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domingo, 22 de junho de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 20/6/2014, Mindfriedo

20/6/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
● 19/6: Obama vacila e adia a decisão de bombardear forças antirregime no Iraque. John Simpson diz na BBC: “A fala do presidente Obama não foi a corda de salvação pela qual o governo do Iraque esperava. O Iraque contava com ataques aéreos imediatos para pôr fim aos ataques pelo ISIS/ISIL.

● 19/6: O Exército do Iraque diz ter retomado o controle de cidades na província de Diyala e que estaria retomando o controle da vizinha província Salahuddin.

● 19/6: Os Emirados Árabes Unidos convocam seu embaixador no Iraque, reclamando da marginalização de alguns setores da sociedade, em linhas sectárias.

● 19/6: O vice-presidente dos EUA convocou Maliki, Barzani e Osama Al-Nujaifi, para exigir que todos trabalhem juntos na direção da formação de um governo e de mais segurança.

● 19/6: ISIS/ISIL capturou uma antiga fábrica de armas químicas abandonada desde os tempos de Saddam em Muthana, 70 km ao norte de Bagdá.

● 19/6: Milícias de voluntários xiitas deslocadas para Diyalah e para a cidade de Samarra.

● 19/6: Combates entre homens do ISIS/ISIL e guerrilheiros da Peshmerga curda eclodiram em Kirkuk. Os Peshmergas dispararam foguetes contra posições do ISIS/ISIL.

● 19/6: Abu Khabib al-Jazaeeri, cidadão saudita, ex-comandante do ISIS/ISIL, foi morto em Tikrit, em combate contra forças de segurança.

● 19/6: A Austrália estima que haja cerca de 150 cidadãos australianos combatentes nas fileiras do ISIS/ISIL.

● 20/6: Representante porta-voz do aiatolá Sistani, Abdul Mehdi al-Karbalai disse que se o ISIS/ISIL não for “enfrentado e expulso do Iraque, amanhã todos lamentarão, quando já for tarde demais”. Sistani também pressionou a favor da constituição de um governo, nas linhas do que as urnas mostraram, e nos prazos que a lei prescreve: “É muito importante respeitar esses prazos e não os transgredir”.

● 20/6: Forças curdas estão dando combate a militantes do ISIS/ISIL nos arredores de Kirkuk. Os confrontos aconteceram no início da semana na vila de Malla Abdallah e em Basheer, cidade de maioria xiita. A luta por Basheer foi feroz, com as forças Peshmerga curdas lutando quase corpo a corpo contra o ISIS/ISIL. As forças Peshmergas noticiaram dez baixas, e retiraram-se quando ataques aéreos de forças governamentais mataram dois de seus soldados. Muitos dos habitantes de Basheer já fugiram para o Curdistão iraquiano.

● 20/6: The Telegraph noticia: Mohammed al-Khaldi, dos principais assessores de Osama al-Nujaifi (líder sunita no Parlamento) [disse que]: “Pedimos a norte-americanos, britânicos, turcos, Arábia Saudita e Irã para trabalhar no sentido de impedir que al-Maliki tenham mais um mandato. O bloco xiita tem de encontrar um nome para substituí-lo”.

Presença do ISIS/ISIL na Síria e no Iraque
(clique na imagem para aumentar)
● 20/6: A refinaria de Baiji está sob controle de forças governamentais. O último ataque pelo ISIL aconteceu na 5ª-feira (19/6/2014) à noite. Acredita-se que os militantes estejam se reagrupando, depois de notícias de que ainda ocupariam partes do complexo da refinaria. O ISIS/ISIL foi forçado a retirar-se, tendo enfrentado resistência feroz.

● 20/6: Líder da tribo Saddam, Xeique Hassan al-Nasseri: “As pessoas que estão envolvidas nessa luta nada têm a ver com as crenças de Saddam ou de seu partido Ba'ath, que foi movimento de princípios e ideologia. Nós nunca tivemos qualquer coisa a ver com al-Qaeda”.

● 20/6: “Fogo-amigo” de um helicóptero, contra tropas do governo em Dhuluyiyah, resultou na morte de um civil.

● 20/6: O governo está reunindo tropas e equipamento em Samarra para uma contra ofensiva norte.

● 20/6: Áreas nas quais as forças do governo enfrentam rebeldes do ISIS/ISIL (dentre outras): Tal Afar, Baiji, Tikrit, Samarra, Fallujah, Kirkuk, Baqouba e o oeste de Bagdá.

● 20/6: Alguns detalhes de grupos aliados ao ISIS/ISIL e onde estão ativos: o exército Naqshabandi está ativo em Kirkuk e no sudeste de Mosul.

− 19h20 Brigadas Revolucionárias, de ex-militares, combatem em Diyala.
− Fallujah assiste a uma deriva gradual em direção ao salafismo, com islamistas impondo-se, nas tribos, contra a autoridade dos anciãos.
− Na província de Ninevah, 14 facções armadas trabalham juntas (ISIS/ISIL é uma delas).
− O Conselho Tribal Revolucionário de Anbar foi formado em 2013 para combater contra as Forças de Segurança Iraquianas. Não se sabe com certeza se participam do atual conflito.

● 20/6: Muitos, se não todos, os postos de fronteira entre partes curdas da Síria e do Iraque estão sob controle dos curdos. O Partido da União Democrática (PYD) no enclave curdo na Síria sempre foi adversário do Partido Curdistão Democrático (KDP) e seus guerrilheiros Peshmergas; mas a ameaça representada pelo ISIS/ISIL os fez se aproximarem para defender interesses comuns dos curdos.

● 20/6: atrocidades cometidas pelo ISIS/ISIL, registradas pela ONU na 4ª-feira (18/6/2014):

− 17 civis que trabalhavam para a polícia em Mosul foram executados;
− 12 civis que trabalhavam para a polícia num subúrbio de Mosul foram executados;
− 4 mulheres cometeram suicídio depois de estupradas e/ou forçadas a casar, pelo ISIS/ISIL

● 20/6: As Facções Ba’ath que combatem contra o regime são duas facções que foram financiadas pelo governo sírio durante a ocupação norte-americana: uma é comandada por Ibrahim Izzat Al Dourri; a outra, pelo general-brigadeiro Mohammad Younes al-Ahmad.

● 20/6: Prosseguem confrontos entre forças rebeldes e do governo em área próximas do aeroporto Tal Afar.

● 20/6: Tuíto atribuído a Qassem Suleimani e dirigido aos rebeldes do ISIS/ISIL diz que se os takfiris/ISIS/ISIL causarem qualquer dano a algum local sagrado dos xiitas, os Mujahiddin xiitas farão as orações da tarde em Janat-ul-Baqi, na Arábia Saudita.

Ver também:

George Galloway sobre o primeiro-ministro Cameron: “Ele [Cameron] nunca respondeu a pergunta que lhe fiz há 12 meses. Ele tem de explicar à Casa [dos Comuns] as diferenças entre a al-Qaeda que apoiamos hoje em alguns países [na Síria] e a al-Qaeda que tratamos como ameaça de morte em outros países [no Iraque]”.

● O Iraque está sendo rasgado em pedaços:

● O Emir do Kuwait no Irã (embriagado, ao que parece).



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Discurso de despedida de Muqtada al-Sadr: “O Iraque é governado por lobos”

18/2/2014, [*] Muqtada Al-Sadr - Political World  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muqtada al-Sadr-iraq: Clérigo xiita iraquiano Moqtada al-Sadr fala à imprensa em Bagdá em 4 de janeiro de 2013. (Foto: Thaier Al-Sudani)
Não sou dos que se fazem de cegos e calam ante a corrupção e os malfeitos. É nosso dever, dos sadristas, ser os que trabalham e clamam por orientação.

Aqui, vemos nosso Iraque, ferido e oprimido, sob uma nuvem negra que cobriu a terra e o céu do Iraque: o sangue escorre, há guerra por toda parte, pessoas matam-se umas as outras, umas em nome da ‘lei’, algumas sob o nome de “religião”.

Amaldiçoada seja essa “lei” que faz correr sangue e viola santidades, e abaixo uma religião que dá direito de degolar, bombardear e assassinar.

E então, a política converteu-se em porta de entrada para a injustiça, a zombaria, a autocracia e a violação. E um ditador é encarregado da riqueza e a rouba; e da vida do povo e mata; e de cidades e as ataca; e de seitas e as divide; e das mentes e as suborna; e dos corações e os dilacera, para que todos votem nele, para que permaneça no poder.

No Iraque não há vida, não há plantações, não há criação de animais, não há fábricas, não há serviços, não há segurança nem proteção, não há paz. E eleições pelas quais se sacrificam milhares de vidas, tudo isso, para que um governo nos governe sem tomar conhecimento de nossos direitos e opiniões, e um Parlamento, com suas poltronas gastas, que nem consegue proteger-se, muito menos protege outros.

As raízes da corrupção no Iraque
Um Parlamento que só aceita votar sob uma condição: se houver recompensas especiais para os deputados; mas se há leis que beneficiem toda a nação, eles todos recuam, ou o assunto chega ao Gabinete, onde as leis são ou invertidas ou vetadas. Mas o Gabinete jamais vetará lei alguma que ameace as recompensas especiais para os deputados ou suas aposentadorias.

O Iraque é governado por lobos, sedentos de sangue, almas sedentas só de riquezas, que deixam a nação afundada em sofrimento, em medo, em fossas, nas noites escuras iluminadas só pela lua ou por uma vela, num pântano de assassinatos causados por diferenças ou por qualquer ridículo desentendimento. Tudo isso, e o governo só olha de longe.

O Iraque é governado por um grupo que veio do lado de lá das fronteiras. Esperamos por muito tempo que nos libertassem do ditador, só para vê-los agora firmemente agarrados às suas poltronas, em nome da xia e do xiismo.

O Imã Ali, Comandante dos que Creem (que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele), conseguia ele dormir, enquanto houvesse por perto alguém com fome? E agora, como se encheram as ruas de pessoas sem teto, sem paredes, sem o mínimo para comer, que dormem no chão nu, cobertos só pelo céu e pela chuva.

Bagdá - Praça Tahrir - Ver ao fundo monumento à Liberdade do Iraque.(16/3/2013)
Um governo inchado, estufado, que esqueceu todos os que vivem do outro lado de muralhas super vigiadas, tornou-se cego pela riqueza, por suas mansões, palácios, aviões, e ignora esse calabouço chamado “Iraque”.

Uma nação honrada, que foi engolfada por guerras, em condições tão terríveis que a reduziram a posta de carne fácil de morder, entre os dentes de políticos e líderes. Uma nação que não pede comida, mas exige ser honrada, ser voz ouvida e livre, para servir a Deus e dar prova do próprio valor.

Mas um governo veio para calar todas as vozes, para matar a oposição, para forçá-la ao exílio, para encher prisões, com todas as vozes e todos e quaisquer que tentaram libertar esse país dos tanques e aviões da ocupação.

Um governo que dominou tudo. Que não ouve ninguém, sequer a voz do Marj [professores do Islã] e sua fatwa (lei), sequer as vozes ou reclamações de seus próprios companheiros, apoiados pelo Leste e pelo Oeste, de tal modo que surpreende até os mais sábios dos homens. Nisso tudo, não queremos, nós, os sadristas, tomar os lugares ou os assentos deles, porque nós, os sadristas, somos muito superiores a tudo isso.

Atentado de 31/12/2012 – 15 mortos e 24 feridos - Musayyib (60km de Bagdá)
Queremos guiá-los, protegê-los contra seus erros, para que o Iraque seja posto em mãos mais seguras e cuidadosas. Mas eles só ouvem seus patrões, deixando para trás os sadristas e os dois mártires sadristas, e quem mais tenha uma única objeção contra eles. Xiita, sunita ou curdo, sempre será acusado de terrorismo ou de sectarismo, usando um judiciário viciado para acabar com ele, ou o exército para prendê-lo, ou usando a imprensa de propaganda ou outros meios que todos conhecem muito bem.

Nós, os sadristas, se não podemos mudar isso, dizemos: Oh, Deus, não nos associe aos opressores, associe-nos aos que amam a verdade.

Que a paz esteja com os que nos ajudaram, nós não os traímos e não os trairemos. Buscamos protegê-los e sua reputação, para que não virem cinza nessa vida. Especialmente, porque há os que tentam manipular vocês, nossos bem-amados, e até usar nosso nome, dos sadristas, para alcançar seus odiosos objetivos nessa vida. Eles enriqueceram, derramaram sangue, violaram santidades e apossaram-se da vida de pessoas usando o nosso nome, não outro.

E mesmo assim não respeitam uma fatwa, uma ordem, uma questão ou uma decisão (sequer um recado que parta de mim), sequer um conselho, nenhuma ordem, ignoram tudo.

E vocês sabem, todo o povo do Iraque, nós amamos vocês. Continuem pois em sua fé, amor, religião e apoio. Deus os fez vitoriosos por nós e nos fez vitoriosos por vocês. Vocês são uma honra para nós, exceto os desencaminhados que desencaminham outros, que escolhem essa vida, em vez da eternidade. Abaixo esses todos.

Se há entre vocês vozes honradas, políticas ou outras, que continuem em seu trabalho, mas de forma independente, afastados de mim, sob orientações gerais, baseados na retidão, na fé, no patriotismo, na sabedoria e no bem público. O Iraque não pode ser deixado entregue a gente da injustiça.

Manifestação de sadristas em novembro 2013
Mas tenho de ser para todos, não sou só para os sadristas, devotei minha vida ao Iraque, ao Islã, e tenho de permanecer para todos.

Nas decisões ou ordens que eu tenha tomado ou dado, e que vocês não consigam cumprir, busco perdão para mim e para vocês, mas me orgulho daquelas decisões até o dia do juízo, porque em todas elas tentei basear-me nele e ser inspirado pelo caminho dos dois Mártires, nas ideias deles, nas maneiras deles e não posso me afastar disso, porque eles são meus mestres e meus líderes, eles são minha autoridade e os inimigos deles são meus inimigos.

Além disso, a sociedade parece muito distante de qualquer lembrança de Deus, de qualquer respeito a Ele, e isso pôs grande distância entre eu próprio e a sociedade, em boa medida. Conclamo os fiéis a lembrar de Deus e ser obedientes, para que Ele perdoe todos nós e as portas da graça abram-se para nós, e possa essa ser uma oportunidade para que a verdade apareça. A verdade deve erguer-se e nada se erguerá acima dela.

Meus bem-amados, tenho ainda alguns pontos a mencionar:

Primeiro, a participação nas eleições. Apesar da decisão que tomei, vejo como obrigação a participação nas eleições e assim tem de ser, em grande escala, para que o governo não caia em mãos de dissimulados nos quais não se pode confiar, Deus nos livre.

Quanto a mim, devo votar e devo dar meu voto, enquanto viver, a qualquer pessoa honrada que queira servir ao povo e ficarei a igual distância de todos. Peço, pois, aos iraquianos que participem dessas eleições e não se afastem. Afastar-se nesse caso seria trair o Iraque e seu povo.

Segundo, há políticos que serviram com honestidade e com sinceridade ao povo iraquiano, “e se não fossem pios, ele teria sido destruído”, e são muitos, com a graça de Deus. Mas quero agradecer especialmente e lembrar aqui dois irmãos: o governador de Misan e o governador de Bagdá, que Deus os recompense, como recompensa os justos. Esses devem continuar e aperfeiçoar o trabalho que fazem de servir seu país.

Obrigado.



Nota dos tradutores

[1] A renúncia de Sadr à vida política veio logo depois de protestos populares contra leis recentemente aprovadas que aumentarão os benefícios e aposentadorias de altos funcionários públicos, deputados e funcionários do governo, o que pôs mais lenha nas acusações de corrupção contra o governo. Depois de anos de desapontamentos com o fraturado sistema político do Iraque, e rumores de que o governo estaria planejando expulsá-lo e os seus seguidores da cena política, não chega a surpreender que Sadr tenha afinal decidido desistir da vida política, separar-se de seu movimento político e passar a concentrar-se em seus estudos religiosos.
Mas é possível que o Iraque ainda não tenha visto tudo dessa figura política poderosa e em vários sentidos icônica. (...)
Ontem, dois dias depois de seu discurso de despedida, Sadr fez discurso pela televisão em que acusou o primeiro-ministro de “corrupto, ditador e tirano”. Acusou-o de perseguir e matar a oposição e de liderar “uma matilha de lobos famintos de assassinatos e loucos por dinheiro” (19/2/2014, Livia Bergmeijer, Muftah – Free & Open Debate em: Moqtada al-Sadr: Al-Maliki Is a “Tyrant” and His Government Is “Corrupt”)