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sábado, 9 de maio de 2015

Hassan Nasrallah, do Hezbollah, exige imediato fim da invasão ao Iêmen

5/5/2015, Discurso de Hassan NasrallahPressTV, Teerã
Hezbollah chief urges end to Saudi invasion of Yemen
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



A seguir vídeo integral do discurso, legendado em inglês:
 

O Secretário-Geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, movimento da resistência no Líbano, exigiu o fim imediato da invasão militar conduzida pelos sauditas contra o Iêmen, insistindo que o objetivo do reino é alcançar total controle sobre o país vizinho.

“Se o Iêmen sai do controle pela Arábia Saudita, sai também do controle pelos EUA. E como os EUA admitirão perder o controle sobre o Iêmen?” – perguntou Sayed Hassan Nasrallah na 2ª-feira (4/5/2015) à noite, em entrevista à rede al-Ekhbariya da televisão síria, enfatizando que o regime saudita e alguns de seus aliados regionais e ocidentais fracassaram e não conseguiram coisa alguma com a mortal campanha de bombardeio contra o mais pobre dos países árabes.

Nasrallah disse também que Riad tem de pôr fim imediatamente à agressão militar, e deixar que os grupos iemenitas iniciam um diálogo político, sob supervisão internacional. Sua Eminência afirmou que a monarquia apoiada pelos EUA no Golfo Persa fatalmente será derrotada, porque a população iemenita já está cada dia mais declaradamente contra o regime de Al Saud.

O Secretário-Geral do Hezbollah lembrou que os sauditas já manifestaram apoio aos terroristas da al-Qaeda e do ISIL – que ameaçam a própria existência da Arábia Saudita.

Em defesa do engajamento do Hezbollah na Síria

Sobre o engajamento do Hezbollah na vizinha Síria, Nasrallah outra vez defendeu que o movimento permaneça envolvido no país vizinho, repetindo que a política de neutralidade nos conflitos regionais, promovida pelos que o criticam, não passa de “uma grande mentira”.

“A política libanesa de dissociar-se [de conflitos regionais] é uma grande mentira” – disse ele – “O contrabando de armas e pessoas através da fronteira libanesa é prova disso”.
 
Caminhão bombardeado pela aviação saudita em 5/4/2015


Reagindo aos que criticam o Hezbollah, que falam e escrevem a soldo de forças estrangeiras e acusam o movimento de desestabilizar o Líbano, com sua ação na Síria, Nasrallah repetiu que “a Síria foi atacada por um esquema estrangeiro comandado por governos como o saudita, do Qatar e turco, porque a Síria mantém-se como país independente”.

Enfatizou que a razão chave para o engajamento do Hezbollah na Síria desde o início de 2013 é o fato de que a Síria “é dos poucos países independentes em nossa região.” Reiterou a importância de Damasco como grande potência regional, independente de qualquer influência externa. E disse que o envolvimento do Hezbollah na Síria é esforço para impedir a intervenção no país, por qualquer outro governo árabe ou ocidental.

O papel do Hezbollah na Síria é determinado por Damasco

Sobre o papel dos combatentes do Hezbollah na Síria, Nasrallah destacou que as forças do movimento deslocadas para o país vizinho estão estacionadas em áreas nas quais “são necessárias” e segundo suas capacidades. “Estaremos em todos os pontos onde precisem de nós” – disse ele.

Ressaltou também que “A decisão sobre a presença do Hezbollah é integralmente determinada – política e militarmente – pela liderança síria”.

Por exemplo, Nasrallah explicou, os combatentes do Hezbollah são necessários na região Qalamoun, que é área que tem importância para o Líbano e também para a Síria. 

 Combatentes do Hezbollah conduzem os esquifes de companheiros mortos na luta contra terroristas do ISIL na Síria, em cerimônia funeral dia 18/3/2015, em Beirute, Líbano 

Observou que o Qalamoun da Síria é conectado ao Líbano pelo Vale do Bekaa, o que facilita o trânsito de mercenários, bens e armas, não só para o Líbano mas também de volta para áreas sírias, como os arredores de Damasco.

O Secretário-Geral do Hezbollah destacou também que a crise síria foi sequestrada por grupos takfiri [que se declaram únicos praticantes do islamismo e exconjuram todos os demais] extremistas como a al-Qaeda, os quais, disse Nasrallah, há muito tempo tentam ganhar controle sobre a Síria, como também sobre o Iêmen.

Para Nasrallah, “o presidente Bashar al-Assad da Síria estava pronto e interessado em atender as justas demandas da população” – mas a interferência de grupos extremistas mudou a situação.

Nasrallah também reiterou que grupos takfiri como o ISIL e a Frente al-Nusra já estão todos incorporados sob a bandeira dos terroristas da al-Qaeda, e não há diferença alguma entre uns e outros. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

EUA declararam guerra à democracia

Puro fascismo!

26/2/2014, [*] Kevin Barrett, Press TV, Irã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thomas Woodrow Wilson  (1856 - 1924) 
Desde os dias do presidente Woodrow Wilson – quer dizer, por quase 100 anos – os EUA têm estado empenhados numa cruzada à sua própria moda, para “tornar o mundo seguro para a democracia”.

Guerras colossais, quentes e frias, combatidas contra kaisers e fuhrers alemães, contra comunistas russos e contra nacionalistas no Terceiro Mundo. E em todos os casos o povo norte-americano ouviu que estariam “defendendo a democracia”.

Os norte-americanos massacraram 3,5 milhões de vietnamitas, e quase mais outro milhão de cambojanos, para “defender a democracia” no sudeste da Ásia.

Assassinaram milhões de iraquianos com guerras e sanções para “defender a democracia” no Oriente Médio.

André Vltchek
Segundo Andre Vltchek e Noam Chomsky em seu livro On Western Terrorism, [1] o governo dos EUA já assassinou algo entre 55 e 60 milhões de pessoas desde o fim da IIª Guerra Mundial, em guerras e intervenções por todo o mundo. Se se acredita no que dizem os propagandistas do império, esse holocausto promovido pelos norte-americanos teria sido grande defesa da democracia.

Mas o que se vê hoje, às vésperas da a Iª Guerra Mundial completar o 100º aniversário, é que os EUA já embarcaram em nova cruzada – dessa vez para tornar o mundo ainda mais INSEGURO para a democracia.

Na Ucrânia, na Venezuela e na Tailândia, os EUA estão gastando bilhões de dólares para derrubar – inconstitucionalissimamente – governos democraticamente eleitos. 

Na Palestina, os EUA estão tentando derrubar o governo democraticamente eleito do Hamás desde o dia em que chegou ao poder. 

No Egito, os EUA – por pressão dos sionistas – derrubou recentemente o único governo jamais eleito democraticamente no país, em 5 mil anos de história documentada. 

Noam Chomsky
Na Síria, os EUA insistem que o povo sírio não teve a oportunidade e os meios democráticos para reeleger democraticamente Assad, e não importa quantos observadores internacionais estejam presentes para comprovar que as eleições são livres e limpas. 

E na Turquia, os EUA só fazem minar o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Erdogan, favorecendo Fethullah Gulen – o fantoche que a CIA quer “eleger” lá.

Considerando o longo prazo, os EUA trabalham incansavelmente para destruir a democracia no Irã, na Rússia e na América Latina.

Por que, diabos, o governo dos EUA odeia a democracia?

Porque os banqueiros internacionais que são proprietários do governo dos EUA e comandam o império norte-americano nem sempre podem comprar votos em quantidade suficiente para impor o desejo deles a um país inteiro. Assim sendo, a democracia é ótima – desde que os eleitores elejam o candidato da Nova Ordem Mundial. Mas se acontece de os eleitores votarem em candidato que não convém aos oligarcas... Preparem-se, que aí vem golpe!

Os banqueiros derrubarão qualquer governo que se oponha a eles – mesmo nos EUA. O “término com detrimento extremo” [orig. termination with extreme prejudice] da presidência de John F. Kennedy foi mensagem clara enviada a todos os futuros presidentes dos EUA.  

Mayer Rothschild
Mayer Rothschild disse, em frase que ganhou fama, que “Deem-me o controle sobre o dinheiro do país e pouco me importa quem escreva as leis”. Exagero, é claro. Os banqueiros da Nova Ordem Mundial gastam muito dinheiro para derrubar governos democraticamente eleitos por todo o mundo, precisamente porque eles se importam, sim, E MUITO, com quem escreva e faça cumprir a lei.

Agora, os banqueiros da Nova Ordem Mundial estão destruindo a Ucrânia em movimento geoestratégico contra a Rússia, onde Putin impôs rédea curta aos oligarcas russo-sionistas e meteu uma pedra no caminho do projeto de governança mundial dos banqueiros. Sim, o presidente Yanukovich da Ucrânia venceu eleições livres e justas. Mas a democracia nada significa para os faraós psicóticos da grande finança e seus pistoleiros neoconservadores alugados.

Os banqueiros (e os governos ocidentais que eles controlam) estão também tentando derrubar o presidente Nicolas Maduro da Venezuela, que chegou ao poder, pelas urnas, depois que a CIA assassinou o presidente Hugo Chávez. O presidente Maduro superou todos os esforços que os banqueiros empreenderam para derrotá-lo nas eleições do ano passada; agora, é o presidente democraticamente eleito da Venezuela. Nada disso impediu os banqueiros de tentarem derrubá-lo com um golpe pseudo populista.

Hugo Chávez
Na Tailândia, os banqueiros e seus cleptocratas locais estão tentando derrubar o governo democraticamente eleito da primeira-ministra Shinawatra. Aparentemente, os esforços de Shinawatra para garantir educação e assistência à saúde públicas aos cidadãos, e infraestrutura, e um salário mínimo, ofendeu os oligarcas.

Na Ucrânia, na Venezuela, na Tailândia, como antes na Síria e no Egito, os banqueiros está acrescentando violência ao seu joguinho de “revoluções coloridas”, o plano que conceberam para destruir a democracia. Parece incoerente, porque o intelectual-pau-mandado da Nova Ordem Mundial, Gene Sharp, chamado “o Maquiavel da não violência”, pregava que as “revoluções coloridas” originais sempre seriam levantes pacíficos e democráticos.

George Soros
Mas as chamadas “revoluções coloridas” inventadas por Sharp, a começar pela Revolução Rosa, na Geórgia, em 2003 e pela Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004, jamais foram genuínas revoluções do povo. Foram tentativas de golpe, orquestradas pelos banqueiros, e desde o primeiro momento. George Soros cuidaria de encaminhar o dinheiro dos Rothschild para o bolso de apparatchiks sedentos de poder, que inundariam seus países-alvos com propaganda e alugariam paus-mandados para vestirem camisetas de uma ou outra cor, posarem para as imagens de jornais e televisões e fazerem-se, eles mesmos, de “o espetáculo”, na esperança de, assim, seduzir jovens tolos (ou arrogantes) ou ingênuos para que se unam à “revolução” – cujo objetivo real é sempre instalar no poder um fantoche da Nova Ordem Mundial.

Mas agora, até a falsidade da não violência já desapareceu. A máscara risonha de Mickey Mouse da Nova Ordem Mundial caiu, revelando a bocarra sedenta de sangue dos banqueiros satânicos, empenhados em impor ao mundo uma só grande ditadura orwelliana.

Na Síria, o “levante pacífico” de março de 2011 tornou-se pretexto para mandar para lá bandidos e terroristas pesadamente armados, com a missão de desestabilizar o país. No Egito, o “levante” gerado pelos banqueiros no verão passada virou desculpa fabricada para um violento golpe de Estado. Na Tailândia, Venezuela e Ucrânia, os banqueiros pagam torcidas organizadas para encenar protestos violentos, destruir propriedade pública, combater contra a polícia e incitar cada vez mais violência – na expectativa de, assim, conseguir derrubar governos democraticamente eleitos.

Isso é puro fascismo.

O fascismo é falsamente “das massas”. Sempre há fascistas fantasiados de “revolucionários”, pagos para usar uniformes de uma ou outra cor, marchar em passo-de-ganso pelas praças, derrubar governos democraticamente eleitos... e pôr no poder uma ditadura velada dos mais ricos, na qual se misturam o poder das empresas e o poder do estado/governo.

Mussolini e Hitler desfilam em Berlim (1937)
Foi o que fez Mussolini em 1922. Foi o que fez Hitler em 1933. E é o que os neoliberais neoconservadores e seus patrocinadores banqueiros estão fazendo hoje... por todo o mundo. O incêndio do Reichstag de 11/9, que pôs a única superpotência na direção do total fascismo, foi o tiro que desencadeou a avalanche.

Objetivo da jogatina: uma ditadura fascista global, que faria o IIIº Reich parecer piquenique no parque.

Só há um meio para derrotar esses monstros. Todas as grandes fortunas, a começar pelos tesouros de trilhões de dólares das hordas de Rothschilds e amigos, têm de ser confiscadas e devolvidas aos cofres públicos. Todos os grandes bancos têm de ser estatizados e suas operações terão de ser tornadas absoluta e completamente transparentes. Todas as maiores empresas, a começar pelas empresas proprietárias dos veículos da chamada “grande” imprensa têm de ser estatizadas, em seguida partidas em várias pequenas empresas regidas por legislação antitruste.

Essa revolução – para derrubar a oligarquia global – é a única revolução que realmente importa.



Nota dos Tradutores
[1] CHOMSKY, Noam; VLTCHEK, André. On Western Terrorism, Londres: Pluto Press, 2013, 208 p.
___________________________

[*] Dr. Kevin Barrett, é Ph.D., arabista-islamologista e um dos principais críticos norte-americanos da Guerra ao Terror. Comentou muitas vezes na FoxNews, CNN, PBS e outros canais de mídia eletrônica; publicou artigos de opinião no New York Times, no Christian Science Monitor, no Chicago Tribune e em outras publicações líderes. Lecionou em faculdades e universidades em San Francisco, Paris e Wisconsin, onde ele concorreu para o Congresso em 2008. É co-fundador da Muslim-Christian-Jewish Alliance, e autor dos livros Truth Jihad: My Epic Struggle Against the 9/11 Big Lie (2007) e Questioning the War on Terror: A Primer for Obama Voters (2009). Seu site é www.truthjihad.com

domingo, 10 de novembro de 2013

Questão nuclear: Ministro francês tenta chantagear Teerã

Conversações de Genebra: P5+1 e Irã

9/11/2013, Press TV, Teerã (c/ vídeo em inglês)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Exterior do Parlamento do Irã, Seyyed Hossein Naqavi Hosseini, disse que o ministro francês, Laurent Fabius, está tentando “chantagear” Teerã, descrevendo o comportamento do representante francês nas negociações como “irracional”.

Enquanto o povo francês quer melhores relações entre Teerã e Paris, infelizmente o governo francês prefere seguir o regime sionista de Israel – disse Naqavi Hosseini.

Ismail Kowsari, outro deputado membro da comissão acusou Fabius de representar o regime sionista, mais que o povo francês, e disse que o Irã começa a ver com pessimismo o resultado das conversações.

Em entrevista no início do terceiro dia de negociações sobre a questão nuclear, entre o Irã e seis potências mundiais, o ministro francês de Relações Exteriores disse que “as preocupações de Israel” têm de ser levadas em consideração:

É necessário levar plenamente em consideração as preocupações de segurança de Israel e da região – disse Fabius em entrevista para a rádio France Inter, em Genebra, no início do sábado.

Conversações de Genebra: P5+1 e Irã
O ministro francês disse que Paris não aceitou a redação inicialmente proposta para um acordo entre Irã e cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, China, Rússia, França e Grã-Bretanha + Alemanha).

Na 6ª-feira, Bibi Netanyahu denunciara um possível acordo já preparado para encerrar as conversações nucleares, como “muito, muito ruim”.

Os dois dias de conversações entre Irã e o P5+1, em Genebra, começaram na 5ª-feira. Mas as negociações prosseguirão por mais um dia, ainda não marcado, depois que o ministro francês, servindo aos interesses sionistas, bloqueou as conclusões que já pareciam acertadas e próximas.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

As mentiras tóxicas do ocidente sobre a Síria

16/10/2013, [*] Finian Cunningham, Press TV, Irã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Meninos que andam sobre os escombros de um edifício que os “rebeldes” disseram que foi bombardeado por forças leais ao presidente da Síria, Bashar al-Assad
Dizem que bom mentiroso tem de ter memória infalível, para conseguir manter as próprias mentiras. Ou, mais dia menos dia, o mentiroso acaba por cair na armadilha das próprias lorotas que contou antes.

Apenas poucas semanas depois do incidente com armas químicas mortais, dia 21/8, próximo a Damasco, a narrativa ocidental já está ruindo sob o peso das próprias mentiras.

Lembremos que aquele foi o incidente “horrendo” que por pouco não resultou em ataque mortífero pelo EUA e aliados, contra a Síria. “Os militares dos EUA não dão beliscões”, [1] – disse Obama, o sinistro, enquanto mandava navios de guerra dos EUA armados com centenas de mísseis Tomahawk Cruise para se reunirem e atacar a Síria.

Bashar al-Assad
Todos os discursos e falas “oficiais” no ocidente, segundo os quais o governo sírio estaria cometendo atrocidades contra civis, com gás sarin, sempre foram, desde o início, impressionantemente sem provas. Onde estão os nomes e as sepulturas das “mais de 1.400” pessoas que, segundo Washington, haviam sido mortas “com absoluta certeza” pelo exército sírio? E sobre as comunicações interceptadas que os EUA diziam ter, entre comandantes do exército sírio? Onde está a “inteligência conclusiva” de que falavam Washington, Londres e Paris, e que usaram para justificar ataques militares punitivos contra o governo soberano do presidente Bashar al-Assad?

A cada dia aumenta a quantidade de provas que DESMENTEM tudo que se disse no ocidente – e que a imprensa-empresa canina e incansavelmente repetiu; e que PROVAM que a verdade é, como sempre foi, absolutamente outra, uma narrativa diferente, muito mais convincente e muito perturbadora, a saber: que houve um massacre de grandes proporções em área próxima a Damasco, dia 21/8, e que envolveu inteligência ocidental e dos sauditas, mancomunada com grupos de mercenários anti-governo sírio apoiados do exterior. Civis, inclusive crianças, foram assassinados a sangue frio, provavelmente por injeção letal, para encenar uma provocação que serviria como pretexto para o ataque militar dos EUA contra a Síria.

Esse ataque de grandes proporções contra a Síria era cada dia mais necessário, à medida em que ia fracassando o objetivo de forçar mudança de regime, objetivo declarado do Eixo do Mal, a saber: de Washington, Londres, Paris, Riad, Doha, Telavive, Amã e Ancara.

Pois foi aí que os mentirosos deram-se mal. O presidente Obama, David Cameron da Grã Bretanha, o francês François Hollande e todos seus respectivos mais altos funcionários, entre os quais o secretário de Estado dos EUA, John Kerry e a embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, todos repetiram incansavelmente o mesmo mantra,

Sabemos que o regime Assad cometeu aquele crime, porque os rebeldes sírios não têm capacidades para usar armas químicas.

Esse “argumento”, de que as gangues mercenárias apoiadas pelo ocidente na Síria não teriam tido acesso a armas químicas foi repetida e repetida, e amplificada e amplificada vezes sem conta, por toda a “grande empresa-imprensa” ocidental, jornais, rádios, televisões e noticiários em geral.

Evidentemente, observadores mais bem informados sabiam da mentira. Vários relatórios de especialistas confirmavam, há bastante tempo, que os grupos Takfiri e ligados à Al-Qaeda, como a Frente Al-Nusra, haviam sido apanhados na Síria e na Turquia, em diferentes ocasiões, antes, com suprimentos de gás sarin e de outros produtos tóxicos.

Mas vale a pena examinar melhor esse específico detalhe, porque o ocidente fez desse argumento (o argumento da “impossibilidade” de os mercenários fazerem usos de armas químicas) o ponto chave, para justificar sua pretendida ação militar contra a Síria.

E agora, o que se vê, são diplomatas ocidentais, alguns jornalistas e os inspetores oficiais da ONU, todos esses, a dizer que as gangues mercenárias apoiadas pelo ocidente sim, elas tiveram pelo acesso a munição tóxica proibida internacionalmente.

Essa revelação, que deveria aparecer como admissão de erro e confissão de culpa na primeira página de todos os jornais – “no mesmo espaço e com igual destaque” em relação às “denúncias” agora desmentidas – apareceu travestida no New York Times em notícia que, de fato, desviava a atenção dos leitores:

Aumenta a pressão sobre rebeldes [sic] sírios na 2ª-feira, para que permitam acesso aos arsenais de armas químicas em áreas sob controle deles – escreveu o jornal.

E o Times acrescentava;

Um diplomata ocidental no mundo árabe disse que, embora o governo sírio seja legalmente responsável pelo desmonte de seus arsenais químicos por um acordo internacional, a oposição também pode cooperar no processo, porque vários locais onde se armazenam armas químicas estão localizados em áreas em disputa ou dentro de território controlado pelos rebeldes.

Ahmet Üzünkü
A verdade parece ser muito diferente disso. Ahmet Üzümcü, diretor da Organização para Proibição de Armas Químicas, disse também essa semana que o governo sírio cooperou plena e completamente, no processo de garantir acesso dos inspetores a todos os arsenais sob seu controle. Mas Üzümcü disse também que o problema, agora, é que sua equipe de inspetores não está conseguindo chegar aos arsenais controlados pelas gangues mercenárias da oposição a Assad. E, isso, porque esses grupos abriram fogo contra os inspetores e chegaram a explodir bombas em áreas próximas aos hotéis onde os inspetores estão hospedados.

Apelamos para que todos apóiem essa missão e cooperem, para não tornar as coisas ainda mais difíceis – disse Üzümcü.

O ponto crucial é que líderes ocidentais e seus mais altos servidores, além de praticamente toda a imprensa-empresa ocidental, fiel obediente daqueles mesmos governos e servidores, foi apanhada em mais algumas de suas mentiras tóxicas sobre a Síria.

O New York Times e outros veículos da imprensa-empresa ocidental não parecem dar-se conta da risível contradição entre suas “notícias”: há apenas algumas semanas, os mercenários não saberiam usar armas químicas e, por essa “razão”, estaria “provado” que não tinham armas químicas... O que provaria que todas as armas químicas teriam de ter sido empregadas pelo governo sírio, o qual, por esse crime, esteve muito próximo de virar alvo de ataque militar levado a cabo pelos EUA.

Washington e seus aliados estiveram muito próximos de atacar massivamente a Síria, o que teria causado a morte de milhares de civis. Teria sido agressão criminosa, dado que, como já se sabe hoje, foi ideia erguida sobre uma montanha de mentiras. No centro da “invenção” de motivos para um ataque à Síria estava a mentira de que as gangues armadas e pagas pelo ocidente “não poderiam” ter cometido as atrocidades que se viram em Damasco, “porque não possuíam armas químicas”.

Agora, como se começa a ver pela informação correta que às vezes vaza – aos pingos! – nas páginas dos veículos da imprensa-empresa ocidental, já se sabe que, sim, sim, os mercenários tinham acesso às mais mortais armas químicas. E o chefe da equipe de inspetores da Organização para Proibição de Armas Químicas é obrigado a suplicar que as tais gangues cooperem, para que possa levar a cabo sua missão de desarmamento químico na Síria.

O jornalismo de propaganda ocidental está visivelmente com um problema de memória. E atrapalha-se pateticamente no seu próprio amontoado de mentiras. Seja como for, não podemos deixar que o mundo esqueça os crimes e mais crimes que os governos ocidentais sempre estão a um passo de cometer. Pelo menos, para impedi-los de montar imediatamente outra farsa equivalente à anterior.


Nota dos tradutores
[1] Ver 18/9/2013, redecastorphoto em: E Obama fala, fala, fala, fala...
______________________

[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe. 


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

E fala o Irã: Mohammad Javad Zarif, ministro iraniano de Relações Exteriores

12/9/2013, Press TV, Teerã (vídeo e entrevista transcrita)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Parte 1

Parte 2

Press TV: Como mencionamos na introdução, recebemos hoje o ministro Mohammad Javad Zarif. Obrigado por aceitar nosso convite, em sua agenda tão ocupada. E por falar em agenda ocupada, o senhor está no cargo há 36 dias, e já está tendo de enfrentar um grave desafio, o possível ataque dos EUA à Síria. Parece que os EUA, que entraram agora em compasso de espera, tinham muita pressa para iniciar essa guerra, com sua intervenção. Por que tudo isso, em sua opinião?

Zarif: Agradeço a você, por essa oportunidade. Quanto ao que você pergunta, acho que alguns grupos e pessoas dentro dos EUA, e alguns interesses fora dos EUA, quiseram empurrar o presidente dos EUA – o qual, me parece, já relutava antes – para uma armadilha. E a armadilha, afinal, ele mesmo se criou, infelizmente. A armadilha seria envolvê-lo numa guerra. O pretexto foi o uso de armas químicas, uma questão hipotética, porque ainda não há provas de que o governo sírio tenha usado as tais armas.

Permita que lhe diga que o Irã, que é vítima de armas químicas, condena absolutamente o uso de qualquer arma química, não interessa quem sejam os culpados ou as vítimas. Mas entendemos que ninguém tem o direito de tomar a lei nas próprias mãos. Quero dizer: nessa questão, os EUA não têm qualquer direito legal de agir ao mesmo tempo como acusação, juiz e, infelizmente, se acontecer, também como executor. E não tem qualquer direito, particularmente, à luz do apoio que os EUA deram a um regime, de Saddam Hossein, que usou armas químicas não só contra soldados e civis iranianos, mas também contra seu próprio povo em Halabja. E aqui não se fala de desconfianças ou suspeitas: esses fatos foram várias vezes comprovados pela equipe de inspetores investigadores da ONU.

Temos agora uma equipe da ONU para a Síria, que visitou a Síria, mas ainda não apresentou relatório. E seja qual for o resultado do relatório, aquela equipe não tem autoridade para determinar responsabilidades. A situação permanece muito obscura. Esperemos que com o novo acordo, comecemos logo o processo de carregar todas as armas químicas para bem longe dessa região. Nossa região, todo o Oriente Médio, temos dificuldades suficientes, há agitação suficiente, para que nos envolvamos numa guerra na qual se usem armas químicas e outras armas de destruição em massa. Por isso o Irã tanto trabalha a favor de um Oriente Médio livre de armas de destruição em massa.

Permita que esclareça mais um ponto. O uso de armas químicas é crime, crime contra a humanidade, mas entendemos também que o uso da força, a ameaça de usar a força também é crime. Também agride a lei internacional.

Infelizmente, a impressão que se tem é que os EUA parecem estar vivendo ainda no século 19, quando o uso da força era uma das prerrogativas dos estados.

Parece-me que o presidente dos EUA, que parece ser atilado advogado constitucional, precisa voltar aos seus livros de Direito, aos livros de Direito Internacional, que tudo leva a crer que ele não tem relido ultimamente, e considerar que, quando concede, como fez no discurso de ontem à noite ao povo norte-americano, que não há ameaça direta ou iminente aos EUA, os EUA absolutamente não têm qualquer fundamento para o ataque que anunciaram. Não há lei que os ampare, nem podem tomar a lei nas próprias mãos.

Press TV: Dr. Zarif, se a Síria não é ameaça iminente à segurança dos EUA, por que tanto se ouve falar de guerra dos EUA contra a Síria?

Zarif: Minha impressão, como já disse no início, é que o presidente dos EUA está sendo empurrado para uma armadilha, montada por alguns interesses dentro dos EUA, aos quais interessam as hostilidades e a tensão; e também por alguns interesses fora dos EUA, infelizmente na nossa região, que tentaram há dois anos alterar o equilíbrio militar na Síria. Primeiro, tentaram envolver o povo sírio numa guerra civil que os sírios nem desejam nem fizeram. Na Síria, hoje, o governo luta contra extremistas e infiéis vindos de fora.

Press TV: Quem os apoia, quem os financia, quem os está armando na Síria?

Zarif: Todos nós conhecemos os que insistem em fazer guerra na nossa região. Infelizmente, é um modo muito raso, de visão muito curta, para promover interesses específicos, porque todos sabemos que guerra, na nossa região pode até começar como algum tipo de operação cirúrgica, limitada. Mas uma vez iniciada a guerra, não haverá como impedir que se alastre. Creio que os EUA sabem disso.

Os EUA tentaram a operação “Choque e Pavor”. Você lembra [o ex-secretário de Defesa dos EUA, Donald] Rumsfeld, a terminologia que usou quando os EUA queriam invadir o Iraque: iam fazer uma operação de “Choque e Pavor”, que estaria resolvida em alguns dias. Quantos anos durou? 10, 11 anos depois, como soube agora, quando estive no Iraque, só no mês do Ramadã, mais de mil pessoas morreram no Iraque, em explosões em estradas minadas.

É necessário que os EUA entendam, e acho que será entendimento importante para os EUA, não só que o uso da força é ilegal, que ameaçar de usar força militar é grave violação da lei internacional, mas, sobretudo, que o uso da força é inefetivo. A força, a violência, perderam a serventia nas relações internacionais. Perderam, há muito tempo, a utilidade.

Em 1928, as nações civilizadas decidiram rejeitar o uso da força como instrumento de política nacional. Antes disso, a guerra era instrumento de política nacional, dizia-se que a guerra seria a diplomacia, por outros meios. Mas desde então a comunidade internacional amadureceu, começou a entender que a guerra não dá o resultado esperado por quem inicia guerras. E o uso da força imotivada foi proibido, a lei proíbe. Não se trata de advogados idealistas que sentaram, conversaram e baniram o uso da força imotivada. É porque a guerra realmente perdeu a serventia que teve noutros tempos.

Há um número que ajuda a demonstrar o que estou dizendo: no século 20, 85% dos casos em que um país recorreu a força, são casos em que aquele país ou foi arrasado ou não se alcançaram os objetivos da guerra. Está já suficientemente provado que a guerra já não é instrumento político efetivo. Espero que os EUA, o país de maior força bélica na face da Terra, logo descubra que é preciso recorrer a outros meios de influenciar. A força já não resolve os problemas que os EUA supõem que ela ainda resolva.

Press TV: Isso me leva à questão das muitas, muitas vezes em que os EUA repetiram – e o senhor comentou recentemente, quando estava no Iraque – que “todas as opções estão sobre a mesa”. Mas, antes de sua resposta, queria mostrar aos que nos assistem as várias matérias publicadas no ocidente sobre a sua nomeação. A reação foi positiva, nos EUA, à sua nomeação. Os jornais publicaram: “Afinal alguém que conhece os EUA muito bem” etc. E o senhor já recebeu vários telefonemas, dentre os quais do vice-presidente dos EUA Joe Biden e do secretário da Defesa Chuck Hagel. O senhor acredita que todas essas relações que o senhor construiu no passado, que hoje estão nos postos em que estão, o senhor acredita que tudo isso abrirá portas para buscar outro tipo de relacionamento com os EUA, se estiver previsto em sua agenda?

Zarif: Quanto à primeira parte de sua pergunta, entendo que a declaração de que “todas as opções estão sobre a mesa” é declaração antiquada, porque se sabe que nem todas as opções estão de fato sobre a mesa, não, com certeza, para países que se disponham a respeitar a lei, a seguir a Carta da ONU. A via de ameaçar de usar a força já foi, há muito tempo, retirada da mesa, inclusive pelos EUA, quando se reuniram em San Francisco e decidiram poupar as gerações futuras do flagelo da guerra que, para aquela geração, fora suplício conhecido duas vezes e causou miséria indescritível. A noção de que não é verdade que “todas as opções estão sobre a mesa” nasceu da Carta da ONU, sob a hospitalidade dos EUA, em 1945. É importante que os EUA compreendam que não, todas as opções não estão sobre a mesa.

Quanto à segunda parte de sua pergunta, sim, já encontrei vários membros do atual governo dos EUA, quando eles eram membros do Congresso dos EUA e eu era embaixador do Irã à ONU. Creio que eles sabem de onde venho. Por isso, porque os conheço, é que me parece que estejam sendo empurrados para uma guerra que eles não desejam, da qual não precisam. Entendo que a comunidade internacional deve, sim, ajudar o governo Obama para que se evite essa catástrofe, que queimará essa região e arrastará também os EUA no mesmo incêndio.

Press TV: Deduzo, do que o senhor diz, que o Irã estamos entendendo que os EUA estão sendo arrastados para a guerra, digamos assim, por outras forças na região e fora da região. O senhor pode elaborar sobre essa questão? Os EUA vão atacar militarmente a Síria no fim do dia, ou o senhor crê que não, que os EUA não querem fazer isso, mas há imensa pressão sobre os EUA para que faça guerra contra a Síria?

Zarif: Espero que a razão prevalecerá. Espero que, com a proposta dos russos e a oportunidade que se abriu com a aceitação da Síria, outros pararão de inventar pretextos para fazer nova guerra, pararão se bater os tambores de guerra. Afinal, é importante que entendam que há grande perigo para eles mesmos e para toda a região.

Mas vimos, pelos comentários que circulam, que alguns países aqui na região, bem como países fora da região, enfim, há muita gente infeliz, e lamento ter de dizer, porque estamos conseguindo evitar a guerra. Escapa-me a lógica usada por amigos nossos na região, que estão infelizes porque se busca uma via diplomática e, esperemos, parece que encontramos meio para evitar grande catástrofe aqui, à porta deles. Porque não há dúvidas de que será uma grande catástrofe, que levará ao extremismo, à divisão sectária, levará a mais conflitos por aqui. Ainda há gente interessada em intervir no equilíbrio de forças dentro da Síria, e provocar mais derramamento de sangue, mais mortes de gente inocente.

Todos precisamos sentar e trabalhar com todos os fatores sírios, ouvir todos, inclusive o governo sírio e todos os que se interessem pelo futuro da Síria, reuni-los numa mesa de negociações e encontrar uma solução pacífica. Todos têm de compreender que não há solução militar para a crise da Síria.

Press TV: O Irã já tem algum plano prático nesse momento?

Zarif: Entendemos que é preciso pôr um fim nos combates na Síria. Todos têm de sentar e encontrar solução pacífica, democrática, baseada na participação de todos os segmentos da sociedade síria na governança do país. E sem interferência estrangeira. Creio firmemente que sim, que se pode fazer.

Infelizmente, há grande interferência externa na Síria, vários grupos recebem armas e dinheiro de fora, grupos que já causaram muitas dificuldades na região e fora da região e que continuam a perseguir seus interesses rasos, sem visão ampla.

Devem saber que os que ajudam, criam e alimentam o extremismo na região cairão, eles também, vítimas do extremismo que criaram e alimentaram. Nada muda se for o extremismo da al-Qaeda, dos Talibã ou de Saddam Hussein. Todos são extremismos. Os que patrocinem o extremismo serão vítimas dele.

Press TV: Voltemos à questão das armas químicas que discutimos no início. O Irã sabe quem usou armas químicas no atentado de 21/8 na Síria?

Zarif: Temos indicações, e partilhamos essas indicações no passado com os EUA e outros, de que, infelizmente – porque é muitíssimo grave e extremamente perigoso – que as armas químicas estão sendo contrabandeadas para dentro do território sírio, para grupos armados que lutam contra o governo da Síria e contra o povo sírio.

Não é informação nova. Já tínhamos essa informação há algum tempo, e a comunicamos. Houve várias prisões esse ano, em países vizinhos, que sugerem fortemente que o contrabando esteja realmente acontecendo.

Press TV: E o Irã obteve alguma resposta dos norte-americanos?

Zarif: Lamentavelmente, não! Nós os alertamos, dissemos que estava acontecendo, dissemos e continuamos a repetir que esse é o pesadelo absoluto: armas químicas em mãos de atores não estatais, atores extremistas não estatais, que são ameaças para todos.

É uma ameaça que não respeita fronteiras, que se alastrará por toda a região, e quem ajuda esses grupos a terem acesso a armas químicas terá, mais dia ou menos dia, de enfrentar a questão de o que fazer delas? Os alvos dessas armas são todos. A possibilidade de elas serem usadas são ilimitadas.

Não sou homem de espalhar medo, não gosto disso e não faço isso, mas a questão de haver armas químicas em mãos de extremistas é preocupação real. Temos de conseguir resolver isso. Temos de inventar um meio. Estamos agora um pouco mais tranquilos, agora que os sírios estão negociando uma espécie de acordo internacional para tirar do país o que haja de armas químicas. Mas até aí é só metade do problema: é preciso enfrentar a questão das armas químicas que estão sob controle dos terroristas extremistas.

Press TV:  E quanto ao programa nuclear iraniano e as recentes notícias de que a questão passou, da órbita do Conselho Nacional Supremo de Segurança, para o Ministério de Relações Exteriores? O senhor pode falar sobre isso e o seu papel na nova organização?

Zarif: Bem, o presidente decidiu que o Ministério de Relações Exteriores ficará encarregado de conduzir as negociações da questão nuclear. Entendo que é uma sábia decisão. O Ministério de Relações Exteriores é responsável pela condução dos assuntos externos do Irã, tem as competências e os instrumentos, além do pessoal especializado em questões dessa natureza.

Claro, o Conselho Supremo de Segurança Nacional ainda supervisiona o arquivo nuclear, e temos esperança de conseguir avançar nas negociações. Temos de trabalhar por resultados. Permita-me que faça alguns comentários genéricos sobre como as negociações devem prosseguir. Entendemos, para começar, que não se trata de negociações sem meta clara. E que as negociações não são um fim nelas mesmas.

Entendemos que as negociações têm de ter prazos, devem ser orientadas para resultados e que devem ser baseadas na boa fé, em condições de igualdade para os negociadores e respeito mútuo. Temos de mudar o modo de abordar as negociações. Gostaria de aproveitar a oportunidade que você me dá e detalhar um pouco essa questão, para que se entenda melhor o que estou dizendo.

Entendo que o ambiente internacional depois da Guerra Fria é diferente, é uma fase de transição da política mundial, porque já não cabe falar de “política internacional”, mas já se tem de falar de “política mundial”. Preferimos falar de política mundial, porque as questões se entreteceram de tal modo que já não se buscam jogos de ‘soma zero’. Já não cabe perseguir interesses de um país, à custa do interesse dos demais países ou de outros países. Não haverá segurança para um, à custa da insegurança de outros.

Se já estivéssemos trabalhando sob essa perspectiva, o 11/9 jamais teria acontecido. Estamos hoje num outro dia 11 de setembro, e é boa ocasião para todos pensarmos que, se houvesse meio para garantir alguma segurança pela via militar, se a segurança num país fosse possível, à custa da insegurança em outros pontos do mundo, o 11/9 não teria acontecido. E aconteceu num país poderosíssimo e bem distante das regiões consideradas “voláteis” do planeta. Ninguém jamais estará seguro, à custa da insegurança de outros pontos do mundo.

Sobre o arquivo nuclear iraniano, é preciso mudar a perspectiva. Não podemos continuar a buscar um objetivo para o Irã e outro objetivo para o chamado “P5+1”, ou que outro nome tenha; são os países que se dizem ameaçados pelo programa nuclear do Irã, como se tudo isso fosse um joguinho de crianças. Esse tipo de abordagem já não funciona no atual ambiente de política mundial. Só funcionará uma abordagem que sirva aos objetivos dos dois lados. Para isso, é preciso definir objetivos comuns que sirvam aos interesses de todos os envolvidos. Hoje, esses objetivos são: (1) o programa nuclear iraniano deve ser e manter-se orientado para finalidades pacíficas; esse é o objetivo declarado do outro lado, do “P5+1”.

Ora, do lado iraniano, posso declarar oficialmente, que esse também é o nosso objetivo, porque isso interessa à segurança nacional do Irã. Já incontáveis vezes declaramos que não queremos armas atômicas; que as armas atômicas não têm lugar na doutrina de segurança do Irã; e que até a noção, que o outro lado dissemina pelo mundo, de que o Irã desejaria construir bombas atômicas, já é prejudicial à nossa segurança.

Assim sendo, o primeiro objetivo é objetivo comum aos dois lados. Nesses termos, temos agora de redefinir os problemas, para poder encontrar a solução. Nós partilhamos o primeiro objetivo. É hora, portanto, de o outro lado partilhar o segundo objetivo, e explico por quê.

O segundo objetivo (2) tem a seguinte forma: o único meio pelo qual se pode assegurar que o programa nuclear iraniano continuará a ser pacífico é criar um ambiente regional e internacional aceitável e pacífico. Por quê? Porque as capacidades nucleares pacíficas do Irã existem hoje e estão sob total controle do Irã. Elas não dependem de nenhum agente fora do Irã.

Portanto, nenhum agente fora do Irã tem meios para impedir que o Irã faça o que lhe pareça mais conveniente dos recursos e capacidades que ele já tem, que são nossas. Temos a ciência, a tecnologia, e ninguém conseguirá nos privar de nossos cientistas, de nossa infraestrutura tecnológica. Tudo isso está aqui. Não faz sentido pretender que não esteja ou que não seja o que é.

A capacidade nuclear pacífica do Irã é um fato. Assim sendo, para alcançar o objetivo comum [(1), acima], devemos concordar com esse ponto (2): que essa capacidade instalada e operante iraniana local possa ser exercida em contexto transparente, internacionalmente reconhecido como tal. Isso também é fácil de obter, porque a usina de enriquecimento está aí, aberta, plenamente acessível aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, e pode voltar a ser posta sob monitoramento internacional, como já aconteceu no passado.

Só assim, criando um ambiente regional e internacional pacífico, e reconhecendo o fato de que o Irã não se opõe a nenhuma inspeção ou monitoramento será possível assegurar que o programa nuclear iraniano será programa exclusivamente para finalidades pacíficas.

Press TV: Uma última pergunta, senhor ministro. O senhor está otimista quanto às conversações com o P5+1?

Zarif: Vejo com otimismo que estamos chegando às negociações determinados a resolver o problemas; nosso lema é “chegar ao sim”, para essas conversações. Mas são precisos dois, para o tango. Se os EUA e os demais “P5+1” estiverem preparados para envolverem-se seriamente no processo, sim, é possível que o cenário seja completamente diferente.

Devo dizer que nem esse governo nem qualquer outro governo iraniano estará disposto a ceder, nem um iota, dos direitos do povo do Irã. Digo isso, porque será contraproducente até pedir ou esperar que isso aconteça, nem essa será jamais a via acertada para garantir que o programa nuclear do Irã seja mantido pacífico.

Press TV: O senhor se encontrará com Catherine Ashton [Comissária do Comércio Europeu na ONU], dizem os jornais, à margem da Assembleia Geral da ONU que se aproxima. Com certeza o senhor exporá a ela o que acaba de nos dizer. Mas não se deve esquecer que um dos membros do P5+1, os EUA, ainda dizem que “todas as opções estão sobre a mesa”. Temos lá um país que diz que vai respeitar o novo governo do Irã, mas onde, ao mesmo tempo, 76 deputados e senadores impõem novas sanções ao Irã. Que diferença haverá no modo de abordar os EUA, um dos países do P5+1?

Zarif: Bem... Entendo que os EUA podem ter papel chave no processo de encontrar uma solução ou de impedir uma solução, se observarem o primeiro princípio das novas negociações. Você sabe: negociações que se pautem pela lei internacional só podem ter sucesso se todos os negociadores negociarem em espírito de boa fé.

Se os EUA quiserem negociar em espírito de boa fé, não poderão falar de solução diplomática, ao mesmo tempo em que pressionam, não só o Irã mas o resto do mundo, torcendo braços, com medidas de intimidação e, até de agressão extraterritorial, para impor restrições ao comércio iraniano. Essas medidas são absolutamente ao contrário do que determina a lei internacional, são dirigidas contra o povo iraniano, contra civis inocentes. São medidas que visam a impedir que o povo iraniano tenha acesso a produtos de primeira necessidade, de tecnologia a remédios, de ciência a comida. Essa política não deu os resultados esperados. Sanções e intimidação não levaram o povo iraniano a desistir de lutar pelos próprios direitos. Quanto mais agredirem o povo iraniano, mais resistiremos. Os EUA erram grave e completamente, se creem que o Irã resiste e continuará a resistir ‘'porque’' desejemos uma arma atômica.

O Irã resiste e resistirá porque exige respeito. Não aceitaremos que ninguém nos desrespeite. E ponto final.

Press TV: O senhor falou de situação de “ganha-ganha”. O presidente Hassan Rohani também falou de “ganha-ganha”. Que cenário seria esse, de “ganha-ganha”?

Zarif: Cenário ou situação de “ganha-ganha” seria um programa nuclear iraniano transparente, sob supervisão internacional, no quadro da legalidade internacional, com os mecanismos de salvaguarda da AIEA, nos termos do Acordo de Não Proliferação, que o Irã subscreveu, e que é baseado em cooperação.

Nem se deve falar de “comunidade internacional”, porque essa expressão tem sido aplicada hoje só para alguns países que falam mais alto e têm meios poderosos para manipular a opinião pública. Mas é do interesse de todos os países realmente interessados em que o programa iraniano se mantenha pacífico, que todos abracem a nova negociação, não a intimidação ou a pressão. Assim, com tudo isso bem entendido, teremos uma situação de ganha-ganha.


O Irã terá seus direitos respeitados, as sanções serão removidas e o resto da comunidade internacional poderá ter certeza de que o programa nuclear iraniano é exclusivamente pacífico e assim permanecerá. Porque é do interesse de todos esses países  que o programa iraniano possa prosseguir e continuar pacífico, plenamente transparente, em instalações a serem supervisionadas, nos termos da lei, pela AIEA.