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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Marina Silva – Parte de plano para desestabilizar o Brasil

23/9/2014, [*] Nil NIKANDROVStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No velório de Eduardo Campos Marina não chorou...
Washington lançou campanha de propaganda em grande escala em apoio a Marina Silva, candidata às eleições presidenciais no Brasil, pelo Partido Socialista Brasileiro. Continuam a repetir que a vitória dela é garantida no segundo turno. As pesquisas não oferecem resultados confiáveis e, até agora, só fala do “primeiro turno” das eleições, dia 5 de outubro de 2014.

Especialistas nos EUA creem que Marina Silva receberá os votos dos que apoiam Aécio Neves da Cunha, do PSDB, até agora com 14-16% do eleitorado. Se acontecer, a candidata apoiada pelos EUA receberia cerca de 60% dos votos, acabando com as chances de reeleição da atual presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, no “segundo turno” das eleições, marcadas para 16/10/2014. Analistas independentes absolutamente não levam a sério essas previsões e dizem que esse cenário não passa de ilusão. E há os que começam a alertar contra fraude eleitoral.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do mesmo Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff, não é candidato e trabalha pela re-eleição da atual presidenta. Para ele, Marina Silva absolutamente não tem chances de eleger-se. Para o presidente Lula, a grande ameaça não é Marina Silva, mas alguns veículos de imprensa impressa e de televisão.

Esses veículos usam como bem entendem, para finalidades de propaganda, as muitas dificuldades que brotam do processo em curso de implementar reformas sociais e econômicas, feitas para mais bem servir os interesses dos mais pobres. Seja como for, o país está avançando, com grandes projetos industriais em implementação. Lula tem-se mostrado confiante de que a verdade derrotará a mentira.

Marina Silva, Tio Sam e o PIG 
O apoio do ex-presidente à atual presidenta e candidata à re-eleição, Dilma Rousseff, é importante. Resultado desse apoio, Marina Silva já está perdendo votos.

Em recente entrevista a um dos grandes jornais do sul do Brasil, Marina Silva explodiu em lágrimas, aos gemidos de que não podia controlar o que o ex-presidente dizia dela, mas que faria o possível para não “se vingar’ dele... O ex-presidente respondeu imediatamente, que aquelas lágrimas nada tinham a ver com o que ele dissera sobre mentiras de Marina. Que, lágrimas daquele tipo, só se a causa fosse completamente diversa.

De fato, Marina Silva começa a temer os números que as pesquisas eleitorais lhe trazem. A hoje candidata foi membro do Partido dos Trabalhadores de Lula por mais de 25 anos; fez toda a sua vida política ao lado de Lula. Foi senadora, antes de ter sido Ministra do Meio Ambiente do governo Lula, em 2003.

Mas durante todos esses anos, Marina Silva sempre se manteve muito próxima dos EUA. Sempre esteve sob as lentes de inúmeros fundos especiais, dos mais variados tipos, e organizações internacionais que vasculham o mundo à procura de gente com o “perfil” adequado para ser usado como instrumento dos interesses de Washington.

Basta examinar as medalhas e prêmios que choveram sobre Marina Silva – prêmios que ninguém recebe se não for “amigo dos EUA” – para confirmar que, sim, pelo menos desde 1980, Marina Silva já estava no campo de considerações dos EUA. Essa “seleção’ é prática muito frequente: os EUA mantêm pessoal especializado em analisar traços de personalidade de possíveis “candidatos”, dos quais o que mais chamou a atenção, em Marina Silva, foi a inclinação para complementar os próprios atributos físicos, com “realizações’ políticas que chamassem a atenção (em entrevista, Marina Silva disse que teria trocado a Igreja Católica na qual fora criada, por um culto neopentecostal, porque aí “teria melhores chances de me destacar”).

O Brasil vai-se convertendo em estado soberano, forte e autoafirmativo, com grande influência no Hemisfério Ocidental, em posição de desafiar a influência dos EUA. Os debates em Washington fazem-se por trás dos panos, mas uma coisa é evidente: os EUA querem muito trocar a presidenta Dilma Rousseff por alguém mais servil. Marina Silva parece servir esse propósito.

Os serviços especiais dos EUA parecem ter pavimentado o caminho para ela, eliminando outro candidato, Eduardo Campos, do Partido Socialista. O avião Cessna 560ХL em que ele viajava sofreu uma pane e caiu, ou explodiu, ninguém sabe. French Slate.fr listou esse caso de queda de avião como um dos cinco eventos mais importantes do verão de 2014, que não estiveram nas manchetes, sobre os quais pouco se fala, mas que pode(ria) mudar o rumo da política mundial.

Dilma Rousseff
Antes da tragédia, Dilma Rousseff era considerada já vitoriosa. Com Marina Silva, as eleições sofreram, no mínimo, um “tumulto” não previsto.

Não há dúvida alguma de que, com Marina Silva na presidência, o Brasil passa a alinhar-se mais decisivamente com os EUA. O escândalo da espionagem e das escutas clandestinas, e declarações da presidenta Rousseff, para quem as escutas ilegais implantadas pelos EUA no Brasil seriam “inaceitáveis” virariam coisa do passado, bem como a UNASUL (União das Nações Sul-americanas) – união intergovernamental que integra as duas uniões aduaneiras que há: MERCOSUL e Comunidade Andina de Nações, como parte da continuada integração sul-americana, e o MERCOSUL (Mercado Comum do Sul, bloco sub-regional que inclui Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela com Chile, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru como países associados).

O objetivo de todas essas estruturas é promover o livre comércio e o fluxo continuado de bens, pessoas e moeda. Tudo isso deixará de estar no ponto focal da política externa do Brasil.

A reorganização da Organização dos Estados Americanos, OEA, é a questão mais importante para os EUA; e voltará ao topo da lista das prioridades de política externa.

O MERCOSUL talvez até continue a existir, mas não como concorrente contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que Washington tenta impulsionar desde 2005, quando a ideia foi recusada por Argentina, Brasil, Venezuela e alguns outros países.

Marina Silva não é grande entusiasta do futuro dos BRICS. Para ela, a participação nesse grupo não traz dividendos. Já disse que não tem qualquer intenção de estreitar relações com Rússia e China, e a aliança com Venezuela e Cuba deixará de ser efetiva. Tudo que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff já conseguiram até agora, ir-se-á pelo ralo, só para satisfazer o poder da Casa Branca e do Pentágono.

BRICS
A batalha pré-eleitoral está-se convertendo em batalha feroz. Marina Silva não tem tempo a perder, e a carga está-se tornando pesada. Conforme mudem os números das pesquisas, a candidata Marina muda suas declarações e “plano” de governo. Já teve de explicar o que dissera antes, sobre reduzir a produção de petróleo em áreas chamadas “pré-sal”, abaixo do leito do oceano. Manifestou-se contra casamentos homoafetivos no passado; de repente, virou apoiadora.

Marina Silva é, hoje, evangélica, membro da conservadora Assembleia de Deus. Um dia depois de apresentar seu plano de governo, desdisse o que dissera sobre ser favorável ao chamado “casamento gay”. No capítulo “Cidadania e Identidades” de seu programa, incluiu “apoio a propostas que defendam (...) o casamento civil”. Na sequência, a campanha de Marina Silva distribuiu uma “correção”. A nova versão defende “os direitos de uma união civil entre pessoas do mesmo sexo”, apagando a palavra “casamento” que incluiria direitos mais amplos para os casados.

No segundo debate televisionado entre os principais candidatos, antes do 1º turno das eleições, dia 5/9/2014, Rousseff perguntou a Marina Silva como ela financiaria os cerca de R$ 60 bilhões necessários para cumprir suas promessas. “Onde você propõe buscar esse dinheiro?” – perguntou Rousseff. A candidata respondeu que o dinheiro será obtido porque “nosso país voltará à eficiência no gasto público – poremos fim ao desperdício de recursos públicos”. A presidenta Rousseff acertou quando disse que tinha sérias dúvidas de que uma pessoa com esse tipo de ideia na cabeça e convicções tão instáveis pudesse governar algum país.

Mais brasileiros já começam a ver que Marina Silva mudará todas as políticas dos governos que a antecederam e levará o país ao desastre. E “desastre” é, exatamente, o que mais desejam os “artíficies de mudança” que trabalham em Washington.

Marina Silva é pessoa com problemas psicológicos, desequilibrada – e tudo isso pode ser bastante útil para influenciar o processo de decisão para bloquear o desenvolvimento progressista do país e quebrar o equilíbrio social, depois que as forças políticas no país começam a aprender a interagir dentro do que a lei autoriza e determina.

Coronel Prugh traduzindo para o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA, Martin Dempsey
O que a missão Washington mais deseja é ver criados os pré-requisitos para que se encene no Brasil uma “revolução colorida”. Quer usar a “quinta coluna” e os veículos de imprensa pró-EUA para provocar “manifestações espontâneas” de cidadãos.

Os EUA já enviaram pessoal de alta capacitação e experiência para sua embaixada em Brasília, capital do Brasil. A estação da CIA que ali opera é comandada e operada por gente muito, muito experiente.

O ataché de Defesa e principal oficial da Defesa, no Brasil, é o coronel Samuel Prugh. É homem de experiência excepcional na coleta de inteligência humana, com amplas relações pessoais entre os militares brasileiros.

O presidente Lula e a presidenta Rousseff têm feito o possível para evitar manifestações públicas de incômodo com as atividades subversivas que os EUA conduzem no Brasil. Quando lhes pareceu necessário, os brasileiros usam os bem protegidos canais diplomáticos, para fazer saber a Washington que identificaram um agente que operava clandestinamente na indústria do petróleo, num gabinete diplomático ou nas forças armadas do país. Esses incidentes jamais chegaram ao conhecimento público.

Depois do conhecido escândalo associado aos relatórios de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA gravara comunicações pessoais da presidenta e espionara a Petrobras, empresa estatal brasileira de petróleo, o governo brasileiro endureceu e exigiu que os EUA pedissem desculpas públicas. Os EUA recusaram-se a desculpar-se e, mesmo, ampliaram as operações de espionagem no Brasil (enviaram mais gente para os consulados).

O consulado dos EUA no Rio de Janeiro destaca-se: ali trabalham mais de 500 norte-americanos. John Creamer, cônsul-geral, diz que 300 daqueles funcionários trabalham no processamento de vistos de viagem, da manhã à noite. Segundo Creamer, o processamento, antes, demorava seis meses; hoje, bastam duas semanas.

John Creamer, Consul Geral dos EUA no Rio de Janeiro no "American Day" no Festival do Rio 2012 
Se os funcionários dos consulados estão realmente ocupados só com emitir vistos de viagem, ou se só vivem a arquitetar alguma versão de “primavera árabe” ou de “Maidan ucraniana”, no Brasil, sob o alto patrocínio dos serviços especiais dos EUA, só o tempo dirá.
___________________

[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascarar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Discurso de despedida de Muqtada al-Sadr: “O Iraque é governado por lobos”

18/2/2014, [*] Muqtada Al-Sadr - Political World  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muqtada al-Sadr-iraq: Clérigo xiita iraquiano Moqtada al-Sadr fala à imprensa em Bagdá em 4 de janeiro de 2013. (Foto: Thaier Al-Sudani)
Não sou dos que se fazem de cegos e calam ante a corrupção e os malfeitos. É nosso dever, dos sadristas, ser os que trabalham e clamam por orientação.

Aqui, vemos nosso Iraque, ferido e oprimido, sob uma nuvem negra que cobriu a terra e o céu do Iraque: o sangue escorre, há guerra por toda parte, pessoas matam-se umas as outras, umas em nome da ‘lei’, algumas sob o nome de “religião”.

Amaldiçoada seja essa “lei” que faz correr sangue e viola santidades, e abaixo uma religião que dá direito de degolar, bombardear e assassinar.

E então, a política converteu-se em porta de entrada para a injustiça, a zombaria, a autocracia e a violação. E um ditador é encarregado da riqueza e a rouba; e da vida do povo e mata; e de cidades e as ataca; e de seitas e as divide; e das mentes e as suborna; e dos corações e os dilacera, para que todos votem nele, para que permaneça no poder.

No Iraque não há vida, não há plantações, não há criação de animais, não há fábricas, não há serviços, não há segurança nem proteção, não há paz. E eleições pelas quais se sacrificam milhares de vidas, tudo isso, para que um governo nos governe sem tomar conhecimento de nossos direitos e opiniões, e um Parlamento, com suas poltronas gastas, que nem consegue proteger-se, muito menos protege outros.

As raízes da corrupção no Iraque
Um Parlamento que só aceita votar sob uma condição: se houver recompensas especiais para os deputados; mas se há leis que beneficiem toda a nação, eles todos recuam, ou o assunto chega ao Gabinete, onde as leis são ou invertidas ou vetadas. Mas o Gabinete jamais vetará lei alguma que ameace as recompensas especiais para os deputados ou suas aposentadorias.

O Iraque é governado por lobos, sedentos de sangue, almas sedentas só de riquezas, que deixam a nação afundada em sofrimento, em medo, em fossas, nas noites escuras iluminadas só pela lua ou por uma vela, num pântano de assassinatos causados por diferenças ou por qualquer ridículo desentendimento. Tudo isso, e o governo só olha de longe.

O Iraque é governado por um grupo que veio do lado de lá das fronteiras. Esperamos por muito tempo que nos libertassem do ditador, só para vê-los agora firmemente agarrados às suas poltronas, em nome da xia e do xiismo.

O Imã Ali, Comandante dos que Creem (que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele), conseguia ele dormir, enquanto houvesse por perto alguém com fome? E agora, como se encheram as ruas de pessoas sem teto, sem paredes, sem o mínimo para comer, que dormem no chão nu, cobertos só pelo céu e pela chuva.

Bagdá - Praça Tahrir - Ver ao fundo monumento à Liberdade do Iraque.(16/3/2013)
Um governo inchado, estufado, que esqueceu todos os que vivem do outro lado de muralhas super vigiadas, tornou-se cego pela riqueza, por suas mansões, palácios, aviões, e ignora esse calabouço chamado “Iraque”.

Uma nação honrada, que foi engolfada por guerras, em condições tão terríveis que a reduziram a posta de carne fácil de morder, entre os dentes de políticos e líderes. Uma nação que não pede comida, mas exige ser honrada, ser voz ouvida e livre, para servir a Deus e dar prova do próprio valor.

Mas um governo veio para calar todas as vozes, para matar a oposição, para forçá-la ao exílio, para encher prisões, com todas as vozes e todos e quaisquer que tentaram libertar esse país dos tanques e aviões da ocupação.

Um governo que dominou tudo. Que não ouve ninguém, sequer a voz do Marj [professores do Islã] e sua fatwa (lei), sequer as vozes ou reclamações de seus próprios companheiros, apoiados pelo Leste e pelo Oeste, de tal modo que surpreende até os mais sábios dos homens. Nisso tudo, não queremos, nós, os sadristas, tomar os lugares ou os assentos deles, porque nós, os sadristas, somos muito superiores a tudo isso.

Atentado de 31/12/2012 – 15 mortos e 24 feridos - Musayyib (60km de Bagdá)
Queremos guiá-los, protegê-los contra seus erros, para que o Iraque seja posto em mãos mais seguras e cuidadosas. Mas eles só ouvem seus patrões, deixando para trás os sadristas e os dois mártires sadristas, e quem mais tenha uma única objeção contra eles. Xiita, sunita ou curdo, sempre será acusado de terrorismo ou de sectarismo, usando um judiciário viciado para acabar com ele, ou o exército para prendê-lo, ou usando a imprensa de propaganda ou outros meios que todos conhecem muito bem.

Nós, os sadristas, se não podemos mudar isso, dizemos: Oh, Deus, não nos associe aos opressores, associe-nos aos que amam a verdade.

Que a paz esteja com os que nos ajudaram, nós não os traímos e não os trairemos. Buscamos protegê-los e sua reputação, para que não virem cinza nessa vida. Especialmente, porque há os que tentam manipular vocês, nossos bem-amados, e até usar nosso nome, dos sadristas, para alcançar seus odiosos objetivos nessa vida. Eles enriqueceram, derramaram sangue, violaram santidades e apossaram-se da vida de pessoas usando o nosso nome, não outro.

E mesmo assim não respeitam uma fatwa, uma ordem, uma questão ou uma decisão (sequer um recado que parta de mim), sequer um conselho, nenhuma ordem, ignoram tudo.

E vocês sabem, todo o povo do Iraque, nós amamos vocês. Continuem pois em sua fé, amor, religião e apoio. Deus os fez vitoriosos por nós e nos fez vitoriosos por vocês. Vocês são uma honra para nós, exceto os desencaminhados que desencaminham outros, que escolhem essa vida, em vez da eternidade. Abaixo esses todos.

Se há entre vocês vozes honradas, políticas ou outras, que continuem em seu trabalho, mas de forma independente, afastados de mim, sob orientações gerais, baseados na retidão, na fé, no patriotismo, na sabedoria e no bem público. O Iraque não pode ser deixado entregue a gente da injustiça.

Manifestação de sadristas em novembro 2013
Mas tenho de ser para todos, não sou só para os sadristas, devotei minha vida ao Iraque, ao Islã, e tenho de permanecer para todos.

Nas decisões ou ordens que eu tenha tomado ou dado, e que vocês não consigam cumprir, busco perdão para mim e para vocês, mas me orgulho daquelas decisões até o dia do juízo, porque em todas elas tentei basear-me nele e ser inspirado pelo caminho dos dois Mártires, nas ideias deles, nas maneiras deles e não posso me afastar disso, porque eles são meus mestres e meus líderes, eles são minha autoridade e os inimigos deles são meus inimigos.

Além disso, a sociedade parece muito distante de qualquer lembrança de Deus, de qualquer respeito a Ele, e isso pôs grande distância entre eu próprio e a sociedade, em boa medida. Conclamo os fiéis a lembrar de Deus e ser obedientes, para que Ele perdoe todos nós e as portas da graça abram-se para nós, e possa essa ser uma oportunidade para que a verdade apareça. A verdade deve erguer-se e nada se erguerá acima dela.

Meus bem-amados, tenho ainda alguns pontos a mencionar:

Primeiro, a participação nas eleições. Apesar da decisão que tomei, vejo como obrigação a participação nas eleições e assim tem de ser, em grande escala, para que o governo não caia em mãos de dissimulados nos quais não se pode confiar, Deus nos livre.

Quanto a mim, devo votar e devo dar meu voto, enquanto viver, a qualquer pessoa honrada que queira servir ao povo e ficarei a igual distância de todos. Peço, pois, aos iraquianos que participem dessas eleições e não se afastem. Afastar-se nesse caso seria trair o Iraque e seu povo.

Segundo, há políticos que serviram com honestidade e com sinceridade ao povo iraquiano, “e se não fossem pios, ele teria sido destruído”, e são muitos, com a graça de Deus. Mas quero agradecer especialmente e lembrar aqui dois irmãos: o governador de Misan e o governador de Bagdá, que Deus os recompense, como recompensa os justos. Esses devem continuar e aperfeiçoar o trabalho que fazem de servir seu país.

Obrigado.



Nota dos tradutores

[1] A renúncia de Sadr à vida política veio logo depois de protestos populares contra leis recentemente aprovadas que aumentarão os benefícios e aposentadorias de altos funcionários públicos, deputados e funcionários do governo, o que pôs mais lenha nas acusações de corrupção contra o governo. Depois de anos de desapontamentos com o fraturado sistema político do Iraque, e rumores de que o governo estaria planejando expulsá-lo e os seus seguidores da cena política, não chega a surpreender que Sadr tenha afinal decidido desistir da vida política, separar-se de seu movimento político e passar a concentrar-se em seus estudos religiosos.
Mas é possível que o Iraque ainda não tenha visto tudo dessa figura política poderosa e em vários sentidos icônica. (...)
Ontem, dois dias depois de seu discurso de despedida, Sadr fez discurso pela televisão em que acusou o primeiro-ministro de “corrupto, ditador e tirano”. Acusou-o de perseguir e matar a oposição e de liderar “uma matilha de lobos famintos de assassinatos e loucos por dinheiro” (19/2/2014, Livia Bergmeijer, Muftah – Free & Open Debate em: Moqtada al-Sadr: Al-Maliki Is a “Tyrant” and His Government Is “Corrupt”)


domingo, 8 de dezembro de 2013

Hassan Lakkis, do Hezbollah, mártir: Os sionistas conhecem há muito tempo o Comandante Lakkis

6/12/2013, Al-Manar TV, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ami, si tu tombes, un ami sort de l’ombre à ta place
[“Chant des partisans”, 1943][1]

Comandante Hassan Lakkis do Hezbollah
O Hezbollah anunciou com honra o seu mártir Hassan Lakkis e não comentou detalhes. Mas o inimigo sionista há muito tempo o conhece como “homem de mente brilhante”. E a imprensa sionista imediatamente pôs-se a falar do comandante Lakkis.

Runin Bergman disse que os serviços de inteligência dos sionistas o conhecem desde os anos 1980s.

O nome de Lakkis foi mencionado no jornal Yediot Ahronot  m 2011, listado como representante do Hezbollah no “Exército das Sombras”, que incluía organizações da Resistência no Irã, na Síria, no Líbano e em Gaza.

Meir Dagan disse que Lakkis obteve sua alta qualificação na experiência que acumulou produzindo e desenvolvendo equipamentos militares para o Hezbollah.

Foi Lakkis quem fez do Hezbollah a mais forte organização de toda a história dessa região, com capacidade militar que ultrapassa a de 90% dos países do mundo.

Funeral do comandante Hassan Lakkis em 5/12/2013 em Beirute, Líbano
Em 1999, o Diretorado de Inteligência Militar da entidade sionista, A’man, distribuiu informes segundo os quais o comandante Lakkis era responsável pela compra de armamento sofisticado para o Hezbollah, que incluída radares, equipamentos de GPS, sistemas de visão noturna, coletes e roupas especiais.

O inimigo israelense sabe que o Mártir Lakkis, depois de 2000, muito contribuiu para construir as capacidades militares do Hezbollah que enfrentaram a invasão israelense, com instalações fortificadas, e com condições para resistir e proteger os mísseis e a capacidade de fogo do Hezbollah durante a guerra.

O inimigo israelense reconheceu que, dessa ação, resultaram destruídos tanques de Israel; e essa ação fez gorarem os planos de guerra que Israel tinha em 2006.

Toda a glória aos mártires Mughniyeh e Lakkis. [2]


Notas dos tradutores
[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores. Pode se ler sobre o Chant des partisans [Canto dos partisans (esp.)]. E ouvir cantado por Johnnie Halliday (fr.), a seguir:
.

[2] Sobre o atentado e o enterro, de 5/12/2013, Malta Today, em: Hezbollah commander Hassan Lakkis killed in Beirut” 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pepe Escobar: “Obama prepara seus Santos Tomahawks”

27/8/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online –The roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A doutrina da “responsabilidade de proteger” [orig. responsibility to protect (R2P)] invocada para legitimar a guerra de 2011 contra a Líbia acaba de metamorfosear-se em “responsabilidade de atacar” [orig. “responsibility to attack'” (R2A)] a Síria. Só porque o governo Obama disse.

No domingo, a Casa Branca disse que tinha “muito pouca dúvida” de que o governo de Bashar al-Assad usara armas químicas contra seus próprios cidadãos. Na 2ª-feira, o secretário de Estado aumentou para certeza “inegável” – e acusou Assad de “obscenidade moral”.


Implica que quando os EUA bombardearam Fallujah com fósforo branco no final de 2004 seria bombardeio moral. E quando os EUA ajudaram Saddam Hussein a atacar os iranianos com gás em 1988, teria sido gaseificação moral.

O governo Obama resolveu que Assad recebeu os inspetores de armas químicas da ONU na Síria e em seguida, para comemorar a chegada deles, desfechou ataque com armas químicas contra, na maior parte, mulheres e crianças, a apenas 15 km do hotel onde os inspetores estavam hospedados. Se você não acredita, é porque embarcou em teorias conspiratórias.

Provas? E quem precisa de provas? A autorização que Assad deu aos inspetores veio “tarde demais”. Além do mais, a equipe da ONU só tem mandado para determinar quais armas químicas foram usadas – mas não quem as usou – como disse o porta-voz de Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU.

Barack Obama
No que tenha a ver com o governo Obama e com o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David “das Arábias” Cameron – apoiados numa barragem de mísseis da imprensa-empresa – nada disso importa. Assad invadiu a “linha vermelha” de Obama. E ponto final. Washington e Londres estão em modo frenesi-sem-limites para desmentir qualquer fato que contradiga a decisão. Reina o duplifalar – tipo “responsabilidade para atacar”. Se só se veem semelhanças com Iraque 2.0, é porque é tudo igual. Tempos de consertar os fatos, alinhando-os à política, tudo outra vez.

Tempos de armas de enganação em massa, tudo outra vez.

O eixo de gracinhas saudita-israelenses

A janela de oportunidades para a guerra é já. As forças de Assad avançam, de Qusayr a Homs; expulsam da periferia de Damasco os “rebeldes” remanescentes; implantam-se nos arredores de Der’ah onde contra-atacam os “rebeldes” treinados pela CIA que recebem armas avançadas, pela fronteira Síria-Jordânia; e organizam o assalto para expulsar “rebeldes” e jihadis dos subúrbios de Aleppo.

Ah! Israel e Arábia Saudita mal se aguentam de tanta excitação, porque estão conseguindo exatamente o que buscavam, só com os bons velhos métodos de Rabo-Balança-o-Cachorro. Telavive até telegrafou, para dizer como quer que a coisa seja feita: na 2ª-feira, o jornal Yedioth Ahronoth estampou manchete: “A caminho para atacar”; e até ensinou a Ordem de Batalha ideal:


Há meses, até o Diretorado de Inteligências das Forças Armadas de Israel, AMAN [orig. Intelligence Directorate of the Israeli Defense Forces (IDF), AMAN] já concluíra que Assad não seria doido a ponto de cruzar a “linha vermelha” de Obama. Então, inventaram o conceito de “duas linhas vermelhas entrecruzadas”: a segunda linha seria o governo sírio “perder controle sobre seus depósitos e centros de produção de armas químicas”. E a inteligência israelense propôs outras estratégias a Washington, de uma zona aérea de exclusão, até o sequestro das armas (que implicaria ataque por terra).

Hoje se volta à opção número 1: ataques aéreos aos depósitos de armas químicas. Como se EUA – e Israel – tivessem informação atualizada minuto a minuto sobre onde exatamente se localizam os tais depósitos.

Bandar bin Sultan
A Casa de Saud também telegrafou seus desejos – depois que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome “Bandar Bush”, foi nomeado pelo rei Abdullah para chefiar a inteligência geral saudita. A fúria de Abdullah explica-se: a mãe dele e duas de suas esposas são filhas de uma tribo sunita ultraconservadora, da Síria. Quanto a Bandar Bush, tem mais vidas que Rambo ou o Exterminador: está de volta ao mesmo papel que desempenhou nos anos 1980s, na jihad afegã, quando era o garoto de recados, ajudando a CIA a armar os “combatentes da liberdade” do presidente Ronald Reagan.

A Jordânia – uma ficção de país, totalmente dependente dos sauditas – foi facilmente manipulada para tornar-se centro “secreto” de operação de guerra. E quem manda lá? Ninguém menos que o meio-irmão caçula de Bandar e vice-conselheiro nacional de segurança, Salman bin Sultan, codinome “mini-Bandar”. Versão árabe de “Dr. Evil and Mini Me” [1].

Mas há mais gente da CIA, além dos sauditas, no front jordaniano.

Tudo que se diga sobre a importância do relatório publicado no Al-Monitor é pouco. O relatório vazou inicialmente para o jornal libanês Al-Safir. Ali está toda a estratégia de Bandar, revelada em seu encontro com o presidente Putin da Rússia, sobre o qual Asia Times Online já escreveu. Depois de tentar – durante quatro horas – convencer Putin a desistir da Síria, Bandar convenceu-se: “Só resta a opção militar”.

Misture Kosovo e Líbia, e voilà!

Bill Clinton
O ex-presidente Bill Clinton resurgiu (perfeito timing) para comparar as opções de Obama na Síria e a jihad de Reagan no Afeganistão. “Bubba” acertou sobre a posição de Bandar. Mas deve ter cheirado alguma coisa, se pensava em termos das consequências – que são todas, do Talibã até aquela entidade mítica, a “al-Qaeda”. OK. Pelo menos, a al-Qaeda já está ativa na Síria; não precisarão inventá-la.

Quanto àquele bando de amadores que cercam Obama – de fãzocas da R2P como Susan Rice, à nova embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power, todos são falcões de direita – todos querem mais Kosovo. Kosovo – com uma pitada de Líbia – está sendo apresentado como modelo ideal para a Síria: R2P via ataques aéreos (ilegais). Na sequência, o New York Times já se pôs a papaguear freneticamente a mesma ideia.

Fatos, é claro, não há, nessa narrativa – nem a explosão da embaixada da China em Belgrado (remix, na Síria, com a embaixada russa?) nem chegar a um passo de guerra com a Rússia.

A Síria nada tem a ver com os Bálcãs. Na Síria, há guerra civil. A maioria da população síria urbana, não os camponeses atrasados, apoiam Damasco – por causa do comportamento terrível dos “rebeldes” nos espaços que controlam; e a absoluta maioria da população deseja solução política e as conversações, agora já quase totalmente torpedeadas, de Genebra-2.

O esquema jordaniano – inundar o sul da Síria com mercenários pesadamente armados – é remix do que a CIA e os sauditas fizeram ao Af-Pak; e os únicos vitoriosos serão os jihadistas da Frente al-Nusra. Quanto à solução que Israel espera de Obama – bombardeio indiscriminado de depósitos de armas químicas – com certeza resultará em dano colateral horrendo, com R2A que matará ainda mais civis.

O futuro permanece sombrio. Maldita nova coalizão de vontades: Washington já tem no saco os poodles britânico e francês, e pleno apoio das democráticas petromonarquias do Golfo, da Jordânia, que só obedece, e das bombas atômicas de Israel. É o que passa por “comunidade internacional”, em tempos de duplifalar.

Martin Dempsey
Os britânicos já se puseram a repetir pesadamente que não é preciso qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU [2]; quem se incomoda se é Iraque 2.0? Para o Partido da Guerra, não faz diferença alguma que o Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey já tenha dito que os “rebeldes” sírios não promovem interesses dos EUA.

Washington já tem pronto todo o necessário para que os Santos Tomahawks voem: há 384 deles já posicionados no leste do Mediterrâneo. Bombardeiros B-1 podem decolar a qualquer momento da base aérea Al Udeid no Qatar. E com certeza entrarão em cena as bombas de perfuração detona-bunker.

O que acontecerá na sequência, só com várias bolas de cristal concêntricas – de Tomahawks, a uma barragem de fogo aéreo e comandos de Operações Especiais pelo solo, até campanha sustentada de bombardeio aéreo que durará meses. Na longa entrevista que deu ao jornal Izvestia, o presidente Assad dá a impressão de pensar que Obama está blefando.

Seja como for, a Síria não será “mamão com açúcar”, como a Líbia. Mesmo semidestruído em todas as frentes, Gaddafi resistiu durante oito longos meses depois que a OTAN iniciou seu bombardeio humanitário. A Síria tem exército cansado, mas ainda muito forte, de 200 mil soldados; muito armamento soviético e russo; sistemas antiaéreos muito bons; e pleno apoio dos especialistas em guerra assimétrica, do Irã e do Hezbollah. Além da Rússia, que só precisa adiantar algumas baterias S-300 de defesa antiaérea e fornece sólida informação de inteligência.

Assim sendo, tratem de habituar-se ao funcionamento das relações internacionais em tempo de duplifalar. O exército do general Abdel Fattah al-Sisi no Egito pode matar centenas de seu próprio povo que protestavam contra golpe militar. Washington não dá bola – como se viu no golpe que não é golpe e correspondente banho de sangue que não é banho de sangue.

Não se sabe com precisão o que exatamente aconteceu na saga das armas químicas perto de Damasco. Mas é o pretexto para mais uma guerra norte-americana – apenas poucos dias antes da reunião do Grupo dos 20, em São Petersburgo, com Putin como anfitrião. Santos Tomahawks! R2A, lá vão eles.
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Notas dos tradutores
[1] Personagens de Austin Powers, em O Homem do Membro de Ouro [Goldmember, 2002]
[2] Ontem (26/8/2013), no canal GloboNews-SP, Demétrio Magnoli, aquela “sumidade” pós-graduada pela USP, disse: “Atacarão por resolução da OTAN (?!), dado que não haverá resolução da ONU”. Quem ouviu, ouviu, porque o programa, hoje, é totalmente inencontrável.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (“The Roving Eye”) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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