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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

As mentiras tóxicas do ocidente sobre a Síria

16/10/2013, [*] Finian Cunningham, Press TV, Irã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Meninos que andam sobre os escombros de um edifício que os “rebeldes” disseram que foi bombardeado por forças leais ao presidente da Síria, Bashar al-Assad
Dizem que bom mentiroso tem de ter memória infalível, para conseguir manter as próprias mentiras. Ou, mais dia menos dia, o mentiroso acaba por cair na armadilha das próprias lorotas que contou antes.

Apenas poucas semanas depois do incidente com armas químicas mortais, dia 21/8, próximo a Damasco, a narrativa ocidental já está ruindo sob o peso das próprias mentiras.

Lembremos que aquele foi o incidente “horrendo” que por pouco não resultou em ataque mortífero pelo EUA e aliados, contra a Síria. “Os militares dos EUA não dão beliscões”, [1] – disse Obama, o sinistro, enquanto mandava navios de guerra dos EUA armados com centenas de mísseis Tomahawk Cruise para se reunirem e atacar a Síria.

Bashar al-Assad
Todos os discursos e falas “oficiais” no ocidente, segundo os quais o governo sírio estaria cometendo atrocidades contra civis, com gás sarin, sempre foram, desde o início, impressionantemente sem provas. Onde estão os nomes e as sepulturas das “mais de 1.400” pessoas que, segundo Washington, haviam sido mortas “com absoluta certeza” pelo exército sírio? E sobre as comunicações interceptadas que os EUA diziam ter, entre comandantes do exército sírio? Onde está a “inteligência conclusiva” de que falavam Washington, Londres e Paris, e que usaram para justificar ataques militares punitivos contra o governo soberano do presidente Bashar al-Assad?

A cada dia aumenta a quantidade de provas que DESMENTEM tudo que se disse no ocidente – e que a imprensa-empresa canina e incansavelmente repetiu; e que PROVAM que a verdade é, como sempre foi, absolutamente outra, uma narrativa diferente, muito mais convincente e muito perturbadora, a saber: que houve um massacre de grandes proporções em área próxima a Damasco, dia 21/8, e que envolveu inteligência ocidental e dos sauditas, mancomunada com grupos de mercenários anti-governo sírio apoiados do exterior. Civis, inclusive crianças, foram assassinados a sangue frio, provavelmente por injeção letal, para encenar uma provocação que serviria como pretexto para o ataque militar dos EUA contra a Síria.

Esse ataque de grandes proporções contra a Síria era cada dia mais necessário, à medida em que ia fracassando o objetivo de forçar mudança de regime, objetivo declarado do Eixo do Mal, a saber: de Washington, Londres, Paris, Riad, Doha, Telavive, Amã e Ancara.

Pois foi aí que os mentirosos deram-se mal. O presidente Obama, David Cameron da Grã Bretanha, o francês François Hollande e todos seus respectivos mais altos funcionários, entre os quais o secretário de Estado dos EUA, John Kerry e a embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, todos repetiram incansavelmente o mesmo mantra,

Sabemos que o regime Assad cometeu aquele crime, porque os rebeldes sírios não têm capacidades para usar armas químicas.

Esse “argumento”, de que as gangues mercenárias apoiadas pelo ocidente na Síria não teriam tido acesso a armas químicas foi repetida e repetida, e amplificada e amplificada vezes sem conta, por toda a “grande empresa-imprensa” ocidental, jornais, rádios, televisões e noticiários em geral.

Evidentemente, observadores mais bem informados sabiam da mentira. Vários relatórios de especialistas confirmavam, há bastante tempo, que os grupos Takfiri e ligados à Al-Qaeda, como a Frente Al-Nusra, haviam sido apanhados na Síria e na Turquia, em diferentes ocasiões, antes, com suprimentos de gás sarin e de outros produtos tóxicos.

Mas vale a pena examinar melhor esse específico detalhe, porque o ocidente fez desse argumento (o argumento da “impossibilidade” de os mercenários fazerem usos de armas químicas) o ponto chave, para justificar sua pretendida ação militar contra a Síria.

E agora, o que se vê, são diplomatas ocidentais, alguns jornalistas e os inspetores oficiais da ONU, todos esses, a dizer que as gangues mercenárias apoiadas pelo ocidente sim, elas tiveram pelo acesso a munição tóxica proibida internacionalmente.

Essa revelação, que deveria aparecer como admissão de erro e confissão de culpa na primeira página de todos os jornais – “no mesmo espaço e com igual destaque” em relação às “denúncias” agora desmentidas – apareceu travestida no New York Times em notícia que, de fato, desviava a atenção dos leitores:

Aumenta a pressão sobre rebeldes [sic] sírios na 2ª-feira, para que permitam acesso aos arsenais de armas químicas em áreas sob controle deles – escreveu o jornal.

E o Times acrescentava;

Um diplomata ocidental no mundo árabe disse que, embora o governo sírio seja legalmente responsável pelo desmonte de seus arsenais químicos por um acordo internacional, a oposição também pode cooperar no processo, porque vários locais onde se armazenam armas químicas estão localizados em áreas em disputa ou dentro de território controlado pelos rebeldes.

Ahmet Üzünkü
A verdade parece ser muito diferente disso. Ahmet Üzümcü, diretor da Organização para Proibição de Armas Químicas, disse também essa semana que o governo sírio cooperou plena e completamente, no processo de garantir acesso dos inspetores a todos os arsenais sob seu controle. Mas Üzümcü disse também que o problema, agora, é que sua equipe de inspetores não está conseguindo chegar aos arsenais controlados pelas gangues mercenárias da oposição a Assad. E, isso, porque esses grupos abriram fogo contra os inspetores e chegaram a explodir bombas em áreas próximas aos hotéis onde os inspetores estão hospedados.

Apelamos para que todos apóiem essa missão e cooperem, para não tornar as coisas ainda mais difíceis – disse Üzümcü.

O ponto crucial é que líderes ocidentais e seus mais altos servidores, além de praticamente toda a imprensa-empresa ocidental, fiel obediente daqueles mesmos governos e servidores, foi apanhada em mais algumas de suas mentiras tóxicas sobre a Síria.

O New York Times e outros veículos da imprensa-empresa ocidental não parecem dar-se conta da risível contradição entre suas “notícias”: há apenas algumas semanas, os mercenários não saberiam usar armas químicas e, por essa “razão”, estaria “provado” que não tinham armas químicas... O que provaria que todas as armas químicas teriam de ter sido empregadas pelo governo sírio, o qual, por esse crime, esteve muito próximo de virar alvo de ataque militar levado a cabo pelos EUA.

Washington e seus aliados estiveram muito próximos de atacar massivamente a Síria, o que teria causado a morte de milhares de civis. Teria sido agressão criminosa, dado que, como já se sabe hoje, foi ideia erguida sobre uma montanha de mentiras. No centro da “invenção” de motivos para um ataque à Síria estava a mentira de que as gangues armadas e pagas pelo ocidente “não poderiam” ter cometido as atrocidades que se viram em Damasco, “porque não possuíam armas químicas”.

Agora, como se começa a ver pela informação correta que às vezes vaza – aos pingos! – nas páginas dos veículos da imprensa-empresa ocidental, já se sabe que, sim, sim, os mercenários tinham acesso às mais mortais armas químicas. E o chefe da equipe de inspetores da Organização para Proibição de Armas Químicas é obrigado a suplicar que as tais gangues cooperem, para que possa levar a cabo sua missão de desarmamento químico na Síria.

O jornalismo de propaganda ocidental está visivelmente com um problema de memória. E atrapalha-se pateticamente no seu próprio amontoado de mentiras. Seja como for, não podemos deixar que o mundo esqueça os crimes e mais crimes que os governos ocidentais sempre estão a um passo de cometer. Pelo menos, para impedi-los de montar imediatamente outra farsa equivalente à anterior.


Nota dos tradutores
[1] Ver 18/9/2013, redecastorphoto em: E Obama fala, fala, fala, fala...
______________________

[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe. 


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Síria: “Bem-vinda pausa na loucura norte-americana”


11/5/2013, Eric Margolis, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:
Sobre o início das conversações de paz na Síria em: 10/5/2013, Kerry não conseguiu incendiar o rio Moscou, MK Bhadrakumar, Asia Times Online, traduzido.

Eric Margolis
A terrível guerra civil na Síria empurrou as duas maiores potências nucleares para uma rota de colisão, em que disputavam uma pequena nação do Levante, sem qualquer importância estratégica para Washington. Esse quadro não é admissível.

Notícias de que EUA e Rússia se reunirão conferência de paz, para discutir o que farão, ainda em maio, são bem-vindas: essa conferência já deveria ter acontecido há muito tempo. Como disse sabiamente Benjamin Franklin, “não há guerra boa, nem paz ruim”.

Moscou clama há dois anos por essa reunião. Washington sempre rejeitou a ideia, na esperança de que os ‘rebeldes’ sírios, que os EUA apoiam, conseguissem chegar ao poder. Mas agora, com a situação que se vê, cada dia mais distante desse ‘projeto’ dos EUA, parece que, embora ainda relutantemente, os EUA começam a aceitar contribuir para um esforço diplomático que ponha fim à guerra norte-americana, antes que toda a região se converta num único grande incêndio.

A Síria é o mais recente exemplo do que Henry Kissinger disse certa vez: “muitas vezes, é mais perigoso ser aliado, que inimigo, dos EUA”.

Bashar al-Assad
O governo Assad em Damasco foi, por décadas, aliado tácito do Ocidente, porque reprimia os extremistas islamistas, mantinha em paz a fronteira com Israel e interrogava prisioneiros que os serviços de inteligência dos EUA despachavam para lá. Damasco sequer reagiu com vigor, na defesa do próprio território nas Colinas do Golan, quando Israel anexou ilegalmente a região, depois da guerra de 1967 entre árabes e israelenses.

Mas nem esse bom comportamento ajudou a Síria, quando EUA, Grã-Bretanha, França e Israel decidiram que querem cortar a cabeça do Irã, principal aliado dos sírios. Quando se recusou a unir-se à aliança ocidental liderada pelos EUA e pelas petromonarquias conservadoras, contra o Irã, o presidente Bashar al-Assad selou o próprio destino.

O grito que se ouvia dos militares norte-americanos passou a ser “A estrada para Teerã passa por Damasco”. E a Síria foi condenada a ser destruída, exatamente como o Iraque foi destruído.

Na Síria, Washington estimulou e fez incendiar a mesma animosidade entre muçulmanos sunitas e xiitas, que já lhe fora muito útil no Iraque. Diferenças teológicas foram convertidas em furiosa rivalidade política, movimento construído tendo por alvo também o Irã, para gerar guerra entre sunitas e xiitas em todo o mundo muçulmano.

O que começou na Síria como manifestação pequena e pacífica contra o governo de Assad, e que foi reprimida, foi rapidamente inflada até se converter em rebelião nacional. Repetindo o pequeno levante, produto de aplicada engenharia ocidental, que derrubou Muammar Gadaffi da Líbia, o Ocidente e seus aliados árabes rapidamente armaram, treinaram e dirigiram os insurgentes sírios. E, como na Líbia, a faca de duas lâminas, operante no centro de tudo, foram grupos islamistas armados.

A França, a potência colonial que governou a Síria, teve papel discreto, mas importante, porque forneceu aos rebeldes, desde o início, equipamentos de comunicação e armamento antitanques. A França parece interessada em dar nova vida à sua influência colonial na África Ocidental, no Sahel, no Líbano e na Síria.

Os EUA mantiveram-se por trás das cortinas, fornecendo dinheiro, financiamento, armamento avançado e apoio político. E delegaram à Turquia quase todo o serviço braçal.

Mas tudo isso feito... e passados dois anos de combates ferozes, nada do que estava previsto aconteceu. Um presidente Obama cada dia mais cauteloso, ainda reluta em envolver soldados norte-americanos em campanha direta, em solo, no Oriente Médio – e por boas razões. Os militares norte-americanos estão perigosamente ‘diluídos’ por todo o planeta, e o Tesouro dos EUA sobrevive de dinheiro emprestado por China e Japão. Mas Obama está sendo pressionado por Republicanos pró-guerra, pela extrema direita dos religiosos extremistas e fanáticos e por outros, interessados em que Israel destrua a Síria e, na sequência, também o Irã.

Obama e o tamanho do "pepino" 
Efeito disso, Obama tergiversa, enquanto jorra sangue sírio; e a guerra de Washington já ameaça alastrar-se para a Jordânia, o Líbano e o Iraque (nesse caso, pela segunda vez, depois da “Missão Cumprida” cenografada de Bush). Semana passada, Israel lançou pesados ataques aéreos contra alvos militares sírios – claro ato de guerra – e matou cerca de 80 soldados sírios.

Ainda não se sabe se Israel tentava destruir um comboio que estaria transportando foguetes de longo alcance, do Irã para seu aliado libanês, o Hezbollah, como disseram fontes israelenses; ou se Israel tentava destruir a força aérea e os blindados sírios, tentando derrotar o governo Assad.

Segundo parte da mídia, Israel não comunicou ao governo americano seus planos para atacar a Síria. Aqui em Washington, muitos funcionários da segurança perguntam-se se Israel conseguirá arrastar os EUA também para uma guerra contra o Irã, usando o mesmo “procedimento”.

O que se sabe com certeza é que o Ocidente está destruindo a Síria. Como se viu no Iraque, também a Síria parece estar sendo castigada pela ousadia de manter política independente e por não se ter curvado aos desígnios e planos ocidentais para o Oriente Médio.

A Síria está sendo usada como, nas cortes europeias, usava-se um servo, o qual recebia as chineladas, quando algum príncipe comportava-se mal: estaria apanhando em substituição ao Irã, país cujas riquezas naturais o tornam altamente importante para o Ocidente.

Como “recado” bem claro a Teerã: eis o que acontecerá a vocês, se não cancelarem todo o seu programa nuclear.

domingo, 12 de agosto de 2012

Intervenção empurra a Síria para o coração das trevas


7/8/2012, Seumas Milne*, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O ocidente e os regimes do Golfo, que apoiam os “rebeldes”, não levam a Síria à liberdade; só levam a Síria ao confronto sectário e a mais guerra. 

Afinal, a destruição da Síria está em pleno curso, à velocidade máxima. O que começou como levante popular há 17 meses, já é plena guerra civil, alimentada por potências regionais e globais, e que já ameaça espalhar-se por todo o Oriente Médio. A batalha pela antiga cidade de Aleppo prossegue, os dois lados cometem atrocidades, e aumenta o perigo de o conflito alastrar-se para além das fronteiras sírias.

Mulheres sírias cozinham em uma escola onde se refugiaram depois de fugir de suas casas na cidade de Kafr Hamra, seis quilômetros ao norte de Aleppo. Foto: Khalil Hamra
A deserção do primeiro-ministro da Síria é a face mais recente de um golpe que conta com quantidades ilimitadas de dinheiro, mas absolutamente não há sinais de que o regime esteja sob risco de colapso iminente. E a prisão de 48 peregrinos iranianos – ou 48 Guardas Revolucionários disfarçados, conforme a fonte em que você mais acredite – e o crescente risco de a Turquia atacar as áreas curdas na Síria, além da torrente de combatentes jihadistas que chegam à Síria, são amostra do que está em jogo.

A escalada do conflito foi empurrada por forças ocidentais e regionais. A Síria evidentemente não é o Iraque, com centenas de milhares de soldados em campo; nem a Líbia, com ataque aéreo devastador. Mas o sempre crescente fornecimento de armas, de dinheiro e de apoio técnico, por EUA, Arábia Saudita, Qatar, Turquia e outros, nos últimos meses, mudou dramaticamente o destino dos “rebeldes” e o número de mortos.

Até aqui, Barack Obama tem resistido às exigências dos falcões de direita e neoconservadores que clamam por ataque militar direto. Em vez de ataque direto, autorizou aumento nas operações clandestinas da CIA, à moda do que os EUA fizeram na Nicarágua, de apoio aos “rebeldes” sírios.

Os EUA, que apoiaram o primeiro golpe na Síria, em 1949, há muito tempo financiam grupos de oposição. Mas, no início de 2012, Obama assinou ordem secreta autorizando ações clandestinas (além de apoio financeiro e diplomático também clandestino) à oposição armada. Significa, dentre outros movimentos, agentes da CIA em campo, assistência no campo das comunicações e nas ações de “comando e controle”, além de direcionamento de suprimento de armas e munição para grupos sírios, através da fronteira turca. Depois que Rússia e China bloquearam a última tentativa de os EUA obterem mandado da ONU para promoverem mudança forçada de regime na Síria mês passado, o governo dos EUA fez saber que ampliaria o apoio aos “rebeldes” e que trabalharia em coordenação com Israel e Turquia, em planos de “transição” para a Síria.

“Vocês viram que, nos últimos meses, a oposição foi fortalecida” – disse um alto funcionário do governo Obama ao New York Times, 6ª-feira passada. “Agora, estamos prontos a acelerar esse processo”. Para não ficar de fora, William Hague vociferou que a Grã-Bretanha também estava ampliando o apoio “não letal” aos “rebeldes”. Os governos autocráticos da Arábia Saudita e do Qatar garantem dinheiro e armas, como confirmou essa semana o Conselho Nacional Sírio apoiado pelo ocidente; e a Turquia, membro da OTAN, montou uma base de logística e treinamento para o Exército Sírio Livre na, ou próximo da, base norte-americana de Incirlik.

Para os sírios que querem dignidade e democracia num país livre, a dependência de apoio externo, que cresce sem parar como erva daninha dentro de seu movimento original, é desastre absoluto – maior, até, que o desastre que desabou sobre a Líbia. Afinal, quem hoje decide quais grupos recebem dinheiro e armas é o regime ditatorial e sectário dos sauditas, não os próprios sírios. E são agentes da inteligência dos EUA e ditaduras regionais que apoiam a ocupação israelense de território sírio, quem decide quais grupos recebem armas.

Ativistas da oposição insistem em que preservarão a própria autonomia, baseados em apoio popular firmemente enraizado. Mas a dinâmica do apoio externo facilmente tornará dependentes os grupos locais, que cada vez precisarão mais dos instrumentos que os patrocinadores lhes prometem, do que dos grupos que dizem representar. O dinheiro do Golfo já aprofundou tragicamente o sectarismo religioso no campo “rebelde”, e notícias de confrontos entre os grupos armados em Aleppo essa semana comprovam o alto risco de os grupos armados dependerem mais de forças externas do que de suas respectivas comunidades.

O regime sírio é, claro, apoiado por Irã e Rússia, e assim foi durante décadas. Mas melhor analogia para o envolvimento do ocidente e do Golfo na insurreição síria seria, por exemplo, haver iranianos e russos patrocinando uma revolta armada, digamos, na Arábia Saudita. Para a mídia ocidental, que insistiu em noticiar o levante sírio como se fosse combate unidimensional por liberdade, a evidência já inescapável de “rebeldes” que torturam e executam prisioneiros – além dos sequestros ao estilo al-Qaeda, que mais uma vez descobrem-se aliados dos EUA – parece ter sido um choque.

Na realidade, a crise síria sempre teve múltiplas dimensões que cruzavam as linhas de divisão mais sensíveis da região. No nascedouro foi levante genuíno contra regime autoritário. Mas muito rapidamente metamorfoseou-se e converteu-se em conflito sectário, no qual o governo de Assad, no qual predominam os alawitas, pôde apresentar-se como protetor das minorias – alawitas, cristãos e curdos – contra uma maré de oposição dominada por sunitas.

A intervenção da Arábia Saudita e de outras autocracias do Golfo, que tentavam se autoproteger contra o levante árabe mais amplo, jogando o trunfo do antixiismo, visa, muito visivelmente, a um resultado sectário, não democrático. Mas há a terceira dimensão – a aliança entre Síria, Teerã e o movimento da resistência dos xiitas do Hezbollah libanês, e essa dimensão converteu a luta na Síria em guerra por procuração contra o Irã e em conflito global.

Muitos na oposição síria poderão argumentar que não lhes restou alternativa senão aceitar o apoio estrangeiro, se quisessem defender-se da brutalidade do regime. Mas, como diz o líder da oposição independente Haytham Manna, a militarização do levante enfraqueceu sua base popular e democrática original – ao mesmo tempo em que aumentou dramaticamente o número de mortos.

Hoje, é alta a probabilidade de que a guerra espalhe-se para fora da Síria. A Turquia, com grande população de alawitas, além de uma minoria curda que enfrenta longos anos de repressão, reclamou para si o direito de intervir contra os rebeldes curdos na Síria, depois que Damasco retirou seus soldados das cidades curdas. Confrontos disparados pela guerra síria intensificaram-se no Líbano. Se a Síria for fragmentada, todo o sistema de estados e fronteiras do oriente pós-otomano virá também abaixo.

É o que pode acontecer agora, independente de por quanto tempo sobreviva o regime de Assad. Mas a intervenção na Síria está prolongando o conflito, em vez de apressar qualquer solução durável. 

Só um acordo negociado, que o ocidente e seus amigos tão encarniçadamente bloquearam, pode agora dar aos sírios a chance de decidir sobre o próprio futuro – e impedir que o país mergulhe no coração das trevas.

Seumas Milne* é editor associado e colunista do The Guardian. Foi moderador de comentários de 2001-7, além de exercer as funções de repórter e editor-geral. Realizou matérias sobre o Oriente Médio, Europa Oriental, Rússia, Sul da Ásia e América Latina. Já  trabalhou no The Economist e é o autor de The Enemy Within e co-autor de Além da economia de casino.
Twitter: @ SeumasMilne

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pepe Escobar: Obama faz “Syriana”


3/8/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A Agência Reuters demorou a receber autorização para noticiar que o presidente Barack Obama dos EUA aprovou documento de inteligência [1] liberando a CIA para soltar a mão no apoio que dá aos “rebeldes” armados que lutam pela mudança de regime na Síria. 

Agora, qualquer pescador em Fiji já sabe sobre esse “segredo” (para nem falar que todos e mais os vizinhos, na América Latina, também descobriram umas coisinhas sobre as aventuras de mudança de regime da CIA). A Reuters, cautelosamente, apresenta o apoio como “circunscrito”. É palavra-código para “comando por trás dos panos”. 

Sempre que a CIA quer vazar alguma coisa, usa escriba de confiança, como David Ignatius do Washington Post. Já desde 18/7 Ignatius reproduzia seu briefing, [2] segundo o qual “a CIA está trabalhando com a oposição síria há várias semanas, sob orientação não letal (...) Legiões de agentes da inteligência de Israel também operam ao longo da fronteira da Síria, embora guardando máxima discrição”.

Que lindo. Quanto de “máxima discrição” alguém consegue manter ao longo das fronteiras da Síria? Instagram de um bando de caminhoneiros sorridentes?

E sobre “máxima discrição” em matéria de Mossad, dizem os especialistas em Telavive que Israel consegue “controlar” o enxame de jihadistas wahhabistas e salafistas linha duríssima que infestam a Síria. Apesar da evidente total piração, um ponto altamente sumarento aparece aí bem claro: Israel já se amancebou e anda metida nos panos com islamistas de estilo al-Qaeda.

Isso significa que o Exército-Nada-Livre-Sírio, infestado de Irmãos da Fraternidade “Duro de Matar” Muçulmana e infiltrado por jihadistas salafistas, segue agora não apenas a agenda de seus financiadores e vendedores/doadores de armas – a Casa de Saud e o Qatar – mas, também, a agenda de Telavive, mancomunada com Washington e seus poodles marca-registrada Londres & Paris. Quer dizer: já não se trata de guerra por procuração: agora se trata de guerra por procuração múltipla e concêntrica.

Conheçam o triângulo da morte

A agenda de Telavive é clara: governo sírio enfraquecido; exército desorganizado tipo entra-quem-quer; ódio sectário distribuído a mancheias; e incontido deslizamento rumo à balcanização. A meta geral final: além de libanização, também a somalização da Síria e arredores.

Centro de Controle em Iskenderun
A agenda da Turquia permanece inacreditavelmente obscura – exceto pelo delírio desejante de ver a Síria pós-Assad converter-se em versão civilizada edulcorada (o que nunca acontecerá) do reinado do partido AKP em Ankara.

Como esse Asia Times Online tem noticiado há meses, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) até há pouco tempo dirigia um centro de controle e comando em Iskenderun, na província de Hathay. Recentemente, vazou afinal para a Reuters a notícia de que há uma base “secreta” conjunta turco-qatari-saudita em Adana, a 100 quilômetros da fronteira síria. Adana é onde vive o monstro Incirlik – imensa base da OTAN. Fonte local de nosso Asia Times Online tem informado sobre frenético movimento de cargas em Incirlik.

Base de  Incirlik na Turquia
Foi o próprio Vice-Ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita Abdulaziz bin Abdullah al-Saud quem exigiu, pessoalmente, que a base fosse instalada ali, para delícia de Ankara.

Ankara-Riad-Doha – aí está o triângulo da morte. Mas vem do Qatar, mais uma vez, a conversa que mais decisivamente está “comandando por baixo dos panos”. A Turquia carrega o piano militar: a CIA mantém-se em posição de “não estamos aqui”; e o Qatar só faz tirar fotos de paisagens, como turista inocente (ao mesmo tempo em que comanda operações usando os próprios serviços militares de inteligência). Quem sua a camisa, mesmo, são “intermediários” não identificados.

Obama não autorizou – ainda – a guerra de drones; e a CIA talvez não esteja armando os “rebeldes”; é o negócio do “triângulo da morte”. Inflação de granadas lançadas de foguetes russos compradas no mercado negro é a causa de recentes mega ataques dos “rebeldes” em Damasco e Aleppo. Agora, já se espera inflação de mísseis portáteis antitanque (o atirador apoia a arma no ombro e dispara o míssil). A NBC News já noticiou um “presente” que chegou ao Exército Sírio (Nada) Livre, de quase duas dúzias de mísseis terra-ar, entregues lá por especial obséquio da – e de quem mais seria? – Turquia.

O Qatar e a Arábia Saudita não estão interessados em fazer prisioneiros. Ninguém em Washington parece dar qualquer atenção às lições do Afeganistão pós-Jihad, antes de tomar decisões. Por falar nisso, sim, aí está a Jihad afegã dos anos 1980s, tudo outra vez – com Arábia Saudita e Qatar fazendo o papel do Paquistão; o Exército Sírio Livre, no papel dos gloriosos mujahideen (“combatentes da liberdade”); e Obama no papel de Ronald Reagan. Só falta Obama aprovar “memorando de notificação” que autorize Washington a armar os combatentes da liberdade e, em seguida, mandar para lá um enxame de drones.

Aí está receita perfeita para Hollywood criar mais um filme arrasa-quarteirão, para 2013.

Riad, por sua vez, está forçando o rei-de-Playstation da Jordânia a implantar uma zona neutra em seu território para abrigar as mais de 100 gangues de que é composto o ESL – como revelou o jornal al-Quds al-Arabi mantido pelos sauditas. E adivinhem quem era o lacaio que obrava para forçar o negócio? Ninguém menos que o evanescido chefe da inteligência saudita príncipe Bandar – que não se sabe se morreu ou não morreu em atentado à bomba há duas semanas (Where is Prince Bandar?”, Asia Times Online, 2/8/2012).

A Ceifadora Sinistra** vence

Vale a pena repetir até que a Ceifadora Sinistra apareça para recolher os restos: vê-se ao largo, chegando, um espetacular tiro gigante pela culatra.

O prolongado sítio de Aleppo, aí, chegando. A “base secreta” do CCGOTAN (Conselho de Cooperação do Golfo/Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Turquia, armamento pesado, a mancheias para jovens sunitas sírios desempregados, semianalfabetos, nascidos e criados sectários do tipo que vive de matar desertores do exército, criminosos de várias cepas e jihadistas salafistas multinacionais. O vídeo que se vê em [3] mostra tudo que é preciso saber sobre o que é e faz o Exército Sírio Livre. E outro vídeo, que se vê em [4] mostra o tipo de “democracia” que querem ter por lá.

Os wahhabistas sauditas querem uma Síria islamista sunita linha duríssima – preenchida com cristãos, alawitas, drusos e curdos na figuração, como cidadãos de terceira classe (ou candidatos privilegiados à degola). Os qataris querem ali um protetorado da Fraternidade Muçulmana.

Os políticos e “especialistas” que constroem as políticas externas do governo Obama devem estar cheirados ou fumados, cheios de crack barato. Só porque se meteram em guerra sem fim nem limites contra, não só o Irã, mas todos os xiitas que vivem por lá... O quê?! O que mais?! Resolveram também apostar tudo numa somalização da Síria, que inflará a intolerância wahhabista? A Ceifadora Sinistra espera, dentes à mostra, nas coxias. 

Notas de rodapé
2. 19/7/2012, Washington Post em: “Looking for a Syrian endgame”. 
3. Assista a seguir:


Notas dos tradutores
*Sobre Syriana, filme de 2005. 
**Orig. “Grim Reaper”: é também nome de uma banda de heavy rock, inglesa, criada em 1979. Pode-se vê-los/ouvi-los em “See you in hell” a seguir:

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pepe Escobar: “Bem-vindos à Primavera Curda”


27/7/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
A política externa turca, codificada pelo ministro de Relações Exteriores Ahmet Davutoglu foi conhecida pelo apelido “zero problemas com nossos vizinhos”. Quando a Turquia começou a clamar por mudança de regime na Síria, aquela política virou “um vasto problema com um de nossos vizinhos” (apesar de o próprio Davutoglu ter admitido publicamente que a mudança de regime falhara).

Agora, em mais uma reviravolta, a tal política já está virando “todo e qualquer problema, os mais variados, com dois de nossos vizinhos”. Entra em cena – inevitavelmente – o tabu mãe de todos os tabus de Ancara: a questão curda.

Ancara costumava caçar e bombardear rotineiramente os guerrilheiros curdos do PKK que passavam de Anatólia para o Curdistão iraquiano. Atualmente, talvez se esteja posicionando para fazer o mesmo no Curdistão sírio.

Recep Tayyip Erdogan
O primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan foi à televisão turca, de faca nos dentes: “Não permitiremos que um grupo terrorista estabeleça acampamentos no norte da Síria e ameace a Turquia.”

Referia-se ao Partido Democrático Curdo Sírio [orig. Syrian Kurdish Democratic Party (PYD)] – afiliado ao PKK; depois de negociação silenciosa com o regime de Assad em Damasco, o Partido Democrático Curdo Sírio controla áreas-chaves no nordeste da Síria.

Assim sendo, Ancara pode garantir logística a dezenas de milhares de “rebeldes” da OTAN da Síria – entre os quais se incluem magotes de “insurgentes” árabes sunitas linha-duríssima, antigamente chamados “terroristas”; mas, se os curdos sírios – que integram a oposição síria – demonstrarem alguma independência, eles imediatamente voltam a ser considerados “terroristas”.

Tudo sobredeterminado pelo pesadelo de curtíssimo prazo que assola Ancara: a possibilidade de criar-se um Curdistão sírio semiautônomo muito intimamente ligado ao Curdistão iraquiano.

No Curdistão sírio - milícia feminina armada pró-Assad

Siga o petróleo!

Relatório do Instituto Palme, sueco [1], mostra a que parece ser a melhor radiografia da hiper fragmentada oposição síria. Os “rebeldes” são controlados pelo Conselho Nacional Sírio [orig. Syrian National Council (SNC), de exilados que vivem fora da Síria e suas milícias de mil cabeças, feito a Hidra, as mais de 100 gangues que constituem o Exército Sírio Livre ‘Que de Livre Pouco Tem’ [orig. Not Exactly Free Syrian Army (FSA)].

Mas há também muitos outros partidos, inclusive socialistas, marxistas, nacionalistas seculares, islamistas, o Conselho Nacional Curdo [orig. Kurdish National Council (KNC)] – coalizão de 11 partidos muito próximo do governo curdo iraquiano; e o Partido Democrático Curdo Sírio.

O Conselho Nacional Curdo e o Partido Democrático Curdo Sírio podem discordar em praticamente tudo, mas concordam quanto ao essencial: a guerra civil na Síria não pode invadir o Curdistão sírio. Afinal de contas, os curdos não são nem pró-Assad nem pró-oposição; eles só se interessam pelo que tenha a ver diretamente com os curdos. O acordo foi selado sob o patrocínio de outros curdos – os primos curdos iraquianos. E o acordo explica por que os curdos estão de fato no controle – pleno controle – de um enclave curdo no nordeste da Síria.

Acampamento de refugiados curdos iraquianos na Síria
No que tenha a ver com a paranoia turca, há uma longa e sinuosa estrada [*] que leva de uma área semiautônoma a um Curdistão independente onde se reúnam os curdos sírios e iraquianos – para nem mencionar, no longo prazo, também os curdos turcos. Caso é que metade de um possível futuro Curdistão independente seria de fato turco. O pesadelo em andamento em Ancara é que quanto mais os Curdistões iraquiano e sírio aproximam-se da Turquia, mais aumentam o barulho e a agitação entre os curdos turcos em Anatólia.

As prioridades divergem: o objetivo chave dos curdos iraquianos é tornarem-se independentes de Bagdá (há quantidades gigantes de petróleo em solo curdo iraquiano). Mas os curdos sírios não têm petróleo algum. Não ter petróleo implica, para o que conta, não ter função, papel a desempenhar nem importância regional alguma, no Oleogasodutostão.

Tudo isso tem a ver, principalmente, com dois oleogasodutos estratégicos, de Kirkuk a Ceyhan – negócio tratado diretamente entre Ancara e os curdos iraquianos e que, em tese, ignorou Bagdá.

Não, não foi bem assim. Como Bagdá deixou bem claro, esses oleogasodutos só poderão começar a operar depois de paga a fatia devida ao governo central, que paga 95% do orçamento do Curdistão iraquiano.

Quero ver seus documentos de IT (Identidade Terrorista)”

Massoud Barzani
O presidente do Curdistão iraquiano Massoud Barzani disse à al-Jazeera [2] que sim – estão treinando os curdos sírios que desertaram do Exército Sírio para defender o enclave de facto. Foi Barzani quem supervisionou o negócio chave selado em Irbil dia 11 de julho, que levou as forças de Assad a retirar-se do Curdistão sírio.

As cidades que a mídia está chamando de “cidades libertadas” [3] são agora “conjuntamente governadas” pelo Partido Democrático Curdo Sírio e o Conselho Nacional Curdo. Formaram o que é conhecido agora como um Corpo Supremo Curdo.

Ninguém conseguirá jamais subestimar a capacidade dos curdos para atirar no próprio pé (e para outros lados). Portanto, é fácil entender que esse frenesi transnacional curdo aterroriza completamente não poucas almas em Istambul e Ancara. Esse comentarista [4] do diário turco Hurriyet disse bem: “os árabes estão combatendo; os curdos estão vencendo.” A Primavera Curda está ao alcance da mão. E já chega às fronteiras da Turquia.

Ahmet Davutoglu
Davutoglu poderia ter previsto: quando uma ex-política externa de “problemas zero” passa a dar abrigo a uma oposição armada que combate governo vizinho, só poderia dar confusão.

Sobretudo quando você começa a sentir ganas de matar “terroristas” que vivem em território vizinho – mesmo que seus aliados ocidentais os vejam como “combatentes da liberdade”. E, ao mesmo tempo, você apoia ativamente jihadis salafistas – ex-terroristas, atuais insurgentes – que cruzam livremente, para lá e para cá, por suas fronteiras.

Um Erdogan cada dia menos consistente e mais errático, invocou um “direito natural” [5] de combater “terroristas”. Mas, antes, o terrorista tem de mostrar o IT (documento de Identidade Terrorista): se for terrorista sunita árabe, passa livremente; se for curdo, leva chumbo.
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Notas de rodapé
[1] Uppsala, Sweden, May 2012, Olof Palm International Center: Divided They Stand –An Overview of Syria’s Political Opposition Factions
[2] 23/7/2012, Al-Jazeera, Jane Arraf, em: Iraqi Kurds train their Syrian brethren
[4]. 27/7/2012, Hurriyet Daily News, Ertuğrul Özkök em:“The Arab Spring has transformed into the Kurdish Spring.
[5]. 27/7/2012, Hurriyet Daily News, Doğan News Agency em: PM declares Syria intervention a ‘natural right.
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Nota dos tradutores
[*] Orig. “Long and winding Road. É verso dos Beatles. Pode ser visto/ouvido a seguir: