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| Marcos Coimbra |
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
O que falar de Dilma?
domingo, 19 de setembro de 2010
A onda de denúncias
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Por uma coincidência extraordinária, denúncias pipocam a toda hora nestes últimos dias de campanha eleitoral. Faltando duas semanas para a eleição do sucessor ou, pelo que parece, da sucessora de Lula, falar delas se tornou uma verdadeira obsessão para nossa grande imprensa.
Se contarmos o tempo transcorrido desde quando surgiu o “escândalo da Receita”, já faz quase um mês que os grandes jornais de São Paulo e Rio, as maiores revistas de informação e o noticiário da principal emissora de televisão dão cobertura máxima a denúncias de vários tipos contra Dilma, sua campanha, o PT e o governo Lula.
O caso da Receita e o mais recente, envolvendo o filho da ex-ministra Erenice Guerra, receberam a atenção de todos. Outros, como a bombástica revelação que uma “falha” de Dilma redundara
Essa disposição para denunciar não atinge o universo da imprensa. Brasil afora jornais e revistas regionais e estaduais mostram-se menos dispostos a fazer coro com os “grandes”. O mesmo vale na mídia eletrônica, onde o tom escandaloso não é o padrão de todas.
É curioso, mas nenhuma dessas denúncias nasceu na internet, contrariando tendência cada vez mais comum
Não se discute se são falsas ou verdadeiras. É certo que algumas, como o “escândalo da eletricidade”, são apenas bobagens. Outras são importantes e produzem consequências reais, como a que levou à saída de Erenice.
Existem as que estavam na geladeira, ao que parece aguardando um “bom momento” para vir à tona, como o “escândalo da Receita”. E há as que, aparentemente, apenas coincidiram com outras, como o “escândalo do caseiro”, que ressurgiu das cinzas agora que a Caixa Econômica foi condenada a indenizar a vítima.
Também não se discute o que fazer nos casos em que há suspeita fundamentada ou confirmação de que alguma irregularidade foi praticada. Partindo da premissa de que somos um país sério e que as instituições funcionam, qualquer denúncia com verossimilhança precisa ser apurada e os culpados punidos. Aliás, todas estão sendo acompanhadas pelo Ministério Público, a Polícia Federal e a própria imprensa.
Mas só a velhinha de Taubaté acredita que a coincidência de tantos “escândalos” é obra do acaso. A onda nasceu em tal momento que é impossível não desconfiar que exista intencionalidade por trás dela.
Os segmentos na sociedade e na mídia insatisfeitos com a possibilidade de vitória de Dilma aguardavam ansiosos o começo da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Sabe-se lá de onde, imaginavam que Serra reagiria a partir de 17 de agosto e que conseguiria reverter suas perspectivas muito desfavoráveis.
Não viam que o mais provável era o oposto, que Dilma crescesse quando Lula chegasse à televisão. Como resultado de mais um dos equívocos que cometeram na avaliação das eleições, se surpreenderam quando a vantagem da candidata do PT rapidamente aumentou.
Foi de repente, quando a decepção com a performance de Serra e o susto com o bom desempenho de Dilma se generalizaram, que começamos a ter uma denúncia atrás da outra. A temporada de escândalos teve sua largada na última semana de agosto, quando saíram as primeiras pesquisas públicas feitas após o inicio do horário gratuito, mostrando que a diferença entre eles passava de 20 pontos.
De lá para cá, nada mudou nas intenções de voto. Alguns comentaristas procuram indícios de oscilações, com lupas esperançosas, ansiosos para encontrar sinais de que tanto barulho produza efeitos. Até agora, nada.
Chega a ser engraçado, mas há países em que se proíbe a divulgação de pesquisas eleitorais nos 30 dias que antecedem uma eleição. Tudo para não perturbar as pessoas na fase da campanha em que deveriam pensar mais. Eles acham que ninguém deveria interferir nesse momento de recolhimento e reflexão.
É por que não conhecem o que é capaz de fazer (ou de tentar fazer) nossa “grande imprensa”.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Editorial da redecastorphoto de 17 de setembro de 2010
Achamos estimulante que, passo a passo, todos começam a se mexer, incomodados, na posição ideológica pressuposta “óbvia”, segundo a qual o jornalismo seria “naturalmente” necessário e até útil (vejam vocês!) às democracias. Vemos próxima a hora em que muitos saquem que não haver nenhum jornalismo pode ser MUITO MAIS democrático, do que haver o jornalismo que há. Os jornalistas que entendam isso terão de mudar de profissão.
Agora já muitos falam em "jornalismo independente" -- o que não há nem pode haver, porque o jornalismo, como o conhecemos, é empresa; e pretender que alguma empresa possa algum dia ser 'independente' do lucro é delirium tremens de gente embriagada de ideologias liberais ocas e clareza zero, para a luta política, não nos jornais, mas no mundo.
Outros falam de “mídia hegemônica” -- o que é erro conceitual grave. Quem quer que tenha algum dia lido Gramsci deve saber que a hegemonia comunista gramsciana NÃO É sinônimo de "dominação" e que, portanto, "mídia hegemônica" não é sinônimo de "mídia dominante por dominação". Bom. É erro conceitual grave, mas, pelo menos, já manifesta alguma necessidade de adjetivar a tal de “mídia”, o que já manifesta, por sua vez, algum incômodo ante a ideia de que haveria alguma "mídia" em si, acima dos “hegemonismos” de ocasião.
Gramsci ensina BRILHANTEMENTE que é preciso CONSTRUIR a hegemonia dos pobres (não alguma dominação pelos pobres). Em Gramsci não se cogita de hegemonia por dominação, construída pela força. A hegemonia em Gramsci é construção à qual se chega pela persuasão. É conceito perfeitamente maravilhosamente democrático e realista e que dá à linguagem a importância DECISIVA que o jornalismo que há (1) não sabe e (2) não pode, por definição, reconhecer a linguagem.
O conceito de hegemonia democrática comunista de Gramsci implica MUITO trabalho de construção dos discursos dos pobres e persuasão; não de intimidação nem de imposição, e nem que seja de algum discurso “de pobre”, mas construído sem a ambição dignificante de vir a ser hegemônico (por persuasão, não por convencimento-morto, alcançado a golpes de repetição e repetição e repetição).
No artigo “Marcos Coimbra: Os jornalistas tucanos” se vê mais uma qualificação dos jornalistas, que também manifesta incômodo com o que os jornalistas fazem, mas tenta dizer que os bandidos do jornalismo que há no Brasil não seriam bandidos por serem jornalistas, só seriam bandidos por serem tucanos. É argumentação que eu chamo de "argumento ginástico", por causa dos contorcionismos.
Não é o tucanismo que “distorce” o jornalismo dos jornalistas tucanos. É muito diferente disso.
O próprio jornalismo que há é que serve como luva -- e veículo -- para a manifestação do tucanismo udenista sempre golpista de TODOS os tucanos, pefelês e outrinhos. Não é difícil demonstrar que o jornalismo-empresa nasceu, no mundo, quando nasceu a empresa liberal, para fazê-la crescer e “naturalizá-la”. As “teorias” do jornalismo e, depois, da cumunicação fizeram o resto.
Não sendo o jornalismo-empresa, o mundo só conheceu, de jornalismo não comercial, o dazibao ("jornal de muro") chinês que Mao inventou em 1924; e, agora, a internet. Mas tem de ser a internet anárquica dos muitos, das listas de discussão e dos tweeters de ação rápida; não a internet dos blogs jornalísticos, por democráticos que se pressuponham os blogueiros, mesmo que sejam pessoalmente democratizantes. Se os blogueiros forem mais jornalistas que blogueiros, o jornalismo que há devora, até nos mais democráticos, o espírito democrático.
Ainda falta provar que os "jornalistas tucanos" constituiriam categoria à parte. Afinal, pode haver jornalistas petistas e jornalistas comunistas, mas todos SÓ SABEM FAZER o jornalismo que aprenderam, no Brasil da ditadura e da tucanaria, nas academias e redações de empresas jornalísticas liberais UDENISTAS GOLPISTAS, que só circunstancialmente são hoje academias, redações e empresas jornalísticas tucanas.
Os "jornalistas tucanos", de fato, fazem o que fazem porque (1) encontram à mão o veículo-instrumento jornalístico perfeito para suas tucanarias e tucanagens; e porque (2) são tucanos, udenistas, golpistas de berço ou por adesão profissional.
Essa luta é longa. Mas às vezes vivemos a alegria de ver que talvez estejamos começando a sair do fundo do poço do marco zero. Mais uma vez, a glória caberá a quem devorar mais rapidamente quem o queira devorar.
Ou os muitos devoramos o jornalismo ou o jornalismo nos devorará.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
O Dia Seguinte
por Marcos Coimbra
Como o 3 de outubro torna-se mais e mais previsível, é hora de começar a especular sobre como será o dia 4. Ele chega logo e é bom estar preparado para entendê-lo.
É fácil imaginar a alegria de Dilma Rousseff, Lula, o PT, seus aliados e o governo. Não custa sublinhar o caráter histórico da vitória que deverão comemorar.
E as oposições? Como viverão esse dia?
A primeira coisa a dizer é que sua provável derrota pode ser tudo, menos surpreendente. Se houve algo inesperado nestas eleições presidenciais foi seu empenho em colocar a cabeça no cadafalso. Nem se tivessem fixado a meta de fazer tudo errado teriam ido tão longe.
Parte da responsabilidade pelos seus erros pode ser debitada às pesquisas de opinião. Não a elas (coitadinhas), que nada são além de instrumentos. Mas à leitura superficial do que diziam.
Tudo o que estamos vivendo e que, parece, será confirmado no dia 3 se definiu entre setembro e outubro de 2009. Foi quando a vantagem de José Serra nas pesquisas levou a duas consequências.
Para o conjunto das oposições, seja no meio político, seja na imprensa e na sociedade, produziu a impressão de que Serra era invencível contra a candidata “artificial”que Lula tinha inventado. Para o próprio Serra, ela limitou drasticamente as opções. Se, do alto daqueles números, decidisse permanecer em São Paulo, seria como abdicar em definitivo de qualquer projeto presidencial. Até seus aliados na mídia deixaram claro que não aceitariam que fizesse outra coisa. Se recuasse, nunca mais o apoiariam.
Naqueles meses, quem leu alguns de nossos colunistas mais conhecidos ficou com a impressão de que o problema de Serra era Aécio Neves. Na hora que o mineiro aceitasse a “candidatura natural”e cerrasse fileiras, assumindo o lugar de vice, não haveria mais obstáculos entre Serra e o Planalto. Lula, o governo, e Dilma não seriam problema: as pesquisas (sempre elas) mostravam que a candidata de Lula “não decolava”.
A vantagem de Serra levou as oposições a outro equívoco grave. Como nenhum nome aparecia com pontuação relevante, elas se convenceram de que não precisavam de outros. Bastava Serra, com seus 45%. Mais candidatos, de outros partidos, seriam apenas um diversionismo. Elas se achavam tão fortes (em razão das pesquisas) que queriam ir logo para o confronto com Lula e Dilma.
Uma leitura estática e limitada das pesquisas conduziu as oposições àquilo que Lula tinha antecipado que fariam: viriam com Serra e apenas com Serra. O plebiscito que tinha imaginado como condição de sucesso para quem o representasse estava pronto. Seria Serra contra sua candidata.
Lula nunca fez a leitura ingênua que seus adversários fizeram das pesquisas. Para ele, era totalmente irrelevante saber de quantos pontos Dilma partia. Só o interessava o cálculo de onde ela poderia chegar. Enquanto o PSDB e alguns jornalistas versados em pesquisas faziam as contas de “quantos pontos Serra tem”, ele olhava para a frente.
Quando, em dezembro de 2009, Aécio resolveu sair da disputa pela vaga tucana, a crônica de 2010 começou a ser escrita. Mês a mês, semana a semana, dia a dia, tudo o que aconteceu de lá pra cá pôde ser antecipado.
É pouco provável que o resultado da eleição fosse diferente se Dilma enfrentasse Aécio. Mas é certo que as oposições sairiam da eleição mais bem situadas para o futuro.
Confirmado o resultado esperado, será a morte política de uma geração de lideranças oposicionistas, que terá ido embora sem preparar novos quadros para as eleições de 2014 (e as seguintes).
O melhor que teriam feito era admitir que ninguém derrotaria Lula neste ano, e mirar nas próximas. Era hora de lançar rostos para o futuro: um candidato a presidente que não estivesse, irremediavelmente, preso ao passado e um vice que não fosse motivo de chacota.
Cometendo os erros que cometeram em 2010, as oposições adiaram seus projetos de retorno ao poder por tempo indeterminado. Bom para quem deseja que o PT chegue ao que os tucanos tanto almejaram (e não conseguiram por incompetência): permanecer no poder por 20 anos.
enviado por Jotamorim - extraído de CartaCapital n˚ 612
domingo, 25 de julho de 2010
A paternidade do Bolsa Família

Da expressão se deduz o inverso, que todos querem ser pais dos filhos bonitos. Não há quem não pose de responsáveis por eles.
O Bolsa Família é um programa federal de que uma vasta maioria da população gosta. Na verdade, adora.
Ainda no ano passado, longe, portanto, do cenário de disputa eleitoral, o Vox Populi fez várias pesquisas sobre a sua imagem. Os resultados foram parecidos aos de outros institutos, em trabalhos feitos na mesma época.
Em novembro, 67% dos entrevistados no conjunto do País o avaliaram como “ótimo”ou “bom”, 25% disseram que era “regular”e apenas 8% consideram que era “ruim”ou “péssimo”.
Por isso, não foram surpreendentes as respostas sobre o que esperavam (desejavam) que o próximo presidente fizesse: 70% dos entrevistados gostariam que fosse mantido integralmente ou que “continuassem muitas coisas e mudassem algumas”na sua operação. Os que achavam que devia ser mudado em profundidade representavam 8% do total (provavelmente os mesmos que o reprovavam).
Como devem se comportar os candidatos em relação a um programa assim, com uma avaliação tão favorável? O que devem fazer e dizer, incluindo aqueles que discordam dele e que, no íntimo, gostariam de interrompê-lo ( ou de alterá-lo tão drasticamente que ninguém mais o reconheceria)?
O bê a bá dos marqueteiros tem uma recomendação clara em situações semelhantes: chegar perto do programa, mostrar-se seu defensor, garantir que seria mantido e “melhorado' se vencesse. Mas o ideal seria reivindicar sua paternidade. Convencer as pessoas de que aquilo de que elas gostam é obra sua. Haveria garantia maior de continuidade que a palavra do pai verdadeiro?
O PSDB tem, com o Bolsa Família, uma relação cheia de tensões e ambiguidades. No fundo, seus principais intelectuais sempre tiveram dúvidas sobre iniciativas como esta. Certos ou errados, achavam que era um tipo de programa que precisava existir, em situações bem específicas de extrema pobreza e completa incapacidade, mas que, por isso mesmo, deveria ser limitado e altamente focalizado.
Não é acaso que a administração tucana que é hoje apresentada como matriz do Bolsa Família fosse municipal. Teria sido em 1994, em Campinas, quando José Roberto Magalhães Teixeira era prefeito, que o programa nasceu. Sem discutir se os que mais direito têm de pleitear o título de seus inspiradores são Cristovam Buarque (na época em que era governador petista do Distrito Federal) ou Antonio Palocci (quando prefeito de Ribeirão Preto), o interessante é que não foi um governador ou, muito menos, Fernando Henrique, seu inventor na historiografia do PSDB.
Na verdade, a questão não é de arqueologia. Se foi fulano ou beltrano quem, pela primeira vez, imaginou que algo assim era necessário. Para a opinião pública brasileira, o programa só tem um pai: Lula. Sem ele, seria local, menor, destinado a grupos muito especiais da população. Nunca teria se transformado no que é hoje.
Para Serra, o delicado, ao falar do Bolsa Família e avocar sua paternidade, é lidar com seus eleitores mais genuínos. Não é só o PSDB que tem dificuldades com o programa, mas os segmentos de opinião que mais perto estão dele. O eleitor tucano costuma ter ojeriza a ele, tendendo a vê-lo como o instrumento pelo qual seu desafeto (Lula) chegou onde está. São os que acreditam que os pobres só gostam do presidente por que foram comprados com uns tostõezinhos por mês.
Serra não pode ficar longe do programa, ainda que isso contrarie algumas de suas convicções e incomode seus seguidores fiéis. Mas há coisas contra as quais é impossível lutar. Por mais que tente, o Bolsa Família continuará umbilicalmente ligado a Lula.
chupado do Desabafo Brasil
domingo, 18 de julho de 2010
Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para os eleitores

Votos e planos
Marcos Coimbra -Sociólogo e Presidente do Instituto Vox Populi - marcoscoimbra.df@dabr.com.br
Eleições não são exames escolares, em que os eleitores-julgadores avaliam racionalmente os candidatos, dando a uns notas baixas e ao “melhor” o diploma de honra ao mérito. Elas envolvem paixões, interesses, lealdades, emoções, identidades formadas ao longo da vida e torcidas
Dizer que os planos de governo são pouco mais que peças decorativas em uma campanha pode soar como heresia. Pior, como uma afirmativa que renega tudo que as campanhas deveriam ser.
Existe, no centro de nossa cultura política, um modelo idealizado do processo eleitoral, em função do qual estabelecemos o certo e o errado nas eleições e no comportamento dos candidatos. Nele, os planos de governo são a parte nobre da disputa, a razão para que o eleitor opte por um candidato e descarte outros.
Nessa visão abstrata, qualquer voto que não se baseie nas propostas dos candidatos é inferior. Se o eleitor deixar que suas paixões o dominem, se permitir que alguém o influencie, se pensar com seu bolso em vez de com sua mente, comete um pecado contra a cidadania. Bom é aquele que olha apenas os planos de governo.
Se as coisas fossem assim, o eleitor teria uma árdua tarefa pela frente, procurando se informar sobre os projetos dos vários candidatos para cada área. Depois, os analisaria, quem sabe usando critérios como exequibilidade e relevância, para chegar a uma conclusão a respeito de cada um. E ai do candidato que não tivesse propostas para todas as políticas: com uma nota zero, por exemplo, na parte dedicada à energia, precisaria de um 10 quando suas metas de política monetária fossem escrutinadas.
É evidente que isso não existe, nem do lado dos eleitores, nem dos candidatos. E não é porque somos uma sociedade pobre e temos uma cultura política imatura. As eleições não são assim em lugar nenhum do mundo.
Eleições não são exames escolares, em que os eleitores-julgadores avaliam racionalmente os candidatos, dando a uns notas baixas e ao “melhor” o diploma de honra ao mérito. Elas envolvem paixões, interesses, lealdades, emoções, identidades formadas ao longo da vida e torcidas. Na imensa maioria das vezes, as pessoas primeiro escolhem em quem vão votar e só depois ficam sabendo o que “seu” candidato propõe. Por isso, elas sempre preferem seus projetos e acham piores os dos adversários (mesmo quando são bons).
No Brasil contemporâneo, não houve uma só eleição presidencial em que as propostas dos candidatos, literalmente falando, tivessem sido relevantes. Ninguém votou em Collor pelo “plano de governo”, mas porque queria juventude e mudança. Fernando Henrique ganhou e se reelegeu com um plano de uma palavra só: real. Lula chegou e permaneceu no poder porque a população se convenceu de que a hora dele tinha chegado, pois estava cansada da elite que governava.
Os candidatos não gostam de perder tempo com esforços inúteis. Para que fazer detalhados e minuciosos planos de governo se a eleição é sempre incerta? Apenas para satisfazer uma formalidade, dado que os eleitores pouco vão vê-los?
Na disputa, o máximo que as candidaturas apresentam são “planos de campanha”, não “de governo”. Na essência, são ideias pensadas para se transformar em peças de propaganda, que nem precisam ser inteiramente realistas. Como se destinam à televisão, têm que ser simples e curtas, sem fundamentações e cálculos de viabilidade. Seu objetivo é fixar, por meio do conteúdo, a imagem que se pretende projetar para o candidato: “conhece as pessoas carentes”, “sabe o que fazer para resolver os problemas do povo” e atributos semelhantes. Não são formuladas para governar, mas para ganhar a eleição.
Por isso, os verdadeiros planos só são elaborados depois que o candidato vence, quando seus assessores recebem os dados de dentro do governo e se dedicam seriamente a eles. É nas equipes de transição que se fazem planos de governo, não nas de campanha.
Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas.
Surrupiado do Aposentado Invocado
domingo, 27 de junho de 2010
Para Onde Apontam os Números
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Saiu uma nova pesquisa nacional do Ibope, que confirma as que foram feitas recentemente pela Vox Populi e a Sensus. Os dois institutos já antecipavam o que agora indica o Ibope, talvez por utilizarem amostras mais sensíveis.
Nessa pesquisa, a vantagem de Dilma sobre Serra, ela com 40% das intenções de voto, ele com 35%, é ainda pequena, perto da margem de erro de 2 pontos percentuais, se raciocinarmos com o pior cenário para a candidata do PT (no qual ela teria 38%) e o melhor para o do PSDB (em que ele ficaria com 37%). Como essa conjugação é pouco provável, o mais certo é afirmar que ela assume a dianteira, mas sem se distanciar do adversário.
Se fosse só isso, caberia apenas dizer que a pesquisa é boa para Dilma. Na verdade, porém, ela é melhor do que parece à primeira vista, o que permite dizer que é muito favorável à petista.
De um lado, ela mostra que Dilma continua a crescer tirando votos de Serra, em um processo análogo ao que a matemática chama “jogo de soma-zero”. Nele, o ganho de um é idêntico ao prejuízo do outro, o que produz um saldo sempre nulo: mais 5 menos 5 igual a zero.
Na política, isso acontece quando só existem dois candidatos de direito (por exemplo, no segundo turno) ou de fato (como está ocorrendo agora, quando perto de 80% dos eleitores fica entre Dilma e Serra). Somente 20% ainda não sabe o que fará ou pensa fazer diferente: votar em outros nomes, anular ou deixar em branco.
Como quase não há alterações nos nulos e brancos, e Marina não se mexe, permanecendo estacionada nas pesquisas de todos os institutos há algum tempo, as únicas mudanças se dão entre as pessoas que saem de Serra e vão para Dilma (ou vice-versa, mas em proporção muito menor). Quanto à pequena indecisão residual no voto estimulado, ela decorre da dificuldade que as campanhas têm de atingir algumas faixas do eleitorado refratárias à comunicação política, formadas por eleitores que podem, em muitos casos, continuar tão indecisos até o final que sequer comparecerão para votar.
Para Dilma, o bom, nesse processo, é que, a cada deslocamento de eleitores de Serra para ela, os números dobram. Por exemplo: se Serra perder outros 3 pontos e ela os receber, a distância entre os dois subirá 6 pontos.
Se, então, estiver em curso (como parece) essa tendência, a perspectiva de vitória da candidata do PT no primeiro turno se torna concreta, mesmo imaginando que Marina não míngue e até cresça um pouco. Quanto aos nanicos, alguns respeitáveis, tudo indica que a possibilidade de crescimento é remota.
A segunda razão da nova pesquisa do Ibope ser tão favorável a Dilma é o período de realização. Seu campo foi iniciado no dia seguinte à veiculação do programa do PSDB em rede nacional e prosseguiu enquanto estavam no ar suas inserções, logo após a propaganda do DEM e do PPS, igualmente dedicadas a Serra. O fato de toda essa mídia não ter conseguido, ao que parece, provocar o aumento de suas intenções de voto era previsível, mas veio como ducha de água fria naqueles que torciam para que melhorassem.
Não havia, no entanto, maiores motivos para imaginar que Serra iria crescer. Como acontecera no final de 2009 em situação semelhante (quando ele coestrelou, com Aécio, a propaganda tucana sem subir), voltamos a ver que seu nível de conhecimento é tão elevado que ele não ganha quando seu tempo de televisão aumenta. Em linguagem publicitária: sua imagem parece ter atingido o ponto de saturação, a partir do qual novos investimentos em propaganda apresentam retorno decrescente ou, quem sabe, negativo (quando há risco de perda de imagem com mais exposição).
Na interpretação amiga de quem deseja que ele vença, houve quem dissesse que foi a Copa do Mundo que o prejudicou, como se o interesse por ela fizesse com que a opinião pública ficasse indiferente à comunicação política enquanto a bola rola. A tese seria admissível se não fosse contrariada por tudo que conhecemos de eleições passadas, como a de 2002, quando Ciro Gomes cresceu mais de 15 pontos em plena Copa, impulsionado pela propaganda partidária que, desta feita, não ajudou Serra.
Com a perspectiva de encerramento da fase de pré-campanha com Dilma em clara dianteira, a eleição pode se encaminhar para uma definição antecipada: talvez comecemos a etapa final, da propaganda na televisão e no rádio, com a eleição resolvida na cabeça da maioria dos eleitores. Para que isso se confirme, falta pouco.
Copiado do Blog do Noblat




