Mostrando postagens com marcador José Flávio Abelha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Flávio Abelha. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dez anos tentando...Hoje consegui ser atropelado!


José Flávio Abelha*

Restinga de Piratininga (Lagoa ao fundo)
(clique na imagem para ampliar)
De pronto, desejo excluir deste texto dois serviços que a Restinga de Piratininga possui.

Os policiais que cuidam dos chamados postinhos, na entrada da restinga e pras bandas do Tibau. É telefonar que eles, prontamente, num átimo, estão na sua rua ou na sua porta.

O outro serviço, importantíssimo, é a presença dos valorosos guarda-vidas que passam o dia cuidando de bêbados e afoitos que não obedecem aos avisos e bandeiras vermelhas, sinais de mar brabo, e se aventuram nas águas traiçoeiras da região oceânica.

Politicamente incorreto como sou, penso que os afoitos deveriam pagar pelo salvamento, coisa que toda a população faz através de impostos.

Os dedicados salvadores ganham um salário de fome, arriscam as suas vidas para salvar vidas alheias e nos pagamos a conta. Não é justo.

Mas, vamos ao acidente de hoje.

Uma das atrações que me levou a morar na restinga foi o calçadão. Dizem que o conjunto foi até premiado.

Av. Almirante Tamandaré (calçadão ao fundo)
(clique na imagem para ampliar)
Já lá se vão uns bons dez anos que, diariamente percorro, com passos rápidos e firmes, os tais cinco quilômetros que circundam a praia.

De princípio, só alegria e muitos mais caminhantes. Nada nos impedia nem molestava. Era a vida que qualquer vivente pediria aos seus orixás.

Com o tempo, as coisas foram se transformando.  Habitantes das cidades vizinhas descobriram o calçadão e, nos fins de semana, muita gente desconhecida no bairro foi aparecendo, caminhando, bebendo nos poucos quiosques e até fazendo churrasco nas areias. Isso mesmo, churrasco na praia, com direito a fumaça, brasas e cinzas.

Certa semana o mar resolveu cobrar o seu pedaço de areia. Ficou enfurecido e arrancou nacos do calçadão. E o mesmo não foi restaurado, foi remendado, deixando o antigo e famoso atrativo da restinga como se fosse uma boca desdentada, com inúmeras falhas. Os restos da grande muralha podem ser vistos a qualquer hora, existem partes em que mais parecem com o que restou da invasão da Normandia,o Dia D, com pedaços de muros de cimento e pedras. É só ir e verificar se isso é mentira ou intriga.

Mais um tempo e mais novidades.

Quiosques construídos em cima do calçadão, impedindo o ir e vir dos caminhantes,
uns até com deck’s para aumentar o espaço. Nos dias de grande movimento, quem se julgar incomodado que contorne o barzinho servindo-se da rua asfaltada, depois, de novo, a caminhada no outrora calçadão da restinga.

Outra novidade é a circulação de bicicletas, muitas, além de umas motocicletas e até  triciclos, circulando livremente, dividindo o espaço com os caminhantes, quando não apostam corridas com os quadriciclos nas areias, em grande velocidade.

Devo registrar também que nunca (estou dizendo NUNCA) vi uma autoridade circulando no calçadão ou nas ruas da restinga, caminhando como qualquer mortal. A minha rua é mal iluminada, de terra batida e não tem uma entrada decente pela av. Acúrcio Torres, mas o IPTU atinge as nuvens.

Autoridade, entenda-se como pessoas que tem mando e comando, da polícia municipal, estadual ou federal e dos políticos, com ou sem mandatos.

Praia de Piratininga  - apartamentos na orla .
Não há guardas municipais nem estaduais, circulando, como qualquer contribuinte do altíssimo IPTU que reina na restinga.

O Secretário Beltrame custou a aceitar o fato de que o pessoal que as Forças Armadas – Marinha, Aeronáutica e Aviação – expulsou de alguns poucos morros cariocas, atravessou a ponte (que precisa mudar de nome) e está aboletado nos morros de Niterói e flanando na região oceânica.

Para “pacificar” alguns morros cariocas as nossas Forças Armadas usaram do que possuem de mais moderno: helicópteros com foguetes, blindados, carros de assalto, tanques e tropa muito bem armada.

Agora, o senhor Secretário Beltrame enviou para Niterói uns tantos militares e uma certa quantidade de carros-patrulha que o povo já diz não dar pra meia missa.

Pois foi nessa arena, onde não a lei nem ordem, a restinga de Piratininga, que eu e minha mulher, como fazemos diariamente, estávamos caminhando na cadência de sempre, quando ouvimos um grito de menino: “sai da frente, sai da frente...” ao terceiro “sai da frente”, uns 3 segundos, eu estava sendo empurrado, naturalmente por trás, sem saber o que estava acontecendo e me esborrachei no calçadão, protegendo o rosto, mas esfolando a palma das mãos e a perna direita, em vários locais.

(Estou aqui batucando este desabafo cheio de curativos, nas mãos e na perna direita, que está esticada sem muita mobilidade,  em uma cadeira,).

O pai das crianças, não sei quantas nem quantas bicicletas, veio ajudar a me levantar e me pedir desculpas, ao que eu fui curto e grosso: não desculpo não, e o senhor deveria é dar educação aos seus filhos porque isto aqui não é pista de corrida.

Bobagem da minha parte. Como aquele chiste, minha admoestação, tenho a certeza, foi como “bala perdida” que entra num ouvido e sai no outro.


Houvesse no calçadão fiscais, esses abusos não aconteceriam.

Houvesse no calçadão policiais fazendo a ronda tipo cosme-e-damião, esses abusos não aconteceriam.

Resumo da ópera, nessa arena em que transformaram o outrora famoso calçadão da Restinga de Piratininga, eu enfrentei bicicletas, motos e cortando volta dos quiosques que atravancam o passeio, ou seja, banquei o toureiro por longa data.

Tanto insisti que um dia consegui: ser atropelado.

Certa vez disse o saudoso Ponte Preta que a situação de Niterói era tão dramática que “urubu estava voando de costas”.

Eu vou parafrasear o que se diz no México:
Pobre Niterói, tão longe de Deus e tão perto da impunidade.

Como consolo eu acredito que, um dia, as coisas vão chegar nos seus devidos lugares, visto que eu amo Niterói, gosto do seu povo, da sua gente alegre e muito trabalhadora.

Vista panorâmica de Praia de Piratininga - Niterói
Estou lamentando agora, e tão somente, essa tourada em que me meti hoje cedinho pois, terminada a caminhada, eu iria voar rumo a Belo Horizonte para abraçar meu grande amigo Ronaldo Cortez pelo casório do seu filho e, deveras lamentável, não me fartar no bufê da Bebel, sua esposa e competentíssima anfitriã.

Mas, como diria Drummond, no meu caminho havia uma bicicleta voando baixo.

*Mineiro, autor de “A MINEIRICE”, “PEQUENA INTRODUÇÃO Á TURISMOLOGIA” e outros livretes. Reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . Agora, agitante do blog JANELA DO MUNDO.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A LITURGIA DO CARGO


*José Flávio Abelha

Presidenta Dilma Rousseff
Faz parte do cerimonial que a chegada do Presidente da República seja antecedida por uma espécie de continência iniciada por uma banda militar e, perfilados, os militares, de qualquer patente, apresentem as continências de praxe.

A bandeira da presidência é hasteada anunciando que o Presidente ali se encontra, e assim fica até que o primeiro mandatário deixe, em definitivo, o recinto.

Nos filmes americanos a cena é comum quando o Presidente chega, até em festas, bailes ou solenidades especiais e, convenhamos, o hino/continência deles é muito bonito, e a pompa também.

Quando a Presidenta Dilma Rousseff chega, em solenidade ou não, os militares, todos, se perfilam e fazem continência.

Ela é a Comandante-em-chefe das Forças Armadas e a continência simboliza a obediência e o respeito.

Por falar em Presidenta, no feminino, e não na Presidente Dilma, o jornalista Ricardo Batista Amaral, no seu definitivo trabalho “A Vida Quer é Coragem” – A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil (Editora Primeira Pessoa, 2011), nos conta o seguinte fato na pg. 303:

- “Quinze dias depois da eleição, o cerimonial do TSE consultou a eleita sobre a forma de tratamento que ela preferia receber nos convites para a cerimônia de diplomação: presidente ou presidenta?”.

Durante a campanha, Dilma recebeu pareceres de filólogos indicando que as duas formas eram aceitas no idioma português; usar uma ou outra.....Continue lendo è 


*Mineiro, autor de A MINEIRICE, PEQUENA INTRODUÇÃO Á TURISMOLOGIA e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . 


Agora, agitante do blog JANELA DO ABELHA.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carta do Zé agricultor


Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu.

Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês.

Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro...

Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.

To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio do pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né?) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou.

Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família.

Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite.

Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis?

O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele.

Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo.

Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover.

Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas.

O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade.

Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio.

Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados.

As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão.

Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto.

Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo.

Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado. Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será?

Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão.

Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou.

Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau.

Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo.

Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça.

Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

 (Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros)

A carta acima - tão somente adaptada por Barbosa Melo - foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

“... Ou a Saúva acaba com o Brasil”




Em Buenos Aires ou em Montevidéu a surpresa é a mesma.

O turista tem ao seu dispor no apartamento do hotel a TV a cabo que lhe mostra o mundo e, apertando aqui e ali o controle remoto, surge a tal de Globo Internacional.

Considerando que a Argentina é o país mais importante do MERCOSUL, claro, depois do Brasil, o que a Globo Internacional mostra é um desserviço ao nosso país. Não digo ao Uruguai que é uma extensão cordial e carinhosa desta terra brasileira.

No Uruguai preferem receber o Real ao Dólar, fala-se um correto portunhol, até o horário é o de verão e, com sinceridade, o brasileiro está em casa.

Na Argentina, nada de horário de verão. Travelers Checks do Banco do Brasil, nem pensar. Agência do nosso BB? Idem. O turista brasileiro tem de caminhar muito para encontrar um tal de Banco da Patagônia, onde existe uma pequena placa com a marca do nosso BB.

Tudo isso passa. O que não pode passar é a Globo Internacional e os seus programas nos horários mais curiosos, até que o brasileiro descubra que ela segue o horário de Miami, Florida, EUA.

Toda a programação é dirigida àquela cidade.

Novelas, noticiários e, lamentável, as propagandas.

No noticiário, uma entrevista com uma família fazendo compras em Miami, mais de 20 pares de tênis, trocentas bugigangas e o locutor insistindo em dizer que, cada par de tênis custa 90% mais barato lá do que no Brasil. Tudo, aprovado pela família brasileira, como bois de presépio. E a nossa aduana, como fica na foto?

A TV portuguesa mostra Portugal. A espanhola, a Espanha. A Globo Internacional, que deveria ser brasileira, mostra ao MERCOSUL as maravilhas da Florida e as vantagens de uma viagem de compras àquelas paragens.

Não se entende bem o que se passa.

O Brasil possui uma TV, digamos, estatal. Caberia a ela mostrar o país aos irmãos do sul, do MERCOSUL, ou não?

Nada de propaganda governamental, mas um convite para se visitar o Brasil, mostrar as belezas do país, sua cultura e que tais.

Ainda assim, argentinos e uruguaios visitam o Brasil. A Argentina é o maior exportador de turistas e as nossas praias estão regurgitando de torcedores do Barça e do Messi.

Nada de mostrar aos irmãos do sul o hortifruti carnavalesco com exemplares das melancias, melões e morangas.

Mostrar, sim, a nossa música, a nossa literatura, o nosso povo, o nosso desenvolvimento e milhares de atrações turísticas.

Sei que isso é pedir demais, visto que ela não divulga isso nem aqui no Brasil.

Porém, a Globo Internacional não se presta a este serviço. Parece que, para ela, quanto pior, melhor.

Visitem a Florida, façam compras em Miami. Vejam os embates da polícia versus bandidos na Cidade Maravilhosa; aqueles filmes que, em cada fotograma há, pelo menos, dois palavrões.

Isso ela sabe fazer como nenhuma outra TV, com (d)efeitos especiais, montagens e uma impecável fotografia.

O turista brasileiro que estava em Buenos Aires no dia do jogo em que o argentino Messi ensinou o brasileiro Neymar a jogar futebol, nada se mostrou naquela terra do futebol. Os argentinos almoçam, jantam e dormem futebol, mas não viram o jogo, pelo menos, na TV a cabo.

Um canal japonês mostrou fotos do jogo e o resultado.

A Globo Internacional nada comenta sobre a invasão de produtos chineses na área do MERCOSUL, em detrimento aos produtos brasileiros.

Um turista carioca desabafou:

- No século 19 o naturalista Sant-Hilaire registrou: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

Não entendi bem o que ele quis dizer, mas acho que é por aí...


Enviado por JFAbelha

sábado, 5 de novembro de 2011

VESTÍGIOS DA SEMANA


*José Flávio Abelha

Finalmente sepultaram o pobre Juan, aquele menino cujo cadáver foi carregado por Ceca e Meca sob a alegação de que havia sido morto em um confronto com a polícia e necessitava de identificação etc..

Sua família lutou para provar que jovem havia sido assassinado por policiais, nem armado estava e foi o que se viu.

Até aí os acontecimentos fazem parte do show que a nossa legislação instiga. O que merece atenção, e tem passado despercebido, é o fato da família da vítima, depois de provada a covardia de policiais, pedir segurança... à polícia.

É a polícia protegendo o cidadão... da própria polícia!

A senadora Martha Suplicy, atendendo apelos da Presidenta Dilma e de Lula, acaba de retirar a sua pré-candidatura na convenção do PT que irá escolher o candidato a prefeito de São Paulo.

Seu ex-marido, o folclórico senador, continua firme na possível disputa. Mais dois candidatos também estão listados.

Se não desistirem, ficará patente que a democracia imperou na convenção.

O Dr. Ulisses arvorou-se em anticandidato à presidência da República. Fez uma peregrinação pelo Brasil, em Salvador, Malvadeza estumou uma cachorrada (cachorro mesmo) contra o candidato e seu companheiro antivice, o senador das Alagoas.

O mundo comentou que, embora sob um regime militar, houve disputa. Era o que a ditadura precisava e queria.

Martha mostrou coerência partidária e procurou não provocar um racha na agremiação. Fosse outra pessoa, que nunca vestiu a camisa, já estaria brigando e empunhando a bandeira com os velhos dizeres daqueles partidários neófitos: ou eu ou o caos!

A ilustríssima cientista de generalidades (entende e discute qualquer assunto) Lúcia Hippólito, analisando a desistência em benefício da candidatura Haddad, destacou a fragilidade do ministro, em particular os problemas com o ENEM, apontando as recentes lambanças.
Faltou-lhe isenção.

A lambança anual tem a sua origem.

De certa feita, uma gráfica, subsidiária da Folha de S. Paulo deixou escapar cadernos das provas, surrupiados por um empregado.
Agora, um professor (a) do estabelecimento de ensino pernambucano cometeu o delito.
Onde é que o ministro entra nisso?

A TV nos mostrou, ontem, mascarados em uma janela de um prédio. Lembrei-me daquelas cenas nas olimpíadas de Munich, quando mascarados metralharam atletas de Israel. Engano meu. As cenas que vi foram filmadas no campus da Universidade de São Paulo, prédio da reitoria.
O Sindicato da categoria, SINTUSP, alega “militarização absurda da USP”, “presença acintosa da polícia no campus” e “os policiais tentaram levar presos três estudantes, no pátio da História e Geografia, acusados de estar fumando maconha”.

Formou-se a confusão. Alunos querem a retirada do policiamento e alunos querem a permanência do policiamento.

Os mascarados, pelo que se lê, apresentaram duas condições para desocuparem o prédio, a saber: Retirada do policiamento e instalação de uma segurança da própria universidade e...nenhuma punição aos protestantes.

Resumo da ópera: o que eles querem é o perdão pelas faltas cometidas através da invasão, do quebra-quebra e da falta de respeito às leis e ausência total de cidadania, pois não se concebe universitários desrespeitarem um Oficial de Justiça, com vaias, empurrões, impedindo-o de, tão somente, entregar um documento de uma Juíza, ou seja, trabalhar.

Do que eu depreendo ser a universidade um campus de instrução, nunca de educação.

O deputado Romário acaba de declarar-se pré-candidato a prefeito do Rio de Janeiro pelo seu partido. Por sua vez, seu partido já informou que não terá candidato próprio e que cerrará fileiras com a reeleição do atual prefeito.
Romário já informou que, se não for candidato, não acompanhará a sua agremiação partidária.

Um novato na política, Romário tem-se destacado com pronunciamentos e presença constante no plenário.

Isso não basta. Há que apanhar o jogo de cintura da política, da conversa de bastidores, dos acordos e mais o que a situação pedir. Não é demérito seguir esse caminho. Desde que o mundo é mundo que se exercita a política nesses termos. Nada de troca de favores, nada de porforól, nada de negócios escusos.

Um bom político tem a obrigação da fidelidade, da obediência e da ideologia partidárias. Não é demérito nem ser Maria-vai-com-as-outras.
É vestir a camisa do partido.

Dizem que o baiano Gil disse a Tancredo que gostaria de ser candidato a governador da Bahia.
O sábio Tancredo lhe disse que a sua estrada política começou na Câmara de Vereadores de S.J.Del’Rey, sua terra, depois, deputado estadual, federal, derrotado como candidato a governador, ministro, governador de Minas Gerais, senador e, finalmente, candidato a presidente.
Gil partiu para a vereança, depois, renunciou.

O exemplo de Martha está aí, vivo.
Que o baixinho, que tantas glórias nos deu no futebol, aprenda no Congresso Nacional a arte de fazer política, muito mais difícil do que fazer gol de placa.

O colunista, Wálter Maierovitch diz que o braço direito de Fernandinho Beira Mar foi morto, mas que ele continua a comandar o tráfico de drogas.

Pombas! Fernandinho está muito longe do Rio de Janeiro, trancafiado em uma prisão de segurança máxima. Como é possível que esteja comandando o tráfico?
Via celular? Quem lhe fornece aparelho, bateria, carregador? Via bilhetes? Quem é o pombo-correio?

Lula está doente e a oposição silenciosa. Tem lá os seus motivos.

Muita reza, muita vela, muita promessa para que o Sapo Barbudo tenha um urgente e pronto restabelecimento.

Com a doença, o prestígio de Lula já subiu uns pontos. Doente, ele elege quem bem entender, mais do que disse certa vez Delfim Netto, que ele elegeria até um poste.

Getúlio estava no seu auto-exílio de Santos Reis, em Itu, e bastou um telefonema transmitido por uma pequena emissora para incendiar o Brasil e o tsunami queremista invadiu a nação, surgiu o marmiteiro e olha lá o Chico Alves mandando: “Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”.

Francelino Pereira, pouco antes de uma campanha para deputado, foi acometido de uma hepatite. O nordestino não desanimou. No leito do hospital foi fotografado, pálido, magro. A foto foi impressa em milhares de santinhos e distribuída, com uma mensagem do França, para o nordeste mineiro.
Favas contadas. Foi eleito!

A oposição sabe que Lula, sadio, já era imbatível, doente então, nem se fala. Um desenlace seria fatal para a oposição. De sapo viraria santo e a oposição iria amargar, no mínimo, algumas décadas sem poder subir a famosa Rampa.
Nos velhos tempos, um medalhão da UDN disse que não aguentava mais ser derrotado por cadáveres ilustres.

A VEJA continua a pautar a oposição.

Esta já não sabe mais o que inventar. Aguarda, esfregando as mãos, a próxima edição do panfleto para tomar um rumo.

Nos fins de semana a grande expectativa: qual será a denúncia da vez, o mesmo ministro ou tem carne fresca no açougue dos Civitas?
Pobre oposição que perdeu o rumo e anda a reboque do noticiário dos jornalões e das revistas oposicionistas.
Ainda agora a Câmara Federal convocou o Ministro Haddad para esclarecer o recente escândalo das provas.
O senador paranaense (aquele com a voz de locutor de rádio da A Hora da Saudade, nas madrugadas), já se apressou em impedir que o Ministro seja convocado para falar no Senado, sob a alegação de que não concordava em criar mais uma tribuna para o pré-candidato à prefeitura paulista fazer o seu proselitismo.

Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come.

Meu opidano Lúcido, velho amigo, assalta-me com uma pergunta indigesta.

Os Correios detêm a exclusividade de cuidar da correspondência no Brasil, assunto de segurança nacional. Qual a razão de gastar milhões de reais em publicidade institucional, se não há concorrência?

Fiquei sem resposta e ele continuou.

Você já pensou, meu amigo, se todos os órgãos federais, estabelecimentos bancários e todos os penduricalhos dos ministérios, interrompessem, por somente UM ANO, as propagandas institucionais e tomassem duas atitudes: pagar exclusivamente editais e avisos importantes; carrear os milhões economizados, meio a meio, na construção de prisões e postos de saúde?
Um ano somente!

Você se lembra dos TIJOLAÇOS do Dr. Leonel? A imprensa não lhe dava espaço. O gaúcho comprava os espaços e publicava semanalmente o seu recado. Hoje o seu neto continua a fazer o mesmo.

Caro Lúcido, por favor, não divulgue esse seu palpite infeliz!

*Mineiro, autor de A MINEIRICE e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . Agora, agitante do blog JANELA DO MUNDO. 

Crônica enviada por José Flávio Abelha e publicada em seu blog

domingo, 9 de outubro de 2011

ÓPERA-BUFA ou BURLETA?

*José Flávio Abelha

Pode estar tudo certo, mas está meio esquisito.

Dois ícones da cultura brasileira fincados na Cidade Maravilhosa estão se comportando de forma um tanto ou quanto modernosa e não se escutam as vozes mais representativas da cultura nacional em defesa desses ícones conspurcados. Há um silêncio tedioso ou consentido.

Refiro-me ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a ABL - Academia Brasileira de Letras.

Tal e qual o magarefe londrino, vou por partes, não sem antes esclarecer que estes rabiscos não sabem nem cheiram a uma reação elitizada.

Longe de mim. Os que me conhecem sabem muito bem que sou muito povo mesmo, apenas, se vou à praia, me visto com roupa apropriada, bem assim respeito à casa de amigos, consultórios dos meus médicos e outros locais onde nunca compareço de havaianas e calção de banho.

Em Belo Horizonte eu assisti a encenação de várias óperas, dentre as quais destaco a Carmem, ocasião em que cavalarianos da polícia mineira entraram em cena com os seus elegantes e bem adestrados ginetes. Momento ímpar no Palácio das Artes.

Com igual prazer assisti encenações em Washington e em Viena da mesma forma que qualquer turista de bom gosto e que quer aprender mais e dar pasto às vistas.

Ainda morando em Minas, quando visitava o Rio eu aproveitava a programação do Municipal que teve, em boa hora, interrompida a sua temporada carnavalesca. Bailes famosos com a presença de Vargas e grandes atores e atrizes de Hollywood.

Afinal de contas, aquele palácio estava sendo estuprado pelos bailes carnavalescos, sem nenhuma conotação cultural. (Não me venham tentar convencer de que beber muito, agarrar o mulherio e cheirar lança-perfume sem qualquer proibição era manifestação cultural).

Passei uns anos sem ir ao Municipal. Voltei agora para rever Nabucco e o seu belíssimo Va', pensiero, sull'ali dorate.

Não devia ter ido! O espetáculo deletou das minhas mais caras lembranças as encenações que eu já havia assistido.

Na noite em que eu fui ver o Nabucco carioca, vi coisas extraordinárias, antes e durante o espetáculo.

Vinte horas e o público estava como queria. No Assyrio, onde me aboletei para um rápido lanche, um singularíssimo cidadão também se aboletou (de sandálias, calça desbotada, camiseta com uma inscrição que anunciava uma greve, cabelos rastafari e chapéu), para dar um tapa numa dose de não sei o quê, pois café não era.

Acreditem, leitoras e leitores, esse cidadão adentrou o charmoso auditório do vetusto teatro, com o seu traje despojado, ficou na mesma fila que eu, com o indefectível chapéu na cabeça. Em plena platéia do santuário das artes clássicas ou eruditas, como queiram.

Num piscar, divisei outros com a mesma proteção capilar e me espantei, visto que o auditório estava pululando de homens, muito à vontade, devidamente ajaezados, displicentemente comendo pipocas.

Passado o susto, a ouverture sossegadora. Procurei os metais, todavia, eles estavam escondidos sob uma passarela e o maestro, de costas como sempre, porém, só divisado da nuca para cima.

E teve início a encenação.

O cenário feito de bambus, daqueles grossos verde-amarelos.

Fui informado mais tarde que não eram bambus e sim canos de PVC; não souberam me dizer se Tigre ou Amanco.

De quando em quando os próprios cantores e figurantes em cena moviam aquele monte de tubos, formando no palco um... absolutamente nada.

Muitos, muitos figurantes e componentes do coral trajando um bem cortado Armani, sapatos pretos e relógios no pulso.

Foi então que eu me lembrei do engraçadíssimo filme Um Convidado Bem Trapalhão, do inesquecível Peter Sellers, talvez o mais hilário da sua filmografia.

Nas filmagens (ele representava um atorhindu), aliás refilmagem do histórico Gunga Din, Sellers, todo paramentado, com um cebolão no pulso.

Eis que, de súbito, me aparece em cena a principal personagem, montada em um cavalo de papelão, alegoria de alguma G.R.E.S. do 4° grupo.

Nesse instante a minha memória acendeu a lembrança dos cavalos, cavalos mesmo, na ópera que assisti em Belo Horizonte.

E foi por aí a extravagância que a revista vendida no saguão, massageadora de egos, dizia ser uma ópera de Verdi.

Surgiu, sem tardança, alguém para rebater a minha crítica acre, raivosa, com o argumento de que o espetáculo servia para atrair o povão ao Municipal, um encontro do erudito com o popular.

Quanta bobagem junta, pensei eu.

Na belíssima canção Bailes da Vida, do Milton e Brant, há um verso que mostra o caminho das pedras: “o artista tem de ir aonde o povo está”. E não o contrário!

Todo o universo erudito do Teatro Municipal, todos os artistas são obrigados a se desencastelarem, descer as escadarias e ir de encontro ao povo, didaticamente mostrando ao mesmo como se curte uma ópera, um conserto sinfônico, quem foi Carlos Gomes, Mozart, Beethoven, Bach e tantos e tantos outros.

Esta é a tarefa primordial de todo artista. Há que sair do palco e ir para as ruas, clubes, arenas e as ágoras das metrópoles, cidades menores e vilas.

Arthur Moreira Lima tem feito isso, com sucesso. E torna-se necessário, imperioso mesmo, o artista ser didático igual às aulas dominicais antes das apresentações de orquestras no auditório do Instituto de Educação de Belo Horizonte, ocasião em que o maestro mostrava ao público a função de cada instrumento e ministrava bons modos para se ouvir a música erudita, quase como uma oração.

Há que se preparar o povão para comparecer a um espetáculo erudito.

Do comportamento pessoal ao seu respeitoso traje, que não seja de gala, mas que não tenha o aspecto de sujo ou ensebado. Tão fácil de se fazer. Aceitar o cidadão calçando umas havaianas, de camiseta e chapéu na cabeça, em pleno Teatro Municipal é coisificar a cultura, verdadeira esculhambação.

Não custa nada ensinar ao cidadão, que nunca subiu aquelas escadarias, que existe toda uma liturgia para se assistir um espetáculo erudito, dizendo-lhe, ensinando-o com respeito e carinho que não se trata de um baile de carnaval nem um espetáculo circense ou apresentação de uma noitada de heavy metal, funk ou uma versão compacta do Rock in Rio.

Explicar-lhe, também, que para se entrar numa escola superior, numa universidade, são necessários longos anos de aprendizado e que ninguém sai, como no meu tempo de escola, do ginásio diretamente para a universidade.

Nos velhos tempos, bons tempos, do grupo escolar para o ginásio, de permeio, havia o exame de admissão e, confesso, fui reprovado e tive de freqüentar um ano de curso, além de castigos e cascudos dos meus saudosíssimos pais.

Assim também, tirar o cidadão do seu habitat e levá-lo diretamente para a ópera é torturá-lo. Há que haver uma preparação metodológica. Um gesto de verdadeira cidadania.

Neste momento de verdadeira luta pela cidadania, de partilha democrática dos bens culturais, da educação e da informação, deve o artista ir onde o povo está e mostrar-lhe que existe mais alguma coisa além do rokão brabo, da boquinha da garrafa e das melancias da vida.

Contam que Einstein perguntou a um colega se ele gostava de música clássica. Assustou-se o gênio quando recebeu um redondo não.

O grande físico levou o colega ao seu estúdio, colocou na vitrola um trecho muito fácil de ser assimilado e sair assoviando.

Em seguida, pediu-lhe que tentasse trautear o que ouviu.

Seu colega disse-lhe que aquela sim, era uma música muito agradável.

Falou então o homem da relatividade:

- Pois neste instante, meu colega, você está abrindo uma fresta na fronteira da beleza.

Outro dia eu vi o elegantíssimo Paulinho da Viola e o seu cavaquinho no palco do Teatro Municipal. Em mangas de camisa. O auditório, quase todo com a mesma indumentária, ou seja, um despojamento generalizado.

Tratava-se de uma festa de premiação não sei de quê.

Ora, tal solenidade ficaria melhor numa casa de espetáculos populares, onde os convidados pudessem comparecer à vontade, na base do salve-se quem puder, mas convenhamos, no santuário da erudição é preciso que os cofres da casa estejam zerados. Deste modo, qualquer dinheiro que entrar, venha de onde vier, é bem vindo.

Depois do êxito mundial dos Três Tenores, Morangueira, Bezerra e Dicró entenderam de fazer um espetáculo no Municipal com o jocoso nome de Os Três Malandros. Diria Noel, coisas nossas.

Não deixaram. E eles haviam alugado até casacas.

Nelson Gonçalves certa época disse numa entrevista que a sua grande frustração era não ter conseguido realizar o grande sonho, fazer no Municipal a serenata do século, reunindo a nata dos Cantores e Cantoras (ele disse com C maiúsculo) ainda vivos.

A direção da casa não permitiu.

Agora, assiste-se ópera comendo pipocas, falando alto, de chapéu na cabeça, Nabucco me aparece de mocassim e Armani, Paulinho toca o seu cavaco em mangas de camisa... e ninguém fala nada.

Estaríamos na época do despojamento ou da falta de respeito descambando para a esculhambação?

Que venha logo a inauguração daquele elefante branco que o ex-alcaide César deixou pela metade, salpicado de grandes maracutaias, o qual, todavia, servirá para abrigar espetáculos populares, formaturas, premiações das dezenas de festivais não sei de quê.

Que ele venha logo para deixar o Teatro Municipal em paz, e a nós que queremos curtir um balé, um concerto ou uma ópera, com o respeito que o espetáculo merece. Em silêncio, sem o estalido da pipoca na boca aberta.

E que os administradores daquela vetusta casa também nos respeitem!

Mas, comenta-se a boca larga, que os tempos são outros e, agora, a época é de se quebrar velhas normas, tabus e que tais.

Ficamos, então, combinados assim!

Passemos, neste momento, a outro ou a mais um burlesquear imortal.

Coelho Neto era amigo do maranhense Catulo da Paixão Cearense, o grande poeta e compositor, inventor de palavras e que teve um seguidor mor, o imortal Guimarães Rosa. Ambos, escrevendo arrevesado e inventando palavras. Ambos geniais.

Catulo, para os que não sabem nem quem foi Bette Davis, era um inspiradíssimo compositor.

O barítono-médico Alfonso Ortiz Tirado, mexicano cognominado O Cantor das Américas, cuja fama atravessou o Rio Grande e foi parar em Hollywood, era amigo do maranhense.

Quando O Cantor das Américas nos visitava ele fazia memoráveis serenatas com o criador d’O Marrueiro e O Luar do Sertão.

A última visita do Dr. Alfonso ao Brasil se deu quando Catulo já havia falecido. O cantor foi ao cemitério e, à noite, prestou a sua homenagem ao amigo, cantando à beira do seu túmulo.

Dr. Alfonso era rico e fazia excursões arrecadando fundos para um hospital pediátrico que mantinha no México.

Certa noite, num sarau, o imortal Coelho Neto disse ao amigo (não sei se compadre) que já havia acertado a sua entrada na Academia Brasileira de Letras, só faltando as cartas de praxe pedindo votos aos demais imortais, assunto de praxe.

Catulo reagiu com o seu jeitão nordestino:

- Não escrevo nem peço nada. Na Academia, só entro com meu talento, minhas músicas e meu violão e mais nada.

O Vinícius de Moraes da minha geração, o poeta J.G. de Araújo Jorge, ou José Guilherme de Araújo Jorge, já alexandrino no nome, era um sonetista inspiradíssimo com muitos livros publicados e centenas de edições de jornais com os seus versos.

A ABL não o aceitou. Comentou-se à época que J.G. era um poeta menor e que sua obra era muito lida porque dirigida à juventude. Nada mais.

Mais gritante e mais escandalosa negativa cometeu a ABL ao repudiar por mais de uma vez a candidatura do imortal poeta dos pampas, o sempre lembrado e lido: Mário Quintana.

O poeta que está sepultado na mineira cidade de Leopoldina nunca entraria na ABL. Era pobre, humilde, só publicou um livro. O tempo vingou: tornou-o imortal com o seu EU e outras poesias.

Augusto dos Anjos foi um poeta cuja bagagem não tinha quantidade. Tinha qualidade.

A famosa Casa do Machado tem, também, a fama de desprezar intelectuais que não necessitam do fardão para serem imortais e de aceitar outros, os quais, sem o fardão, nunca atingirão a chamada imortalidade nem a notoriedade.

Quando muito, uma vaga no mausoléu que acharam por bem construir para abrigar a imortalidade. Ali depositado, é imortal.


Dizem que Cony travestido de Ghost Writer, ou fantasma teve um trabalho estafante para redigir uns livros que Juscelino assinou como autor, bagagem necessária para a sua imortalidade acadêmica.

O eterno presidente Austregésilo garantiu a JK que, se candidato, a sua eleição seria tranquilíssima. E arranjaram até um escritor desconhecido para ser o seu adversário, apenas para constar.

Segundo contou mais tarde o próprio Juscelino, Austregésilo o traiu, atendendo à ordem do, também imortal, general fulano, egresso da quartelada de 64 cuja bagagem era, em literatura, uns versos publicados numa revista militar, quando cursava a academia e usando um pseudônimo feminino. A conferir...o pseudônimo!

Juscelino foi derrotado pelo desconhecido escritor goiano que, ao tomar conhecimento da sua nunca sonhada vitória, caiu numa depressão que o levou a um sério tratamento médico, segundo noticiário da época. Seu nome? Perguntem ao Dr. Google.

Vargas foi acadêmico com os discursos escritos pelo seu fantasma Lourival Fontes e publicados pelo DIP, devidamente encadernados. O Dr. Assis entrou com os seus artigos publicados nos Diários Associados.

Seu êmulo, idem, embora frustrado, visto não ter conseguido chegar aonde o nordestino irrequieto chegou: embaixador na Inglaterra e senador.

De súbito a Casa do Machado deixou de lado a sua pompa e circunstância e começou a abrigar ilustres desconhecidos.

Nada de nomes, contudo, consultem a relação dos imortais e vejam quantos os leitores conhecem, ou já ouviram falar.

Quando da eleição de Antônio Olinto comentou-se que uma articulação fajuta estava sendo tramada no sentido de impedir o mineiro, elegendo Celso Furtado que não aceitou a missão menor.

Uma vez eleito, o marido de Zora Seljan foi o mais assíduo membro da Casa e o mais eficiente membro da direção, batendo o ponto diariamente, o que hoje não é seguido por determinados membros que tomam posse, travestem-se de imortais e lá não aparecem mais.

Mais tarde, quando Furtado foi eleito, o mestre disse textualmente:

- Quando recebi o convite para entrar, fiquei realmente envaidecido.

(Celso Furtado disse CONVIDADO)

A eleição de um mago foi marcante, de uma evidência impressionante.

Um imortal disse, iniciando uma palestra, que já havia lido tudo sobre a Amazônia e estava apto a responder quaisquer perguntas sobre aquele mundão.

- Só não me perguntem como o mago entrou para a Academia porque não sei responder, disse o imortal.

Freqüentei a sala do imortal Antônio Olinto para filar o cafezinho quando ia ao Rio, a sua dedicada secretária Elizabeth pode confirmar as minhas constantes visitas, afinal, Antônio Olinto era primo de quase todos os meus primos e sobrinho, outro tanto, de quase todas as minhas tias.

Tínhamos menos do que os fantásticos seis graus de separação.

Numa das visitas, entre uma golada e outra do cafezinho acadêmico, com a liberdade de primo eu lhe perguntei:

- Olintinho, a eleição do mago foi na base do porforol, como sói acontecer no Congresso Nacional e como dizem por aí?

E o sobrinho do famoso caratinguense Monsenhor Rocha, mineiramente escorregou:

- Flávio, a Zora está escrevendo um livro sobre a Congada mineira. Lembra-se de quando você levou ao nosso apartamento da rua Duvivier os grandes chefes das guardas congadeiras, naquela comemoração do 1° centenário da rua Uruguaiana?

Nada mais foi perguntado. Também mudei de assunto!

Tal e qual o Municipal, a Casa do Machado também é composta de artistas, quando não da pena, mas de outras artes. Ou deveriam.

Por conseguinte, também seus membros deveriam ir até o povo, visitar escolas nas favelas e bairros distantes. Falar à juventude.

O que pensa a sua direção?

Aproximar-se do povo, colocando-o nos salões nobres da vetusta Casa, quando o certo deveria ser, ir de encontro ao povo, conversar com os jovens, longe da pompa e da circunstância, mostrando aos mesmos que, embora titulados de imortais, são mortais e de carne e osso. E que não mordem!

Ledo engano, pura ilusão.

Desejam fazer com que o povão visite a Casa.

Em contrapartida, que os seus membros sintam e provem as coisas do povo.

Fico pensando no Cony depois de uma buchada de bode comprando na farmácia da esquina um quilo de bicarbonato.

Ouvidos sensíveis sendo obrigados a ouvirem um pagode nos salões onde Machado já circulou.

Continuando o esforço de popularidade, na data de aniversário de Zé Lins do Rego, flamenguista de carteirinha, o que fizeram?

- Prestaram uma homenagem ao Flamengo, condecorando devidamente Ronaldinho Gaúcho, que nunca foi flamenguista e Vanderley Luxemburgo, um ex-jogador mediano rubro-negro, de passagem pelo clube de coração do Zé Lins.

A foto que vi foi de uma extravagância imortal, ou imoral.

Ronaldinho, que nunca foi flamenguista, de traje esporte, não vi se de chuteiras, com a sua tradicional pituca. E Patrícia, a patricinha, sorridente.

Esqueceu-se de que o ídolo do Flamengo, esse sim, imortal, tem nome, chama-se Arthur Antunes Coimbra, cujo apelido é ZICO!

Em foto recente, o compadre do imortal Sarney deixou-se fotografar com um excêntrico, extravagante e horroroso chapéu chegado ao nordestino das caatingas.

Sinal dos tempos.

Da mais recente introdução à imortalidade eu me nego a comentar.

Melhor teria sido o notável cartunista Jaguar novamente fantasiado a caráter, fardão e chapéu napoleônico, ser barrado nos umbrais da outrora vetusta Casa, avacalhando per saecula saeculorum o besteirol tsunamesco que assola aquela Casa, em tempos passados respeitabilíssima.

Quem sabe o bisonho membro para ser reconhecido com tal, não imite o mexicano que mandou confeccionar um cartão de visitas onde se lia:

- Moreno Reyes – pai de Cantinflas.

Aqui, global mané de tal – imortal

Sabe-se lá se a genialidade do cartunista Jaguar também não trocasse o espadim por uma placa para ser colocada no local da existente, com os dizeres:

Nova administração,
 Agora,
Casa da Mãe Joana!

E é assim que as nossas duas maiores casas de cultura do Rio, senão do Brasil, desejam promover a simbiose entre o erudito e o popular, embora nenhuma das duas partes esteja preparada.

Buchada não combina com brioches bem assim Paulinho da Viola com Pablo Casals. Nem Pagodinho com Plácido Domingo, nem Carlinhos de Jesus com Fred Astaire ou Rudolf Khametovich Nureyev.

Cada um na sua praia.

Lembro-me de uma reportagem que David Nasser e Jean Manzon fizeram, tendo como pano de fundo um manicômio carioca.

Garatujada na parede da entrada, uma frase lapidar, atualíssima:

- Não são todos os que vês, nem são todos os que são.



*Mineiro, Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltda..
Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar .
Agora, agitante da JANELA DO ABELHA –
Correspondência e colaboração, favor enviar para: jfabelha@terra.com.br