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terça-feira, 25 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O Ocidente e o Mundo árabe querem extinguir a causa palestina

16/2/2014, Discurso na comemoração anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah [excerto (2)]
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu
Enviado por Sayed Hasan

Leia também o excerto(1): 9/3/2014: redecastorphoto em: Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente

Sayed Hasan Nasrallah analisa o perigo que representam as negociações de paz conduzidas atualmente por John Kerry, que visam a resolver definitivamente o conflito israelense-palestino, sob condições mais uma vez editadas por Israel, cujas exigências extrapolam em muito tudo que foi antes discutido.
Aproveitando-se do estado deplorável em que está o mundo árabe-muçulmano depois da dita “primavera árabe”, do caos que reina no Egito e sobretudo na Síria, o Ocidente, apoiado por países árabes, está resolvido a pôr fim, de uma vez por todas à causa palestina.
Para Sayed Hassan Nasrallah, é imperioso, para derrotar esse projeto, que os países árabes ponham fim à sua guerra contra a Síria e retirem de lá seus mercenários – e nesse caso o Hezbollah também se retirará – e que as diferentes facções palestinas se unam.

Vídeo 7’ 55” do discurso legendado em francês:


É necessário trazer à luz a (grave) ameaça israelense que paira sobre a Palestina: sobre a Palestina como terra, existência, história, entidade, futuro, sobre os lugares sagrados muçulmanos e cristãos, sobre o povo palestino que vive na Palestina e sobre o povo palestino refugiado da diáspora. Esses são os princípios fundamentais que se evocam há décadas, mas que hoje desapareceram.

[Infelizmente], hoje, os povos de cada país árabe preocupam-se (exclusivamente) cada um com seu próprio país. E, ainda mais, alguns desses países são teatro de enfrentamentos sangrentos e de lutas armadas muito violentas. 

Hoje, atingimos um estado crítico deplorável, no qual ninguém quer falar da Palestina. Nem ninguém quer falar do inimigo, a saber, de Israel.

Considero evidentemente o que algumas pessoas me dizem ou dizem de mim: “O Sayed [Nasrallah]! De que você está falando? Não vê o que se passa no mundo?’’ Esses protestos são índices eloquentes do estado ao qual chegamos. E é exatamente o estado ao qual os EUA e Israel queriam reduzir os povos, os governos e os estados da região, depois de todas as vitórias e as realizações alcançadas pelo Eixo da Resistência – a Palestina, o Líbano, a Síria, o Irã.

O que querem é que demos marcha a ré, que esqueçamos. Querem que a Palestina e o combate contra o inimigo sionista sejam retirados, não só da esfera das prioridades; os norte-americanos e os israelenses não querem só que a Palestina e o combate contra o inimigo passem a um lugar secundário em relação a outras prioridades, que deixem de ser prioridade; querem que sejam completamente excluídos do domínio de nossas preocupações – que não nos sintamos mais absolutamente envolvidos.

Querem, isso sim, que essa causa saia de nosso espírito, de nosso coração, de nossos sentimentos. Querem que cheguemos a um ponto no qual, se alguém evoca a Palestina – hoje, essa noite, expresso-me de modo muito explícito – se alguém evoca a Palestina, os outros respondam: “Deixem-nos em paz, você e sua Palestina”. Querem levar os povos árabes e muçulmanos – o Líbano, o Egito, o Iraque, a Jordânia e todos os países – a esse estado.

Querem que cheguemos a um estado no qual, mesmo no plano de nosso coração e de nossas emoções, a coisa esteja acabada, que a Palestina seja para nós como se estivesse noutro planeta, não noutro continente, mas, completamente, verdadeiramente, noutro mundo. E isso no plano das emoções e dos sentimentos.

Bem entendido (digo, entre parênteses), isso põe ainda mais responsabilidades sobres os palestinos. Adiante, ao longo de minha fala, voltarei a falar disso.

Temos de reconhecer que, quanto a esse assunto, eles conseguiram realizar seus objetivos, numa grande medida. Mas ainda é tempo de tomar consciência do perigo. Ainda é tempo de agir, ainda temos oportunidades de ação e de escolhas que nos permitirão tomar consciência da gravidade da situação (e enfrentá-la).

O que, afinal, explicaria claramente esse excepcional engajamento dos norte-americanos e as pressões formidáveis que são aplicadas pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, para obter, de aqui a alguns poucos meses, uma resolução definitiva da questão palestina? Por que agora? É ou não é pergunta pertinente, que merece ser colocada?

Sim, alguns governantes israelenses levantaram-se e atacaram John Kerry, etc., mas são só absurdos, já estamos habituados (é a farsa de sempre), para fazê-lo aparecer como se fosse mediador neutro, atacado por todos os lados. Absolutamente não é verdade.

Hoje, o governo norte-americano, ao lado do governo sionista, envida esforços consideráveis para liquidar definitivamente a causa palestina. Chegou a hora. E por que as atuais circunstâncias são propícias?

Bem simplesmente, porque o mundo árabe desapareceu completamente.

Antes, o mundo árabe tinha, pelo menos, alguma presença, mais ou menos. Alguns se manifestavam e faziam avançar a Iniciativa de paz, a Iniciativa de paz árabe, evocando condições, princípios, limites. Mas hoje já não há mundo árabe. Hoje, já não há mundo muçulmano.

Agora, cada país só se preocupa consigo mesmo.

Ninguém tem tempo a consagrar à Palestina, nem um instante, que fosse. Ninguém tem tempo para pressionar os norte-americanos no interesse dos palestinos, ou de pressionar os israelenses. Ao contrário, a situação atual dos países árabes faz aumentar a pressão sobre os próprios palestinos. Porque cada um quer agora resolver os próprios problemas internos à custa da causa palestina, e todos fazem concessões aos norte-americanos que pesam sobre a causa palestina, para preservarem seu governo onde esteja, para permanecer no poder ou mesmo para chegar ao poder em um ou outro país.

Roubo de território da Palestina por Israel... até 2010. Até hoje roubaram mais...
Infelizmente, até os povos já estão em outro mundo.

Infelizmente, os próprios palestinos estão em situação muito difícil: as divisões internas, o governo de Ramallah, o governo de Gaza... Os palestinos são submetidos a diversos tipos de pressões internacionais e árabes, além das pressões materiais em campo – assassinatos, prisões, estado de sítio... Essa é a situação. Esses são os desafios.

Israel considera essas circunstâncias como uma oportunidade.

Mas hoje não estou fazendo uma oração fúnebre [a chorar o fim da causa palestina]. Digo, isso sim, apenas, que essa é uma verdade inegável.

Israel e os norte-americanos dizem-se uns aos outros: chegou o momento sonhado de liquidar a causa palestina. Querem aproveitar-se dessa oportunidade e impor suas condições aos palestinos, para alcançarem um resolução do conflito que satisfaça plenamente os interesses norte-americanos e israelenses.

Mas não estou aqui para chorar o enterro da causa palestina, porque ainda há tempo para fazer fracassar o projeto dos norte-americanos e dos sionistas. Ao final da minha fala, voltarei a esse assunto. […]

O último ponto sobre o qual quero falar, para concluir – eu disse, antes, que voltaria a isso, quando falei da Palestina, de Israel, etc. – é que, embora tenhamos pontos de vista diferentes sobre essa questão, mesmo assim quero dizer aos libaneses, aos palestinos, a nossos irmãos na Palestina sobre os quais recaem hoje responsabilidades muito pesadas, nos campos de refugiados...

Dirijo-me a nossos irmãos no seio das diferentes facções palestinas, aos mais sábios, aos comitês populares, digo-lhes: vocês não se podem dar por satisfeitos com publicar comunicados condenando as conversações dos países atuais. Vocês têm de reunir suas forças: conversar uns com os outros, analisar atentamente a situação, porque há gente que trabalha para explorar os palestinos, para alcançar aquele resultado do qual já falei – e não vou me repetir.

Dirijo-me aos libaneses, aos palestinos, aos sírios, dirijo-me a todos os povos árabes, a todos os partidos e a todas as forças árabes, a todos os homens de honra do mundo e dessa região, a todos que realmente se preocupam com a Palestina, o Líbano e a Síria, e lhes digo: se querem que Israel perca as oportunidades das quais já falei, se querem preservar essa região de um conflito fratricida que durará décadas, então ponham fim à guerra contra a Síria.

Ponham fim à guerra contra a Síria!

Façam sair de lá os jihadistas. Saiam todos da Síria. Permitam que os sírios se reconciliem entre eles, como já se vê fazerem em mais de uma região. Bem entendido: quando isso acontecer, nós também poremos fim à nossa presença na Síria.

Enquanto isso, se queremos fazer frente à situação, como se deve, se queremos conter essas oportunidades que o inimigo está encontrando e as ameaças que pesam sobre nós, nós devemos – todos nós, nós todos – pôr fim à guerra contra a Síria e no interior da Síria, para assim proteger a Palestina, o Líbano, a Síria e a Nação Muçulmana.

Esperemos que o mundo árabe-muçulmano não deixe escapar essa chance.

Hoje, por ocasião da comemoração dos dirigentes mártires do Hezbollah – estendi-me um pouco demais, mas é para compensar minha longa ausência – prometemos todos a esses grandes e nobres mártires que conservaremos o espírito deles, o pensamento deles, a organização deles, sua sinceridade, sua fidelidade, o sangue deles, seus sacrifícios, sua paciência, seus sofrimentos e suas esperanças, como de todos os mártires, que seguiremos as pegadas deles até a vitória, para que esse país, esse povo, essa nação islâmica esteja sempre – se Deus quiser – numa posição forte, digna e capaz.

Que Deus seja misericordioso com nossos mártires e com os mártires de vocês todos, quantos forem.


Que a paz de Deus esteja com vocês, a misericórdia de Deus e a graça de Deus. 

terça-feira, 18 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O jihadismo takfiri ameaça Oriente e Ocidente (vídeo)

Hassan Nasrallah- Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Vídeo do Discurso (18’44”) totalmente legendado em português por Salah
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

A transcrição, em português, deste vídeo pode ser lida em: Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente



Observação: Na postagem original a redecastorphoto substituiu o vídeo com legendas em francês pelo vídeo acima (em português)

domingo, 9 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente

4/3/2014, na [*] Hassan Nasrallah - Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sayed Hassan Nasrallah analisa o perigo que o terrorismo takfiri representa para todas as confissões e países da região e do mundo.

Evocando brevemente o exemplo das experiências soviéticas no Afeganistão ou da guerra civil na Argélia, detém-se sobre a situação dos países ocidentais, como França ou os EUA, ou países árabes, como a Tunísia: de fato, vários deles, num primeiro momento apoiaram declaradamente a insurreição na Síria e manipularam grupos terroristas, mas agora se dão conta do perigo que são todos esses jihadistas para o Oriente Médio e também para seus próprios países, buscando uma porta de saída para essa crise que eles mesmos criaram.

Quanto ao Líbano, o lugar do país no Eixo da Resistência faz dele alvo privilegiado para esses grupos terroristas. E o Hezbollah, ao intervir na Síria, em zonas estratégicas, por meios próprios, o que o Hezbollah faz é tomar a dianteira e bloquear a avançada dos terroristas.

Vídeo (18’ 44”) do discurso legendado em potuguês:

Sayed Hasan Nasrallah:

Tratemos agora do segundo perigo, da segunda ameaça [depois de Israel], da qual seguidamente falamos no passado, e que ameaça todos os países da região, tanto quanto Israel ameaça todos os países, todos os governos e todos os povos da região.

Hoje, esse perigo ameaça todos os países e todos os povos da região: falo do perigo que é o terrorismo takfiri. Na verdade, vejam, a ideologia takfiri, tomada nela mesma e isoladamente, não representa perigo algum. Se alguém fala comigo e me diz “você é infiel”, ora, nada significa, fica por aí.

Nunca pedi a ele que me desse algum atestado de que sou crente ou não crente. Que me acuse de infiel o quanto queira, é problema dele. Se o problema da ideologia takfiri se limitasse à esfera intelectual e legal, seria nada, porque, afinal, nesse mundo, ninguém pede a ninguém qualquer atestado (de que crê ou de que não crê), ninguém pede isso a ninguém, nem entre nós nem entre outros. E no que tenha a ver com o além, as chaves do Paraíso não pertencem aos takfiris, eles não conseguem nem dar entrada nem proibir a entrada a quem bem entendam. Todos sabemos bem quem é o (Único) Senhor das chaves do Paraíso.

O problema não está só na acusação de “não crentes” que fazem os takfiris. O problema é que ao acusarem alguém de não ser crente, eles não aceitam sequer que essa outra pessoa exista, esse outro, diferente deles no plano teológico, intelectual, de escola de pensamento ou, mesmo, apenas político. Ao contrário, atacam diretamente o anátema, o que implica a pena de morte, e assunto encerrado. Assim tratam como se fossem lícitos o assassinato, a desonra, o roubo dos bens de quem eles acusem. Chegam ao ponto de eliminar, suprimir, erradicar, fazer desaparecer quem seja diferente deles. Tudo isso é bem sabido de vocês e não preciso dedicar muito tempo a isso, nem apresentar muitas provas. Hoje, todos sabem, no país e em toda a região, de tudo isso. Quando eu falar mais detalhadamente do contexto geral, apresentarei as provas.

Não há dúvidas de que esse terrorismo takfiri está hoje presente em toda a região. Está composto de grupos armados presentes na maioria dos países da região, e talvez, mesmo, em todos os países da região. Esses grupos ou movimentos têm uma visão takfiri radical e impiedosa, que condena à morte quem se oponha a eles e, mesmo – porque aqui já não se trata apenas da questão de sunitas e não sunitas, ou de muçulmanos e cristãos: os cristãos também são tomados como alvos, sim, mas mesmo na esfera islamista, os xiitas, os alawitas, os ismaelitas, os zaydis, todos que não sejam sunitas estão condenados. E mesmo no que concerne aos sunitas, se se opuser a eles, qualquer sunita que se oponha a eles também pode ser acusado de ser não crente, de ser infiel. Nada mais fácil para eles, no mundo, que declarar, a um sunita ou a quem seja: “Você é infiel, você não crê, você é um apóstata”.

Ora, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), há algumas semanas, não impôs essa sentença contra a Frente Al-Nusra ? E o EIIL partilha com a Frente Al-Nusra uma mesma ideologia, uma mesma abordagem, e, antes, formavam uma só e mesma organização, com um mesmo dirigente, mesmas alianças, respiravam o mesmo ar e viviam sob uma mesma ética – estavam, sim, unidos em tudo: nas maneiras, na aparência, na lógica, na linguagem, nos usos, no espírito e no coração. Mas quando surgiu entre eles uma diferença numa questão política – talvez uma simples disputa por um poço de petróleo sírio, ou na divisão do butim, o EIIL lançou uma sentença de apostasia, de não crença contra a Frente Al-Nusra. Com a maior facilidade. E depois vieram muitos outros veredictos semelhantes.

Hoje, essa realidade é perfeitamente conhecida de todos, na região. Qualquer discordância que surja entre eles e um “outro”, mesmo que esteja com eles, e ainda que seja simples questão de administração, questão política ou mesmo financeira, aqueles takfiris precipitam-se e declaram a apostasia, a falta de fé, e tomam a medida que, para eles, é consequente: pena de morte.

O que está acontecendo há algum tempo na Síria, os combates violentos e brutais entre o EIIL, de um lado, e a Frente Al-Nusra e outras facções, de outro lado, aí está uma realidade que deve nos obrigar a uma reflexão madura, não para ridicularizá-las, se nos opomos àqueles grupos, claro que não.

A verdade é que todo mundo deve considerar de perto essa realidade e extrair lições dela, para poder decifrar a situação atual e prevenir o futuro. Considerem o que está acontecendo, nas últimas semanas. O Observatório Sírio [de Direitos Humanos], que faz parte da oposição, ele mesmo fala de mais de 2 mil mortos, em algumas semanas de combates entre aquelas duas facções. 

O número de operações suicidas eleva-se a várias dezenas nessas últimas poucas semanas, uns contra os outros, mandam carros carregados de explosivos para cidades muito populosas, apenas porque a cidade é controlada pelo EIIL e outra é controlada pela Frente Al-Nusra. Mas muitos moradores dessas cidades não estão nem com o EIIL nem com a Frente Al-Nusra, talvez por posição política sejam favoráveis à oposição. Mas ninguém é poupado. Sequestram mulheres, massacram crianças, destroem as vilas – tudo entre eles mesmos. Não estou nem falando do conflito deles com o regime, deixemos isso de lado. Organizam operações suicidas uns contra os outros, entre eles.

E a execução de prisioneiros e reféns sem qualquer misericórdia. E as carnificinas? E os massacres em massa? Tudo isso, por quê? Opõem-se a quem? Não têm eles a mesma abordagem, uma mesma ideologia, uma mesma escola, uma mesma direção, um mesmo dirigente? A quê eles se opõem? Há alguma questão política? Há alguma questão de organização, que envolva tal ou tal dirigente? Brigam por um poço de petróleo? E não eram eles que se opunham a esse tipo de disputa? Pois aí está o que fazem.

O modelo é esse, a realidade é essa. Observem bem, reflitam bem sobre tudo isso. Verão a mentalidade deles, a mentalidade que motiva os dirigentes deles e os membros dessas facções.

Mas, seja o que for, nada disso é novidade, nada disso é surpresa. Já esperávamos por isso. Mas não porque nós saibamos mais que os outros, não, de modo algum. Já esperávamos por isso, porque qualquer um que observou as experiências anteriores poderia prever tudo isso que se vê hoje. Muito estranho, de fato, é ignorar a situação atual. Vejam a experiência do Afeganistão.

Os grupos jihadistas do Afeganistão combateram contra dois dos exércitos mais poderosos do mundo. Primeiro, contra o exército soviético, e o derrotaram no Afeganistão. Na sequência, os soviéticos se retiraram, graças a Deus... Mas uma coalizão de facções jihadistas, porque alguns deles alimentavam essa ideologia takfiri, radical, impiedosa, sangrenta e assassina, levantou-se contra as demais. Fabricaram até um hadith, que atribuíram mentirosamente ao Profeta: “Vim a vocês com o massacre”. Tal coisa não pode provir da religião de Deus, nem da religião do Mensageiro de Deus, nem da religião de nenhum dos Profetas de Deus Todo Poderoso.

Porque algumas pessoas tinham essa mentalidade takfiri, as facções jihadistas afegãs entraram num conflito sangrento, umas contra outras. O que eles destruíram, em termos de quarteirões, cidades, vilas, o que infligiram em termos de mortos e feridos uns aos outros, todos os grandes comandantes jihadistas que os takfiri mataram, tudo isso ultrapassa em muito o que o exército soviético, ele mesmo, conseguiu fazer. E hoje? O que é feito do Afeganistão? Onde está, hoje, o Afeganistão? Onde está o Afeganistão hoje?

Desde o dia em que os soviéticos se retiraram, até hoje, me digam um dia, um único dia em que o Afeganistão não tenha conhecido matanças, feridos, deslocamentos forçados de populações, destruição generalizada, todas as dificuldades para viver. Digam-me um único dia em que tenha havido paz, alegria de viver, no Afeganistão. E tudo, tudo isso, por causa dos grupos takfiris.

E observemos a Argélia – porque alguém poderia objetar que o Afeganistão é país montanhoso, de condições particularmente difícil, e sabe-se lá o que mais. Pois bem. Na Argélia, o que os grupos armados trouxeram e causaram de sofrimento ao povo argeliano? E o que dizer dos grupos armados entre eles, dirigentes que se matam uns os outros em conflitos entre diferentes facções?

Nem é preciso acrescentar muitos exemplos. Bastam esses, para que tenhamos tempo para... (Alguém pode trocar esse meu relógio? Está apagado.) Isso é o que se passa ante nossos olhos, e temos de ver e tirar daí todos os ensinamentos.

Agora, passo a abordar a situação do Líbano.

O Líbano sofreu atentados em várias regiões. Operações suicidas contra populações civis – crianças, mulheres, em mercados, contra pessoas que andavam na rua... São os crimes que foram cometidos aqui. De início, entre os que perguntavam “Quem (cometeu esses atos terroristas)?”, “Como?”, houve alguns que acusavam o regime sírio, outros acusavam os serviços secretos sírios, outros, ainda, evocavam o Mossad. Sempre fui muito claro sobre esse tema.

Nós não nos precipitamos em acusações ocas contra atores presuntivos daqueles atentados. Sempre dissemos “Sejam pacientes, a identidade deles, sem dúvida alguma, será revelada”. Será revelada, não porque eles sejam capazes ou incapazes de executar operações secretas. Nada disso. A identidade deles se autorrevelará, porque eles estão andando, claramente, na direção de guerra aberta, declarada. Por isso eles filmam suas operações e as distribuem pela Internet, revelando-se abertamente, anunciando o nome dos kamikazes, enviando mensagens que especificam os alvos a atacar. A tal ponto, que a identidade dos autores dos atentados já nem é questão a debater ou discutir. Os responsáveis pelas operações suicidas e os atentados são assassinos takfiris – não são jihadistas

Se ainda há alguém, no Líbano ou em qualquer parte do mundo, que queira refutar isso –, sim, é claro que os israelenses infiltraram esses grupos.

É claro que os norte-americanos utilizam esses grupos. Já os utilizavam no Iraque, por longo tempo, e também foram utilizados em outros países. Mas não há dúvida de que fulano, cicrano, beltrano – eles são conhecidos pelo nome e pela nacionalidade – esse é libanês, o outro é palestino, o outro é sírio, sei lá, um é saudita, outro marroquino ou iraquiano, são eles que dirigem essas redes, que organizam essas operações suicidas e esses atentados no Líbano. O que isso mostra? Tudo isso mostra esse tipo de enfoque, essa mentalidade takfiri...

Assim... À luz dessas operações suicidas e desses atentados, emergiu no Líbano um debate. Como sempre, os libaneses dividiram-se. Alguns declararam que as operações suicidas e os atentados jamais teriam acontecido se o Hezbollah não estivesse agindo militarmente na Síria. Depois, seguiram a mesma lógica para justificar os atentados. Depois, e até hoje, insistem na mesma lógica. E essa lógica será mantida, mesmo que todos participemos de um mesmo governo. Essa lógica se perpetuará, porque ela é parte da animosidade, da luta política que se trava no país. Pois bem. Analisemos um pouco essa lógica.

Quer dizer então que antes de começarmos a agir na Síria, esses grupos não existiam, não estavam em guerra no Norte, em vários campos de refugiados palestinos e em várias regiões do Líbano? Já não preparavam e enviavam carros carregados de explosivos contra áreas cristãs? Contra o exército, etc.? Todos sabemos disso tudo, nem preciso listar os atentados. Os jornais e televisões estão cheios de listas. Tudo aquilo aconteceu antes do início dos eventos na Síria. Tudo bem. Já sabemos disso. Nem é preciso falar muito.

Ante essa lógica, só há duas possibilidade, nem uma a mais: ou bem essas explosões nada têm a ver com nossa ação na Síria, ou, então, sim, elas têm alguma relação com nossa ação na Síria. Não há outra possibilidade. Que outra opção haveria? Não há. Ou nossa ação na Síria é a razão desses atentados, ou não é – e os takfiris, de um modo ou de outro, já tinham intenção de abrir uma frente no Líbano. Só há essas duas vias.

Já consideramos essas possibilidades e concluímos que a primeira é a única que pode ser verdadeira, a saber, que os grupos takfiris sempre consideraram o Líbano como um de seus alvos. De fato, anunciaram claramente nos seus princípios e nos seus discursos. Declaram hoje que o Líbano é terreno (secundário) de apoio, que não é terreno de jihad. A prioridade deles é acabar com a Síria, e só depois, então, se ocuparão do Líbano. Não foi isso, precisamente, que declararam? Está tudo na Internet, na televisão, na mídia, etc..

Assim sendo, agem agora segundo priorização bem definida, que consiste em se apossar das regiões (sírias) que fazem fronteira com o Líbano – seja ao norte, seja na região do Bekaa. Não é mais que uma questão de tempo.

Isso significa que, por princípio, virão ao Líbano, de um modo ou de outro, aconteça o que acontecer. Entendemos que, se não vierem hoje, virão amanhã. Já declararam. Já disseram. Tudo isso é válido e bem claro, se se parte do princípio de que esses atentados nada têm a ver com nossa ação na Síria.

O Líbano é alvo para os grupos takfiris, por princípio. O Líbano faz parte do projeto desses grupos takfiris. E se os norte-americanos e os israelenses já infiltraram esses grupos, não pode haver dúvida alguma, nenhuma dúvida, de que querem destruir toda a região.

E o Líbano tem uma peculiaridade, como há também na Síria: no Líbano há uma Resistência, que é hoje a maior ameaça contra o projeto israelense na região.

Por isso, na nossa avaliação e do nosso ponto de vista, eles viriam para o Líbano de todo modo, aconteça o que acontecer. Foram atraídos para a cena libanesa por sua própria mentalidade, seu próprio projeto e sua visão de mundo. Por isso abriram uma frente no Líbano. Esse é o raciocínio que decorre da nossa análise das coisas. E, sim, há uma segunda análise.

Consideremos, para argumentar, que a outra análise seja a melhor. Hoje, não quero defender essa nossa análise. Quero fazer como se a análise alternativa fosse válida, para poder argumentar e desenvolver o raciocínio.

Por essa segunda análise, o povo libanês estaria pagando o preço de ter enviado combatentes à Síria, através do Hezbollah. E essa seria a razão pela qual os grupos takfiris organizaram os atentados e as operações suicidas no Líbano e fizeram essa escolha. Consideremos essa interpretação, para analisar outra hipótese.

Antes, quero dizer que nossos objetivos aqui têm de ser perfeitamente claros, e quero falar com total franqueza. Antes de avaliar essa segunda hipótese, temos de responder uma pergunta prévia: nossa ação na Síria justificaria tais sacrifícios?

Vale a pena sofrer tais consequências? Supondo-se, é claro, que os atentados sejam consequência de nossa ação na Síria. Vale a pena ir combater em Al-Qusayr e em Damasco? – Quero dizer, nas duas principais regiões nas quais estamos ativos: Al-Qusayr, porque é região de fronteira; e Damasco, porque também tem de ser considerada região de fronteira, porque se Damasco caísse – Deus nos livre! – todas as regiões de fronteira entre o Líbano e a Síria seriam controladas por aqueles grupos armados.

A pergunta é: a ação que empreendemos vale a pena? Valem a pena, se têm como reação, atentados terroristas e outras reações do mesmo gênero? Sim ou não?

Aqui, quero relembrar o que eu disse no início de minha fala sobre a ocupação israelense no Líbano (1982-2000), quando nos criticavam nos seguintes termos: “vocês combateram os israelenses, atacaram os postos de controle deles, os acampamentos deles, os campos militares deles, e, portanto, é claro que os israelenses façam represálias. E houve quem assim justificasse a violência dos israelenses contra os libaneses... Hoje, essa mesma lógica serve para justificar ataques terroristas de grupos armados contra o Líbano.

Eu já disse, e nós explicamos longamente, no passado, as razões de nossa ação na Síria, as causas, as consequências, porque agimos lá e porque ainda estamos agindo lá, e porque continuaremos a agir lá: “nós estaremos presentes e ativos em todos os pontos onde devamos estar”. Nisso, nada mudou. Ao contrário. Os dados em campo aumentam a convicção e a certeza dos libaneses quanto à solidez e ao cabimento dessa decisão.

Não vou analisar os eventos desde o início, mas desde o fim. Consideremos só os últimos desenvolvimentos... Quais são os dados novos, no plano regional e internacional?

O que se vê hoje é que a maioria dos países que financiaram, apoiaram, ajudaram, deram vistos e abriram as fronteiras, esses países todos que encorajaram e ajudaram agentes de combate não sírios, agentes estrangeiros que estão hoje na Síria, a maioria dos países que fizeram isso, hoje só fazem manifestar seu medo, suas preocupações, seus temores ante os riscos de segurança que se criariam, caso aqueles combatentes saíssem vitoriosos na Síria. Há também, consequentemente, os riscos de eles voltarem aos seus países de origem, sobretudo países vizinhos. E há todos os riscos que se criam para aquelas próprias sociedades. Não é verdade? Estou, por acaso, inventando coisas? Ou essa é a realidade hoje?

Hoje, as agências de informação ocidental, regionais e outras só se reúnem para ver o que podem fazer para enfrentar essa situação.

E dizem eles: Se esses grupos – que Deus nos livre! – saírem vitoriosos, eles terão, afinal, uma base vastíssima. A Síria seria ainda pior que o Afeganistão. E os jihadistas  se voltariam contra nós. O que podemos fazer? Ou, então, alternativamente: se eles forem derrotados, se começarem a recuar e sair da Síria, e se se mudarem para outros países? O que faremos?

Sim. É uma catástrofe, que eles mesmos criaram com as próprias mãos. É a serpente que eles mesmos nutriram.

Hoje, esse é o debate que se trava em todo o mundo. Ou não é? Essa é uma primeira realidade indiscutível.

E em segundo lugar, já há algum tempo, vários países impuseram leis que proíbem seus cidadãos de viajarem à Síria para combater. A Tunísia, por exemplo, proíbe viagens à Síria e tomou medidas coercitivas, invocando declaradamente esse problema. Ora! E por que os tunisianos e o governo da Tunísia foram levados a tomar essas medidas, quando, no início, apoiavam a insurreição na Síria?

Exatamente porque os que foram combater na Síria e já retornaram à Tunísia perturbam a sociedade tunisiana, o povo tunisiano e o futuro político da Tunísia, fazendo-os conhecer na própria carne o que impuseram a outros povos da região, a saber, atentados terroristas, assassinatos, violência, rebeliões, etc. Os tunisianos acordaram e perceberam que se aqueles grupos persistirem na mesma via, a Tunísia sofrerá. Assim, tiveram o bom senso e a coragem de tomar medidas enérgicas, desse tipo, enquanto ainda havia tempo. Esse é o segundo ponto sobre o qual queria falar hoje.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Discurso de despedida de Muqtada al-Sadr: “O Iraque é governado por lobos”

18/2/2014, [*] Muqtada Al-Sadr - Political World  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muqtada al-Sadr-iraq: Clérigo xiita iraquiano Moqtada al-Sadr fala à imprensa em Bagdá em 4 de janeiro de 2013. (Foto: Thaier Al-Sudani)
Não sou dos que se fazem de cegos e calam ante a corrupção e os malfeitos. É nosso dever, dos sadristas, ser os que trabalham e clamam por orientação.

Aqui, vemos nosso Iraque, ferido e oprimido, sob uma nuvem negra que cobriu a terra e o céu do Iraque: o sangue escorre, há guerra por toda parte, pessoas matam-se umas as outras, umas em nome da ‘lei’, algumas sob o nome de “religião”.

Amaldiçoada seja essa “lei” que faz correr sangue e viola santidades, e abaixo uma religião que dá direito de degolar, bombardear e assassinar.

E então, a política converteu-se em porta de entrada para a injustiça, a zombaria, a autocracia e a violação. E um ditador é encarregado da riqueza e a rouba; e da vida do povo e mata; e de cidades e as ataca; e de seitas e as divide; e das mentes e as suborna; e dos corações e os dilacera, para que todos votem nele, para que permaneça no poder.

No Iraque não há vida, não há plantações, não há criação de animais, não há fábricas, não há serviços, não há segurança nem proteção, não há paz. E eleições pelas quais se sacrificam milhares de vidas, tudo isso, para que um governo nos governe sem tomar conhecimento de nossos direitos e opiniões, e um Parlamento, com suas poltronas gastas, que nem consegue proteger-se, muito menos protege outros.

As raízes da corrupção no Iraque
Um Parlamento que só aceita votar sob uma condição: se houver recompensas especiais para os deputados; mas se há leis que beneficiem toda a nação, eles todos recuam, ou o assunto chega ao Gabinete, onde as leis são ou invertidas ou vetadas. Mas o Gabinete jamais vetará lei alguma que ameace as recompensas especiais para os deputados ou suas aposentadorias.

O Iraque é governado por lobos, sedentos de sangue, almas sedentas só de riquezas, que deixam a nação afundada em sofrimento, em medo, em fossas, nas noites escuras iluminadas só pela lua ou por uma vela, num pântano de assassinatos causados por diferenças ou por qualquer ridículo desentendimento. Tudo isso, e o governo só olha de longe.

O Iraque é governado por um grupo que veio do lado de lá das fronteiras. Esperamos por muito tempo que nos libertassem do ditador, só para vê-los agora firmemente agarrados às suas poltronas, em nome da xia e do xiismo.

O Imã Ali, Comandante dos que Creem (que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele), conseguia ele dormir, enquanto houvesse por perto alguém com fome? E agora, como se encheram as ruas de pessoas sem teto, sem paredes, sem o mínimo para comer, que dormem no chão nu, cobertos só pelo céu e pela chuva.

Bagdá - Praça Tahrir - Ver ao fundo monumento à Liberdade do Iraque.(16/3/2013)
Um governo inchado, estufado, que esqueceu todos os que vivem do outro lado de muralhas super vigiadas, tornou-se cego pela riqueza, por suas mansões, palácios, aviões, e ignora esse calabouço chamado “Iraque”.

Uma nação honrada, que foi engolfada por guerras, em condições tão terríveis que a reduziram a posta de carne fácil de morder, entre os dentes de políticos e líderes. Uma nação que não pede comida, mas exige ser honrada, ser voz ouvida e livre, para servir a Deus e dar prova do próprio valor.

Mas um governo veio para calar todas as vozes, para matar a oposição, para forçá-la ao exílio, para encher prisões, com todas as vozes e todos e quaisquer que tentaram libertar esse país dos tanques e aviões da ocupação.

Um governo que dominou tudo. Que não ouve ninguém, sequer a voz do Marj [professores do Islã] e sua fatwa (lei), sequer as vozes ou reclamações de seus próprios companheiros, apoiados pelo Leste e pelo Oeste, de tal modo que surpreende até os mais sábios dos homens. Nisso tudo, não queremos, nós, os sadristas, tomar os lugares ou os assentos deles, porque nós, os sadristas, somos muito superiores a tudo isso.

Atentado de 31/12/2012 – 15 mortos e 24 feridos - Musayyib (60km de Bagdá)
Queremos guiá-los, protegê-los contra seus erros, para que o Iraque seja posto em mãos mais seguras e cuidadosas. Mas eles só ouvem seus patrões, deixando para trás os sadristas e os dois mártires sadristas, e quem mais tenha uma única objeção contra eles. Xiita, sunita ou curdo, sempre será acusado de terrorismo ou de sectarismo, usando um judiciário viciado para acabar com ele, ou o exército para prendê-lo, ou usando a imprensa de propaganda ou outros meios que todos conhecem muito bem.

Nós, os sadristas, se não podemos mudar isso, dizemos: Oh, Deus, não nos associe aos opressores, associe-nos aos que amam a verdade.

Que a paz esteja com os que nos ajudaram, nós não os traímos e não os trairemos. Buscamos protegê-los e sua reputação, para que não virem cinza nessa vida. Especialmente, porque há os que tentam manipular vocês, nossos bem-amados, e até usar nosso nome, dos sadristas, para alcançar seus odiosos objetivos nessa vida. Eles enriqueceram, derramaram sangue, violaram santidades e apossaram-se da vida de pessoas usando o nosso nome, não outro.

E mesmo assim não respeitam uma fatwa, uma ordem, uma questão ou uma decisão (sequer um recado que parta de mim), sequer um conselho, nenhuma ordem, ignoram tudo.

E vocês sabem, todo o povo do Iraque, nós amamos vocês. Continuem pois em sua fé, amor, religião e apoio. Deus os fez vitoriosos por nós e nos fez vitoriosos por vocês. Vocês são uma honra para nós, exceto os desencaminhados que desencaminham outros, que escolhem essa vida, em vez da eternidade. Abaixo esses todos.

Se há entre vocês vozes honradas, políticas ou outras, que continuem em seu trabalho, mas de forma independente, afastados de mim, sob orientações gerais, baseados na retidão, na fé, no patriotismo, na sabedoria e no bem público. O Iraque não pode ser deixado entregue a gente da injustiça.

Manifestação de sadristas em novembro 2013
Mas tenho de ser para todos, não sou só para os sadristas, devotei minha vida ao Iraque, ao Islã, e tenho de permanecer para todos.

Nas decisões ou ordens que eu tenha tomado ou dado, e que vocês não consigam cumprir, busco perdão para mim e para vocês, mas me orgulho daquelas decisões até o dia do juízo, porque em todas elas tentei basear-me nele e ser inspirado pelo caminho dos dois Mártires, nas ideias deles, nas maneiras deles e não posso me afastar disso, porque eles são meus mestres e meus líderes, eles são minha autoridade e os inimigos deles são meus inimigos.

Além disso, a sociedade parece muito distante de qualquer lembrança de Deus, de qualquer respeito a Ele, e isso pôs grande distância entre eu próprio e a sociedade, em boa medida. Conclamo os fiéis a lembrar de Deus e ser obedientes, para que Ele perdoe todos nós e as portas da graça abram-se para nós, e possa essa ser uma oportunidade para que a verdade apareça. A verdade deve erguer-se e nada se erguerá acima dela.

Meus bem-amados, tenho ainda alguns pontos a mencionar:

Primeiro, a participação nas eleições. Apesar da decisão que tomei, vejo como obrigação a participação nas eleições e assim tem de ser, em grande escala, para que o governo não caia em mãos de dissimulados nos quais não se pode confiar, Deus nos livre.

Quanto a mim, devo votar e devo dar meu voto, enquanto viver, a qualquer pessoa honrada que queira servir ao povo e ficarei a igual distância de todos. Peço, pois, aos iraquianos que participem dessas eleições e não se afastem. Afastar-se nesse caso seria trair o Iraque e seu povo.

Segundo, há políticos que serviram com honestidade e com sinceridade ao povo iraquiano, “e se não fossem pios, ele teria sido destruído”, e são muitos, com a graça de Deus. Mas quero agradecer especialmente e lembrar aqui dois irmãos: o governador de Misan e o governador de Bagdá, que Deus os recompense, como recompensa os justos. Esses devem continuar e aperfeiçoar o trabalho que fazem de servir seu país.

Obrigado.



Nota dos tradutores

[1] A renúncia de Sadr à vida política veio logo depois de protestos populares contra leis recentemente aprovadas que aumentarão os benefícios e aposentadorias de altos funcionários públicos, deputados e funcionários do governo, o que pôs mais lenha nas acusações de corrupção contra o governo. Depois de anos de desapontamentos com o fraturado sistema político do Iraque, e rumores de que o governo estaria planejando expulsá-lo e os seus seguidores da cena política, não chega a surpreender que Sadr tenha afinal decidido desistir da vida política, separar-se de seu movimento político e passar a concentrar-se em seus estudos religiosos.
Mas é possível que o Iraque ainda não tenha visto tudo dessa figura política poderosa e em vários sentidos icônica. (...)
Ontem, dois dias depois de seu discurso de despedida, Sadr fez discurso pela televisão em que acusou o primeiro-ministro de “corrupto, ditador e tirano”. Acusou-o de perseguir e matar a oposição e de liderar “uma matilha de lobos famintos de assassinatos e loucos por dinheiro” (19/2/2014, Livia Bergmeijer, Muftah – Free & Open Debate em: Moqtada al-Sadr: Al-Maliki Is a “Tyrant” and His Government Is “Corrupt”)