” – “os indignados”, “the outraged”. Puerta del Sol é a Praça Tahrir, território autossuficiente, com grupos de trabalho, clínica móvel de primeiros socorros, voluntários cuidando do que tenha de ser feito, desde varrer a rua até manter a conexão e um bom sinal de Internet. O Movimento 15 de maio – “M-15” como é conhecido na Espanha – nasceu como manifestação de universitários, que espontaneamente se converteu em manifestação de rua, pacífica, construída para “contaminar” a Espanha via Facebook e Twitter e, assim operar como ponte social crucial entre o Norte da África e a Europa.

No começo, eram só 40 pessoas. Agora são dezenas de milhares em mais de 50 cidades da Espanha – e aumentando. Em pouco tempo, podem ser milhões. O mais importante: tudo foi feito sem apoio de qualquer partido político, sindicato ou jornal-empresa ‘de comunicação’ (na Espanha, já totalmente expostos ao ridículo, pelo poder político). É evento extraordinário, em país que não tem aparecido nas manchetes por ações de resistência ou pelo poder de organizações civis.

Os indignados são pacifistas, apolíticos e altruístas. Não são desempregados, alguma “juventude sem futuro” – o fenômeno é intergeneracional, em transversal que passa atravessa todas as classes. Esse “basta!” contra a Espanha inerte – como se lê num cartaz: “Franceses e gregos lutam. Os espanhóis são campeões de futebol” – implica rejeição profunda aos abismos imensos que separam os políticos e a população, exatamente como no resto da Europa (veem-se bandeiras da Grécia, da Islândia e do Egito, lado a lado).

Os indignados querem que os cidadãos recuperem a voz – como numa democracia participativa de associações de bairro; e reivindicam para os imigranes o direito de votar. Na prática, querem reformar a legislação eleitoral espanhola; querem participar da construção dos orçamentos públicos; querem reforma fiscal e política; querem mais impostos para os mais ricos; querem aumento no salário mínimo; e querem mais controle sobre os movimentos de bancos e do capitalismo financeiro.

No início desse ano, houve protestos massivos de estudantes em Londres, contra o aumento das anuidades nas universidades. O potencial de protesto é gigante em toda a Europa. Na Europa Mediterrânea, a falta de perspectivas é total – da Geração Y aos mais de 30% de diplomados desempregados. Embora o contexto seja muito diferente – no norte da África luta-se contra ditaduras –, a Primavera Árabe mostrou aos jovens europeus que cidadãos mobilizados têm boa chance na luta por justiça social.

A esquerda espanhola tentou cooptar o movimento. O primeiro-ministro Jose Luis Rodrguez Zapatero – sobrevivendo por enquanto às graves escoriações que sofreu nas eleições do domingo passado, que o M-15 evidentemente boicotou – disse que se devia prestar atenção a eles. A direita, claro, prefere abordagem à moda Hosni Mubarak e “exigiu” que o ministério do Interior interviesse à moda medieval – como fez o ex-presidente do Egito. A imprensa de direita acusa os indignados de serem comunistas, antissistema, guerrilheiros urbanos e estarem ligados aos separatistas bascos do ETA. Só faltaram as conexões com a al-Qaeda.

Os indignados responderam que não são contra o sistema: “o sistema é que é contra nós”. No manifesto original condenam todos os políticos, sem salvar nenhum, e toda a mídia-empresa, como “aliados do capital financeiro”; e todos os que provocaram a crise econômica e agora lucram com ela. 
O J’Accuse dos indignados inclui o Fundo Monetário Internacional (FNI), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a União Europeia, as agências de avaliação de riscos e o Banco Mundial.

A economia espanhola está de fato sob controle do FMI. Seja ou não grande reformador, fato é que o FMI presidido pelo hoje detonado Dominique Strauss-Kahn provocou grave devastação social em toda a Espanha, na Grécia e em Portugal. Além dos 45% de desempregados abaixo dos 30 anos na Espanha, as aposentadorias e salários foram reduzidos em 15%. O FMI comanda o processo pelo qual todas as economias do sul da Europa só avançam, em resumo, na recessão.

É como se o Movimento 15-M tivesse recebido o sopro vital diretamente daquela famosa lição de Rosa Luxemburgo, marxista polonesa – segundo a qual o capitalismo é incompatível, em seus antagonismos, com a verdadeira democracia [3]. Os dados mostram que é exatamente o que está acontecendo, tanto no norte industrializado quanto no sul global. 

O novo 1968 

Assim sendo, tudo isso vai muito além de revolta de estudantes. É uma revolta que põe a nu uma profunda crise ética que convulsiona sociedades inteiras. E vai além, também da economia: é movimento que questiona seriamente o lugar dos seres humanos num mundo de capitalismo turbinado.

Não surpreende que os baby boomers [4] – os pais da Geração Y – recordem o grande filósofo alemão Herbert Marcuse. Se se vê essa lufada de ar fresco na paisagem social e econômica asfixiante da Espanha e de grandes partes da Europa, é impossível não lembrar de Marcuse numa conferência em Vancouver em 1969, quando falou sobre uma rebelião estudantil mundial.

Naquele dia, Marcuse lembrou que a mesma pergunta – Por que as revoltas estudantis, por toda parte? – fora feita também ao filósofo do existencialismo francês Jean-Paul Sartre. E Sartre disse que a resposta era simples e não exigia raciocínio sofisticado: os jovens rebelam-se porque estão asfixiados. Marcuse sempre repetiu que essa seria a melhor explicação para aquele grito rebelde, que denunciava a crise estrutural do capitalismo.

Marcuse foi analista muito agudo da degradação da cultura como forma de repressão, e da necessidade de haver uma elite crítica capaz de destruir o ópio totalitário da cultura de consumo (los indignados desempenham também esse papel).

Marcuse identificou o 1968 francês e norte-americano como protesto total contra males específicos, mas ao mesmo tempo como protesto contra um sistema total de valores, um sistema total de objetivos. Os jovens não querem continuar a ter de aguentar a cultura da sociedade estabelecida; não refutam só as condições econômicas e as instituições políticas, mas todo um sistema global apodrecido de valores.
Em 1968, eram realistas: pediam o impossível. Hoje, se lê num dos cartazes: “Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixamos dormir”.  

Bob Dylan faz 70 anos na 3ª-feira, 24/5. In Bob We Trust. Ele jamais dirá, mas, no fundo do coração & mente, sabe de onde vêm los indignados. Em “Absolutely Sweet Marie”, escreveu que “para viver fora da lei é preciso ser honesto”. Los indignados não poderiam ser mais honestos: recusam-se a viver sob leis que os matam, como matam tantos de nós.

Por tudo isso, é muito bom estar metido no centro de Madri, em banzo de Cairo blues [5],outra vez.




Notas de tradução

[1] Letra, original do álbum “Blonde On Blonde”, lançado dia 16/5/1966) e traduzida, e a canção cantada.
[2] Também chamada “Geração do Milênio” ou “Geração da Internet”: os nascidos depois dos 1980 (para alguns, depois de meados da década dos 1970), até a década dos 1990s.

[3] O livro é “Reforma ou revolução”, 1900. Pode ser lido em português de Portugal, grátis. É leitura muito oportuna, nesses tempos em que tanto se fala de “controle social” sobre tudo – até sobre a imprensa-empresa! – como se fosse solução para todos os males. Em discussão com alguém que bem poderia ser qualquer dos “ongo-éticos” da “democratização da cumunicação”, Rosa Luxemburgo escreve: “Nessa perspectiva, o “controlo social”, tal como é apresentado por CL, aparece sobre outra focagem. O que hoje é a acção de "controlo social” – a legislação sindical, o controlo das sociedades por ações etc., – não tem, de fato, nenhuma relação com uma participação no direito de propriedade, com uma “propriedade suprema” da sociedade. A sua função não é limitar a propriedade capitalista, mas, pelo contrário, protegê-la. Ou ainda – economicamente falando – não constitui um ataque à exploração capitalista, mas uma tentativa de a normalizar. Quando B. põe a questão de saber se esta ou aquela lei de proteção aos operários é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que a melhor das leis de proteção operária tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais de limpeza das ruas e o acendimento dos bicos de gás – que também revelam o “controle social”.   
[4] Nascidos entre 1946 e 1964. Literalmente, os nascidos no período da explosão demográfica que o mundo conheceu depois da II Guerra Mundial .

[5] Cairo blues, 1929, pode ser ouvida, cantada pelo autor Henry Spalding. A Cairo da música é Cairo, Illinois, EUA .