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sábado, 14 de setembro de 2013

Resumo da ópera 470: submeter-se ou não à imprensa-empresa?

14/9/2013, Blog O que será que me dá
Editado e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido no quiosque Ôco-do-Mundo na Vila Vudu: Decidimos editar esse excelente postado que recebemos por e-mail, para excluir dele o que ali havia de defesa do PT.
Essa defesa, que cabe perfeitamente no caso de disputas entre partidos, é absolutamente desnecessária para defender o caso do ministro José Dirceu, contra o imbecilismo fascistizante dos juízes que hoje julgam no STF.
Petistas e não petistas (como a Vila Vudu e a redecastorphoto) estamos unidos hoje na luta pelos direitos democráticos do ministro José Dirceu e de outros petistas acusados sem provas, num tribunal e num julgamento de exceção.
Mudamos também o ataque focado na “Globo”. Entendemos que se a “Globo” tivesse todo o poder que alguns supõem que ela tenha, não estaria na situação em que está, obrigada a lavar a fachada com creolina, dia sim, dia também, porque recebe pacotes de cocô lançados diretamente por cidadãos (consumidores) indignados.


Na sessão desta última quinta-feira, disse o ministro Barroso que “vota com sua consciência e não se pauta pelo que vai sair no jornal do dia seguinte”. É o resumo da ópera 470 – que a imprensa-empresa no Brasil chama de “Mensalão do PT”: submeter-se ou não à imprensa-empresa brasileira?

A estratégia preparada por Joaquim Barbosa foi a de isolar o derradeiro voto (que desempatará em 6 x 5 para um dos lados) para a próxima sessão, quarta-feira que vem, contando com jogar o ministro Celso de Mello à sanha dos jornalistas da imprensa-empresa durante os próximos 7 dias.

Se resistir à pressão vulcânica que o aguarda nesta semana, pela imprensa-empresa no Brasil, e acabar por aceitar os tais embargos infringentes – adiando ou apagando para sempre as capas que a imprensa-empresa sonha conseguir publicar há 8 anos – Celso de Mello salvará o STF (e talvez, com sorte, talvez salve alguma coisa, até, da reputação dos outros cinco ministros que tentam executar no garrote vil a primeira tentativa de governo progressista que o Brasil jamais conseguiu conceber e começa a construir).

Por outro lado, se o ministro dobrar-se à vontade da imprensa-empresa e consentir que se algemem em praça pública(da) réus acusados sem provas, terá realizado o sonho de curto prazo de Globo, Abril, FSP e Estadão, o Grupo GAFE. Mas nem assim, ao contrário do que muita gente pensa e ansiosamente deseja, a novela estará terminada.

Além de expor o STF como a casa da mãe Joana do Grupo GAFE e abrir precedentes para outros linchamentos nos mesmos moldes da 470 em qualquer tribunal do Brasil, a prisão de Dirceu, Genoíono, J. P. Cunha e Delúbio levará o caso à Corte da OEA – que tem o poder de anular o julgamento ou partes dele. Significará mais desmoralização, já aí internacional, para o STF e seus feios atores. Pode ser desenvolvimento muitíssimo importante, muitíssimo útil para ajudar a desmascarar o que alguns no Brasil ainda veem como uma alta corte e seus juízes.

Os ministros que votaram pela degola imediata dos réus parecem não se importar em serem achincalhados por quem entende de direito penal. Parece que o que mais aterroriza Barbosa e os demais que votam com ele é a opinião publicada na imprensa. Desde o início do julgamento ficou evidente, além dos maus bofes e falta de compostura, também a postura político-partidária de Joaquim Barbosa. Como se sabe, há fascistas sinceros, fascistas de fé, por convencimento pessoal profundo da “legalidade” do próprio poder fascista e fascistizante. Sempre houve. Vários deles estiveram sentados no Tribunal de Nuremberg. No banco dos réus, é claro.

Quem seriam?

Ao Grupo GAFE só interessa uma coisa: algemar e fotografar. Se mais tarde o julgamento for anulado, pouco importa.

Fato é que, até aqui, o STF dá sinais de que aceitou a “tese” parida nas fétidas redações do “jornalismo” brasileiro.

E Barbosa conduziu o caso costurando “indícios” que qualquer estudante de primeiro ano de direito sabe que são inadmissíveis. A omissão de provas a favor do chamado “núcleo político da quadrilha” já foi exaustivamente criticada por toda a comunidade jurídica do país. Argumentos como o “domínio do fato” só foram aceitos por jornalistas do Grupo GAFE e seus leitores coxinhas. E hoje, como já se vê, o Grupo GAFE já abandonou, acuado, o tal "domínio do fato" -- depois que até o jurista criador da teoria mandou calar-o-bico, às “sumidades” do STF.

Henrique Pizzolato é mais inocente que uma criancinha, mas fato é que, se aliviarem para um único réu, todo o julgamento desmoronará como castelo de areia. Por isso Barbosa optou por julgar e condenar todos ao mesmo tempo, apostando que conseguiria safar-se.

Os jornalistas e seguidores da empresa-imprensa no Brasil tentam dividir o mundo entre petistas e antipetistas.

Mas saber que o Mensalão nunca existiu, que nunca passou de fantasia “jornalística” cerebrada por um criminoso já condenado (Roberto Jefferson) e executada por uma “jornalista” incompetente, no campo técnico-jornalístico, e portadora de necessidades especiais no campo moral (Renata LoPrete), a serviço de uma empresa de imprensa bem conhecida por sua atividade a favor da ditadura e do golpe desde 1964 e até hoje, já no século 21, não significa ser petista. Significa saber ler jornais brasileiros, usando um mínimo de bom senso.

A maioria do povo brasileiro jamais foi às ruas para protestar contra os governos petistas. Ao contrário; a maioria do povo brasileiro elegeu e reelegeu esses governos que começam a aprender a ser progressistas no Brasil – e já reelegeu este governo por três vezes seguidas e com larga folga. E vamos reeleger Dilma, mais uma vez.

Fato é que o Golpe do “Mensalão” atentado pela imprensa-empresa brasileira é expediente desgastado. Foi utilizado sem o sucesso eleitoral esperado das urnas de 2006, 2008, 2010 e 2012. Para 2014, está sendo tentado, já como a raspa do tacho, mais uma vez. E depois do mensalão?

A oposição voltará a fazer política? Conseguirá construir um projeto alternativo e consistente para oferecer ao país? E o mais difícil de tudo: onde a oposição “educada” pelo opinionismo vicioso de “especialistas” uspeanos e pelas velhacarias do Grupo GAFE e de seus jornalistas incompetentes e de seu jornalismo insuficiente, encontrará candidato viável, que tenha coisa melhor a oferecer aos seus eleitores, além de mentiras “midiaticamente” construídas e velharias já forçadas a se conservar em formol e fardões. Velharia velhaca, que oculta a própria cara por trás da máscara do fardão da ABL.


De qualquer maneira, cedo ou tarde, a novela do chamado “Mensalão do PT” ficará para trás. Então, as “excelências” do STF terão vários pratos cheios aos quais dedicar seus sempre autoproclamados altos talentos jurídicos: o Mensalão do PSDB (e esse existiu! E há muitas provas, já reunidas e organizadas e conhecidas da opinião pública!), a sonegação da Globo, o cartel das licitações de Covas, Serra & Alckmin, o destravamento da Satiagraha de Daniel Dantas, a Privataria de FHC…

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Em terra de bandidos você tem que ser “gangster” (Vitória de Pirro)*




Texto de Jair Alves - dramaturgo
Enviado por Ana Engelen
Original no Portal Macunaíma




 


O provérbio acima grafado no título foi usado pelo dramaturgo, Bertholt Brecht , na peça a “Ascensão e Queda de Arturo Ui”, uma parábola dos anos trinta, sobre o regime Nazi-fascista ambientado na cidade de Chicago explorando as contradições de um sistema mafioso à margem da Lei na realidade norte-americana.

A frase original quase intraduzível para a língua portuguesa, se não é exatamente essa (é algo parecido) e seu significado inequívoco. Esta fala próxima do paradoxal parece ter sido entendida pela maioria da população brasileira que nesse outubro continua escolhendo, via de regra, aquilo que melhor lhe parece.

Por mais que se juntem interesses econômicos inconfessáveis, protegidos por sigilos em que a Lei (ora a Lei) não alcança, a mesma população (estamos escrevendo de maioria) não se seduziu aos alardes de uma “nova moralidade” e vai votar ao seu bem estar o que, convenhamos, está mais do que certo.

Longe deste humilde “escrevinhador” em achar que esta maioria seja conivente com “o malfeito”, ela sabe perfeitamente que a ruptura com uma suposta legalidade pode se originar em dois caminhos distintos, um que leva à Libertação e um outro a Submissão.

É justamente a população quem sofre com Sistemas que criados à margem da Lei, tais como Máfia do botijão de gás; da Internet Banda Larga, clandestina; dos produtos pirateados, só para falar em alguns exemplos.

Esta não é a realidade particular dos juízes togados, protegidos justamente pelo pacto social que garante a todos o Império da Democracia. Garante mesmo? Lembro a pergunta que não quer calar, “como ficam os demais, aqueles que estão marginalizados pelo sistema?”. Poderia ser comovente conhecer, como uma nota ao pé da página, a vida pública desses juízes togados desde os bancos escolares, passando por universidades e o seu engajamento pela paz social e que ontem foi demagogicamente evocada pelo relator “mão pesada”.

Algumas páginas deste livro, provisoriamente intitulado “A República Brasileira”, foram arrancadas na construção desse enredo.

Já durante 2003 circulou à “boca pequena”, entre os oposicionistas, que o ex-presidente FHC havia se reunido em seu apartamento em Higienópolis, em São Paulo, com agentes do governo de Washington para discutir e tomar providencia para que um “mirabolante plano” não fosse colocado em prática pelo superministro, José Dirceu, que seria “tomar o poder” pelas vias legais que engessaria a oposição garantindo, assim, sempre maioria no Congresso.

Para dar mais veracidade a “denúncia”, não a da reunião no bairro chic da cidade de São Paulo, mas a do tal plano citava que lideranças dentro do Partido dos Trabalhadores, como o, hoje, presidente Rui Falcão estava preocupado com a ação da corrente majoritária liderada por Lula e José Dirceu, que obrigavam parlamentares da mesma corrente a destinar de seus proventos mensais uma parcela para financiar atividades políticas extraparlamentar. Não é difícil observar que, se verdadeiro este procedimento, já se tratava de um “antimensalão”.

Neste caso era um parlamentar dando dinheiro e não recebendo. O episódio caiu no esquecimento quando Carlinhos Cachoeira (sim, ele mesmo) entregou uma fita de vídeo para um inexpressivo senador do PSDB que afoitamente procurou a Revista Época, em busca de “celebridade”.

Houve, portanto, uma mudança de foco. Descobriu-se que um dos personagens dessa trama sórdida era Waldomiro Diniz, assessor da Casa Civil, indicado por Antoni Garotinho, à época um aliado ao Governo Lula.

Além de abortar o”plano de conspiração” contra o Governo Lula que deveria estourar às portas das eleições municipais de 2004 e não dar celebridade ao denunciador, que jamais se reelegeu, obrigou José Dirceu a dividir seus poderes com o, hoje, Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo que passou a responder pela Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais, com status de ministro.

Ou seja, no inicio de 2004 José Dirceu perdeu poderes políticos dentro do próprio governo, justamente no período alegado por Roberto Jefferson da onipresença do ex-ministro e, agora, condenado pelo STF.

Que está faltando algum pedaço nessa história, todos sabemos, o que demandara novas histórias mal contadas nos próximos capítulos. Não faltarão, como não faltam,  acusações, às vezes grosseiras, de que o ex-presidente Lula tem tudo a ver com este caso.

Outra pergunta que não quer calar: o que exatamente concluiu, a ação Penal que condenou Waldomiro Diniz e os seus antigos aliados? Provou que nem José Dirceu tinha conhecimento do passado escuso de seu ex-assessor, como, também o Partido dos Trabalhadores ou membros de sua direção tinha algum envolvimento com este caso; já Roberto Jefferson, este sim!

Cremos que a população, ainda que por intuição, captou o sentido dos versos de um (este, sim) extraordinário poeta, João Cabral de Mello Neto, quando escreveu lá no final da década de cinquenta: não se faz só com palavras à vida”. Não tão brilhante, um outro poeta e presidente do STF enfatizou, ontem, a respeito da vida a paridade entreDeus e a Política”, chegou a afirmar: “Deus no Céu e os políticos na terra”.

Que mundo vive este senhor, às portas dos setenta anos? Com toda certeza, ele Preside um Tribunal de um Mundo onde nós não vivemos. A maior parte da população, tampouco.

Sim, mas ainda existem os poetas, os artistas e, um deles, certa vez compôs: “poetas, seresteiros, namorados correi. É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”.

Tempos depois (FINAL DA DÉCADA DE SESSENTA) esse nosso pequeno mundo por nome BRASIL, fora assaltado por tenebrosas transações e um Império onde a Lei de nada valia. Alguns sobreviveram para reproduzir e cantar outros tempos, estes, sim, verdadeiramente novos.

Não sem razão que, em Salvador, hoje na terra de todos os santos, e aqui em Sampa onde se cruza a Ipiranga com a avenida São João, o artista em foco escolheu no presente, o caminho da Libertação de todos os homens:Este samba vai pra Dorival Caymmi, João Gilberto e Gilberto Gil...!”.

(*) O julgamento da AÇÃO PENAL 470 não se encerra nesta QUINTA FEIRA, como gostariam os promotores deste evento às portas das eleições de 2012, com prejuízos inequívocos ao Governo Federal. Ainda teremos novos desdobramentos, com resultados ainda a se conferir.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O sonho do ministro Joaquim Barbosa pode virar pesadelo


Publicado originalmente em 11 de outubro de 2012 – AfroPress - por Ramatis Jacino
Enviado por Alfredo Pereira dos Santos
Extraído do blog Em lugar de uma carta

Comentário de Adriano Ferrarez: Brilhante esse texto de Ramatis Jacino. É uma das melhores reflexões que li nos últimos tempos. Traz à tona a ilusão de muitos “fodidos”, como diria Oscar Niemeyer, que se embriagam com a ascensão e viram as costas para a sua origem de classe e se aliam com as elites. Esse texto de Ramatis lança luz classista sobre esse episódio do julgamento do mensalão. 
Importante também a reflexão que faz sobre alguns militantes que como diria Raulzito: “Travam a inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que tá o curinga do baralho”. Joaquim Barbosa verá seu sonho virar pesadelo logo, logo. Matéria do jornal dos Marinhos de 30 de setembro de 2012 traz como título:  
“E depois do mensalão? Entre a firmeza e o destempero, um futuro desafiador - Amigos e até rivais tentam erguer blindagem para evitar tensões na gestão de Barbosa à frente do STF”
Já começou e a tendência é piorar. Leiam mais de uma vez se puderem. Esse texto é uma verdadeira aula.


Negros que escravizam e vendem negros na África, não são meus irmãos
Negros senhores na América a serviço do capital, não são meus irmãos
Negros opressores, em qualquer parte do mundo, não são meus irmãos...
Solano Trindade



Ramatis Jacino
O racismo, adotado pelas oligarquias brasileiras para justificar a exclusão dos negros no período de transição do modo de produção escravista para o modo de produção capitalista, foi introjetado pelos trabalhadores europeus e seus descendentes, que aqui aportaram beneficiados pelo projeto de branqueamento da população brasileira, gestado por aquelas elites.

Impediu-se, assim, alianças do proletariado europeu com os históricos produtores da riqueza nacional, mantendo-os com ações e organizações paralelas, sem diálogos e estratégias de combate ao inimigo comum. Contudo, não há como negar que o conjunto de organizações sindicais, populares e partidárias, além das elaborações teóricas classificadas como “de esquerda”, sejam aliadas naturais dos homens e mulheres negros, na sua luta contra o racismo, a discriminação e a marginalização a que foram relegados.

No campo oposto do espectro ideológico e social, as organizações patronais, seus partidos políticos e as teorias que defendem a exploração do homem pelo homem, que classificamos de “direita”, se baseiam na manutenção de uma sociedade estamental e na justificativa da escravidão negra, como decorrência “natural” da relação estabelecida entre os “civilizados e culturalmente superiores europeus” e os “selvagens africanos”.

É equivocada, portanto, a frase de uma brilhante e respeitada filósofa negra paulistana de que “entre direita e esquerda, eu sou preta”, uma vez que coloca no mesmo patamar os interesses de quem pretende concentrar a riqueza e poder e àqueles que sonham em distribuí-la e democratizá-la. Afirmação esta, que pressupõe alienação da população negra em relação às disputas políticas e ideológicas, como se suas demandas tivessem uma singularidade tal que estariam à margem das concepções econômicas, de organização social, políticas e culturais, que os conceitos de direita e esquerda carregam.

As elites brasileiras sempre utilizaram indivíduos ou grupos, oriundos dos segmentos oprimidos para reprimir os demais e mantê-los sob controle. Capitães de mato negros que caçavam seus irmãos fugidos, capoeiristas pagos para atacarem terreiros de candomblé, incorporação de grande quantidade de jovens negros nas polícias e forças armadas, convocação para combater rebeliões, como a de Canudos e Contestado, são exemplos da utilização de negros contra negros ao longo da nossa história.

Havia entre eles quem acreditasse ter conquistado de maneira individual o espaço que, coletivamente, era negado para o seu povo, iludindo-se com a idéia de que estaria sendo aceito e incluído naquela sociedade. Ansiosos pela suposta aceitação, sentiam necessidade de se mostrarem confiáveis, cumprindo a risca o que se esperava deles, radicalizando nas ações, na defesa dos valores dos poderosos e da ideologia do “establishment” com mais vigor e paixão do que os próprios membros das elites. A tragédia, para estes indivíduos – de ontem e de hoje - se estabelece quando, depois de cumprida a função para a qual foram cooptados são devolvidos à mesma exclusão e subalternidade social dos seus irmãos.

São inúmeros os exemplos deste descarte e o mais notório é a história de Celso Pitta, eleito prefeito da maior cidade do país, apoiado pelos setores reacionários, com a tarefa de implementar sua política excludente.

Depois de alçado aos céus, derrotando uma candidata de esquerda que, quando prefeita privilegiou a população mais pobre – portanto, negra – foi atirado ao inferno por aqueles que anteriormente apoiaram sua candidatura e sua administração. Execrado pela mídia que ajudou a elegê-lo, abandonado por seus padrinhos políticos, acabou processado e preso, de forma humilhante, de pijama, algemado em frente às câmeras de televisão. Morreu no ostracismo, sepultado física e politicamente, levando consigo as ilusões daqueles que consideram que a questão racial passa ao largo das opções político/ideológicas.

A esquerda, por suas origens e compromissos, em que pese o fato de existirem pessoas racistas que se auto intitulam de esquerda, comporta-se de maneira diversa: foi um governo de esquerda que nomeou cinco ministros de Estado negros; promulgou a lei 10.639, que inclui a história da África e dos negros brasileiros nos currículos escolares; criou cotas em universidades públicas; titulou terras de comunidades quilombolas e aprofundou relações diplomáticas, econômicas e culturais com o continente africano.

O sonho realizado...
Joaquim Barbosa se tornou o primeiro ministro negro do STF como decorrência do extraordinário currículo profissional e acadêmico, da sua carreira e bela história de superação pessoal. Todavia, jamais teria se tornado ministro se o Brasil não tivesse eleito, em 2003, um Presidente da República convicto que a composição da Suprema Corte precisaria representar a mistura étnica do povo brasileiro.

Com certeza, desde a proclamação da República e reestruturação do STF, existiram centenas, talvez milhares de homens e mulheres negras com currículo e história tão ou mais brilhantes do que a do ministro Barbosa.

Contudo, nunca passou pela cabeça dos presidentes da República – todos oriundos ou a serviço das oligarquias herdeiras do escravismo – a possibilidade de indicar um jurista negro para aquela Corte. Foi necessário um governo de esquerda, com todos os compromissos inerentes à esquerda verdadeira, para que seu mérito fosse reconhecido.

A despeito disso, o ministro Barbosa, em uníssono com o Procurador Geral da República, considera não haver necessidade de provas para condenar os réus da Ação Penal 470. Solidariza-se com as posições conservadoras e evidentemente ideológicas de alguns dos demais ministros e, em diversas ocasiões procura ser “mais realista do que o próprio rei”.

Cumpre exatamente o roteiro escrito pela grande mídia ao optar por condenar não uma prática criminosa, mas um partido e um governo de esquerda em um julgamento escandalosamente político, que despreza a presunção de inocência dos réus, do instituto do contraditório e a falta de provas, como explicitamente já manifestaram mais de um dos integrantes daquela Corte.

Por causa “desses serviços prestados” é alçado aos céus pela mesma mídia que, faz uma década, milita contra todas as iniciativas promotoras da inclusão social protagonizadas por aquele governo, inclusive e principalmente, àquelas que tentam reparar as conseqüências de 350 anos de escravidão e mais de um século de discriminação racial no nosso país.

O ministro vive agora o sonho da inclusão plena, do poder de fato, da capacidade de fazer valer a sua vontade. Vive o sonho da aceitação total e do consenso pátrio, pois foi transformado pela mídia em um semideus, que “brandindo o cajado da lei, pune os poderosos”.

Não há como saber se a maximização do sonho do ministro Joaquim Barbosa é entrar para a história como um juiz implacável, como o mais duro presidente do STF ou como o primeiro presidente da República negro, como já alardeiam, nas redes sociais e conversas informais, alguns ingênuos, apressados e “desideologizados” militantes do movimento negro.

O fato é que o seu sonho é curto e a duração não ultrapassará a quantidade de tempo que as elites considerarem necessário para desconstruir um governo e um ex-presidente que lhes incomoda profundamente.

Elaborar o maior programa de transferência de renda do mundo, construir mais de um milhão de moradias populares, criar 15 milhões de empregos, quase triplicar o salário mínimo e incluir no mercado de consumo 40 milhões de pessoas, que segundo pesquisas recentes é composto de 80% de negros, é imperdoável para os herdeiros da Casa Grande. Contar com um ministro negro no Supremo Tribunal Federal para promover a condenação daquele governo é a solução ideal para as elites, que tentam transformá-lo em instrumento para alcançarem seus objetivos.

O sonho de Joaquim Barbosa e a obsessão em demonstrar que incorporou, na íntegra, as bases ideológicas conservadoras daquele tribunal e dos setores da sociedade que ainda detém o “poder por trás do poder” está levando-o a atropelar regras básicas do direito, em consonância com os demais ministros, comprometidos com a manutenção de uma sociedade excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária.

A aproximação com estes setores e o distanciamento dos segmentos a quem sua presença no Supremo orgulha e serve de exemplo, contribuirão para transformar seu sonho em pesadelo, quando àqueles que o promoveram à condição de herói protagonizarem sua queda, no momento que não for mais útil aos interesses dos defensores do “apartheid social e étnico” que ainda persiste no país.

Certamente não encontrará apoio e solidariedade nos meios de esquerda, que são a origem e razão de ser daquele que, na Presidência da República, homologou sua justa ascensão à instância máxima do Poder Judiciário. Dos trabalhadores das fábricas e dos campos, dos moradores das periferias e dos rincões do norte e nordeste, das mulheres e da juventude, diretamente beneficiados pelas políticas do governo que agora é atingido injustamente pela postura draconiana do ministro, não receberá o apoio e o axé que todos nós negros – sem exceção – necessitamos para sobreviver nessa sociedade marcadamente racista.

Ramatis Jacino é professor, mestre e doutorando em História Econômica pela USP e  presidente do INSPIR – Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial.

sábado, 13 de outubro de 2012

Genro da “Primeira Família” na Índia declarou-se “empresário ético”


13/10/2012, Siddharth Srivastava, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre a tal de kurrupção, o besteirol antikurrução metido a “ético”, kurrupção na Índia, empresários-genros e leis (pasmem!) da Alemanha nazista, ressuscitadas em Brasília-2012! É quase inacreditável!


Introdução elaborada pelo pessoal da Vila Vudu e corroborada pela redecastorphoto

Dois assuntos que não nos interessam nem mobilizam: a tal de kurrupção e os correspondentes discursos antikurrupção

A tal de kurrupção é doença do capitalismo, mais aguda no capitalismo senil, igualzinha em todo o mundo e sempre foi.

O capital manda no mundo e criou imprensa e universidade liberais, EXATAMENTE porque o capital corrompe tudo e todos e sempre, a começar pela imprensa e pela universidade liberais.

Falar de kurrupção sem dizer que o capitalismo é essencialmente corruptor e corrompe tudo e todos, é fazer pregação moralista, metida a “ética”, que, no máximo, trocará os nomes dos kurruptos eleitos pela televisão e pela imprensa do capital, e todos continuarão, kurruptos e kurruptores em tempo integral, como sempre são, foram e continuarão a ser, no mundo do capital, se não criticam o mundo do capital.

E é pregação moralista fascistizante, que muito rapidamente vira degola, que tem de violenta e arbitrária, o que tem de “legal”, sempre com alguma teoria de justificação que salva o arbítrio e o autoritarismo e os tornam, além de arbitrários, autoritários e “legais”, também lógicos e “por teoria”. Sic transit a “justiça” do capital.

Se a teoria que justica o arbítrio e o autoritarismo for europeia, nesse Brasil das ideias fora de lugar, OK. É só mais uma macaqueação ridícula. Mas se a tal teoria for nascida de dentro da Alemana nazista... santo Deus! Aí é preciso espernear MUITO.

Tome-se, por exemplo, a hoje tão falada no Brasil “Teoria do Domínio do Fato”.

A tal Teoria do Domínio do Fato é ideia que brotou da cabeça de um teórico do Direito, Hans Welzel, em 1939, na Alemanha. Mas pouca diferença faz quem seja o jurista. Nada muda.

Não sabemos nada de leis e direito. Mas sabemos um pouco sobre 1939 e a Alemanha.

Em Documento Histórico – Alemanha 1939 e 1940vêem-se várias fotos documentais, históricas, impressionantes, que mostram bem o mundo no qual, exatamente naquele ano, 1939, Hans Welzel publicou o livro em que expõe a “Teoria do Domínio do Fato”. O mundo em que, alguns anos depois, o mesmo Hans Welzel foi reitor de Universidade. Ali está o mundo no qual essa teoria prosperou e tornou-se ... teoria citável.  

Naquele mesmo ano, 1939, reinava na mesma Alemanha, governante inconteste, rei, imperador, legiferante, juiz e degolador, ninguém menos que Goebbels, o qual, se pode pressupor, várias vezes serviu-se da “Teoria do Domínio do Fato” para seus propósitos.

Porque, se há fato que todos dominam perfeitamente é que, em mundo no qual reine Goebbels, só se difundem e prosperam teorias do Direito que Goebbels aprecie e lhe sirvam adequadamente para aplicar o Direito... à moda Goebbels.

Pois, em 2012, em Brasília, ainda há juízes que sequer se envergonham de evocar essa teoria à moda Goebbels, do Direito à moda Goebbels, para punir kurruptos.

Não se exigem muitos argumentos: tudo depende de se dominarem fatos democratizatórios.

Ainda que os condenados por essa teoria do Direito à moda Goebbels fossem kurruptos TOTAIS; e ainda que fossem kurruptos TOTAIS como os kurruptos da Tucanaria da Privataria, ainda assim, seria preciso respeitar MUITO mais algum direito democrático e de democratização, do que punir kurruptos com base em teorias do Direito e leis que prosperaram sob o nazismo e que andaram em bocas e raciocínios de “juristas” à Goebbels.

Por isso tudo, não nos interessa nem nos mobiliza nenhuma discussão sobre kurruptos e kurrupção que não diga, no primeiro parágrafo, que o capital é o agente corruptor básico, sempre, em todos os casos, por mais que se dominem fatos e “os tipos” e os data vênia etc. etc. etc. e tal.

O título do artigo que aí vai, adiante, traduzido, é nosso -- metido aí pra chamar a atenção e mostrar com mais clareza que, irmão gêmeo da kurrupção capitalista, o mesmo besteirol metido a “ético”, moralista (e UDENISTA, no Brasil), nunca deixa de aparecer. (Aproveitamos para mostrar, também, que o jornalismo, na Índia é muuuuuuuuuuito melhor que o “jornalismo” no Brasil.)

A kurrupção não vive sem o besteirol metido a “ético”. E o besteirol metido a “ético” não sobrevive sem a kurrupção e AMBOS são o ar que o capital e o capitalismo respiram e sem o qual não vivem.

O Ministro José Dirceu e o Deputado José Genoíno, que em 1964 foram condenados por “juristas” e leis da ditadura militar, acabam de ser condenados, em 2012, por juristas e leis pressupostas democráticas, mas que são, ainda, juristas e leis autoritárias. 

Nada corrompe mais o Brasil, em 2012, do que aquele tribunal e aqueles juízes.

Vergonha. Vergonha. Vergonha.

Siddarth Srivastava
NEW DELHI. Número desconcertante de escândalos de corrupção vêm sacudindo o governo chefiado pelo Primeiro-Ministro Manmohan Singh, na Índia. As mais recentes revelações são minúsculas, se comparadas à escala das falcatruas já denunciadas, relacionadas à indústria do carvão, de telecomunicações ou ao lixo dos Jogos da Commonwealth, mas não poderiam atingir mais fundo a “elite” do establishment.

Arvind Kejriwal, ativista social, que lidera campanha pública contra a corrupção há alguns meses, divulgou farta documentação contra o empresário Robert Vadra, intimamente ligado à “Primeira Família” da política indiana, casado com Priyanka Gandhi, filha de Sonia Gandhi, a toda-poderosa líder do governo no Congresso.

Sob seu mais recente avatar, Kejriwal resolveu entrar na política ativa e criou partido independente para concorrer às eleições. O lançamento do partido foi marcado por acusações de corrupção contra Vadra. Vadra negou tudo.

Kejriwal denunciou que Vadra esteve envolvido em negócios imobiliários manchados de favoritismo e venda de influência política. Vadra respondeu com uma declaração em que diz:

Sou empresário ético e respeitador das leis do meu país, conhecido nos meios empresariais há 21 anos. Tudo que se disse contra mim são acusações falsas, sem provas e difamatórias.

Vadra também usou as redes sociais para responder. Numa delas, referiu-se aos partidários de Kejriwal que lutam contra a corrupção como “malucos de república de bananas” – comentário que pouco o ajudou aos olhos da hiperativa jovem “Geração Internet” indiana.

Robert Vadra (E) e Arvind Kejriwal (D)
Nada foi provado até agora contra Vadra e, até agora, Kejriwal tem-se recusado a formalizar qualquer acusação contra o empresário; diz que as investigações serão viciadas, que o processo será manipulado como a justiça sempre é, por suas ligações com agências governamentais. Quer que se constitua comissão independente de investigação. Mas o Ministério Público já abriu inquérito na Alta Corte de Allahabad, e New Delhi foi notificada.

Kejriwal também acusou a empresa imobiliária DLF de ter vendido a Vadra várias propriedades, a preços muito abaixo do valor real, em troca de financiamentos agrários em áreas controladas pelo grupo de Sonya Gandhi, em Haryana e Delhi. A imobiliária DLF desmentiu tudo, como “amontoado de mentiras”.

Os ganhos rápidos e massivos, em função da rápida urbanização da Índia, vêm criando milionários instantâneos, que enriquecem com a especulação, em todo o país. O preço comparativo de terras e terrenos em áreas como Delhi, Gurgaon e Mumbai é hoje o mais alto do mundo. Também no comércio que envolve recursos naturais da Índia, enxameiam acusações contra governos, políticos, empresários e burocratas que envolvem apresentação e aprovação de projetos de lei que beneficiam algumas empresas.

Depois das acusações, o partido de Sonia Gandhi saiu a campo, apoiando fortemente Vadra e acusando Kejriwal de lançar lama sobre empresários honrados para se promover politicamente. O Ministro das Finanças, P. Chidambaram falou em defesa de Vadra.

No passado, Sonia Gandhi sempre buscou manter-se pessoalmente e seu partido afastados das acusações de corrupção, inclusive quando seu ex-ministro de Relações Exteriores, Natwar Singh e o Ministro das Telecomunicações, A. Raja, ou Suresh, apareceram envolvidos nos escândalos, em 2010, dos Jogos da Commonwealth.

Poucos na Índia teriam acesso ao nível de apoio com que Vadra conta. Mas poucos, também, operam naquele nível de poder, influência e privilégios. Vadra não dá um passo sem pesada escolta de guardas armados, em carros e helicópteros, sinal evidente de que o governo entende que, por seu contato íntimo com a “Primeira Família” indiana, tem direito ao nível máximo de segurança pessoal. É um dos poucos que, como o presidente e o primeiro-ministro da Índia, não é revistado em aeroportos indianos.

Politicamente, Vadra tem-se limitado a acompanhar o cunhado, Rahul Gandhi, visto por muitos como candidato “natural” do Partido ao posto de primeiro-ministro, e a esposa, Priyanka, nas suas campanhas eleitorais, mas há sinais claros de que gosta das luzes da ribalta. Em entrevista ao vivo à televisão, em março, na campanha para as eleições parlamentares distritais em Uttar Pradesh, Vadra disse que considera a possibilidade de candidatar-se algum dia, assunto que sua mulher tratou de descartar rapidamente.

A família Gandhi já enfrentou períodos difíceis no passado, como quando a família foi acusada de participação no escândalo de negócios de armas no Bósforo, nos anos 1980s, com vários políticos indianos, inclusive o então Primeiro-Ministro Rajiv Gandhi, acusados de receberem propinas. Com Vadra na mira de Kejriwal, o acusado precisará de defesa profissional, clínica. O povo indiano observa atento.