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quinta-feira, 27 de março de 2014

A Turquia está fora de controle

6/3/2014, [*] Christopher de Bellaigue, New York Review of Books, vol. 61, n. 6 (ed. de 3/4/2014)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de:
1.      The Rise of Turkey: The Twenty-First Century’s First Muslim Power, Soner Cagaptay, Potomac, 168 pp., $25.95
2.     Gülen: The Ambiguous Politics of Market Islam in Turkey and the World, Joshua D. Hendrick, New York University Press, 276 pp., $49.00
3.      I˙mamin Ordusu [The Imam’s Army], Ahmet Şık, 298 pp..

Entreouvido na tendinha  do Rolha de Poço na Vila Vudu: Esse não é artigo sensacional. Mas, ajuda a começar a entender a CONFUSÃO na Turquia, que o “jornalismo” brasileiro só faz AUMENTAR, cada vez que finge que “noticia”, mas não noticia é porraniúma, nunca. O problema é que os “correspondentes” das televisões, jornais e revistas do grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) ignoram a Turquia – porque só fazem copiar o NYTimes, e o NYT ignora a Turquia – na sequência, os “correspondentes” e “especialistas” subentrevistados pelos uiliamsvacas nas TVs ensinam a mesma ignorância-TOTAL aos infelizes consumidores PAGANTES de canais fechados.
Então, o artigo abaixo é infinitamente mais interessante que o BESTEIROL dos manholes & Co, aqueles panacas udenistas uspeanos.
(E, aqui, tudo “de grátis”! Pense bem e DESLIGUE OS JORNAIS das TVs!)

Manifestantes protestam com cartazes do primeiro-ministro da Turquia Tayyip Erdoğan e
do clérigo turco que vive nos EUA, Fethullah Gülen, em comício contra a corrupção em
Istambul, dia 25/12/2013. O texto nos cartazes diz: “Vamos derrubar os dois!”

Dois pilotos que pilotam juntos um avião começam a esmurrar-se na cabine. Um deles ejeta membros da tripulação, que ele suspeita que apoiem seu rival; o outro berra que seu copiloto nem é piloto, é ladrão. Nesse momento o avião começa a girar descontrolado e perde altura rapidamente, enquanto os passageiros olham em pânico.

Essas linhas apareceram publicadas em recente coluna de jornal, assinada por Can Dündar, jornalista turco, e não consigo pensar em melhor fórmula para apresentar a confrontação pervertida, evitável, quase de história em quadrinhos, que tomou conta da Turquia desde dezembro passado, e que ameaça desfazer todos os ganhos políticos e econômicos de uma década.

As partes em confronto são o Primeiro-Ministro, Recep Tayyip Erdoğan, 60 anos, e um clérigo turco, Fethullah Gülen, 73 anos. Erdoğan lidera o partido que está no governo, “Partido Justiça e Desenvolvimento” (tur. AKP), e trabalha na agitação de Ankara, capital do país. Gülen é o pregador e didata moral mais conhecido da Turquia. Vive em reclusão na Pennsylvania, ao que se sabe em estado precário de saúde (sofre do coração). Gülen preside de modo pouco formal, mas sem dúvida preside, um império de escolas, negócios e uma rede de simpatizantes.

Esse império é que Erdoğan agora chama de “um estado paralelo” ao que ele foi eleito para governar; e está decidido a eliminá-lo. A disputa começou para valer em dezembro passado e tem tido efeito extraordinariamente destrutivo. Muito dos seguidores de Gülen trabalham dentro do governo e têm muito poder. Agora, vastas partes do funcionalismo público foram evisceradas, grande parte da mídia foi reduzida a porta-vozes de uma espécie de “revelação” politicamente motivada e do “denuncismo” o mais tresloucado, e a economia está parando, depois de uma década de forte crescimento. O milagre turco é passado.

O governo do AKP de Erdoğan e o movimento de Gülen partilham uma ideologia de islamismo modernizante, e embora as relações entre os dois já viessem se deteriorando há algum tempo, antes da atual crise ainda era possível ser associado aos dois grupos. A coexistência acabou repentinamente dia 17/12, quando mais de 50 figuras pró-AKP, entre as quais o presidente do banco estatal Halkbank; um magnata da construção; e os filhos de três ministros do Gabinete foram detidos para interrogatório por procuradores de justiça considerados homens de Gülen.

Fethullah Gülen
As prisões foram executadas, ao que se sabe, por policiais gülenistas, e receberam muita atenção dos jornais e redes de televisão, esses, também, com tendência semelhante pro-Gülen. Denúncias de que os bem relacionados prisioneiros seriam culpados de suborno, contrabando e outros malfeitos foram tuitadas e retuitadas num frenesi condenatório-executório; o ataque pelos gülenistas, de dentro do governo e também de fora dele, foi bem planejado. Descobriram-se provas, entre as quais cerca de US$ 4,5 milhões escondidos em caixas de sapatos na casa do principal executivo do banco Halkbank, além de indicações de pagamentos feitos a ministros. Rapidamente se divulgou que uma segunda fase da mesma investigação atingiria também o filho do Primeiro-Ministro.

A velocidade e o vigor da reação de Erdoğan a esses eventos indicam que ele os considerou como precursores de sua própria destruição. Imediatamente, começou a varrer de sua própria entourage traidores potenciais ou nomes que lhe parecessem comprometidos; em poucos dias substituiu metade do próprio Gabinete, inclusive os ministros cujos filhos haviam sido presos para interrogatório. O expurgo alcançou pontos longínquos do funcionalismo civil. Como parte da campanha de Erdoğan contra a influência de Gülen, milhares de policiais foram tirados dos respectivos postos, além de altos procuradores de justiça, envolvidos no caso de corrupção e burocratas associados aos ministros demitidos.

No início de fevereiro, o governo começou a investigar oficiais de polícia gülenistas, acusados de formarem “uma organização ilegal dentro do estado”. Erdoğan suspendeu as investigações judiciais e partiu para a ação direta. A dois meses de eleições municipais e a seis meses de uma eleição presidencial à qual espera concorrer, Erdogan ainda sobrevive. Mas a tradição política que ele representa, uma síntese de islamismo e livre-mercado, essa, foi gravemente ferida; o primeiro-ministro está também muito gravemente abalado; e há mais abalos por vir.

Antes de o confronto Erdoğan-Gülen começar a ser visto, no início de 2013, e com certeza antes dos protestos nacionais do verão passado, quando liberais turcos tomaram as ruas contra seu autoritário primeiro-ministro, a corrente turca do islamismo modernizante gozava de muitas simpatias. E estava personificada em Erdoğan – que chegou ao poder em 2003, depois de décadas de lutas, pelos islamistas, contra as táticas opressivas de instituições seculares há muito tempo entrincheiradas, sobretudo no Exército e no Judiciário.

Nos seus primeiros anos no cargo de Primeiro-Ministro, Erdoğan pareceu estar conseguindo encaminhar soluções para muitos dos problemas do país. Explorando a forte maioria que tinha o partido AKP no Parlamento, ele conseguiu estabilizar e liberalizar a economia errática, semiplanejada, tornando os turcos mais ricos do que jamais antes; e introduziu várias reformas liberais (o fim da tortura e maiores direitos para os curdos). Talvez mais importante que tudo, pôs as Forças Armadas sob controle das autoridades civis eleitas, as mesma Forças Armadas que, desde 1960, haviam conseguido derrubar nada menos que quatro governos eleitos.

Em todo esse processo, o partido AKP esteve numa coalizão não oficial com islamistas menos visíveis; e seu mais poderoso parceiro de coalizão era o movimento de Fethullah Gülen. Suas escolas formavam turcos bem comportados, patriotas e piedosos, e o governo os acolhia bem nas elites burocráticas e de negócios que, aos poucos iam deslocando a velha guarda secular. Erdoğan e Gülen pareciam encarnar a ânsia de muitos turcos por um Islã em harmonia com uma democracia eleitoral, com empreendedorismo e consumismo. E o elemento islamista na fórmula deveria assegurar altos padrões de ética e bom comportamento. Durante anos, a vida pública fora venal, movida a ganância, ambições e apetites; os islamistas prometiam fazer as coisas de outro modo.

Abdurrahman Dilipak
Mas há ganância e apetites também entre os islamistas. Pouco depois das primeiras prisões de aliados de Gülen na polícia, em dezembro, um vídeo distribuído por internet mostrava um alto dirigente do partido AKP em flagrante delito. (Abdurrahman Dilipak, colunista conhecido e pró-governo, alegou que haveria mais de 40 outros vídeos em circulação, todos “forjados”). Conversas gravadas envolvendo Gülen também foram vazadas e ouvidas por milhões de turcos. Numa delas, Gülen é ouvido numa conversa em que se decidia que empresa turca receberia um contrato oferecido por governo estrangeiro. Em outra fita, Gülen e um de seus assessores discutem a probabilidade de três “amigos” (i.e., seus seguidores) em posições chaves na entidade do estado turco que controla os bancos, garantirem proteção a um banco ligado ao grupo de Gülen, o Bank Asya, contra investigações a serem conduzidas pelo governo. (Pouco depois do vazamento, os três funcionários em questão foram demitidos.) Tudo isso mostrava imagem muito diferente de um santo, que vivia vida frugal, de estudos e caminhadas pelas colinas da Pennsylvania, que Gülen cultivara.

O conflito assume agora tons absolutamente desbragados, e já é visível nos postos mais altos. Erdoğan recusa-se a pronunciar o nome de Gülen em público, mas quando fala de “falsos profetas, videntes e pseudos sábios vazios”, seu alvo é claro. Num dos frequentes sermões que Gülen pronuncia de sua própria casa, e alcança vastas audiências na Turquia graças a redes de televisão que o apoiam e à Internet, o pregador exilado lançou uma maldição contra seus inimigos: “que Deus consuma em fogo as casas deles, destrua os ninhos deles, quebre os acordos entre eles”. Denúncias de vasta corrupção dentro do governo, muitas das quais envolvendo contratos viciados para projetos de construção e violação de áreas reservadas de zoneamento, são insistentemente repetidas pelos veículos de imprensa-empresa gülenistas, tão insistentemente repetidas que acabam por já serem vistas como verdade comprovada.

Dia 24/2, gravações de conversas telefônicas entre o primeiro-ministro e seu filho Bilal, nas quais pai e filho estariam combinando o modo de esconder dezenas de milhões de euros, foram distribuídas por YouTube. O primeiro-ministro declarou que as gravações eram forjadas, mas elas foram ouvidas dois milhões de vezes em 24 horas imediatamente depois de postadas. Ainda que os expurgos que Erdoğan promoveu no Judiciário e na Política impliquem que não haverá processos nem, portanto, condenações (e a imunidade parlamentar na Turquia proteja alguns dos aliados de Erdoğan), ainda assim é difícil supor que o governo volte a recuperar a reputação de probidade de que gozava antes.

O terreno da disputa é tanto comercial quanto político. O governo acusou o Bank Asya de afiliados de Gülen de ter comprado 2 bilhões (de liras turcas) em moeda estrangeira pouco antes das operações policiais de dezembro passado – o que implica dizer que os funcionários do banco teriam sido avisados com antecedência sobre o que viria e da consequente queda do valor da lira turca. O banco luta agora para deter uma corrida de saques, que fez o preço das ações cair cerca de 46% entre 16/12 e 5/2. Até especialistas não gülenistas entendem que o governo orquestrou a corrida ao banco, tentando arruinar o Bank Asya, sem se preocupar com danos colaterais, tanto contra os pequenos correntistas como contra todo o sistema bancário que a corrida fatalmente causaria. O capitalismo turco é só muito tenuemente controlado pelo sistema jurídico-judiciário.

Recep Tayyip Erdoğan
A imagem de Erdoğan também está abalada. No verão passado, as manifestações mostraram ao público turco um primeiro-ministro enfurecido, tomado de ira e de medo, como quando reagiu contra a insatisfação de uma minoria predominantemente secular, não com gestos magnânimos, que teriam satisfeito muitos dos manifestantes, mas com cassetetes, porretes bombas de gás e denúncias de um complô sinistro orquestrado ‘do exterior’, mantido por um sinistro “lobby das taxas de juros”, para negar aos turcos o seu bem merecido lugar ao sol.

Quando diz “lobby das taxas de juros”, Erdoğan fala de especuladores ocidentais inescrupulosos – judeus, por implicação –, e os discursos dele despertam antigas lembranças; dentre outras, de uma Turquia terrivelmente endividada nos bancos europeus, nos tempos otomanos, o que enfraqueceu mortalmente o império antes do colapso, na Iª Guerra Mundial. Mas Erdogan invoca também os sombrios anos 1990s, quando uma economia inflacionada, corroída de dívidas e improdutiva foi usada como playground por investidores sanguinários, realizavam seus lucros quando o mercado inchava e só reapareciam depois do crash inevitável, beneficiando-se de juros reais de, em média, 32%.

Soner Cagaptay
Esses traumas marcaram a abordagem que Erdoğan deu aos aspectos monetários da crise. Mesmo antes de 17/12, uma combinação de compras de bônus do Federal Reserve; a ameaça de subida nas taxas globais de juros; sinais de que a economia turca começava a esfriar, e tumultos políticos causados pelos protestos do verão passado derrubaram a lira, que caiu cerca de 9%. A queda acentuou-se depois das prisões em dezembro, mas o primeiro-ministro só autorizou ligeira alteração na taxa de juros depois que a moeda já caíra mais 13%, e as empresas turcas, fortemente expostas no curto prazo, com dívidas em dólares, lutavam para cumprir suas obrigações financeiras. Finalmente, dia 28/1, o Banco Central aumentou as taxas, e a queda da lira foi afinal contida.

A resistência ideológica de Erdoğan, contra o aumento dos juros, custou muito caro a empresas turcas. Nas palavras de Inan Demir, economista do Finansbank, em Istambul:

Não havia outra saída, além de aumentar os juros, ou haveria pânico em grande escala, mas deveriam ter sido aumentados muito antes. Agora, as empresas turcas estão no pior dos mundos, com dificuldades sempre crescentes para pagar, por causa da lira fraca; e com custos financeiros sempre mais altos, por causa dos juros altos.

Em apenas quatro meses, o Finansbank revisou a previsão de crescimento para 2014, de 3,7% para 1,7% – depois de uma década de crescimento médio de mais de 5%. (...)

The Rise of Turkey: The Twenty-First Century’s First Muslim Power, novo livro de Soner Cagaptay [discute a economia turca] e nada diz sobre o movimento Gülen, exceto que organizou coruscante conferência internacional, da qual o autor do livro participou, sobre “o papel de liderança da Turquia na Primavera Árabe”.

De importante, é que tal conferência seria hoje impensável, porque os Irmãos da Fraternidade Muçulmana aliados de Erdoğan foram já expulsos do poder no Egito, e toda a política deles para a Síria (que previa, erradamente, que seria fácil derrubar o governo de Bashar al-Assad) já fracassou completamente. Cagaptay não é, absolutamente, o único acadêmico que aceitou a hospitalidade do movimento Gülen, que ele classifica como movimento “de prestígio”. O problema é que Fethullah Gülen além de ser feito de “prestígio”, também é feito de muito dinheiro.

Gülen: The Ambiguous Politics of Market Islam in Turkey and the World foi escrito por um sociólogo norte-americano, Joshua Hendrick, que trabalhou durante sete meses como editor voluntário numa editora afiliada ao movimento gülenista em Istambul. Eu, que passei recentemente alguns dias com gülenistas, que me pareceram entusiasmados, radiantes, extremamente solícitos e surpreendentes, de início, e, logo depois, cansativos e tediosos, só posso admirar o tempo que Hendrick sobreviveu entre eles. Afinal, valeu a pena, porque nos oferece um estudo detalhado de um movimento definido, se é que se pode dizer assim, pela distorção, pela ocultação e pelo obscurecimento.

Fethullah Gülen nega que comande qualquer tipo de movimento ou que mantenha qualquer vínculo institucional com organizações que o reverenciam. Seus seguidores – já estimados em cerca de 5 milhões – dizem que não formam rede; que são unidos exclusivamente pelo respeito pelo Hocaefendi, o “estimado professor”, movidos por sua visão de um Islã moderno e tolerante, que valoriza o conhecimento e o progresso material, tanto quando a piedade e a caridade. Empresas que pertençam ou sejam apoiadas por gülenistas não se identificam como tais, embora haja uma associação, a Confederação Turca de Empresários e Industriais, cujos membros não ocultam a admiração pelo líder. Por tudo isso, é difícil saber quantos bilhões de dólares circulam nessa “comunidade”. O retrato de Gülen nunca desaparece das paredes das mais de mil escolas privadas, em mais de 120 países, organizadas por seus aderentes, ou das manchetes do jornal Zaman, também de seguidores de Gülen – e o maior jornal da Turquia.

Joshua Hendrick
Como observa Hendrick, muita gente sequer se dá conta de que vive na órbita de Gülen – um pai que envie a filha para uma escolha “de gülenistas” na África do Sul, por exemplo; ou um empregado de serviço terceirizado de uma empresa de construção, mandado trabalhar na Rússia. A negabilidade e a ambiguidade sempre foram e continuam a ser “cruciais para o ininterrupto crescimento [do movimento] nos últimos 30 anos”.

O outro fator é o próprio Gülen. O magnetismo pessoal sempre o ajudou a conquistar seguidores desde os anos 1960s, quando, ainda jovem imã de mesquita, já era conhecido pelo estilo emocional de pregar, frequentemente explodindo em lágrimas e, mesmo, atirando-se e rolando pelo chão. Um seguidor que acabava de voltar de uma visita ao Hocaefendi nos EUA, descreveu-o para Hendricks como “dono de poderes que uma pessoa medianamente culta e educada nem consegue imaginar. É um presente de Deus”.

Em alguns sentidos, Gülen é reverenciado como se reverenciam os “pole” sufis, seres humanos eleitos por Deus para difundir a verdade divina; mas o movimento Gülen é mundano demais para ser incluído entre movimentos sufis. “Agir” é o princípio orientador declarado dos gülenistas, não qualquer distanciamento ou introspecção.

Acompanhando os ensinamentos de dum adivinho turco do século 20, Bediüzzaman Said Nursi, Gülen crê que a humanidade tenha de ser salva do pecado e aprender o caminho da revelação e o exemplo profético do Corão. A partir do mesmo ponto, outros revivalistas muçulmanos no século 19, sobretudo Sayyid Qutb, do Egito, justificaram a violência e a aplicação à força da lei sagrada. Gülen tende na direção inversa. Prega “abraçar as pessoas, sem considerar diferenças de opinião, visão de mundo, ideologia, etnia ou crença” e com vistas à “democracia, aos direitos humanos e às liberdades” – o que para Qutb é anátema.

Bediüzzaman Said Nursi
A visão de mundo de Gülen ajuda a entender, em certa medida, o internacionalismo do movimento, a ênfase no ensino de idiomas nas suas escolas, e a busca do diálogo entre várias fés, em encontros, conferências e projetos universitários. Diferente de outras organizações islâmicas, o movimento Gülen não recolhe dinheiro exclusivamente para muçulmanos, mas também para não muçulmanos (para as vítimas do terremoto no Haiti, por exemplo). Gülen e seus principais assessores dedicam muito trabalho no esforço de se afastarem de qualquer antissemitismo, e, até, de qualquer crítica contra Israel. Assim, os esforços do movimento para fixar-se nos EUA foram muito facilitados; há ali cerca de 140 escolas especiais gülenistas, e Gülen cultivou boas relações com aliados poderosos na política, na educação e nas artes.

Apesar disso tudo, os gülenistas estão sendo examinados de perto por pais e mães norte-americanos que enviam seus filhos para aquelas escolas, e que se preocupam com a opacidade de seus objetivos e métodos; e, em termos mais gerais, também por observadores que não veem com clareza o que, exatamente, Gülen prega ou representa.

Desde o início do século 19, a educação é preocupação central dos reformadores muçulmanos – com ênfase nas ciências – e o movimento de Gülen não é diferente. Na Turquia, o movimento já controla oito universidades, dúzias de escolas secundárias privadas e cerca de 350 outras instituições que preparam os alunos para os exames vestibulares, de acesso às universidades. O sistema público de educação na Turquia não tem boa reputação; os pais, então, economizam para conseguir mandar os filhos para essas instituições pré-vestibulares.

Numa dessas instituições, imaculadamente limpa e muito bem equipada, um gülenista, professor graduado, disse-me que os cursos preparatórios gülenistas põem alunos nas melhores universidades da Turquia, e que reservam 15% dos lugares para alunos pobres, que recebem bolsas de estudo. O professor interrompeu nossa conversa para ir à mesquita, do outro lado da rua, fazer suas preces; e voltou depois, acompanhado de dois alunos agradáveis, de boas maneiras (as moças estudam em ala separada dos rapazes). Contaram-me sobre o sistema “grande irmão”, pelo qual se assegura apoio moral e material aos alunos que vivem longe de casa e que se distribuem pelos dormitórios da escola preparatória. Um dos rapazes observou que os professores o tratavam “como seu próprio filho”. O movimento gülenista é dado a analogias familiares. Não aprecia trabalhadores que só se dedicam “das nove às cinco”; e a dedicação é apreciada igualmente nos alunos e nos professores.

Riqueza, sucesso, a excitação de participar de uma verdade sublime – o movimento Gülen difunde-se com muita energia, empurrado por esses estímulos. É fácil imaginar o senso de dever que toma os gülenistas mais pobres depois que são elevados àquele mundo de brilhos, cosmopolita e, sobretudo, muito firmemente entretecido. Tanto quanto mediante os livros e discursos do Hocaefendi, eles são também promovidos por laços de amizade; no caso de as famílias originais não quererem trilhar os novos caminhos, então os gülenistas têm de escolher entre a família velha e a nova família.

Cultos e organizações fechadas em todo o mundo se têm servido de métodos semelhantes, e os resultados nem sempre são felizes. Uma psicóloga em Istambul contou-me sobre um menino muito pobre, filho de um porteiro no distrito mais caro da cidade, que a procurou depois de ter tido contato com um grupo de gülenistas. Eles o acolheram, convidaram-no a visitar a casa onde viviam juntos, o apresentaram às ideias do Hocaefendi, e o fizeram sentir-se vivo, realizado e acolhido. Até que um dia, sozinho em casa, mexendo numa pilha de DVDs, pôs no aparelho um dos discos. Era um guia para atrair novos recrutas, com táticas que o rapaz reconheceu que haviam sido usadas para atraí-lo. Pouco adiante, o rapaz procurou minha amiga psicóloga.

No início de seu livro, Hendrick reproduz parte da transcrição de um vídeo vazado e que foi item da acusação em processo movido contra Gülen em 2000, no qual foi julgado in absentia (Gülen já havia fugido da Turquia para os EUA) por conspiração contra o estado secular. Nesse já famoso excerto, Gülen diz aos seus apoiadores:

Vocês devem mover-se nas artérias do sistema, sem que ninguém perceba a presença de vocês, até alcançarem os centros de poder (...) Vocês têm de esperar até terem tomado todo o poder do estado.

Mas Hendrick não avança muito profundamente na discussão das várias denúncias que se fizeram contra Gülen ao longo dos anos; como sociólogo, talvez entenda que não é trabalho que lhe caiba.

Alegações de que Gülen estaria tentando tomar o controle de órgãos do estado, particularmente o Judiciário e a Política datam, pelo menos, de 1971, quando Gülen cumpriu pena de sete meses de prisão por trabalhar para minar o secularismo. Essas acusações têm a ver com uma importante diferença entre o movimento de Gülen e outras tradições islamistas turcas. Enquanto outras tradições reagiram de modo ortodoxo contra os obstáculos legais e políticos que lhes foram impostos, concorrendo em eleições e disputando postos de poder, os gülenistas tentaram permanecer corretamente alinhados às instituições seculares (nem sempre com sucesso, como o comprovam a condenação e a prisão de Gülen), ao mesmo tempo em que, gradualmente, se infiltravam dentro delas.

Ahmet Sik, ao ser preso em 31/5/2013
Em 2011, um jornalista, Ahmet Şık, lançou um livro The Imam’s Army [O Exército do Imã], no qual expôs o modo como os gülenistas assumiram o controle da força policial turca, ao longo de vinte anos.

The Imam’s Army é livro rico de detalhes fascinantes. Fala de uma diretiva que teria sido lançada para os policiais gülenistas no final dos anos 1990s, no auge de uma campanha, pelas autoridades seculares, contra os islamistas turcos. Por essa diretiva, os seguidores de Gülen na Polícia receberam ordens para retirar de suas casas todos os livros, espalhar latas vazias de cerveja pela casa, não usar turbantes para, assim, exibir imagem “secular”. Şık também escreve sobre transferências e demissões que são rotina para todos os policiais veteranos ou procuradores que tentam atacar gülenistas, e as campanhas de vilificação movidas contra eles pelas empresas-imprensa ligadas aos gülenistas, em especial pelo jornal Zaman.

Şık recuperou parte de seu material de livro publicado antes, escrito por um ex-chefe de polícia, Hanefi Avcı. Em setembro de 2010, dois dias antes da data em que teria de comprovar suas denúncias numa conferência de imprensa, e apesar de sua manifesta tendência de direita, Avcı foi preso e acusado de pertencer a uma organização de esquerda. Şık foi preso no ano seguinte, pouco antes da data prevista para o lançamento de The Imam’s Army. (Apesar dos esforços da polícia para destruir todas as cópias digitais do livro, o texto foi postado na Internet, e foi baixado 100 mil vezes em dois dias). Mais jornalistas foram presos na sequência, sob pretextos variados, e todos os casos foram reunidos numa só grande investigação sobre um alegado complô contra o governo, pelo antigo establishment secular. A conspiração recebeu o nome de Ergenekon, da pátria mítica da nação turca na Ásia Central.

Quando foi iniciada em 2007, a investigação Ergenekon foi bem recebida por muitos turcos como oportunidade para o país pôr ponto final aos abusos cometidos pelas Forças Armadas e seus aliados. Mas muito antes de a investigação chegar ao clímax, em agosto do ano passado, com a prisão de 242 pessoas, incluído um ex-chefe do Estado-Maior, acusado de pertencer à “organização terrorista Ergenekon”, já muitos haviam mudado de opinião sobre todo o processo, dadas as flagrantes irregularidades no inquérito e no julgamento. Houve condenações sem outras provas além de gravações ilegalmente obtidas; vários casos visíveis de provas “plantadas” contra um ou outro acusado. A maior irregularidade de todas, provavelmente, se verificou num processo relacionado a esse, em que 330 membros, entre aposentados e do serviço ativo das Forças Armadas foram encarcerados, condenados por planejarem um golpe, em 2003, embora não houvesse qualquer prova contra eles além de um único CD cujo exame mostrou que, um dia, ali estivera gravada a versão 2007 do Microsoft Office.

Hanefi Avcı
O julgamento “Ergenekon” deveria ter sido a vingança final colhida pelos longamente reprimidos islamistas turcos e Erdoğan como seu líder. Mas há boas razões para afirmar que jamais existiu algo semelhante à tal organização Ergenekon e que todo o processo foi motivado por desejo de vingança. Segundo Gareth Jenkins, acadêmico britânico que analisou a fundo todo o caso, a operação foi montada e executada não por Erdoğan, mas por “uma gangue de seguidores de Gülen na polícia e nos baixos escalões do Judiciário”. Na opinião de Jenkins, os gülenistas usaram a operação para castigar seus inimigos. Jenkins acredita que Ahmet Şık, Hanefi Avcı e os demais jornalistas presos – alguns dos quais ainda esperam pela sentença – foram punidos por serem “críticos, opositores ou rivais do movimento Gülen”.

Ainda em 2006, Fethullah Gülen foi absolvido da acusação de tentar tomar o estado turco, mas Erdoğan, seu ex-aliado, deu nova vida à mesma ideia. Tendo apoiado aquela investigação Ergenekon, Erdoğan dedica-se agora a reabrir o mesmo caso, sem dúvidas para usar como publicidade e propaganda os abusos judiciários cometidos pelos gülenistas. Mês passado, Erdoğan reagiu com abuso de sua própria autoria: fez aprovar uma lei, pelo Parlamento, que dá maior poder ao governo para controlar juízes e procuradores.

A disputa entre Gülen e Erdoğan marca o fim de uma parceria que levou o islamismo ao poder na Turquia, e põe por terra a crença, cara até a alguns liberais, de que, se a Turquia deixasse falar sua maioria religiosa e pia, seria também país mais justo.
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[*] Christopher de Bellaigue nasceu em Londres em 1971. Trabalha como jornalista no Oriente Médio e Sul da Ásia desde 1994. Seu primeiro livro, In the Rose Garden of the Martyrs: A Memoir of Iran, foi indicado para o Prêmio Ondaatje da Royal Society of Literature. Seu último livro é Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Tragic Anglo-American Coup. Vive atualmente em Teerã com sua esposa e dois filhos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O ponto cego do poder: Dick Cheney

Mark Danner, New York Review of Books, 6/3/2014, vol. 61, n. 4
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Tendinha do Aribu Rosa na Vila Vudu: Joaquim Barbosa [**] é o nosso Dick Cheney, no quesito fascismo sincero, convicto. 
Os dois são amorais autorreferentes e veem-se como superiores a qualquer democracia. Dick Cheney foi infinitamente mais poderoso, é claro.
Há outras diferenças: um tem coluna vertebral doente; no outro, é o músculo cardíaco (e aí, sim, pode haver também importante semelhança). Certo é que ambos fizeram mal imenso, cada um a seu modo, ao próprio país. Se Dick Cheney está hoje perfeitamente decifrado, não há dúvidas de que nós também decifraremos o ministro Joaquim Barbosa. Assim como os EUA (que têm jornalismo infinitamente melhor que o horrendo “jornalismo” brasileiro) começam a conseguir lutar contra o mal que lhes fez o vice-presidente Dick Cheney, nós também conseguiremos reagir contra o mal que fez e faz ao Brasil o ministro Joaquim Barbosa. 
A luta continua.


Dick Cheney com George W. Bush, no Salão Oval, junho, 2007  Foto: Charles Ommanney/Getty Images
1.

No início de 2007, quando o Iraque já parecia deslizar inexoravelmente rumo ao caos, e o presidente George W. Bush rumo a purgatório político inescapável, Meir Dagan, diretor do Mossad israelense vou até Washington, sentou num gabinete ensolarado da Ala Oeste da Casa Branca e espalhou sobre a mesa de centro à sua frente uma série de fotografias que mostravam um prédio de formato esquisito que se erguia das areias do leste da Síria. Ninguém precisou dizer ao vice-presidente dos EUA Dick Cheney o que era aquilo. “Tentaram escondê-lo dentro de um wadi, uma ravina” – Cheney relembra para o documentarista R.J. Cutler.

Não há habitações em volta, em lugar algum (...). Não se pode dizer que seja uma usina geradora de eletricidade: não há um fio que saia do prédio. Está aí, obviamente, para produzir plutônio.

Os sírios estavam construindo secretamente uma usina nuclear – era o que parecia – com a ajuda, também parecia, da Coreia do Norte. Apesar de os EUA já estarem metidos em duas guerras difíceis, impopulares e aparentemente infindáveis; apesar de os militares estarem super exigidos; e a população norte-americana impaciente e furiosa, o vice-presidente não teve dúvida alguma sobre o que era preciso fazer:

Condi [Condoleeza Rice] recomendou levar a questão à ONU. Recomendei veementemente bombardearmos a coisa.

Lançar imediatamente um ataque surpresa contra a Síria, Cheney conta em suas memórias, não apenas “tornaria a região mais segura, mas, também, mostraria nossa seriedade com respeito à não proliferação”. Isso foi o coração da Doutrina Bush: dali em diante, terroristas e estados que lhes dessem abrigo seriam tratados como uma e a mesma coisa, como o presidente Bush disse ao Congresso em janeiro de 2002, “os EUA não permitirão que os regimes mais perigosos do mundo nos ameacem com as armas mais destrutivas do mundo”. Seguindo esse pensamento estratégico, os EUA responderam aos ataques contra New York e Washington, executados por um punhado de terroristas, não alguma contrainsurgência circunscrita contra a al-Qaeda, mas uma “guerra ao terror” planetária que também tomou estados como seus alvos – Iraque, Irã, Coreia do Norte – que formariam um “eixo do mal” que acabava de ser demarcado. [1] Segundo os que participaram das reuniões do Conselho Nacional de Segurança nos dias imediatamente posteriores ao 11/9,

O ímpeto inicial para invadir o Iraque (...) era fazer de [Saddam] Hussein um caso exemplar, criar um modelo-demonstração para guiar o comportamento de todos que cometessem a temeridade de apontar armas destrutivas ou de, fosse como fosse, desafiar a autoridade dos EUA. [2]

Pois cinco anos depois de o presidente ter denunciado perante o Congresso o “eixo do mal”, e quatro anos depois que seu governo invadira e ocupara o Iraque e declarara a meta de arrancar do regime de Saddam as suas armas de destruição em massa, os norte-coreanos detonaram sua própria bomba atômica; e os sírios e iranianos, como se lê nas memórias do vice-presidente dos EUA, estavam “ambos trabalhando para desenvolver capacidade nuclear”. E, ainda mais:

A Síria estava facilitando o fluxo de combatentes estrangeiros para dentro do Iraque, onde eles matam soldados norte-americanos. O Irã fornecia dinheiro e armas para exatamente o mesmo objetivo, além de fornecer armas para os Talibã no Afeganistão. Os dois países estavam envolvidos no apoio ao Hezbollah em seu esforço para ameaçar Israel e desestabilizar o governo libanês. Eram a principal ameaça aos interesses dos EUA no Oriente Médio.

Pela própria análise do vice-presidente, a abordagem de “modelo-demonstração”, avaliada pelo critério de “guiar o comportamento” dos países do “eixo do mal” e seus aliados, estava dando resultados pouco claros. Assim sendo:

Eu disse ao presidente que precisávamos de estratégia mais efetiva e mais agressiva para conter aquelas ameaças, e entendia que um importante primeiro passo seria destruir o reator no deserto sírio.

Um ataque aéreo contra a Síria – como Cheney diz ao documentarista Cutler – “serviria para, de certo modo, reafirmar o tipo de autoridade e influência que tínhamos antes, em 2003 – quando derrubamos Saddam Hussein e eliminamos o Iraque como fonte potencial de armas de destruição em massa”. 

“Antes, em 2003” fora a Era de Ouro, quando o poder dos EUA alcançara o pico. Depois que Cabul caíra em poucas semanas, o choque e pavor lançado pelos aviões e mísseis dos EUA levaram os soldados dos EUA, como tempestade, diretamente para Bagdá. A estátua de Saddam, com a ajuda de um tanque norte-americano e correntes grossas, estatelou-se na calçada. O primeiro país do “eixo do mal” havia caído. O presidente Bush meteu-se numa jaqueta de aviador e subiu ao convés do USS Abraham Lincoln. Foi o momento “Missão Cumprida”.

Ainda assim... não há algo de claramente esdrúxulo em referir-se, em 2007 – para nem falar das memórias de 2011 e da entrevista para o documentário, de 2013 – a “o tipo de autoridade e influência que tínhamos antes, em 2003?”. Quatro anos depois que os EUA declararam vitória no Iraque – e quando o vice-presidente recomendava “veementemente” que os EUA atacassem a Síria – mais de 500 mil iraquianos e quase cinco mil norte-americanos estão mortos; o Iraque estava à beira da anarquia; e não se via, como ainda não se vê ainda nenhuma probabilidade de a guerra acabar. 

E não só o fim, mas também o início daquela guerra, sumiram numa nuvem negra de confusão e controvérsia, agora que já se sabe com certeza que as tais armas de destruição em massa de Saddam jamais existiram. A invasão não produziu a vitória rápida e conclusiva que Cheney anteviu, mas um pântano, no qual os militares dos EUA ocuparam e destruíram um país muçulmano e, quatro anos adiante, estavam, como hoje, à beira da derrota. 

Quanto à “autoridade e influência”... No mesmo período, a Coreia do Norte avançou na produção de armas nucleares; e Irã e Síria foram empurrados na direção de trabalhar para também produzi-las. 

Tudo isso considerado, o que o “modelo-demonstração” demonstrou? Se tais demonstrações realmente guiaram “o comportamento de todos que cometessem a temeridade de apontar armas destrutivas ou de, fosse como fosse, desafiar a autoridade dos EUA”, como, exatamente, a decisão de invadir o Iraque e o desastroso resultado daquela guerra guiaram as ações e políticas daqueles países? 

O mínimo que se deve dizer é que, se a teoria funcionou, então a tal “autoridade que tínhamos antes, em 2003” na conquista de Bagdá, acabou também desmascarada: a insurgência continuou e cresceu. Como as fantasias nos EUA.

O auge do poder fora alcançado antes, não em Bagdá, mas muito antes, quando os líderes decidiram construir toda essa aventura militar desastrada. Ao invadir o Iraque, os políticos do governo Bush – e, à frente deles, liderando-os – Cheney e o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld – conseguiram mostrar ao mundo não a vasta extensão do poder dos EUA, mas as limitações desse poder. O mínimo que se pode dizer é que o tal “modelo-demonstração” teve efeito oposto ao que visava: encorajou os “estados bandidos”, os quais, ante a possibilidade real de ação muito agressiva pelos EUA, foram empurrados na direção de mobilizar suas forças militares não convencionais, na direção de buscar os meios mais baratos para conter aquele ataque: cada um pode ter começado a considerar, ali, a possibilidade de construir seus próprios arsenais nucleares. 

A guerra do Iraque sugeriu-lhes muito veementemente que, ainda que os EUA invadissem os países daquela região, um núcleo duro de resistência determinada, equipada com armamento leve, coletes explosivos e outros objetos explosivos improvisados, bem poderia bastar para contê-los; ou para contê-los, pelo menos, até que a paciência da população dos EUA se esgotasse completamente.

George W. Bush e Dick Cheney na Casa Branca em março de 2008
foto: Stephen Crowley/The New York Times/Redux

2.

Em novembro de 2007, dois, de cada três norte-americanos já concluíra que a guerra do Iraque fora erro grave. O presidente Bush, que já se ia tornando o presidente menos popular nos EUA desde o início das pesquisas de popularidade, já liderara os Republicanos para um “tropeço” calamitoso nas urnas, perdendo o controle das duas casas do Congresso – e, afinal, se viu obrigado a demitir Rumsfeld, mentor de Cheney há muitos anos, apesar das empenhadas objeções de Cheney.

Rumsfeld foi quem levou o jovem Cheney para dentro da Casa Branca no final dos anos 1960s e comandou sua espantosa ascensão política; e foi Rumsfeld quem colaborou mais empenhadamente com Cheney na defesa da sua “estratégia do efeito demonstração”. Até quando Bush entrevistou secretamente Robert M. Gates, possível substituto de Rumsfeld, em seu rancho em Crawford, Texas, dois anos antes da eleição, discutindo Iraque, Afeganistão e o periclitante estado dos militares norte-americanos, a sombra do vice-presidente pairava no ar. 

Segundo Gates, “Com cerca de uma hora de conversa, o presidente curvou-se para frente e perguntou se eu tinha mais alguma pergunta. Respondi que não. Ele fez um semisorriso e disse Cheney?. [3] 

Duas sílabas. Um nome. Ao ouvir, Gates como que “semissoriu, de volta”. Quem leia a passagem também semissori. Mas o quê, exatamente, significa esse nome acompanhado de um semisorriso? Em primeiro lugar, antes de tudo, levanta uma pergunta sobre o poder – poder secreto, macabro. Poder sem controle ou limites. Poder duro. O poder por trás do presidente dos EUA. O lado obscuro. O homem que, ainda que não mais pudesse impedir a demissão de seu mentor e íntimo colaborador de muitos anos, não poderia jamais, ele mesmo, ser demitido.

Richard Bruce Cheney, o homem que aceitou o convite do governador George W. Bush, em 2000, para que comandasse a busca por um vice-presidente perfeito para a chapa presidencial de Bush, e cujos esforços o levaram a ninguém menos que ele mesmo; esse homem estaria lá, ao lado de Bush, ou nas sombras por trás de Bush, até o amargo fim. Com sua experiência e sofisticação, a expressão sem expressão – o olhar inalterável, a cabeça sempre um pouco caída de lado – esse homem incorporou uma filosofia do poder sem mercê, brutalmente simples: atacar, esmagar o inimigo; que os outros o temessem e, pelo medo, submeter todos. Poder que, de tempos em tempos tinha de deixar-se ver como pura violência, como as execuções de Voltaire, pour encourager les autres [para dar coragem aos outros].

No que tenha a ver com a ascensão de Cheney e sua sobrevivência no poder, está-se sempre no reino dos milagres. Em 1969, Cheney tinha 28 anos e não passava de acadêmico recém-formado chegado de Wyoming, que trabalhava obscuramente como assessor parlamentar no Capitólio – e era uma sorte ter chegado até ali, depois de duas vezes reprovado em Yale e duas passagens pela cadeia por dirigir embriagado. Cinco anos depois, era chefe de gabinete da presidência do presidente Gerald Ford. Não há, na história dos EUA, mais rápida ascensão ao poder. Até a aura de seu sucessor, Donald Rumsfeld, empalidece diante de tal sucesso. [4] Pode-se dizer que grande parte da ascensão de Cheney deveu-se ao apadrinhamento que recebeu de Rumsfeld; mas também muito deve ao próprio caso Watergate – e às oportunidades, que só aparecem uma vez na vida de um político, quando acontece de um presidente renunciar e de ter sucessor insignificante. Cheney, mal chegado aos trinta anos, conheceu de perto todos os órgãos secretos do poder executivo, especialmente a CIA; assistiu a um momento em que estavam sendo desmascarados, expostos, humilhados, açoitados. Se é verdade que “depois do 11/9 tiramos as luvas”, Cheney, como poder jovem e improvável na Casa Branca de Nixon e depois na de Ford, ganhou cadeira na primeira fila para observar os métodos pelos quais o Congresso, antes, havia vestido as tais luvas.

Depois da derrota de Ford em 1976, Cheney foi eleito como único representante de Wyoming na Câmara de Deputados e cresceu com espantosa velocidade; em uma década, andou de líder inexperiente da minoria, à terceira posição na hierarquia da maioria. E estava a caminho de ser escolhido presidente da Câmara, quando aceitou o convite do presidente George H.W. Bush para ser seu Secretário da Defesa; e dali, depois de comandar o Pentágono na selvagemente popular Operação Tempestade do Deserto, deixou o governo, depois da derrota de Bush, para tornar-se presidente da empresa Halliburton – a gigante do petróleo (dentre outras coisas). Já rico e influente como líder empresarial, ele afinal partiu para ser – a expressão é lugar comum, mas absolutamente anômala – “o mais poderoso vice-presidente da história dos EUA”.

E todo o tempo, enquanto isso, como um solo de contrabaixo sinistro que cresce por baixo dessa narrativa de poder e triunfo, avança outra narrativa sombria, de vida e morte, em vários sentidos ainda mais espantosa. Durante a campanha para a Câmara de Deputados em Cheyenne, Wyoming, em 1978, Cheney teve um ataque cardíaco. Seu médico e coautor de Heart: An American Medical Odyssey, Jonathan Reiner, observa que não conhece outro caso de alguém que tenha tido um ataque cardíaco nos anos 1970s e ainda esteja vivo hoje. O ataque cardíaco de Cheney, em 1978, foi o primeiro de cinco; sua sobrevivência foi, cada dia mais, resultado do emprego da mais avançada tecnologia médica que, como por milagre, sempre aparecia disponível para ele, quando era necessária – como o próprio Cheney escreve: “íamos por uma rua, atrasados para o trabalho, e todos os faróis à frente estavam vermelhos; mas, de repente, todos viravam verdes, um segundo antes de eu chegar”. No livro, Reiner recorda o convite de um colega, que o chamou num final de tarde, em março de 2012: “Hei, Jon, venha dar uma olhada”. Entrando na sala de cirurgia, encontrou uma cena singular:

Na mão direita de Alan, espetado com várias pinças cirúrgicas e separado do corpo ao qual dera vida por 71 anos, estava o coração do vice-presidente Cheney. Enorme, quase o dobro do tamanho de um órgão normal, coberto de cicatrizes da batalha de 40 anos contra a doença que o mataria. Baixei os olhos, do coração para o tórax... Aquele vazio surreal era lembrete vívido de que não haveria volta. [5]

Dick Cheney - Desenho em lápis de cor por Pancho

3.

“Sem volta” pode ser um bom slogan para Dick Cheney. Suas memórias chamam a atenção – e é traço que ele partilha com Rumsfeld – por uma quase absoluta ausência de ideias revistas, de arrependimento, sequer da mais leve reconsideração. “Concluí que o melhor modo de levar adiante minha vida e minha carreira era fazer o que me parecesse certo” – Cheney conta ao seu médico. – “Fiz o que fiz, é tudo de conhecimento público, e sinto-me muito bem sobre tudo que fiz”.  

As decisões de hoje, são as mesmas de então. Se aquele momento “Missão Cumprida” em 2003 parecia ser o auge do poder e da autoridade dos EUA, assim permanecerá para sempre – jamais questionado, jamais alterado, sem qualquer diferença produzida por eventos posteriores que mostram hoje, claramente, que nada jamais foi o que então parecia ser. “Se tivesse de fazer outra vez, faria” – diz Cheney. – “Faria tudo outra vez, num minuto”.

Mas o nenhum arrependimento, a recusa a qualquer reconsideração, não altera o curso das causas e efeitos; nenhuma certeza de que as decisões teriam sido acertadas, por certeza total, que seja – e a perfeição inalterável das certezas de Cheney é absolutamente de estarrecer – obscurece a evidência de que foram decisões erradas. Não raro, a total impopularidade de uma dada decisão parece oferecer a satisfação que Cheney busca, um tributo ao seu desinteresse, à sua sinceridade, como se a ausência total de apoio político fosse uma espécie de comprovação da pureza de seus motivos íntimos. “Cheney é o contra-política” – observa Barton Gellman, autor de Angler, [6] brilhante estudo da vice-presidência de Cheney. – “Mas nenhum presidente pode ser contra-política. Nenhum presidente governa desse modo”. 

Em 2007, até o presidente Bush já começava a compreender isso, ao ver os riscos e abismos das certezas de Cheney. Tendo ousado tentar sua própria pesquisa, de uma palavra só, na entrevista com Robert Gates – “Cheney?” – Bush responde, ele mesmo, a própria pergunta: “É uma voz, uma voz importante, mas é só uma voz”. Afinal, dessa vez, Bush acertaria: no debate sobre atacar a Síria, no qual Gates, Secretário de Defesa, uniu-se à Secretária de Estado, Condoleezza Rice e ao Conselheiro Nacional, Stephen Hadley, na oposição a Cheney. “A ideia de que poderíamos bombardear o reator sírio para afirmar alguma coisa em termos de não proliferação, a partir de inteligência duvidosa” – Rice escreve em suas memórias – “foi, para dizer o mínimo, imprudente”. [7] 

Não era só a possibilidade de que aquele ataque surpresa desencadeasse uma conflagração regional e empurrasse sírios e iranianos para dentro do pântano iraquiano, nem o fato de que os norte-americanos estavam fartos de guerra e desesperados para sair do Oriente Médio, não para atacar ali ainda outro país. Os chineses estavam profundamente envolvidos – fortemente contrários a qualquer ataque à Coreia do Norte, que ajudara a construir o reator sírio – e, Rice observa, “eles (e o resto da região) jamais tolerariam o ataque militar que o vice-presidente recomendava”.

Não importa. Cheney sempre se orgulhou de manter as considerações políticas bem distantes das decisões sobre “o que é certo”; e nenhuma guerra perdida, menos ainda alguma derrota eleitoral, mudariam sua opinião sobre o terrível “nexo” entre os terroristas e os estados que os patrocinavam e as armas de destruição de massa. O próprio Cheney diz ao seu médico: “Você não pode querer que a Síria ganhe esse tipo de capacidade, que podem transferir ao Hamás ou Hezbollah ou al-Qaeda”. Apesar da guerra então em curso no Iraque, dos medos disseminados de uma conflagração regional e de os norte-americanos estarem cansados de guerras, os EUA não tinham escolha senão atacar a Síria; e sem demora. E Gates observa que “Cheney sabia que, embora, de nós quatro, só ele quisesse atacar a Síria como primeira e única opção, ele talvez conseguisse convencer o presidente”. [8] 

Talvez conseguisse; se conseguisse, não seria a primeira vez que a voz de Cheney, isolado ou não, ganharia o dia. O vice-presidente fez lobby direto sobre o presidente; em seguida, apresentou seu caso na reunião do Conselho de Segurança Nacional em junho de 2007:

Falei para o grupo e diante do presidente (...) Acho que fui bastante eloquente (...) O presidente disse “Certo. Quantos de vocês concordam com o vice-presidente?” E ninguém ergueu a mão.

Já iam longe os dias em que Bush ignorava as mãos erguidas e decidia o que Cheney lhe dissesse que decidisse. Não voltariam os dias gloriosos da “autoridade e influência que tínhamos em 2003”. Tendo já recusado o que Israel lhe pedia, que atacasse a Síria por ar, Bush também desestimulou, pelo menos verbalmente, ação direta pelos israelenses, aparentemente para seguir o que lhe diziam Rice e Gates, que levasse à ONU o caso do reator sírio. 

Mas os israelenses tinham outros planos. Tarde da noite, em setembro de 2007, os F-15 israelenses de fabricação norte-americana e usando bombas de precisão “destruíram” o reator. Os israelenses não deram muita promoção ao ataque, nem promoveram a “autoridade e a influência” nem de Israel nem do aliado norte-americano. Os israelenses mantiveram o ataque secreto e insistiram em que os EUA fizessem o mesmo – como fizeram também os sírios, que demoliram as ruínas e as fizeram sumir. O tempo dos “efeitos demonstração” estava acabado.
 
Donald Rumsfeld, Dick Cheney e Les Brown no aniversário do Exército em 13/6/2003
Foto de Doug Mills/The New York Times/Redux
4.

Contudo, ainda vivemos, até hoje, no mundo de Cheney. Por todos os lados veem-se as consequências de decisões dele: em Fallujah, Iraque, onde, no tempo de Saddam Hussein a al-Qaeda e seus aliados não existiam, jihadistas aliados da al-Qaeda acabam de reassumir o controle; na Síria, onde jihadistas iraquianos têm ativa participação na tentativa de golpe contra o governo do presidente Assad; no Afeganistão, onde os Talibã, praticamente ignorados depois do frenesi de 2002, para mobilizar a atenção dos norte-americanos contra Saddam Hussein, estão ressurgidos. E há também o outro lado da “guerra ao terror”, história ainda mais sinistra que Cheney, cinco dias depois dos ataques do 11/9, já expunha com precisão para todo o país, em entrevista ao programa Meet the Press:

Temos também de trabalhar, pode-se dizer, o lado escuro. Temos de trabalhar nas sombras do mundo da inteligência. Grande parte do que tem de ser feito tem de ser feito em silêncio, sem qualquer discussão, usando fontes e métodos acessíveis às nossas agências de segurança (...) É o mundo no qual trabalham esses sujeitos, e será vital para nós usar qualquer método ao nosso alcance, basicamente, para alcançar nosso objetivo.

No dia seguinte a esse comentário de Cheney, o presidente Bush assinou documento secreto, o qual, segundo John Rizzo, conselheiro da CIA há muito tempo,

(...) foi o mais amplo, mais abrangente, mais ambicioso, mais agressivo e mais arriscado MON [Memorandum of Notification/Memorando de Notificação] com o qual estive envolvido em toda a minha vida. Um parágrafo curto autorizava a captura e a detenção de terroristas da Al Qaeda; o outro autorizava a empreender ação letal contra eles. Linguagem simples e clara (...). Recebemos a caixa de ferramentas completa da ação clandestina, inclusive ferramentas que nunca havíamos usado antes. [9]

Esse Memorando, como Rizzo escreve, “permanece vigente até hoje”. Como a Autorização para Uso de Força Militar que Bush assinou no dia seguinte. Mais de 12 anos depois de assinados, esses são os dois pilares, simultaneamente secretos e públicos, escuridão e luz, sobre os quais ainda repousa a infindável “guerra ao terror”. 

Por mais que os EUA nos tenhamos habituado a ouvir o presidente Obama sempre a repetir, como fez recentemente na fala do Estado da União, que “os EUA temos de nos afastar dessa caminhada permanente para a guerra”, essas palavras, de tão repetidas, soam menos como ordem de comando de presidente, e, mais, como súplica de um homem solitário que tem esperança de persuadir.

Afinal, o que significam essas palavras, ante as realidades duríssimas do mundo do pós-11/9? O orçamento da Defesa mais do que dobrou, incluindo um Comando de Operações Especiais, com competência para lançar raids secretos letais contra qualquer ponto do planeta, e que passou, de 30 mil soldados de elite, para mais de 67 mil. O exército de drones passou, de menos de 200 veículos aéreos pilotados à distância, para mais de 11 mil, incluindo talvez 400 drones com “capacidade armada” que podem localizar e matar diretamente do céu – e, isso, comandados por “pilotos” que operam joysticks, em terminais instalados nos estados de Virginia e Nevada e em outros pontos dos EUA, e que, dali, já mataram estimadas 3.600 pessoas no Paquistão, Afeganistão, Iêmen e Somália.

O presidente Obama deu ordem para fechar os “pontos negros” [“black sites”] – a rede de prisões que a CIA implantou por todo o mundo, da Tailândia e Afeganistão a Romênia e Polônia e Marrocos –, mas, apesar da Ordem Executiva que assinou no seu segundo dia de mandato, o ponto negro que há na Baía de Guantánamo, o “ponto negro oficial”, permanece aberto, seus 155 prisioneiros, com exceção de meia dúzia, presos sem acusação e sem julgamento. Dentre eles há “prisioneiros de alto valor”, que foram capturados e presos nos pontos negros pelo mundo, onde muitos deles foram submtidos a “técnicas reforçadas de interrogatório”. [10] Perguntado por Cutler se considerava que “um período prolongado de imersão forçada para criar a sensação de morte por afogamento” – waterboarding – seja tortura, a resposta de Cheney saiu rápida e precisa:

Não. Diga-me que ataque terrorista você deixaria acontecer, porque você não quer comportar-se como bandido, ou como um safado. Você vai entregar a vida de muita gente, só porque você quer preservar a sua própria honra? Ou você vai fazer o serviço, o que é seu dever fazer, e cumprir sua primeira e principal responsabilidade, que é proteger os EUA e a vida de norte-americanos? Temos de escolher entre fazer o que fizemos, ou recuar e dizer ‘Sabemos que você sabe sobre o próximo ataque contra os EUA, mas não vamos obrigá-lo a falar, porque pode sujar nossa imagem’. Para mim, não há mérito nenhum nessa atitude.

À parte as vastas questões factuais aí apagadas, há uma espécie de arrogância amoral nessa resposta, que sufoca quem a ouça. Exatamente quando ocupava o posto de mais influente funcionário do governo dos EUA, no momento em que lhe caberia reafirmar o que determina a Convenção de Genebra sobre prisioneiros, Cheney optou por ser o mais influente e importante funcionário do governo dos EUA que criou uma política oficial que legaliza a tortura.

Já parece bem claro que Cheney simplesmente não sabe, ou não quer, reconhecer que essa política levante alguma questão moral ou legal. Cheney (e Joaquim Barbosa) parece (m) crer que os que veem e ouvem essas questões morais e legais seriam farsantes, gente que quer “aparecer” como democrata, alguma espécie de imbecil interessado em – “preservar” alguma honra. 

Isso é o que Cheney pensa das pessoas – e entre eles estão o advogado geral dos EUA e até o presidente Obama – que declararam publicamente que waterboarding é tortura e, portanto, que é procedimento absolutamente ilegal. Para Cheney, aí, não há sequer qualquer problema. 

No momento em que escrevo, cinco homens estão sendo processados por terem arquitetado os ataques de 11/9/2001. Embora se deva esperar que os procedimentos sejam descritos como “o julgamento do século” e venham a atrair alguma atenção, é possível – é, mesmo, muito provável – que o leitor não tenha sequer ouvido falar desse julgamento. Os cinco acusados pela morte de quase 3 mil norte-americanos estão sendo julgados ante uma comissão militar, na prisão da Baía de Guantánamo. Apenas uma meia dúzia de pessoas foram autorizadas a assistir ao julgamento, entre as quais alguns poucos jornalistas. Todos consideram as condições daquele julgamento estranhas, em nada semelhantes a qualquer julgamento ao qual tenham algum dia assistido, como relata Carroll Bogert, da ONG Human Rights Watch:

O público assiste aos depoimentos por trás de janelas de vidro à prova de som, por um canal de áudio que nos chega com 40 segundos de atraso. Quando algo “sensível” é dito na sala, o juiz acende uma infame “luz de jogo” [“hockey light”], e o comentário é apagado (...).

O grau de sigilo, que veda até as informações mais banais, é de enlouquecer. Um ex-sargento de campo emitiu um memorando sobre o material que os advogados de defesa não podem entregar aos réus que eles defendem. O primeiro item proibido da lista é o próprio memorando. 

Os acusados, entre os quais Khalid Sheikh Mohammed, principal organizador confesso do 11/9, que foi preso em Rawalpindi, Paquistão, em março de 2003 e imediatamente desapareceu na rede de prisões clandestinas da CIA, tendo sido mantido preso, ao que já se sabe, em “pontos negros” no Afeganistão, Tailândia e Polônia, foi submetido a uma complexa mistura de “técnicas reforçadas de interrogatório”, que incluíram longos períodos de privação de sono, espancamento, nudez forçada, “walling,” [11] imersões em água fria e waterboarding, tortura à qual foi submetido por 183 vezes. Embora essa específica informação conste de documentos da CIA, inclusive o documento de autorização emitido pelo inspetor geral da CIA, que foi divulgado publicamente, são proibidas durante o julgamento todas as referências à tortura a que Mohammed e os demais acusados foram submetidos. Apesar disso, escreve Bogert, “a tortura é o pecado original de Guantánamo”.

A tortura é, ao mesmo tempo, invisível e onipresente. O governo dos EUA quer cobertura para os ataques do 11/9, mas não para a simulação de afogamento, a privação de sono, a proibição de sentar ou deitar e outras formas de tortura que a CIA aplicou aos acusados. É tarefa difícil julgar o caso do 11/9 e tentar, simultaneamente esconder a tortura dos olhos dos cidadãos. “A tortura é o fio que corre por trás disso tudo” – disse um dos médicos dos prisioneiros. – “É impossível contar a história do 11/9 sem falar da tortura”.

Mesmo assim, aquele é um simulacro de tribunal em que militares norte-americanos fingem que respeitam a lei, assessorados por alguns advogados civis. Esse julgamento único, mortificante, assustador – tentativa fracassada de oferecer algum tipo de justiça desfigurada àqueles homens – é mais uma resposta fracassada aos ataques: não um resto de lembrança que queremos esquecer, mas um presente que tentamos ignorar. Bogert continua:

Os acusados pelo 11/9 não estão sendo torturados hoje, não, pelo menos, como foram torturados antes. Mas pouco se sabe sobre as condições em que estão presos. Durante anos, até o nome do local, “Campo 7”, foi secreto. O julgamento está suspenso, enquanto se avaliam as capacidades mentais de um dos acusados, Ramzi bin al-Shibh. Mês passado, Ramzi não parou de interromper os depoimentos, aos gritos de “É a minha vida. Isso é tortura. TORTURA!”.

Não se entendia o que mais ele dizia (...) o áudio das falas de Bin al-Shibh vinha acompanhado de ruídos, praticamente todo o tempo. [12]

Orwelliano? Kafkeano? As palavras tornam-se insuficientes, inadequadas. Contra o ruído dessas vozes distantes, sufocadas, quase completamente esquecidas e ignoradas, o que se ouve é ainda a voz do ex-vice-presidente, que fala claro e firme, desavergonhadamente, sem culpas ou remorso. Mas, se o mundo pós-11/9 for melhor que o mundo pré-11/9, ele será melhor, não pelo que disse e fez Dick Cheney (ou Joaquim Barbosa), mas pelo que disserem e fizerem as vítimas dele(s).

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Observações:

Mark Danner
[*] Resenha de: The World According to Dick Cheney (filme dirigido por R.J. Cutler e Greg Finton); CHENEY, Dick & CHENEY, Liz, In My Time: A Personal and Political Memoir (Threshold, 565 pp., $16.00 (paper), 2013; e CHENEY, Dick & REINER, Jonathan (com Liz Cheney), Heart: An American Medical Odyssey, Scribner, 344 pp., $28.00.


[**] Biografia comentada de Joaquim Barbosa (embora só superficialmente, como é típico do “jornalismo” brasileiro, que é o pior do mundo).
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Notas de rodapé

[1] Esse é o 4º, de uma série de artigos. Os anteriores são “Rumsfeld’s War and Its Consequences Now”. The New York Review, 19/12/2013; “Rumsfeld Revealed”, The New York Review, 9/1/2014 e “Rumsfeld: Why We Live in His Ruins”. The New York Review, 6/2/2014..

[2] Ver SUSKIND, Ron, The One Percent Doctrine: Deep Inside America’s Pursuit of Its Enemies Since 9/11 (Simon and Schuster, 2006), p. 123.  

[3] Ver Robert M. Gates, Duty: Memoirs of a Secretary at War (Knopf, 2014), p. 7.   

[4] Ver “Rumsfeld’s War and Its Consequences Now”. [As guerras de Rumsfeld e suas Consequências Hoje]. Talvez Theodore Roosevelt, que subiu, do posto de chefe de polícia de New York City à presidência, em seis anos, se aproxime disso. Ver Tevi Troy, “Heavy Heart: The Life and Cardiac Times of Dick Cheney”. The Weekly Standard, 27/1/2014.

[5] Parece que continua vivo. Mas há dúvidas. Dia 11/2/2014, a internet pululava de confirmações festivas e de desmentidos iracundos. [NTs]

[6] Barton Gellman, Angler: The Cheney Vice Presidency (Penguin, 2008).

[7] Condoleezza Rice, No Higher Honor: A Memoir of My Years in Washington (Crown, 2011), p. 713.  

[8] Gates, Duty, p. 172.

[9] Ver John Rizzo, Company Man: Thirty Years of Controversy and Crisis in the CIA (Scribner, 2014), p. 174.

[10] Ver meu artigo “US Torture: Voices from the Black Sites”, The New York Review, April 9, 2009.  

[11] Ver em 14/4/2009, The Guardian, Ewen Mac Askill em: Torture techniques endorsed by the Bush administration

[12] Ver Carroll Bogert, “There’s Something You Need to See at Guantanamo Bay”. Politico, 22/1/2014.