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terça-feira, 24 de maio de 2011

A primavera árabe conquista a Iberia

Pepe Escobar

25/5/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

But to live outside the law you must be honest [para viver fora da lei, é preciso ser honesto] Bob Dylan, “Absolutely Sweet Marie” [1]

“Ninguém espera a #spanishrevolution”. É um dos signos na icônica – e ocupada – praça Puerta del Sol em Madri: Monty Python revistos para a era do Twitter.

“Estava em Paris em maio de 68 e estou muito emocionado. 72 anos”. É um dos signos na icônica – e ocupada – Praça Catalunya em Barcelona: as barricadas revistas como protesto pacífico à Gandhi.

Os excitantes ventos norte-africanos da grande revolta/primavera árabe de 2011 cruzaram o Mediterrâneo e atingiram a Ibéria com força. Numa rebelião social sem precedentes, a Geração Y [2] na Espanha protesta forte contra – dentre outras coisas – a terrível crise econômica; o desemprego em massa, que alcança espantosos 45% entre os de menos de 30 anos; e contra o encarquilhado sistema político espanhol que trata o cidadão como mero consumidor.

Esse movimento de cidadãos produz manifestos que recebem cinco adesões por segundo. Pode ser acompanhado pelo Twitter (#spanishrevolution); ao vivo da Puerta del Sol pela Soltv.tv . Sentem-se as reverberações por toda a Espanha e pelo mundo, de Los Angeles a Sydney. Uma mini-Revolução Francesa começou na Bastilha em Paris. Os italianos planejam suas revoluções de Roma e Milão a Florença e Bari.

Indignados do mundo uni-vos 
Eles chamam-se “los indignados” – “os indignados”, “the outraged”. Puerta del Sol é a Praça Tahrir, território autossuficiente, com grupos de trabalho, clínica móvel de primeiros socorros, voluntários cuidando do que tenha de ser feito, desde varrer a rua até manter a conexão e um bom sinal de Internet. O Movimento 15 de maio – “M-15” como é conhecido na Espanha – nasceu como manifestação de universitários, que espontaneamente se converteu em manifestação de rua, pacífica, construída para “contaminar” a Espanha via Facebook e Twitter e, assim operar como ponte social crucial entre o Norte da África e a Europa.

No começo, eram só 40 pessoas. Agora são dezenas de milhares em mais de 50 cidades da Espanha – e aumentando. Em pouco tempo, podem ser milhões. O mais importante: tudo foi feito sem apoio de qualquer partido político, sindicato ou jornal-empresa ‘de comunicação’ (na Espanha, já totalmente expostos ao ridículo, pelo poder político). É evento extraordinário, em país que não tem aparecido nas manchetes por ações de resistência ou pelo poder de organizações civis.

Os indignados são pacifistas, apolíticos e altruístas. Não são desempregados, alguma “juventude sem futuro” – o fenômeno é intergeneracional, em transversal que passa atravessa todas as classes. Esse “basta!” contra a Espanha inerte – como se lê num cartaz: “Franceses e gregos lutam. Os espanhóis são campeões de futebol” – implica rejeição profunda aos abismos imensos que separam os políticos e a população, exatamente como no resto da Europa (veem-se bandeiras da Grécia, da Islândia e do Egito, lado a lado).

Os indignados querem que os cidadãos recuperem a voz – como numa democracia participativa de associações de bairro; e reivindicam para os imigranes o direito de votar. Na prática, querem reformar a legislação eleitoral espanhola; querem participar da construção dos orçamentos públicos; querem reforma fiscal e política; querem mais impostos para os mais ricos; querem aumento no salário mínimo; e querem mais controle sobre os movimentos de bancos e do capitalismo financeiro.

No início desse ano, houve protestos massivos de estudantes em Londres, contra o aumento das anuidades nas universidades. O potencial de protesto é gigante em toda a Europa. Na Europa Mediterrânea, a falta de perspectivas é total – da Geração Y aos mais de 30% de diplomados desempregados. Embora o contexto seja muito diferente – no norte da África luta-se contra ditaduras –, a Primavera Árabe mostrou aos jovens europeus que cidadãos mobilizados têm boa chance na luta por justiça social.

A esquerda espanhola tentou cooptar o movimento. O primeiro-ministro Jose Luis Rodrguez Zapatero – sobrevivendo por enquanto às graves escoriações que sofreu nas eleições do domingo passado, que o M-15 evidentemente boicotou – disse que se devia prestar atenção a eles. A direita, claro, prefere abordagem à moda Hosni Mubarak e “exigiu” que o ministério do Interior interviesse à moda medieval – como fez o ex-presidente do Egito. A imprensa de direita acusa os indignados de serem comunistas, antissistema, guerrilheiros urbanos e estarem ligados aos separatistas bascos do ETA. Só faltaram as conexões com a al-Qaeda.

Os indignados responderam que não são contra o sistema: “o sistema é que é contra nós”. No manifesto original condenam todos os políticos, sem salvar nenhum, e toda a mídia-empresa, como “aliados do capital financeiro”; e todos os que provocaram a crise econômica e agora lucram com ela. 
O J’Accuse dos indignados inclui o Fundo Monetário Internacional (FNI), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a União Europeia, as agências de avaliação de riscos e o Banco Mundial.

A economia espanhola está de fato sob controle do FMI. Seja ou não grande reformador, fato é que o FMI presidido pelo hoje detonado Dominique Strauss-Kahn provocou grave devastação social em toda a Espanha, na Grécia e em Portugal. Além dos 45% de desempregados abaixo dos 30 anos na Espanha, as aposentadorias e salários foram reduzidos em 15%. O FMI comanda o processo pelo qual todas as economias do sul da Europa só avançam, em resumo, na recessão.

É como se o Movimento 15-M tivesse recebido o sopro vital diretamente daquela famosa lição de Rosa Luxemburgo, marxista polonesa – segundo a qual o capitalismo é incompatível, em seus antagonismos, com a verdadeira democracia [3]. Os dados mostram que é exatamente o que está acontecendo, tanto no norte industrializado quanto no sul global. 

O novo 1968 

Assim sendo, tudo isso vai muito além de revolta de estudantes. É uma revolta que põe a nu uma profunda crise ética que convulsiona sociedades inteiras. E vai além, também da economia: é movimento que questiona seriamente o lugar dos seres humanos num mundo de capitalismo turbinado.

Não surpreende que os baby boomers [4] – os pais da Geração Y – recordem o grande filósofo alemão Herbert Marcuse. Se se vê essa lufada de ar fresco na paisagem social e econômica asfixiante da Espanha e de grandes partes da Europa, é impossível não lembrar de Marcuse numa conferência em Vancouver em 1969, quando falou sobre uma rebelião estudantil mundial.

Naquele dia, Marcuse lembrou que a mesma pergunta – Por que as revoltas estudantis, por toda parte? – fora feita também ao filósofo do existencialismo francês Jean-Paul Sartre. E Sartre disse que a resposta era simples e não exigia raciocínio sofisticado: os jovens rebelam-se porque estão asfixiados. Marcuse sempre repetiu que essa seria a melhor explicação para aquele grito rebelde, que denunciava a crise estrutural do capitalismo.

Marcuse foi analista muito agudo da degradação da cultura como forma de repressão, e da necessidade de haver uma elite crítica capaz de destruir o ópio totalitário da cultura de consumo (los indignados desempenham também esse papel).

Marcuse identificou o 1968 francês e norte-americano como protesto total contra males específicos, mas ao mesmo tempo como protesto contra um sistema total de valores, um sistema total de objetivos. Os jovens não querem continuar a ter de aguentar a cultura da sociedade estabelecida; não refutam só as condições econômicas e as instituições políticas, mas todo um sistema global apodrecido de valores.
Em 1968, eram realistas: pediam o impossível. Hoje, se lê num dos cartazes: “Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixamos dormir”.  

Bob Dylan faz 70 anos na 3ª-feira, 24/5. In Bob We Trust. Ele jamais dirá, mas, no fundo do coração & mente, sabe de onde vêm los indignados. Em “Absolutely Sweet Marie”, escreveu que “para viver fora da lei é preciso ser honesto”. Los indignados não poderiam ser mais honestos: recusam-se a viver sob leis que os matam, como matam tantos de nós.

Por tudo isso, é muito bom estar metido no centro de Madri, em banzo de Cairo blues [5],outra vez.




Notas de tradução

[1] Letra, original do álbum “Blonde On Blonde”, lançado dia 16/5/1966) e traduzida, e a canção cantada.
[2] Também chamada “Geração do Milênio” ou “Geração da Internet”: os nascidos depois dos 1980 (para alguns, depois de meados da década dos 1970), até a década dos 1990s.

[3] O livro é “Reforma ou revolução”, 1900. Pode ser lido em português de Portugal, grátis. É leitura muito oportuna, nesses tempos em que tanto se fala de “controle social” sobre tudo – até sobre a imprensa-empresa! – como se fosse solução para todos os males. Em discussão com alguém que bem poderia ser qualquer dos “ongo-éticos” da “democratização da cumunicação”, Rosa Luxemburgo escreve: “Nessa perspectiva, o “controlo social”, tal como é apresentado por CL, aparece sobre outra focagem. O que hoje é a acção de "controlo social” – a legislação sindical, o controlo das sociedades por ações etc., – não tem, de fato, nenhuma relação com uma participação no direito de propriedade, com uma “propriedade suprema” da sociedade. A sua função não é limitar a propriedade capitalista, mas, pelo contrário, protegê-la. Ou ainda – economicamente falando – não constitui um ataque à exploração capitalista, mas uma tentativa de a normalizar. Quando B. põe a questão de saber se esta ou aquela lei de proteção aos operários é mais ou menos socialista, podemos responder-lhe que a melhor das leis de proteção operária tem mais ou menos tanto socialismo como as disposições municipais de limpeza das ruas e o acendimento dos bicos de gás – que também revelam o “controle social”.   
[4] Nascidos entre 1946 e 1964. Literalmente, os nascidos no período da explosão demográfica que o mundo conheceu depois da II Guerra Mundial .

[5] Cairo blues, 1929, pode ser ouvida, cantada pelo autor Henry Spalding. A Cairo da música é Cairo, Illinois, EUA .

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MINAS GERAIS QUE EU NÃO CONHECIA

Abelha na labuta

* José Flávio Abelha

Faz poucos dias tive de ir a Belo Horizonte. A viagem é uma daquelas para ser esquecer rapidinho.

Meu avião sairia do Santos Dumont às 11h. Apresentei-me às 9:30h e somente decolamos lá pelas 17h, com desculpas esfarrapadas: o aparelho não havia saído de São Paulo devido ao mau tempo e Confins também estava impraticável.

Informações que obtive depois de muito perguntar. Aguardei comportadamente no saguão, enquanto alguns passageiros, ao verem uma câmera de TV, começaram a protestar e até fizeram um coro contra o governo federal. Não aderi. Não sou pirobológico.

Madri - Aeroporto de Barajas
Lembrei-me de um incidente em Madri/Barajas. Fiquei trancado em um avião durante três horas, sem qualquer aviso e a minha conexão São Paulo/Rio já havia ido para o beleléu. Não estrilei nem culpei o Rei.

Ao meu lado, rigorosamente ao meu lado, uma professora universitária (não interessa o nome da entidade) apertou o cinto e retirou da bolsa um pacote de provas. Pelo amontoado de números, colchetes e mais sinais que desconheço, notei serem provas de matemática. O comandante deu aqueles avisos que ninguém consegue ouvir e rodou o aparelho para a cabeceira da pista. Quando os motores foram acelerados, o celular da vizinha tilintou. Saia justíssima, pensei eu. Qual o quê... A mestra abriu a bolsa e conversou longamente com um pedreiro, acertando o dia do início de uma obra na sua casa e ditou-lhe números de telefones, o fixo e os celulares. Em seguida, nosso avião já decolando, ela desligou o seu aparelhinho e continuou a corrigir as provas.

Na tolerância zero a decolagem seria abortada e a madame retirada do aparelho. E tem muito jornalista pelaí reclamando que os aviões estão atopetados de farofeiros. Tá bom!

Bar da Cida em BH
Cheguei à noite e fui direto para o Bar da Cida, onde é servido o maior e melhor torresmão de Belô. Lá, encontrei-me com amigos aos quais pedi uma análise do que aconteceu com o PT mineiro, que perdeu tudo, ou como disse um jornalista, o senhor Aecinho Cunha tirou do PT a eleição como se toma pirulito de criancinha.

Resolvi os meus assuntos na cidade, agora não mais priápica como disse certa vez um humorista. Não há mais espaço para o seu priapismo arquitetônico.

Já de volta, em Confins, entrei no único quiosque que vende livros onde encontrei um título interessante. Levei o exemplar ao caixa já com R$30 trocados, pois o preço na etiqueta indicava R$29. A moça pediu-me mais R$5 e eu quis saber para quê e ela me informou que o preço do livro era R$35. Discuti mostrando-lhe a etiqueta e ela me mostrando o código de barras. Pedi para chamar o gerente, e ele veio. Pensei comigo o velho axioma que ensinava ter o cliente sempre razão. Ledo engano. O “possível” gerente olhou a situação e me disse que era válido o preço do código, só faltando me dizer que eu havia pregado aquela etiqueta do quiosque, no lugar os ficam as etiquetas com os preços. Não comprei o livro pelo desaforo, pelo desrespeito.

Jonas Bloch
Dirigi-me ao saguão para aguardar o embarque. Ao meu lado ator global Jonas Bloch reclamava da moça do cafezinho pois havia pedido uma xícara de café “pingado”. Com má vontade a moça conferiu o recibo do caixa e resolveu atendê-lo.

Aboletei-me defronte a porta de embarque. Nas poltronas da frente, duas moças tomavam um chopinho, sentadas nas malas de mão com os pés nas poltronas.

Os alto-falantes não se cansavam de avisar que era a última chamada para determinado vôo. E o nosso já estava se atrasando, visto que passageiros estavam sendo chamados e não apareciam e o nosso aparelho sairia em seguida.
Passados uns bons dez minutos as duas moças “descobriram” que estavam sendo chamadas, deixaram as tulipas no chão e correram pelo corredor de embarque.

No tempo em que esperei no salão para o meu embarque, pensei na análise que meus amigos fizeram das eleições recentes e do fracasso do PT.

Para ser honesto, não houve qualquer análise, pois eles também não entenderam a mágica que a referida agremiação política havia feito, entregando todos os principais cargos (eu disse todos) ao PSDB, sendo que, de um possível acordo político com o sacrifício dos candidatos do PT em favor da candidata Dilma, nada se viu em resultados eleitorais.

Barba, Cabelo e Bigode
A candidata Dilma venceria as eleições em Minas, com ou sem o apoio do governador Aecinho Cunha, o que, diga-se, apoio que não aconteceu. No segundo turno, o já eleito senador trabalhou para Zé Serra e, sem Minas, Dilma seria Presidenta da mesma forma. Minas Gerais não foi fiel de balança nenhuma.

Já faz um bom tempo que BH é petista e o Estado caminha no mesmo sentido. Com o tal acordo, o PT entregou, de mão beijada, o comando do Estado de Minas Gerais para o PSDB. De troco, ainda elegeu Itamar Franco, folião de velhos carnavais.

Quem ganhou foi o PSDB que fez, como se diz, barba, cabelo e bigode. O PT perdeu a governança e se o candidato fosse Patrus Ananias, sem o tal acordo, Fernando Pimentel seria Senador. Sobraria a vaga certa de senador para o ex-governador.

Foi esse o rescaldo da minha rápida viagem a Belo Horizonte que me proporcionou passear de ônibus pela Cidade Administrativa, inaugurada às pressas pelo então Governador Aecinho Cunha. Um monte de edifícios desenhados pelo Dr. Oscar, no seu ocaso criativo, plantada num buraco com sintomas galopantes da formação de favelas ao derredor.

Logo da ONG Pernas Abertas
O Brasil tem uma ONG denominada Contas Abertas que diz apurar as contas do governo federal, mas não apura dos três poderes. Do Judiciário passa ao largo e nem se importa com a velha bagunça do Poder Legislativo. As próprias ONG's não têm suas contas abertas, ocasião em que saberíamos de onde eles conseguem dinheiro para se manterem.

Proponho criar-se a ONG Pernas Abertas para apurar o misterioso acordo feito entre o PSDB e o PT em Minas Gerais.


*Mineiro, autor de A MINEIRICE e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . Agora, agitante do blog JANELA DO MUNDO