A
democracia iraniana está viva e vibrante. As divisões de 2009 já são passado, a
tal ponto que até o presidente Obama teve de admitir publicamente que Mahmoud
Ahmadinejad foi eleito em eleições legítimas e limpas, pela maioria dos
iranianos. O movimento Verde uniu-se à burguesia urbana, e parte da “juventude”
já amadureceu.
Hoje,
Washington já não acalenta qualquer esperança de derrubar o regime; então,
trabalha para dividi-lo. Os EUA bem que gostariam de extrair algum lucro da
atual crise entre a corrente religiosa do clã Larijani e a corrente nacionalista
da família Ahmadinejad.
A
aliança histórica entre as correntes religiosa e nacionalista está abalada pelo
fraco desempenho de Ali Larijani nas pesquisas eleitorais e pela avassaladora
popularidade de Ahmadinejad. Com as eleições de junho já batendo à porta, a
crise acabou por vir a público.
Ali Larijani e Mahmoud Ahmadinejad lado a lado no Parlamento iraniano
A
quatro meses das eleições no Irã, ainda não se sabe quem será o candidato que
substituirá o carismático Mahmoud Ahmadinejad para os próximos quatro anos. A
Constituição proíbe um 3º mandato para Ahmadinejad, mas ele pode manter-se
próximo ao poder e pode voltar nas eleições seguintes, como fez Vladimir Putin.
Em
2009, os protestos varreram Teerã e Isfahan: apoiadores do candidato liberal
acusavam as autoridades de ter manipulado os resultados das eleições. Esse
movimento rapidamente perdeu fôlego, mas deixou feridas profundas no movimento
da juventude. O qual foi afinal calado depois de uma massiva demonstração de
apoio às instituições da Revolução Islâmica. Os próprios iranianos teriam sido
convencidos pelos vencidos? Inúmeras vozes argumentaram que as instituições
estimularam os tumultos.
Hussein Moussaoui
A
juventude não conhecia o programa de Moussaoui e ignorava completamente que ele
promovia o capitalismo global e alinhava-se a ele. Erradamente, os jovens
supunham que Moussaoui representasse a moral social liberal. Sem perceber,
haviam sido persuadidos de que tinham de escolher entre “liberdades individuais”
e “o regime”. E os jovens desapareceram das cerimônias nacionais.
Surpreendidas
pela violência do protesto, as autoridades foram lentas em responder.
Primeiro,
houve uma defesa pela mídia. Por exemplo: um grupo de especialistas analisou
quadro a quadro o famoso vídeo do jovem Neda, apresentado como morto por forças
de segurança durante uma manifestação antirregime. Concluíram que o vídeo havia
sido forjado. Depois se organizaram grupos de discussão, mediados por
instrutores adultos que iniciaram os jovens na compreensão do pensamento dos
revolucionários iranianos mais velhos. Todos esses esforços deram fruto, e hoje
se vê outra vez forte participação dos iranianos com menos de 30 anos nas
recentes cerimônias nacionais oficiais.
Washington,
por sua vez, não poupou esforços para semear a cizânia na sociedade iraniana e
trabalhou para acentuar os conflitos generacionais.
Foram
criadas mais de uma centena de estações de televisão por satélite, em farsi,
para inundar o país com propaganda do “Sonho Norte-americano”. Conseguiram
distrair a atenção dos iranianos e afastá-los de suas redes locais e nacionais,
mas, no geral, não há sinais de que tenham seduzido a população que vota.
No
momento em que tantos se preparavam para mais uma tentativa de “revolução
colorida” e “mudança de regime”, a surpresa veio da coalizão governante.
A
confrontação clássica entre as facções religiosa e nacionalista endureceu e,
afinal, explodiu numa cena pública.
Aiatolá Ali Khamenei
O
presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente do Parlamento, Ali
Larijani, puseram-se a acusar-se mutuamente de proteger assessores corruptos. As
redes ocidentais em farsi exibiram imagens dos bate-bocas. Apesar das exortações
à calma e ao bom-senso, o Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei não consegue
acalmar os protagonistas.
Além
do mais, Ahmadinejad conta com apoio popular massivo em todo o país, exceto,
paradoxalmente, em Teerã, cidade da qual foi prefeito. A rápida industrialização
do país, programas recentes de redistribuição dos lucros do petróleo, pagos
mensalmente a todos os cidadãos adultos, e a construção de moradias por todo o
país vendidas a preços subsidiados, conquistaram os votos de trabalhadores
urbanos e da agricultura.
Ahmadinejad,
que sente que seu candidato será eleito por ampla margem de votos, não hesita em
desafiar a oposição mais religiosa, e mostra que, se dependesse dele, as
exigências dos jovens seriam atendidas. Permitiu-se inclusive celebrar uma “Miss
hijab”, para poder criticar mais livremente a lei que torna obrigatório o
uso do véu.
Sadeq Larijani
Ali
Larijani e seu irmão Sadeq (presidente do Judiciário) estão forçados a constatar
que o candidato rival está avançando no trabalho de promover a candidatura do
chefe de gabinete de Ahmadinejad, Rahim Mashaei Esfendiar. Esfendiar dedica-se a
reescrever discursos oficiais, trocando as referências religiosas por
referências mais universais, não tão exclusivamente xiitas.
Os
religiosos temem que essa flexibilização abra a porta para o declínio do Islã.
Responderam espalhando boatos de que a família Ahmadinejad perdeu a cabeça; que
se creem em contato direto com o Parlamento e, enquanto esperam, tenham garantir
lugar, reservando para eles mesmos uma cadeira no Conselho de Ministros.
Para
acalmar as coisas e preservar a unidade da Revolução, o Supremo Líder pode
exigir que o grupo Ahmadinejad indique candidato menos divisionista e
polarizador que Mashaei.
A
imprensa-empresa ocidental está em surto de esquizofrenia.
Enquanto
as redes em farsi só falam dessa confrontação, as redes europeias não publicam
uma linha sobre o caso. Só fazem continuar a induzir os públicos a crerem que o
Irã seria uma ditadura monolítica comandada por mulás.
Os
jovens, que tomaram as ruas contra “o regime” em 2009, já são hoje aplicados
apoiadores de Ahmadinejad e muito provavelmente votarão no candidato que
Ahmadinejad indique, em junho.
Os
jovens iranianos acreditam que, com Ahmadinejad (e seu candidato às próximas
eleições), a Revolução Islâmica conseguirá conciliar a libertação nacional e o
respeito pelas liberdades individuais.
Entrevista
transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu
Jürgen Todenhöfer: Sr. Presidente, membros da oposição
e políticos ocidentais têm dito que o senhor é o principal obstáculo à paz na
Síria. O senhor estaria disposto a renunciar à presidência, sendo essa condição
para a paz e para pôr fim ao banho de sangue?
Presidente Bashar
al-Assad: Não posso
fugir ao desafio que a Síria enfrenta hoje.Hoje a Síria enfrenta um desafio à
própria nação. O presidente não pode fugir. Por outro lado, ninguém pode
permanecer na presidência sem apoio popular. A resposta à sua pergunta não pode
vir de mim. Tem de vir do povo sírio, essa resposta tem de ser resposta pública,
que venha em eleições. Eu posso decidir concorrer ou não concorrer a eleições,
mas não posso decidir ficar na presidência ou deixá-la. Essa é decisão que cabe
ao povo sírio, em eleições.
Jürgen Todenhöfer: O senhor ainda tem maioria de apoio
popular na Síria?
Presidente Bashar
al-Assad: Se eu não
tivesse apoio popular, não poderia permanecer na posição onde estou. EUA estão
contra mim, o ocidente está contra mim, muitos poderes e países regionais estão
contra mim. Se o povo estivesse contra mim, já não estaria na posição
em que estou.
A resposta é sim, claro que tenho apoio popular. Porcentagens
não sei, nem interessam. Mas não há dúvida de que, para permanecer na
presidência da Síria, na situação que a Síria enfrenta hoje, sim, é claro que
tenho apoio popular.
Jürgen Todenhöfer: Assisti a algumas demonstrações
pacíficas, mesmo em Homs. Não é legítimo que as pessoas exijam mais liberdade,
mais democracia, menos poder nas mãos de uma família que governa o país, menos
poder para os serviços secretos?
Presidente Bashar
al-Assad: Para
responder corretamente, temos de corrigir essa pergunta. Na Síria não há
“família que governa o país”. Temos Estado na Síria, temos instituições, talvez
não instituições ideais, mas temos Estado e não há “família que governa o país”.
Temos Estado na Síria. Isso, quanto à pergunta. Agora, posso responder à
primeira parte de sua pergunta: é claro que aqueles manifestantes têm direito
legítimo de se manifestar. Mas não é verdade que os manifestantes só peçam
‘liberdade’. A maioria dos manifestantes legítimos pedem reformas, maior
participação no poder e no governo. Essas reivindicações são legítimas,
evidentemente, em qualquer lugar do mundo. Mas a maioria do povo sírio não está
nas manifestações. Mas, sim, claro, as manifestações são legítimas.
Jürgen Todenhöfer: A pergunta que todos estão fazendo
no ocidente e em seu país é quem matou os milhares de vítimas civis inocentes
que morreram nesse conflito? A oposição culpa o senhor.
Presidente Bashar
al-Assad: Para
saber quem matou, é preciso saber antes quem foi morto. Não há como descobrir o
criminoso sem saber quem é a vítima. A vasta maioria dos mortos são apoiadores
do governo. Como seria possível ser assassino e vítima, ao mesmo tempo? A
maioria das vítimas eram apoiadores do governo; e outra grande parte das demais
vítimas é gente inocente que estão sendo assassinados por vários diferentes
grupos na Síria.
Jürgen Todenhöfer: O senhor concorda que muitos, ou,
pelo menos, uma certa porcentagem desses civis vítimas, foram mortos pelos
serviços de segurança do seu governo? O senhor teria essa porcentagem?
Presidente Bashar
al-Assad: Não,
claro que não. O que temos é um Comitê que está investigando essas mortes. Até
aqui, sobre os crimes investigados, os nomes que já temos, as vítimas foram
assassinadas por gangues, diferentes tipos de gangues, da al-Qaeda, grupos
extremistas, criminosos e grupos de criminosos procurados pela polícia há anos.
Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que os
rebeldes, que o senhor chama de terroristas, mataram mais civis que as forças de
segurança?
Presidente Bashar
al-Assad: Não.
Estou dizendo que mataram mais agentes das forças de segurança e soldados, que
civis que apoiam o governo.
Jürgen Todenhöfer: Mas falando exclusivamente de civis.
Os rebeldes mataram mais civis que as forças de segurança, ou as forças de
segurança mataram mais civis?
Presidente Bashar
al-Assad: Como eu
disse, as vítimas que há nas forças de segurança e no exército são em número
muito maior que o número de vítimas que há entre civis.
Jürgen Todenhöfer: O senhor diz que há investigações
sobre membros das forças de segurança que podem ter matado civis inocentes. E
desses, alguém foi punido?
Presidente Bashar
al-Assad: Sim.
Vários estão presos e vários estão sendo julgados por outros crimes.
Jürgen Todenhöfer: Quem cometeu o massacre de Houla,
onde mais de 100 pessoas foram brutalmente assassinadas, entre elas muitas
crianças?
Presidente Bashar
al-Assad: Gangues
de criminosos de fora da cidade, não da cidade, que atacaram a cidade e as
forças da lei daquela cidade. E mataram muitas famílias, como você diz, e muitas
crianças e mulheres, e, de fato, as duas famílias que foram assassinadas eram
apoiadoras do governo. Não eram da oposição.
Jürgen Todenhöfer: Ouvi, de moradores de Houla,
sobreviventes das famílias que foram atacadas e mortas, que os atacantes usavam
uniformes militares do exército sírio. Por que usavam uniformes
militares?
Presidente Bashar
al-Assad: É prática
que já se observou muitas vezes. O Comitê de investigação sabe que isso
acontece: eles produzem vídeos e distribuem vídeos, vídeos falsos, onde aparecem
homens fardados com nosso uniforme militar. Esses, ao que se sabe, assassinaram
aquelas famílias.
Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que é
estratégia dos rebeldes?
Presidente Bashar
al-Assad: Sim, é.
Fazem isso sempre, desde o início. E não só em Houla, mas em vários pontos.
Jürgen Todenhöfer: Quem são esses rebeldes, que o
senhor chama de terroristas?
Presidente Bashar
al-Assad: São uma
mistura, um amálgama de al-Qaeda, outros extremistas, não necessariamente
ligados à al-Qaeda, além de criminosos que a Polícia procura há muito tempo
(traficantes e contrabandistas de drogas vindas da Europa e que transitam pela
Síria, além de outros, muitos dos quais condenados e foragidos da Polícia. É uma
mistura de coisas diferentes.
Jürgen
Todenhöfer: Quantos
seriam esses que lutam contra o governo?
Presidente Bashar
al-Assad: Não sei lhe dizer. Calculam-se em milhares.
Jürgen Todenhöfer: Quantos? 20, 30?
Presidente Bashar
al-Assad: Não posso
lhe dar números, porque não há números precisos.
Jürgen Todenhöfer: O senhor diria que todos esses
rebeldes são terroristas?
Presidente Bashar
al-Assad: Depende
do ato que pratiquem. Se atacam e queimam e destroem, sim, fazem terrorismo em
termos definidos na lei. Mas há muita gente implicada nos atos e que não são
criminosos, por diferentes razões. Às vezes, a razão é o dinheiro (porque são
pagos); às vezes, porque são ameaçados; às vezes movidos por algumas ideias ou
ilusões delirantes. Nem todos são terroristas. Essa é a razão pela qual muitos
foram absolvidos, quando aceitaram entregar as armas.
Jürgen Todenhöfer: O governo sírio encontrou homens da
al-Qaeda, entre esses já foram presos?
Presidente Bashar
al-Assad: Sim, sim.
Dezenas deles. [JT: De que países?] Acho que quase todos vinham da Líbia
e da Tunísia.
Jürgen Todenhöfer: O senhor chegou a ter contato com
esses prisioneiros? Com algum deles?
Presidente Bashar
al-Assad: Sim.
Jürgen Todenhöfer: Com intérprete?
Presidente Bashar
al-Assad: É claro.
Jürgen Todenhöfer: Qual é o papel dos EUA, nesse
conflito?
Presidente Bashar
al-Assad: São parte
do conflito. Oferecem o guarda-chuva e o apoio político àquelas gangues, para
romper a ordem, desestabilizar Síria.
Jürgen Todenhöfer: O que o senhor está dizendo é que os
EUA garantem o apoio político aos rebeldes, que o senhor chama de terroristas
matam civis. É isso? [BA: Exatamente isso.] Nesse caso, o senhor está
acusando o governo dos EUA de ser, pelo menos, parcialmente responsável também
pelo assassinato de civis na Síria. É isso?
Presidente Bashar
al-Assad: É
exatamente isso. Se você assegura qualquer tipo de apoio a terroristas, você é
cúmplice. Se você garante aos terroristas armamento, dinheiro e apoio político
(apoio na ONU, qualquer tipo de apoio), a implicação é que você é cúmplice dos
terroristas,
Jürgen Todenhöfer: O senhor sabe que os políticos
ocidentais veem a mesma situação de modo diferente do seu [BA: Sei.] e
que estão discutindo hoje uma intervenção militar na Síria. Como seu governo
reagiria? O senhor retaliaria, contra países ocidentais?
Presidente Bashar
al-Assad: Não se
trata de retaliação. Trata-se de defender nosso país. É nosso dever e é nosso
objetivo. Em nenhum caso se cogita de retaliar contra alguém, seja quem for.
Jürgen Todenhöfer: E a Síria está preparada para um
ataque desse tipo?
Presidente Bashar
al-Assad: Bem...
[semisorriso] Preparados ou não preparados, teremos de defender nosso país. Mas,
sim, estaremos preparados.
Jürgen Todenhöfer: Se, para o senhor, os EUA são parte
do problema, por que não negocia com eles? Por que não convida Mrs.
Hillary Clinton para que venha a Damasco? Por que o senhor não dá o primeiro
passo?
Presidente Bashar
al-Assad: A Síria
nunca fechou suas portas a país algum, nem a nenhum funcionário de nenhum
governo que deseje ajudar a resolver o problema pelo qual estamos passando na
Síria, desde, é claro, que sejam sérios e honestos. Mas [os EUA] fecharam todas
as portas. Seja como for, não há problema conosco: no instante em que decidirem
negociar, estamos preparados para ajudar.
Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria preparado para
dialogar com Mrs. Hillary Clinton? Para andar com ela pelas ruas de
Damasco, para mostrar-lhe a hospitalidade síria e atual situação nas ruas da
cidade?
Presidente Bashar
al-Assad: Já lhe
disse que não fechamos portas, nunca fechamos porta alguma, nem aos EUA nem a
qualquer outro país. Não falo especificamente de Mrs. Clinton ou de
qualquer outro funcionário do governo dos EUA. Sempre negociamos. E já andamos
pelas ruas de Damasco com outros funcionários, como você lembrou. E, sim, claro,
podemos fazer novamente, claro.
Jürgen Todenhöfer: Passemos, por favor para a situação
interna na Síria. As negociações com grupos da oposição é opção realista? Ou o
senhor entende que esse conflito terá de ser objeto de disputa armada até o
final, por amarga que seja a luta?
Presidente Bashar
al-Assad: Verdade é
que em qualquer caso, o diálogo é necessariamente a primeira opção estratégica.
O diálogo é indispensável. No mínimo, para confirmar que nada será possível
fazer pela via pacífica. Mas, mesmo com diálogo, se o diálogo não funciona ou se
você é atacado por terroristas, você é obrigado a combater o terrorismo. Você
não decidir que só vai dialogar, que não vai responder nem vai defender-se,
enquanto terroristas continuam matando seu povo e armando exércitos inimigos.
Jürgen Todenhöfer: E o senhor não poderia dialogar com
os que não são terroristas?
Presidente Bashar
al-Assad: Dialogamos no verão passado. E
repetimos nosso convite, alguns deles aceitaram, conversamos e a oposição
apresentou candidatos às eleições, concorreram e hoje têm representantes eleitos
no Parlamento. Semana passada apresentaram portfólios ao governo.
Jürgen Todenhöfer: Mas só tiveram 2% dos votos nas
eleições...
Presidente Bashar
al-Assad: Isso,
perdoe, não é nossa culpa [risos]. Não poderíamos ter dado a eles também os
votos. Não criamos o governo.
Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a
conversar também com a oposição em [Hexa?]?
Presidente Bashar
al-Assad: Dissemos
que conversaríamos com qualquer um.
Jürgen Todenhöfer: O senhor aceitaria negociar com os
rebeldes, se depuserem armas?
Presidente Bashar
al-Assad: Sim, e já
conversamos. Os que depuseram armas foram julgados, vários foram absolvidos e,
hoje, vivem vidas normais, sem problema algum.
Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a negociar
com qualquer um, desde que deponham armas.
Presidente Bashar
al-Assad: Claro. As
conversas começaram antes de eles terem deposto armas. Fizemos todo o possível,
até alcançar um bom resultado.
Jürgen Todenhöfer: E quanto ao plano de Kofi Annan?
Fracassou?
Presidente Bashar
al-Assad: Não. Kofi
Annan continua fazendo, até aqui, um trabalho difícil, sim, mas bom trabalho.
Está encontrando muitos obstáculos, mas não deve falhar. É excelente plano.
Jürgen Todenhöfer: Qual é o principal obstáculo?
Presidente Bashar
al-Assad: O
principal obstáculo é que muitos países não desejam que o plano de Kofi Annan dê
certo e funcione. Por isso dão apoio político e continuam a fornecer armas e
dinheiro aos terroristas que operam dentro da Síria. Querem que o plano
fracasse.
Jürgen Todenhöfer: Quem envia armas para seu país? Qual
é o país que envia armas?
Presidente Bashar
al-Assad: Ainda
nãoencontramos provas concretas, mas há muitas indicações, indícios, que
apontam, posso dizer-lhe, principalmente, para Arábia Saudita e Qatar, quanto ao
fornecimento de armas contrabandeadas para a Síria. Quanto ao apoio logístico,
os indícios apontam para a Turquia [Jürgen Todenhöfer: E os EUA?] Pelo
que sabemos até aqui, eles têm garantido apoio político. [Jürgen
Todenhöfer: Equipamento de comunicação?] Há alguma informação sobre isso,
exatamente. Mas não comentei esse aspecto, porque ainda não temos informação
concreta, completa, que confirme isso e que eu pudesse mostrar-lhe.
Jürgen Todenhöfer: E sobre a ideia de Kofi Annan, de
um governo de unidade, constituído por grupos de oposição, inclusive o Partido
Baath.
Presidente Bashar
al-Assad: Você está
falando do plano da Conferência de Genebra. Sim. Já temos esse governo na Síria.
Já há membros do partido Baath no Parlamento e participando do atual governo.
Mas é preciso critérios: como se define “oposição”? Podem ser dezenas de
milhares, centenas de milhares ou milhões de partidos de ‘oposição’. Todos terão
de participar necessariamente do governo? Conforme o número... e se não se
define o que seja ‘oposição’, que ‘oposição’ seria essa, criada por força de
lei? Não há democracia que opere assim. A democracia exige critérios e exige
mecanismos. Para mim, o mecanismo tem de ser as eleições. Você representa uma
posição, concorre em eleições, obtém votos, ganha lugar no Parlamento, pode
participar legitimamente do governo. Mas, se você ‘se chama’ ‘oposição’, mas não
tem votos, não consegue representação no Parlamento, você representa o quê? Você
mesmo? Que sentido há nisso? Tivemos eleições parlamentares na Síria, há dois
meses.
Jürgen Todenhöfer: Por exemplo, a oposição
[ininteligível] que participou das eleições... O senhor aceitaria que
participasse de um governo de transição, interim, digamos, temporário...
Presidente Bashar
al-Assad: Se
aceitarem nossas leis, nossas regras, se não cometerem atos criminosos, se não
facilitarem as vias para que a OTAN ou qualquer outra potência externa ataque a
Síria, sim, por que não? Eles também têm direito de participar de eleições, se
atenderem às condições que os demais partidos também atendem. Não vejo por que a
oposição teria de ser banida do país.
Jürgen Todenhöfer: Um homem como Ghalioun, o presidente
do Conselho Nacional Sírio...
Presidente Bashar
al-Assad: Não é
questão que se possa resolver em geral, para todos. Não é questão de nomes. É
questão de princípios para todos. Os dossiês policiais terão de ser examinados.
Se não se encontrar indício de que tenham cometido crime, nada os obriga a viver
fora da Síria, nada os impedirá de concorrer às eleições. Aplica-se a todos.
Jürgen Todenhöfer: Senhor presidente, quando o senhor
pensa no que aconteceu aos líderes de Egito e Líbia. Quando o senhor pensa nas
imagens que todos viram pela televisão... O senhor não teme por sua família?
Presidente Bashar
al-Assad: Estamos
falando de coisas diferentes, de situações diferentes. O que aconteceu a
al-Gaddafi foi selvageria. Não importa o que tenha feito, não importa quem tenha
sido. Com Mubarak a situação foi diferente. Mubarak foi julgado. Qualquer
cidadão que tenha assistido ao julgamento pela televisão pode ter pensado:
queria eu, estar naquela posição, vivendo como ele está vivendo. Para entender o
que há a temer, é preciso diferençar essas duas histórias. É tudo completamente
diferente. Não há qualquer semelhança entre o que houve no Egito e o que está
havendo na Síria. O contexto histórico é completamente diferente, o tecido
social é diferente, e nossa política sempre foi diferente. Se não se podem
comparar esses destinos, não há o que temer. Talvez, no máximo, alguma emoção de
piedade, ou de lástima por algum destino pessoal mais trágico.
Jürgen Todenhöfer: O senhor enfrenta uma oposição dura,
seu país enfrenta uma luta dura, há rebeldes e o senhor sabe o que esses
rebeldes fazem e são capazes de fazer. Repito, então minha pergunta: o senhor
não teme pela sua família?
Presidente Bashar
al-Assad: Nada
importa mais, na vida de um homem, que viver conforme suas convicções. Claro que
pode haver discordâncias, pode haver quem discorde de você, opiniões diferem.
Mas se você trabalha para proteger o povo, por que temer? Há centenas de
vítimas. Imagine se houver milhares, dezenas de milhares de vítimas? Esse, sim,
é o problema a resolver.
Jürgen Todenhöfer: Para terminar, qual é sua proposta
para o final desse conflito? Volto à pergunta inicial: o senhor entende que
tenha de lutar essa luta até o fim?
Presidente Bashar
al-Assad: Temos de
chegar a uma solução, que tem dois eixos. Em primeiro lugar, não podemos aceitar
o terrorismo. Esse é um eixo. Temos de combater o terrorismo. Quanto a isso não
há discussão. A realidade na Síria é que há alguém matando civis, matando
inocentes, matando mulheres, matando crianças, matando seus soldados, matando
policiais, matando todos. Temos de combater os terroristas, se não aceitam
dialogar. O outro eixo é construir um diálogo político com componentes
diferentes, para, simultaneamente, poder promover reformas. Em todo esse
processo, o povo resolverá quem serão seus representantes
Jürgen Todenhöfer: Não há meio para que as reformas
venham um pouco mais depressa.
Presidente Bashar
al-Assad: Esse é um
critério muito subjetivo. Parecerão mais lentas para uns, rápidas demais para
outros. Você acha que a reforma é rápida, eu acho que é lenta... É critério
muito subjetivo. Reformas são coisas que se faz o mais depressa possível, sem
pagar preço caro demais em cada etapa, porque sempre há efeitos colaterais, que
não podem ser tão severos a ponto de inutilizar a reforma. Isso não depende de
mim, nem do governo, nem do Estado e é processo que tem de ser encaminhado
conforme o ditem as circunstâncias objetivas na Síria.
Jürgen Todenhöfer: E como, senhor presidente, o senhor
espera ver seu país dentro de dois anos?
Presidente Bashar
al-Assad: Tenho de
ver a Síria, em dois anos, mais próspera. Mais prosperidade implica melhores
condições econômicas e melhores condições em geral, em todos os campos. Para
tudo isso, é indispensável construir, imediatamente, o que a Síria menos tem
hoje e do que mais precisa: segurança. Sem segurança, não há como sonhar com
prosperidade.
Jürgen Todenhöfer: Muito obrigado, senhor presidente,
por essa entrevista.
O
ministro sírio do Petróleo e Recursos Naturais, Soufian al-Allao, anunciou que
petroleiro venezuelano carregado com 35 mil toneladas de mazout [óleo
para calefação, extraído do petróleo] chegou à Síria, ignorando o embargo
unilateral imposto ilegalmente por países ocidentais.
A
Venezuela está construindo novo petroleiro que em pouco tempo estará a caminho
da Síria, informou também o ministro sírio, em conferência de imprensa.
Sobre
a questão do gás, o ministro al-Allao disse que a produção síria de gás atende
50% das necessidades locais. Observou que, sobre isso, estão em andamento
negociações com o Irã e a Argélia, para garantir a complementação (foram
descobertas na Síria importantes reservas de gás, mas o país ainda não tem
condições para explorá-las [Nota da redação]).
O
ministro disse ainda que a comissão sírio-russa, reunida em Moscou, examina a
possibilidade de um contrato de longo prazo, a ser firmado entre Síria e Rússia,
para exportação de mazout e gás para a Síria.
A
Venezuela já forneceu o equivalente a 600 mil barris de petróleo à Síria entre o
final de 2011 e início de 2012. Para o ministro, Damasco é vítima da
“estigmatização, pelos imperialistas” que tentam derrubar o governo sírio.
Segundo
relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, o país de Hugo
Chávez conta com reservas confirmadas de 296,50 bilhões de barris, das maiores
do planeta.
Enquanto
Paris acusa Damasco de ter organizado o assassínio do jornalista da
France-Télévisions, Gilles Jacquier, em Homs, uma equipe de jornalistas russos
acaba de apresentar uma versão diferente dos fatos. Segundo inquérito, o senhor
Jacquier comandava, sob a cobertura da imprensa, uma operação dos serviços
secretos militares franceses que redundou em fiasco. As acusações francesas não
passam de uma forma de mascarar a responsabilidade de Paris nas ações
terroristas empreendidas para desestabilizar a Síria.
Réseau
Voltaire / Moscou (Rússia) / 17 de janeiro 2012
Gilles Jacquier
O jornalista francês Gilles
Jacquier foi morto quando fazia uma reportagem em Homs, na quarta-feira, 11 de
janeiro. Tinha ido cobrir os acontecimentos na Síria para a revista Envoyé
spécial.
Persuadido de que não havia grupos
terroristas, mas uma revolução reprimida em sangue, tinha recusado proteção dos
serviços de segurança e não usava capacete nem colete à prova de balas. Com
outros colegas que partilhavam as suas convicções, alugaram três microônibus e
encontraram “pontos fixos”, quer dizer, pessoas locais capazes de ajudá-los a
encontrar pontos de referência, a marcar encontros e serviços de tradutores.
Todos em conjunto tinham pedido
para encontrar-se com representantes alawitas antes de se dirigirem para os
bairros revoltados de Bab Amr e Bab Sbah.
Chegados ao Hotel As-Safir, tinham
reencontrado, por acaso, um capitão que lhes propôs acompanhá-los com o seu
destacamento até ao bairro alawita de Najha onde eram esperados por um
assistente do governo de Homs. Com a sua ajuda, os jornalistas puderam encontrar
personalidades e interrogar as pessoas na rua.
Às 14:45 horas, a representante do
governo tinha-lhes pedido que abandonassem o local o mais depressa possível,
pois o cessar-fogo acabava, de fato, todos os dias às 15 horas precisamente. No
entanto, os jornalistas da rádio televisão belga flamenga (VRT) tinham-se
aventurado mais longe em casas particulares até ao bairro de Akrama, pelo que o
grupo demorou mais tempo a sair de lá.
Membros da associação das vítimas
do terrorismo que tinham previsto manifestar-se em frente de um carro alugado
pelo Ministério da Informação para cerca de quarenta jornalistas anglo-saxões,
mas que não os tinham encontrado, acharam que seria útil gritarem slogans pelo presidente Bachar em frente
das câmaras de televisão que ali se encontravam. Às 15 horas, como todos dias, a
batalha de Homs recomeçou.
Um projétil explodiu no terraço de
um edifício, destruindo um reservatório de óleo lubrificante. Um segundo
projétil caiu sobre uma escola, depois um terceiro sobre os manifestantes
pró-Assad, matando dois deles.
Os jornalistas subiram ao terraço
para filmar os estragos. Houve uma calmaria. Gilles Jacquier, pensando que os
tiros tinham acabado, desceu com o seu ajudante para ir filmar os cadáveres dos
manifestantes. Chegado ao vão da porta foi morto com seis militantes pró-Assad
por uma quarta explosão, que o projetou sobre uma moça que lhe servia de guia.
Esta jovem foi ferida nas pernas.
Na confusão geral, o morto e a
ferida foram evacuados em carros para o hospital. Este incidente fez nove mortos
no total e vinte e cinco feridos.
A batalha de Homs prosseguiu com
numerosos outros incidentes durante a tarde e a noite.
À primeira vista, tudo era claro:
Gilles Jacquier tinha morrido por acaso. Encontrava-se no lugar errado no
momento errado. Sobretudo, as suas convicções sobre a natureza dos
acontecimentos na Síria levaram-no a acreditar que só devia recear as forças
governamentais e que não corria nenhum risco fora das manifestações antirregime.
Por isso tinha recusado uma escolta, não tinha usado capacete e colete à prova
de balas, não tinha respeitado a hora fatídica do fim do cessar-fogo.
Definitivamente, não tinha sabido avaliar a situação, porque foi vítima da
diferença entre a propaganda dos seus colegas e a realidade que ele negava.
Nestas condições, não se
compreende muito bem o porquê, depois de uma primeira reação de cortesia, a
França, que tinha legitimamente exigido um inquérito às circunstâncias da morte
do seu cidadão nacional, insinuou subitamente que Gilles Jacquier tinha sido
assassinado pelos sírios e recusou que a autópsia tivesse lugar no local em
presença dos seus especialistas. Estas acusações foram publicamente explicitadas
por um dos jornalistas que acompanhavam Jacquier, Jacques Duplessy.
Para a imprensa francesa os fatos
não foram tão evidentes como parecia: persiste uma dúvida sobre a identificação
dos projéteis mortais.
Segundo a maior parte dos
repórteres, tratava-se de tiros de morteiros. O exército sírio confirma que esta
arma é quotidianamente utilizada pelos terroristas em Homs. Mas segundo alguns
testemunhos, foram foguetes atirados a partir de um lançador portátil e a
televisão privada síria, Ad-Dúnia mostrou as asas do projétil. Há quem se
apaixone por este assunto, não sem segundas intenções.
Na França, os anti-Assad acreditam
no morteiro e acusam o exército sírio de tê-lo atirado. Enquanto que os
pró-Assad acreditam no foguete e acusam os terroristas. Em definitivo, este
detalhe não prova nada: é certo que o exército sírio utiliza morteiros, mas não
deste calibre e os grupos armados utilizam lança-foguetes, mas nada impede cada
campo de variar o seu armamento.
De resto, se é que se tratou de
tiros de morteiro, os dois primeiros permitiram ajustar o tiro do terceiro e
quarto para atingir os manifestantes que eram o seu alvo. Mas se se tratava de
tiros de foguete, era possível visar com muito mais precisão e matar uma pessoa
em particular. A tese do assassínio tornava-se possível.
O estudo das imagens e dos vídeos
mostra que os corpos das vítimas não estão ensanguentados e crivados de
estilhaços, como quando da explosão de um obus (morteiro) que se fragmenta. Pelo
contrário, eles estão intactos, correndo o sangue, segundo os casos, pelo nariz
e os ouvidos, como quando da explosão de um foguete termobárico, cujo impacto
comprime os órgãos provocando hemorragias internas. Da mesma forma, os pontos de
impacto sobre o passeio não indicam nenhum traço de fragmentação.
Note-se que certos testemunhos
falam de granadas, o que não faz de modo nenhum avançar a nossa compreensão,
porque existem granadas de sopro e granadas de fragmentação. Em definitivo, só a
hipóteses de arma de sopro (RPG ou granada) é compatível com os elementos
médico-legais visíveis nas fotos e vídeos. Acorrendo ao local, os investigadores
sírios e os observadores da Liga Árabe encontraram caudas de morteiro de
82 mm e
uma cauda de foguete de fabricação israelense.
Por consequência, as autoridades
francesas têm razão para estudar a possibilidade do assassínio, mesmo quando se
trata para eles de aproveitar um drama para instrumentalizar e justificar a sua
ambição de guerra contra a Síria. Portanto, os diplomatas franceses, se tiverem
por objetivo procurar a verdade, têm também manifestamente o objetivo de
assegurar-se de que os sírios não a descubram. Assim, impediram todos os
francófonos de se aproximarem da fotógrafa Caroline Poiron, companheira do
jornalista Gilles Jacquier, que velava o seu corpo durante toda a noite. A
jovem, em estado de choque, não conseguia dominar o seu comportamento e teria
muito que dizer.
Depois, proibiram a autópsia no
local e repatriaram o corpo o mais depressa possível. Qual é, portanto, a
hipótese por que a França quer verificar sozinha, mas esconder do grande
público?
Aqui começa o nosso mergulho no
mundo dos serviços especiais ocidentais que conduzem na Síria uma “guerra de
baixa intensidade”, comparável às que foram organizadas nos anos oitenta na
América Central ou, mais recentemente, na Líbia, para preparar e justificar a
intervenção da OTAN.
Gilles Jacquier era um repórter
apreciado pelos seus colegas e premiado profissionalmente (Prêmio Albert
Londres, Prêmio dos correspondentes de guerra, etc.). Mas não era só isto…
Numa carta
com o cabeçalho de France-Télévisions , datada de 1 de dezembro de 2011
, as redatoras chefes da revista Envoyé spécial – a emissão política mais
vista no país – tinham solicitado um visto do ministério sírio da informação
[1] . Pretendendo querer verificar a versão síria dos acontecimentos
segundo a qual “os soldados do exército sírio são vítimas de emboscadas e de
grupos armados que grassam pelo país” elas pediam que Jacquier pudesse seguir o
quotidiano dos soldados da 4.ª divisão blindada, comandada pelo general
Maher-el-Assad (irmão do presidente) e da 18.ª divisão blindada, comandada pelo
general Wajih Mahmud. As autoridades sírias ficaram surpreendidas pela
arrogância dos franceses: por um lado, enquadram grupos armados que atacam as
tropas leais, por outro pretendem infiltrar um agente da informação militar nas
suas tropas, para informar os grupos armados das suas deslocações. Não foi dado
seguimento a este pedido.
Assim, Gilles Jacquier tentou uma
outra via. Pediu a intermediação de uma religiosa greco-católica de linguagem
franca, estimada e por vezes temida pelo poder, Madre Agnès-Mariam de la Croix,
com um cargo de direção no Mosteiro Saint-Jacques de l'Intercis. Ela tinha
facilitado a primeira viagem da imprensa aberta aos jornalistas ocidentais. A
célebre religiosa pressionou, portanto, o Ministério da Informação, até obtenção
de vistos para Jacquier e acompanhante.
As coisas aceleraram-se em 20 de
Dezembro – outros jornalistas pediram à Madre Agnès-Mariam que lhes obtivesse o
mesmo favor.
Quanto a Gilles Jacquier, este
solicitou outros vistos para a sua companheira, a fotógrafa Caroline Poiron e a
repórter Flora Olive, representando, as duas, o Paris-Match. No total,
devia ser um grupo de quinze jornalistas franceses, belgas, holandeses e suíços.
Com toda a verosimilhança, os franceses e os holandeses eram na maior parte, ou
todos, agentes da DGSE [2]. Havia urgência na sua missão.
Aqui, é indispensável fazer uma
pequena retrospectiva:
Para enfraquecer a Síria, os
grupos armados pela OTAN empreendem diversas ações de sabotagem. Embora o centro
histórico da rebelião da Fraternidade Muçulmana seja Hama, e que só dois
quarteirões de Homs os apoiem, a OTAN escolheu esta cidade para concentrar as
suas ações secretas. Com efeito, ela está no centro do país e constitui o
principal nó de comunicação e de abastecimento. Sucessivamente, os
“revolucionários” cortaram o oleoduto, depois os engenheiros canadenses que
dirigiam a central elétrica foram repatriados a pedido dos Estados Unidos.
Enfim, cinco engenheiros iranianos encarregados de fazer voltar a funcionar a
central foram retirados em 20 de Dezembro de 2011.
Violando
o Direito Internacional a revista Paris-Match publicou
esta foto dos reféns iranianos (engenheiros)
sem cobrir seus rostos.
Este
documento constitui “prova de vida” de quatro desses
reféns.
Os jornalistas receberam uma
reivindicação de uma misteriosa brigada contra a expansão xiita na Síria.
Depois, a embaixada confirmou ter iniciado uma negociação com os raptores de
reféns. Bastava que estes transmitissem uma “prova de vida”, por exemplo, uma
fotografia datada dos reféns de boa saúde. Contra toda a expectativa, esta não
foi enviada diretamente à República Islâmica, mas publicada pelo Paris-Match
(edição de 5 de Janeiro). Um fotógrafo da revista, dizia-se, tinha
conseguido entrar secretamente na Síria e realizar essa foto. Talvez os leitores
franceses se tivessem interrogado se esse repórter era realmente humano para
tirar fotografias de reféns sem lhes ter prestado auxílio. Pouco importa, a
mensagem era clara: os engenheiros estão vivos e os raptores de reféns são
controlados pelos serviços franceses. Nenhuma reação oficial nem de um lado nem
do outro. Era, portanto, porque as negociações continuavam.
Chegados a Damasco, os jornalistas
franceses e holandeses foram alojados pelas autoridades em hotéis diferentes,
mas Jacquier reagrupou-os imediatamente no Fardos Tower Hotel. O diretor deste
estabelecimento não é outro senão Roula Rikbi, a irmã de Bassma Kodmani,
porta-voz do Conselho Nacional, com base em Paris. O hotel serve de esconderijo
aos serviços secretos franceses.
Em resumo, um agente de informação
militar, tendo por companhia um fotógrafo cujo colega conseguiu entrar em
contacto com os reféns, formou um grupo de “jornalistas” com uma missão ligada
aos reféns, provavelmente a sua entrega por franceses aos iranianos.
Dirigiram-se a Homs depois de se terem desembaraçado dos serviços de segurança,
mas o chefe da missão foi morto antes de poder estabelecer o contato previsto.
Compreende-se que, nestas
condições, o embaixador da França se tenha tornado nervoso. Ele tinha o direito
de considerar que Gilles Jacquier tivesse sido assassinado por membros dos
grupos armados, inquietos com a deslocação da aliança militar França-Turquia, e
extremistas de uma guerra da OTAN. Hostis à negociação em curso, teriam feito ir
por água abaixo a sua conclusão.
O embaixador da França, que não
tinha tido tempo de reconstituir os acontecimentos, esforçou-se, portanto, para
impedir que os sírios o fizessem. Contrariamente às normas internacionais,
recusou que a autópsia fosse realizada no local, em presença do especialista
francês. Os sírios aceitaram infringir essa regra, com a condição de fazerem uma
radiografia. Na realidade, eles aproveitaram para fotografar o cadáver sob todos
os ângulos. Segundo as nossas informações, o corpo apresenta vestígios de
estilhaços no peito e de cortes na fronte.
Depois, o embaixador levou nos
seus carros blindados os “jornalistas” franceses e o holandês, além dos
restos mortais de Jacquier. Partiu com eles acompanhado por uma forte escolta,
deixando no local a Madre superiora estupefata e um jornalista da Agência France
Presse: o diplomata apressado tinha recuperado os seus agentes e abandonado os
civis.
Os carros blindados foram
recuperar as bagagens de cada um ao hotel As-Safir de Homs, depois regressaram à
embaixada em Damasco. O mais depressa possível, chegaram ao aeroporto, onde um
avião especial fretado pelo Ministério francês da Defesa evacuou os agentes para
o aeroporto de Paris-Le Bourget.
Os agentes secretos não fingiram
mais realizar as reportagens na Síria, esqueceram-se de ter obtido um
prolongamento do seu visto, e fugiram depressinha antes que os sírios
descobrissem o arranjinho desta operação mal sucedida.
Chegado à Paris, o corpo de
Jacquier foi imediatamente transferido para o instituto médico-legal e
autopsiado, antes da chegada dos peritos enviados pela Síria. Violando os
processos penais, o governo francês invalidou o relatório da autópsia, que cedo
ou tarde seria rejeitado pela Justiça, e afastou definitivamente a possibilidade
de se estabelecer a verdade.
A fim de impedir os jornalistas
franceses (os verdadeiros) de meter o nariz nesta questão, os “jornalistas” (os
falsos) que acompanhavam Jacquier, uma vez de volta à França, multiplicaram-se
em declarações contraditórias, mentindo de maneira desavergonhada, para criar a
confusão e mascarar a verdade.
Assim, embora oito manifestantes
pró-Assad tenham sido mortos, Jacques Duplessy denuncia “uma cilada montada
pelas autoridades sírias” para eliminá-lo com os seus colegas. Verificado isto,
o senhor Duplessy trabalhou afincadamente para uma ONG, conhecida por ter
servido de biombo …à DGSE!
Para os iranianos e sírios, a
morte de Jacquier é uma catástrofe. Deixando circular o grupo de espiões
franceses e vigiando-o discretamente, esperavam chegar aos raptores e, ao mesmo
tempo, libertar os reféns e prender os criminosos.
Já há um ano, os serviços secretos
militares franceses foram postos ao serviço do imperialismo estadunidense.
Organizaram um início de guerra civil na Costa do Marfim. Em seguida,
manipularam o separatismo da Cirenaica, para dar a ideia de uma revolução
anti-Kadafi e apoderar-se da Líbia. Agora, enquadram os cadastrados recrutados
pelo Qatar e a Arábia Saudita para semear o terror, acusar o governo sírio e
ameaçar com a sua mudança.
Não temos a certeza que o povo
francês gostaria de saber que Nicolas Sarkozy rebaixou o seu país ao nível de um
vulgar sequestrador e que mantém reféns em cativeiro.
Não devemos admirar-nos se um
Estado (França) que pratica o terrorismo em terra alheia, se venha a confrontar
um dia com ele na sua própria terra.
13/Fevereiro/2012
Notas dos
tradutores
[1] Este
documento pode ser visto no final da página do sítio em referência
[2] Direção Geral da Segurança
Exterior – serviço
do Estado francês, sob a autoridade do poder executivo, que tem por objetivo a
proteção dos interesses franceses, designadamente a proteção dos cidadãos
franceses em qualquer parte do mundo.
[*]
Correspondente do Komsomolskaya Pravda em Damasco