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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Manifesto da Revolução Europeia-Tunísia


1 – Ao assinar com o regime de Ben Ali o acordo de associação da Tunísia, a União Europeia fez desse país uma de suas províncias [orig. wilayas] e, do povo da Tunísia, uma massa de consumidores e de trabalhadores baratos, para aumentar o lucro das empresas europeias – as multinacionais à frente. 

Mas a liberdade de circulação dos produtos e mercadorias não foi acompanhada de qualquer liberdade para a circulação de pessoas. A vantagem concedida às empresas europeias não teve, por corolário, a extensão dos direitos civis aos cidadãos e cidadãs tunisianos. 

Os cidadãos e cidadãs da União Europeia são bem-vindos à Tunísia, onde podem entrar e permanecer quando e como desejem. Mas os cidadãos e cidadãos tunisianos são, na prática, considerados indesejáveis no território da União Europeia. De fato, o acordo de associação é, isso sim, um acordo de submissão que instaurou um novo « protetorado ».

2 – A Tunísia, neoprovíncia, tornou-se assim devedora dos bancos e dos governos da União Europeia. Os juros dessa dívida odiosa, embora não passem de uma gota no oceano da crise financeira que abala hoje a União Europeia, são valores importantes para a Tunísia, que os vê arrancados do orçamento da educação, da saúde, do desenvolvimento local em geral.

3 – A Revolução Tunisiana está longe de ter alcançado seus objetivos. O ditador – aqui conhecido como « o servil » – partiu, mas o aparelho de poder e de corrupção implantado durante o reinado de Ben Ali continua ativo.

O povo da Tunísia ainda tem à mão a faca e o queijo, para, afinal, instaurar uma democracia real. 

O povo da Tunísia deve encontrar seu próprio caminho para fazê-lo, longe de « conselhos » mal-intencionados oferecidos a mancheias por todos que, repentinamente, dia 14 de janeiro de 2011, apresentaram-se como amigos da Tunísia. Cada um desses novos « amigos », de Madrid a Varsóvia, passando por Berlim, Munique e Bucareste, apressa-se a oferecer seu « modelo de transição democrática », acompanhado de promessas de sacos e sacos transbordantes de belos e sonantes euros. 

Ora, a crise que atinge hoje a maior parte dos países europeus, a começar por Grécia e Espanha, mostra o impasse em que se encontram aqueles países, depois da transição da ditadura à « democracia » do mercado e de seus senhores – os banqueiros.

4 – Estimulados pelas revoluções na Tunísia e no Egito, os povos da Europa, a começar pelos jovens « sem futuro », precarizados e descartados, lançaram movimentos massivos de revolta e de questionamento radical do sistema democrático por delegação, dito « representativo » – que, do justo ponto de vista dos jovens, já não os representa verdadeiramente. 

Milhões de cidadãos europeus ocuparam as praças de Atenas, Madrid, Barcelona, Lisboa, Berlim, Frankfurt, Paris, Londres e de dezenas de outras cidades continentais. Esses movimentos entraram para a história sob o nome de « Os Indignados ».

5 – À parte a grande diversidade, os movimentos sociais que agitam a União Europeia têm um denominador comum: todos recusam os planos de « austeridade » ditados por Bruxelas, Frankfurt e Berlim, cujo objetivo é conseguir que os mais pobres paguem pela crise DELES, enquanto de derrubam todas as conquistas sociais dos últimos 67 anos, em todos os setores públicos vitais: educação, saúde, previdência social, aposentadorias, transporte, energia. 

Trata-se portanto de lutar para salvaguardar as próprias possibilidades de sobrevivência digna para  a maioria da população e os direitos dos cidadãos e cidadãs, ameaçados de desaparecer. Nesse plano, os povos da União Europeia veem a própria situação ir-se assemelhando cada vez mais à da Tunísia e outros povos do sul do Mediterrâneo. 

6 – Nós, cidadãos e cidadãs do mundo que vivemos na Tunísia, nos vemos como parte integrante daqueles movimentos. 

Nossa assembleia tem o objetivo de criar uma ponte entre todos os povos da Europa, da Tunísia e de todo o mundo mediterrâneo. 

Queremos ser algum tipo de embaixada nômade da União Europeia do Povos que está nascendo, contra a União Europeia dos banqueiros e dos políticos corruptos, a serviço dos banqueiros. 

Para isso, temos de informar, reunir e agir.

7INFORMAR

Informaremos, por todos os meios acessíveis, os cidadãos e cidadãs da Tunísia sobre a situação na Europa ; e os cidadãos e cidadãs europeus, sobre a situação na Tunísia. 

8 REUNIR

Estabeleceremos parcerias horizontais entre grupos de cidadãos europeus e tunisianos, para construir projetos alternativos comuns, de criação autônoma.

9 AGIR

Participaremos localmente das iniciativas lançadas pelos movimentos de mobilização social na Europa, associando todos os cidadãos e cidadãos tunisianos motivados. 

10 – Todos os cidadãos e cidadãos europeus e tunisianos interessados podem fazer contato conosco e participar de nossas atividades.

Tunísia, abril 2012
European Revolution-Tunis 
Documento traduzido e enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Contatos:
http://thouroubtou.blogspot.com (em várias líguas, inclusive em português)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma democracia de mentira

Multidão toma as ruas do Cairo

Publicado em 30/01/2011 por Mario Augusto Jakobskind

Enquanto sobe o tom da voz rouca nas ruas da Tunísia, do Egito, do Iêmen, da Argélia, do Marrocos e da Jordânia, em Israel, o país considerado pelo senso comum com uma democracia, nestes dias ocorreu a criação de uma comissão especial para investigar as atividades de cidadãos e grupos de esquerda.

No mais puro macarthismo, a extrema direita israelense, estimulada pelo Ministro do Exterior Avigdor Lieberman, uma figura nefasta e fascista, está vomitando ódio não apenas contra os palestinos, mas também contra israelenses de esquerda que, envergonhados, denunciam uma série de violações dos direitos humanos cometidas contra os palestinos. Os extremistas guiados por Lieberman acusam de “financiados por terroristas” os grupos progressistas israelenses que denunciam a ação do Exército nos territórios palestinos.

A mesma extrema direita israelense mais uma vez utilizou-se do Holocausto, lembrado no Dia 27 de janeiro, para aparecer como vítima. De fato são seis milhões de judeus assassinados pelo nazismo na II Guerra, juntamente com outros segmentos como ciganos, eslavos, comunistas, socialistas, homossexuais, seres humanos com problemas mentais etc.

Realmente, o Holocausto ser lembrado por extremistas como Lieberman, Benyamin Netanyahu e outros do gênero, é não apenas uma hipocrisia, como até mesmo ofensivo às próprias vítimas da bestialidade nazifascista do século passado. Exatamente porque, segundo denúncias dos próprios israelenses, estão vestindo a camisa do opressor de ontem, os nazistas. 

Quem imaginava que isso pertencia ao passado, engana-se. Lieberman e Netanyahu são exemplos concretos de que o ideário extremista continua vivo. O Ministro do Exterior de Israel, egresso da extinta União Soviética, pregou em várias ocasiões uma solução final contra os palestinos e manifesta claramente ódio aos árabes. .  

Quem veste a camisa do racismo não tem condições morais de falar em Holocausto, no caso de Lieberman & Netanyahu, aproveitando o sentimento de repulsa da humanidade pela barbárie da II Guerra Mundial para usá-la em proveito de uma ideologia que prega também o ódio e a exclusão do outro.  

Imbuída pelo sentimento de repulsa pelo que o governo Netanyahu continua a fazer com os palestinos, inclusive os residentes no território israelense, considerados pelas autoridades sionistas na prática como cidadãos de segunda classe, a esquerda israelense não se cala, exatamente para mostrar ao mundo que há repúdio interno em relação às atrocidades contra os palestinos.

A resposta foi dada pelo Parlamento, onde a direita tem maioria e, como afirma o jornalista israelense Gideon Levy, do jornal Haaretz, “o que este governo está fazendo ruborizaria até (Joseph) McCarthy”, o senador estadunidense que promoveu uma caça às bruxas nos anos 50.

Como temas desta natureza dificilmente são apresentados nos jornalões e telejornalões, não só do Brasil como pelo mundo afora, é necessário que a opinião pública seja informada do que está acontecendo em Israel e nos territórios palestinos, isso para evitar que o atual governo extremista de Netanyahu &Lieberman e outros do gênero continue levando adiante na prática a eliminação do outro, ou seja, do povo palestino. O jornal Brasil de Fato foi o único por estas bandas a informar a vergonhosa caça às bruxas. 

Por sinal, mais dois países da América Latina, o Paraguai e o Peru, acabaram de reconhecer o país Palestina com as fronteiras de 1967, somando-se ao Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia etc. Os respectivos governos, alguns não de esquerda, não se dobraram as pressões do lobby sionista.

Enquanto isso, depois dos tunisianos terem mandado para o lixo o ditador-ladrão Ben Ali, os egípcios estão dando o claro recado de que não suportam mais Hosny Mubarak e o seu regime corrupto e autoritário, que além de governar o país com mão de ferro há mais de 30 anos é o principal responsável pelo arrocho salarial, pobreza e desemprego, para não falar da subserviência aos Estados Unidos, que banca o governo com uma polpuda mesada de 1,3 bilhões de dólares anuais para se alinhar a Washington.

A voz rouca das ruas no Egito e Tunísia é clara: chega de ditaduras, de submissão ao Fundo Monetário Internacional, que em 2007, juntamente com o Fórum Econômico Mundial para a África, considerava o país do ex-ditador Ben Ali o mais competitivo do continente, mais inclusive do que a África do Sul. E tudo isso com a chancela dos sucessivos governos estadunidenses nos últimos 30 anos.

Embora os povos tenham perdido o medo da violenta repressão há também o perigo dos ditadores abandonarem o cargo, mas o regime continuar o mesmo, havendo apenas uma troca de seis por meia dúzia. Daí Mubarak nomear pela primeira vez em 32 anos um vice, o chefe da inteligência, Omar Suleiman. Pode ser até que esteja preparando o terreno para cair fora e deixar em seu lugar alguém que mantenha o mesmo esquema de dominação que levou os jovens a ir para as ruas protestar e pedir o fim do regime chancelado pelo Ocidente.

Quando este artigo estava sendo elaborado veio a informação do Cairo sobre a proibição do canal da Al Jazeera de atuar no Egito. Coisas de uma ditadura. Resta saber se as entidades internacionais que se consideram defensoras da liberdade de imprensa vão protestar. E o que dirão os governos ocidentais?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Al-Qaeda aposta no caos

Syed Saleem Shahzad

28/1/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
Syed Saleem Shahzad é editor-chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão

ISLAMABAD. Dia 17 de janeiro, o primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi anunciou um governo temporário de unidade nacional na Tunísia, depois de derrubada a ditadura de Zine el-Abidine Ben Ali, mas a chamada "revolução do jasmim" ainda não conseguiu livrar o país do legado do ex-presidente; resultado disso, prosseguem as grandes manifestações de rua. 

Ainda na 3ª-feira não havia qualquer sinal de solução e prosseguia o impasse entre os manifestantes e as autoridades, depois de, na véspera, ter sido adiada uma reapresentação do governo de transição – do qual participam vários ex-ministros de Ben Ali. Milhares de manifestantes continuam acampados nas ruas. 

Os eventos na Tunísia, com a derrubada de governante impopular, inspiraram muita gente em vários outros países. Grandes grupos de manifestantes tomaram as ruas na Argélia e também no Egito, considerado país líder do mundo árabe, em eventos que têm sido vistos como as mais violentas agitações de rua em três décadas do governo apoiado pelos EUA, de Hosni Mubarak. 

Como na Tunísia, também nesses países não há papel específico previsto para forças de oposição política. 

O quadro levou os ideólogos e estrategistas da al-Qaeda a segurar suas cartas. Além de algumas poucas declarações, não planejam nenhuma intervenção imediata. Estão apostando em que os levantes populares levarão a caos cada vez maior – considerado contexto interessante pela al-Qaeda –, ao mesmo tempo em que, no momento, não há qualquer força política popular capaz de propor liderança alternativa ao governo interino. 

Al Qaeda - Logo
Assim sendo, a al-Qaeda esperará para ver, contando com que o caos tenha potência suficiente para diluir o aparelho do Estado, até que se criem novas condições para que o grupo se possa estabelecer mais firmemente, como fez na Somália, no Iraque e no Afeganistão. 

“No momento, não há qualquer necessidade de a al-Qaeda intervir”, disse a Asia Times Online um dos principais estrategistas da al-Qaeda no sul da Ásia, que pediu para não ser identificado. 

“Nas atuais circunstâncias, não há papel para a Al-Qaeda. A situação é ainda muito preliminar, sem qualquer definição à vista. Nesse momento, a agitação de rua espalha-se pelo mundo árabe, mas nada há à frente, além de um grande vácuo. Não há qualquer tipo de ideia ou liderança política para dar direção a esses movimentos. 

“Assim sendo, a al-Qaeda deixará que prossiga a agitação popular, sem assumir qualquer papel nessa fase. O papel da Al-Qaeda começará na fase seguinte, quando a agitação de rua estiver mais forte e o sistema de governo entrar em colapso nesses países. Será a hora de a Al-Qaeda apresentar seus planos e introduzir suas estratégias” – disse a mesma fonte. 

A agitação no Egito, com seus 80 milhões de habitantes, pôs de sobreaviso todo o planeta. O Egito é o mais importante aliado dos EUA na região, e lar de alguns dos mais radicais e ultrarradicais grupos da resistência islâmica. Os protestos de hoje tanto podem conduzir à democratização, quanto podem jogar o país nos braços dos radicais. 

Depois do confronto entre a polícia e milhares de manifestantes nas ruas do Cairo na 3ª-feira, houve ligeira diminuição nas tensões, depois que o ministro do Interior declarou que “não serão permitidas aglomerações, passeatas ou comícios, nem qualquer tipo de movimento de provocação ou protesto”.

Até aqui, há quase 1.000 presos em todo o Egito e as manifestações já são consideradas as maiores, em décadas. As pessoas protestam contra a lastimável situação econômica no país e exigem a renúncia de Mubarak. Gamal Mubarak, filho do presidente e seu herdeiro potencial, e a família já fugiu para o Reino Unido, como noticiou hoje o jornal Akhbar al-Arab. 

Rashid al-Ghannusi, líder islâmico tunisiano no exílio está preparando a volta ao país. Para tranquilizar o público internacional e dourar a pílula, declarou que seguiria o modelo do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, introduzindo um Islã moderado. 

O líder islâmico do Sudão, Dr. Hassan Turabi, foi preso depois de ameaçar o governo com revolta semelhante à da Tunísia. Grupos islâmicos ocuparam também as ruas da Jordânia e prometem novos protestos para os próximos dias. 

Mas a questão central é se as forças de oposição, sejam seculares ou islâmicas saberão converter os protestos populares em processo efetivo de mudança. Houve casos de manifestações de rua contra governos muçulmanos pró-EUA durante a invasão do Afeganistão pelos norte-americanos em 2001 e no Iraque em 2003, mas as mobilizações esvaziaram-se gradualmente e não catalisaram qualquer mudança. 

As forças políticas no mundo árabe, existam nos corredores do poder ou em grupos de oposição, vivem o idêntico dilema de não terem qualquer discurso direto com a população comum; assim, não conseguem oferecer qualquer tipo de liderança aos movimentos populares. 

O mesmo se aplica às organizações da Fraternidade Muçulmana no Oriente Médio, os maiores grupos de oposição em toda a Região. A Fraternidade foi fundada em 1928, no Egito. 

 
 Com novo líder, Mohammed Badie [na foto, ao centro], a "Fraternidade Muçulmana" 
declara sua vocação de partido político e alia-se a outros grupos.

 Desde os anos 1960s, os partidos da Fraternidade Muçulmana lutam, basicamente, para sobreviver, dificuldades que se seguiram ao período em que muitos de seus comandantes foram executados, e a Fraternidade dividiu-se em facções. Os grupos perderam contato com as massas, às quais jamais falaram de melhor democracia ou luta por melhores condições de vida e bem-estar. 

Um segmento do partido envolveu-se em ações terroristas, mergulhou na clandestinidade e rompeu completamente qualquer contato com a população civil. Os principais comandantes do partido refugiaram-se na Arábia Saudita, em estados do Golfo ou na Europa e EUA. Suas políticas visam quase exclusivamente a acalmar os patrocinadores. O melhor exemplo disso é o Conselho Internacional da Fraternidade Muçulmana [ing. International Council of Muslim Brotherhood]. 

O Conselho tem representação de 51% no partido da Fraternidade Muçulmana no Egito (organização-mãe) e de 24% em todos os demais partidos da Fraternidade Muçulmana. Tem também representação de 25% na Fraternidade Muçulmana dos Estados do Golfo, que é o menos ativo de todos os partidos da Fraternidade, considerado voz dos xeques que canalizam quantidades gigantescas de dinheiro para os cofres dos partidos da Fraternidade Muçulmana. Esse braço assegura que os desejos dos dirigentes dos estados do Golfo sejam sempre levados em conta no planejamento de todas as políticas da Fraternidade Muçulmana em todo o mundo árabe. 

As agitações de rua no Egito podem vir a revelar-se uma oportunidade para que as organizações da Fraternidade renasçam, mesmo que a al-Qaeda também esteja à espreita, para extrair algum proveito do caos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sayyed Nasrallah:“Somos a resistência. Não nos interessam cargos.”

25/1/2011, Batoul Wehbe, Al-ManarTV, Beirute
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


O secretário-geral do Hezbollah Sayyed Hasan Nasrallah falou ontem pela televisão à multidão reunida para ouvi-lo em Ras Al-Ein, Baalbek, na comemoração do Arbaeen [1] do Imam Hussein (AS) e seus seguidores mártires.

Sayyed Hasan Nasrallah - Secretário Geral do Hezbollah
Sayyed Nasrallah começou por apresentar as três principais questões de que trataria em sua fala, depois de relembrar o significado religioso da solenidade em que se reuniam: “Primeiro, falarei sobre a ocasião; segundo, brevemente, sobre os desenvolvimentos na região; e por fim, falarei sobre os recentes desenvolvimentos no Líbano, sobretudo sobre os dias especialmente sensíveis que vivemos hoje, e suas consequências para o destino de nosso país.”

Na introdução, Sayyed Nasrallah saudou o povo da Tunísia pelo valente e abençoado levante, alertando os tunisianos para que se mantenham atentos e fortes para que não haja qualquer distorção nos seus esforços de resistência. “Ouvimos ontem que [o secretário-assistente de Estado dos EUA Jeffrey] Feltman já viajou para a Tunísia. É mau sinal. O povo da Tunísia deve manter-se atento, porque, se Feltman insistir em organizar conversações e os procedimentos eleitorais com o governo interino da Tunísia, estará aí, bem evidente, que mais uma vez, como sempre, estará em andamento mais uma conspiração dos EUA. Sempre que Feltman, fantoche dissimulado, aparece, traz com ele tristeza e desolação.”

O chefe do Hezbollah acusou a comunidade internacional de mobilizar-se a favor da libertação de um único soldado israelense do exército ocupante da Palestina, e esquecer sempre dos milhares de palestinos que continuam presos nas prisões de Israel. 

“O mundo fala sobre Shalit, assassino e agressor de palestinos, e esquece os milhares de palestinos que continuam nas prisões israelenses. Lembremos as casas destruídas, a mesquita Aqsa atacada e os milhões de refugiados contra os quais todo o mundo conspira para impedi-los de voltar à terra onde nasceram e aos seus locais de culto, de readquirir seus direitos e o respeito que lhes é devido. Desde o início sempre pensamos na Palestina e nos sofrimentos dos palestinos. A essa causa oferecemos nossos mais preciosos mártires e continuaremos a oferecer, e nos ofereceremos nós mesmos ao martírio com os palestinos, até alcançarmos a vitória, quando for esse o desejo de Deus.”

A fala de Sayyed Nasrallah aconteceu enquanto apoiadores do ex-primeiro ministro Saad Hariri tomavam as ruas para protestar contra a indicação de Najib Mikati para formar o novo governo. Os apoiadores de Hariri atacaram com violência jornalistas árabes e estrangeiros, o que jamais se vira antes no Líbano, além de atacarem também soldados do exército libanês com pedras e coquetéis Molotov, além de depredar os gabinetes de Mikati e do deputado Mohamad Safadi.

“Passamos por fase difícil e sensível, que exige que enfrentemos a situação com responsabilidade. Agimos conforme o que dispõe a Constituição (para derrubar democraticamente o governo de Hariri e indicar outro primeiro-ministro). É nosso direito legal contraditar qualquer acusação sem provas que venha do Tribunal Especial da ONU para o Líbano, e que tome a resistência como alvo de ataque político. O que fizemos foi ato de resistência legal, no exercício de um direito constitucional. Os ministros da oposição renunciaram, com o quê caiu o Gabinete, e iniciamos consultas constitucionais ao Parlamento, que indicaram resultado claramente democrático. O presidente [Michel] Sleiman designou Mikati para que constitua o novo governo libanês” – disse Sayyed Nasrallah. 

E acrescentou: “A batalha pelo início das consultas foi batalha muito dura. Tenho de dizer para que todos saibam que houve interferência de potências estrangeiras. Até o vice-presidente dos EUA Joseph Biden telefonou a um dos líderes do bloco parlamentar, para pedir-lhe que votasse em Saad Hariri.

“Entendemos os sentimentos e o medo [dos apoiadores de Hariri]. Mas imaginemos que a situação fosse outra e outro candidato fosse indicado e nossos resistentes tivessem tomado as ruas para protestar. Todos sabemos que teríamos sido pesadamente condenados por Washington e outras capitais ocidentais. Estaríamos assistindo a uma campanha global para apresentar os apoiadores da oposição como terroristas, ditadores e rejeicionistas. Mas os manifestantes violentos não somos nós, são eles; e o mundo, então, se cala.

Os que pregam respeito pela legitimidade das instituições constitucionais libanesas, dessa vez, estão calados. Por que respeitam a vontade daquela maioria, mas não respeitam a vontade daquela oposição constitucional? E se fechar e bloquear ruas e estradas é direito legítimo, por que tantas condenações à oposição quando estamos nós, nas ruas?

Há cinco anos ouvimos lições sobre civilização, democracia e sobre as regras de convivência entre maioria e minoria. Mas hoje, aqueles ‘professores’ de civilização e democracia calaram-se.”

Sua Eminência acrescentou que “apesar de tudo, vivemos hoje uma nova oportunidade política”. “Serão inúteis todas as ameaças contra Mikati. E erram os que digam que Mikati é candidato do Hezbollah. Em 2009 o nome de Mikati estava na lista eleitoral do grupo de Hariri, e sempre foi homem de centro.

Os slogans que se ouvem hoje visam apenas a pressionar Mikati e não há dúvidas de que visam também a incitar à disputa sectária. A oposição poderia ter escolhido outro nome, mas vimos, na indicação de Mikati, uma oportunidade para desarmar o desafio e garantir uma chance à política nacional. Por isso o Hizbollah apoia seu nome. O próximo primeiro-ministro não será do Hezbollah, nem, tampouco, será do Hizbollah o próximo gabinete.

Essas são ideias falsas, que têm sido propagandeadas apenas para mobilizar as potências estrangeiras contra o Líbano – sobretudo, como sempre, os EUA e Israel e todos os comprometidos no projeto EUA-Israel para a Região.”

Sayyed Nasrallah repetiu que o Hezbollah sempre foi e é partido de um movimento de resistência, luta de militantes muçulmanos mártires contra o inimigo israelense.

“O Hezbollah não é partido que caça cargos e aspire ao poder. Antes de 2005, jamais participáramos do governo. Nunca exigimos ministérios ou cargos na administração ou no poder. O que reivindicamos é que entendam que somos um movimento de resistência; existimos para preservar nosso país, preservar a dignidade do Líbano e dos árabes, libertar terras ocupadas e locais sagrados.

Esperamos duas atitudes dos demais partidos: que nos respeitem como somos e que não conspirem contra nós. Não nos traiam. Não tentem nos apunhalar pelas costas. Lutamos contra Israel, de peito aberto e declaradamente. Esse o martírio ao qual nos expomos. E não aceitaremos tiros à traição ou conspirações. Não precisamos que ninguém nos proteja. Trabalhamos para os pobres e com os pobres, sobretudo nas áreas mais carentes, como Akkar, no Bekaa e no Norte. O que os partidos da maioria fizeram por Akkar, Trípoli e o norte, nos últimos cinco anos?”

“]Hariri e seus correligionários] viajaram a Washington, assinaram pactos, compromissos, conspiraram contra a resistência e contra as armas da resistência. Tentaram desarmar a resistência até nas negociações do diálogo nacional, e fracassaram sempre. Eles nos arrastaram para a guerra de julho e falharam. Hoje, tentam servir-se do Tribunal Especial – que não investiga o que existe para investigar – e nada faz além de tentar enredar a resistência em suas falsas denúncias, falsas provas, falsas testemunhas. Falharão outra vez” – disse Sayyed Nasrallah.

“Embora a resistência tenha enfrentado dificuldades econômicas sob aquele governo, entendemos a importância de conviver e resolver juntos as questões do Líbano. Se não dermos a Mikati uma chance, quem pensam vocês que voltará ao poder, se não as potências estrangeiras de sempre?” – perguntou Sua Eminência.

Sayyed Nasrallah destacou que só o exército, o povo e a resistência podem proteger o Líbano contra os ataques de Israel, não o tipo de governo, o Gabinete ou algum primeiro-ministro. “Deem uma chance a Mikati, para formar um governo e governar por um ano. Recusar-se a participar do próximo gabinete só fará comprovar que o Movimento 14 de março só ambiciona os cargos, o poder, e quer monopolizar o governo do país.” 



Nota de tradução
[1] Arbaeen (Arbayeen), “quarenta” em árabe, ou Chehlum, como dizem os muçulmanos de língua urdu, é cerimônia religiosa que se realiza 40 dias depois do Dia de Ashura (Aashura/Ashurah), culto religioso em memória da decapitação de Imam Husayn Ibn Ali (as), neto do Profeta Maomé, no 20º dia do segundo mês (Safar) do calendário lunar islâmico. O período tradicional de luto, em muitas culturas árabes, dura quarenta dias.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O povo da Tunísia decidiu acabar com Ben Ali

Os meios de comunicação estrangeiros falseiam a visão dos acontecimentos. Dão a entender que a Tunísia vive um movimento social como se as causas principais fossem o desemprego ou o preço dos alimentos básicos.

Traduzido por Margarida Ferreira para ODiario.info

Quando eles denunciam a ditadura, têm tendência para desculpá-la. Acima de tudo, escondem as razões por que o governo francês apoia o regime criminoso de Ben Ali: alegam que é principalmente por causa da participação de Ben Ali na luta contra os islamitas.

Mentira nº 1 dos meios de comunicação: “Trata-se apenas de um movimento social, não é um levantamento”

De há duas semanas a esta parte intensificou-se a repressão na Tunísia. Tiros de balas reais das forças policiais juntaram-se às detenções em massa e às ameaças de perseguições. Sabe-se que há mortos desde 9 de Janeiro. Mas o balanço é difícil e os hospitais proíbem as filmagens. Os meios de comunicação locais estão amordaçados, mas as informações espalham-se na Internet como um rasto de poeira. Entre os mortos, há crianças, mulheres e pessoas idosas. Uns morrem sufocados com os cartuchos de gás lacrimogêneo fora de prazo que são utilizados. Os vídeos na Internet mostram que as vítimas foram quase todas atingidas no peito ou na cabeça. Tiros de precisão para matar.

Kasserine (a sudoeste do país) foi particularmente atingida. Sábado à noite, os polícias de Ben Ali dispararam sobre o cortejo fúnebre de um manifestante que tinham morto na véspera. Foram colocados atiradores em sítios altos. Houve pelo menos 50 mortos ali e os confrontos continuam. Polícias à paisana pilharam os estabelecimentos comerciais e as casas. E na segunda-feira foi possível ouvir na Radio Kalima que as forças especiais de Ben Ali arrombaram as portas das casas e violaram as raparigas que encontraram.

A ira chegou a uma situação sem retorno. Toda a gente aderiu ao combate: médicos e advogados lutam ao lado dos mais pobres pelo seu país. Na segunda-feira à noite Ben Ali faz uma declaração, prometendo 300 000 empregos. Como se essa mentira pudesse acalmar os ânimos. “Estamos nas tintas para o desemprego, queremos que Ben Ali seja preso” declaram em coro os tunisianos.

Os subúrbios de Tunis revoltam-se na quarta-feira. Ben Ali manda o exército intervir, mas este se volta contra ele em várias cidades, protegendo os cidadãos pacíficos dos tiros da polícia e das detenções. Na quarta-feira à noite é decretado o recolher obrigatório em Tunis e seus subúrbios, das 20 horas às 5h30 da manhã. Uma hora antes, o jovem Magid é assassinado em Ettadhamen no subúrbio oeste de Tunis com um tiro de um polícia, quando regressava a casa. Contrariamente ao que nos descrevem os jornalistas do France 24, abrigados no centro, os corajosos habitantes das cidades de Ettadhamen e de Intilaka lutaram toda a noite apesar do recolher obrigatório e dos tiros da polícia. Os confrontos continuam, os jovens cantam: “Não temos medo de vocês”. O exército retira-se da cidade, por ordem de Ben Ali, para deixar que as forças especiais continuem o massacre.

Imolação de manifestante
Não se trata de um simples movimento social, é uma revolução que está em marcha. Um levantamento cuja faísca foi o suicídio por imolação, no dia 17 de Dezembro em Sidibouzid, de um jovem de 28 anos, mas cujas raízes são mais profundas.

A luta organiza-se na Internet e na rua, começa no sul onde as populações são mais pobres, mas estende-se a todo o país. Na quinta-feira passada, depois de Tunis e dos seus subúrbios, as cidades de Tabarka e Jendouba no noroeste juntam-se por seu turno à luta.

Ben Ali alega ter sido enganado por gente corrupta. Imediatamente, na quarta-feira, a ONU que receia que ele perca o seu trono, recomenda-lhe que instale uma comissão de inquérito independente. Mas os tunisianos não são parvos: sabem muito bem que os corruptos são os que dirigem o seu país. Pelo seu lado, os Estados Unidos tentam também chamar à razão o tirano que perde o controle do país e só agrava a situação com a repressão.

Pouco depois, o primeiro-ministro tunisiano anuncia a exoneração do ministro do interior, Rafik Belhaj Kacem, e a libertação de todas as pessoas detidas durante o “levante social”. Na mesma altura, Hamma Hammami, um opositor político que já conheceu a clandestinidade, a prisão, o exílio e a tortura, na sua qualidade de porta-voz do PCOT (partido comunista tunisiano, oficialmente proibido) é raptado do seu domicílio pelas forças especiais. A família muito inquieta receia pela sua vida.

Quinta-feira, o presidente autoproclamado, Zin El Abidiin Ben Ali, anuncia que não tem a intenção de exercer um novo mandato e promete a liberdade total da informação e da internet: “Nada de presidência vitalícia e recuso-me a mexer no limite de idade fixado pela Constituição”. “Basta de tiros com balas reais”, “Já vos compreendi”. São estas as palavras do ditador assassino agonizante que alega ter sido enganado. Nenhuma palavra sobre o recolher obrigatório instaurado desde a véspera.

Depois da declaração, ouvem-se alguns gritos de regozijo na rua, mas rapidamente são criticados por uma grande parte dos resistentes e pela totalidade dos ciber-ativistas.

Para Tarak Mekki, opositor político de Ben Ali e humorista, estas manifestações de regozijo são uma encenação: “Antes da declaração estacionaram uns carros diante da sede do partido em Sfax. Julgamos que iam quebrar tudo, mas eis que se põem a festejar, buzinando e foi o mesmo cenário que aconteceu em Tunis e em Kérouan, só que em Kérouan as pessoas foram espancadas e em Kasserine as manifestações continuaram”.

Um pouco mais tarde, confirma-se a mentira: a polícia continua a atirar e enumeram-se mais mortos. Em Zarzouna, os resistentes clamam vingança depois de um tiro mortal que atingiu uma rapariga pacífica cujo único crime tinha sido ter protestado contra o regime. Em represália foi queimado um posto da polícia. Em Monastir, foi a sede do RCD que foi queimada, assim como propriedades do clã Ben Ali.

A repressão ainda subiu um furo na quinta-feira: Ben Ali tenta que a população do sul do país passe fome, restringindo o abastecimento de produtos básicos (farinha, açúcar, leite…). Sabe-se que as cidades de Kérouan, Gafsa e Sidi-bouzid estão numa situação de penúria.

Mas os motins assumem uma amplitude cada vez maior e começa-se a pensar que, se Ben Ali não for preso rapidamente, a violência popular será inevitável. Mais tarde, nesse mesmo dia, difundem-se os slogans nas ruas de Tunis, repetidos por toda a gente: “Ben Ali, rua! Já, já!”

Esta quinta-feira de manhã, às 11 horas, os tunisianos afluíram de todo o país para uma grande manifestação de vários milhares de pessoas no centro de Tunis. Todos reafirmaram a sua vontade inabalável de prender Ben Ali e o seu clã mafioso: a revolta não se acalmará antes disso. Diante do ministério do Interior, a polícia ainda disparou sobre a população. Em represália, os jovens organizam-se e querem queimar o ministério, mas o tiroteio impede-os.

O que a ONU, a França ou Ben Ali não compreendem, é que os tunisianos já não acreditam nas suas mentiras. O que eles não vêem é que só há uma solução viável para a calma: a fuga ou a rendição aos militares de Ben Ali e do seu clã. Atualmente, já não há qualquer dúvida: os tunisianos decidiram acabar com Ben Ali

Mentira nº 2 dos meios de comunicação: “Ben Ali permitiu a emancipação da mulher e a educação do povo”.

A Tunísia é um pequeno país de cerca de 10 milhões de habitantes com uma população jovem e muito culta (metade da população tem menos de 25 anos e o número de diplomados universitários ultrapassa o da Argélia e Marrocos no seu conjunto). A sua economia baseia-se principalmente em sociedades de serviços (43,2 % do PIB em 2007), em produtos de baixo valor acrescentado (azeite, cereais) e na exportação de fosfatos (segundo exportador mundial). Mas o desenvolvimento econômico é muito desigual: centrado principalmente em Tell a oeste (região das colinas) com os fosfatos e no litoral com as indústrias e o turismo. O que deixa as regiões do sul e do norte com uma pobreza muito acentuada.

Foi depois da independência, em 1957, sob a presidência de Bourguiba, que a Tunísia conheceu um período social e progressista. A colonização francesa durara 75 anos, centrara-se principalmente na agricultura através da espoliação das terras e num comércio lucrativo graças aos portos de Tunis e de Sfax e na exploração dos tunisianos. Deixou um país pouco industrializado com um grande desemprego.

Na altura da libertação, a Tunísia nacionaliza o que lhe tinha sido roubado e desfruta então de uma economia social gerida a 80% pelo Estado, o que provoca um forte crescimento. A mulher tunisiana recebe o direito de voto, a poligamia é proibida e o aborto é legalizado dez anos antes da França. Como cereja no topo do bolo, a maior parte do orçamento é reservada para a educação (até aos 30%).

Mas o Banco Mundial, que está ao serviço das multinacionais, imiscui-se nos assuntos tunisianos. Apoiado pela grande burguesia de Tunis começa a oferecer a sua “ajuda” à Tunísia, ou seja, empréstimos caros, que lhe permitirão fazer pressão sobre o governo para travar a estatização da economia. Esta tinha sido iniciada por Ben Salah, secretário de Estado para o Plano e Finanças. O BM esforça-se também por recuperar tanto quanto possível os fosfatos tunisianos. No final dos anos 60, é um dos principais credores da Tunísia e provoca a exoneração de Ben Salah. A Tunísia começa então uma política muito mais liberal chefiada por Hédi Nouira, ex-governador do Banco Central.

No entanto, este liberalismo não desenvolve o país: entrega-o de mão beijada aos estrangeiros e a indústria tunisiana enriquece a Europa. A taxa de desemprego duplica, a taxa de escolarização baixa e as desigualdades agravam-se.

Corrupção 
Em 1978, a UGTT (União Geral dos Trabalhadores Tunisianos - este sindicato é a principal força da oposição da época e ainda hoje existe) lança um apelo à greve geral. Nessa altura, é um tal Zine El Abidine Ben Ali que está à frente da Segurança nacional (os serviços de informações tunisianos). Manda disparar sobre a multidão: nessa “quinta-feira negra” haverá 200 mortos e mais de uma centena de feridos. Em 1983, Bourguiba duplica o preço do pão e da sêmola. Estalam então “os motins do pão”, novamente reprimidos com ferocidade. Mas o povo não abandona a luta e consegue a anulação do aumento dos preços.

Todas estas repressões vão favorecer a ascensão de Ben Ali ao poder: as burguesias de Sahel e de Tunis querem um homem capaz de fazer frente aos movimentos populares, esmagando simultaneamente os gaullistes e os islamitas.

É em 1987 que Ben Ali, na altura ministro do Interior, obriga pessoalmente sete médicos a assinar um relatório em que se declara que Bourguiba está senil. Esse “golpe médico de Estado” faz de Ben Ali o segundo presidente da Tunísia (o artigo 57º da Constituição tunisiana estipula que é o primeiro-ministro que sucede no caso de impedimento). Inicia então a sua política repressiva e ultraliberal.

Mentira nº 3 dos meios de comunicação: “Estas revoltas são causadas, sobretudo pela forte taxa de desemprego e pelo custo demasiado elevado dos produtos básicos”

O desemprego é muito elevado, incluindo entre os jovens diplomados, mas é um problema secundário que decorre das causas profundas da ira: a corrupção generalizada, a repressão, a censura e a venda do país aos amigos do ditador.

O WikiLeaks fez revelações em Dezembro, através de um telegrama de Robert F. Gode, antigo embaixador americano em Tunis: “Metade do mundo dos negócios na Tunísia pode gabar-se duma ligação a Ben Ali pelo casamento, e um grande número dessas relações terá tirado grande proveito desse parentesco”.

Como refere o relatório, os tunisianos conhecem estas informações há muito tempo.

Quase todos os sectores econômicos estão gangrenados por três famílias principais ligadas por casamentos, a que se chama o clã Ben Ali: os Ben Ali, os Mabrouk (uma rica família burguesa tunisiana em que um dos filhos é atualmente casado com a filha do ditador) e os Trabelsi (liderado por Belhassen Trabelsi, o irmão mais velho de Leila, mulher de Ben Ali).

A família Mabrouk controla o BIAT, o Banco Internacional Árabe da Tunísia, o STAFIM PEUGEOT (automóveis) e o CHAMS FM (rádio que pertence à filha do presidente e mulher de Mabrouk). E reparte com os franceses os benefícios das licenças Géant e Monoprix.

A família Trabelsi possui o Banco da Tunísia, a licença FORD, a CTN (Companhia Tunisiana de Navegação). Duas rádios: RADIO MOSAIC FM e EXPRESS FM e uma cadeia de televisão privada TV CARTHAGE (Belhassen Trabelsi e Sami Fehri), a BRICORAMA, os Cimentos Cartago, IE THON TUNISIEN.

A família Ben Ali possui os bancos Zitouna e Mediobanca (Sakhr el Matri, genros de Ben Ali) e a Société MAS de gestão dos serviços do aeroporto de Tunis. (Slim Zarrouk, genro). Do lado dos meios de comunicação, possui a sociedade CACTUS, empresa de produção áudio-visual que se apropriou de 60% das receitas da cadeia nacional, assim como duas rádios: ZITOUNA FM e JAWHARA FM (Néji Mhiri, amigo pessoal do ditador e administrador do Banco Central) e o Grupo Dar Assabah que publica os jornais Assabah e Le Temps (Sakhr Matri). A sociedade nacional Ennakl de transportes tunisianos e a Sociedade Le Moteur que possui as licenças Mercedes e Fiat. A companhia aérea Khartago Airlines assim como a Frip. Estas sociedades foram todas readquiridas ou oferecidas em condições duvidosas ou criminosas.

O Clã dedica-se igualmente a roubar as terras do povo e as suas riquezas culturais. A maior parte das operações imobiliárias do país está nas mãos do clã. Dezenas de hectares de terras agrícolas são distribuídas pela família. Sidi Bou Said e Cartago (cidades costeiras muito bonitas, ricas de história e de descobertas arqueológicas) sofreram uma verdadeira razia. Foram desclassificados terrenos e vendidos a preços altos.

A maior parte das operações imobiliárias do país está nas mãos da família. Ben Ali lhes distribui zonas inteiras, até mesmo várias dezenas de hectares de terras agrícolas. As propriedades públicas são requisitadas para a família, de acordo com os seus apetites.

Com a cumplicidade do Banco Central, transfere maciçamente fundos para o estrangeiro: O conjunto das transferências de dinheiro da família está calculado, no período 1987-2009, em cerca de 18 mil milhões de dólares, o equivalente à dívida tunisiana (segundo o site ativista nawaat.org).

Estalam escândalos em nível internacional:

- A questão do liceu Louis Pasteur:

O liceu francês Louis Pasteur, dirigido há 40 anos pelo casal Bouebdelli é reputado pelo seu ensino de muito alta qualidade e uma taxa de êxito muito elevada no bacharelato. Toda a burguesia envia para lá os seus filhos. Mas em 2007, Bouebdelli impede de ir a exame a filha do advogado de Leila Trabelsi. É convocado pouco depois ao ministério: dão-lhe ordens de inscrever a aluna sob pena de ver o liceu encerrado. O respeitável Mohamed Bouebdelli recusa-se a ceder às ameaças. Leila Trabelsi ordena o encerramento do liceu e arranja uma subvenção de 1 800 000 dinares para abrir o seu próprio estabelecimento de ensino no ano seguinte: o liceu internacional privado de Cartago.

Mohamed Bouebdelli desencadeia uma campanha para sensibilizar a opinião pública, escreve um livro que divulga gratuitamente ma Internet, contato a embaixada de França. Não serve para nada, a França mantém-se surda e ele não consegue impedir o encerramento do liceu.

- A questão do Iate roubado:

Em 2006, Imed e Moaz Trabelsi, sobrinhos de Ben Ali roubam o iate do rico homem de negócios francês Bruno Roger, amigo de Sarkozy. Empurrado pela mulher, Ben Ali é obrigado a intervir para evitar um incidente diplomático.

As malfeitorias das grandes famílias centram-se, sobretudo na economia, mas os Trabelsi também se dedicaram a tráficos mafiosos ao mais alto nível do Estado. Segundo o inquérito de Slim Bagga, Imed Trabelsi coloca-se acima das leis e abusa disso. Põe em marcha um tráfico de prostituição de menores, que ele considera uma mercadoria igual a qualquer outra, com a colaboração ao mais alto nível do Estado („As menores, de Slim Bagga: reserva de caça dos herdeiros Ben Ali e Trabelsi),

Será que a criação de empregos suplementares poderá acalmar a ira dos tunisianos?

Sarkozy e Ben Ali
Mentira nº 4 dos meios de comunicação: “A França defende Ben Ali porque ele luta contra o islamismo”

A repressão de Ben Ali no que se refere aos islamitas foi muito violenta, mas a principal razão do apoio francês são interesses econômicos consideráveis.

As relações privilegiadas da França com Ben Ali permitem-lhe ter sido o primeiro investidor estrangeiro na Tunísia em 2008 com um recorde de 280 milhões de euros em investimentos. Há 1 250 empresas francesas em atividade neste país, com um total de 106 000 empregados. Alguns interesses econômicos franceses são antigos. Outros, promissores, pertencem ao futuro.

- Deslocalização de proximidade

Três quartos das empresas francesas presentes fazem deslocalização de proximidade exportando indústria ou serviços para o mercado europeu. Nos sectores dos têxteis – vestuário, couro (500 empresas) - e sobretudo nas indústrias mecânicas, elétricas e eletrônicas – primeiro posto de exportação do país – com a Valeo, a Faurecia, a Sagem ou a EADS (através da sua filial Aerolia Tunisie). Os serviços não ficam atrás, com os "call centers" e as sociedades de serviços informáticos. Começam a aparecer gabinetes de estudos e de engenharia ao lado da centena de gabinetes de consultoria já instalados. Acrescentemos os „call centers (Téléperformance) ou os SSI (Infraestruturas de Sistemas de Servidores) de vocação exportadora.

Ao lado destes setores dedicados à exportação, os grandes nomes do CAC40, presentes na Tunísia, interessam-se diretamente pelo mercado tunisiano, ou mesmo argelino e líbio: Air Liquide, Danone, Renault, PSA, Sanofi Aventis, Total ou outros. Estas empresas implantam-se frequentemente em parcerias com grupos locais, mesmo que tenham apenas uma participação minoritária, como o Carrefour e o Géant Casino. Estas duas marcas tiveram o cuidado de formar parcerias no seio de famílias mafiosas (Mabrouk e Trabelsi) que se mantêm majoritárias.

As empresas francesas procuram contratos na energia e nos transportes. A central de gás que deve ver o dia entre Tunis e Bizerte (400 milhões de euros) interessa à Alstom e à General Electric France. Em Cap Bon, na extremidade nordeste do país, o vasto projeto ELMED que pretende ligar a Tunísia à Sicília suscita o interesse da GDF Suez e da EDF. Na ordem de 2 mil milhões de dólares (1,5 de euros), poderá vir a ser lançado em 2011 ou 2012. Os transportes são o outro sector promissor para os investidores. O projeto de rede ferroviária rápida (RFR) de Tunis, inspirado no RER parisiense, deve arrancar este ano. A Alstom e a Colas Rail são candidatas à sinalização e ao equipamento da via. O material rolante interessa à Bombardier France. O projeto RFR deve prosseguir durante cerca de dez anos, ou seja, significa um potencial de contratos de dois mil milhões de euros.

No turismo, encontramos: a Fram, a Accor, o Club Med. No sector bancário: BNP-Paribas, Société générale, Groupe Caisse d’épargne. Nos seguros, a Groupama detém 35% do capital da Sfar, a primeira seguradora tunisiana. As marcas Carrefour e Casino estão presentes com parcerias no seio da família mafiosa que se mantêm majoritárias (Mabrouk/Trabelsi). Nas telecomunicações, a Orange Tunisie arrebatou em 2009 a terceira licença de telefones móveis e a segunda de telefones fixos.

“As empresas que se dispuseram a deslocar-se para o país seguem com atenção os motins, mantendo-se calmas”, indica um observador francês, com base em Tunis. “Algumas casas mães experimentam o pulso da situação por causa das suas filiais”.

Mas não existe apenas a França. A União Europeia também deposita a sua confiança em Tunis e tenta elogiar o regime. Segundo um comunicado de Abril de 2009 da Comissão Europeia, “a Tunísia foi o primeiro país da região euro mediterrânea a assinar um acordo de associação com a União Europeia, que tem como objetivo estabelecer uma parceria política, econômica e social entre as duas partes”. O Banco Europeu de Investimentos interveio a partir de 1978. Atualmente, já se investiu um total de 2,75 mil milhões de euros, o que faz do BEI o primeiro credor de fundos da Tunísia.

A grande beneficiária do regime de Ben Ali é a Europa. Ele é o único dirigente árabe a promover o Tratado do Mediterrâneo, zona de mercado livre que deixará o Magreb à mercê dos capitais ocidentais. E nesta via perigosa, Bruxelas esfrega as mãos de contente: “A partir de 1 de Janeiro de 2008, foram abolidas todas as taxas para os produtos industriais, dois anos antes do prazo previsto”.

O Banco Mundial (com sede em Washington) está no mesmo comprimento de onda. O seu relatório Doing Business 2009, que mede a eficácia das reformas tomadas com vista a sanear o ambiente dos negócios, premia a Tunísia com um generoso sete em dez e coloca-a na 73ª posição entre 188 países passadas pelo crivo (muito à frente de Marrocos e da Argélia). De resto, em meados de Maio de 2009, o Banco Mundial meteu a mão na algibeira e concedeu um empréstimo de 250 milhões de dólares à Tunísia para desenvolver a sua competitividade.

Isto explica porque é que a ministra francesa dos Negócios Estrangeiros, Michel Alliot-Marie, declarou, na época em que o povo tunisiano era massacrado: [o governo francês] “não deve armar-se em dar lições perante uma situação complexa” e ofereceu “a experiência da polícia francesa à polícia tunisiana na gestão de questões de segurança”. Os jovens dos subúrbios e os manifestantes do movimento das reformas hão de agradecer.

É verdade que ela conhece bem o país visto que, tal como os seus colegas Hortefeux, Besson e Mitterrand, todos os verões passa belas férias nas luxuosas instalações turísticas, com a sua família, conforme revelou o Canard Enchaîné. Este ano, foi no Phenicia em Hammamet. A notícia não diz quem pagou a conta.

O seu colega da Agricultura, Bruno Le Maire, foi o primeiro membro do governo a explicar-se: “Não tenho que julgar o regime tunisiano. O presidente Ben Ali é uma pessoa que frequentemente é mal julgado, [mas] fez muitas coisas”. Quanto a Frédéric Mitterrand, depois de o ter elogiado durante tanto tempo, ainda se atreveu a declarar há pouco tempo que tratar o regime de Ben Ali como uma ditadura era “um exagero”!

Uma nova forma de revolta

A única forma do regime de Ben Ali conservar o poder foi organizar uma vigilância e uma censura do Estado institucionalizada com a cumplicidade da Justiça. Todas as vozes dissidentes são severamente reprimidas. Já em 2008 começam os levantamentos na região de Gafsa (minas de fosfato). A 6 de Julho de 2010, um tribunal de recurso tunisiano confirma a sentença de quatro anos de prisão efetiva pronunciada contra o jornalista Fahem Boukaddous por ter filmado as manifestações. Ainda hoje continua na prisão.

Prisão de Blogueiros
Mas, graças à Internet e às novas tecnologias, os tunisianos conseguem encontrar fontes de informação. Então, o governo apressa-se a bloquear todos os sites dissidentes e prende os blogueiros. É impossível aceder ao YouTube e ao Dailymotion, há páginas do Facebook bloqueadas. No entanto, esta repressão faz nascer na Tunísia uma geração de piratas informáticos que permitem contornar os bloqueios ou chegam mesmo a desbloquear endereços amordaçados pelo Estado!

As redes sociais desenvolvem-se espantosamente: em 2000, o primeiro ciber grupo de ativistas tunisianos Takriz ultrapassa o cabo de um milhão de visitantes singulares, número que continuará a aumentar com os crimes cada vez mais escandalosos dos Ben Ali. Este endereço conta hoje um milhão de visitantes por dia! Estes jovens piratas informáticos desempenham atualmente um papel determinante na luta, quando os tunisianos não estão no terreno, é aqui que se reúnem e trocam as últimas notícias que surgem a cada minuto que passa.

Na segunda-feira à tarde, piratas informáticos atacam os websites governamentais. Ficam bloqueados o acesso à bolsa de valores e o site do ministério dos Negócios Estrangeiros. O ataque é reivindicado por um grupo de piratas informáticos dissidentes: “Anônimos”. O endereço deles propõe-se navegar anonimamente na Internet, oferecendo acesso aos sites bloqueados pelo governo.

Neste momento, os tunisianos podem seguir em decreto no Takriz, minuto a minuto, os acontecimentos, tal como nós todos. Estes acontecimentos mostram-nos como as novas tecnologias podem representar uma esperança para a luta, para a verdade e para a Libertação.

É difícil prever a evolução dos acontecimentos, visto que este movimento não propõe nenhum candidato, nenhuma alternativa para além da vontade de lutar pela liberdade e pela justiça. Tendo em conta o passado dos tunisianos bem conscientes da censura, da manipulação mediática e das jogadas internacionais, podemos sonhar ver aparecer um governo progressista que poderá ter uma influência considerável no mundo árabe.

Apoiar o povo tunisiano

Em muitas grandes cidades da Europa e noutros locais organizaram-se manifestações para apoiar a Tunísia e o seu povo. Na quarta-feira passada, Marselha reuniu perto de mil manifestantes. Bruxelas manifestou-se sábado, 15 de Janeiro, às 14 horas, na Bolsa de Bruxelas para fazer o mesmo e impor aos nossos governos que reconheçam o regime despótico de Ben Ali como um regime criminoso. Para impor que deixem de ser cúmplices desse tirano e da sua desonesta família.

Com estas palavras de ordem: Solidariedade com o movimento social na Tunísia e na Argélia! Fim à repressão! Pelo direito ao Trabalho, à Dignidade, à Liberdade e à Democracia! Viva a Solidariedade Internacional! Viva a Solidariedade Magrebina!