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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pepe Escobar: “Jogo de xadrez na Eurásia”


Pepe Escobar

21/12/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também
5/9/2011, Pepe Escobar: “O Amado Líder e o Oleodutostão” (Asia Times Online) em português.

Estão abertas as apostas sobre qual o maior acontecimento de 2011. O(s) Despertar(es) Árabe(s)? A contrarrevolução árabe, desencadeada pela Casa de Saud? As “dores do parto” do Oriente Médio Expandido, já remixado para mudanças seriais de regimes? A R2P (“responsabilidade de proteger”) usada para legitimar bombardeio “humanitário”? Ou o congelamento do “reset” entre EUA e Rússia? Ou a morte da al-Qaeda? Ou o eurodesastre? Ou os EUA anunciando um “século [do oceano]Pacífico” cum Neo Guerra Fria, agora contra a China? Ou, talvez, o ataque que os EUA preparam-se para lançar contra o Irã? (mas esse, de fato, começou antes, com Jorge Dábliu, Dick e Rummy, há eras...).

Mapa da Eurasia

Por baixo de todas essas tramas interligadas – e a histeria correspondente das manchetes, em estilo Guerra Fria –, há um fluxo pulsante, sem fim, que flui sem parar: o Óleo-gasodutostão. Esse é o tabuleiro no qual se disputa a guerra-gêmea, semioculta, da “longa guerra” do Pentágono. Todos os atuais eventos e desenvolvimentos geopolíticos têm a ver com energia. Assim sendo, apertem os cintos! É hora de revisitar o “grande tabuleiro de xadrez” do Dr. Zbigniew Brzezinski na Eurásia, para descobrir quem está vencendo as guerras do Óleo-gasodutostão. 

Conseguiram ingressos para a ópera?

Comecemos com Nabucco [1] (a ópera do gás). Nabucco é, sobretudo, uma jogada chave de ataque, estratégica, que está sendo jogada pelo ocidente: trata-se de fazer chegar à Europa o gás do Mar Cáspio. Executivos de energia falam de “abrir o Corredor Sul” (do gás). O problema é que esse “Abre-te, sésamo” só funcionará se for alimentado por um tsunami de gás que tem de vir de dois “-stões” crucialmente importantes: Turcomenistão e Azerbaijão. 

Nabbuco, com seus 3.900km de extensão, atravessa cinco países – Áustria, Bulgária, Hungria, Romenia e Turquia – e pode vir a custar assombrosos 26 bilhões de euros (US$33,7 bilhões) [1]

A construção – sempre adiada – deve começar em 2013. Hoje, de fato, tudo está reduzido à confusão a mais completa. Ninguém sabe sobre preços, nem detalhes dos direitos de passagem pelos vários países. A Turquia quer revender, ela mesma, o gás. E além do mais, se Baku e Ankara decidirem desenvolver simultaneamente a fase II [2] dos campos de Shah Deniz no Azerbaijão para alimentar o gasoduto, precisarão de investimento extra de $20 bilhões. 

O presidente do Turcomenistão, que carrega o espetacular nome de Gurbanguly Berdymukhamedov, agarra-se a um script que é sua marca registrada (podem ouvi-lo cantar “For You, My White Flower”, de sua autoria). Sempre repete que as muitas propostas da União Europeia “serão analisadas” e que a cooperação com os europeus é “prioridade estratégica” de sua política externa. Mas o Santo Graal que a União Europeia busca – acordo assinado para obter o gás – parece mais distante, a cada dia. Na Rússia e também no Azerbaijão, muitos apostam que o acordo jamais será assinado. 

Nosso Gurbanguly, operador político esperto que é, antes preferirá pôs seus ovos numa cesta chinesa – em vez de deixá-los rolar naquelas terras distantes e atordoadas pelo euro e suas complicações. Por isso o Azerbaijão vive de tirar o corpo ante qualquer compromisso, ao mesmo tempo em que finge que estuda propostas. Gurbanguly sabe melhor que ninguém que, para os europeus, Nabucco é a via pela qual se pode livrar (pelo menos um pouco) das garras da Gazprom russa. Ao mesmo tempo, dá tratos à bola para descobrir meios para maximizar seus lucros chineses, sem antagonizar a Rússia. 

Toda a burocracia europeia que mereça a (má) fama que tem apoia o Projeto Nabucco [3], principalmente uma faminta Comissão Europeia (CE) – o ramo da União Europeia mais infestado de executivos de altíssimos salários. A prioridade estratégica matar-ou-morrer da Comissão Europeia é ligar o porto de Turkmenbashi, no Turcomenistão, à península Absheron, no Azerbaijão por um oleo-gasoduto trans-Cáspio (orig. Trans-Caspian Gas pipeline (TCGP)) [4]. Os dois portos são muito próximos. Fiz a viagem num cargueiro infestado de azerbaijoneses movidos a vodka, em menos de 12 horas. 

Mas como fazer acontecer? Moscou fechou todas as torneiras do gás do Azerbaijão. A Gazprom confiscou todo o surplus de gás do Turcomenistão. A única opção seria o Irã. E quem informará disso o Senado dos EUA – que já declarou guerra econômica [5] ao Irã? 

TAPI já!

É preciso voltar ao AfPak. Ninguém, nem as divindades que regem o Hindu Kush sabem se, algum dia, serão finalmente concluídos os 1.735 quilômetros do óleo-gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia), que já custou $7,6 bilhões (e a cada dia mais custa). 

Para Bayramgeldy Nedirov, ministro de petróleo e gás do Turcomenistão, “não há qualquer dúvida de que [o Projeto TAPI] será realizado.” [6] Paquistão e Índia – depois de longuíssimas idas e vindas – afinal chegaram a um acordo sobre preços. Cerca de 1/3 do óleo-gasoduto será financiado pelo Banco de Desenvolvimento Asiático [ing. Asian Development Bank] com sede nas Filipinas – dado que Afeganistão e Paquistão estão quebrados. 

Imaginem uma serpente de aço que avança pelo oeste do Afeganistão rumo a Herat, desvia para o sul (enterrado, para evitar ataques terroristas) paralelo à estrada Herat-Kandahar, depois volta via Quetta – terra do El Supremo dos Talibã, mulá Omar – até Multan no Paquistão e chega afinal a Fazilka, litoral do Índico.

Citando Sam Spade em Falcão Maltês, “Desse material são feitos os sonhos”, desde o governo Bill Clinton, muito antes do 11/9, e da hoje já virtualmente extinta GWOT [global war on terror, guerra global ao terror]. Os mais cínicos podem ver aí uma “república de gás”, o Turcomenistão – dona da quarta maior reserva mundial – saindo-se muito melhor no trabalho de promover o desenvolvimento e a segurança no Afeganistão, que 100 mil soldados dos EUA. 

O gás para o óleo-gasoduto TAPI virá do novo campo do Yolotã Sul-Osman – que já abastece a China (segundo os auditores britânicos Gaffney, Cline & Associates, é o segundo maior campo de gás do mundo [7], menor, só que o campo de Pars Sul, no Irã). Nosso Gurbanguly, aliás, já assinou decreto que muda o nome do campo de gás para Galkynys – palavra em idioma turcomeno para “Renascimento”. Afinal de contas, o reino de Gurbanguly é conhecido também pelo codinome “Tempos de Novo Renascimento e Grandes Transformações”. Essas “transformações” nada têm a ver com o(s) Despertar(es) Árabe(s). 

Aqui se vê mais um gambito esperto jogado por nosso Gurbanguly. Ele mantém uma porta aberta para o projeto Nabucco, ao liberar o gás do campo Dauletabad no sul do Turcomenistão, por um gasoduto doméstico, até o Mar Cáspio e daí até o OH! Sempre Fugidio óleo-gasoduto Trans-Cáspio (orig. Trans-Caspian Gas pipeline (TCGP)). Até os (saborosíssimos) esturjões do Cáspio sabem que, sem um óleo-gasoduto Trans-Cáspio, o projeto Nabucco chegará já morto ao hospital. 

Há pelo menos um ano, nosso Gurbanguly repete, a todos os diplomatas e altos executivos do petróleo que apareçam, que rejeita a interferência da Rússia na estratégia turcomena para o gás. [8] Mas, parece, esqueceu de contar aos russos. 

O presidente Dmitri Medvedev da Rússia visitou, sim, Ashgabat – a Las Vegas da Ásia Central – para discutir negócios [9]. E lá, numa jogada arriscada, a Gazprom, de repente, declarou amor eterno ao TAPI! Vejam só! Os EUA sonham com o TAPI desde 1996... E agora, a rival Gazprom abocanha o negócio inteiro! Ninguém soube o que Medvedev ofereceu a Gurbanguly, para tirar-lhe da cabeça os sonhos de louis vuittons falsificadas. Provavelmente, nada. Voltaremos a isso, num minuto. 

Pergunte às matriochcas [2]

O concorrente direto do óleo-gasoduto TAPI é o óleo-gasoduto IPI – Irã-Paquistão-Índia (a Índia, pressionada pelos EUA, já praticamente desistiu); a China está a um passo de gritar “truco!” e converter a coisa em óleo-gasoduto IPC – Irã-Paquistão-China. E querem saber? A Gazprom agora também quer entrar na dança Irã-Paquistão [10], ao lado da CNPC chinesa! O trecho iraniano do óleo-gasoduto está praticamente pronto. O trecho paquistanês começa a ser construído no início de 2012. Mais um movimento de mestre enxadrista russo. E Washington nem viu o que podia estar vindo. E veio. 

Qualquer matriochca de madeira sabe o que Moscou não quer que aconteça: que o capítulo afegão do Império de Bases Militares dos EUA algum dia venha à luz. E há a questão da mudança de regime na Síria (com o fim implícito do direito de a Frota Russa no Mar Negro usar o porto de Tartus). Há os avanços da OTAN no Mar Negro. Há a sempre crescente (pelo menos, na retórica) parede de mísseis de defesa dos EUA. E há a aposta dos EUA, de que repenetrarão na Ásia Central pela “Nova Rota da Seda” [11]

A Northern Distribution Network (NDN), montada pelos EUA, pelo menos formalmente, só está abastecendo soldados dos EUA e da OTAN no Afeganistão porque recebeu autorização dos russos [12]. Essa linha de abastecimento é uma trilha quase infinita que atravessa a Eurásia, inclusive o Uzbequistão – cuja ditadura sanguinária a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton elogiou como “politicamente progressista” – e o Tadjiquistão. Não se pode dizer que forçar demais os russos seja estratégia exatamente vencedora. 

Moscou vê também que Washington antagonizou virtualmente todos os grupos e forças, no Paquistão – com a “guerra dos drones”, ativos praticamente em tempo integral; com violações da soberania do Paquistão, também em tempo integral; com tão tolas quanto repetidas ameaças de “invadir” e “capturar o arsenal nuclear de vocês”. Para Washington, prioridade é fazer Islamabad atacar os Talibã-no-Paquistão no Baloquistão e, assim, envolver-se rapidamente numa guerra civil contra, não só os pashtuns, mas também os baloques. Dado que, agora, Moscou – e Pequim – supervisionam o campo de batalha, podem deixar correr o tempo, bebericando chá verde. 

Quando ex-vermelhos se enfurecem 

A entente russo-chinesa não é exatamente um pas-de-deux do Balê Bolshoi. 

A Rússia quer vender gás à China por $400/mil metros cúbicos, o mesmo preço que cobra da Europa. O esperto turcomeno cobra só $250 dos chineses. Pequim já gastou 4 bilhões de dólares no Yolotã Sul (e continua a gastar); querem todo o gás que consigam, para abastecer o muitíssimo bem-sucedido gasoduto Turcomenistão-Uzbequistão-Cazaquistão-China (que os chineses construíram) e que já está operante há dois anos recém completados [13]. Pequim é insaciável: a CNPC, a gigante chinesa do petróleo, quer estar importando nada menos que cinco vezes o que hoje importa da Ásia Central, à altura de 2015 [14].

Isso significa que, para a China, o potencial negócio de $1 trilhão, de 30 anos, com a Rússia pode não ser tão indispensável [15]. A estratégia da Gazprom resume-se a dois gasodutos da Sibéria à China. Para a Rússia, é absolutamente essencial, em termos de extrair dinheiro da Sibéria. As ramificações geopolíticas são imensas. Um cordão umbilical de aço entre Rússia e China pode ser interpretado na Europa – refém virtual da Gazprom – como, talvez, um sinal de que a Europa precisa mais do que nunca do Irã. Ao mesmo tempo, a Rússia continua extremamente desconfortável com o massacre energético que a China inflige a toda a Ásia Central.

Em super-resumo, eis o que pensa Pequim: não pagaremos os preços que a Europa paga pelo gás do Turcomenistão. E não queremos um oleo-gasoduto trans-Cáspio (orig. Trans-Caspian Gas pipeline (TCGP)) [4] até a Europa. Nem a China, nem a Rússia, nem o Irã – ninguém, exceto a OTAN – quer o TCGP [16].

Com o quê logo se vê que os turcomenos podem vender gás à China e ao Irã. Podem vender, até, para o sul da Ásia, via TAPI (afinal de contas, a Gazprom russa já entrou na dança). Mas os turcomenos não conseguirão vender gás para a Europa – onde a Gazprom reina. Ninguém entende como o nosso Gurbanguly conseguiu perceber isso. 

Vem aí o Czar do Gás!

Examine-se a coisa toda por seja qual for o lado, é impossível fugir à sensação de que o Czar do Gas-oleodutostão é Vladimir Putin (e, como o Exterminador, lá estará ele, de volta, em março de 2012, como Presidente da Rússia, queiram ou não queiram os EUA). Afinal, a Rússia produz mais petróleo que a Arábia Saudita (pelo menos, até 2015 [17]) e tem as maiores reservas conhecidas no planeta de gás natural. Cerca de 40% de todo o dinheiro do Estado russo vem do petróleo e do gás. 

O plano de Putin é enganadoramente simples: a Gazprom “invade” a Europa Ocidental e neutraliza a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). 

Prova 1: O óleo-gasoduto Nord Stream [aprox. “Linha Norte”], de $12 bilhões e 1.224km de extensão, construído conforme exigências de preservação ambiental extraordinariamente rigorosas, que começou a ser construído em setembro passado. É gás que vem da Sibéria, atravessa o subsolo do Mar Báltico, contorna a problemática Ucrânia, e chega diretamente à Alemanha, Grã-Bretanha , Países Baixos, França, Bélgica, Dinamarca e República Tcheca (10% de todo o consumo anual de gás da União Europeia, ou um terço de todo o gás que a China consome hoje). O presidente do Consórcio de empresas que está construindo o óleo-gasoduto Nord Stream é o ex-chanceler alemão, Gerhard Schroeder. 

Prova 2: O óleo-gasoduto South Stream [aprox. “Linha Sul”] (o acordo entre os acionistas já foi assinado entre Rússia, Alemanha, França e Itália). É gás russo levado pelo subsolo do Mar Negro até a parte sul da União Europeia, através da Bulgária, Sérvia, Hungria e Eslováquia. Parte essencial de toda a negociação foram os bons tempos que Putin passou ao lado de seu íntimo amigo, o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio “bunga bunga” Berlusconi. 

Quando o óleo-gasoduto Nord Stream saiu do papel e começou a ser construído, Washington literalmente enlouqueceu. Não só porque o Nord Stream redesenhou toda a configuração energética da Europa; também porque forjou uma aliança estratégica indestrutível entre Alemanha e Rússia. Putin, melhor que ninguém, sabe o quando os governos podem ser engessados por tubos de aço que transportam gás e petróleo. 

E South Stream também está enlouquecendo Washington, porque põe a nocaute o Projeto Nabucco e é muito mais barato. Quem queira causa para batalhas geopolíticas e geoeconômicas não encontrará melhor. 

Para Washington – alarmada com o que os alemães chamaram deliciosamente de “parceria para modernização” com a Rússia – restou a tarefa de promover a “resistência” europeia contra o massacre pela Gazprom, como se a Alemanha fosse o Parque Zucotti; e a Rússia, a Polícia Municipal de New York. Mais uma vez aqui, vê-se o óleo-gasodutostão misturado a reverberações políticas. 

Por exemplo: Alemanha e Itália são totalmente contrárias à expansão da OTAN. Por quê? Por causa de Stream Norte e Stream Sul. A formidável máquina exportadora alemã é movida por energia russa; a frase bem poderia ser “Ponha uma Gazprom no meu Audi”. 

Como observou William Engdahl, autor do seminal A Century of War: Anglo-American Oil Politics in the New World Order,  “Nord Stream e South Stream estão posicionados para ultrapassarem o espaço da segurança energética mundial que existe hoje e coreografarem juntos uma nova dinâmica de poder no coração da Europa.” [18]

O mapa do caminho de Putin é o documento assinado por ele, “A new integration project for Eurasia: The future in the making” [Um novo projeto de integração para a Eurásia: o futuro da humanidade], publicado no jornal Izvestiano início de outubro [19] . Pode ser desqualificado como megalomania, mas também pode ser lido como um ippon [3] – Putin adora judô – contra a OTAN, o Fundo Monetário Internacional e o neoliberalismo. 

Sim, o presidente Nursultan Nazarbayev do “leopardo das neves” Cazaquistão já falava de uma União Eurasiática desde 1994. Mas Putin esclarece que não se trata de Back In The USSR [4], mas de uma “moderna união econômica e de moeda” que se estende por toda a Ásia Central. 

Para Putin, a Síria é só um detalhe: o que realmente conta é a integração eurasiana. Não é supresa, pois, que os OTANistas tenham tido chiliques, ante sua sugestão de “uma poderosa união supranacional que pode converter-se num dos vários polos do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo que opera como eficiente elo de conexão entre a Europa e o dinamismo da Região do Pacífico Asiático”. Comparem com a “doutrina” do presidente Barack Obama e Hillary Clinton para “o Pacífico” [20]

Só “integrem” quando eu mandar! 

O cenário está posto para disputa a murros, nessa intersecção crucial da geopolítica hardcore e o óleo-gasodutostão. A “Nova Rota da Seda”, sonho de Washington, já é o que se pode chamar de fracasso [21]

Moscou, por sua vez, quer agora que o Paquistão seja admitido como membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO) [22]. E a China idem, em relação ao Irã. Imaginem Rússia, China, Paquistão e Irã coordenando eles mesmos a própria segurança deles mesmos numa SCO fortalecida, cujo motto é “não alinhamento, nenhum confronto e nenhuma interferência em assuntos internos de outros países”. “Responsabilidade para Proteger” é que não é! 

Mas dificuldades abundam. Para a China, a Organização de Cooperação de Xangai é, principalmente, organização econômica para promover o comércio [23]. Para a Rússia, é, principalmente, um bloco de segurança [24], que tem absolutamente de encontrar solução regional para o Afeganistão (que mantém sob controle os Talibã) e, ao mesmo tempo, tem de pôr fim ao capítulo afegão do Império de Bases Militares dos EUA. 

Com o óleo-gasodutostão se implantando, com Rússia, Ásia Central e Irã controlando 50% das reservas mundiais de gás, e com o Irã e o Paquistão já praticamente integrados como membros da Organização de Cooperação de Xangai, o nome do jogo passa a ser “Integração da Ásia” – se não da Eurásia. China e Rússia já coordenam suas políticas exteriores até os mínimos detalhes. O truque é conectar a China e a Ásia Central com o Sul da Ásia e o Golfo – com a Organização de Cooperação de Xangai crescendo como usina geradora de força econômica e de segurança. Paralelamente, o óleo-gasodutostão pode acelerar a plena integração da Organização de Cooperação de Xangai como contragolpe assestado contra a OTAN. 

Em termos de realpolitik tudo isso faz muito mais sentido que a tal “Nova Rota da Seda” inventada em Washington. Mas vá explicar isso ao Pentágono, ou a uma possível bomba iraniana, ou a uma China que se assuste, ou a ao neo-drone-controlado-por-controle-remoto próximo presidente dos EUA. 

Notas originais do autor

3EU banks throw their weight behind Nabucco pipeline, EU Observer, September 2010.
4. Trans-Caspian pipeline vital to Nabucco, Petroleum Economist, October 2011.
6. ‘Gas pipeline deal for Paquistão, Índia imminent , The Express Tribune, November 5, 2011.
7. Second Gas Congress of Turcomenistão, Open Central Asia, June 5 2011.
8. Gazprom Disbelief Draws Turkmen Ire , Moscow Times, 22 November 2011.
10. Russian gas giant may fund 780-km pipeline, Paquistão Observer, August 22, 2011. 
12. US Now Relies On Alternate Afghan Supply Routes, NPR, September 16, 2011. 
13. China plays Pipelineistan, Asia Times Online, Dec 24, 2009. 
14. Central Asia-China Gas Pipeline’s Capacity To Nearly Double, Oil and Gas Eurasia, August 29, 2011.
15. Russia, China closer to gas deal says Putin, RIA NOVOSTI, October 11. 
18. Russia’s High Stakes Energy Geopolitics, Global Research, November 14, 2011.
20. China and the US: The roadmaps , Al-Jazeera, 31 Oct 2011.
21. US’s post-2014 Afghan agenda falters , Asia Times Online, Nov 4, 2011.
24.Russia, China don’t see US in SCO , Voice of Russia, Nov 1, 2011.



Notas dos tradutores

[1]  Nabucco, antes de dar nome ao gasoduto de que aí se trata, é título de uma ópera de Verdi, escrita em 1842, durante a ocupação austríaca no norte da Itália, e rica em analogias e sugestões. Uma das árias de Nabucco (“Coro dos Escravos Hebreus” [Va pensiero... Minha pátria, bela e perdida], do 3º ato), acabou por tornar-se uma espécie de hino não oficial italiano. Pode ser ouvida, por exemplo, cantada 2011, no Teatro dell'Opera di Roma, com fala-manifesto do maestro Riccardo Muti, que, no bis, convida o público a cantar com o coro . Ver em: “Um belo momento de política à italiana”.

[2] Ver o que são as matriochcas (bonecas russas tradicionais).

[3] Ippon [judô: “o ponto completo”]. Há ippon quando um judoca consegue derrubar o adversário com um golpe perfeito ou o imobiliza, com as costas e ombros no chão, durante 30 segundos. O ippon encerra e decide o combate.

[4] Lit. “De volta à URSS” ou “lá atrás [no sentido de ‘atrasado’] na URSS”. É título de uma canção dos Beatles, do “Álbum Branco”, de 1968. Na letra em inglês, há complexíssimos jogos semântico-sonoros, com subtextos, quase intraduzíveis ao português: “Back in the US, back in the US, back in the USSR [lit. “De volta [back in] aos EUA/apoiando [backing] os EUA” [/us are/ = 'nós estamos'] “De volta à/apoiando a URSS”. Há outros complexos jogos de sentidos e subsentidos nesse lindo poema dos Beatles, p. ex.: “And Moscow girls make me sing and shout, That Georgia's always on my my my my my mi-ind” [As moças de Moscou me fazem cantar e gritar: ‘aquela Georgia sempre sempre na minha cabeça], no qual ecoa, também “Georgia on my mind”, de 1930, conhecida em todo o mundo na gravação de Ray Charles, e hino do estado da Georgia, EUA, palco dos mais duros combates contra o racismo, nos EUA. Essa constelação de significados muito fortemente condensados é muito expressiva e nenhuma interpretação/tradução caberia em nota de rodapé. O poema dos Beattles pode ser lido (e ouvido) em: Back in the U.R.S.S. e, cantado na Praça Vermelha, em Moscou, por Paul McCartney, em 2008, 40 anos depois da gravação original. Só cabe agradecer MUITO ao Pepe Escobar pela oportunidade de lembrar-atualizar produtivamente, criativamente (e complexamente), tudo isso.

domingo, 9 de outubro de 2011

ÓPERA-BUFA ou BURLETA?

*José Flávio Abelha

Pode estar tudo certo, mas está meio esquisito.

Dois ícones da cultura brasileira fincados na Cidade Maravilhosa estão se comportando de forma um tanto ou quanto modernosa e não se escutam as vozes mais representativas da cultura nacional em defesa desses ícones conspurcados. Há um silêncio tedioso ou consentido.

Refiro-me ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a ABL - Academia Brasileira de Letras.

Tal e qual o magarefe londrino, vou por partes, não sem antes esclarecer que estes rabiscos não sabem nem cheiram a uma reação elitizada.

Longe de mim. Os que me conhecem sabem muito bem que sou muito povo mesmo, apenas, se vou à praia, me visto com roupa apropriada, bem assim respeito à casa de amigos, consultórios dos meus médicos e outros locais onde nunca compareço de havaianas e calção de banho.

Em Belo Horizonte eu assisti a encenação de várias óperas, dentre as quais destaco a Carmem, ocasião em que cavalarianos da polícia mineira entraram em cena com os seus elegantes e bem adestrados ginetes. Momento ímpar no Palácio das Artes.

Com igual prazer assisti encenações em Washington e em Viena da mesma forma que qualquer turista de bom gosto e que quer aprender mais e dar pasto às vistas.

Ainda morando em Minas, quando visitava o Rio eu aproveitava a programação do Municipal que teve, em boa hora, interrompida a sua temporada carnavalesca. Bailes famosos com a presença de Vargas e grandes atores e atrizes de Hollywood.

Afinal de contas, aquele palácio estava sendo estuprado pelos bailes carnavalescos, sem nenhuma conotação cultural. (Não me venham tentar convencer de que beber muito, agarrar o mulherio e cheirar lança-perfume sem qualquer proibição era manifestação cultural).

Passei uns anos sem ir ao Municipal. Voltei agora para rever Nabucco e o seu belíssimo Va', pensiero, sull'ali dorate.

Não devia ter ido! O espetáculo deletou das minhas mais caras lembranças as encenações que eu já havia assistido.

Na noite em que eu fui ver o Nabucco carioca, vi coisas extraordinárias, antes e durante o espetáculo.

Vinte horas e o público estava como queria. No Assyrio, onde me aboletei para um rápido lanche, um singularíssimo cidadão também se aboletou (de sandálias, calça desbotada, camiseta com uma inscrição que anunciava uma greve, cabelos rastafari e chapéu), para dar um tapa numa dose de não sei o quê, pois café não era.

Acreditem, leitoras e leitores, esse cidadão adentrou o charmoso auditório do vetusto teatro, com o seu traje despojado, ficou na mesma fila que eu, com o indefectível chapéu na cabeça. Em plena platéia do santuário das artes clássicas ou eruditas, como queiram.

Num piscar, divisei outros com a mesma proteção capilar e me espantei, visto que o auditório estava pululando de homens, muito à vontade, devidamente ajaezados, displicentemente comendo pipocas.

Passado o susto, a ouverture sossegadora. Procurei os metais, todavia, eles estavam escondidos sob uma passarela e o maestro, de costas como sempre, porém, só divisado da nuca para cima.

E teve início a encenação.

O cenário feito de bambus, daqueles grossos verde-amarelos.

Fui informado mais tarde que não eram bambus e sim canos de PVC; não souberam me dizer se Tigre ou Amanco.

De quando em quando os próprios cantores e figurantes em cena moviam aquele monte de tubos, formando no palco um... absolutamente nada.

Muitos, muitos figurantes e componentes do coral trajando um bem cortado Armani, sapatos pretos e relógios no pulso.

Foi então que eu me lembrei do engraçadíssimo filme Um Convidado Bem Trapalhão, do inesquecível Peter Sellers, talvez o mais hilário da sua filmografia.

Nas filmagens (ele representava um atorhindu), aliás refilmagem do histórico Gunga Din, Sellers, todo paramentado, com um cebolão no pulso.

Eis que, de súbito, me aparece em cena a principal personagem, montada em um cavalo de papelão, alegoria de alguma G.R.E.S. do 4° grupo.

Nesse instante a minha memória acendeu a lembrança dos cavalos, cavalos mesmo, na ópera que assisti em Belo Horizonte.

E foi por aí a extravagância que a revista vendida no saguão, massageadora de egos, dizia ser uma ópera de Verdi.

Surgiu, sem tardança, alguém para rebater a minha crítica acre, raivosa, com o argumento de que o espetáculo servia para atrair o povão ao Municipal, um encontro do erudito com o popular.

Quanta bobagem junta, pensei eu.

Na belíssima canção Bailes da Vida, do Milton e Brant, há um verso que mostra o caminho das pedras: “o artista tem de ir aonde o povo está”. E não o contrário!

Todo o universo erudito do Teatro Municipal, todos os artistas são obrigados a se desencastelarem, descer as escadarias e ir de encontro ao povo, didaticamente mostrando ao mesmo como se curte uma ópera, um conserto sinfônico, quem foi Carlos Gomes, Mozart, Beethoven, Bach e tantos e tantos outros.

Esta é a tarefa primordial de todo artista. Há que sair do palco e ir para as ruas, clubes, arenas e as ágoras das metrópoles, cidades menores e vilas.

Arthur Moreira Lima tem feito isso, com sucesso. E torna-se necessário, imperioso mesmo, o artista ser didático igual às aulas dominicais antes das apresentações de orquestras no auditório do Instituto de Educação de Belo Horizonte, ocasião em que o maestro mostrava ao público a função de cada instrumento e ministrava bons modos para se ouvir a música erudita, quase como uma oração.

Há que se preparar o povão para comparecer a um espetáculo erudito.

Do comportamento pessoal ao seu respeitoso traje, que não seja de gala, mas que não tenha o aspecto de sujo ou ensebado. Tão fácil de se fazer. Aceitar o cidadão calçando umas havaianas, de camiseta e chapéu na cabeça, em pleno Teatro Municipal é coisificar a cultura, verdadeira esculhambação.

Não custa nada ensinar ao cidadão, que nunca subiu aquelas escadarias, que existe toda uma liturgia para se assistir um espetáculo erudito, dizendo-lhe, ensinando-o com respeito e carinho que não se trata de um baile de carnaval nem um espetáculo circense ou apresentação de uma noitada de heavy metal, funk ou uma versão compacta do Rock in Rio.

Explicar-lhe, também, que para se entrar numa escola superior, numa universidade, são necessários longos anos de aprendizado e que ninguém sai, como no meu tempo de escola, do ginásio diretamente para a universidade.

Nos velhos tempos, bons tempos, do grupo escolar para o ginásio, de permeio, havia o exame de admissão e, confesso, fui reprovado e tive de freqüentar um ano de curso, além de castigos e cascudos dos meus saudosíssimos pais.

Assim também, tirar o cidadão do seu habitat e levá-lo diretamente para a ópera é torturá-lo. Há que haver uma preparação metodológica. Um gesto de verdadeira cidadania.

Neste momento de verdadeira luta pela cidadania, de partilha democrática dos bens culturais, da educação e da informação, deve o artista ir onde o povo está e mostrar-lhe que existe mais alguma coisa além do rokão brabo, da boquinha da garrafa e das melancias da vida.

Contam que Einstein perguntou a um colega se ele gostava de música clássica. Assustou-se o gênio quando recebeu um redondo não.

O grande físico levou o colega ao seu estúdio, colocou na vitrola um trecho muito fácil de ser assimilado e sair assoviando.

Em seguida, pediu-lhe que tentasse trautear o que ouviu.

Seu colega disse-lhe que aquela sim, era uma música muito agradável.

Falou então o homem da relatividade:

- Pois neste instante, meu colega, você está abrindo uma fresta na fronteira da beleza.

Outro dia eu vi o elegantíssimo Paulinho da Viola e o seu cavaquinho no palco do Teatro Municipal. Em mangas de camisa. O auditório, quase todo com a mesma indumentária, ou seja, um despojamento generalizado.

Tratava-se de uma festa de premiação não sei de quê.

Ora, tal solenidade ficaria melhor numa casa de espetáculos populares, onde os convidados pudessem comparecer à vontade, na base do salve-se quem puder, mas convenhamos, no santuário da erudição é preciso que os cofres da casa estejam zerados. Deste modo, qualquer dinheiro que entrar, venha de onde vier, é bem vindo.

Depois do êxito mundial dos Três Tenores, Morangueira, Bezerra e Dicró entenderam de fazer um espetáculo no Municipal com o jocoso nome de Os Três Malandros. Diria Noel, coisas nossas.

Não deixaram. E eles haviam alugado até casacas.

Nelson Gonçalves certa época disse numa entrevista que a sua grande frustração era não ter conseguido realizar o grande sonho, fazer no Municipal a serenata do século, reunindo a nata dos Cantores e Cantoras (ele disse com C maiúsculo) ainda vivos.

A direção da casa não permitiu.

Agora, assiste-se ópera comendo pipocas, falando alto, de chapéu na cabeça, Nabucco me aparece de mocassim e Armani, Paulinho toca o seu cavaco em mangas de camisa... e ninguém fala nada.

Estaríamos na época do despojamento ou da falta de respeito descambando para a esculhambação?

Que venha logo a inauguração daquele elefante branco que o ex-alcaide César deixou pela metade, salpicado de grandes maracutaias, o qual, todavia, servirá para abrigar espetáculos populares, formaturas, premiações das dezenas de festivais não sei de quê.

Que ele venha logo para deixar o Teatro Municipal em paz, e a nós que queremos curtir um balé, um concerto ou uma ópera, com o respeito que o espetáculo merece. Em silêncio, sem o estalido da pipoca na boca aberta.

E que os administradores daquela vetusta casa também nos respeitem!

Mas, comenta-se a boca larga, que os tempos são outros e, agora, a época é de se quebrar velhas normas, tabus e que tais.

Ficamos, então, combinados assim!

Passemos, neste momento, a outro ou a mais um burlesquear imortal.

Coelho Neto era amigo do maranhense Catulo da Paixão Cearense, o grande poeta e compositor, inventor de palavras e que teve um seguidor mor, o imortal Guimarães Rosa. Ambos, escrevendo arrevesado e inventando palavras. Ambos geniais.

Catulo, para os que não sabem nem quem foi Bette Davis, era um inspiradíssimo compositor.

O barítono-médico Alfonso Ortiz Tirado, mexicano cognominado O Cantor das Américas, cuja fama atravessou o Rio Grande e foi parar em Hollywood, era amigo do maranhense.

Quando O Cantor das Américas nos visitava ele fazia memoráveis serenatas com o criador d’O Marrueiro e O Luar do Sertão.

A última visita do Dr. Alfonso ao Brasil se deu quando Catulo já havia falecido. O cantor foi ao cemitério e, à noite, prestou a sua homenagem ao amigo, cantando à beira do seu túmulo.

Dr. Alfonso era rico e fazia excursões arrecadando fundos para um hospital pediátrico que mantinha no México.

Certa noite, num sarau, o imortal Coelho Neto disse ao amigo (não sei se compadre) que já havia acertado a sua entrada na Academia Brasileira de Letras, só faltando as cartas de praxe pedindo votos aos demais imortais, assunto de praxe.

Catulo reagiu com o seu jeitão nordestino:

- Não escrevo nem peço nada. Na Academia, só entro com meu talento, minhas músicas e meu violão e mais nada.

O Vinícius de Moraes da minha geração, o poeta J.G. de Araújo Jorge, ou José Guilherme de Araújo Jorge, já alexandrino no nome, era um sonetista inspiradíssimo com muitos livros publicados e centenas de edições de jornais com os seus versos.

A ABL não o aceitou. Comentou-se à época que J.G. era um poeta menor e que sua obra era muito lida porque dirigida à juventude. Nada mais.

Mais gritante e mais escandalosa negativa cometeu a ABL ao repudiar por mais de uma vez a candidatura do imortal poeta dos pampas, o sempre lembrado e lido: Mário Quintana.

O poeta que está sepultado na mineira cidade de Leopoldina nunca entraria na ABL. Era pobre, humilde, só publicou um livro. O tempo vingou: tornou-o imortal com o seu EU e outras poesias.

Augusto dos Anjos foi um poeta cuja bagagem não tinha quantidade. Tinha qualidade.

A famosa Casa do Machado tem, também, a fama de desprezar intelectuais que não necessitam do fardão para serem imortais e de aceitar outros, os quais, sem o fardão, nunca atingirão a chamada imortalidade nem a notoriedade.

Quando muito, uma vaga no mausoléu que acharam por bem construir para abrigar a imortalidade. Ali depositado, é imortal.


Dizem que Cony travestido de Ghost Writer, ou fantasma teve um trabalho estafante para redigir uns livros que Juscelino assinou como autor, bagagem necessária para a sua imortalidade acadêmica.

O eterno presidente Austregésilo garantiu a JK que, se candidato, a sua eleição seria tranquilíssima. E arranjaram até um escritor desconhecido para ser o seu adversário, apenas para constar.

Segundo contou mais tarde o próprio Juscelino, Austregésilo o traiu, atendendo à ordem do, também imortal, general fulano, egresso da quartelada de 64 cuja bagagem era, em literatura, uns versos publicados numa revista militar, quando cursava a academia e usando um pseudônimo feminino. A conferir...o pseudônimo!

Juscelino foi derrotado pelo desconhecido escritor goiano que, ao tomar conhecimento da sua nunca sonhada vitória, caiu numa depressão que o levou a um sério tratamento médico, segundo noticiário da época. Seu nome? Perguntem ao Dr. Google.

Vargas foi acadêmico com os discursos escritos pelo seu fantasma Lourival Fontes e publicados pelo DIP, devidamente encadernados. O Dr. Assis entrou com os seus artigos publicados nos Diários Associados.

Seu êmulo, idem, embora frustrado, visto não ter conseguido chegar aonde o nordestino irrequieto chegou: embaixador na Inglaterra e senador.

De súbito a Casa do Machado deixou de lado a sua pompa e circunstância e começou a abrigar ilustres desconhecidos.

Nada de nomes, contudo, consultem a relação dos imortais e vejam quantos os leitores conhecem, ou já ouviram falar.

Quando da eleição de Antônio Olinto comentou-se que uma articulação fajuta estava sendo tramada no sentido de impedir o mineiro, elegendo Celso Furtado que não aceitou a missão menor.

Uma vez eleito, o marido de Zora Seljan foi o mais assíduo membro da Casa e o mais eficiente membro da direção, batendo o ponto diariamente, o que hoje não é seguido por determinados membros que tomam posse, travestem-se de imortais e lá não aparecem mais.

Mais tarde, quando Furtado foi eleito, o mestre disse textualmente:

- Quando recebi o convite para entrar, fiquei realmente envaidecido.

(Celso Furtado disse CONVIDADO)

A eleição de um mago foi marcante, de uma evidência impressionante.

Um imortal disse, iniciando uma palestra, que já havia lido tudo sobre a Amazônia e estava apto a responder quaisquer perguntas sobre aquele mundão.

- Só não me perguntem como o mago entrou para a Academia porque não sei responder, disse o imortal.

Freqüentei a sala do imortal Antônio Olinto para filar o cafezinho quando ia ao Rio, a sua dedicada secretária Elizabeth pode confirmar as minhas constantes visitas, afinal, Antônio Olinto era primo de quase todos os meus primos e sobrinho, outro tanto, de quase todas as minhas tias.

Tínhamos menos do que os fantásticos seis graus de separação.

Numa das visitas, entre uma golada e outra do cafezinho acadêmico, com a liberdade de primo eu lhe perguntei:

- Olintinho, a eleição do mago foi na base do porforol, como sói acontecer no Congresso Nacional e como dizem por aí?

E o sobrinho do famoso caratinguense Monsenhor Rocha, mineiramente escorregou:

- Flávio, a Zora está escrevendo um livro sobre a Congada mineira. Lembra-se de quando você levou ao nosso apartamento da rua Duvivier os grandes chefes das guardas congadeiras, naquela comemoração do 1° centenário da rua Uruguaiana?

Nada mais foi perguntado. Também mudei de assunto!

Tal e qual o Municipal, a Casa do Machado também é composta de artistas, quando não da pena, mas de outras artes. Ou deveriam.

Por conseguinte, também seus membros deveriam ir até o povo, visitar escolas nas favelas e bairros distantes. Falar à juventude.

O que pensa a sua direção?

Aproximar-se do povo, colocando-o nos salões nobres da vetusta Casa, quando o certo deveria ser, ir de encontro ao povo, conversar com os jovens, longe da pompa e da circunstância, mostrando aos mesmos que, embora titulados de imortais, são mortais e de carne e osso. E que não mordem!

Ledo engano, pura ilusão.

Desejam fazer com que o povão visite a Casa.

Em contrapartida, que os seus membros sintam e provem as coisas do povo.

Fico pensando no Cony depois de uma buchada de bode comprando na farmácia da esquina um quilo de bicarbonato.

Ouvidos sensíveis sendo obrigados a ouvirem um pagode nos salões onde Machado já circulou.

Continuando o esforço de popularidade, na data de aniversário de Zé Lins do Rego, flamenguista de carteirinha, o que fizeram?

- Prestaram uma homenagem ao Flamengo, condecorando devidamente Ronaldinho Gaúcho, que nunca foi flamenguista e Vanderley Luxemburgo, um ex-jogador mediano rubro-negro, de passagem pelo clube de coração do Zé Lins.

A foto que vi foi de uma extravagância imortal, ou imoral.

Ronaldinho, que nunca foi flamenguista, de traje esporte, não vi se de chuteiras, com a sua tradicional pituca. E Patrícia, a patricinha, sorridente.

Esqueceu-se de que o ídolo do Flamengo, esse sim, imortal, tem nome, chama-se Arthur Antunes Coimbra, cujo apelido é ZICO!

Em foto recente, o compadre do imortal Sarney deixou-se fotografar com um excêntrico, extravagante e horroroso chapéu chegado ao nordestino das caatingas.

Sinal dos tempos.

Da mais recente introdução à imortalidade eu me nego a comentar.

Melhor teria sido o notável cartunista Jaguar novamente fantasiado a caráter, fardão e chapéu napoleônico, ser barrado nos umbrais da outrora vetusta Casa, avacalhando per saecula saeculorum o besteirol tsunamesco que assola aquela Casa, em tempos passados respeitabilíssima.

Quem sabe o bisonho membro para ser reconhecido com tal, não imite o mexicano que mandou confeccionar um cartão de visitas onde se lia:

- Moreno Reyes – pai de Cantinflas.

Aqui, global mané de tal – imortal

Sabe-se lá se a genialidade do cartunista Jaguar também não trocasse o espadim por uma placa para ser colocada no local da existente, com os dizeres:

Nova administração,
 Agora,
Casa da Mãe Joana!

E é assim que as nossas duas maiores casas de cultura do Rio, senão do Brasil, desejam promover a simbiose entre o erudito e o popular, embora nenhuma das duas partes esteja preparada.

Buchada não combina com brioches bem assim Paulinho da Viola com Pablo Casals. Nem Pagodinho com Plácido Domingo, nem Carlinhos de Jesus com Fred Astaire ou Rudolf Khametovich Nureyev.

Cada um na sua praia.

Lembro-me de uma reportagem que David Nasser e Jean Manzon fizeram, tendo como pano de fundo um manicômio carioca.

Garatujada na parede da entrada, uma frase lapidar, atualíssima:

- Não são todos os que vês, nem são todos os que são.



*Mineiro, Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltda..
Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar .
Agora, agitante da JANELA DO ABELHA
Correspondência e colaboração, favor enviar para: jfabelha@terra.com.br