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terça-feira, 26 de maio de 2015

Onda grega de “antiausteridade” (é antiarrocho) implica dramáticas novas dificuldades para a Espanha


25/5/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Portugal ANTIARROCHO!
Semana passada, em Forças da esquerda portuguesa expõem-se à fúria da troika (ing.) destacamos o Partido Socialista de Portugal, que aparece à frente nas pesquisas para as eleições previstas para outubro, e que prometeu aplicar uma “política reversa”, no que tenha a ver com “austeridade” e com credores do país. Argumentamos naquele postado que a ascensão de partidos políticos de esquerda em toda a periferia significa que a Europa adotará linha cada vez mais dura nas negociações com a Grécia. Eis o que lá escrevemos:

A razão pela qual concessões (quaisquer concessões) aos gregos são absolutamente impossíveis e não acontecerão nas negociações em Atenas é que o FMI, a Comissão Europeia e mais especialmente a Alemanha querem disparar mensagem clara a quaisquer ‘radicais esquerdistas’ que talvez estejam pensando em usar a rotina do “um passo, e a ideia da indissolubilidade da União Monetária Europeia faz o resto” como meio para negociar e obter mais espaço para respirar contra as medidas da “austeridade”: vocês chegarão precisamente a lugar nenhum e, até lá, comerão o pão que o diabo amassou.

Com apenas dez dias até 5/6/2015, quando vence uma dívida com o FMI que Atenas com certeza quase absoluta não conseguirá saldar a menos que acerte alguma coisa para receber mais fundos de resgate, as coisas estão ficando bem mais interessantes no front político, depois que o Partido Popular da Espanha sofreu golpe eleitoral dramático no domingo, que lhe aplicaram os partidos Podemos de esquerda, e o Ciudadanos de centro-direita. Eis o que diz o Wall Street Journal (para assinantes):

Eleitores espanhóis puniram o Partido Popular (PP) governante nas eleições regionais e municipais, garantindo significativo apoio a dois partidos em ascensão que capitalizaram a fúria contra o alto desemprego, os cortes nos gastos públicos e a corrupção.

Já com praticamente todos os votos contados, vê-se que o partido conservador do Primeiro-Ministro Mariano Rajoy manteve o controle de apenas três, das 13 regiões onde houve ontem eleições para os parlamentos regionais. É o fim da dominação que o partido exercia desde 2011, quando venceu em dez regiões, em oito delas alcançando maioria absoluta.

Apesar de ter alcançado o maior número de votos no plano nacional, o Partido poderá enfrentar duras dificuldades para formar governos funcionais em muitas zonas que antes estavam sob seu controle, inclusive na cidade de Madrid, se não puder contar com o apoio dos partidos menores.

“É brutal sinal de despertar que a sociedade espanhola envia a um partido que usufruiu plena hegemonia em várias partes desse país” – disse Emilio Sáenz-Francés, professor de História e Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Comillas, em Madrid.

Disse que a eleição inaugura uma nova era na política espanhola, forçando humilhados partidos do establishment a recorrer ao toma-lá-dá-cá e a construir coalizões com partidos rivais para garantir a governabilidade.

Num aparente aperitivo do que poderá vir nas eleições nacionais no final do ano, nas quais Rajoy tentará obter um segundo mandato, a fatia dos votos nacionais que cabe ao seu partido caiu 10 pontos percentuais, dos 37% nas eleições locais e regionais de há quatro anos. Os eleitores mudaram-se para dois partidos recém-surgidos, o Podemos, de esquerda; e o Ciudadanos de centro-direita.

"Indignados" acampados na Puerta del Sol - Madri
Em Barcelona, a ativista de movimentos contra a miséria e contra despejos, Ada Colau (que lidera o partido En Comú Barcelona) foi eleita à Prefeitura, no que a nova prefeita chamou de uma vitória “de David contra Golias”; e o PP também fez triste papel em Madrid.

Nas palavras de The Guardian:

Movimentos populares de base de vários partidos políticos de esquerda, inclusive do Podemos, e de milhares de cidadãos, o partido Barcelona En Comú votou pela volta às mãos do povo, do poder de decisão na cidade, prometendo pôr fim aos despejos de moradias familiares, aumentar as oportunidades de moradia pública e redistribuir a riqueza da cidade. O partido de Colau elegeu 11 das 41 cadeiras com direito a voto no Conselho Municipal, o que significa que a nova Prefeita terá de formar alianças para conseguir governar.

Em Madrid, o Partido Popular não está seguro de controlar o poder, na capital que dominou nos últimos vinte anos.

A candidata do PP, Esperanza Aguirre, 63, que é condessa por casamento, saiu à frente, na eleição do domingo, e conseguiu 21 cadeiras com voto no Conselho da cidade.

Aguirre é considerada linha-dura; com campanha milionária, conseguiu chegar à frente por pequena diferença de votos, da segunda colocada, a “indignada” Manuela Carmena, da coalizão Ahora Madrid apoiada pelo  Podemos.

Os resultados sugerem que agora começará a construção das coalizões, processo que será provavelmente complicado, porque alguns eleitores podem sentir-se traídos, se o Podemos ou o Ciudadanos for visto como em “cooperação” com seus rivais.


The NY Times resumindo tudo:

Mas as eleições [na Espanha] não produziram o resultado claro, de candidato eleito sem contestação de há quatro anos, quando o Partido Popular conservador chegou ao poder, quando os eleitores optaram por castigar os socialistas por terem afundado a Espanha numa crise econômica. Diferente disso, a eleição do domingo verá, com os futuros desdobramentos, um tenso processo de negociações em Madrid para construir coalizão capaz de governar, seja em Madrid seja em grande parte do resto da Espanha.

As eleições foram vistas como um termômetro para que o PP governante e o primeiro-ministro Mariano Rajoy possam aferir as próprias chances de vencer nas eleições gerais do final do corrente ano.

Apesar de o Partido Popular ter recebido maior quantidade de votos, segundo os primeiros resultados perdeu a maioria parlamentar com que contava, na maioria, se não em todas, as províncias da Espanha. Esse revés torna provável que os partidos de esquerda venham a unir forças nas próximas semanas, para afastar o Partido Popular e formar governos de coalizão.

...e Barclays acrescenta nuances à construção de coalizões:

Entendemos que nenhum dos dois novos partidos, Podemos e Ciudadanos, tem interesse em coalizões com o PP ou com o PSOE no próximo mandato. Como já dissemos, esses partidos poderiam ser castigados pelos eleitores se formarem coalizões e assumirem compromissos para as eleições gerais que acontecerão no outono. Além disso, os dois partidos concorreram apoiados em plataformas fortes, contra a corrupção, e portanto estarão demarcando linhas vermelhas muito rígidas nessas questões, para que possam apoiar qualquer dos dois partidos tradicionais. Mas uma diferença crucial entre os novos partidos é que Ciudadanos talvez se interesse por coalizões, com o PP ou com o PSOE, uma vez que a agenda política de Ciudadanos pode estar mais próxima dos partidos tradicionais, se comparada à agenda do Podemos. É altamente improvável que Podemos venha a coligar-se com o conservador PP …

O desdobramento mais importante das eleições regionais e municipais do fim de semana na Espanha (24/5/2015) só o veremos nos próximos dias/semanas, no comportamento dos quatro principais partidos (PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos), uma vez que os resultados oferecem poucas maiorias absolutas. Esses quatro partidos terão de se engajar em complexas conversas com vista a coalizões. Podemos e Ciudadanos talvez demarquem “linhas vermelhas” se se coligarem com PP e PSOE.

Na verdade, em alguns casos, podem escolher deixar que governos minoritários governem, se as coalizões implicarem custo político alto demais para os parceiros minoritários das coalizões, e pouco tempo antes das eleições gerais em Nov/Dec 2015 (a data exata ainda não está marcada).

Pablo Iglesias - Podemos
Os resultados indicam que a paciência está-se acabando, ante 25% de desemprego e arrocho (“austeridade”) crescente. Imaginamos que haverá umas poucas discussões a portas fechadas entre as “instituições”, agora que parece muitíssimo provável que a Espanha elegerá quem lhe faça as promessas eleitorais que levaram o Partido Syriza ao poder, na Grécia, no início de 2015.

Nesse quadro, ainda mais difícil se torna que os gregos obtenham qualquer concessão na mesa de negociações, dado que a troika cuidará de ser extremamente cuidadosa sobre o tipo de mensagem que enviará aos novos “socialistas ascendentes” do mesmo bloco monetário.

Para que ninguém esqueça, o Gráfico abaixo mostra a relação Dívida/PIB na Espanha, nação pesadamente endividada da periferia da União Europeia (“Fauxterity” que se lê no gráfico, é algo como “falsa-falsa-austeridade”, mas nem isso é porque todas as “austeridades” são falsas: esse é o gráfico do ARROCHO na Espanha).

Espanha - Relação Dívida/PIB (1996 - 2014)

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[*] Tyler Durden é nome de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club(Clube de Luta).e pseudônimo coletivo dos redatores de notícia “que contribuem” para o site e agregador de conteúdos Zero Hedge, especializado em relatórios sobre Economia, Wall Street e Setor Financeiro.

sábado, 6 de julho de 2013

Snowden, Evo Morales e adeus às ilusões

O presidente Evo Morales desembarcou na Áustria cercado pela polícia

Publicado em 04/07/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - Os últimos acontecimentos na política internacional trazem uma luz didática para todas as pessoas que acreditam na liberdade e democracia do capitalismo. O mundo do capital, mais conhecido em propaganda e livros didáticos como o sistema de “livre mercado”, recebeu nestes dias uma clareza de desmonte.

Para situar os fatos nos últimos 30 dias, primeiro Edward Snowden, um ex-técnico da CIA, revelou para todo o planeta que o governo dos Estados Unidos espiona a vida íntima, pessoal de cidadãos não só no território norte-americano.

Se ficasse somente entre os governados por Obama, a espionagem já seria um escândalo, uma prova hard e real do imaginado pelo escritor George Orwell, quando profetizou a existência do Big Brother. Mas o revelado pelo funcionário da CIA foi mais longe.

Diplomatas e governos da União Europeia são também espionados.

E mais: todos somos rastreados nos telefones celulares e nas informações da internet que passem pelo Google, Apple e o Facebook.

E-mails, fotos e outros arquivos dos usuários em todo o mundo são aprisionados. O que é uma realização dos evangelhos: nada escapa aos olhos de Deus.

Depois veio o que nos atinge mais direto na carne.

Presidente Evo Morales foi recebido com festa em Cochabamba
Evo Morales, soberano presidente da soberana Bolívia, depois de uma visita a Moscou, foi proibido de passar pelo espaço aéreo de Portugal, França, Espanha e Itália. Isso porque havia a suspeita de que o avião presidencial transportasse, também, Edward Snowden.

Notem até onde vai o adeus às ilusões de liberdade, democracia e respeito à soberania dos povos.

As nações europeias, elas próprias espionadas, obedeceram à ordem da segurança do governo de Obama. Por hipótese ou suspeita, um chefe de Estado foi impedido de sobrevoar espaço aéreo de país amigo, sem qualquer declaração de guerra.

O espaço era livre, pensava Evo Morales ao sair de Moscou. Mas ficou provado que o céu não é do condor. É dos Estados Unidos.

Chris Sabatini
"USA Sparring"
Mas para o diretor de Políticas do Conselho das Américas – uma organização empresarial que produz análises e estudos sobre a América Latina – Christopher Sabatini, a questão é bem mais simples.


Parceria é uma via de duas mãos. Para um país ser tratado com respeito, precisa respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro.

Entendem? Para Christopher Lee, digo, Sabatini, o presidente Evo Morales foi desrespeitado porque não teria respeitado a segurança dos Estados Unidos. Notem que a frase “respeitar as prerrogativas de segurança nacional de outro" não tem o mesmo significado para todos os países do mundo. Pois o analista quer dizer: a segurança nacional do outro é sempre a segurança dos Estados Unidos.

Ou seja, no caso da Bolívia, o presidente Evo Morales pôde sofrer riscos à própria vida, mas não estava no uso da segurança nacional. Com pouco combustível no avião, passou pelo sufoco de um bloqueio do espaço aéreo no céu e por constrangimentos que são insuportáveis até mesmo para passageiros comuns. Ele teve que pousar em Viena, onde ficou 14 horas, até que sua rota fosse enfim autorizada. E depois, reabasteceu o avião no Brasil, na bela cidade de Fortaleza.

A nota oficial da presidenta Dilma foi a mais dura dos países sul-americanos:  
... O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável - a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente - além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia.

De passagem, vale destacar que o tempo da reação de nossa presidenta contra a agressão a Evo Morales, a demora do governo brasileiro em responder, não foi o que desejam os críticos mais sectários à esquerda, que são ótimos governantes em palavras e desejos. Mas para o colunista, importantes são a natureza da declaração e o peso que a economia mais poderosa da América Latina joga contra esse insulto a uma nação irmã.

E do meu canto concluo: importa mais a retirada da máscara de um mundo livre sob os Estados Unidos. Nestes últimos 30 dias, ficou demonstrado que o céu não é do condor.
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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus (Recife-Bertrand-Brasil, 2013).


Enviado por Direto da Redação

segunda-feira, 4 de março de 2013

A função da arte é contestar e permanecer na História


Protesto de Portugal e Europa contra a “austeridade”

Vejam/ouçam uma música composta em 1964, proibida e cantada em 1974 como símbolo da “Revolução dos Cravos” e hoje é cantada em toda a Europa. A arte revolucionária é permanente.
Enviado por Sílvio Tendler

O Povo Português canta a música de Zeca Afonso, Grândola Vila Morena que foi fulcral na Revolução dos Cravos (25 de Abril), durante a manifestação de 2 de Março 2013.



Pedro Passos Coelho, Primeiro Ministro de Portugal interrompido pela Grândola Vila Morena em 15/2/2013


Europa canta Grândola Vila Morena em várias línguas contra as políticas da “Troika”(FMI, BCE e CE) em 22/2/2013


sexta-feira, 1 de junho de 2012

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…”



Ponta Delgada  (Açores - Portugal)
Artur Rosa Teixeira
1 de junho de 2012 


Se ficar...
Os brasileiros têm destas coisas… Em poucas palavras são capazes de caracterizar uma situação complexa. A expressão que escolhemos para título deste artigo é exemplo disso e aplica-se que nem uma luva ao “beco sem saída” para o qual os portugueses estão a ser empurrados…

Os europeístas têm vindo a insistir na necessidade imperiosa de transformar a União Europeia num Estado Federado, com efetiva unidade politica e económica. Tal é apresentado como a única solução para atual crise financeira e económica que grassa na Europa. O abandono do Euro, segundo eles, será o caos… Será uma espécie de Tragédia Grega…

Na verdade, em boa parte os Estados membros da União Europeia já perderam uma parcela substancial da sua soberania. Ao aderirem a uma moeda única, o Euro, abdicaram do ato soberano de cunhar moeda própria e logo perderam a sua independência financeira e económica.

Se correr...
A retórica europeísta contudo chama-lhe de “soberania partilhada” que é para não espantar o Zé Povinho. É que assim até parece que vamos ter alguma voz na matéria… que podemos dizer aos nossos parceiros alemães e franceses, “alto lá parem o baile” que também mandamos…

Ledo engano!

Sem moeda, não existe Comércio e sem este, não existe Economia que proporcione Desenvolvimento, ou seja, que possa satisfazer as expectativas de Progresso Social de uma Sociedade.

Por sua vez, sem moeda própria, nenhuma Economia é verdadeiramente autónoma, nem mesmo as mais fortes, e logo, do ponto de vista político, um País, nessas circunstâncias, está condenado a desaparecer como entidade independente.

Tal facto contudo acentua-se nas economias mais débeis, como acontece com os países da Europa periférica, que têm Balanças Comerciais deficitárias.

Pelo contrário, aqueles que apresentam robustez económica, porque já a tinham antes da moeda única, a “Soberania Partilhada” não lhes faz mossa… Em grande parte até lhes trás vantagens, uma vez que a sua Balança Comercial é positiva, ou seja exportam mais do que importam. E é positiva, em grande parte, graças às exportações para os ditos “periféricos”. Eis porque vemos uma Alemanha e até uma França mandarem bitaites aos pequenos mal comportados da Zona Euro… como se já fossem os donos do pedaço…

... O bicho pega

Claro que a falta de Independência Financeira e Económica condiciona a vida política de um país. Embora se diga que o Centro do Poder resida no povo, a verdade é que só formalmente isso é verdade.

Nas grandes decisões o cidadão não somente não toma parte, como estas são-lhe apresentadas como facto consumado. São previamente tomadas pelos que comandam o Sistema Financeiro Internacional e ao eleitor apenas cabe escolher o que está já escolhido ou, quando não, escolher entre viver ou morrer…

Daí que estejamos entre dois males, continuar ou sair do Euro. Qual deles o menor? Falta saber…

Repare o leitor que a mudança da moeda não foi apenas um expediente meramente técnico, justificado pela existência de um mercado comum, exigindo a simplificação nas trocas comerciais.

Implicou e implica uma alteração política significativa que passou despercebida aos olhos da maioria da população.

Quem tem a faculdade exclusiva de produzir um bem universal como é a moeda, tão indispensável à Economia de um País, tem também o Poder Politico de ditar e condicionar a vida dos cidadãos. Daí a interferência cada vez maior de Organizações Extranacionais, às vezes em coisas tão irrisórias como as dimensões de uma gaiola para o transporte de galinhas… por exemplo.

O BCE não é apenas o banco emissor do Euro. Compete-lhe zelar pelos interesses de todo o Sistema Financeiro e Bancário da União Europeia, de modo a manter a sua integridade sistémica.

Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega...

Veja-se que, graças a tratados leoninos como o de Maastricht e o de Lisboa, subscritos nas costas do povo, os bancos compram dinheiro ao Banco Central pela bagatela de 1% a 1,5% e vendem-no aos Estados Membros por 5%, no mínimo, estando estes proibidos não só de emitir moeda, mas também de aceder diretamente àquele crédito.

Por outro lado, o BCE, que é na verdade um banco central privado, não tão independente com se julga, atua concertadamente com outros centros congéneres, a começar pelo BIS, o banco dos bancos centrais, o Fed e a City Londrina, etc. Tal significa que o Sistema funciona em rede, com as diferentes partes solidárias entre si, garantindo que o Crédito e a Produção de Moeda não ponham em causa a sobrevivência do Capital Financeiro Internacional. Daí o seu funcionamento praticamente em “cartel”.

O crédito bancário substituiu a moeda nacional com vantagem evidente para o Sistema Financeiro e Bancário Internacional.

Graças à Reserva Fracionária, os bancos podem emitir moeda fictícia, sem qualquer lastro, e emprestá-la aos Países a juros, por vezes, extrusivos. Em caso de rutura financeira, por excesso de ativos podres ou má gestão, os bancos podem sempre contar com o Banco Central ou o Estado para lhes injetar liquidez.

Na sequência do Crash do imobiliário norte-americano, em 2008, houve de imediato uma injeção de liquidez na banca internacional, garantida em primeiro lugar pelos Estados e em segundo, pelos bancos centrais dos USA e da Europa, algo que teve contornos de escândalo, mas poucos comentadores salientaram esse facto.

Veja-se o que se passou com a “nacionalização” do BPN, onde o Estado português gastou milhões, para depois o vender por tostões…

Veja-se que no acordo com a Troika está inscrita uma avultada verba, 12 mil milhões de Euros, para socorrer os bancos, obrigatoriamente garantida pelo Estado Português, tal como se fosse um fiador…

Mais, o Estado vai comprar “papéis” (ações) dos bancos em dificuldade financeira, mas não terá voto na matéria, mesmo que a sua participação seja superior a 50%... Ora toma, que é democrático!

Nenhuma outra atividade económica, como o sector bancário, é tão protegida, o que contradiz a essência do próprio Capitalismo, que pressupõe riscos e concorrência.

Dá que pensar, não dá? 

A criação do Euro teve contornos hegelianos, como aliás tudo que se relaciona com a integração europeia.

O facto das grandes decisões terem sido tomadas sem qualquer referendo, embora este tenha sido prometido, justifica a nossa opinião.

Noam Chomsky
É que nestas coisas que mexem com o destino dos povos, convém que não se abra o jogo e se adoce a pilula com um bom argumento ou engodo… para que os objetivos ocultos da Elite Global possam ser atingidos, se possível com a colaboração das próprias vítimas… Noam Chomsky, filósofo e escritor canadiano, nas suas "Visões Alternativas”, descreve com clareza a fórmula que leva os povos a aceitar o engano:

“Criam-se os problemas e depois oferecem-se as soluções. Este método também é chamado de problemareaçãosolução. Cria-se um problema, uma "situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este se torne "suplicante” das medidas que se deseja implantar”.

Não admira, pois, que muita gente entenda que o melhor mesmo é entregarmos Portugal…

Mesmo agora, com a Crise do Euro, insiste-se numa via enganosa, para que o cidadão comum aceite a Austeridade como absolutamente necessária, passageira, ainda que não se diga quando termina. Aceite-a como uma necessidade imperiosa para salvar a Pátria…

Vamos ter, de facto, que atravessar o deserto, mas não por essa razão, mas para salvar o Sistema Financeiro e Bancário dos papeis podres que gerou com a especulação financeira elevada à estratosfera.

Os nossos governantes quando insistem no pagamento da Dívida Soberana já… nada mais estão a fazer que ir ao encontro desses interesses. Os bancos têm pressa de repor o que perderam… e por isso precisam do dinheiro vivo dos impostos… retirados ao Trabalho.    

A trama contra a independência dos povos não seria possível se não contasse com apoios internos, uns atuando consciente e objetivamente, outros, como “idiotas felizes”, acreditando na “bondade” do processo de Desconstrução Nacional, todos porém, vivem na expectativa de vantagens pessoais.

Veja-se que os do primeiro tipo, quando completam o seu mandato, têm tido à sua espera bons cargos em entidades internacionais controladas pela Elite Global, enquanto os do segundo tipo, ficam a ver navios…

Pudera, estes são a sua massa de manobra, que, como “operárias” de um formigueiro, morrem após a conclusão da sua tarefa…

Ocorreu previamente em Portugal um trabalho de sapa pela mão de governantes apátridas, alguns ainda no Poder, e de gentinha sem escrúpulos, que levou à destruição de sectores económicos fundamentais, que a existirem permitiriam enfrentar a Crise em melhores condições.

Desde logo, tal facto aumentou o défice da nossa Balança Comercial, gerando uma maior dependência de importação de bens e produtos, o que apenas favoreceu e favorece as potências económicas da Zona Euro, já que é delas que vem muita coisa que comemos e bebemos, além de originar uma sistemática falta de dinheiro no mercado interno.

Houve, portanto, uma política “deliberada” de desmantelamento das bases da nossa Economia, feita em nome de uma pseudomodernização do Capital Fixo existente.

Muitas atividades foram abandonadas sob o influxo dos Fundos Estruturais da CEE que pressupunham o abate das estruturas e meios produtivos existentes que convinham destruir para dar lugar, como deu, à entrada maciça de bens, produtos e equipamentos, com vantagem óbvia para os fornecedores estrangeiros e distribuidores nacionais.   

Claro que para chegarmos aqui, houve internamente muito laxismo político. Dizemos até, muita corrupção de princípios e valores.

Os governos promotores da integração europeia escamotearem as consequências negativas da adesão à CEE e esconderam o lado comprometedor dos tratados que subscreveram.

Apenas viram o dinheiro a entrar a rodo…

Parte entrou diretamente nos bolsos de alguns…

Ninguém cuidou de informar do preço que haveríamos de pagar por tanta “bondade” europeia, que se traduziu pela perda de autonomia Financeira e Económica.

Como diz o outro, não há jantares de borla…

Por outro lado, os governantes, de um modo geral, foram incompetentes na gestão dos recursos financeiros colocados à sua disposição, esbanjando-os em investimentos que mais das vezes serviram interesses privados, invés de servir o bem geral do país.

Veja-se o caso das Parcerias Públicas Privadas (PPPs), com contratos leoninos a favor dos concessionários, sobrecarregando o erário público por várias décadas; e o financiamento de Fundações, cujo objeto social e cultural é, do ponto de vista do interesse público, duvidoso, sobretudo quando existem carências sociais que ficam de fora do Orçamento de Estado ou são insuficientemente financiadas.

Obviamente este estado de coisas, já de si representando a corrupção das verdadeiras preocupações de um Estado de Direito, indicia que muito dinheiro público tem sido abusivamente desviado para pagar comissões e bónus em troca da adjudicação de contractos públicos altamente vantajosos para os privados.

Ao mesmo tempo que se afirma que a austeridade é absolutamente necessária para sair da crise e que até pode ser necessário fazer mais sacrifícios, diz-se que se assim não fosse, seria pior…

Mas com o desemprego a atingir perigosamente um milhão de trabalhadores e a fome a rondar a mesa de milhares de famílias, temos dúvidas se a solução contrária não seria menos penosa, ou seja, o abandono do Euro e o regresso ao Escudo.

Sacrifício por sacrifício, preferíamos fazê-lo por uma causa maior, a recuperação da Soberania Nacional. Pelo menos sabíamos que no final da linha, os portugueses voltariam a ser “donos do seu nariz”.

Como as coisas estão, temos a certeza que chegaremos ao fim mais pobres e mais dependentes dos “mercados”, essa entidade abstrata e difusa através da qual a Elite Global manobra para alcançar o seu objetivo final da criação de um Estado Global e Totalitário à escala do Planeta, de que a União Europeia é uma espécie de ensaio.  


Ilustrações extraídas da internet por redecastorphoto

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Primavera já virou outono


Praça Tahrir à noite de 27/11/2011

 Publicado em 27/11/2011 por Mário Augusto Jakobskind

Os egípcios voltaram às ruas para manifestar oposição aos militares que tentam se perpetuar no poder depois da derrubada de Hosny Mubarak. Foram duramente reprimidos no que resultou em mais de 30 mortos.

Os militares, na verdade “militares s.a”, porque controlam setores mais lucrativos da economia egípcia, imaginavam que com alguns paliativos conseguiriam iludir o povo que derrubou Mubarak. O povo mostrou que não é bobo.

Como se o controle da economia pelos militares não bastasse, o Estado egípcio é contemplado com mais de 1,2 bilhão de dólares anuais pelos Estados Unidos, exatamente para manter o principal país árabe em sua área de influência. Os militares pediram desculpas pela repressão, mas não se comprometeram a abandonar o poder mesmo depois das eleições, até porque temem perder as bocas conquistadas nas últimas décadas.  

É este verdadeiramente o contexto egípcio, que não pode ser ignorado e para que se julgue o pronunciamento quase diário de líderes ocidentais como Nicolas Sarkozy e Barack Obama ora em apoio às “reformas” (entre aspas mesmo) ou até mesmo nas eventuais críticas à violência. O nome disso é hipocrisia.

Em suma: palavras são palavras, mas a prática é que determina a verdade. Por estas e muitas outras, a chamada Primavera árabe só pode ser considerada primavera se prevalecer a vontade do povo. Com o controle dos militares s.a.  no Egito, o outono prevalece, não mais a primavera.  

Enquanto isso, na Líbia, o governo que tomou o poder com a derrubada de Muammar Kadafi, está preparando um espetáculo midiático que antes de começar já se sabe qual será o desfecho. Não é preciso nenhuma bola de cristal para prever que Saif al Islam Kadafi será condenado à morte pelas acusações que serão apresentadas no julgamento. O governo líbio avisou que não o entregará ao Tribunal Penal Internacional de Haia. Estão preparando um novo show midiático que será apresentado ao mundo e internamente.

O filho de Kadafi foi preso no deserto quando tentava ir para Niger. A prisão só foi possível graças à delação de um integrante de sua guarda pessoal, devidamente recompensado com 1 milhão de euros, segundo informações.

Por ironia da história, Saif al Islam foi o responsável pela anistia de integrantes da al Qaeda que cumpriam pena na Líbia, inclusive o que posteriormente veio a se tornar o comandante militar do grupo que tomou Trípoli e produziu um espetáculo midiático ao entrar no local onde vivia Kadafi. Saif era cotado como o sucessor político do pai.

Resta agora aguardar o desenrolar dos acontecimentos para conhecer melhor como será a Líbia, o país com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente africano (0,755), superior inclusive ao do Brasil (0,699).

Aguarda-se também constatar se esse índice utilizado pelas Nações Unidas para verificar como se encontra um país em termos de bem-estar de sua população será mantido. O tempo dirá.

Já em Portugal... 

Em Portugal, o socialista Mario Soares, 86 anos, que já exerceu os mais variados cargos, de presidente a primeiro ministro, reapareceu assinando um manifesto conclamando o povo a reagir ao neoliberalismo que está sendo imposto goela a dentro aos portugueses. Os trabalhadores, como em outras partes da Europa, reagem com uma greve geral, enquanto a mídia de mercado faz a apologia dos “técnicos” impostos pelo capital financeiro.

Por aqui a mídia não é muito diferente, embora a crise ainda não tenha aparecido com a intensidade dos países europeus e dos Estados Unidos. Os articulistas de sempre torcem desbragadamente por soluções contrárias aos interesses nacionais e do povo. Silenciam totalmente sobre um grave problema que vem se arrastando há anos, o da dívida pública. São 1 bilhão de reais por dia gastos para o pagamento dessa dívida. E nada comentam sobre o que está na Constituição cidadã de 1988 e não foi cumprida até hoje: a realização de uma auditoria dessa dívida.

Na Quarta-feira...

Na quarta-feira, 23 de novembro, por iniciativa do Deputado Paulo Ramos (PDT), a combatente latino-americana Soledad Viedma, assassinada pela ditadura brasileira, recebeu a Medalha Tiradentes pós morte, entregue à filha Ñasaindy.

Paraguaia de nascimento, Soledad engajou-se na luta dos povos contra o autoritarismo e injustiças sociais. Esteve no Uruguai e em determinado momento foi vítima da violência de grupos de extrema direita, que ao detê-la queriam que fizesse uma saudação a Hitler. Soledad se negou a fazê-lo e teve pintada uma suástica em parte do corpo, além de ter sofrido atos de violência física.

O poeta e escritor uruguaio Mario Benedetti a homenageou com um poema musicado pelo cantante e compositor Daniel Viglietti.

Em Recife, na década de 70, a equipe de bandidos do delegado Sergio Fleury a matou depois de ter sido delatada por Anselmo dos Santos, o agente da CIA que ganhou o título de cabo da Marinha sem sê-lo.

A solenidade na Alerj foi importante não apenas como reconhecimento a Soledad Viedma como também para que as novas gerações sejam informadas sobre quem lutou para que o Brasil alguma dia pudesse ser um país mais justo e solidário.

E, não podemos deixar de dizer sempre que crimes contra a humanidade cometidos de 64 a 85, que a recém-criada Comissão da Verdade vai investigar, são imprescritíveis. E isso, apesar de a lei de anistia promulgada ainda no período da ditadura e por pressão de grupos que nunca foram julgados, dizer ao contrário.

Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação