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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sultões da Arábia intrometem-se em conflito doméstico no Iêmen

Uma aliança reacionária e senil, contra o povo do Iêmen


1/4/2015, [*] Vijay Prashadal-Araby, Reino Unido
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


ComentárioCom o Iêmen sob risco de assumir nova ordem, fora do controle de Riad, a Arábia Saudita teve de agir. Qualquer conversa sobre interesses do Irã ou divisões entre xiitas e sunitas só serve para obscurecer o real conflito no Iêmen.



A Primavera Árabe começou na Tunísia
Ameaçado pela promessa da Primavera Árabe, o regime saudita reagiu em sua península, no Norte da África e na Ásia Ocidental, para sufocar quaisquer tendências republicanas. O levante no Bahrain foi esmagado sem muitos comentários adversos, nem no mundo árabe, nem no “ocidente”. Na Síria, a Frente Islâmica apoiada pelos sauditas fez de tudo para sufocar qualquer sensibilidade democrática de independência que florescesse na rebelião.

No Egito e na Líbia foi mais difícil dar jeito na situação, porque aí o problema era a Fraternidade Muçulmana. O general Sisi do Egito recebeu com alegria o dinheiro saudita, como pagamento por matar qualquer desafio ideológico substancial contra a autocracia naquela região. A Líbia ainda é campo de batalha dessas sensibilidades, com o general Khalifa Haftar levando adiante a bandeira da ordem saudita.

A intervenção saudita em curso no Iêmen deve ser vista à luz desse impulso geopolítico regional. Dia 25/3/2015, a Arábia Saudita lançou a operação “Tempestade Decisiva”. Despachou seus jatos bombardeiros contra alvos no Iêmen. O ataque foi imediatamente saudado e apoiado pelos EUA e por vários estados árabes (inclusive todos os países do Golfo Árabe, exceto Omã). Não surpreenderam ninguém. Havia tropas sauditas acantonadas na fronteira, e os aviões sauditas já haviam ameaçado o espaço aéreo do Iêmen. Essas aventuras não são novidade para o reino. Em 2009, a Arábia Saudita invadiu o Iêmen – e já foi ataque contra as mesmas forças sociais que estão sendo novamente atacadas agora.

Proteger a ordem do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG)

Qual o alvo, no Iêmen? Poderia ser a al-Qaeda na Península Árabe [orig. al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP)], cujos suicidas-bombas já haviam tentado assassinar membros da família real (o atual ministro do Interior príncipe Mohammed Bin Nayef quase foi morto em 2009 pelo bombardeador anal Abdullah al- Asiri)? Mas, não. Nenhum dos bombardeios atingiu qualquer alvo associado à AQAP – concentrados nas fronteiras ocidentais do Iêmen e distribuídos pelas cidades do deserto oriental.

 Abdullah al- Asiri, o bombardeador anal 
Em vez disso, os bombardeios sauditas e de outros árabes do Golfo atingiram alvos associados aos rebeldes houthis e a forças leais a Ali Abdullah Saleh, ex-presidente do país. E por que os sauditas estariam atacando os houthis e Saleh? Os sauditas dizem que intervieram para proteger a legitimidade do presidente do Iêmen, Mansour Hadi. Hadi foi eleito em 2012, em eleições nas quais não teve concorrente. Sua eleição foi parte de um negócio arranjado pelos sauditas e os estados do Golfo Árabe. Nesse negócio não se cuidou de nenhum dos problemas trazidos à tona pela rebelião popular de 2011 no Iêmen. Dois anos mais tarde, os mesmos problemas voltariam a aparecer.

Que problemas subjacentes eram esses? Como em outras rebeliões populares, o levante de 2011 no Iêmen concentrara as atenções na remoção de Saleh – mas havia demandas poderosas, a favor de uma divisão social menos injusta e do fim da corrupção na burocracia governante.

Acampadas por todo o Iêmen falavam nesse registro – algumas queixas identificáveis, mas quantidades enormes de frustração difusa, contra as manipulações, por Saleh, da “Guerra ao Terror” para seus próprios objetivos grupais, incluindo a transferência de recursos do governo para gerar lucros privados. As várias forças políticas que apareceram nas manifestações de rua indicavam que o regime de Saleh não tivera resposta para nenhum dos antigos problemas do Iêmen. O arranjo comandado pelo CCG que conduziu à troca de Salah por Hadi nada fez além de encobrir os mesmos persistentes problemas estruturais. Os sultões da Arábia montaram um arranjo sobre areias movediças.

As agendas de 2011, mal encobertas pelo governo de Hadi, reapareceriam necessariamente. A questão era só quem seria o agente do reaparecimento, e de natureza teria o reaparecimento. Dado o ambiente altamente militarizado no Iêmen, era pouco provável que os partidos políticos, muito fortemente controlados, conseguiriam levar adiante a bandeira do combate à corrupção e da justiça social. Os socialistas, os nasseristas e os liberais não tinham os meios mínimos necessários para atacar Hadi. O descontentamento reinava supremo.

Houthis do grupo Ansarallah chega em Sanaa
Em 2014, o grupo Ansarallah (organização guarda-chuva dos houthis), chegou à capital do Iêmen, Sanaa, trazendo suas reivindicações específicas, além das muitas demandas difusas de grandes porções da população do Iêmen (incluindo al-Hirak, o Movimento Pacífico Sulista, e o movimento da juventude). A ONU – pelo enviado Jamal Benomar – conseguiu negociar um importante acordo, chamado “Acordo da Parceria da Paz Nacional”, de setembro de 2014.

Um pacto progressista

Embora a maior parte da discussão do acordo concentre-se nos compromissos políticos, os dois artigos mais longos tratam de temas sociais e políticos. O Artigo 3 tratava do próprio sustento da população. Uma comissão econômica seria criada para definir preços de produtos de primeira necessidade, sistema racional de coleta de impostos, eliminação dos trabalhadores fantasmas, reforma dos subsídios aos combustíveis, investimentos em infraestrutura e aumento nos programas de assistência social aos mais pobres. O Artigo 4 tratava em profundidade da necessidade de aumentar-se em 50% o Fundo Social de Bem-Estar, aumentar o salário dos funcionários públicos, e aumentar, no orçamento para 2015, os investimentos previstos para educação e saúde públicas. Esses investimentos, o acordo previa explicitamente, devem “visar prioritariamente os mais pobres e moradores de áreas marginalizadas”.

O surgimento dos houthis em Sanaa, a elaboração desse acordo progressista, o fracasso do mesmo acordo, e o movimento dos houthis para a marcha sobre Aden são eventos que têm de ser vistos à luz dessas queixas e reivindicações explicitadas e nunca atendidas. É a política do Iêmen, baseada nas queixas e reivindicações dos iemenitas, praticamente sem quaisquer vias institucionais para encaminharem suas demandas, numa estrutura engessada de estado.

Nada mais conveniente que encobrir e ocultar todos esses debates sociais, com “ideias” e “análises” segundo as quais os houthis não passariam de “agentes” a favor do Irã. Convém, isso sim, à Arábia Saudita apresentar qualquer reivindicação de bolsões de xiitas oprimidos na porção leste do território saudita e no Leste da Ásia como infiltrações dos iranianos – o mesmo esquema que é conhecido no Movimento Futuro no Líbano, como “O Esquema Persa”. Se operários da indústria do petróleo fazem greve nas províncias do leste da Arábia Saudita, são logo acusados de trabalhar a favor de Teerã; tudo muito parecido com o que se viu no levante no Bahrain.

Talibã no Af-Pak (Afeganistão e Paquistão)
Não há dúvidas de que as ambições do Irã cresceram imensamente desde que os EUA, para grande alegria em Teerã, removeram em duas pinceladas os maiores inimigos que o Irã enfrentava – o regime dos Talibã no Afeganistão e o regime do partido Baath no Iraque. A confiança no Irã em terras árabes e na Ásia Central cresceu muito, mais isso não implica que qualquer ação de qualquer grupo xiita ortodoxo na região seja de algum modo subordinada ao governo do Irã. A política local tem peso enorme, como também as políticas tentaculares da infinita ambição dos sauditas – que são tão intervencionistas, se não ainda mais, que as de Teerã.

Os sauditas não poderiam permitir aquelas mudanças no status quo. O Iêmen estava sob o risco de se encaminhar na direção de uma nova ordem, que poria fim ao controle saudita. Os sauditas acumularam tropas na fronteira, ameaçando uma invasão. Os EUA apoiavam o movimento saudita, que então já voava pelos céus do Iêmen. Qualquer conversa sobre “agentes” do Irã e divisões xiitas-sunitas deixam de fora a essência do que se passa hoje no Iêmen – a luta real, envolta em agendas políticas pouco claras, trava-se entre as forças do levante popular de 2011 e a velha guarda. Ao lado, está a al-Qaeda, à espreita. Pronta para se aproveitar do caos.

A Arábia Saudita reuniu em volta dela toda a mais velha confederação internacional. Nos céus voam seus amigos do Golfo Árabe. Os dois principais aliados – por questões de relacionamento histórico – são o Marrocos e o Paquistão. Em 1962, Arábia Saudita, Marrocos e Paquistão criaram a Liga Mundial Muçulmana (Rabita al-Alam al-Islami) e depois, em 1969, os mesmos patrocinaram a criação da Organização de Cooperação Islâmica. O objetivo da LMM e da OCI era minar o nacionalismo secular no Terceiro Mundo, promovendo um islamismo orientado pelos sauditas; e sobrepujar a agenda de desenvolvimento socialista do Movimento dos Não Alinhados (MNA). Essas plataformas tiveram forte impacto em todo o mundo, inclusive em bolsões que mais tarde se manifestariam como centros da al-Qaeda – como o Afeganistão, o Paquistão, a Chechênia e o Sudão. Essa aliança reacionária e senil está agora agressivamente em ação contra o povo do Iêmen.

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[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity CollegeDentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter
Publica artigos regularmente em Asia Times OnlineFrontline Magazine e Counterpunch. É usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network sobre Geopolítica e Política internacional;  é também Editor-Chefe do LeftWord Books, Nova Delhi. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House. 

terça-feira, 18 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O jihadismo takfiri ameaça Oriente e Ocidente (vídeo)

Hassan Nasrallah- Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Vídeo do Discurso (18’44”) totalmente legendado em português por Salah
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

A transcrição, em português, deste vídeo pode ser lida em: Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente



Observação: Na postagem original a redecastorphoto substituiu o vídeo com legendas em francês pelo vídeo acima (em português)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tunísia: “Terapia de choque e estratégia do caos”


(Primeiros elementos para compreender o assassinato de Chokri Belaïd, na Tunísia)

Multidão acompanha o enterro de  Chokri Belaïd
9/2/2013, Collectif Les déconstructeurs du virtuel, Túnis
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Tunísia e Egito passam por involução paralela e similar. Aqui, alguns traços que se observam nos dois países:

1 – Uma “revolução” virtual

Chokri Belaïd
Nos dois países, tudo mudou, para que nada mudasse: os ditadores – que jamais passaram de “ditados”, mais que “ditantes” – foram derrubados; houve eleições democráticas ; “islamistas moderados” viram-se no “poder”. Mas é bem claro que o poder real não está nas cadeiras que ocupam. No Egito, o poder real continua nas mãos do Conselho Supremo das Forças Armadas, que puxa todos os fios, sempre em contato direto com padrinhos e protetores em Washington. Na Tunísia, a situação é bem menos transparente, e a resposta à pergunta sobre quem “detém o poder real” é muito mais difícil. Digamos, para começar, que o poder continua com o cartel mafioso (negocistas, burocratas, policiais)  do antigo regime, alguns pilares do qual deixaram crescer uma barbicha.

2 – Terapia de choque

Os “poderes democráticos” brotados dessas “revoluções” têm em comum que são docilmente submissos às ordens dos que “dão as ordens”: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a União Europeia, os EUA e as petromonarquias do Golfo. O conglomerado desses dadores de ordens só tem uma preocupação: impedir que os povos árabes (e os demais, claro) façam verdadeiras revoluções, que ponham nos eixos as respectivas sociedades, promovendo a justiça social e abrindo o caminho para que se exerçam os direitos fundamentais dos cidadãos em Estado de Direito. Para começar, que garantam aos próprios povos o usufruto soberano dos recursos energéticos que transbordam do subsolo dos respectivos países, e de outros bens comuns (água, terra, patrimônio [cultural] etc.).

A terapia aplicada tem várias faces:

a. Os governos lá instalados devem pagar totalmente e nos prazos marcados o serviço da dívida odiosa que herdaram dos ditadores/ditados derrubados, única condição absoluta, imposta para que lhes cheguem “liberados” outros créditos que só servem para endividá-los cada vez mais;

b. Os governos lá postos devem prosseguir no trabalho de “limpeza” no qual já trabalhavam os predecessores: liquidar os serviços públicos e os que os defendam; mais privatizações, mais riquezas do país entregues às multinacionais, mais implantação de estruturas de controle da população rebelde, a começar pelos assalariados sindicalizados e pela juventude precarizada (os “diplomados sem emprego”). Para mascarar o dejeto dessa “limpeza”, a solução encontrada é a “caridade islâmica” em substituição aos legítimos direitos sociais;

c. A sociedade tem de ser pacificada: algumas centenas de milhões de euros jorram, enviados pela União Europeia e por fundações USAmericanas, alemãs e outras, sobre a sociedade civil organizada, com um único objetivo: dirigir a sociedade no rumo de um processo de “justiça transicional” [1] que não questione o sistema que há.

Principal objetivo: impedir que a juventude diplomada ativa chegue algum dia ao nível da política real, vale dizer, da organização do povo para satisfazer as demandas por acesso à cidadania e ao usufruto dos bens comuns.

3 – Estratégia do caos

A estratégia hoje em marcha nos dois países é fundamentalmente a mesma posta em marcha na Grécia de 1967, na América Latina e na Turquia, na Itália (a “estratégia da tensão”) e no Líbano dos anos 1970 e 1980, na Argélia nos anos 1990, com ajustes táticos para adaptá-la a cada situação particular.

As principais armas dessa estratégia são:

a. A violência armada grupuscular manipulada – o que se chama de “terrorismo” – para semear o medo, desestabilizar as pessoas e fazê-las renunciar à luta pacífica, de massas, democrática e transparente. O objetivo é quebrar todas as estruturas (partidos, sindicatos, movimentos) capazes de frear a “liberalização” da economia.

b. Polarizar as correntes “ideológicas” nas quais se força o conjunto da sociedade a dividir-se, o que leva a uma lógica “de campos” entrincheirados que se excluem mutuamente e combatem-se violentamente.

Uma variante nova do “dividir para reinar”: por cima, uma burguesia “modernizante, laica, democrática” que se opõe a outra burguesia “conservadora, islamista, democrática”; por baixo, um povo “progressista, libertino, revolucionário” , que se opõe a um povo “tradicionalista,  intolerante, que se vai fascistizando”.

Em resumo: o único meio encontrado pelos aparelhos do poder real para perdurarem é a guerra civil, guerra de irmão contra irmão, de irmã contra irmã, de pais contra filhos, de “liberados” contra “os de turbante”,  mediante alianças entre exploradores e explorados, em nome de clivagens que nada têm a ver com as carências e necessidades reais ou com os interesses de classe do povo.

c. Manipular, manipulação diabólica, a dupla infernal complô-motim. No Egito, como na Tunísia, como na Argélia de 1988, a legítima revolta dos jovens precarizados é canalizada por redes mafiosas-policiais na direção de violências niilistas encapuzadas que se manifestam quando das aglomerações populares de massa. Objetivo: suscitar a demanda por um poder forte que garanta segurança. Mais recente exemplo: o surgimento de um “Bloco Negro” no Cairo, no 25/1/2013. Um “Bloco Negro” no qual a Polícia já se infiltrou, como também se infiltrou nos blocos negros de Gênova em 2011, de Montréal, de Toronto, de Londres, de Strasbourg ou de Heiligendamm.

d. Assassinatos predefinidos de personagens-chave, decididos e planejados pelas redes ocultas do poder real. Sempre simultaneamente atribuídos por uns aos outros, esses assassinatos visam a provocar clivagem irreversível na sociedade (vide “a”, acima).

O assassinato de Chokri Belaïd, como os assassinatos de Tahar Djaout, Abdelkader Hachani, Mohamed Boudiaf e tantos outros (Liabes, Boucebsi, Flici, Mahiou, Merbah, Belkaid, Alloula, Bouslimani e Cheikh Sahraoui) na Argélia, inscreve-se nessa estratégia.

Os movimentos sociais, progressistas ou revolucionários têm de estar conscientes e ter plena clareza sobre essa estratégia já posta em operação. Ou cairão, presas dessa armadilha mortal, e terão o destino do touro, que baixa a cabeça na luta contra a capa vermelha e não vê a mão do toureiro que lhe cravará a espada na nuca.
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Massacre da estação de trens de Bolonha (Itália), com 85 mortos e 200 feridos em 20/8/1980. 
Tela do pintor Carlo Carosso

Dos autores:

Parafraseando o bom velho Marx, poderíamos dizer que “Os filósofos até aqui só desconstruíram textos. Trata-se agora de desconstruir o virtual, para alcançar o real”. Esse virtual no qual estamos quase todos já imersos e no qual as jovens gerações mergulham com risco de afogar-se nele, tomando o virtual pelo real, construindo mundos imaginários nos quais são incapazes para agir. Nos propomos pois a repor no lugar o senso de realidade, reconstruindo o real ocultado por trás dos espelhos da propaganda multimídia onipresente; intervindo nos eventos que nos atingem, que nos interpelam, que nos concernem – distribuindo nossas análises e reflexões e ajudando todos a compreender o que os atinge. Nosso coletivo é aberto a todos os tipos de cooperação.

Collectif Les déconstructeurs du virtuel / Coletivo Os desconstrutores do virtual
E-mails para deconstruire@gmail.com

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Notas de rodapé
[1] Justiça transicional: processo que visa a pacificar a sociedade mediante a implantação de mecanismo que substitui a Justiça que haja, para “virar a página” do passado sombrio da ditadura ou da guerra civil e pôr “um ponto final” à demanda das vítimas que exijam justiça.

O mais afamado exemplo dessa justiça transicional é a Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul. No mundo árabe, o Marrocos foi o único país, até hoje, onde se instituiu comissão desse tipo (Instance équité et réconciliation).

Na Tunísia, o Ministério de Direitos Humanos acaba de assinar acordo de parceria com o Centro Internacional para a Justiça Transicional (CIJT, com sede em New York). “Por esse acordo, o Centro se compromete a fornecer assessoria técnica ao Ministério em matéria de justiça transicional, sobretudo para investigação dos fatos e da verdade, sobre indenizações, reparações, Justiça Penal e reforma das instituições, da Constituição e do Judiciário. O CIJT deve também prover ajuda técnica para a criação de uma Comissão da Verdade e para pôr em operação um programa de reparação dos prejuízos.”

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Manifesto da Revolução Europeia-Tunísia


1 – Ao assinar com o regime de Ben Ali o acordo de associação da Tunísia, a União Europeia fez desse país uma de suas províncias [orig. wilayas] e, do povo da Tunísia, uma massa de consumidores e de trabalhadores baratos, para aumentar o lucro das empresas europeias – as multinacionais à frente. 

Mas a liberdade de circulação dos produtos e mercadorias não foi acompanhada de qualquer liberdade para a circulação de pessoas. A vantagem concedida às empresas europeias não teve, por corolário, a extensão dos direitos civis aos cidadãos e cidadãs tunisianos. 

Os cidadãos e cidadãs da União Europeia são bem-vindos à Tunísia, onde podem entrar e permanecer quando e como desejem. Mas os cidadãos e cidadãos tunisianos são, na prática, considerados indesejáveis no território da União Europeia. De fato, o acordo de associação é, isso sim, um acordo de submissão que instaurou um novo « protetorado ».

2 – A Tunísia, neoprovíncia, tornou-se assim devedora dos bancos e dos governos da União Europeia. Os juros dessa dívida odiosa, embora não passem de uma gota no oceano da crise financeira que abala hoje a União Europeia, são valores importantes para a Tunísia, que os vê arrancados do orçamento da educação, da saúde, do desenvolvimento local em geral.

3 – A Revolução Tunisiana está longe de ter alcançado seus objetivos. O ditador – aqui conhecido como « o servil » – partiu, mas o aparelho de poder e de corrupção implantado durante o reinado de Ben Ali continua ativo.

O povo da Tunísia ainda tem à mão a faca e o queijo, para, afinal, instaurar uma democracia real. 

O povo da Tunísia deve encontrar seu próprio caminho para fazê-lo, longe de « conselhos » mal-intencionados oferecidos a mancheias por todos que, repentinamente, dia 14 de janeiro de 2011, apresentaram-se como amigos da Tunísia. Cada um desses novos « amigos », de Madrid a Varsóvia, passando por Berlim, Munique e Bucareste, apressa-se a oferecer seu « modelo de transição democrática », acompanhado de promessas de sacos e sacos transbordantes de belos e sonantes euros. 

Ora, a crise que atinge hoje a maior parte dos países europeus, a começar por Grécia e Espanha, mostra o impasse em que se encontram aqueles países, depois da transição da ditadura à « democracia » do mercado e de seus senhores – os banqueiros.

4 – Estimulados pelas revoluções na Tunísia e no Egito, os povos da Europa, a começar pelos jovens « sem futuro », precarizados e descartados, lançaram movimentos massivos de revolta e de questionamento radical do sistema democrático por delegação, dito « representativo » – que, do justo ponto de vista dos jovens, já não os representa verdadeiramente. 

Milhões de cidadãos europeus ocuparam as praças de Atenas, Madrid, Barcelona, Lisboa, Berlim, Frankfurt, Paris, Londres e de dezenas de outras cidades continentais. Esses movimentos entraram para a história sob o nome de « Os Indignados ».

5 – À parte a grande diversidade, os movimentos sociais que agitam a União Europeia têm um denominador comum: todos recusam os planos de « austeridade » ditados por Bruxelas, Frankfurt e Berlim, cujo objetivo é conseguir que os mais pobres paguem pela crise DELES, enquanto de derrubam todas as conquistas sociais dos últimos 67 anos, em todos os setores públicos vitais: educação, saúde, previdência social, aposentadorias, transporte, energia. 

Trata-se portanto de lutar para salvaguardar as próprias possibilidades de sobrevivência digna para  a maioria da população e os direitos dos cidadãos e cidadãs, ameaçados de desaparecer. Nesse plano, os povos da União Europeia veem a própria situação ir-se assemelhando cada vez mais à da Tunísia e outros povos do sul do Mediterrâneo. 

6 – Nós, cidadãos e cidadãs do mundo que vivemos na Tunísia, nos vemos como parte integrante daqueles movimentos. 

Nossa assembleia tem o objetivo de criar uma ponte entre todos os povos da Europa, da Tunísia e de todo o mundo mediterrâneo. 

Queremos ser algum tipo de embaixada nômade da União Europeia do Povos que está nascendo, contra a União Europeia dos banqueiros e dos políticos corruptos, a serviço dos banqueiros. 

Para isso, temos de informar, reunir e agir.

7INFORMAR

Informaremos, por todos os meios acessíveis, os cidadãos e cidadãs da Tunísia sobre a situação na Europa ; e os cidadãos e cidadãs europeus, sobre a situação na Tunísia. 

8 REUNIR

Estabeleceremos parcerias horizontais entre grupos de cidadãos europeus e tunisianos, para construir projetos alternativos comuns, de criação autônoma.

9 AGIR

Participaremos localmente das iniciativas lançadas pelos movimentos de mobilização social na Europa, associando todos os cidadãos e cidadãos tunisianos motivados. 

10 – Todos os cidadãos e cidadãos europeus e tunisianos interessados podem fazer contato conosco e participar de nossas atividades.

Tunísia, abril 2012
European Revolution-Tunis 
Documento traduzido e enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Contatos:
http://thouroubtou.blogspot.com (em várias líguas, inclusive em português)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sayyed Nasrallah aos egípcios: a vitória de vocês mudará a face da Região

Sayyed Hasan Nasrallah

7/2/2011, Al-Manar TV
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
O secretário-geral do Hezbollah Sayyed Hasan Nasrallah anunciou agora, há alguns minutos, seu apoio ao povo egípcio e tunisiano, que se rebelam contra os respectivos governos ditatoriais. Sua Eminência destacou que se assiste hoje a uma revolução verdadeira e patriótica no Egito.

Sayyed Nasrallah disse que crê que a vitória do povo egípcio mudará a face da Região. “Em nome do Hezbollah e de todos os partidos de resistência, aqui estamos para nos por a serviço do povo egípcio” – disse Sua Eminência, pela televisão.

Sayyed Nasrallah falou por televisão, ao final de uma manifestação em solidariedade ao povo egípcio, organizada por partidos políticos e figuras de destaque no Líbano, reunidos na praça Ghobeiry, em Beirute. A manifestação foi convocada sob as bandeiras de “Apoio à revolução popular egípcia, contra o regime de Camp David” e “Em apoio à identidade árabe do Egito”.

A demora para falar não implica nem hesitação nem confusão
Sua Eminência iniciou sua fala pedindo desculpas a egípcios e tunisianos por ter demorado a manifestar seu apoio, demora que não implica nem hesitação nem confusão. “Depois de toda a experiência que acumulamos, resistindo aos esquemas norte-americanos-sionistas no Líbano e na Região, não deixaríamos de nos manifestar quando a disputa acontece entre opressor e oprimido, entre o certo e o errado” – disse Sayyed Nasrallah.

Sayyed Nasrallah enfatizou que seu partido e outros partidos nacionais libaneses decidiram esperar até ter certeza de que o apoio que oferecessem aos patriotas egípcios não seria usado contra eles, sob forma de acusação de que estariam sendo influenciados ‘de fora’. “Entendemos que, se manifestássemos nossa solidariedade no primeiro momento, os sionistas diriam que a revolução egípcia teria sido motivada por ‘células’ do Hezbollah ou do Hamás ou, mesmo, pelos Guardas Revolucionários do Irã. E o movimento real, original e patriótico dos egípcios seria acusado de obedecer a alguma ‘agenda’ estrangeira.”

Já tivemos dolorosas experiências na resistência contra a ditadura egípcia
O secretário-geral do Hezbollah lembrou que o Partido da Resistência passou por dolorosa experiência na resistência contra a ditadura egípcia, quando um membro do Hezbollah foi preso, acusado de cooperar com alguns jovens egípcios e palestinos, no esforço para ajudar os palestinos de Gaza. “Um de nossos irmãos foi preso numa operação logística, de apoio à Resistência em Gaza. Foi o que bastou para que fôssemos acusados de manter uma célula que operaria para derrubar o regime de Mubarak, como se nos interessasse converter todos os egípcios em xiitas”, disse Sua Eminência. “Por tudo isso, decidimos adiar por alguns dias nossa manifestação de apoio, por respeito aos egípcios, acolhendo conselho que recebemos de amigos egípcios.”

Assistimos hoje a uma revolução verdadeira e patriótica
O secretário-geral do Hezbollah declarou-se solidário à nação egípcia em sua revolução patriótica contra o regime atual. “Umas das faces de nosso apoio a essa grande revolução, revolução histórica, é defendê-la; e defender implica respeitar sempre a verdadeira imagem do que se defende” – disse Sua Eminência.

Para Sayyed Nasrallah, assistimos hoje a uma revolução popular real, verdadeira e patriótica, da qual participam muçulmanos e cristãos, além de vários movimentos de intelectuais e de nacionalistas islâmicos. “Nessa revolução, todos os egípcios estão ativos, crianças, mulheres, homens, intelectuais, professores, trabalhadores. Mas a maior força, o elemento mais potente nessa revolução ainda é a nova geração, os jovens. Por isso se vê que estamos diante de uma revolução completa.”

As acusações de que a revolução segue alguma ‘agenda externa’ cairão
“O próprio povo está na rua, protestando, oferecendo seus mártires à revolução. O povo decidirá o que quer, que sistema haverá no Egito, que soluções se adotarão. Todas as acusações de que a revolução seguiria alguma ‘agenda externa’ cairão, desmascaradas, ante o desejo potente do valente povo egípcio” – disse Nasrallah.

O Egito vive completa intifada humanitária e política
O secretário-geral do Hezbollah comparou o conteúdo da revolução egípcia e a Intifada. “É revolução dos pobres, revolução por liberdade e democracia, uma Intifada política, relacionada às políticas exteriores do atual regime, tanto quanto à posição do Egito na Região?” – perguntou Sua Eminência.

Sayyed Nasrallah chamou a atenção para diferentes interpretações da Revolução, quando cada lado quer tomar os fatos numa determinada linha de interpretação. “Por exemplo, Israel e os aliados dos EUA querem convencer o mundo de que o que se passa no Egito nada é além de revolução humanitária”.

“Mas a verdade já está claramente declarada pelos próprios manifestantes, com seus cartazes, seus slogans, seu sangue, sorrisos, posições, coragem, sua loucura. Claro que dizem que sua revolução é tudo isso. Estamos, isso sim, ante uma completa revolução feita pelos pobres, pelos livres, pelos estudantes, pelos que buscam a liberdade, as pessoas que rejeitaram o servilismo aos planos de norte-americanos e israelenses. Estamos ante uma revolução humanitária, social e política contra tudo, contra a opressão e a corrupção, mas também contra as políticas que cercam o conflito entre Israel e os árabes.”

É insulto pretender que a revolução egípcia seria controlada ‘de fora’
Sayyed Nasrallah disse que a acusação mais grave que se fez contra a revolução no Egito, e que se fez também contra a revolução na Tunísia, é a de que seria produto norte-americano, que o aparelho de inteligência dos EUA teria induzido os jovens e os teria incitado à revolta contra a atual ditadura.

“É insulto, e insulto grave, aos jovens da Tunísia e do Egito, pretender que sua revolução seria dirigida pelos EUA” – disse Sua Eminência. “Difícil acreditar que os EUA encontrariam tal aliado, disposto a lutar dia e noite para proteger interesses de Washington na Região. Isso não acontece, nunca aconteceu, não acontecerá.”

Sayyed Nasrallah lembrou que a mesma retórica já foi ouvida em 1979 durante a grande revolução islâmica no Irã, quando o Imã Khomeini foi acusado de ser agente da CIA. “A verdade, que a vitória revelou ao mundo, com os dias, as décadas, é que o Imã Khomeini sempre foi leal às aspirações de seu povo, e jamais foi aliado dos EUA”.

“O mesmo acontece hoje, na Tunísia e no Egito”.

Os EUA tentam conter a revolução
“Os EUA procuram apresentar-se como defensores das nações e de seus direitos, seus desejos, sua liberdade. Aí está a maior ameaça que pesa sobre os povos. Todos os povos e nações revolucionárias e todos os movimentos de resistência na Região devem manter-se alerta contra essa ameaça.”

Sua Eminência destacou que há estudos norte-americanos que mostram que a vasta maioria dos povos no mundo árabe rejeita as políticas dos EUA por motivos óbvios e bem conhecidos, como a adesão cega dos EUA ao projeto israelense e suas guerras, desde o estabelecimento da entidade sionista, além de os EUA sempre terem apoiado as ditaduras na Região, de fazerem guerras criminosas no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. “Estudos norte-americanos mostram também que estão acontecendo  mudanças importantes na Região. Os EUA já sabem que os regimes seus aliados não conseguirão resistir à pressão popular, das massas já cansadas das políticas norte-americanas.”

Para os EUA, não faz diferença que o poder passe para mãos de governos islâmicos ou seculares
Sayyed Nasrallah disse que o governo dos EUA está obrigado a manter posição indefinida na disputa sangrenta que se trava na Região, porque sabe que o resultado da disputa afetará os próprios EUA e seus aliados. “Para os EUA, não faz diferença que o poder passe para mãos de governos islâmicos ou seculares. Eles não têm poder de veto e só se preocupam com seus interesses e com os interesses de Israel. Sejam quais forem as novas forças que se configurarem na Região, aos EUA só interessa que se preservem os interesses dos EUA e de Israel.”

Sua Eminência destacou que o povo egípcio deve manter clara consciência sobre os efeitos que sua revolução terão no mundo e na Região, e tratar de entender com clareza a confusão que reina hoje nos EUA e entre seus aliados.

Israel trabalha dia e noite para evitar a queda do regime
O secretário-geral do Hezbollah falou então da grande preocupação e do medo que reinam em Israel, depois de 14 dias de levante popular no Egito, e conclamou todos a que prestem atenção a mudanças nas estratégias nacionais de segurança.

“Israel trabalha dia e noite para impedir a queda do governo Mubarak no Egito” – disse Sua Eminência. “Israel está assistindo à queda de seu último aliado no Oriente Médio. Ainda não estamos julgando o governo egípcio e os serviços estratégicos que prestaram a Israel, desde os acordos de Camp David” – disse o secretário-geral do Hezbollah. “Por hora, apenas chamamos atenção para o pânico que reina em Israel.”

“Estamos diante de uma cena bem clara: há em Israel um governo que trabalha dia e noite para manter no poder o governo que o povo egípcio quer derrubar. De que lado estamos e sempre estaremos: do lado de Israel, defendendo o governo Mubarak, ou do lado do povo egípcio que quer derrubar o governo Mubarak?”

A juventude egípcia combate para defender a dignidade dos árabes
“Não interferiremos em assuntos internos do Egito. Os egípcios e só eles decidirão o que fazer. Mas como amigos e irmãos, aqui estamos para manifestar nossa certeza de que o movimento dos egípcios é enorme. Cremos no sucesso dos egípcios e cremos que esse sucesso mudará a face de nossa Região, com vantagem para os povos que aqui vivem” – disse Sayyed Nasrallah, falando aos egípcios e seus jovens.

“Hoje, a juventude do Egito combate para defender a dignidade dos árabes, depois de anos de humilhação por governos submissos aos EUA. A ação dos jovens egípcios é tão importante quanto a vitória da Resistência na guerra de julho de 2006”.

Queríamos poder estar com vocês na Praça Tahrir
“Queríamos poder estar com vocês e com o Egito na Praça Tahrir” – disse Sayyed Nasrallah na conclusão de sua fala, manifestando a certeza de que os egípcios alcançarão a mudança a que aspiram e devolverão o Egito à posição histórica avançada que sempre ocupou.

Em nome do Partido da Resistência e de outras forças da resistência, Sua Eminência pôs todas as suas capacidades e competências a serviço dos jovens egípcios.
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Comentário:

Nasrallah na Al-Arabiyyah TV

7/2/2011, The Angry Arab - Posted by As'ad
Hasan Nasrallah acaba de falar em apoio aos manifestantes egípcios. Nada de muito novo, no discurso: por um lado, quis manifestar apoio aos manifestantes, mas, por outro, não quis dar munição à propaganda de Mubarak sobre “influências externas” (o regime tem atribuído as manifestações a uma conspiração de EUA, Mossad, Hamás, Irã e Hezbollah).

O que mais me surpreendeu, de fato, foi a fala ter sido transmitida pela rede Al-Arabiyyah TV (a nova estação de televisão do cunhado do rei Fahd, que cumpre seu destino e transmite, 24 horas por dia, exclusivamente, propaganda pró-Mubarak) e, além do mais, ao vivo: não há dúvida que tentavam oferecer munição à propaganda pró-Mubarak.