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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Angela Davis, 2012: “Fui usada para espalhar o medo”


16/9/2012, Página12, Argentina (entrevista concedida a Luciano Monteagudo)
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Angela Davis (2012)
40 anos depois das graves acusações que a levara a ser julgada e presa nos EUA, em processo eminentemente político que teve grande repercussão internacional, Angela Davis analisa nesta entrevista aquela etapa difícil de sua vida. Ao referir-se à atual situação dos negros nos EUA, Angela diz que “as coisas são piores, hoje, com um negro na Casa Branca”. 

“Acho que meus princípios não mudaram em todos esses anos. Nem meu compromisso político.” É o que diz Angela Davis, uma das mais famosas ativistas políticas dos anos 1960 e 1970, figura icônica, não só pelo discurso fortemente revolucionário e pela destacada militância nos “Panteras Negras”, mas também pelo penteado “afro” que fez moda em todo o planeta entre as mulheres negras e brancas.

Hoje, com 68 anos, intelectual e professora universitária, formada na Universidade de Frankfurt onde estudou sob orientação de Herbert Marcuse, Angela Davis chegou ao Festival Internacional de Cinema de Toronto [Toronto International Film Festival], para apoiar o lançamento do documentário Free Angela & All Political Prisoners [Liberdade para Angela & Todos os Prisioneiros Políticos].  [1]

Dirigida por Shola Lynch, o filme narra os padecimentos de Davis há 42 anos, quando foi envolvida pelo FBI no sequestro e morte do juiz Harold Haley, do condado de Marin, na Califórnia [2]. Angela acabou por ser absolvida, apesar da pressão que fez contra ela o governador da California, Ronald Reagan, o qual, em 1969, conseguira expulsá-la da Universidade da California (UCLA) pela declarada militância de Davis no Partido Comunista.

Foragida da Justiça, na qual evidentemente não confiava, Angela Davis chegou a integrar, aos 24 anos, a lista dos 10 foragidos mais procurados do FBI, até afinal ser localizada e presa, em outubro de 1970. Cresceu então uma campanha internacional por sua libertação, que contou com a solidariedade até de John Lennon e Yoko Ono, que compuseram a canção “Angela” para seu LP Some Time in New York City (1972 [3]), e dos Rolling Stones, que gravaram um single, “Sweet Black Angel”, incluído em seguida no álbum Exile on Main Street (1972  [4]).

Angela Davis(1970)
“Nunca procurei esse grau de exposição pública e foi muito difícil de aceitar, naquela época” – lembra Miss Davis em entrevista exclusiva ao jornal Página/12, numa suíte do Soho Metrotel de Toronto. “Minha aproximação original foi estritamente política, e nem nos meus sonhos mais loucos pensei que seria empurrada nessa direção. Mas, ao mesmo tempo, fui consciente de que era algo com que teria de aprender a conviver. Portanto, decidi tratar de usar aquilo tudo, nem tanto em meu nome, mas em nome de tanta gente que não tinha voz naquele momento”.

Página/12: A senhora refere-se a seus companheiros de militância nos Panteras Negras?

Angela Davis: Exatamente. Porque a campanha nacional pela minha libertação começou sob a bandeira de “Libertem Angela Davis”, mas decidi que teria de ser “Libertem Angela Davis e todos os presos políticos” – a frase que Shola Lynch escolheu para título do seu documentário.

P/12: No filme, a senhora diz que a tripla pena de morte que os promotores pediram, no seu caso, não se dirigia pessoalmente à senhora, mas a toda a construção que a senhora encarnava. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Angela Davis: Logo percebi que todo aquela fúria contra mim excedia minha pessoa e a minha situação pessoal. Em primeiro lugar, porque não conseguiriam me executar três vezes  [5]. Percebi também do que se tratava ali. Estavam decididos a matar um inimigo imaginário que estava sendo construído. E eu era a encarnação perfeita do inimigo que eles começavam a construir: negra, mulher e comunista. Quando o FBI começou a me perseguir, aproveitaram prender centenas de mulheres negras e jovens como eu. Aproveitaram a situação para tentar espalhar o medo em toda a comunidade negra nos EUA.

P/12: Desde então, o que mudou?

Angela Davis: Acho que muitas coisas mudaram. E penso que mudaram, em grande medida, por causa da luta que fizemos. Quando cheguei à universidade, eram raríssimas as negras em cursos superiores nos EUA. Hoje, são milhões, embora ainda haja enorme desproporção entre negros e brancos nos cursos superiores. Hoje o que me angustia muito é que, naquele tempo, quando lutávamos pela libertação de todos os presos políticos em especial e contra a instituição carcerária em geral, surpreendeu-nos muito a quantidade de gente presa nos EUA. Mas hoje, esse número é muitas vezes maior. Hoje, em meu país, há 2,5 milhões de pessoas encarceradas. Um, de cada 37 adultos vive no sistema penitenciário. É porcentagem altíssima. Os EUA somos o país de maior população encarcerada no mundo.

P/12: E a que a senhora atribui isso?

Angela Davis: Há a miséria, sem dúvida. A maioria dos homens negros jovens nos EUA estão hoje desempregados. Há aí o problema político, mas há também o racismo. É verdade que os livros escolares já não manifestam abertamente o racismo, como antes, e que já não há segregação racial oficial, mas em muitos sentidos a situação é hoje pior que antes, há meio século.

P/12: Apesar do presidente afroamericano, Barack Obama?

Angela Davis: Sim, é triste dizer, mas as coisas são piores com um presidente afroamericano na Casa Branca. Essa é a ironia. Porque há meio século era impensável que um negro chegasse, algum dia à presidência dos EUA. Hoje, é possível. Mas também é preciso dizer que ninguém, na Casa Branca, hoje, está preocupado com o fato de que há um milhão de negros nas prisões norte-americanas. E isso tem relação direta com o desmantelamento completo do sistema de bem-estar social e com a desindustrialização pela qual os EUA estão passando, e a consequente perda de postos de trabalho. Antes, a população negra tinha onde trabalhar, na indústria siderúrgica, na indústria automobilística, em tantas outras indústrias que já deixaram os EUA e mudaram-se para outros países onde a mão de obra é muito mais barata. Eu nasci e fui criada em Birmingham, Alabama, e ali a indústria siderúrgica era a principal fonte de trabalho. Ainda é, mas com muito menos postos de trabalho que antes. E se se soma a isso a falta de assistência social, a falta de educação, a falta de sistema eficiente de assistência pública à saúde, as prisões viram uma espécie de solução ao avesso, para todos os problemas sociais que não recebem qualquer atenção política.

P/12: Já que falamos de prisões... Por que, na sua avaliação, Obama não cumpriu a promessa de fechar a prisão de Guantánamo?

Angela Davis: Deveria tê-la fechado no primeiro momento. Deveria ter sido seu primeiro ato oficial. Em vários sentidos, a chamada “guerra ao terrorismo” atropelou Obama. Mas também é verdade que a principal razão pela qual Obama não fechou Guantánamo foi que não saímos às ruas para exigir que fechasse. Em várias instâncias, os eleitores que elegeram Obama não se mantiveram mobilizados e em alerta. Teria sido preciso criar um movimento para fechar Guantánamo, um movimento que pressionasse, até Guantánamo ser fechada. Também para criar melhor sistema de saúde pública, de educação etc. São coisas que ainda temos de fazer.

P/12: Para as próximas eleições?

Angela Davis: Claro. Já. Imediatamente. Temos de sair e ocupar os espaços, construir para nós uma dimensão do que é necessário e possível fazer.



Notas dos tradutores

[1]  Assista trailer a seguir:

[2]  Dia 7/8/1970, militantes dos “Soledad brothers”, grupo militante muito ativo na luta pela reforma da legislação carcerária nos EUA, tentou uma fuga durante uma sessão do tribunal que os julgava. A ação resultou na morte do Juiz Harold Haley, de um jurado, de um advogado de acusação e de três negros. As investigações logo revelaram que as armas usadas na tentativa de fuga haviam sido compradas por Davis, e, para piorar, encontraram-se cartas de amor que ela teria enviado a George Jackson, um dos envolvidos na tentativa de fuga. Davis fugiu antes de ser presa [Com informações de: “TIFF Review: ‘Free Angela & All Political Prisoners’ A Fascinating Chronicle Of Justice & Strength”].

[3]  Pode ser ouvido a seguir:


[4]  Pode ser ouvido a seguir:


[5]  Angela Davis foi acusada de prática de conspiração, assassinato e sequestro; nas três acusações a promotoria pediu a pena de morte [Com informações de: “TIFF Review: ‘Free Angela & All Political Prisoners’ A Fascinating Chronicle Of Justice & Strength”].

segunda-feira, 26 de março de 2012

Manifesto dos “Novos Panteras Negras” - "Somos Trayvon Martin"


Occupy Wall Street, sábado 24/3/2012 - EUA

Traduzido pelo  pessoal da Vila Vudu


Leia também:
“Somos Trayvon Martin” (sábado, Chicago) - Huffington Post
“Occupy Chicago Plans 'We Are Trayvon Martin' March (PHOTOS)”
LeBron James e Dwayne Wade colocaram mensagens nos tenis: “RIP Trayvon Martin”.


PARA DISTRIBUIÇÃO IMEDIATA: 25/3/2012
NEW BLACK PANTHER PARTY
Phone: (502) 299 8530 (904) 705 8556
twitter:@Trayvonmovement

NOVO PARTIDO DOS PANTERAS NEGRAS OFERECE: Recompensa de $10,000 pela captura e prisão-cidadã legal de George Zimmerman, que matou TRAYVON MARTIN

O NOVO  PARTIDO DOS PANTERAS NEGRAS PARA AUTODEFESA, grupo ativista com sede nos EUA e com várias subseções na Florida, anunciou hoje que está oferecendo recompensa de $10.000 pela captura e prisão de George Zimmerman, pistoleiro e matador de Trayvon Williams, que não portava arma.

O dinheiro para pagar essa recompensa está sendo coletado entre membros de igrejas, da comunidade e ativistas em geral.

O assassinato de TRAYVON WILLIAMS chocou a consciência da nação e fez entrar em irrupção, outra vez, um vulcão racista nos EUA, depois que Zimmerman, 28, baleou e matou um jovem de 17 anos, TRAYYVON WILLIAMS, dia 26 de fevereiro passado.

O advogado MALIK ZULU SHABAZZ, presidente dos Advogados Negros por Justiça, e o Novo Partido dos Panteras Negras declaram:

“A evidência de que a Polícia ouviu mas não prendeu GEORGE ZIMMERMAN, apesar de haver muitos indícios de causa provável de crime e de que a Polícia não investigou sua ficha policial nem investigou devidamente esse caso é chocante, inadmissível para qualquer consciência civilizada e inaceitável.

Se a situação fosse inversa, e um homem negro tivesse baleado e morto a tiros um adolescente branco, com fitas gravadas que sugerem fortemente disposição preconceituosa para o crime, ninguém tem qualquer dúvida de que aquele homem negro teria sido preso em flagrante”.

CHAWN KWELI, porta-voz nacional do Partido dos Novos Panteras Negras, declara:

“Não podemos ficar sentados e admitir que ZIMMERMAN permaneça em liberdade, porque representa perigo para ele próprio e para outros.

Exigimos que a Polícia faça o que existe para fazer e prenda e indicie Zimmerman formalmente por assassinato em 1º grau. Enquanto isso não acontece, temos de usar nossos direitos constitucionais e a lei do estado da Florida, para organizar uma movimento cidadão de captura e prisão, para garantir que se faça justiça”.

Nosso objetivo é aumentar a recompensa, hoje de $10.000, para $100.000