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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ahmadinejad, o indescartável


21/2/2013, Thierry Meyssan, Red Voltaire
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thierry Meyssan
A democracia iraniana está viva e vibrante. As divisões de 2009 já são passado, a tal ponto que até o presidente Obama teve de admitir publicamente que Mahmoud Ahmadinejad foi eleito em eleições legítimas e limpas, pela maioria dos iranianos. O movimento Verde uniu-se à burguesia urbana, e parte da “juventude” já amadureceu.

Hoje, Washington já não acalenta qualquer esperança de derrubar o regime; então, trabalha para dividi-lo. Os EUA bem que gostariam de extrair algum lucro da atual crise entre a corrente religiosa do clã Larijani e a corrente nacionalista da família Ahmadinejad.

A aliança histórica entre as correntes religiosa e nacionalista está abalada pelo fraco desempenho de Ali Larijani nas pesquisas eleitorais e pela avassaladora popularidade de Ahmadinejad. Com as eleições de junho já batendo à porta, a crise acabou por vir a público.

Ali Larijani e Mahmoud Ahmadinejad lado a lado no Parlamento iraniano
A quatro meses das eleições no Irã, ainda não se sabe quem será o candidato que substituirá o carismático Mahmoud Ahmadinejad para os próximos quatro anos. A Constituição proíbe um 3º mandato para Ahmadinejad, mas ele pode manter-se próximo ao poder e pode voltar nas eleições seguintes, como fez Vladimir Putin.

Em 2009, os protestos varreram Teerã e Isfahan: apoiadores do candidato liberal acusavam as autoridades de ter manipulado os resultados das eleições. Esse movimento rapidamente perdeu fôlego, mas deixou feridas profundas no movimento da juventude. O qual foi afinal calado depois de uma massiva demonstração de apoio às instituições da Revolução Islâmica. Os próprios iranianos teriam sido convencidos pelos vencidos? Inúmeras vozes argumentaram que as instituições estimularam os tumultos.

Hussein Moussaoui
A juventude não conhecia o programa de Moussaoui e ignorava completamente que ele promovia o capitalismo global e alinhava-se a ele. Erradamente, os jovens supunham que Moussaoui representasse a moral social liberal. Sem perceber, haviam sido persuadidos de que tinham de escolher entre “liberdades individuais” e “o regime”. E os jovens desapareceram das cerimônias nacionais.

Surpreendidas pela violência do protesto, as autoridades foram lentas em responder.

Primeiro, houve uma defesa pela mídia. Por exemplo: um grupo de especialistas analisou quadro a quadro o famoso vídeo do jovem Neda, apresentado como morto por forças de segurança durante uma manifestação antirregime. Concluíram que o vídeo havia sido forjado. Depois se organizaram grupos de discussão, mediados por instrutores adultos que iniciaram os jovens na compreensão do pensamento dos revolucionários iranianos mais velhos. Todos esses esforços deram fruto, e hoje se vê outra vez forte participação dos iranianos com menos de 30 anos nas recentes cerimônias nacionais oficiais.

Washington, por sua vez, não poupou esforços para semear a cizânia na sociedade iraniana e trabalhou para acentuar os conflitos generacionais.

Foram criadas mais de uma centena de estações de televisão por satélite, em farsi, para inundar o país com propaganda do “Sonho Norte-americano”. Conseguiram distrair a atenção dos iranianos e afastá-los de suas redes locais e nacionais, mas, no geral, não há sinais de que tenham seduzido a população que vota.

No momento em que tantos se preparavam para mais uma tentativa de “revolução colorida” e “mudança de regime”, a surpresa veio da coalizão governante.

A confrontação clássica entre as facções religiosa e nacionalista endureceu e, afinal, explodiu numa cena pública.

Aiatolá Ali Khamenei
O presidente da República, Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente do Parlamento, Ali Larijani, puseram-se a acusar-se mutuamente de proteger assessores corruptos. As redes ocidentais em farsi exibiram imagens dos bate-bocas. Apesar das exortações à calma e ao bom-senso, o Supremo Líder, Aiatolá Ali Khamenei não consegue acalmar os protagonistas.

Além do mais, Ahmadinejad conta com apoio popular massivo em todo o país, exceto, paradoxalmente, em Teerã, cidade da qual foi prefeito. A rápida industrialização do país, programas recentes de redistribuição dos lucros do petróleo, pagos mensalmente a todos os cidadãos adultos, e a construção de moradias por todo o país vendidas a preços subsidiados, conquistaram os votos de trabalhadores urbanos e da agricultura.

Ahmadinejad, que sente que seu candidato será eleito por ampla margem de votos, não hesita em desafiar a oposição mais religiosa, e mostra que, se dependesse dele, as exigências dos jovens seriam atendidas. Permitiu-se inclusive celebrar uma “Miss hijab”, para poder criticar mais livremente a lei que torna obrigatório o uso do véu.

Sadeq Larijani
Ali Larijani e seu irmão Sadeq (presidente do Judiciário) estão forçados a constatar que o candidato rival está avançando no trabalho de promover a candidatura do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Rahim Mashaei Esfendiar. Esfendiar dedica-se a reescrever discursos oficiais, trocando as referências religiosas por referências mais universais, não tão exclusivamente xiitas.

Os religiosos temem que essa flexibilização abra a porta para o declínio do Islã. Responderam espalhando boatos de que a família Ahmadinejad perdeu a cabeça; que se creem em contato direto com o Parlamento e, enquanto esperam, tenham garantir lugar, reservando para eles mesmos uma cadeira no Conselho de Ministros.

Para acalmar as coisas e preservar a unidade da Revolução, o Supremo Líder pode exigir que o grupo Ahmadinejad indique candidato menos divisionista e polarizador que Mashaei.

A imprensa-empresa ocidental está em surto de esquizofrenia.

Enquanto as redes em farsi só falam dessa confrontação, as redes europeias não publicam uma linha sobre o caso. Só fazem continuar a induzir os públicos a crerem que o Irã seria uma ditadura monolítica comandada por mulás.

Os jovens, que tomaram as ruas contra “o regime” em 2009, já são hoje aplicados apoiadores de Ahmadinejad e muito provavelmente votarão no candidato que Ahmadinejad indique, em junho.

Os jovens iranianos acreditam que, com Ahmadinejad (e seu candidato às próximas eleições), a Revolução Islâmica conseguirá conciliar a libertação nacional e o respeito pelas liberdades individuais.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ouvir o outro lado: “Entrevista de Bashar al-Assad à televisão alemã”


5/7/2012, Jürgen Todenhöfer, ARD (Alemanha), prog. Weltspiegel , 18’52
8/7/2012,  publicada por Voltaire Net – (em inglês)
Entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Jürgen Todenhöfer: Sr. Presidente, membros da oposição e políticos ocidentais têm dito que o senhor é o principal obstáculo à paz na Síria. O senhor estaria disposto a renunciar à presidência, sendo essa condição para a paz e para pôr fim ao banho de sangue?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso fugir ao desafio que a Síria enfrenta hoje.Hoje a Síria enfrenta um desafio à própria nação. O presidente não pode fugir. Por outro lado, ninguém pode permanecer na presidência sem apoio popular. A resposta à sua pergunta não pode vir de mim. Tem de vir do povo sírio, essa resposta tem de ser resposta pública, que venha em eleições. Eu posso decidir concorrer ou não concorrer a eleições, mas não posso decidir ficar na presidência ou deixá-la. Essa é decisão que cabe ao povo sírio, em eleições.

Jürgen Todenhöfer: O senhor ainda tem maioria de apoio popular na Síria?

Presidente Bashar al-Assad: Se eu não tivesse apoio popular, não poderia permanecer na posição onde estou. EUA estão contra mim, o ocidente está contra mim, muitos poderes e países regionais estão contra mim. Se o povo estivesse contra mim, já não estaria na posição em que estou. A resposta é sim, claro que tenho apoio popular. Porcentagens não sei, nem interessam. Mas não há dúvida de que, para permanecer na presidência da Síria, na situação que a Síria enfrenta hoje, sim, é claro que tenho apoio popular.

Jürgen Todenhöfer: Assisti a algumas demonstrações pacíficas, mesmo em Homs. Não é legítimo que as pessoas exijam mais liberdade, mais democracia, menos poder nas mãos de uma família que governa o país, menos poder para os serviços secretos?

Presidente Bashar al-Assad: Para responder corretamente, temos de corrigir essa pergunta. Na Síria não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria, temos instituições, talvez não instituições ideais, mas temos Estado e não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria. Isso, quanto à pergunta. Agora, posso responder à primeira parte de sua pergunta: é claro que aqueles manifestantes têm direito legítimo de se manifestar. Mas não é verdade que os manifestantes só peçam ‘liberdade’. A maioria dos manifestantes legítimos pedem reformas, maior participação no poder e no governo. Essas reivindicações são legítimas, evidentemente, em qualquer lugar do mundo. Mas a maioria do povo sírio não está nas manifestações. Mas, sim, claro, as manifestações são legítimas.

Jürgen Todenhöfer: A pergunta que todos estão fazendo no ocidente e em seu país é quem matou os milhares de vítimas civis inocentes que morreram nesse conflito? A oposição culpa o senhor.

Presidente Bashar al-Assad: Para saber quem matou, é preciso saber antes quem foi morto. Não há como descobrir o criminoso sem saber quem é a vítima. A vasta maioria dos mortos são apoiadores do governo. Como seria possível ser assassino e vítima, ao mesmo tempo? A maioria das vítimas eram apoiadores do governo; e outra grande parte das demais vítimas é gente inocente que estão sendo assassinados por vários diferentes grupos na Síria.

Jürgen Todenhöfer: O senhor concorda que muitos, ou, pelo menos, uma certa porcentagem desses civis vítimas, foram mortos pelos serviços de segurança do seu governo? O senhor teria essa porcentagem?

Presidente Bashar al-Assad: Não, claro que não. O que temos é um Comitê que está investigando essas mortes. Até aqui, sobre os crimes investigados, os nomes que já temos, as vítimas foram assassinadas por gangues, diferentes tipos de gangues, da al-Qaeda, grupos extremistas, criminosos e grupos de criminosos procurados pela polícia há anos.

Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que os rebeldes, que o senhor chama de terroristas, mataram mais civis que as forças de segurança? 

Presidente Bashar al-Assad: Não. Estou dizendo que mataram mais agentes das forças de segurança e soldados, que civis que apoiam o governo.

Jürgen Todenhöfer: Mas falando exclusivamente de civis. Os rebeldes mataram mais civis que as forças de segurança, ou as forças de segurança mataram mais civis?

Presidente Bashar al-Assad: Como eu disse, as vítimas que há nas forças de segurança e no exército são em número muito maior que o número de vítimas que há entre civis.

Jürgen Todenhöfer: O senhor diz que há investigações sobre membros das forças de segurança que podem ter matado civis inocentes. E desses, alguém foi punido?

Presidente Bashar al-Assad: Sim. Vários estão presos e vários estão sendo julgados por outros crimes.

Jürgen Todenhöfer: Quem cometeu o massacre de Houla, onde mais de 100 pessoas foram brutalmente assassinadas, entre elas muitas crianças?

Presidente Bashar al-Assad: Gangues de criminosos de fora da cidade, não da cidade, que atacaram a cidade e as forças da lei daquela cidade. E mataram muitas famílias, como você diz, e muitas crianças e mulheres, e, de fato, as duas famílias que foram assassinadas eram apoiadoras do governo. Não eram da oposição.

Jürgen Todenhöfer: Ouvi, de moradores de Houla, sobreviventes das famílias que foram atacadas e mortas, que os atacantes usavam uniformes militares do exército sírio. Por que usavam uniformes militares?

Presidente Bashar al-Assad: É prática que já se observou muitas vezes. O Comitê de investigação sabe que isso acontece: eles produzem vídeos e distribuem vídeos, vídeos falsos, onde aparecem homens fardados com nosso uniforme militar. Esses, ao que se sabe, assassinaram aquelas famílias.

Jürgen Todenhöfer: O senhor está dizendo que é estratégia dos rebeldes?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, é. Fazem isso sempre, desde o início. E não só em Houla, mas em vários pontos.

Jürgen Todenhöfer: Quem são esses rebeldes, que o senhor chama de terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: São uma mistura, um amálgama de al-Qaeda, outros extremistas, não necessariamente ligados à al-Qaeda, além de criminosos que a Polícia procura há muito tempo (traficantes e contrabandistas de drogas vindas da Europa e que transitam pela Síria, além de outros, muitos dos quais condenados e foragidos da Polícia. É uma mistura de coisas diferentes.

Jürgen Todenhöfer: Quantos seriam esses que lutam contra o governo?

Presidente Bashar al-Assad: Não sei lhe dizer. Calculam-se em milhares.

Jürgen Todenhöfer: Quantos? 20, 30?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso lhe dar números, porque não há números precisos.

Jürgen Todenhöfer: O senhor diria que todos esses rebeldes são terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: Depende do ato que pratiquem. Se atacam e queimam e destroem, sim, fazem terrorismo em termos definidos na lei. Mas há muita gente implicada nos atos e que não são criminosos, por diferentes razões. Às vezes, a razão é o dinheiro (porque são pagos); às vezes, porque são ameaçados; às vezes movidos por algumas ideias ou ilusões delirantes. Nem todos são terroristas. Essa é a razão pela qual muitos foram absolvidos, quando aceitaram entregar as armas.

Jürgen Todenhöfer: O governo sírio encontrou homens da al-Qaeda, entre esses já foram presos?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, sim. Dezenas deles. [JT: De que países?] Acho que quase todos vinham da Líbia e da Tunísia.

Jürgen Todenhöfer: O senhor chegou a ter contato com esses prisioneiros? Com algum deles?

Presidente Bashar al-Assad: Sim. 

Jürgen Todenhöfer: Com intérprete? 

Presidente Bashar al-Assad: É claro.

Jürgen Todenhöfer: Qual é o papel dos EUA, nesse conflito?

Presidente Bashar al-Assad: São parte do conflito. Oferecem o guarda-chuva e o apoio político àquelas gangues, para romper a ordem, desestabilizar Síria. 

Jürgen Todenhöfer: O que o senhor está dizendo é que os EUA garantem o apoio político aos rebeldes, que o senhor chama de terroristas matam civis. É isso? [BA: Exatamente isso.] Nesse caso, o senhor está acusando o governo dos EUA de ser, pelo menos, parcialmente responsável também pelo assassinato de civis na Síria. É isso?

Presidente Bashar al-Assad: É exatamente isso. Se você assegura qualquer tipo de apoio a terroristas, você é cúmplice. Se você garante aos terroristas armamento, dinheiro e apoio político (apoio na ONU, qualquer tipo de apoio), a implicação é que você é cúmplice dos terroristas, 

Jürgen Todenhöfer: O senhor sabe que os políticos ocidentais veem a mesma situação de modo diferente do seu [BA: Sei.] e que estão discutindo hoje uma intervenção militar na Síria. Como seu governo reagiria? O senhor retaliaria, contra países ocidentais?

Presidente Bashar al-Assad: Não se trata de retaliação. Trata-se de defender nosso país. É nosso dever e é nosso objetivo. Em nenhum caso se cogita de retaliar contra alguém, seja quem for.  

Jürgen Todenhöfer: E a Síria está preparada para um ataque desse tipo?

Presidente Bashar al-Assad: Bem... [semisorriso] Preparados ou não preparados, teremos de defender nosso país. Mas, sim, estaremos preparados.

Jürgen Todenhöfer: Se, para o senhor, os EUA são parte do problema, por que não negocia com eles? Por que não convida Mrs. Hillary Clinton para que venha a Damasco? Por que o senhor não dá o primeiro passo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria nunca fechou suas portas a país algum, nem a nenhum funcionário de nenhum governo que deseje ajudar a resolver o problema pelo qual estamos passando na Síria, desde, é claro, que sejam sérios e honestos. Mas [os EUA] fecharam todas as portas. Seja como for, não há problema conosco: no instante em que decidirem negociar, estamos preparados para ajudar.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria preparado para dialogar com Mrs. Hillary Clinton? Para andar com ela pelas ruas de Damasco, para mostrar-lhe a hospitalidade síria e atual situação nas ruas da cidade?

Presidente Bashar al-Assad: Já lhe disse que não fechamos portas, nunca fechamos porta alguma, nem aos EUA nem a qualquer outro país. Não falo especificamente de Mrs. Clinton ou de qualquer outro funcionário do governo dos EUA. Sempre negociamos. E já andamos pelas ruas de Damasco com outros funcionários, como você lembrou. E, sim, claro, podemos fazer novamente, claro.

Jürgen Todenhöfer: Passemos, por favor para a situação interna na Síria. As negociações com grupos da oposição é opção realista? Ou o senhor entende que esse conflito terá de ser objeto de disputa armada até o final, por amarga que seja a luta?

Presidente Bashar al-Assad: Verdade é que em qualquer caso, o diálogo é necessariamente a primeira opção estratégica. O diálogo é indispensável. No mínimo, para confirmar que nada será possível fazer pela via pacífica. Mas, mesmo com diálogo, se o diálogo não funciona ou se você é atacado por terroristas, você é obrigado a combater o terrorismo. Você não decidir que só vai dialogar, que não vai responder nem vai defender-se, enquanto terroristas continuam matando seu povo e armando exércitos inimigos.

Jürgen Todenhöfer: E o senhor não poderia dialogar com os que não são terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: Dialogamos no verão passado. E repetimos nosso convite, alguns deles aceitaram, conversamos e a oposição apresentou candidatos às eleições, concorreram e hoje têm representantes eleitos no Parlamento. Semana passada apresentaram portfólios ao governo.

Jürgen Todenhöfer: Mas só tiveram 2% dos votos nas eleições...

Presidente Bashar al-Assad: Isso, perdoe, não é nossa culpa [risos]. Não poderíamos ter dado a eles também os votos. Não criamos o governo.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a conversar também com a oposição em [Hexa?]?

Presidente Bashar al-Assad: Dissemos que conversaríamos com qualquer um.

Jürgen Todenhöfer: O senhor aceitaria negociar com os rebeldes, se depuserem armas?

Presidente Bashar al-Assad: Sim, e já conversamos. Os que depuseram armas foram julgados, vários foram absolvidos e, hoje, vivem vidas normais, sem problema algum.

Jürgen Todenhöfer: O senhor estaria disposto a negociar com qualquer um, desde que deponham armas.

Presidente Bashar al-Assad: Claro. As conversas começaram antes de eles terem deposto armas. Fizemos todo o possível, até alcançar um bom resultado.

Jürgen Todenhöfer: E quanto ao plano de Kofi Annan? Fracassou?

Presidente Bashar al-Assad: Não. Kofi Annan continua fazendo, até aqui, um trabalho difícil, sim, mas bom trabalho. Está encontrando muitos obstáculos, mas não deve falhar. É excelente plano. 

Jürgen Todenhöfer: Qual é o principal obstáculo?

Presidente Bashar al-Assad: O principal obstáculo é que muitos países não desejam que o plano de Kofi Annan dê certo e funcione. Por isso dão apoio político e continuam a fornecer armas e dinheiro aos terroristas que operam dentro da Síria. Querem que o plano fracasse.

Jürgen Todenhöfer: Quem envia armas para seu país? Qual é o país que envia armas?

Presidente Bashar al-Assad: Ainda não encontramos provas concretas, mas há muitas indicações, indícios, que apontam, posso dizer-lhe, principalmente, para Arábia Saudita e Qatar, quanto ao fornecimento de armas contrabandeadas para a Síria. Quanto ao apoio logístico, os indícios apontam para a Turquia [Jürgen Todenhöfer: E os EUA?] Pelo que sabemos até aqui, eles têm garantido apoio político. [Jürgen Todenhöfer: Equipamento de comunicação?] Há alguma informação sobre isso, exatamente. Mas não comentei esse aspecto, porque ainda não temos informação concreta, completa, que confirme isso e que eu pudesse mostrar-lhe.

Jürgen Todenhöfer: E sobre a ideia de Kofi Annan, de um governo de unidade, constituído por grupos de oposição, inclusive o Partido Baath.

Presidente Bashar al-Assad: Você está falando do plano da Conferência de Genebra. Sim. Já temos esse governo na Síria. Já há membros do partido Baath no Parlamento e participando do atual governo. Mas é preciso critérios: como se define “oposição”? Podem ser dezenas de milhares, centenas de milhares ou milhões de partidos de ‘oposição’. Todos terão de participar necessariamente do governo? Conforme o número... e se não se define o que seja ‘oposição’, que ‘oposição’ seria essa, criada por força de lei? Não há democracia que opere assim. A democracia exige critérios e exige mecanismos. Para mim, o mecanismo tem de ser as eleições. Você representa uma posição, concorre em eleições, obtém votos, ganha lugar no Parlamento, pode participar legitimamente do governo. Mas, se você ‘se chama’ ‘oposição’, mas não tem votos, não consegue representação no Parlamento, você representa o quê? Você mesmo? Que sentido há nisso? Tivemos eleições parlamentares na Síria, há dois meses.

Jürgen Todenhöfer: Por exemplo, a oposição [ininteligível] que participou das eleições... O senhor aceitaria que participasse de um governo de transição, interim, digamos, temporário...

Presidente Bashar al-Assad: Se aceitarem nossas leis, nossas regras, se não cometerem atos criminosos, se não facilitarem as vias para que a OTAN ou qualquer outra potência externa ataque a Síria, sim, por que não? Eles também têm direito de participar de eleições, se atenderem às condições que os demais partidos também atendem. Não vejo por que a oposição teria de ser banida do país.

Jürgen Todenhöfer: Um homem como Ghalioun, o presidente do Conselho Nacional Sírio... 

Presidente Bashar al-Assad: Não é questão que se possa resolver em geral, para todos. Não é questão de nomes. É questão de princípios para todos. Os dossiês policiais terão de ser examinados. Se não se encontrar indício de que tenham cometido crime, nada os obriga a viver fora da Síria, nada os impedirá de concorrer às eleições. Aplica-se a todos.

Jürgen Todenhöfer: Senhor presidente, quando o senhor pensa no que aconteceu aos líderes de Egito e Líbia. Quando o senhor pensa nas imagens que todos viram pela televisão... O senhor não teme por sua família? 

Presidente Bashar al-Assad: Estamos falando de coisas diferentes, de situações diferentes. O que aconteceu a al-Gaddafi foi selvageria. Não importa o que tenha feito, não importa quem tenha sido. Com Mubarak a situação foi diferente. Mubarak foi julgado. Qualquer cidadão que tenha assistido ao julgamento pela televisão pode ter pensado: queria eu, estar naquela posição, vivendo como ele está vivendo. Para entender o que há a temer, é preciso diferençar essas duas histórias. É tudo completamente diferente. Não há qualquer semelhança entre o que houve no Egito e o que está havendo na Síria. O contexto histórico é completamente diferente, o tecido social é diferente, e nossa política sempre foi diferente. Se não se podem comparar esses destinos, não há o que temer. Talvez, no máximo, alguma emoção de piedade, ou de lástima por algum destino pessoal mais trágico.

Jürgen Todenhöfer: O senhor enfrenta uma oposição dura, seu país enfrenta uma luta dura, há rebeldes e o senhor sabe o que esses rebeldes fazem e são capazes de fazer. Repito, então minha pergunta: o senhor não teme pela sua família?

Presidente Bashar al-Assad: Nada importa mais, na vida de um homem, que viver conforme suas convicções. Claro que pode haver discordâncias, pode haver quem discorde de você, opiniões diferem. Mas se você trabalha para proteger o povo, por que temer? Há centenas de vítimas. Imagine se houver milhares, dezenas de milhares de vítimas? Esse, sim, é o problema a resolver.

Jürgen Todenhöfer: Para terminar, qual é sua proposta para o final desse conflito? Volto à pergunta inicial: o senhor entende que tenha de lutar essa luta até o fim?

Presidente Bashar al-Assad: Temos de chegar a uma solução, que tem dois eixos. Em primeiro lugar, não podemos aceitar o terrorismo. Esse é um eixo. Temos de combater o terrorismo. Quanto a isso não há discussão. A realidade na Síria é que há alguém matando civis, matando inocentes, matando mulheres, matando crianças, matando seus soldados, matando policiais, matando todos. Temos de combater os terroristas, se não aceitam dialogar. O outro eixo é construir um diálogo político com componentes diferentes, para, simultaneamente, poder promover reformas. Em todo esse processo, o povo resolverá quem serão seus representantes

Jürgen Todenhöfer: Não há meio para que as reformas venham um pouco mais depressa.

Presidente Bashar al-Assad: Esse é um critério muito subjetivo. Parecerão mais lentas para uns, rápidas demais para outros. Você acha que a reforma é rápida, eu acho que é lenta... É critério muito subjetivo. Reformas são coisas que se faz o mais depressa possível, sem pagar preço caro demais em cada etapa, porque sempre há efeitos colaterais, que não podem ser tão severos a ponto de inutilizar a reforma. Isso não depende de mim, nem do governo, nem do Estado e é processo que tem de ser encaminhado conforme o ditem as circunstâncias objetivas na Síria.

Jürgen Todenhöfer: E como, senhor presidente, o senhor espera ver seu país dentro de dois anos?

Presidente Bashar al-Assad: Tenho de ver a Síria, em dois anos, mais próspera. Mais prosperidade implica melhores condições econômicas e melhores condições em geral, em todos os campos. Para tudo isso, é indispensável construir, imediatamente, o que a Síria menos tem hoje e do que mais precisa: segurança. Sem segurança, não há como sonhar com prosperidade. 

Jürgen Todenhöfer: Muito obrigado, senhor presidente, por essa entrevista.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Venezuela ignora, outra vez, o embargo contra a Síria


25/5/2012, Red Voltaire

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 



O ministro sírio do Petróleo e Recursos Naturais, Soufian al-Allao, anunciou que petroleiro venezuelano carregado com 35 mil toneladas de mazout [óleo para calefação, extraído do petróleo] chegou à Síria, ignorando o embargo unilateral imposto ilegalmente por países ocidentais.

A Venezuela está construindo novo petroleiro que em pouco tempo estará a caminho da Síria, informou também o ministro sírio, em conferência de imprensa.

Sobre a questão do gás, o ministro al-Allao disse que a produção síria de gás atende 50% das necessidades locais. Observou que, sobre isso, estão em andamento negociações com o Irã e a Argélia, para garantir a complementação (foram descobertas na Síria importantes reservas de gás, mas o país ainda não tem condições para explorá-las [Nota da redação]).

O ministro disse ainda que a comissão sírio-russa, reunida em Moscou, examina a possibilidade de um contrato de longo prazo, a ser firmado entre Síria e Rússia, para exportação de mazout e gás para a Síria.

A Venezuela já forneceu o equivalente a 600 mil barris de petróleo à Síria entre o final de 2011 e início de 2012. Para o ministro, Damasco é vítima da “estigmatização, pelos imperialistas” que tentam derrubar o governo sírio.

Segundo relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, o país de Hugo Chávez conta com reservas confirmadas de 296,50 bilhões de barris, das maiores do planeta.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Síria: O fiasco dos agentes secretos franceses em Homs


por Boris Vian [*]

Enquanto Paris acusa Damasco de ter organizado o assassínio do jornalista da France-Télévisions, Gilles Jacquier, em Homs, uma equipe de jornalistas russos acaba de apresentar uma versão diferente dos fatos. Segundo inquérito, o senhor Jacquier comandava, sob a cobertura da imprensa, uma operação dos serviços secretos militares franceses que redundou em fiasco. As acusações francesas não passam de uma forma de mascarar a responsabilidade de Paris nas ações terroristas empreendidas para desestabilizar a Síria.
Réseau Voltaire / Moscou (Rússia) / 17 de janeiro 2012

Gilles Jacquier
O jornalista francês Gilles Jacquier foi morto quando fazia uma reportagem em Homs, na quarta-feira, 11 de janeiro. Tinha ido cobrir os acontecimentos na Síria para a revista Envoyé spécial.

Persuadido de que não havia grupos terroristas, mas uma revolução reprimida em sangue, tinha recusado proteção dos serviços de segurança e não usava capacete nem colete à prova de balas. Com outros colegas que partilhavam as suas convicções, alugaram três microônibus e encontraram “pontos fixos”, quer dizer, pessoas locais capazes de ajudá-los a encontrar pontos de referência, a marcar encontros e serviços de tradutores.

Todos em conjunto tinham pedido para encontrar-se com representantes alawitas antes de se dirigirem para os bairros revoltados de Bab Amr e Bab Sbah.

Chegados ao Hotel As-Safir, tinham reencontrado, por acaso, um capitão que lhes propôs acompanhá-los com o seu destacamento até ao bairro alawita de Najha onde eram esperados por um assistente do governo de Homs. Com a sua ajuda, os jornalistas puderam encontrar personalidades e interrogar as pessoas na rua.

Às 14:45 horas, a representante do governo tinha-lhes pedido que abandonassem o local o mais depressa possível, pois o cessar-fogo acabava, de fato, todos os dias às 15 horas precisamente. No entanto, os jornalistas da rádio televisão belga flamenga (VRT) tinham-se aventurado mais longe em casas particulares até ao bairro de Akrama, pelo que o grupo demorou mais tempo a sair de lá.

Membros da associação das vítimas do terrorismo que tinham previsto manifestar-se em frente de um carro alugado pelo Ministério da Informação para cerca de quarenta jornalistas anglo-saxões, mas que não os tinham encontrado, acharam que seria útil gritarem slogans pelo presidente Bachar em frente das câmaras de televisão que ali se encontravam. Às 15 horas, como todos dias, a batalha de Homs recomeçou.

Um projétil explodiu no terraço de um edifício, destruindo um reservatório de óleo lubrificante. Um segundo projétil caiu sobre uma escola, depois um terceiro sobre os manifestantes pró-Assad, matando dois deles.

Os jornalistas subiram ao terraço para filmar os estragos. Houve uma calmaria. Gilles Jacquier, pensando que os tiros tinham acabado, desceu com o seu ajudante para ir filmar os cadáveres dos manifestantes. Chegado ao vão da porta foi morto com seis militantes pró-Assad por uma quarta explosão, que o projetou sobre uma moça que lhe servia de guia. Esta jovem foi ferida nas pernas.

Na confusão geral, o morto e a ferida foram evacuados em carros para o hospital. Este incidente fez nove mortos no total e vinte e cinco feridos.

A batalha de Homs prosseguiu com numerosos outros incidentes durante a tarde e a noite.

À primeira vista, tudo era claro: Gilles Jacquier tinha morrido por acaso. Encontrava-se no lugar errado no momento errado. Sobretudo, as suas convicções sobre a natureza dos acontecimentos na Síria levaram-no a acreditar que só devia recear as forças governamentais e que não corria nenhum risco fora das manifestações antirregime. Por isso tinha recusado uma escolta, não tinha usado capacete e colete à prova de balas, não tinha respeitado a hora fatídica do fim do cessar-fogo. Definitivamente, não tinha sabido avaliar a situação, porque foi vítima da diferença entre a propaganda dos seus colegas e a realidade que ele negava.

Nestas condições, não se compreende muito bem o porquê, depois de uma primeira reação de cortesia, a França, que tinha legitimamente exigido um inquérito às circunstâncias da morte do seu cidadão nacional, insinuou subitamente que Gilles Jacquier tinha sido assassinado pelos sírios e recusou que a autópsia tivesse lugar no local em presença dos seus especialistas. Estas acusações foram publicamente explicitadas por um dos jornalistas que acompanhavam Jacquier, Jacques Duplessy.

Para a imprensa francesa os fatos não foram tão evidentes como parecia: persiste uma dúvida sobre a identificação dos projéteis mortais.

Segundo a maior parte dos repórteres, tratava-se de tiros de morteiros. O exército sírio confirma que esta arma é quotidianamente utilizada pelos terroristas em Homs. Mas segundo alguns testemunhos, foram foguetes atirados a partir de um lançador portátil e a televisão privada síria, Ad-Dúnia mostrou as asas do projétil. Há quem se apaixone por este assunto, não sem segundas intenções.

Na França, os anti-Assad acreditam no morteiro e acusam o exército sírio de tê-lo atirado. Enquanto que os pró-Assad acreditam no foguete e acusam os terroristas. Em definitivo, este detalhe não prova nada: é certo que o exército sírio utiliza morteiros, mas não deste calibre e os grupos armados utilizam lança-foguetes, mas nada impede cada campo de variar o seu armamento.

De resto, se é que se tratou de tiros de morteiro, os dois primeiros permitiram ajustar o tiro do terceiro e quarto para atingir os manifestantes que eram o seu alvo. Mas se se tratava de tiros de foguete, era possível visar com muito mais precisão e matar uma pessoa em particular. A tese do assassínio tornava-se possível.

O estudo das imagens e dos vídeos mostra que os corpos das vítimas não estão ensanguentados e crivados de estilhaços, como quando da explosão de um obus (morteiro) que se fragmenta. Pelo contrário, eles estão intactos, correndo o sangue, segundo os casos, pelo nariz e os ouvidos, como quando da explosão de um foguete termobárico, cujo impacto comprime os órgãos provocando hemorragias internas. Da mesma forma, os pontos de impacto sobre o passeio não indicam nenhum traço de fragmentação.

Note-se que certos testemunhos falam de granadas, o que não faz de modo nenhum avançar a nossa compreensão, porque existem granadas de sopro e granadas de fragmentação. Em definitivo, só a hipóteses de arma de sopro (RPG ou granada) é compatível com os elementos médico-legais visíveis nas fotos e vídeos. Acorrendo ao local, os investigadores sírios e os observadores da Liga Árabe encontraram caudas de morteiro de 82 mm e uma cauda de foguete de fabricação israelense.

Por consequência, as autoridades francesas têm razão para estudar a possibilidade do assassínio, mesmo quando se trata para eles de aproveitar um drama para instrumentalizar e justificar a sua ambição de guerra contra a Síria. Portanto, os diplomatas franceses, se tiverem por objetivo procurar a verdade, têm também manifestamente o objetivo de assegurar-se de que os sírios não a descubram. Assim, impediram todos os francófonos de se aproximarem da fotógrafa Caroline Poiron, companheira do jornalista Gilles Jacquier, que velava o seu corpo durante toda a noite. A jovem, em estado de choque, não conseguia dominar o seu comportamento e teria muito que dizer.

Depois, proibiram a autópsia no local e repatriaram o corpo o mais depressa possível. Qual é, portanto, a hipótese por que a França quer verificar sozinha, mas esconder do grande público?

Aqui começa o nosso mergulho no mundo dos serviços especiais ocidentais que conduzem na Síria uma “guerra de baixa intensidade”, comparável às que foram organizadas nos anos oitenta na América Central ou, mais recentemente, na Líbia, para preparar e justificar a intervenção da OTAN.

Gilles Jacquier era um repórter apreciado pelos seus colegas e premiado profissionalmente (Prêmio Albert Londres, Prêmio dos correspondentes de guerra, etc.). Mas não era só isto…

Numa carta com o cabeçalho de France-Télévisions , datada de 1 de dezembro de 2011 , as redatoras chefes da revista Envoyé spécial – a emissão política mais vista no país – tinham solicitado um visto do ministério sírio da informação [1] . Pretendendo querer verificar a versão síria dos acontecimentos segundo a qual “os soldados do exército sírio são vítimas de emboscadas e de grupos armados que grassam pelo país” elas pediam que Jacquier pudesse seguir o quotidiano dos soldados da 4.ª divisão blindada, comandada pelo general Maher-el-Assad (irmão do presidente) e da 18.ª divisão blindada, comandada pelo general Wajih Mahmud. As autoridades sírias ficaram surpreendidas pela arrogância dos franceses: por um lado, enquadram grupos armados que atacam as tropas leais, por outro pretendem infiltrar um agente da informação militar nas suas tropas, para informar os grupos armados das suas deslocações. Não foi dado seguimento a este pedido.

Assim, Gilles Jacquier tentou uma outra via. Pediu a intermediação de uma religiosa greco-católica de linguagem franca, estimada e por vezes temida pelo poder, Madre Agnès-Mariam de la Croix, com um cargo de direção no Mosteiro Saint-Jacques de l'Intercis. Ela tinha facilitado a primeira viagem da imprensa aberta aos jornalistas ocidentais. A célebre religiosa pressionou, portanto, o Ministério da Informação, até obtenção de vistos para Jacquier e acompanhante.

As coisas aceleraram-se em 20 de Dezembro – outros jornalistas pediram à Madre Agnès-Mariam que lhes obtivesse o mesmo favor.

Quanto a Gilles Jacquier, este solicitou outros vistos para a sua companheira, a fotógrafa Caroline Poiron e a repórter Flora Olive, representando, as duas, o Paris-Match. No total, devia ser um grupo de quinze jornalistas franceses, belgas, holandeses e suíços. Com toda a verosimilhança, os franceses e os holandeses eram na maior parte, ou todos, agentes da DGSE [2]. Havia urgência na sua missão.

Aqui, é indispensável fazer uma pequena retrospectiva:

Para enfraquecer a Síria, os grupos armados pela OTAN empreendem diversas ações de sabotagem. Embora o centro histórico da rebelião da Fraternidade Muçulmana seja Hama, e que só dois quarteirões de Homs os apoiem, a OTAN escolheu esta cidade para concentrar as suas ações secretas. Com efeito, ela está no centro do país e constitui o principal nó de comunicação e de abastecimento. Sucessivamente, os “revolucionários” cortaram o oleoduto, depois os engenheiros canadenses que dirigiam a central elétrica foram repatriados a pedido dos Estados Unidos. Enfim, cinco engenheiros iranianos encarregados de fazer voltar a funcionar a central foram retirados em 20 de Dezembro de 2011.

Violando o Direito Internacional a revista Paris-Match publicou
 esta foto dos reféns iranianos (engenheiros) sem cobrir seus rostos.
Este documento constitui “prova de vida” de quatro desses reféns.

Os jornalistas receberam uma reivindicação de uma misteriosa brigada contra a expansão xiita na Síria. Depois, a embaixada confirmou ter iniciado uma negociação com os raptores de reféns. Bastava que estes transmitissem uma “prova de vida”, por exemplo, uma fotografia datada dos reféns de boa saúde. Contra toda a expectativa, esta não foi enviada diretamente à República Islâmica, mas publicada pelo Paris-Match (edição de 5 de Janeiro). Um fotógrafo da revista, dizia-se, tinha conseguido entrar secretamente na Síria e realizar essa foto. Talvez os leitores franceses se tivessem interrogado se esse repórter era realmente humano para tirar fotografias de reféns sem lhes ter prestado auxílio. Pouco importa, a mensagem era clara: os engenheiros estão vivos e os raptores de reféns são controlados pelos serviços franceses. Nenhuma reação oficial nem de um lado nem do outro. Era, portanto, porque as negociações continuavam.

Chegados a Damasco, os jornalistas franceses e holandeses foram alojados pelas autoridades em hotéis diferentes, mas Jacquier reagrupou-os imediatamente no Fardos Tower Hotel. O diretor deste estabelecimento não é outro senão Roula Rikbi, a irmã de Bassma Kodmani, porta-voz do Conselho Nacional, com base em Paris. O hotel serve de esconderijo aos serviços secretos franceses.

Em resumo, um agente de informação militar, tendo por companhia um fotógrafo cujo colega conseguiu entrar em contacto com os reféns, formou um grupo de “jornalistas” com uma missão ligada aos reféns, provavelmente a sua entrega por franceses aos iranianos. Dirigiram-se a Homs depois de se terem desembaraçado dos serviços de segurança, mas o chefe da missão foi morto antes de poder estabelecer o contato previsto.

Compreende-se que, nestas condições, o embaixador da França se tenha tornado nervoso. Ele tinha o direito de considerar que Gilles Jacquier tivesse sido assassinado por membros dos grupos armados, inquietos com a deslocação da aliança militar França-Turquia, e extremistas de uma guerra da OTAN. Hostis à negociação em curso, teriam feito ir por água abaixo a sua conclusão.

O embaixador da França, que não tinha tido tempo de reconstituir os acontecimentos, esforçou-se, portanto, para impedir que os sírios o fizessem. Contrariamente às normas internacionais, recusou que a autópsia fosse realizada no local, em presença do especialista francês. Os sírios aceitaram infringir essa regra, com a condição de fazerem uma radiografia. Na realidade, eles aproveitaram para fotografar o cadáver sob todos os ângulos. Segundo as nossas informações, o corpo apresenta vestígios de estilhaços no peito e de cortes na fronte.

Depois, o embaixador levou nos seus carros blindados os “jornalistas” franceses e o holandês, além dos restos mortais de Jacquier. Partiu com eles acompanhado por uma forte escolta, deixando no local a Madre superiora estupefata e um jornalista da Agência France Presse: o diplomata apressado tinha recuperado os seus agentes e abandonado os civis.

Os carros blindados foram recuperar as bagagens de cada um ao hotel As-Safir de Homs, depois regressaram à embaixada em Damasco. O mais depressa possível, chegaram ao aeroporto, onde um avião especial fretado pelo Ministério francês da Defesa evacuou os agentes para o aeroporto de Paris-Le Bourget.

Os agentes secretos não fingiram mais realizar as reportagens na Síria, esqueceram-se de ter obtido um prolongamento do seu visto, e fugiram depressinha antes que os sírios descobrissem o arranjinho desta operação mal sucedida.

Chegado à Paris, o corpo de Jacquier foi imediatamente transferido para o instituto médico-legal e autopsiado, antes da chegada dos peritos enviados pela Síria. Violando os processos penais, o governo francês invalidou o relatório da autópsia, que cedo ou tarde seria rejeitado pela Justiça, e afastou definitivamente a possibilidade de se estabelecer a verdade.

A fim de impedir os jornalistas franceses (os verdadeiros) de meter o nariz nesta questão, os “jornalistas” (os falsos) que acompanhavam Jacquier, uma vez de volta à França, multiplicaram-se em declarações contraditórias, mentindo de maneira desavergonhada, para criar a confusão e mascarar a verdade.

Assim, embora oito manifestantes pró-Assad tenham sido mortos, Jacques Duplessy denuncia “uma cilada montada pelas autoridades sírias” para eliminá-lo com os seus colegas. Verificado isto, o senhor Duplessy trabalhou afincadamente para uma ONG, conhecida por ter servido de biombo …à DGSE!

Para os iranianos e sírios, a morte de Jacquier é uma catástrofe. Deixando circular o grupo de espiões franceses e vigiando-o discretamente, esperavam chegar aos raptores e, ao mesmo tempo, libertar os reféns e prender os criminosos.

Já há um ano, os serviços secretos militares franceses foram postos ao serviço do imperialismo estadunidense. Organizaram um início de guerra civil na Costa do Marfim. Em seguida, manipularam o separatismo da Cirenaica, para dar a ideia de uma revolução anti-Kadafi e apoderar-se da Líbia. Agora, enquadram os cadastrados recrutados pelo Qatar e a Arábia Saudita para semear o terror, acusar o governo sírio e ameaçar com a sua mudança.

Não temos a certeza que o povo francês gostaria de saber que Nicolas Sarkozy rebaixou o seu país ao nível de um vulgar sequestrador e que mantém reféns em cativeiro.

Não devemos admirar-nos se um Estado (França) que pratica o terrorismo em terra alheia, se venha a confrontar um dia com ele na sua própria terra.

13/Fevereiro/2012

Notas dos tradutores
[1] Este documento pode ser visto no final da página do sítio em referência
[2] Direção Geral da Segurança Exterior – serviço do Estado francês, sob a autoridade do poder executivo, que tem por objetivo a proteção dos interesses franceses, designadamente a proteção dos cidadãos franceses em qualquer parte do mundo.

[*] Correspondente do Komsomolskaya Pravda em Damasco

 

O artigo original, em russo, encontra-se em:Французские репортеры в Сирии оказались агентами спецслужб . A tradução para o francês pode ser lida no New Orient News (Líbano) e na Rede Voltaire em: “Le fiasco des barbouzes français à Homs”. 
A tradução para o português foi realizada por MT para o sítio
Pelo Socialismo (em .pdf).
Esta tradução foi extraída do sitio Resistir e adaptada para o português do Brasil pela redecastorphoto