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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Tariq Ali: "Quem lhes disse onde estava?"

A única questão interessante é saber quem denunciou a localização de Bin Laden e porquê.

OPINIAO | 3 MAIO, 2011 - 16:03 | POR TARIQ ALI

Uma operação das forças especiais dos EUA liquidou Osama bin Laden e mais uns quantos. Ele estava numa casa segura perto da Academia Militar Kakul (o Sandhurst [real academia militar britânica] do Paquistão). A única questão interessante é saber quem denunciou a sua localização e porquê. A fuga de informação só pode ter vindo da ISI [serviço de informações paquistanês] e, se for assim, e estou convencido disso, então o general Kayani, chefe militar do país, deve ter dado luz-verde à decisão. Mais tarde ou mais cedo vai se saber a que ponto ele foi pressionado. O evento recordou-me uma conversa que tive há alguns anos.

Em 2006, a caminho de Lahore, encontrei um conhecido dos tempos da juventude. Envergonhado, confessou que era um oficial sênior de informações a caminho de uma conferência europeia para discutir formas melhores de combater o terrorismo. Seguiu-se a seguinte conversa (uma versão maior pode ser lida em “The Duel: Pakistan on the Flightpath of American Power”):

“Obama bin Laden ainda está vivo?”
Não respondeu

“Se não respondes”, disse, “assumo que a resposta é sim.”
Repeti a pergunta. Ele não respondeu.

“Sabes onde ele está?”
Ele explodiu em gargalhadas

“Não sei, mas mesmo se soubesse, achas que dizia?”
“Não, mas achei que tinha de perguntar de qualquer forma. Há alguém que saiba onde ele está?”

Encolheu os ombros

Insisti: “Nada no nosso maravilhoso país é secreto para sempre. Alguém deve saber. Há três pessoas que sabem. Possivelmente quatro. Podes adivinhar quem são.”

Podia. “E Washington?”

“Esses não o querem vivo.”

“E os teus rapazes não podem matá-lo?”

“Ouve, amigo, por que havíamos de matar a galinha dos ovos de ouro?”

Agora, os americanos mataram, eles próprios, a galinha. Qual foi o prêmio prometido e a quem? Será que com isso estarão eles dispostos a pôr fim à guerra e à ocupação que foi supostamente desencadeada para liquidar Osama e que provocou mortes civis que cifram, no mínimo, quatro vezes mais que as mortes das torres gêmeas. Estarão? Claro que não.

Publicado no blog da London Review of Books a 2 de Maio

Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net

Sobre o autor

Tariq Ali
Escritor paquistanês, ativista revolucionário estabelecido em Inglaterra.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Julian Assange: A Internet é a “maior máquina de espionagem que o mundo jamais viu”

O fundador da WikiLeaks diz também que acredita que a Internet não é uma tecnologia que favoreça a liberdade de expressão, mas que pode ser tomada pelos ativistas e ter uma trajetória diferente.

Por Patrick KingsleyThe Guardian – UK -

ARTIGO | 16 MARÇO, 2011 - 18:00

Para Assange, os telegramas divulgados pela WikiLeaks desempenharam um papel fundamental para incentivar as sublevações no Oriente Médio
A Internet é a “maior máquina de espionagem que o mundo jamais viu” e não é uma tecnologia que, necessariamente, favoreça a liberdade de expressão, afirmou o co-fundador da WikiLeaks Julian Assange, numa rara aparição pública.

Assange reconheceu que a web pode permitir uma maior transparência do governo e uma melhor cooperação entre os ativistas, mas disse que esta deu às as autoridades a melhor oportunidade de sempre de monitorizar e capturar dissidentes.

“Apesar de a Internet ter, de certa forma, a capacidade de nos permitir o conhecimento, a um nível sem precedentes, do que o governo está a fazer, e de facilitar a cooperação para responsabilizar os governos repressivos e as sociedades repressivas, é também a maior máquina de espionagem que o mundo já viu”, disse aos estudantes da Universidade de Cambridge. Centenas fizeram fila durante horas para assistir à palestra.

Assange prosseguiu: “Ela [a web] não é uma tecnologia que favoreça a liberdade de expressão. Não é uma tecnologia que favoreça os direitos humanos. Não é uma tecnologia que favoreça a vida civil. É mais uma tecnologia que pode ser usada para estabelecer um regime totalitário de espionagem, de contornos nunca vistos. Ou, por outro lado, se tomada por nós, se tomada por ativistas e por todos aqueles que querem uma trajetória diferente para o mundo tecnológico, pode ser algo que todos esperamos. "

O co-fundador da WikiLeaks também sugeriu que o Facebook e o Twitter desempenharam um papel menos importante nos levantamentos no Médio Oriente do que o que foi antes argumentado pelos comentadores dos média sociais e pelos políticos.

Assange disse: “Sim, [o Twitter e o Facebook] tiveram um papel, embora nem de perto tão grande quanto a Al-Jazeera. Mas o guia elaborado pelos revolucionários egípcios... diz na primeira página: ‹‹Não usar o Facebook e o Twitter››, e diz na última página: ‹‹Não usar o Facebook e o Twitter››”.

“Há uma razão para isso. Havia realmente uma revolta no Facebook, no Cairo, há três ou quatro anos. Era muito pequena.. e o Facebook foi usado para perseguir os principais participantes. Foram espancados, presos e interrogados”.

Para Assange, os telegramas divulgados pela WikiLeaks desempenharam um papel fundamental para incentivar as sublevações no Oriente Médio e forçar o governo dos EUA a não apoiar o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak.

Assange disse que os telegramas diplomáticos sobre as atitudes dos EUA em relação ao antigo regime tunisiano fortaleceram as forças revolucionárias em toda a região.

“Os telegramas da Tunísia mostraram claramente que, se se chegasse ao ponto de um conflito entre as forças armadas, por um lado, e o regime de Ben Ali, por outro lado, os EUA, provavelmente, apoiariam os militares”.

E continuou: “Isso deve ter sido a causa de os países vizinhos da Tunísia pensarem: se houver intervenção militar, eles podem estar do mesmo lado que os Estados Unidos”.

Assange, que fez um apelo contra a sua extradição para a Suécia por supostas acusações sexuais, disse que as divulgações da WikiLeaks também forçaram os EUA a abandonar o seu apoio tácito a Mubarak.

“A divulgação de telegramas sobre a aprovação de Mubarak aos métodos de tortura de Suleiman, impediu que Joseph Biden repetisse a sua afirmação anterior de que Mubarak não era um ditador. Não foi possível que Hillary Clinton publicamente saísse em apoio ao regime de Mubarak”.

Respondendo a uma pergunta sobre Bradley Manning, o soldado dos EUA preso por supostamente divulgar informações confidenciais, Assange disse: “Nós não temos ideia se ele é uma das nossas fontes. Toda a nossa tecnologia foi preparada para assegurar que não saibamos”

O co-fundador da WikiLeaks expressou simpatia por Manning. “Ele está numa situação terrível. E se não está ligado a nós, [então] está lá como inocente... e se ele for, de alguma forma, ligado às nossas publicações, então, é claro, que temos alguma responsabilidade. Dito isto, não há qualquer alegação de que ele tenha sido preso por ter alguma coisa a ver conosco. A alegação é que ele foi preso por ter falado à revista Wired, nos Estados Unidos. "

Assange também criticou o New York Times, dizendo que este jornal suprimiu artigos sobre a atividade militar secreta americana no Afeganistão.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net 
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Líbia: um grito de indignação

O povo líbio precisa da nossa solidariedade, não de “diplomacia econômica” que fecha os olhos às atrocidades.

OPINIAO | 23 FEVEREIRO, 2011 - 02:01 | POR LUÍS LEIRIA

O embaixador da Líbia na ONU denuncia o genocídio do seu povo, praticado pelo regime do coronel Kadafi. O ministro da Justiça líbio renuncia em protesto contra o uso de violência para reprimir os protestos. As notícias que conseguem furar o cerco informativo montado pelo gangue kadafista dão conta de tanques a disparar contra o povo; de aviação bombardeando a cidade de Bengazi; de snipers, instalados em prédios altos no centro de Bengazi, assassinando os seus concidadãos aleatoriamente e a esmo. E diante disto, Luís Amado mostra-se preocupado com a guerra civil em que a Líbia pode mergulhar, e pede um plano Marshall para a região para conter o fundamentalismo islâmico.


É vergonhoso. É indignante.

“Guerra civil”? Isso foi o que disse o filho-herdeiro de Kadafi na TV. Mas não há guerra civil alguma. O que há é uma valente, corajosa sublevação contra um dos piores estados policiais do mundo. Um estado policial que entrou em agonia e que reage à bruta matando e matando e matando. Quantos mortos? Ninguém sabe, mas estão na casa das centenas. Esta já é a mais sangrenta das sublevações do mundo árabe.

O governo português não mexeu até agora um dedo para denunciar o genocídio e a tirania de Kadafi. Por que não denuncia os crimes contra a Humanidade que aquele regime está a cometer?

Luís Amado e José Sócrates conhecem muito bem a Líbia. Ainda em Setembro do ano passado estiveram em Trípoli nas comemorações do aniversário da “Revolução” de Kadafi. Conviveram com o ditador, ouviram os discursos de elogio exaltante do regime, assistiram aos desfiles militares, de grupos de música beduína, de crianças a gritar vivas “à mãe pátria Líbia”.


É a famosa “diplomacia econômica”. Sócrates já considerara, um ano antes, também em visita a Trípoli, que a Líbia é “um parceiro estratégico para Portugal”. Tradução: se temos interesses econômicos, não importa que o regime kadafista seja uma ditadura.

A Líbia é um dos principais fornecedores de petróleo bruto a Portugal, que a Galp refina. As importações portuguesas de combustíveis daquele país mais que duplicaram no ano passado.

Mas o petróleo que a Galp comercializa está manchado do sangue dos líbios.

É inexplicável, é inaceitável que o governo português não condene claramente o genocídio em curso, e que no mínimo ameace romper todas as relações com a Líbia.

Há sete anos estive na Líbia, junto com a equipe que preparava a série documental “Périplo”, realizada por Camilo Azevedo e apresentada por Miguel Portas. De todos os países que visitamos então, esta era a mais assustadora ditadura. Percorremos quase dois mil quilômetros para visitar o seu espantoso patrimônio histórico, sempre acompanhados por polícias que supostamente cuidavam da nossa segurança e nunca nos largavam. Havia barreiras militares nas estradas de 200 em 200 quilômetros.

Bengazi, o centro do levantamento, é a capital do petróleo e o lugar onde desemboca o grande rio artificial, a obra megalômana de Kadafi que traz água paleolítica de jazidas no fundo do Saara para abastecer as torneiras da cidade. O seu centro, virado para o porto, parece o de uma cidade do século XXI: edifícios modernos, largas avenidas. Mas basta caminhar algumas centenas de metros – como fizemos uma vez, conseguindo fugir aos polícias – para descobrir a verdadeira cidade, de casas pobres e ruas de terra batida.

Por todo o lado há outdoors do homem que não tem qualquer cargo formal: é o “líder da revolução”. O líder adora deixar a sua marca por todo o lado. No museu nacional de Trípoli, ao lado de maravilhas da Roma antiga, está a carocha que o “líder” usava quando fez a “revolução”. Kadafi não gosta de boxe nem de corridas de camelos, e por isso elas são proibidas. E o mais incrível: é proibido regatear preços. Só na Líbia é que há mercados com preços fixos, os únicos de todo o mundo árabe.

É neste país que está em curso mais uma revolução. E o povo líbio precisa da nossa solidariedade, não de “diplomacia econômica” que fecha os olhos às atrocidades.

Sobre o autor

Jornalista. Dirigente do Bloco de Esquerda.

Extraído do Esquerda.net  
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Assange promete revelar detalhes fiscais de 2.000 ricos


Banqueiro suíço entrega ao fundador da WikiLeaks dados “para educar a sociedade” sobre o montante da receita fiscal potencialmente perdida em esquemas offshore.
Por Esther Addley, The Guardian

ARTIGO | 18 JANEIRO, 2011 - 16:43

Julian Assange e Rudolf Elmer: acusações de evasão fiscal e lavagem de dinheiro em offshores
Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, comprometeu-se esta terça-feira a tornar públicas as informações confidenciais fiscais de 2.000 indivíduos ricos e proeminentes, após ter recebido os dados de um banqueiro suíço que afirma que as informações potencialmente expõem casos de lavagem de dinheiro e de evasão fiscal ilegal em grande escala.


Numa entrega cuidadosamente coreografada, em Londres, Rudolf Elmer, ex-executivo sénior do banco suíço Julius Baer, com sede nas ilhas Caimã, disse que estava entregando os dados à WikiLeaks como parte de uma tentativa de “educar a sociedade” sobre o montante das receitas fiscais potencialmente perdidas devido aos regimes de offshore e de lavagem de dinheiro.

“Como banqueiro, tenho o direito de me erguer contra algo que está errado”, disse ele. “Eu sou contra o sistema. Eu sei como funciona o sistema e conheço o dia-a-dia do negócio. Quero que a sociedade saiba como funciona esse sistema, porque é prejudicial à sociedade”, disse.

Elmer vai comparecer num tribunal suíço esta quarta-feira, acusado de infringir as leis de sigilo bancário suíço, de falsificação de documentos e envio de mensagens ameaçadoras a dois funcionários da sua antiga entidade patronal.

Ele nega as acusações.

Elmer recusou-se a comentar sobre o espaço de tempo coberto pelos dados, contidos em dois CDs, ou a precisa fonte das informações, e também não forneceu os nomes de quaisquer empresas ou indivíduos cujos detalhes bancários estão nos CDs, dizendo que as informações precisam ser investigadas antes de ser levadas ao domínio público.

Assange, que fez a sua primeira aparição pública desde que em Dezembro saiu da prisão sob fiança, devido a alegações de agressão sexual, pelas quais a Suécia procura obter a sua extradição, disse que iria passar as informações para o Serious Fraud Office (SFO), examiná-las, para garantir que as fontes ficam protegidas e, em seguida publicá-las no site da WikiLeaks, potencialmente dentro de “duas semanas”.

“Logo que verificarmos os dados, sim, haverá uma divulgação completa”, disse.

Ele não quis comentar perguntas relativas ao processo de extradição, que será decidido pelos magistrados do tribunal de Belmarsh em 7 de Fevereiro, ou sobre outras fugas de informação que prometeu divulgar em breve, incluindo informação relativa a um “grande banco dos EUA”, que muitos acreditam ser o Bank of America.

O site ainda não está totalmente funcional, disse. “Ainda não estamos abertos aos negócios públicos. O volume de material que receberíamos é muito alto para os nossos mecanismos internos, mas estamos recebendo de outras formas, como esta”, disse. A divulgação de telegramas da diplomacia dos EUA, que o site originalmente fez através do The Guardian e outros quatro meios de comunicação, continuará.

Elmer disse que estava a entregar as informações para a WikiLeaks porque já tinha antes abordado universidades com as informações, mas não lhe deram seguimento. Ele disse que as suas tentativas de interessar os média suíços tiveram apenas como consequência ser apontado como “uma pessoa paranóica, mentalmente doente”.

“Eu estava quase desistindo, mas depois um amigo disse-me: -Há a WikiLeaks”. Olhei para ele e pensei: -Esta é a única esperança que tenho para fazer com que a sociedade saiba o que está acontecendo”.

Em 2008, ele entregou ao site um conjunto muito menor de documentos, também detalhando as informações fiscais de alguns dos clientes do banco. Embora o site nunca tenha publicado essa informação, Julius Baer conseguiu brevemente tirar de linha o site Wikileaks.org, até que o site, apoiado por alguns média dos EUA e organizações de liberdades civis, conseguiu derrubar a medida judicial. Ele também passou a informação às autoridades fiscais dos EUA.

Os dados foram mais tarde vistos pelo Guardian, que encontrou “detalhes de numerosos fundos em que os ricos tinham colocado capital. Isso permite-lhes evitar pagar impostos sobre os lucros, uma vez que legalmente o dinheiro pertence ao fundo.” Os dados também “[parecem] incluir vários casos em que indivíduos ricos tentaram utilizar o dinheiro do fundo, como se fosse seu.”

Numa declaração ao Observer na sexta-feira, Julius Baer disse: “O objetivo das ações [de Elmer] foi, e é, desacreditar Julius Baer, bem como os clientes, aos olhos do público. Com este objetivo em mente, o senhor Elmer espalhou acusações infundadas e repassou documentos ilegalmente adquiridos para os média, e mais tarde também para a WikiLeaks. Para dar apoio à sua campanha, ele também usou documentos falsificados”.

Uma porta-voz do Serious Fraud Office disse que iria “analisar as alegações feitas para determinar se o assunto é da sua competência e está no âmbito dos seus critérios de investigação ou se, possivelmente, é para outra autoridade analisar”.


Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net