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terça-feira, 10 de março de 2015

Brasil – Reforma Política e Corrupção


13/2/2015, Samuel Pinheiro Guimarães – Carta Capital
(Distribuído por e-mail, para assinantes do Boletim “Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST”) e enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Samuel Pinheiro Guimarães
1 – Há um clamor público, uma revolta de todas as classes da sociedade, contra as revelações de corrupção.

2 – Quando terá começado a corrupção? Quem são os culpados? É um fenômeno exclusivamente brasileiro ou do mundo subdesenvolvido ou humano em geral? A quem interessa? Ocorre apenas no setor público? Será uma característica inata da sociedade brasileira?

3 – Os incidentes de corrupção que a operação Lava Jato vêm desvendando e que vazam para a imprensa, sem provas e a conta gotas, por quem deveria preservar o sigilo das investigações e a reputação dos acusados (mas não culpados por que não foram julgados) estariam relacionados com o financiamento de campanhas eleitorais.

4 – O sistema de financiamento de campanhas eleitorais está vinculado à representação de interesses econômicos no Legislativo e no Executivo. O caso do Judiciário é um tema a parte, ainda que de grande interesse.

5 – O candidato Aécio Neves gastou em sua campanha eleitoral, de acordo com as declarações ao TSE, cerca de 201 milhões de reais. A candidata Dilma Rousseff gastou cerca de 318 milhões de reais. O custo total das campanhas para presidente, governador, senador e deputado foi de cinco bilhões de reais.

6 – De onde vieram esses recursos? Certamente (ou muito raramente) não vieram da fortuna pessoal dos candidatos, mas sim de doações, principal ou quase exclusivamente, de grandes empresas privadas.

7 – O custo das campanhas é em extremo elevado devido aos custos de produção e de veiculação de programas de televisão, das viagens que se fazem necessárias devido à extensão territorial do país, dos custos de material de propaganda e de sua distribuição.

8 – O objetivo dos que defendem o financiamento privado das campanhas eleitorais está vinculado à principal característica da sociedade brasileira que é a concentração de renda e de riqueza.

9 – A concentração de renda é, em geral, estimada a partir dos rendimentos do trabalho conforme declarados à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE.

10 – Os rendimentos do capital, isto é os lucros, os juros, os aluguéis, são subdeclarados na PNAD e a Secretaria da Receita Federal não publica esses dados de acordo com a sua distribuição por faixa da população, ainda que sem quebra de privacidade dos declarantes do Imposto de Renda.

11 – A estimativa é de que os rendimentos do trabalho correspondam a cerca de48% da renda nacional.

12 – O salário mínimo é de 788 reais, o salário médio do trabalhador brasileiro é inferior a 2.300 reais por mês e 90% dos brasileiros ganham até cinco salários mínimos por mês.

13 – São 13,7 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família. Isto significa que cerca de 50 milhões de brasileiros tem rendimento mensal inferior a 77 reais. Por outro lado, há, no Brasil,cerca de 46 bilionários e 10.300 multimilionários, estes com patrimônios pessoais superiores a 23 milhões de reais.

14 – Muitos são os mecanismos de concentração de renda e de riqueza.

15 – Entre esses mecanismos estão às taxas de juros, o sistema tributário, os créditos do Estado a empresas e o sistema de aluguéis.

16 – Quanto mais elevadas às taxas de juros “autorizadas” ou permitidas pelas autoridades monetárias maior a transferência de riqueza de devedores, que são a enorme maioria da população, para os credores privados, detentores do capital, e do Estado para os seus credores.

17 – O sistema tributário pode ser regressivo ou progressivo. O sistema se diz regressivo quando a maior parte dos impostos arrecadados provêm da maioria da população, sem distinção de seu nível de renda (imposto sobre o consumo, por exemplo) e se diz progressivo quando os indivíduos detentores de maior riqueza ou de mais alto nível de renda pagam mais impostos mesmo em proporção a sua riqueza ou renda. É fato que um sistema regressivo de tributação concentra renda e riqueza. As isenções de impostos, as restituições e as desonerações para empresas ou indivíduos acentuam a concentração de renda.

18 – Os créditos fornecidos pelo Estado privilegiam, em geral, as maiores empresas e, portanto, seus proprietários que são os indivíduos mais ricos da sociedade.

19 – A leniência do Estado para com a evasão de tributos ou com seu não pagamento (por exemplo, pela não criminalização da evasão, pelo parcelamento e perdão das dívidas tributárias) também concentra renda e riqueza. São brasileiros os proprietários de 530 bilhões de dólares depositados em paraísos fiscais.

20 – A concentração de renda e de riqueza em mãos de uma ínfima minoria da população brasileira tem importantes efeitos sobre o sistema democrático e sobre os episódios de corrupção.

21 – Os indivíduos detentores de riqueza e renda tem interesse em preservar os mecanismos de concentração e interesse em que não surjam instrumentos legais (leis ou programas) que desconcentrem riqueza e renda.

22 – Ora, as normas (as leis) que definem a estrutura e o mecanismo de riqueza, propriedade e renda (legislação trabalhista, tributária, monetária, da propriedade rural e urbana, etc.) são elaboradas no Legislativo, eventualmente no Executivo e cada vez mais no Judiciário.

23 – Em um país de grande concentração de riqueza e renda, de elevado grau de urbanização, de grande penetração dos meios de comunicação, de sistema democrático e eleitoral relativamente livre de fraudes, seria natural que a enorme maioria da população (que é pobre ou no máximo remediada) elegesse a maioria dos representantes no Congresso, que deveriam ser como ela pobres e remediados e, portanto, legisladores dispostos a redistribuir a riqueza e a renda ou pelo menos a minorar os mecanismos de concentração.

24 – Não é isto o que ocorre.

25 – A ínfima minoria milionária e bilionária tem, assim, de procurar instrumentos para influir no processo político para evitar esse tipo de legislação e de ação redistributiva no Executivo. Essas, quando ocorrem, são taxadas de comunistas, socialistas, nacionalistas, e hoje em dia de bolivarianas.

26 – O primeiro e mais importante desses instrumentos é o financiamento privado (empresarial) das campanhas eleitorais.

27 – O segundo instrumento é o controle dos Partidos para que estes escolham como seus candidatos indivíduos que sejam favoráveis à sua visão (isto é, daquela minoria) da sociedade, ainda que não sejam eles mesmos, do ponto de vista pessoal, detentores de riqueza e renda elevadas.

28 – O terceiro instrumento é o controle dos meios de comunicação para convencer a população das deficiências do Estado, do caráter corrupto dos candidatos dos Partidos e das políticas populares (isto é, daqueles comprometidos com programas de reforma social que leva à desconcentração de riqueza e renda).

29 – O quarto instrumento é a campanha permanente dos meios de comunicação de desmoralização da atividade política, do Estado e dos políticos para manter a maioria do povo afastada da política. Uma das formas de manter o povo afastado da política seria a aprovação do voto facultativo como se este fosse apenas um direito e não um dever.

30 – A campanha pela reforma política deve se concentrar no tema central do financiamento empresarial das campanhas, que é a verdadeira fonte de corrupção e de controle oligárquico, não democrático, da sociedade por aqueles que concentram o poder econômico e controlam os meios de comunicação.

31 – Os representantes das forças conservadoras no Congresso Nacional já se empenham para votar o projeto que consagra o financiamento privado, isto é, empresarial, das campanhas eleitorais.

32 – A consagração legal do financiamento privado consagrará o sistema fundamental de corrupção do processo político que tem como objetivo impedir a desconcentração de riqueza e renda que torna o Brasil um dos países mais injustos do mundo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Brasil: “Lutar, construir Reforma Agrária Popular!”




Vídeo oficial do 6° Congresso Nacional do MST


Entre os dias 10 a 14 de fevereiro de 2014, aconteceu o 6° Congresso Nacional do MST, em Brasília. O vídeo a seguir foi elaborado pelo MST e enviado à redecastorphoto por Jacob Blinder e o pessoal da Vila Vudu:


Na ocasião, mais de 15 mil Sem Terra, oriundos de 23 estados do Brasil mais o Distrito Federal (além de 1000 crianças Sem Terrinha e a presença de 200 convidados internacionais dos cinco continentes do mundo), se reuniram para participar de um dos momentos mais importantes do MST, quando se consolida a linha política para o período seguinte. 

“Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!” foi o lema do 6° Congresso, que representa a síntese das tarefas, desafios e do papel do Movimento no período histórico que se abre.

A programação do evento contou com momentos de discussão e debate entre todos os delegados e delegadas presentes, assim como reflexões sobre a organização interna e debates e encaminhamentos sobre os rumos do MST para os próximos anos. 

Para além desses momentos, os cinco dias de encontro entre os Sem Terra também contou com um ato político pela Reforma Agrária com a participação de movimentos sociais, intelectuais, partidos políticos e convidados internacionais, uma marcha de 15 mil pessoas até o Palácio do Planalto, uma feira de produtos orgânicos e agroecológicos das áreas de assentamentos e acampamentos, noites culturais e muita mística.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Houtart: “Lógica do sistema capitalista é causa das mobilizações massivas”

13 de fevereiro de 2014 – Página do MST
Enviada pelo pessoal da Vila Vudu

Fotos do entrevistado: Pilar Oliva
Entrevistadores:Alan Tygel, Leonardo Ferreira e José Coutinho Júnior


O filósofo marxista François Houtart, da Bélgica, em entrevista exclusiva à Página do MST, analisa os motivos da crise global, o impacto das recentes mobilizações de massa na sociedade e a importância da integração latino-americana para o continente. François esteve presente no VIº Congresso do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.. 

Confira a entrevista:

MST: Você afirma que as diversas crises que vivemos estão interligadas. O que conecta essas crises?

François Houtart (FH): O que liga as crises é a lógica do sistema capitalista, que privilegia o valor de troca, dizendo que tudo deve ser mercadoria para contribuir na ganância e acumulação do capital.

Essa lógica se aplica a todos os âmbitos da vida humana, influindo nas políticas agrárias, industriais, na relação com a natureza e submetendo tudo à lógica de reprodução do capital.

Estamos numa crise global, não só geograficamente, mas uma crise de sistemas, na relação com a natureza, do sistema alimentar, energético, climático etc..

A crise não é somente financeira ou econômica, é geral, e uma das coisas novas é a crise dos ecossistemas e do clima. O capitalismo desregula o equilíbrio entre a natureza e seres humanos.

O ritmo de reprodução do capital é completamente diferente do da natureza, e como o capital impõe seu ritmo sobre a natureza, isso gera catástrofes naturais. 

Os países socialistas também destruíram a natureza como no capitalismo. Porque o socialismo real também tinha esta visão de um progresso infinito e uma terra inesgotável. Por isso, nos últimos anos se desenvolveu o ecossosialismo em países da Europa, da América Latina, Venezuela em particular, com várias experiências de um modelo que respeite a natureza.

É um problema mundial. O capitalismo monopolístico está hegemonizando grande parte da economia latino-americana, e a concepção de desenvolvimento dos líderes políticos, mesmo nos governos ditos progressistas, não mudou. 

MST: Qual é esta concepção?

FH: Há alguns anos moro no Equador, e Rafael Correa, que é meu amigo e foi meu aluno, tem como concepção de desenvolvimento a modernização do estado. Muito bem, modernizar a economia em essência é bom. Mas o que significa isso para ele? Significa investir em agrocombustíveis, monocultivos, transgênicos.

No Equador também há mais mineração, exploração do petróleo, grandes vias. Essa é a visão de desenvolvimento, que não pensa na realidade do país, no camponês, nos povos indígenas, ou como construir pouco a pouco um desenvolvimento mais respeitoso da natureza e dos povos. 

Esses fatores vão criar mais e mais conflitos, por alguns motivos: primeiro por parte do povo, que não compartilha dessa concepção de desenvolvimento, mas não tem força política. Segundo, o esgotamento deste modelo. Já se vê aqui no Brasil, na Argentina, que o modelo se esgotou, não é sustentável.

Além disso, os novos regimes latino-americanos se baseiam em um consenso popular. Houve um melhoramento real da situação dos mais pobres, mas dentro de uma concepção relativamente assistencialista de programas ao combate à pobreza, programas que são bem organizados, mas que não fazem do povo um ator, e sim um cliente.

Assim, o consenso é muito frágil, pois se as condições econômicas da economia mundial mudam, se o preço das matérias primas ou das commodities baixam, isso afeta a possibilidade dos governos de ter políticas sociais, o que põe o consenso em perigo.

François Houtart
MST: Como as recentes manifestações de jovens pelo mundo se inserem nesse cenário?

FH: Essas mobilizações massivas são fruto das contradições do capitalismo. Claro que o Occupy é diferente dos indignados ou das manifestações no Brasil. Mas apesar de serem originadas da condição estrutural fundamental do capitalismo, a consciência desses manifestantes ainda é bastante superficial, não vai às causas do problema.

São reações justas, mas superficiais, pelo fato também que os protestos são uma reação mais de classe média ou média baixa urbana, não indo à raiz do problema. Por essa razão, não exercem um tipo de ação eficaz contra o sistema.

Esses protestos têm uma concepção anarquista, individual, e com pouca visão da necessidade de organização e ação política. Isso pode mudar, mas até agora, por exemplo na Europa, é muito claro que não houve nenhum impacto político concreto, a não ser reforçar a direita, o que não era a intenção.

É um sintoma importante, mas que não dá realmente uma resposta. As respostas vêm com análises mais claras das raízes do problema, uma formação e uma organização, senão é relativamente fácil de marginalizar esse tipo de protestos.

A não ser que a repressão a essas manifestações seja muito violenta para comover a sociedade, geralmente elas são reprimidas e não afetam a ordem.

É preciso que estes movimentos espontâneos se formem teoricamente, analisem as coisas mais à fundo e tenham juízo político mais adequado. Isso pode ajudar a uma transformação futura.

MST: Qual deveria ser o papel das organizações de esquerda e movimentos sociais nessas mobilizações?

FH: Há uma certa distância dos movimentos sociais com essas expressões de protesto novas. Me parece que é um pouco difícil dos movimentos sociais entenderem as manifestações, e os manifestantes não querem essa aproximação com medo de “serem dominados ou se perder”.

E como é um movimento urbano, é difícil para muitas entidades intervirem. Os sindicatos perderam muito de seu caráter revolucionário, e não vão poder trabalhar com estes jovens, pois isso é uma coisa nova.

Acho que talvez elementos jovens de um movimento mais radical, como o MST, possam ter um certo encontro com esses jovens, para ajudar a entender melhor a situação social que nos encontramos, e também fazer com que esses jovens entendam a situação do campo.

MST: As organizações devem pensar em novas formas de luta e atuação?

FH: Sim. Pensar nisso é uma reação contra a burocratização dos movimentos sociais. Esses protestos são uma chance para as organizações se autocriticarem frente ao problema de organização, e é necessário para entender esses novos fenômenos que ocorrem agora. 
É um processo que pode ajudar a uma transformação interna dos movimentos organizados, pois estes jovens chegam com novas ideias e valores que não devem ser condenados. 

MST: Você é um grande defensor da integração latino-americana. É possível, hoje, realizar essa integração? E como ela poderia alterar essa conjuntura de crises?

FH: Devemos ser realistas. A Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) é um milagre de Chávez, por conseguir reunir países com ideias tão opostas como México, Chile e Bolívia.

Devemos conhecer os limites dessas organizações latino-americanas que existem, mas é possível tomar várias medidas importantes. Por exemplo, seria possível fazer regras em conjunto no setor da mineração.

Não vamos impedir as transnacionais e a China de explorar minas, pelo menos por ora, mas podemos colocar regras. No Equador, as mineradoras canadenses se retiraram. Foram ao Peru porque há menos regras. Se existisse um acordo latino-americano de regras frentes as transnacionais de mineração, isso seria considerado uma força. O Equador sozinho não é nada. 
Organismos como a CELAC não têm muito poder. A União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) são mais expressivos. A ALBA seria o ideal, pois é a única organização com um pensamento pós-capitalistas.

As outras organizações são pós neoliberais. A ALBA tem princípios diferentes, mas é muito marginal. Tem 10 países, e 5 são do Caribe. A ALBA não tem poder grande, e sua tendência, com Equador, Nicarágua, Bolívia, é ser menos anticapitalista.

Pois como eu disse, esses governos são pós neoliberais, mas não pós capitalistas. Ao mesmo tempo, penso que devemos insistir sobre a importância da integração e dos organismos, não sobrevalorizando ou deslegitimando seu papel.

François Houtart
MST: Como você avalia a decisão da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) de considerar 2014 o ano da agricultura familiar?

FH: Como todo organismo dentro das nações unidas, a FAO ela não vai ser revolucionária. A influência das forças econômicas e políticas nesse órgão é tal que a relação de forças não é a favor das ideias mais avançadas.

Mas devemos sempre aproveitar. É muito bom que uma parte da FAO apóie iniciativas de agricultura campesina. Em outubro fizemos uma reunião de agricultura camponesa na Bolívia, que contou com 40 especialistas e apoio dos movimentos camponeses e indígenas. O representante da FAO esteve presente e foi muito positivo.

O Papa Francisco também tem declarado apoio aos camponeses e à luta pela terra...

Todo novo papa é uma mudança séria. Mas não podemos esperar que um grupo de cardeais muito conservadores pudesse eleger um papa revolucionário, era impossível. Mas elegeu o melhor entre os piores (risos).

Ele não vai pregar a teologia da libertação, mas é pastor, quer uma proximidade afetiva com os movimentos e os pobres, isso é uma grande mudança. A adoção do nome de Francisco, para um jesuíta é um passo forte.

É um sinal positivo. Podemos esperar que ele abra espaços, como esta reunião dos movimentos sociais e dos mais pobres em Roma. É positivo, mas não podemos esperar uma mudança revolucionária. Há sinais que demonstram o contrário, como eleger o cardeal de Honduras [Oscar Rodríguez Madariaga] como homem chave da reforma da igreja.

MST: Por que?

FH: O cardeal tomou posição a favor do golpe militar, e é odiado pelos movimentos sociais. Ele é um homem da oligarquia tradicional, apesar de um discurso muito progressista e anticapitalista, suas práticas internas são problemáticas. Ele ser o eixo fundamental da reforma da igreja é um problema.

Alguns sinais desse tipo mostram uma ambiguidade, especialmente política. Os discursos do papa são anticapitalistas, mas contra o capitalismo selvagem, o que significa que há um capitalismo civilizado.

É típico da doutrina social da igreja, mas não da teologia da libertação, que analisa a sociedade em termos de classes sociais. A doutrina da igreja prega a união e colaboração de todos para chegar a um bem comum, sem ver a oposição estrutural das classes sociais.

Se condena o capitalismo mais pelos seus efeitos que pela sua lógica. Mas não devemos ser pessimistas, devemos estar felizes de que há mudanças e estar presentes nos espaços que se abrem, porque às vezes esses espaços podem ser mais importantes do que eles pensam.
___________________

[*] François Houtart (Bruxelas, 1925) é um sacerdote católico e sociólogo belga, fundador do Centro Tricontinental (CETRI) operando na Universidade Católica de Leuven, e na revista “Alternatives Sud”. Tornou-se figura conhecida no movimento de justiça global. Foi ordenado sacerdote em 1949. Formado em Ciências Políticas e Sociais da Universidade Católica de Louvain e diplomado pelo Instituto Internacional de Urbanismo Aplicado de Bruxelas, é também Doutor em Sociologia pela Universidade de Leuven, onde lecionou 1958-1990. Houtart já escreveu mais de 50 livros e centenas de artigos acadêmicos e imprensa.




domingo, 7 de julho de 2013

Stédile: “Direita tentou disputar o controle da rua”

7/7/2013, Entrevista com  João Pedro Stédile, do MST
(concedida a Darío Pignotti, Página 12, Buenos Aires)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário do Chicória, verdureiro da Vila Vudu: Não é uma grande entrevista, porque o entrevistador jornalista estava pautado pelos jornais. Stédile, visivelmente, ficou limitado à pautação do entrevistador. Entrevista jornalística, que perguntou ao entrevistador sua opinião sobre a opinião dos jornais. Quem precisa disso?!

João Pedro Stédile
A direita não pensa em outra coisa além de impedir, seja como for, a reeleição de Dilma Rousseff, que acaba de perder 21 pontos de popularidade [embora em pesquisa absolutamente não confiável (NTs)] nas eleições de 2014 e, apesar de seu espanto congênito ante a mobilização popular, tenta convertê-la em fonte de caos e de ingovernabilidade. De qualquer modo, é pouco provável que as oligarquias consigam desvirtuar o sentido transformador da revolta em curso há três semanas, atiçada pela ira ante o deboche da Copa das Confederações.

Essa é a síntese imperfeita da entrevista, rica por sua densidade analítica, concedida por João Pedro Stédile, líder (embora ele sempre corrija, quando é chamado assim) do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST.

Pagina 12: Há um mês, Dilma estava reeleita e depois de 20 dias de protestos, essa hipótese já não parece garantida. Que deve fazer para retomar a popularidade perdida?

Stédile, MST: A reeleição de Dilma dependerá das alianças partidárias e sociais que fará daqui em diante. Se continuar a priorizar as alianças de corte conservador, creio que a direita poderá derrotá-la com candidatos que se apresentam como se fossem o novo, embora não sejam. Creio que a reeleição de Dilma seria mais garantida se ela ouvisse a voz das ruas e promovesse as mudanças sócias que exigem dela. Se o fizer, o governo fará uma inflexão para a esquerda e consolidaria o apoio popular para 2014. Ante isso, as classes dominantes e seus porta-vozes aparecem diariamente na televisão manifestando seu grande objetivo, desgastar ao máximo o governo, debilitar as formas de organização da classe trabalhadora, derrotar qualquer proposta de mudança estrutural e, tudo, para finalmente vencer nas eleições e recompor a hegemonia total no comando do Estado, que está hoje em disputa.

Nas redes sociais controladas pela direita, li que alguns grupos mais fascistas começam a ensaiar o fora Dilma e a fazer circular uma petição pelo impeachment. Também agitam o discurso contra a corrupção, que pode acabar por virar-se contra eles, porque a burguesia brasileira, seus empresários e seus políticos são os maiores corruptos e corruptores. Sabem quem se apropriou dos gastos exagerados da Copa? A rede Globo e as empresas construtoras.

Pagina 12: O comando do conflito está ainda nas mãos da esquerda?

Stédile, MST: A direita tentou disputar o controle do sentimento das ruas, para desgastar Dilma. De início, o governo Dilma vacilou, mas acho que agora está mais ativo.

A direita perdeu essa aposta e está assustada.

Creio que, em geral a direita sai perdendo com o povo nas ruas, onde as propostas populares e progressistas foram protagonistas. E acho também que vamos avançar, agora que a classe trabalhadora anunciou que entrará nas mobilizações, com sua proposta de uma plataforma de lutas que vai paralisar o país dia 11 de julho.

Pagina 12: Surgem vozes dentro do PT a favor da volta de Lula, que, segundo uma pesquisa tem 46% de intenções de voto, 16% mais que Dilma. A volta pode acontecer em 2014?

Stédile, MST: Lula já repetiu várias vezes que não será candidato a nada, e creio que não será.

Pagina 12: Se a direita sonha com o impeachment de Dilma, que repercussão teria esse desenlace nos governos progressistas de Argentina, Equador, Bolívia e Venezuela?

Stédile, MST: Acho que esse cenário de impeachment é impossível. Não há viabilidade política para que a direita consiga um impeachment de Dilma, porque isso desencadearia um processo de intensas manifestações de massa, que poderia levar a efeito contrário ao que a direita busca. Quer dizer: o pedido de impeachment levaria o governo de Dilma para posições mais populares e de esquerda. Além disso, entendo que as mobilizações são um fator que está ajudando a fortalecer o caráter popular dos projetos que estão em curso nos países que você citou. No fundo, as massas juvenis brasileiras criticaram nas ruas o fracasso dessa política de conciliação de classes da qual o Brasil era um modelo. Era um formato de conciliação no qual aparentemente todos ganhavam, mas, na realidade, o que mais ganhava era o capital.

Pagina 12: Há uma comparação, talvez snob, entre as manifestações brasileiras e os jovens que fizeram levantes no mundo árabe. Que lhe parece a tese de que as redes sociais são a coluna vertebral de um movimento social que prescinde de partidos e de líderes?

Stédile, MST: Também não vejo qualquer relação entre as mobilizações da Primavera Arabe e as do Brasil. Primeiro, porque em cada país do mundo árabe havia características diferentes, em função da composição de interesses de classe que se puseram em operação. Creio que os casos mais trágicos foram a guerra que a OTAN impôs na Líbia e o atual massacre que está acontecendo na Síria. Os poucos avanços que houve na Tunísia e no Egito aconteceram para que se instalassem instituições burguesas da burguesia comercial árabe.

Aqui no Brasil, por sua vez, estamos ante um processo encabeçado pela juventude, resultante de uma crise urbana grave, da ausência de participação política da sociedade e de uma crítica latente ao modus operandi dos políticos de todos os partidos, que resultou na formação de uma burocracia que se move por interesses próprios; e de uma tecnocracia que existe dentro do governo de Dilma.

Pagina 12: O cardeal Claudio Hummes, amigo de Lula e do papa Francisco (que chega ao Rio em julho), respaldou os protestos. A igreja retoma posições progressistas, depois de ter-se amoldado ao conservadorismo de Joseph Ratzinger?

Stédile, MST: A Igreja Católica no Brasil sempre teve muita sensibilidade social. Creio que o retrocesso ideológico que houve nesses anos também foi consequência do refluxo do movimento de massas em geral, além de uma certa hegemonia que se estabeleceu na sociedade, de falsos falsos valores, com o neoliberalismo, que priorizam o mercado, o individualismo e o consumismo. Com essa hegemonia ideológica na sociedade, é lógico que se tenham fortalecido, dentro da Igreja, as visões religiosas carismáticas, que apostam tudo na salvação individual e em práticas religiosas alienantes. Creio que estas mobilizações juvenis podem levam a uma ascensão do movimento de massas, e tudo isso pode trazer oxigênio às práticas da Igreja.

Pagina 12: A FIFA pressionou para que o Exército se envolvesse na segurança da Copa, a imprensa publicou que o Exército reuniu-se para analisar as manifestações. [1] Você descarta que as forças armadas sejam convocadas para atuar na segurança interna?

Stédile, MST: Esse risco sempre existe, porque lamentavelmente ainda há muitos governos estaduais, como os de São Paulo e Rio de Janeiro, que são governos conservadores e poderiam solicitar reforço militar. No Brasil, as polícias estão sob controle dos governos estaduais. Mas acho que isso causaria desgaste institucional aos militares. As forças armadas existem para defender a soberania nacional, não para reprimir o povo.

Pagina 12: Cresce a repulsa ante os gastos com a Copa. Existe alguma margem para que Dilma decida não realizá-la?

Stédile, MST: Considero que essa possibilidade não existe, porque o governo não quer e não tem força para romper o contrato com a FIFA, depois de todos os investimentos feitos para que a Copa aconteça. E, também, porque o povo quer que a Copa aconteça no Brasil. Ao mesmo tempo, todos querem saber quem embolsou tanto dinheiro e que, se houve corrupção, que se punam os culpados.



Nota dos tradutores

[1] A página do Exército, dia 20/6/2013, reproduziu matéria do jornal O Estado de S.Paulo sobre isso.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

MST: Movimento Sem Terra e maior marcha do Brasil




País:Brasil
Duração:01:10:00

Diretor:
Gibby Zobel

Sinopse


Durante 17 dias, 12.000 integrantes do Movimento Sem Terra acordaram de madrugada e pegaram a estrada BR-060, formando uma coluna de quatro quilômetros rumo à Brasília na luta pela reforma agrária.






Diabolizados como foras-da-lei, perigosos – até terroristas – pela mídia do próprio país, o movimento de mais de um milhão e meio de pessoas tem apoio internacional e já é batizado “o movimento mais dinâmico do mundo”.




O filme acompanha a longa marcha de 238 quilômetros pela liberdade, uma visão épica da humanidade em movimento.




Chegar no destino não era a meta principal. Para o MST, fundado em 1984, a marcha tinha como objetivo abrir um debate a longo prazo com a sociedade, um sonho do futuro.








O filme segue quatro participantes, mostrando o dia a dia deles abaixo da lona preta, do extremo sul ao árido nordeste do país, para ver se a Marcha Nacional de Reforma Agrária teve impacto sobre eles e as suas comunidades.





Enviado por Carlos Caridade