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domingo, 5 de abril de 2015

Capitalismo e consciência de classe: as ideias de Georg Lukács


24/8/2010, [*] Chris NinehamCounterfire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas, cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade; e que são postos num “isolamento” suposto “isento” antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de “noticiar”. A “isenção” de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.


Georg Lukács foi o maior teórico da revolução no século XX. No processo de explicar os princípios da Revolução Russa, Lukács respondeu a algumas perguntas vitais: Como as ideias capitalistas tomam conta de nossa consciência? Em que circunstâncias as pessoas se tornam radicais? E como os socialistas podem construir genuínos movimentos revolucionários de massa?

As ideias revolucionárias de Lukács dos anos 1920s foram reprimidas por Stálin e marginalizadas pela Academia e até por muitos no campo da esquerda. Tiveram uma espécie de vida “clandestina”, mas reemergindo sempre que se discutia mudança fundamental. Esse livro é uma introdução às ideias de Lukács e argumenta que elas são crucialmente importantes para explicar e compreender nosso mundo contemporâneo de crises e guerra.



Georg Lukács 
por Liberati

Excerto de Capitalism and Class Consciousness (aqui traduzido)

Um filósofo ativista

Lukács tornou-se revolucionário e marxista durante a maior onda de luta da classe trabalhadora em toda a história, desencadeada pela Revolução Russa ao final da Iª Guerra Mundial. Já conhecido como intelectual na Hungria, meses antes de unir-se ao recém criado Partido Comunista da Hungria em dezembro de 1918, descobriu-se de repente como líder, nos eventos que levaram à breve república soviética da Hungria, em 1919. Foi Comissário do Povo para a Educação e por um curto período de tempo, comissário político no front de combate.

A República dos Trabalhadores Húngaros terminou em desastre. Aconteceu assim, como o próprio Lukács reconheceu adiante, porque a República era instável desde o início. O Partido Comunista da Hungria iniciou um insurreição, em fevereiro de 1919, muito antes de ter apoio da maioria dos conselhos de trabalhadores. O levante foi esmagado, quando ficou claro que radicalização de massa jamais seria substituto de preparação política. Ao mesmo tempo, a militância de camponeses e trabalhadores, e a anexação de partes do país por potências estrangeiras, levaram ao colapso do governo burguês, o que gerou um vácuo de poder.

A República Soviética Húngara nasceu em março de 1919, de uma fusão entre os comunistas e o Partido Social Democrático (PSD), partido reformista. A classe governante delegou poderes ao PSD, num derradeiro esforço para salvar o sistema. Lukács e a liderança do Partido Comunista interpretaram a nova aliança de reformistas e revolucionários como uma restauração espontânea da unidade proletária; de fato, como depois se constatou, não passou de receita para confusão e desastre.

Os líderes do Partido Comunista agiram como se estivessem num governo revolucionário, forçando a nacionalização da terra, sem qualquer preocupação com o que pensavam ou desejavam os camponeses; e a maioria dos operários permaneceu sob a liderança do partido reformista. Diante de novos ataques da aliança de poderes contrarrevolucionários, os líderes do PSD logo capitularam; e os comunistas ficaram isolados, sem qualquer apoio. Logo se constituiu um governo reacionário, que desencadeou campanha de terror contra a esquerda, executando mais de 5 mil e expulsando do país dezenas de milhares de militantes.

Lukács escreveu seus trabalhos chaves dos anos 1920s – Lênin: Estudo sobre a unidade de seu pensamento [em espanhol, em Rebelión], História e Consciência de Classe Em defesa de História e Consciência de Classe: o Seguidismo e a Dialética[em espanhol em Libro españollogo depois dessa experiência, enquanto viveu como exilado, em Viena. Hoje se vê com clareza que aquele foi momento decisivo para o movimento socialista. Antes da guerra, o movimento socialista mundial se organizara na IIª Internacional, cuja completa acomodação no sistema vê-se claramente no apoio que os partidos principais deram à Iª Guerra Mundial. Os russos bolcheviques puseram-se contra essa traição, e lideraram uma revolução bem-sucedida, que se tornou inspiração para milhões em todo o mundo.

Os dois livros de Luckács, História e Consciência de Classe e Lênin: Estudo sobre a Unidade de seu Pensamento, manifestam o potencial revolucionário do momento, e o medo de que ninguém estivesse cuidando de extrair as lições daquela experiência. Em 1925, quando Lukács escreveu O Seguidismo e a Dialética, havia sinais de que o isolamento da revolução russa estava estimulando uma nova modalidade de fatalismo.

A vida sob o capitalismo

Em História e Consciência de Classe, Lukács discute o papel das instituições do capitalismo, como elementos de mediação. Mas expõe – como resultado da experiência vivida do capitalismo –, a capacidade que essas instituições têm para assegurarem-se a aquiescência dos trabalhadores. Explica também como e por quê essa mesma experiência vivida do capitalismo pode criar oposições.

O ponto de partida de Lukács é o fato de que o capitalismo converte tudo em mercadoria, uma unidade de produto cujo objetivo é gerar lucros para os capitalistas. Lukács argumenta que não é acaso que a mercadoria tenha sido também o ponto do qual Marx partiu, em seus trabalhos principais, quando decidiu “expor a nu a natureza fundamental da sociedade capitalista”:

O problema das mercadorias não deve ser considerado isoladamente nem considerado problema central da economia, mas como problema central, estrutural da sociedade capitalista em todos os seus aspectos. Só assim se consegue ver como a estrutura das relações de mercadoria é um modelo para todas as formas objetivas da sociedade burguesa, com todas as formas subjetivas que lhes correspondem. 
[Luckács, História e Consciência de Classe].

A produção da mercadoria modela o modo como experienciamos e compreendemos o mundo. Ela reduz qualidade a quantidade e esconde o processo generalizado de exploração num mundo imediato de comprar e vender. Ecoando as palavras de Marx em Capital, Lukács descreveu como a mercadorização tem o efeito de dar às relações entre as pessoas o caráter de coisas: a conversão em mercadoria [a mercadorização] reifica [transforma em coisa] todas as relações.

Nesse processo, as relações adquirem uma “objetividade fantasma” e uma autonomia “que parece tão estritamente racional e extensiva a tudo, a ponto de ocultar todo e qualquer traço da natureza fundamental daquelas relações”. Por isso as mercadorias têm o que Marx chamou de “caráter de um fetiche”. Como os fetiches primitivos que os homens criaram e imediatamente passaram a adorar como se fossem deuses, as mercadorias vieram para nos comandar e comandar nossa vida, apesar de serem criadas por nós.

Só se consegue perceber o total impacto desse processo de reificação quando entendemos que a condição essencial para a vitória da forma mercadoria é a transformação do próprio trabalho, em mercadoria. Se o valor dos bens será determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo, a força de trabalho tem de ser totalmente integrada nesse sistema racional universalmente quantificado. O trabalhador tem de vender sua força de trabalho, como qualquer outra mercadoria, no mercado.

Nem objetivamente nem em relação com seu trabalho, o homem aparece como autêntico senhor do processo; ao contrário, ele é uma parte mecânica incorporada num sistema mecânico. O homem descobre que o sistema é pré-existente e autossuficiente, que funciona independente dele, e o homem tem de se conformar às suas leis, goste ou não goste.  
[Luckács, História e Consciência de Classe].

A mercadorização modela o próprio processo físico do trabalho e também a compreensão que temos dele. O trabalho torna-se dominado pela racionalização, uma alta divisão do trabalho, repetição e obsessão com a quantidade, não com a qualidade. O artigo acabado já não parece ser objeto de processo algum. O processo fragmentado de produção do objeto acaba por produzir um sujeito fragmentado:

À personalidade nada resta a fazer, além de olhar desconsoladamente, enquanto sua própria existência é reduzida a uma partícula isolada inserida num sistema alienado. 
[Luckács, História e Consciência de  Classe].

A reificação então tem três efeitos que se reforçam mutuamente sobre a consciência. Ela oculta, esconde, as reais relações humanas do capitalismo; faz o sistema parecer como se fosse comandado por uma lógica pré-ordenada, inumana; e faz os trabalhadores sentirem-se sem forças para fazer coisa alguma.

Muito já observaram que Lukács, pela leitura que faz de Capital, chegou a um conceito quase idêntico à ideia de alienação que aparece em Manuscritos Econômico-filosóficos de Marx, escritos em 1844, mas só publicados em 1932.

Mas Luckács fez mais que isso. Luckács abriu novos caminhos, ao mostrar como a reificação permeia toda a sociedade capitalista e lançou as bases para a primeira “estrutura unificada de consciência na história”. Explorou, inclusive, as implicações disso tudo para a política radical.

Para Lukács, o estado mental gerado pela experiência do trabalho na ponta final da produção capitalista aparece difundido por todas as instituições da sociedade capitalista.

A atomização dos indivíduos é, então, só o reflexo na consciência do fato de que as ‘leis naturais’ da produção capitalista foram estendidas para cobrir toda e qualquer manifestação de vida em sociedade; que, pela primeira vez na história toda a sociedade é submetida ou tende a ser submetica a um processo econômico unificado, e o destino de cada membro da sociedade é determinado por leis econômicas unificadas
[Luckács, História e Consciência de Classe].

Para Lukács, por exemplo, as burocracias são corolários do sistema das fábricas:

Burocracia implica ajustamento ao modo de vida de alguém, ao seu modo de trabalhar e, pois, à sua consciência, às premissas socioeconômicas gerais da economia capitalista, semelhante à que se viu no caso do empregado que trabalha para patrão privado. A padronização formal da justiça, do estado, do funcionalismo público etc. significa objetivamente e factualmente uma redução comparável de todas as funções sociais aos seus elementos, uma busca comparável pelas leis racionais formais desses sistemas parciais cuidadosamente segregados. 
[Luckács, História e Consciência de Classe].

Assim, muito mais que nos locais de trabalho que visa ao lucro, também nas instituições de toda a sociedade as tarefas são reduzidas a funções quantificáveis, à taxa de transferência efetiva de um sistema, em processos que ganham autonomia em relação à pessoa, à personalidade e, portanto, em relação à razão/juízo humano. Mesmo para os que lidam diretamente com outros seres humanos, perdeu-se o senso de objetivo mais amplo, e todo o sentido de causa e efeito foi apagado.

Lukács oferece como exemplo dessa reificação máxima os jornalistas cujos poderes de empatia, juízos, conhecimentos e expressão são artificialmente separados da personalidade, e que são postos num “isolamento” suposto “isento” antinatural, quando confrontados aos fatos ou eventos que têm de “noticiar”.

A “isenção” de que os jornalistas fazem meio de vida, a prostituição das próprias experiências e crenças pessoais, só são compreensíveis como apogeu da reificação capitalista.
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[*] Chris Nineham é um dos fundadores e um dos Diretores Nacionais da Stop the War Coalition no Reino Unido. Foi um dos principais organizadores do protesto anti-guerra 15 Fevereiro 2003 contra a invasão ao Iraque. Foi um dos principais membros Globalise Resistence, a rede anti-globalização, que mobilizou milhares de protestos em Gênova e em outros lugares; desempenhou um papel importante nos Fóruns Sociais Europeus e Mundiais. Foi membro do Partido Socialista dos Trabalhadores até que renunciar em 2010. É autor de The People Versus Tony Blair e Capitalism and Class Consciousness: the ideas of Georg Lukacs
Escreve extensamente sobre o movimento antiguerra e do movimento antineoliberal, bem como sobre os meios de comunicação, modernismo e teoria cultural.

sábado, 18 de outubro de 2014

Agente do Departamento de Estado dos EUA infringe lei de vistos da Rússia, é apanhado e se põe a protestar!

18/10/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O Departamento de Estado dos EUA continua a manter seu programa de ativa influência contra o estado russo. Financia “workshops” na Rússia, que servem para preparar uma “revolução colorida” por lá. Paga professores universitários de universidades norte-americanas para operarem em diferentes estágios dos planos. Uma das áreas em que mais o Departamento de Estado interfere é no recrutamento e influência de jornalistas russos. Quando o Departamento de Estado envia aqueles instrutores para a Rússia, dá-lhe instruções para que declarem que lá estão como “turistas”. Os russos descobriram o golpe e ordenaram que os tais “instrutores” pusessem fim àquela sandice.

A imprensa-empresa nos EUA, contudo, usou a questão para, como sempre, “culpar a Rússia”. Daí as várias manchetes factualmente falsas como Jornalista de Boston detido por alguns dias na Rússia” ou, ainda pior, Turistas norte-americanos detidos na Rússia”:

Randy Covington
Dois jornalistas norte-americanos foram detidos por algumas horas na Rússia e apresentados a um tribunal na 5ª-feira (16/10/2014), por dar aulas num workshop de jornalismo investigativo. Os dois foram declarados culpados por violar a lei de vistos, informaram as autoridades. O Centro Nova Inglaterra de Reportagem Investigativa [orig. New England Center for Investigative Reporting] informou que seu co-fundador, Joe Bergantino, e o professor da Universidade da Carolina do Sul, Randy Covington, permaneceram detidos por várias horas pelas autoridades da Imigração, quando começavam as aulas de seu primeiro  workshop em São Petersburgo.

E desde quando “turistas” dão aulas em workshops? Ainda pior, como se lê no artigo que levava a manchete “Turistas detidos”:

Bergantino e Covington, que tinham vistos de turistas, foram informados de que não poderiam dar aulas, mas podiam deixar o país como previsto, no sábado (18/10/2014), disse o Centro Nova Inglaterra (...).

O centro informou que os dois jornalistas levavam passaportes com o tipo de visto recomendado pelo Departamento de Estado dos EUA para aquela visita.

O Departamento de Estado, de fato, até admitiu:

Perguntada sobre se os EUA estavam preocupados com o que acontecera aos jornalistas, [a porta-voz do Departamento do Estado Jen] Psaki respondeu: “Acho que é justo dizer que, se eles lá estavam para dar um treinamento patrocinado por nós, penso que preferiríamos que não fossem presos.

Os “turistas” ou “jornalistas” infringiram as leis russas de imigração e foram instruídos pelo Departamento de Estado dos EUA a fazer exatamente isso. E o que supunham que o serviço russo de Imigração faria? Que ignorasse a lei russa, porque o Departamento de Estado dos EUA ordenou? 

Joe Bergantino
Um dos patrocinados pelo Departamento de Estado, Joe Bergantino, que entrou na Rússia como falso “turista”, para dar aulas num workshop pago pelo Departamento de Estado dos EUA para influenciar a opinião pública em outro país, sentiu-se ofendidíssimo por a Rússia fazer o que a lei russa manda fazer. E escreveu irada carta aberta ao presidente da Rússia:

Permita-me repetir a pergunta, Sr. Putin: Tudo aquilo era mesmo necessário? É sabido que o senhor gosta de bancar o durão no cenário mundial e que a maioria do povo russo apoia a mensagem que o senhor nos envia: a Rússia é forte e exercerá a própria vontade quando bem entender. 

Mas falemos cá nós dois, conversa pessoal, por um momento. (...)

O que o professor Bergantino deveria ter perguntado, e a si próprio, não ao presidente Putin, é:

Era mesmo necessário ir à Rússia escondido por trás de declaração falsa? Era mesmo necessário infringir voluntária e premeditadamente a lei russa?”

E algum jornalista sério, que fosse mais jornalista que agente de propaganda dos EUA, por-se-ia a “denunciar” o “sujeito durão” estrangeiro, sem se preocupar com olhar o seu próprio espelho nos EUA? O que faria o Serviço de Segurança Nacional dos EUA, se coisa semelhante acontecesse nos EUA?

É fácil responder essa pergunta. Desde 2003, todos os jornalistas de todos os países do mundo que venham aos EUA têm de trazer um visto especial (e muito caro) específico para jornalistas. Mesmo no caso de países como França ou Alemanha, que mantêm amplos acordos de emissão de vistos com os EUA.

Robert Ménard
E o que acontece quando jornalistas – mesmo que não venham patrocinados por estado estrangeiro para influenciar cidadãos norte-americanos, mas para realmente trabalhar como jornalistas – entram nos EUA sem aquele visto especial?

No fim de semana de 10-11 de maio de 2014, seis jornalistas da televisão francesa que visitavam Los Angeles para cobrir a exposição gigante E3 de videogames foram detidos para interrogatório por guardas de fronteira no Aeroporto, impedidos de entrar no país e enviados de volta à Europa. “Esses jornalistas foram tratados como criminosos submetidos a várias revistas corporais, algemados, postos em celas e fichados”. O secretário-geral dos Repórteres Sem Fronteiras, Robert Ménard, protestou em carta (...).

Ora! Comparem isso e o que aconteceu ao Sr. Bergantino, que não foi tratado como criminoso, apenas recebeu instruções administrativas e pôde permanecer no país até a data marcada para seu voo de volta.

Que país, Sr. Bergantino, teve atitude moral e agiu com verdadeira decência?!


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Para criticar a “mídia”, é preciso dar nomes aos bois!

A PROPÓSITO DE: 28/3/2014, [*] Glenn Greenwald, The Intercept [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
A hipocrisia de tratar o Rei Abdullah como democrata e Maduro como ditador

Entreouvido na Viela do Xixi na Vila Vudu: Esse artigo não é nenhuma brastemp, não tem novidade, ainda não é propaganda política de democratização, mas já é jornalismo de democratização E É MUITO BOM, como exemplo disso. Greenwald é jornalista liberal e ainda crê no jornalismo liberal. Além disso, trabalha em ambiente de (muuuito) melhor jornalismo, que nós, cá no Brasil, condenados todos ao monopólio e à mediocridade quase INACREDITÁVEL do “jornalismo” das empresas imprensa do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão). Mas até Greenwald, por jornalista liberal que seja, JÁ SABE que se pôr a criticar “a mídia”, sem dar nomes aos bois, é perder tempo e energia.
Criticar “a mídia” só faz algum sentido e tem alguma serventia no mundo real, se a crítica inclui nome, RG, CPF, profissão e residência , bem divulgados, dos agentes da tal de “mídia”, os próprios jornalistas (editores e repórteres, todos, agentes discursivos MUITO MAIS DIRETAMENTE ATIVOS de fascistização da opinião pública, até, que os patrões deles), caso a caso: é indispensável dar nomes aos bois.
Ou só se critica uma palavra (a tal de “mídia”) e não se critica nem o pensamento (sujo) nem o serviço (ainda mais sujo) que OS JORNALISTAS, alguns políticos que sabem servir-se da tal de “mídia” e seus marketeiros são pagos para fazer e fazem (e alguns, jornalistas empregados fascistas sinceros, fascistas convictos, fariam também, igualzinho, mesmo que tivessem de PAGAR pra fazer).
Vejam aí que a crítica é personalizada, dirigida, nome, história, profissão e endereço e tuuuudo.

 
Tommy Vietor em casa
Tommy Vietor foi porta-voz do Conselho de Segurança Nacional do presidente Obama, no primeiro mandato. Deixou o posto para criar uma empresa de consultoria (associado a Jon Favreau, que escrevia discursos para Obama), a serviço da qual pôs seus contatos na Casa Branca, para construírem estratégias de ação nas redes sociais e na mídia em geral para empresas que negociam (grandes negócios) com o governo. Sua sala de trabalho, hoje, é adornada com pôsteres do presidente Obama (como se vê no vídeo).

A função de Vietor [não são INCRÍVEIS esses jovens empreendedores?! 8-))))))) [NTs]), que ele cumpre aplicadamente é simples: expressar e incorporar as ideias mais definitivas, mais convencionais, do que a Washington imperial pensa sobre ela mesma.

Na 2ª-feira (24/3/2014), Vietor foi ao Twitter, para atacar publicamente Oliver Stone, por ter manifestado seu apoio ao governo de Maduro na Venezuela:


[no tuíto:] @Oliver Stone: Como você pode apoiar Maduro, quando ele mantém ilegalmente presos líderes da oposição como #LeopoldoLopez?

Aí, claro, nada se vê além da velha tática preferida da Washington oficial: fingir cinicamente que se preocupa com direitos humanos, ao mesmo tempo que trabalha para minar governos que não obedeçam às ordens dos EUA.

Para os tommy vietors do mundo, o governo de Maduro não é ruim porque “mantém ilegalmente presos líderes da oposição”; é ruim porque se opõe a políticas dos EUA, recusa-se a obedecer ordens dos EUA e derrota, em eleições livres e populares, os candidatos neoliberais subservientes preferidos dos EUA. Até aí, nada de novo.
 
Tommy Vietor, vestindo trajes patrióticos
A coisa para de me parecer cômica, contudo, quando vejo a habilidade dos tommy vietors do mundo para convencerem, em primeiro lugar eles mesmos e, na sequência, também outros, de que conseguem distribuir esse tipo de “comentário”, sem serem imediatamente arrastados para praça pública, em desgraça. A mesma pessoa que invoca preocupações com direitos humanos a ponto de condenar publicamente Stone por apoiar governo democraticamente eleito na Venezuela passou anos apoiando tiranias – essas sim! – brutais e viciosas, que jamais foram eleitas para governar coisa alguma.

O governo Obama, do qual Vietor foi porta-voz, várias vezes forneceu armas ao governo do Bahrain para esmagar brutalmente manifestações democráticas de opositores do ditador. O mesmo governo Obama apoiou vigorosamente o repelente regime de Mubarak, aliado dos EUA por muito tempo, até que a queda tornou-se inevitável; Hillary Clinton, logo depois de nomeada Secretária de Estado, não teve pejo:

Realmente considero o Sr. e a Sra. Mubarak amigos de minha família.

Obama várias vezes abraçou os monarcas do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos e do Kuwait. E tudo isso, independente do apoio político, financeiro, diplomático e militar inigualável que os EUA dão com prodigalidade a Israel, mesmo depois de décadas ininterruptas de ocupação, repressão e agressão aos palestinos.

E há também o mais íntimo dos aliados dos EUA, o principal, que é também uma das ditaduras mais brutalmente repressivas do mundo: a Casa de Saud. Durante o mandato de Vietor, o governo Obama revelou planos para entregar aviões de guerra à Arábia Saudita, negócio de mais de US$ 60 bilhões, o maior negócio de vendas de armas nos EUA em toda a história, e “conversações com o reino saudita sobre upgrades nos sistemas naval e de mísseis de defesa que poderiam chegar a mais dezenas de bilhões de dólares”.

Há cinco meses, o Pentágono anunciou “planos para vender à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos US$ 10,8 bilhões em armamento avançado, incluindo mísseis Cruiser ar-terra e munição de precisão”, um pacote que “inclui as primeiras vendas dos EUA a aliados no Oriente Médio das novas armas fabricadas por Raytheon e Boeing que podem ser lançadas à distância pelos aviões F-15 da Arábia Saudita, e F-16 dos Emirados Árabes Unidos”.

A Casa Branca de Obama repetidas vezes afirmou sua forte parceria com a tirania saudita.

Hoje [anteontem, 28/3/2014)], Obama chega a Riad, para garantir aos monarcas sauditas que os EUA continuam tão firmes como sempre na íntima parceria entre os dois governos, e tentar acalmar as ansiedades sauditas. Vai-se encontrar com o rei Abdullah, “terceiro encontro entre Obama e o rei, em seis anos”.


(...) tentar suavizar as relações com a Arábia Saudita, mostrando ao antigo aliado dos EUA que não está esquecido.

De fato “altos conselheiros do presidente dizem que a visita é um investimento numa das mais importantes relações dos EUA no Oriente Médio”.

Se você quer justificar tudo isso e argumentar cinicamente que seria benéfico para os EUA apoiar tiranias brutais e repressoras, OK, vá em frente. Pelo menos, será falar conforme age, postura honesta. Mas não se ponha a falar como se os EUA fossem alguma espécie de bastião contra a repressão política e a violação de direitos humanos, quando já se sabe que a verdade é, tão dolorosamente, o contrário disso.

E se você já trabalhou tanto, por tanto tempo, para garantir todos os tipos do mais irrestrito apoio vital a todos os regimes mais brutais do mundo, não se meta, agora, a fazer pose de líder da gangue, a criticar os que defendem governos mais democráticos e benignos.



[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é advogado um norte-americano, especialista em Direito Constitucional  dos EUA, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor estadunidense. Atualmente (2014), vive no Rio de Janeiro Brasil. Divulgou, inicialmente através do jornal britânico The Guardian, as informações sobre os programas de Vigilância Global dos Estados Unidos, que vieram as claras através dos documentos fornecidos por Edward Snowden. Foi colunista do sítio Salon.com, do jornal britânico The Guardian e atualmente, desde o início de 2014 lançou o site de notícias The Intercept, uma publicação da First Look Media, criado pelo próprio Glenn Greenwald juntamente com Laura Poitras e Jeremy Scahill.3
Greenwald é premiado colunista de política nos Estados Unidos  e autor dos best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006), A Tragic Legacy (2007), e Great American Hypocrites (2008). Suas análises sobre a vigilância governamental americana e a Teoria da separação dos poderes são usualmente citados nos jornais The New York Times, The Washington Post e  em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos EUA.