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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Gaza: os EUA foram a “cheerleader” do massacre



Documentos da WikiLeaks sobre o ataque violento a Gaza mostram com clareza que o governo dos EUA é pouco mais do que uma criada da máquina militar israelita.
Por Kathleen Christison, Counterpunch.

ARTIGO | 1 DEZEMBRO, 2010 - 15:41

Destruição em Gaza depois de ataque israelita. Foto de Physicians for Human Rights – Israel

O Counterpunch  teve acesso ao arquivo da WikiLeaks sobre o assalto de Israel a Gaza há cerca de dois anos (Operação Chumbo Fundido, de 27 de Dezembro de 2008 até 18 de Janeiro a 2009). Embora os telegramas sejam várias vezes apenas uma repetição das reportagens da imprensa israelita, dando poucas novidades sobre o ataque em si ou sobre o seu planejamento, mostram com uma clareza atroz que o governo dos EUA é pouco mais do que uma criada ou um burocrata da máquina militar israelita.
Os documentos tornam claro, se maior clareza fosse necessária, onde exatamente é que os EUA se posicionam no que toca ao ataques não-provocados de Israel contra os palestinos e outros vizinhos árabes. Não obstante a Operação Chumbo Fundido tenha ocorrido nos últimos dias da administração Bush, terminando dois dias antes da tomada de posse da Barack Obama, cada uma das políticas que este adotou nos dois anos seguintes – incluindo a rejeição do Relatório Goldstone que descrevia as atrocidades e os crimes de guerra cometidos durante a Operação – demonstram uma incrível continuidade no apoio às ações israelitas.
Os documentos fornecem ainda um relato tendencioso do assalto. Uma vez que as notícias diárias são retiradas em primeiro lugar dos jornais israelitas; os documentos enumeram os rockets disparados para Israel a partir de Gaza e descrevem dramaticamente “as bonecas queimadas e os brinquedos das crianças destruídos” num jardim-de-infância desocupado em Beer Sheba que foi atingido por um rocket, mas não fazem qualquer menção aos intensivos bombardeamentos aéreo e terrestre de Gaza, incluindo contra a sua população civil. Até os jornais ocidentais levaram a cabo uma cobertura mais correta das vítimas palestinas do que isto.
Os telegramas da embaixada dos EUA forneceram alguma informação sobre as vítimas palestinas, mas de forma mínima. Num papel enterrado na coleção, de aproximadamente dez dias depois do início do assalto, a imprensa ocidental é citada dando conhecimento da morte de 530 palestinos. Isto aconteceu quando os papéis declaravam que cinco israelitas tinham sido mortos. As vítimas israelitas foram contadas repetidamente. Esta razão de cerca de 100-1 entre as vítimas palestinas e as vítimas israelitas persistiu durante a operação, porém, não foi  notado pelos telegramas dos EUA. Em alguns momentos, os representantes consulares norte-americanos descreveram o ponto de vista de alguns cidadãos de Gaza, sublinhando o desespero palestino. Ainda assim, quando um dos cidadãos declara que a sua cidade está sendo atacada cada vez mais intensivamente por fogo israelita, os documentos qualificam este testemunho referindo-se “àquilo que ele apelida de fogo israelita 'indiscriminado'”.
Sempre que um documento menciona uma localização específica em Gaza que sofreu um ataque ou foi destruída, incluindo hospitais e mesquitas, repetem as alegações israelitas sem questioná-las; no dia 2 de Janeiro, por exemplo, é relatado que a Força Aérea de Israel destruiu uma mesquita que “alegadamente servia como um depósito de armas e como um centro de comunicações.” A embaixada relata, sem um pingo de cepticismo, a alegação de Israel, a meio da operação, de que os operacionais do Hamas foram reconstruindo “certas capacidades de comando e controlo” no hospital Shifa em Gaza, disfarçando-se de médicos e enfermeiras.
Os primeiros telegramas desta coleção revelam a tendência dos EUA ao contarem, vários dias antes da Operação Chumbo Fundido, que a pressão para uma “resposta” aos ataques de rockets a partir de Gaza tinha vindo a intensificar-se “desde que o Hamas anunciou o fim do acordo de trégua – “tahdiya” - no dia 19 de Dezembro”. Este esforço por colocar a responsabilidade pelas hostilidades no Hamas ignora o fato, o qual não era segredo para aqueles que vinham a seguir a situação, de que foi Israel quem violou a trégua, que estava em vigor desde Junho anterior, no dia 4 de Novembro quando foi lançada uma incursão não-provocada em Gaza que matou vários palestinos. A decisão do Hamas de terminar a trégua semanas depois foi uma resposta à violação de Israel.
A evidência mais óbvia da parcialidade dos EUA – e o único momento de análise ou conselho político nesta coleção de papéis – surge ainda antes de a operação começar. “A nossa recomendação”, escreve o Embaixador James Cunningham no dia 22 de Dezembro, “é que comecem a colocar as culpas no Hamas pela ilegitimidade do seu governo em Gaza, pela sua política de disparos ou por autorizar outras facções a disparar rockets e morteiros contra alvos israelitas, e pela sua decisão de acabar o período calmo de “tahdiya”.” Cunningham parece confundir causa e efeito: mesmo que o Hamas governasse ilegitimamente, o que não o faz – o Hamas foi eleito democraticamente três anos antes – não é uma percepção comum a de que a ilegitimidade política justifica um assalto militar massivo. Cunningham continua até recomendar o apoio ao “direito de Israel se defender a si próprio.” Aparentemente, o Hamas não tem direito a defender os cidadãos de Gaza do ataque israelita.
A Embaixada limpa a sua consciência ao “enfatizar a nossa preocupação pelo bem-estar de civis palestinos inocentes e a prontidão dos EUA para fornecer ajuda humanitária.” Esta é a única vez em que se mencionam os civis palestinos inocentes em toda a coleção de telegramas.
A hipocrisia é alarmante. Obviamente, a parcialidade dos EUA aqui demonstrada não é um fenômeno novo. Mas aqui está, preto no branco, – ou mais acertadamente, em risca de giz: diplomacia como cheerleader [1] pelo massacre e genocídio (um termo usado por não muitos judeus e outros comentadores durante o ataque de Gaza). Tais atrocidades estão bem diante dos olhos dos EUA se forem cometidas por Israel, mas ao Hamas não é permitido.
19 de Janeiro de 2011
Kathleen Christison
Kathleen Christison é uma ex analista política da CIA e é autora de vários livros sobre a situação Palestina, incluindo “Palestine in Pieces”, co-escrito com o seu falecido marido, Bill Christison. Pode ser contactada através do e-mail: kb.christison@earthlink.net
Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
Nota de tradução
      [1] Optou-se por deixar o termo original, já que o conceito em inglês é mais preciso e representativo do fenômeno em causa do que a sua tradução para “líder de claque”.

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Extraído do Esquerda.ne

domingo, 6 de junho de 2010

Robert Fisk: A verdade por trás da propaganda israelense

5/6/2010, The Independent, UK – Traduzido por Caia Fittipaldi

Eu também, claro, horrorizei-me ao ver homens armados abordando navios em águas internacionais, matando passageiros a bordo que tentavam resistir e em seguida sequestrando o barco e atracá-lo em porto nacional dos piratas sequestradores. Falo, claro, dos piratas somalis que agem em águas ocidentais no Oceano Índico. Como se atrevem, esses terroristas, a tocar em nossos barcos desarmados em alto mar? Temos todo o direito de enviar nossos navios de guerra, para impedir a ação desses terroristas.

Mas... ufa! Sorte, que os israelenses não cobraram resgate! Só querem que os jornalistas vençam, em nome deles, a guerra da propaganda.

A semana mal raiara, e “comandos” de Israel atacaram um barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza e mataram nove passageiros. No final da semana, os que protestaram contra esse assalto já estavam convertidos em “ativistas pacifistas armados”, antissemitas pervertidos, que “professam o pacifismo, mas destilam ódio, atacando outros seres humanos com porretes de metal”. Gostei da parte ficcional. A evidência de que os seres humanos que se defenderam com barras de metal estavam recebendo tiros à queima-roupa foi varrida dessa estranha versão dos fatos.

Declaração de uma família turca, de que seus filhos haviam dito que queriam ser mártires – coisa que muitos membros de muitas famílias turcas diriam, se seus parentes fossem assassinados à queima-roupa por israelenses – foram convertidas em prova de que o barco turco conduzia jihadis.

“Naquele barco”, escreveu-me alguém nascido no Sri Lanka, “estavam minha sobrinha, meu sobrinho e a esposa. Infelizmente, Ahmed (meu sobrinho, 20 anos) foi ferido à bala na perna e está hospitalizado, sob custódia militar. Havendo notícias, escrevo.” E escreveu. Poucas horas depois, a imprensa cercou a casa da família na Austrália, perguntando se Ahmed seria jihadi – ou, talvez, potencial suicida-bomba. A propaganda funciona, vejam só.

Não vimos um bit de filme dos protestos, em todo o mundo, porque os israelenses confiscaram tudo. Ninguém explicou por que – se o barco turco conduzia gente tão perigosa – o terrível complô para ajudar os “terroristas” de Gaza não foi descoberto durante a longa viagem desde a Turquia, sequer quando o barco atracou noutros portos. Pois o professor Gil Troy da Universidade McGill em Montreal – em matéria publicada no raivoso e fanático Canadian National Post, é claro – ainda repetia esse lixo sobre “ativistas pacifistas armados”, na 5ª-feira.

Pessoalmente, a matança no barco turco não me surpreendeu. No Líbano, vi esses esquadrões da morte, simulacros de exército, em ação – simulacros de exército, como são também os esquadrões da morte (“grupos de elite”) dos exércitos árabes –, matando civis. Vi-os também, assistindo sem intervir ao massacre de palestinos em Sabra e Shatila na manhã de 18 de setembro (último dia da matança); naquela ação, foram substituídos pelos aliados viciosos das milícias libanesas, mais do mesmo. Eu os vi, em Qana, no primeiro massacre de palestinos por pistoleiros israelenses, em 1996; um dos pistoleiros, na imprensa israelense, chamou os 106 civis mortos de “Arabushim” (termo racista e ofensivo para “árabes”). Mais da metade dos mortos eram crianças. Pouco depois , o governo israelense de Shimon Peres (Prêmio Nobel da Paz!), disse que havia terroristas entre os civis. Mentira, mas... quem liga? E depois, veio o segundo massacre de Qana em 2006 e depois a matança de 1.300 palestinos no ataque de Israel a Gaza em 2008-09, e depois...

Ora, depois veio o Relatório Goldstone, que descobriu que o exército de Israel (e o Hamás) cometeu crimes de guerra em Gaza. Mas todos foram declarados antissemitas – o pobre respeitável juiz Goldstone, ele próprio judeu, além de renomado jurista sul-africano, massacrado também, e declarado “homem do mal” pelo abominável Al Dershowitz de Harvard. – E o relatório foi decretado “controverso” pelo bravo governo Obama. “Controverso”, em inglês, significa “fuck you”. Há dúvidas sobre o relatório. Negócio barra pesada.

Mas voltemos à nossa cronologia. Depois, houve o assassinado, pelo Mossad, de um dirigente do Hamás, em Dubai. Os israelenses usaram pelo menos 19 passaportes britânicos e de outros países, roubados e adulterados. Qual foi a patética reação do então secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband? Disse que fora “um incidente”. Não o assassinato em Dubai, vejam só, mas a adulteração dos passaportes, assunto super “controverso”, claro. E depois... Aí está. Agora, nove pessoas foram assassinadas a tiros, no mar, por mais dúzia e meia de heróis de Israel.

O engraçado é que tantos jornalistas ocidentais – e incluo aqui a acovardada cobertura da BBC, do ataque aos barcos de ajuda humanitária – estão escrevendo exatamente como a maioria dos jornalistas israelenses. Ao mesmo tempo, muitos jornalistas israelenses escrevem, em Israel, com a coragem que se deveria esperar da ‘mídia’ ‘livre’. E escrevem lá, contra o exército israelense.

Vejam Amos Harel, no Haaretz [1], em matéria na qual analisa a formação do corpo de oficiais do exército de Israel. No passado, muitos saíam dos kibbutz de tradição socialista, de Telavive ou das planícies costeiras de Sharon. Em 1990, só 2% dos cadetes do exército eram judeus ortodoxos religiosos. Hoje, essa proporção já chega a 30%. Seis, dos sete tenentes-coroneis da Brigada Golani, são religiosos. Mais de 50% dos comandantes locais são religiosos “nacionais”, em algumas brigadas de infantaria.

Nada de mal, em alguém ser religioso. Mas – e embora Harel não destaque esse aspecto, apenas registre – muitos dos judeus ortodoxos apoiam a colonização da Cisjordânia e opõem-se à criação de um Estado palestino.

E os colonos ortodoxos são os que mais odeiam os palestinos, e querem tanto detonar qualquer chance de haver Estado palestino, quanto alguns oficiais do Hamás gostariam de detonar o Estado de Israel. Por ironia, foram os antigos oficiais do “velho” exército israelense, que estimularam os “terroristas” do Hamás a construir mesquitas em Gaza. Pretendiam contrabalançar, com mesquitas, o crescimento do “terrorista” Yasser Arafat, em Beirute. E fui testemunha de uma de suas reuniões. Mas a coisa continuará como sempre, a velha história, até que o mundo acorde. “Nunca vi exército mais democrático que o exército de Israel”, disse o infeliz filósofo francês Bernard-Henri Lévy, horas antes do morticínio.

É, o exército de Israel não tem rival, é a elite, é humanitário, heróico. Esperem só até os piratas somalis saberem disso!

O artigo original em inglês, pode ser lido em: Robert Fisk: The truth behind the Israeli propaganda

Nota de tradução [1] Ver Has the IDF become an army of settlers? [O exército de Israel converteu-se em exército de colonos religiosos fundamentalistas?], 6/6/2010.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Johann Hari:O mundo de mãos dadas, atravessará o mar

Johann Hari:O mundo de mãos dadas, atravessará o mar

4/6/2010, The Independent, UK (traduzido por Caia Fittipaldi)

Será que todos temos de nos calar contra agressões aos direitos humanos porque aconteçam longe de nós, a gente que não conhecemos, de cor diferente, cultura ou credo diferentes? Há movimento que diz que sim, crescendo no mundo; que qualquer torrente de solidariedade deveria ser cauterizada nas fronteiras nacionais.

O mundo é partilhado por diferentes culturas e uma não deveria olhar ou comentar criticamente a outra. Em vez disso, todos deveríamos “respeitar as diferenças”. Poderíamos criticar os nossos iguais, não o diferente, o estrangeiro, porque seria incomparavelmente diferente de nós. É o que se ouve hoje, de uma estranha associação de diferentes, tão diferentes entre si quanto o governo de Israel, ditadores e alguns multiculturalistas ocidentais – e todos trabalham hoje para tornar lei esse impedimento de criticar.

Consideremos por um momento como essas ideias se estão impondo em dois locais do mundo em que trabalhei como repórter: na Palestina/Israel e em Honduras.

Todo o mundo já sabe, sem dúvida possível, que a marinha de guerra de Israel cometeu um massacre, a tiros de metralhadora com mira a laser, em navio civil que navegava em águas internacionais e levava produtos de ajuda humanitária ao povo bloqueado por Israel em Gaza – dos quais autoridades israelenses disseram, jocosamente, que não estariam passando fome; Israel apenas os pusera “sob dieta rigorosa”. O barco que tentava chegar a Gaza levava filhos de sobreviventes do Holocausto, uma laureada com o Prêmio Nobel da Paz, além de comida, remédios, cimento para reconstruir casas destruídas na Operação Chumbo Derretido, de Israel contra Gaza, em 2008-9.

Alguns homens que viajavam nos barcos, ao perceberem que estavam sob mira de metralhadoras israelenses, pegaram o que encontraram, para defender-se e defender o barco, barras de metal, pedaços de pau. Um iemenita tirou da cintura sua faca jambarya que todos os iemenitas levam à cintura, de fato, desde crianças. E os comandos israelenses invadiram o barco, já atirando. O exército israelense divulgou fotos para “provar” que havia outras armas a bordo – fotos que todos já vimos pela internet incontáveis vezes, exatamente as mesmas, exibidas inúmeras vezes, sempre pra provar, as mesmas fotos, que “havia armas” num ou noutro lugar atacado por Israel. Em algumas das fotos exibidas ontem, se via até a datação eletrônica: 2003.

Mas quantos sabem que o governo israelense vem silenciosa e continuamente obstruindo a ação de organizações de direitos humanos dentro de Israel? Em todos os casos, são organizações de judeus que lutam para levar o país onde vivem para caminho menos doentio, mais seguro e mais saudável?

Israel abriga vários dos mais formidáveis movimentos pela paz que há no mundo – gente que aprendeu da história dos judeus e luta incansavelmente contra todos os abusos contra os direitos humanos que se cometem em seu país. Esses militantes pacifistas israelenses – como informa Daniel Sokatch, diretor do grupo pró-paz New Israel Fund – “enfrentam hoje violenta e persistente campanha para promover a discórdia e calar toda a comunidade dos direitos humanos dentro de Israel”.

Os ataques começaram em 2008. O governo de Israel e os militares recusaram-se a cooperar com as investigações da ONU sobre o ataque a Gaza no Natal e início do ano. Mas os grupos israelenses de defesa de direitos humanos insistiram em cooperar com os investigadores da ONU e cooperaram. Quando o Relatório Goldstone foi afinal publicado, assinado por juiz judeu, comprovou-se que a investigação acontecera, meticulosa a acurada, com farta documentação do que realmente acontecera; e também condenava o Hamás, pelos foguetes antiquados, que lançavam sem alvo, contra território israelense e várias vezes atingiram civis. Mas, em ver de dispor-se a examinar o que os governantes israelenses haviam feito, muitos cidadãos israelenses passaram a atacar o relatório e o autor; ouviu-se de várias fontes que o relatório seria obra de uma “5ª coluna”, jornalistas e colunistas de jornal que haviam “colaborado” com a ONU.

Os ataques – em que grupos de defesa dos direitos humanos foram pintados como demônios traidores infiltrados, ou corrompidos pelo Hamás – focaram-se num detalhe: aqueles grupos eram patrocinados ou recebiam ajuda financeira de governos europeus.

Esse ano, o governo israelense anunciou que esses patrocínios ou a ajuda financeira a esses grupos indicaria “inaceitável intromissão na autonomia de Israel”. Em audiência no Parlamento, um dos deputados que mais furiosamente criticara a ação dos grupos pacifistas perguntou: “Que direito têm eles de criticar o governo israelense?"

Aquele Parlamento israelense acaba de aprovar lei que impede todos os grupos não-governamentais de direitos humanos de receber um shekel, que seja, de governos estrangeiros, sob pena de perderem o status de isentos de impostos; e exige, sob penas legais, que se apresentem como agentes pagos por governos estrangeiros, cada vez que fizerem declarações públicas. Vários líderes desses movimentos foram presos e detidos incontáveis vezes. E há políticos em Israel hoje que querem limitar ainda mais a atuação dos grupos de direitos humanos em território israelense. Há aqui, claro, um ridículo, cômico paradoxo: Israel não existiria nem sobreviveria sem o dinheiro que chove lá, dos EUA. E ninguém cogita de proibir a entrada daquele dinheiro, sob o (mesmo) argumento de que implica inaceitável intromissão na soberania de Israel. (...)

No outro extremo do mundo, em Honduras, o mesmo argumento – gente de fora não pode criticar os “nacionais” – apareceu também. Há um ano, o presidente Manuel Zelaya foi sequestrado e expulso do país por claque de militares da extrema-direita, depois de cometer o imperdoável pecado de pensar em redistribuir, legalmente, uma pequena parte da riqueza da elite, para os mais pobres. Forjaram-se então eleições absolutamente ilegais, boicotadas por mais da metade dos eleitores. Hoje, os membros da organização pacifista não-armada Frente Nacional de Resistência Popular, estão sendo misteriosamente assassinados por todo o país, e também são assassinados os jornalistas que tentam denunciar os crimes.

São pessoas como Claudia Brizuela, jornalista, que mantinha um programa de tendência oposicionista, de esquerda, no rádio, assassinada com um tiro no rosto à frente dos dois filhos, de dois e oito anos. Porta-voz do governo hondurenho riu, ao ser perguntado sobre esse assassinato e disse que “a Resistência” mata seus membros, “para causar tumulto”. Críticos desses novos esquadrões da morte são descritos como “agentes de Hugo Chávez e Evo Morales", governos estrangeiros que “não têm direito” de falar sobre Honduras.

Os mesmos argumentos pipocam nos lugares mais inesperados. Se escrevo em apoio aos direitos das mulheres muçulmanas em contextos de opressão, ou em apoio aos gays africanos, ou aos sindicalistas no Irã, logo vem o gás pimenta dos críticos, a clamar que eu não passaria de mais um “imperialista inglês”. Que nada sei da “nossa [deles] cultura”. Ele “não é muçulmano” nem “africano” nem “iraniano”. Há de tudo. Todos defendendo seus iguais contra os diferentes. São argumentos que, quase sempre, vêm de gente que se considera progressista, e que ficariam boquiabertos se descobrissem que estão usando argumentos idênticos aos da extrema-direita israelense e da ‘junta’ de generais hondurenhos.

Esse tipo de posição exagera ao absurdo as diferenças culturais.

Quando delegados de todo o mundo reuniram-se, imediatamente depois do Holocausto, para escrever a Declaração Universal dos Direitos do Homem, temiam que houvesse terrível dificuldade para definir os tais “direitos do homem”. Não houve dificuldade alguma.

Como logo se viu, as pessoas, em todos os cantos do mundo, aspiram a alguns direitos básicos – que em todas as culturas têm de ser defendidos contra um conjunto parecido de pessoas e interesses que se opõem à realização daqueles direitos, de fato, universais.

As diferenças culturais são muito menos importantes do que tantos ainda supõem. Nenhum ser humano quer ser torturado. Nenhum ser humano quer morrer de fome. Nenhum ser humano quer ser encarcerado sem julgamento e sem motivo. Mesmo em culturas em que esses atos são tornados ‘normais’ por alguns, as vítimas continuam a gritar e lutam. No momento em que a tortura começa, ou quando se fecha a porta da cela, todas as diferenças culturais desaparecem e só resta, da humanidade dos homens e mulheres, o desejo de recuperar a dignidade e a segurança roubadas. Isso é universal. Não há “cultura” na vítima de tortura, que a faça querer que a tortura prossiga.

Quem somos nós, então, para criticar governos de Israel ou Honduras? Somos pessoas que podemos – e devemos – nos opor aos crimes que aqueles governos cometem contra gente inocente. A isso se chama solidariedade.

É das poucas forças que ainda podem ajudar o povo de Gaza ou os dissidentes de Honduras, hoje. Em vez de nos fechar em nós mesmos, dentro de limites culturais e nacionais, temos, isso sim, de encher mais barcos e partir, levando comida, remédios e esperança a estranhos, completos estranhos, que sofrem.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Johann Hari: When hands across the sea are tied