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domingo, 20 de maio de 2012

A ascensão acadêmica do pensamento crítico


22/2/2011, Matteo Pasquinelli, Uninomad
Publicado em Il manifesto em 13/4/2011 com o título: “L’ascesa in cattedra di un pensiero critico”.
Traduzido por Moisés Sbardelotto, Unisinos
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Matteo Pasquinelli
Por uma bizarra nêmese não totalmente casual, no momento de máxima crise do império universitário anglo-americano, de Londres à Califórnia, é a filosofia política em idioma italiano que aparece, como tendência teórica dominante, nos seus departamentos.

De Toni Negri a Paolo Virno, de Christin Marazzi a Sandro Mezzadra, de Maurizio Lazzarato a Franco Berardi, basta olhar os nomes que aparecem nos primeiros lugares das publicações acadêmicas australianas (filtrados pelos impassíveis algoritmos do Google Scholar) ou nos catálogos das bienais alemãs (por obra dos mais mundanos críticos de arte), para entender como a repressão da anomalia italiana produziu, em contrapartida, uma fértil diáspora teórica.

Sob o rótulo de Italian Theory, organizam-se hoje conferências, seminários e publicações sobre esses pensadores que, nas últimas décadas, reabilitaram o operaísmo italiano para além do oceano ou marcaram o retorno das categorias do biopolítico (com Giorgio Agamben e Roberto Esposito) nesses ambientes universitários anglófonos narcotizados pela revolução laica dos cultural studies, pela filosofia pós-moderna e pela tradição analítica.

Só em 2010, veja-se a conferência da universidade de Pittsburgh para os dez anos da publicação de Império de Hardt e Negri, ou o simpósio na Cornell University de New York sobre o conceito de “comum”. Em Amsterdã, no próximo dia 19 de maio, ocorrerá a conferência Pós-Autonomia, sobre a disseminação do pensamento operaísta entre as novas gerações de estudiosos (financiada por uma generosa bolsa pública).

Mas se trata obviamente de uma nêmese de duas faces: a crítica ao capitalismo do conhecimento, a noção de multidão e a figura do trabalhador precário são recuperados pelos sistemas acadêmicos, mas apenas para mudar de lado a teoria, sem por em discussão hierarquias e disciplinas, quando se sabe que os seus autores-pensadores sempre viveram à margem e não podem mais por o pé na universidade italiana.

Genealogia do materialismo antagonista

O nome Italian Theory indica por si só uma recepção anglófona e é a tradução literal do rótulo anterior de French Theory, com o qual o pós-estruturalismo francês foi absorvido e neutralizado (de autores da ontologia, como Foucault, Deleuze e Guattari, a aerolitos da espécie de Baudrillard).

A primeira brecha dentro da academia norte-americana, porém, remonta à publicação de Radical Thought in Italy, por Michael Hardt e Paolo Virno, em 1996, preparada com antecipação pela antologia Autonomia: Post Political Politics, organizada por Lotringer e Marazzi, em colaboração com o comitê “7 de abril” no distante 1980, quando New York ainda misturava grafites de Basquiat e teoria underground.

Mas, para além dos equilibrismos acadêmicos, a passagem da French Theory para a Italian Theory tem suas motivações históricas.

No panfleto La differenza italiana (2005), Negri lembra como o pensamento pós-moderno fez saltar as categorias hegelianas, burguesas e patriarcais, do moderno, mas deixando um horizonte de diferenças ambivalentes e indecidíveis. Nos anos anteriores, já cabia ao operarismo de Tronti e ao feminismo de Luisa Muraro, escreve Negri, levar a polarização das lutas sociais para a “ontologia italiana” do século XX. Assumindo a intuição separatista e irredutível dos mestres, Negri reivindica para o operaísmo o projeto de uma ontologia constituinte, retomando o fio do discurso, no ponto onde o pensamento francês deixara desejo e micropolítica.

O texto de Negri fornece o título também à antologia The Italian Difference: Between Nihilism and Biopolitics (2009), um panorama que coloca, ao lado da tradição constituinte, as tradições do niilismo de Massimo Cacciari e da biopolítica de Giorgio Agamben. Seguindo esse traço, mais recentemente, Roberto Esposito, no seu Pensiero vivente. Origine e attualità della filosofia italiana (publicado pela editora Einaudi e percebido como o breviário da Italian Theory antes ainda de ser traduzido ao inglês), escreveu a partitura da tradição italiana, no seu ser antagonista ao poder, coerência sempre paga a preço muito alto, de [Giordano] Bruno a Gramsci.

Esse sínodo de tumulto e de práxis instituinte, essa imanência do antagonismo, é traçada por Roberto Esposito em uma história ideal que, de Tronti, remonta até Maquiavel. Materialismo antagonista que é estetizado na Batalha de Anghiaride Leonardo, figura da Luta que funde o homem e o animal, como no centauro maquiavélico.

Esposito contextualiza a emergência da “diferença italiana” com a crise daquelas escolas europeias que se fundaram sobre o primado da linguagem: a filosofia analítica inglesa, a hermenêutica alemã e o desconstrucionismo francês. Fora dos recintos acadêmicos, essa crise foi talvez mais claramente imposta pela pressão das novas formas do trabalho. Do “Fragmento sobre as máquinas” nos Grundrisse de Karl Marx, ao conceito de capitalismo do conhecimento, de fato, o pensamento operaísta jamais considerou a linguagem como “casa do ser”, mas, ao contrário, como meio de produção no centro do trabalho contemporâneo.

O principal motivo pelo qual, do outro lado do oceano, se adota a Italian Theory é justamente por ela ser uma das poucas leituras antagônicas e não logocêntricas dos grandes aparatos da “economia do conhecimento”, do trabalho imaterial e da network society (como ainda em 1999 o canadense Nick Dyer-Witheford notava no seu livro Cyber-Marx).

À “virada linguística” da economia política (marxista e neoliberal), jamais correspondeu uma “virada econômico-política” da filosofia da linguagem. Nisso se pode talvez compreender a operação filosófica de Virno nos últimos anos: ao invés de forçar os bastiões da filosofia analítica a partir de fora, ele procurou as chaves para abri-los à política, de dentro para fora.

De modo semelhante, justamente no interior da escola analítica e procurando separar-se da herança de Alain Badiou, o grupo de jovens filósofos da corrente Speculative Realism (que se reúne em torno à revista inglesa Collapse) se esforça hoje para alcançar as margens do materialismo continental por via negativa, mas empregando centenas de páginas de Kant para fazê-las equivaler ao conceito de conatus, para o quê Spinoza só precisou de uma proposição da Ética.

Ideologia do realismo capitalista

O mundo acadêmico norte-europeu encontra-se ainda dominado por uma outra escola logocêntrica que Esposito esqueceu: a psicanálise lacaniana de rito esloveno, que vê o mesmo capitalismo, simplesmente, como um efeito de realidade ideologicamente mediado. O pêndulo hipnótico de Slavoj Zizek não deixa saída e repete sempre o mesmo mantra: a ideologia não é algo de consciente e abstrato: por exemplo, todas as vezes que vemos a economia como fato empírico e natural, ali mesmo a ideologia intervém.

Essa leitura é aplicada com a mesma generosidade tanto pelo economista burguês quanto pelo marxista, esse também responsável pelo excessivo economicismo (como Badiou gosta de destacar). Para essa escola de pensamento, o problema se chama aqui, portanto, “Realismo Capitalista” (para citar o título de um recente livro de Mark Fisher), e o compromisso político resolver-se-ia no exercício psicanalítico de levantar o véu de ilusão [orig. véu de Maya] da ideologia cotidiana.

Contra o pecado da “paixão pelo real” do pensamento italiano, Zizek descreve o ativismo exatamente como o desejo lacaniano: não ligado ao hic et nunc, mas como sinal que remete sempre a outro lugar. O comportamento econômico é descrito portanto como uma linguagem, o imaginário político torna-se uma gramática manipulável, e a militância é sempre pré-determinada por uma “ordem simbólica” em uma grade de papéis.

Como para Badiou, Zizek é apresentado como marxista com o consenso de todo o mundo: mas o seu é um “marxismo sem Marx”, quando a crítica de uma economia política é relegada ao papel de simulacro da ideologia. Em tudo isso, não nos admira que Zizek confunda filosofia e crítica cinematográfica. O seu não é tanto um “Comunismo Metafísico” que não se sujaria as mãos com as lutas reais, como frequentemente se faz notar. Talvez se trate, mais simplesmente, de um “Comunismo Avatar”. E não é casual que a segunda edição da conferência Idea of Communism, organizada por Zizek e Badiou em Berlim em 2010, fosse dedicada principalmente às produções teatrais sobre o tema.

O pensamento italiano foi “para a universidade” ou, pelo menos, “fez escola” nas lutas dos anos 1960 e 1970. E qual foi o ginásio histórico do peculiar paradigma teórico de Zizek? A insistente leitura de Zizek sobre o neoliberalismo como aparato ideológico não se forma, paradoxalmente, sobre o Consenso de Washington, mas, isso sim, sobre os tempos do realismo socialista.

Assim como a Escola de Frankfurt adotou o aparato de propaganda nazista como ‘fator de conversão’ para descrever a indústria cultural norte-americana, assim também Zizek emprega, contra o pensamento único neoliberal, os instrumentos conceituais desenvolvidos sob a ideologia da cortina de ferro e os seus aparatos. No fundo, aquela era a forma do conflito percebida, vivida e sofrida no cotidiano da ex-Iugoslávia, ideológica, sim, mas não adaptável, hoje, para descrever o capitalismo, biopolítico ou não.

Crise global da economia

Essa interpretação do político como problema ideológico produz contínuas recaídas. Alinhando-se à vulgata lacaniana, o recente encontro de Amsterdã The Populist Front, dedicado à análise crítica dos populismos contemporâneos, do Tea Party ao holandês Geert Wilders, passando obviamente pela Itália, parece perigosamente sugerir aos movimentos e aos partidos de esquerda que se arrisquem na invenção do inimigo para sair de sua própria crise.

Reivindicam-se aqui tecnologias mitopoiéticas semelhantes às que os líderes populistas europeus usam na construção das fobias de massa. Mas parece que há pouco de necessidade histórica, se se criam “inimigos imaginários”, justamente no momento em que o norte e o sul são atravessados por novos movimentos sociais.

Ao desvio “populista” da intelligentzia holandesa e até aqui ainda não resolvido do imaginário político no debate filosófico, a Scuola Europea di Immaginazione Sociale que Berardi Bifo está organizando para o próximo dia 21 de maio, em San Marino, parece responder à distância.

O espaço aqui não é suficiente para lembrar os encontros, mais prolíficos, da Italian Theory com outras áreas geofilosóficas: dos estudos pós-coloniais à teoria queer, da cultura da rede ao diálogo com as disciplinas do Direito. A inovação teórica continua autonomamente na rede das “universidades nômades” entre a França e a Itália, a Espanha e o Brasil. Vejam-se os seminários sobre o comum de Turim e Paris. Citando um belo artigo de Brett Nielson, de 2005, é tempo de “provincializar o operaísmo”.

A pós-autonomia, como vem sendo chamada, não é um animal histórico pronto para a taxidermia; é movimento de pensamento vivo, que desloca as barricadas para dentro das universidades: encarna-se, por exemplo, nas mobilizações de inverno nas universidades europeias. 

Às novas gerações de acadêmicos, que, lépidos, dispõem-se hoje a canonizar o pensamento italiano, dever-se-ia impor o carvão ardente da máxima de Tronti: o conhecimento está ligado à luta, só quem odeia conhece verdadeiramente [TRONTI, Mario. The Strategy of Refusal, 1965. E Obreros y Capital. Madrid: Akal, 2001 (Nota do revisor)].

É principalmente aqui, na própria definição de conhecimento, que a Italian Theory mostra o seu núcleo inovador e irredutível: fazer teoria significa ainda hoje enfrentar o problema da *conricerca [ou “com-pesquisa”, metodologia de pesquisa na qual trabalham, em comum, intelectuais e operários], a questão da filosofia do não filosófico (ou seja, do político); significa superar as disciplinas humboldtianas e dos Studies anglo-americanos, suprimir a hierarquia entre objeto e sujeito da investigação; significa criticar o “conhecimento processual” e da peer-review; significa mostrar o papel da dívida, na vida estudantil; e por em questão, por fim, aquela Ikea (?) da formação que é o Bologna Process.

*Conricerca” significa hoje repensar, até dentro da universidade, o nó entre práxis e teoria em tempos de crise financeira. Não por acaso, a escola de pensamento que estudou de perto o capitalismo do conhecimento surge no momento de crise da edu-factory global. (Matteo Pasquinelli, Berlim).

sexta-feira, 11 de março de 2011

O nascimento da modernidade islâmica

Pepe Escobar

12/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Ver também:
9/12/2010, Syed Saleem Shahzad, redecastorphoto [orig. Asia Times Online]
9/3/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online

Há dez anos, na estrada no “AfPak”, antes e depois do 11/9, o livro que eu carregava na mochila era uma edição francesa de Jihad,, de Gilles Kepel (Jihad: Expansão e Declínio do Islamismo, Rio de Janeiro, Ed. Biblioteca do Exército, 2003). Noite após noite, em inúmeras casas de tijolos e sob número infindável de xícaras de chá verde, página a página fui-me deixando convencer pela tese central do livro: o Islã político estava, não crescendo, mas em completa decadência. 

Por um lado, havia os figurinos tipo al-Qaeda, autodesignadas vanguardas determinadas a despertar as massas muçulmanas do estupor em que vivem, para desencadear uma revolução islâmica global. Foram, de fato, versões muçulmanas das Brigate Rosse italianas e a Rote Armee Fraktion na Alemanha. 

Por outro lado, havia islâmicos como os do Partido Justiça e Desenvolvimento, da Turquia, disposto e interessado em mergulhar numa democracia parlamentar de tipo ocidental, apostando na soberania do povo, não na de Alá. 

No auge da “guerra ao terror” – com aqueles B-52s bombardeando Tora Bora sem saber que Osama bin Laden já escapara para o Paquistão –, a tendência no ocidente foi decretar que, se não todos, com certeza a maioria dos muçulmanos seriam jihadistas perfeitamente doidos. 

Concordo com Kepel, para quem aquele “choque de civilizações” não passou de conceito oco, mal pesquisado e mal construído, instrumentalizado pelos neoconservadores para legitimar sua “cruzada”. Mas ainda faltava que a história fornecesse fatos e a demonstração. 

Passados dez anos, pode-se afinal dizer que a análise de Kepel acertou a mosca do alvo. O Islamismo hard-core, à moda da al-Qaeda, é completo desastre. Em todas as variantes – no Iraque, no Maghreb, na Península Arábica – a al-Qaeda nada é além de seita desesperada, condenada ao lixo da história, exatamente equivalente a esses ditadores que o ocidente apoia, como os já depostos Zine el-Abidine Ben Ali, Tunísia, e Hosni Mubarak, Egito, sempre reverenciados no ocidente como se fossem pilares na luta contra o Islã radical. 

Kepel dirige hoje o programa de estudos de Mediterrâneo e Oriente Médio da legendária Escola de Ciências Políticas em Paris. Em artigo para o diário italiano La Repubblica (“As profecias equivocadas sobre o islamismo”, 5/3/2011, La Repubblica, tradução Moisés Sbardelotto), Kepel dá por decidida a vitória do islã como democracia, sobre o islã como vanguarda “revolucionária”. Diz o artigo:

“Hoje, os povos árabes emergiram desse dilema – espremidos entre Ben Ali ou Bin Laden. Fizeram novamente um ingresso em uma história universal que viu cair as ditaduras na América Latina, os regimes comunistas na Europa oriental e também os regimes militares nos países muçulmanos não árabes, como a Indonésia e a Turquia” (Loc.cit.).

O local encontra o universal

E esse é o ponto crucial: os povos árabes começam agora a construir sua própria, hesitante modernidade. Kepel indaga por que a primeira revolução teria acontecido na Tunísia e, na pesquisa, descobre que o principal slogan dos manifestantes tunisianos em 2011, dito em francês, “Ben Ali, degage” (“Ben Ali, saia daí!”), foi apaixonadamente adotado e abraçado – ipsis litteris pelos egípcios, em país onde pouquíssimas pessoas falam francês. O slogan chegou às ruas do Egito, porque as ruas ouviram a frase pela televisão, na rede al-Jazeera. Com isso, Kepel pode concluir que as revoluções em curso têm raízes igualmente bem assentadas tanto na cultura local quanto em aspirações universais. 

E, sim, apesar de os sintomas serem semelhantes – desemprego, miséria, corrupção, total carência de liberdade – as revoluções árabes são diferentes umas das outras, e estão sendo enfrentadas pelas potências, quaisquer, com estratégias diferentes. Algumas põem lenha na fogueira das diferenças confessionais ou tribais; outras, nas burras de dinheiro ou na imunização contra a interferência ocidental. 

O problema é que a diversidade de métodos que os tiranos empregam para esmagar essas revoluções está sendo mal interpretada pelos hagiógrafos do império – de modo a melhor legitimar a aura que reivindicam para eles mesmo como seletos agentes repressivos, mas “do bem”. Por isso tem-se um Robert D Kaplan ligado ao Pentágono tentando induzir a opinião pública a crer que haveria déspotas iluminados (como a dinastia al-Khalifa no Bahrain, ou os dois reis Abdullahs, um na Arábia Saudita outro na Jordânia) e déspotas “do mal”, ditadores amaldiçoados (Muammar Gaddafi). 

Como se a maioria xiita no Bahrain precisasse dos sunitas al-Khalifas para promover a formação de uma classe média, sem a qual nenhuma democracia é possível. E os al-Khalifas jamais deram qualquer mínima bola para a promoção de qualquer classe média, porque só uma pequena oligarquia sunita ganha naquele sistema autocrático “amigo dos negócios”. 

Se o raciocínio que permite defender tiranos ‘seletos’ é que em alguns países não há base institucional para uma transição para a democracia... então a Líbia tribal liderada pelo “demônio” Gaddafi, “o louco”, acaba embrulhada no mesmo pacote com os países do Golfo liderados por reis e emires “aceitáveis”. 

Take it to the bridge[1]

Assim como a modernidade ocidental está em crise, a crise da razão islâmica não implica que o mundo esteja vivendo alguma espécie de guerra religiosa. A ideia de que haveria abismo intransponível entre o islã e o ocidente é conversa dos pirados que falam pelo canal Fox News. O mundo assiste hoje a uma recristianização da Europa, tanto quanto a uma re-evangelização dos EUA. O que prova que modernidade e religião são compatíveis, no mínimo, que são tão compatíveis no ocidente quanto no Oriente Médio. 

Estão vindo de diferentes latitudes culturais – o ocidente vem do declínio da modernidade; o Oriente Médio vem do declínio do fundamentalismo religioso – e convergem para um mesmo lugar: uma ponte de diálogo entre oriente e ocidente. 

Assim, pois, o que Kepel tenta demonstrar é que a Europa e o mundo árabe não têm alternativa senão começar a tentar construir uma civilização híbrida – não só em termos de movimento de capital, bens e serviços, mas em termos de investimentos sólidos em educação e cultura – do Mar do Norte ao Golfo Persa, com o Mediterrâneo como centro de convergência-dispersão. Isso implica que a Fortaleza Europa terá de re-examinar seu lugar no mundo, e construir diálogo mediterrâneo que não seja comandando pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. 

A estrada é longa e traiçoeira – povoada de Gaddafis e al-Khalifas e Abdullahs que têm de ser caçados como ladrões de estrada. O mundo árabe viveu sob traumas por tempo demais – quase um século, desde que Grã-Bretanha e França, as potências coloniais, traíram a nação árabe e destruíram suas terras. 

De fato, só agora começa o verdadeiro teste crucial, decisivo, para o ocidente, na “missão civilizacional” que se autoatribuiu: acolher com bem vindo, ajudar, com empenho profundo e sincero, o mundo árabe, na sua luta para alcançar a modernidade. 



Notas de tradução

*Este artigo está traduzido e pode ser lido em: Líbia: teste para a AL-Qaede reformada
[1] É verso que aparece em várias canções, já incorporado a gírias urbanas, de difícil tradução. Por exemplo, que lembro já, é verso de James Brown, em Sex Machine. Traduzido literalmente significa “leve [alguma coisa] até a ponte”. Como metáfora, significa sempre alguma coisa como “leve [alguém] até a metade do caminho (o inimigo andará também até a metade e, no meio do caminho, eles poderão conversar e entender-se)”. Pode ser interpretada também como mais uma versão do brasileiríssimo “Jogo se joga no meio do campo”. Tudo são interpretações. Podem-se ler os versos de James Brown na internet, mais sexy-eróticos que outras interpretações (mas não se ouve nada, porque a gravação foi retirada da Internet pela gravadora)