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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cinema revolucionário na Praça Tahrir

Deena Adel


14/7/2011, Deena Adel, Al-Ahram Online, Cairo
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Com a arte e o entretenimento assumindo as mais diferentes formas, frente à vastíssima audiência na Praça Tahrir, no Cairo, era só questão de tempo antes que aparecesse ali uma tela de cinema.
Os manifestantes do movimento 8 de Julho festejaram a novidade, ao ver que uma tela de cinema estava sendo preparada próxima à ponte Qasr El-Nil ontem à noite, para o Cine Tahrir. Houve sessões ontem e hoje, e os organizadores esperam exibir filmes todas as noites.

Centenas de pessoas reuniram-se para assistir a filmes de curtas-metragens filmados durante os primeiros dias do levante popular e dos mais diversos autores, de amadores a diretores e fotógrafos experientes.

“Queríamos que as pessoas não esquecessem o que elas já conseguiram” – disse o cineasta Omar Robert Hamilton, um dos organizadores do Cine Tahrir. “Aqui é o espaço para todas as novas vozes que surgiram da revolução.” 

Além de Hamilton, vários artistas, músicos, fotógrafos, cineastas e atores, entre os quais o ator Khalid Abdalla, colaboraram para organizar e implantar o Cine Tahrir.
Estão trabalhando em estreita colaboração com outro grupo, Mossireen, que organiza um coletivo de jornalismo cidadão – um arquivo de filmes e materiais gráficos produzidos durante a revolução – que será reunido em local público para que todos tenham livre acesso ao arquivo. No mesmo local funcionará uma oficina popular de técnica cinematográfica e de uso de programas de edição eletrônica, aberta a todos os interessados.

A principal dificuldade dessa vez não foram as de sempre, relacionadas a autorizações, alvarás e segurança. “Ninguém precisa pedir licença a ninguém para fazer as coisas na Praça Tahrir” – disse Hamilton, rindo. O principal problema foi levar o equipamento para a Praça e construir a tela com madeira e plástico.
Mas valeu a pena. O “público” reagiu com entusiasmo, muita gente oferecendo-se para ajudar, trazendo seus próprios vídeos e filmes feitos durante a revolução.

Ontem, o Cine Tahrir estava em plena atividade, o “público” de olhos colados na tela, todos conversando sobre o quanto já foi feito desde aqueles primeiros dias.

Cada rosto mostrava as próprias lembranças, umas mais emocionais, outras mais, de fato, carnais. “Essa cicatriz é desse dia!” – gritou alguém, apontando a própria testa, ante a tela que mostrava imagens da “Batalha do Canal”, do dia 2 de fevereiro.

Considerando a reação positiva, Hamilton confirmou que “faremos o possível para que haja cinema aqui todas as noites”. Além de filmes feitos na própria praça, o Cine Tahrir exibirá documentários que tratem de questões relacionadas à revolução egípcia. 

domingo, 10 de julho de 2011

Manifestações na Praça Tahrir entram no segundo dia

As sete exigências dos manifestantes egípcios

9/7/2011, Salma Shukrallah, Al-Ahram, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Milhares de egípcios estão ocupando a Praça Tahrir no centro do Cairo, mantendo ativo o movimento “6ª-feira da Determinação”. Os manifestantes fixaram uma relação de sete exigências, como condições a serem atendidas para que desocupem a Praça. 

Fridat determinação à noite
A noite cai sobre a “6ª feira da  Determinação” na Praça Tahrir, 8 de julho
Há dúzias de tendas na ilha central da praça e na área próxima à mesquita Omar Makram. Os pontos de controle estão mantidos. Para entrar na praça é preciso exibir documento de identidade e passar por revista. 

As marchas e cantos prosseguiram até perto das 2h da manhã da 6ª-feira. E recomeçaram às 9h da manhã desse sábado, já com a praça outra vez completamente tomada por manifestantes e fechada ao tráfego de veículos.

Na 6ª-feira à noite os manifestantes recolhiam assinaturas dos diferentes grupos, partidos e movimentos políticos reunidos na Praça, em documento que sintetiza sete exigências a serem encaminhadas ao governo, como manifesto conjunto de apresentação das condições para que a ocupação da Praça seja levantada e para que se suspendam outras manifestações semelhantes que estão acontecendo em todo o Egito.

Essas reivindicações são:

1) Devem-se anular todos os julgamentos de civis por tribunais militares, com imediata soltura de todos os civis presos condenados por tribunais militares. Devem-se proibir todos os julgamentos de civis por tribunais militares. Civis devem ser julgados por tribunais civis. 

2) Deve-se criar tribunal especial para julgar todos os envolvidos no assassinato de manifestantes durante a Revolução 25 de Janeiro. Todos os policiais implicados devem ser imediatamente suspensos.

3) Deve-se demitir o atual ministro do Interior e substituí-lo por civil. Imediatamente o novo ministro deve apresentar plano e cronograma para completa reestruturação do Ministério do Interior, que deverá ficar submetido a controle judicial.

4) Deve-se demitir o atual Procurador Geral e substituí-lo por alguém respeitável, de reputação ilibada.

5) Devem-se processar e julgar Hosni Mubarak e todos os membros de sua claque por crimes políticos cometidos contra o Egito e seu povo.

6) Deve-se revogar o atual Orçamento e elaborar outro que vise decidida e corajosamente a atender as demandas básicas dos mais pobres do Egito. Esse orçamento deverá ser objeto de discussão pública e terá de ser aprovado antes de ser adotado. 

7) Devem-se fixar e divulgar todas as prerrogativas do Conselho Supremo das Forças Armadas, para garantir que não sejam mais amplas que as prerrogativas do Gabinete. O primeiro-ministro deve ter plenos poderes para apontar os membros e principais assessores de seu Gabinete. Devem ser excluídos do Gabinete todos os nomes que tenham tido qualquer relação com o antigo regime.

sábado, 9 de julho de 2011

Os sindicatos, na Praça Tahrir: “PRESENTE!” (excerto)


8/7/2011, Sarah Lynch, The Christian Science Monitor
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Os manifestantes entoam palavras de ordem durante um protesto na Praça Tahrir, ponto focal da revolta egípcia, no Cairo, Sexta, 8 de julho. Milhares de egípcios tomaram as ruas de todo o país para exigir justiça para as vítimas do regime de Hosni Mubarak e pressionar o novo governo militar para um plano claro de transição para a democracia.

Manifestantes cantam palavras de ordem na Praça Tahrir, ponto focal do levante egípcio no Cairo, nessa 6ª-feira, 8 de julho. Milhares de egípcios tomaram as ruas em todo o país, exigindo justiça para as vítimas de Hosni Mubarak e para pressionar o novo governo militar a apresentar plano claro da transição para a democracia.

Numa sala de um prédio centenário no centro do Cairo, Kamal Abu Eitta levanta-se da cadeira e junta as mãos, braços esticados acima da cabeça, para mostrar o tipo de tortura que sofreu durante o governo de Mubarak.

Membro ativo de seu sindicato e militante há muito tempo, durante a ditadura de Mubarak, Abu Eitta diz que passou por queimaduras, choques elétricos, chicoteamento, pendurado a um gancho na parede, naquela posição.

É um dos milhares de egípcios reunidos na Praça Tahrir na 6ª-feira, 8 de julho, para exigir o fim dos tribunais militares para civis e julgamento imediato dos funcionários do governo Mubarak acusados de corrupção. Mas diz que vem também por outro motivo: para lutar por direitos dos trabalhadores que ele e muitos outros defendem há décadas, no Egito.

O movimento sindical é uma das forças mais influentes durante esse período crítico da transição democrática no Egito.

“O movimento sindical é o único que nunca parou de lutar. Trabalhou todos os dias, na resistência à ditadura” – diz o ativista e jornalista Hossam al-Hamalawy. “Se bombardearem a Praça Tahrir, chamaremos uma greve geral”. 

Praça Tahrir: “8 de julho. Agora, viemos para ficar”


8/7/2010, Fatma Naib, Al-Jazeera –
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ativistas pró-democracia no Egito reiniciaram vasta campanha – nas ruas, online e por outros meios – para levar a multidão de volta à Praça Tahrir e ocupar novamente a área, em nova onda nacional de manifestações pacíficas.
Milhares de manifestantes pró-democracia se reuniram na praça Tahrir para exprimir a sua raiva e frustração

“A revolução nunca terminou. Prosseguirá até que todas as exigências do povo sejam atendidas” – disse Abdelrahman Ghareeb, 26 anos, engenheiro de programação, que participa das manifestações na Praça Tahrir desde 25 de janeiro. 

Seis meses depois daquele dia, o dia 8 de julho está sendo chamado “Dia do 1 Milhão de Egípcios na Praça”, manifestação que os ativistas esperam que seja o maior, desde que a revolução derrubou do poder o ditador Hosni Mubarak, no início de fevereiro. A manifestação visa a levar a julgamento e à prisão ex-funcionários do governo Mubarak que ainda participam do conselho militar que está governando o Egito desde a derrubada de Mubarak.

Mona Seif
Como disse Mona Seif, ativista de direitos humanos, por sua página Facebook: “Dessa vez, estarei na Praça Tahrir desde a meia-noite. E vou para ficar.” 

Seif, que organizou a campanha “Diga não aos tribunais militares para julgar civis”, tem chamado a atenção para várias prisões de civis, desde a revolução. 

A campanha para “O Dia do 1 Milhão de Egípcios” ganhou impulso depois dos confrontos na Praça Tahrir entre manifestantes e forças da segurança dia 29 de junho, que deixou mais de 1.000 feridos.  

A violência gerou tumultos que começaram em Suez, quando manifestantes tentaram invadir um quartel da segurança depois de o Tribunal ter libertado sob fiança sete policiais acusados de matar manifestantes nas manifestações do início do ano. Para muitos egípcios, esses eventos e outros semelhantes comprovam que nada mudou nos últimos cinco meses.  

Durante a convocação para os protestos dessa 6ª-feira, 8 de julho, muitos ativistas modificaram seus perfis nas redes sociais, principalmente no Facebook, e introduziram um cartaz com as palavras “8 de Julho”.

Gigi Ibrahim
“Voltaremos à Praça Tahrir, porque nada do que exigimos foi feito. Queremos liberdade, justiça social e igualdade” – disse à Al-Jazeera Gigi Ibrahim, ativista, 24 anos. 

“Os corruptos continuam onde sempre estiveram, de Mubarak aos policiais que mataram manifestantes” – acrescentou ela.

E continuou: “A revolução já tem cinco meses, e o governo e o conselho supremo ainda não deram sinais de que querem ou pensam em tomar as medidas necessárias para fazer o que exigimos. Estamos voltando à Praça Tahrir e a outras praças, para pressionar e reafirmar os princípios pelos quais os egípcios lutam desde 25 de janeiro.”

Noor Noor
Noor Noor, ativista, 20 anos, está desestimulado. Diz que nada mudou no Egito. Preocupa-o que o governo militar de transição esteja manipulando a narrativa das já históricas manifestações de janeiro.

“Acho que estão tentando nos fazer crer que a revolução terminou dia 11 de fevereiro, quando Mubarak foi derrubado. Não se vê qualquer movimento positivo de mudança” – diz Noor.

“Queremos lembrar o povo de que a revolução só começou e que temos de continuar até que todas as nossas exigências sejam atendidas”.

Ghareeb, o engenheiro de programação, disse que voltará à Praça Tahrir para protestar contra o que entende como tentativa do governo de usar o Judiciário para proteger seus apaniguados e encarcerar ativistas.

“Os tribunais militares para julgar civis têm de parar. Há centenas de civis presos, que não estão recebendo julgamento justo. Alguns deles além de inocentes, são revolucionários como nós, que puseram a própria vida em risco durante e depois da revolução por nosso país. Vivemos sob ditadura por tempo demais. Agora, a ditadura tem de acabar” – disse ele.

Quanto à ameaça de repressão violenta pelas forças policiais e no confronto com apoiadores do governo, a jornalista Sarah Abdelrahman, 23 anos, teme que a violência seja ainda maior, agora, do que no início do ano.

“Não tenho medo da brutalidade, porque já aprendemos a encarar o que vier, desde janeiro. Faremos o que tiver de ser feito até alcançar um Egito livre” – disse ela a Al-Jazeera, na 6ª-feira, 8 de julho.

“Estamos preparados. Eles vêm com as armas. Nós, com nosso sonho”.

domingo, 20 de março de 2011

Egípcios votam em massa em referendo histórico sobre reformas

20/3/2011, Al-Manar TV, Líbano 
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu e na Praça Tahrir:

“O caminho da democracia é dificílimo sempre. Mas fica ainda muito mais difícil, se nem os EUA nem a ONU nem a imprensa-empresa confiam na democracia e só confiam na força das armas. 
O que hoje acontece no Egito, por difícil que seja, é mil vezes mais fácil e mata mil vezes menos gente, que a ‘solução’ da guerra, que os EUA/OTAN impuseram ao povo da Líbia. 
Gaddafi não é importante. É um ditador a mais, e as guerras de EUA/OTAN só fazem trocar um ditador, por outro, há CINQUENTA ANOS. 
O povo árabe já aprendeu a derrubar todos os ditadores que apareçam por lá, e o que não sabia antes, aprenderá agora, PACIFICAMENTE. 
Como as praças árabes ensinam hoje, “é normal que haja confusão e tumulto, quando os egípcios votam pela primeira vez NA VIDA, em eleições cujo resultado não foi acertado na véspera”. 
Só as praças têm e ensinam essa sabedoria clara, mais eloqüente que cem mil bombas.
Basta, pra que todo o mundo aprenda essa verdade clara, que EUA/OTAN não se metam.”

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Eleições no Egito
Os egípcios acorreram em massa às urnas hoje, pela primeira vez desde que a Praça Tahrir derrubou Hosni Mubarak, para votar no referendum reformas políticas, A votação foi tumultuada por ataque contra um dos candidatos virtuais à presidência, Mohamed El Baradei.

Os jovens agrediram com pedradas o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU, quando El Baradei tentava votar no referendo constitucional que decidirá se haverá eleições imediatas no Egito, ou se o país esperará pela reforma da Constituição.

“Não queremos você! Não queremos você” – gritava um grupo de cerca de 60 manifestantes, a maioria dos quais adolescentes. “Fui votar com minha família e fomos agredidos”, El Baradei escreveu pelo Twitter. “Ainda há figuras do governo Mubarak, minando a revolução”, disse ele.

Explicação alternativa pode ser que os jovens identificam em El-Baradei o agente que fiscalizou obcecadamente as instalações seguríssimas dos reatores nucleares iranianos e NÃO VIU que os reatores japoneses não foram construídos para resistir a terremotos perfeitamente previsíveis no Japão e que, até hoje NUNCA danificaram reatores iranianos.

Propaganda Eleitoral
Outros observadores disseram que é normal que haja algum tumulto, quando os egípcios votam, pela primeira vez na vida, em eleições cujos resultados não foram combinados na véspera. 

Os eleitores foram consultados sobre se aprovam ou rejeitam as reformas já propostas por uma comissão de juízes indicada pela junta militar do governo de transição, que recomenda que as eleições sejam realizadas em futuro mais distante, depois de haverem prometido eleições imediatas. 

O referendo dividiu os egípcios entre os que entendem que a Constituição tem de ser completamente reescrita (“reformistas”), e os que entendem que, por hora, basta que se emendem alguns artigos (“emendistas”).

A Fraternidade Muçulmana alinhou-se com os “emendistas”, apoiando a via das emendas-já e eleições-já. Com isso, a Fraternidade Muçulmana ficou em posição de oposição a grupos seculares “reformistas” que desejam reescrever a Constituição com eleições adiadas para depois de aprovada a nova constituição, entre os quais estão grupos de El Baradei e do presidente da Liga Árabe Amr Moussa, que também é candidato à presidência.

Remanescentes do Partido Nacional Democrático de Mubarak (NDP) também manifestaram apoio a ideia de emendar-se a atual constituição. Todos esses, segundo os que pregam que se reescreva a Constituição, são vistos como ameaça a qualquer mudança profunda que, agora ficaria adiada, se o referendo decidir que só se façam  emendas à atual Constituição.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Indonésia-Turquia-Brasil: o Egito será um IndoTurcoSil?

Pepe Escobar

13/3/2011, Pepe Escobar, Tom Dispatch
e em 14/3/2011 em Asia Times Online
Mummies and models in the new Middle East
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Três múmias foram recentemente descobertas no subterrâneo de um templo em Luxor, no Egito. Traduzidos os hieróglifos, viu-se que eram O Choque de Civilizações, o Fim da História e a Islamofobia. Reinaram no ocidente na segunda década do século 21, até que morreram e foram embalsamadas.

Essa parte está resolvida. Sem as três, o Oriente Médio já é um novo mundo e pode ser compreendido de outro modo. Não se sabe por quê, o Egito – até há pouco tempo terra moribunda da “estabilidade” e lambe-botas de qualquer um que estivesse no poder em Washington – foi metido no Novo Grande Jogo do Oriente Médio. 

A questão é: será destino do Egito – e destino dos milhões de egípcios que tomaram as ruas em espantoso show de potente não-violência, em janeiro e fevereiro?

Impossível dizer, especialmente porque a norma é o jogo de sombras, e as realidades do poder são duras de entender. Em país no qual “a política” significou, durante décadas, “o exército”, é notável que o ator chave que supostamente coordena a “transição para a democracia” ainda seja o indicado pelo Faraó Hosni Mubarak, Marechal-de-Campo Mohamed Hussein Tantawi do Conselho Supremo do Exército. Mas, pelo menos, a pressão popular forçou a junta militar de Tantawi a indicar outro primeiro-ministro provisório, o amigo-da-Praça-Tahrir e ex-ministro dos Transportes Essam Sharaf.

Lembrem todos que as odiadas leis de emergência da era Mubarak, parte das quais provocaram o levante egípcio, ainda são vigentes; e que intelectuais egípcios, partidos políticos, sindicatos e a mídia, todos, temem que esteja em marcha uma contrarrevolução silenciosa. Ao mesmo tempo, todos quase uniformemente insistem em que a revolução da Praça Tahrir não será capturada nem reposicionada por oportunistas. Dado que se superou a divisão entre liberalismo, secularismo e islamismo quando veio abaixo o Muro do Medo psicológico, advogados, médicos, trabalhadores da indústria têxtil – boa amostra de toda a sociedade civil egípcia – sabe com clareza de uma coisa: não aceitarão nem uma teocracia nem ditadura militar. Querem plena democracia.

Não surpreende que os círculos diplomáticos ocidentais tremam ante essas evidências. Nenhum exército egípcio que seja, mesmo que só remotamente, transparente, e que preste contas a governo civil eleito, jamais, por exemplo, colaborará no sítio aos palestinos de Gaza, nem participará de programas de “tutela excepcional” da CIA, prestando-se a receber suspeitos de terrorismo para serem interrogados nas prisões egípcias, nem tomará parte na monstruosa farsa conhecida como “o processo de paz Israel - palestinos”.

Simultaneamente, há questões mais pedestres a serem enfrentadas: como, por exemplo, a transição-comandada-pelo-exército conseguirá que, até as eleições de setembro, os números da economia melhorem? Em 2009, o Egito importou 56 bilhões e só exportou 29 bilhões de dólares. O turismo, a ajuda externa e empréstimos ajudaram a cobrir o rombo. O levante levou o turismo para o marco zero e sabe-se lá que ajudas e empréstimos alguém oferecerá ao Egito, em futuro próximo.

Seja como for, o país terá de importar nada menos que 10 milhões de toneladas de trigo em 2011 ao preço de cerca de $3,3 bilhões de dólares (se o preço dos grãos parar de aumentar) para manter a população, no mínimo, semialimentada. Essa é só uma parte da herança maldita de Mubarak, que inclui 40 milhões de egípcios, mais da metade da população, vivendo com menos de 2 dólares/dia, e herança maldita que não sumirá da noite para o dia, supondo-se que suma, algum dia.

Atropeladas por uma revolução que rola, pacífica, por todo o Oriente Médio/África do Norte [ing. MENA Middle East and Northern Africa], Washington e uma Fortaleza Europa cada vez mais velha, trêmulas de medo, afundam-se num pântano de perplexidade. Mesmo quando amainem os ventos das rebeliões do Norte da África, nem assim se poderá dar por garantido que entenderão como todos os estereótipos culturais sempre usados para explicar o Oriente Médio, ao longo de décadas, também conseguiram sumir.

O meu slogan favorito, da Grande Revolta Árabe de 2011, ainda é a frase de Sahrhan Dhouib, intelectual tunisiano: “Essas revoltas são a resposta ao plano de [George W.] Bush, que planejava democratizar o mundo árabe com violência”. Se “choque e pavor” já se foi também para a lata do lixo da história... O que mais também irá? 

Modelos para Alugar ou Vender

Dia 3/2, a Fundação Turca de Estudos Econômicos e Sociais [ing. Turkish Economic and Social Studies Foundation publicou resultado de pesquisa realizada em sete países árabes e no Irã. Nada menos que 66% dos respondentes declararam que consideram a Turquia, não o Irã, como modelo ideal para o Oriente Médio. A mídia, do Le Monde ao Financial Times agora, é claro, já concordou. Afinal, a Turquia é democracia funcional em país de maioria muçulmana, na qual mesquitas e Estado vivem separados.

O brilhante intelectual islâmico Tariq Ramadan, neto do fundador da Fraternidade Muçulmana Hassan al-Banna, já falara também recentemente da “via turca”, como “fonte de inspiração”. No final de fevereiro, o ministro do Exterior da Turquia Ahmet Davutoglu concordou, com alguma dose de modéstia, que mal disfarçava as ambições da nova Turquia; insistiu que seu país não aspira a ser modelo de coisa alguma na região, “mas queremos ser fonte de inspiração”. 

Samir Amin, economista marxista egípcio – muito respeitado em todo o mundo em desenvolvimento – suspeita que, sejam quais forem os desejos e esperanças de turcos e outros, inclusive de muitos egípcios, Washington tem planos bem diferentes para o futuro do Egito. Amim acredita que Washington deseja, não algum modelo turco, mas um modelo paquistanês para o Egito: um mix de “poder islâmico” e de ditadura militar. Amin está convencido de que jamais decolará, porque “o povo egípcio está hoje altamente politizado.”

O processo de verdadeira democratização que começou nos distantes anos 1950s na Turquia mostrou ser estrada bem longa. Apesar de tudo, apesar dos periódicos golpes militares e do continuado poder político do exército turco, as eleições foram e continuam a ser livres. O partido Justiça e Desenvolvimento [AKP], hoje no poder, foi fundado em agosto de 2001, por ex-membros do partido Refah, grupo islâmico muito mais conservador, com ideologia semelhante à da Fraternidade Muçulmana egípcia de hoje.

Enquanto o AKP ia-se moderando, contudo, a ala pró-business, pró-União Europeia dos islamistas turcos ia-se misturando com políticos de centro direita e, em 2002, o AKP finalmente chegou ao poder em Ancara. Só então puderam começar a minar lentamente a fortaleza da elite turca tradicional de Istambul, combinada aos militares, que se mantivera no poder desde os anos 1920s.

Mas o AKP não delira com desmantelar todo o sistema secular que foi implantado na Turquia pelo Pai Fundador, Mustapha Kemal Ataturk, em 1924. O Código Civil turco, que Ataturk instituiu, foi inspirado no Código Civil suíço: a cidadania baseada em lei secular. Apesar de o país ser predominantemente muçulmano, o povo simplesmente não aceitaria sistema que, como o do Irã Khomeinista, seja dirigido pela religião.

O partido AKP deve ser visto como o equivalente dos Democratas Cristãos na Europa depois dos anos 1950s – dinâmicos, conservadores orientados para o business, com raízes religiosas. No Egito, a ala moderada da Fraternidade Muçulmana tem várias semelhanças com o AKP e inspira-se nele. No novo Egito, ele será finalmente partido político legítimo, e muitos especialistas estimam que possa obter 25-30% dos votos, na primeira eleição da nova era. 

Todos os caminhos levam a Tahrir

Críticos turcos – quase todos da casta que segue a orientação técnico-gerencial do ocidente – têm denunciado regularmente o modelo “democracia-com-Islã” turco de ser pouco mais que “casamento arranjado” pelo marketing, ou, pior, de ser versão médio-oriental, da Rússia. Afinal, o exército preserva poder ainda desproporcional, por trás das cortinas, como garantidor da moldura secular do Estado. E a minoria curda que vive na Turquia ainda não está realmente integrada no sistema (embora, em setembro de 2010, os eleitores turcos tenham aprovado as alterações na Constituição que ampliam os direitos de cristãos e curdos).

Com seu glorioso passado otomano – observa Orhan Pamuk, que em 2006 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura –, a Turquia jamais foi colonizada por qualquer potência mundial; por isso, as ideias de: “venerar a Europa ou imitar o ocidente jamais tiveram, na Turquia, as conotações de humilhação” de que falam Frantz Fanon ou Edward Said e que se aplicam ao resto do Oriente Médio e do Norte da África.

Há flagrantes diferenças entre a via turca para uma democracia desmilitarizada em 2002 e o caminho que se delineia à frente para os jovens manifestantes egípcios e os nascentes partidos políticos. Na Turquia, os principais atores são islamistas pró-business, conservadores, neoliberais e nacionalistas de direita. No Egito, são islamistas pró-sindicatos, de esquerda, liberais e nacionalistas de esquerda.

A revolução da Praça Tahrir foi desencadeada, essencialmente, por dois grupos de jovens: o Movimento de Jovens 6 de Abril [orig. April 6 Youth Movement] (nascido da solidariedade com trabalhadores grevistas) e o movimento Todos Somos Khaled Said [orig. We all are Khaled Said] (mobilizado contra a brutalidade da polícia). Depois, os dois movimentos receberam a solidariedade de ativistas da Fraternidade Muçulmana e – fator decisivo – dos sindicatos organizados, das massas de trabalhadores (empregados e desempregados) que padeceram anos os efeitos venenosos do “ajuste estrutural” inventado pelo Fundo Monetário Internacional. (Ainda em abril de 2010, uma delegação do FMI, em visita ao Cairo, elogiava “os progressos de Mubarak”.)

A revolução na Praça Tahrir criou as necessárias conexões de modo muito ampla e profundamente abrangente. Conseguiu exibir toda a complexa equação e ir ao coração da matéria, aproximando salários miseráveis, desemprego em massa e pobreza sempre crescente, aos meios pelos quais os asseclas de Mubarak (e o establishment militar) se autoenriqueciam. Daqui em diante, em qualquer demonstração que se faça, o modo como os militares controlam parte tão significativa da economia terá de aparecer como assunto que já não se pode ocultar – por exemplo: empresas que são propriedade do exército, continuam a comandar as indústrias da água, do azeite de oliva, do cimento, da construção, dos hotéis e do petróleo; e militares são proprietários de áreas importantes de terra no Delta do Nilo e junto ao Mar Vermelho, “presentes” que receberam pelo serviço de garantir a estabilidade do regime.

Não surpreende pois que setores chave do ocidente estejam tentando empurrar goela abaixo do Egito uma variante “segura” do modelo turco. Mas, de fato, dada a miséria extrema que devassa o Egito, é pouco provável que os jovens manifestantes e os trabalhadores e sindicatos que os apoiam sejam ‘pacificáveis’ pela possibilidade de um estado à moda turca, neoliberal e islamo-democrático. No Egito, a coalizão esquerda-liberais-islamistas busca uma modalidade de democracia amiga dos sindicatos-trabalho-trabalhadores, independente e realmente soberana. Ninguém precisa do diploma de PhD que Saif al-Islam al-Gaddafi comprou e a London School of Economics vendeu-lhe, para saber que esse tipo de nova configuração independente pode ter efeitos cataclísmicos no status quo.

“Espelho, espelho meu...” 

É importante entender bem: queiram os ativistas da Praça Tahrir reproduzir no Egito o sistema turco, ou não queiram, a Turquia é imensamente popular no Egito, e mais popular também, a cada dia, em todo o mundo árabe. Assim os políticos de Ancara encontram o cenário perfeito para consolidar a liderança do país no plano regional, que cresce visivelmente desde 2003; e os turcos afirmaram a própria independência ao não admitir que soldados dos EUA cruzassem por território turco, como George W. Bush deseja, a caminho de invadir o Iraque.   

Essa popularidade só fez aumentar depois que se soube que oito dos nove assassinados por comandos israelenses no ataque-fiasco contra a Flotilha da Paz, em Gaza, eram cidadãos turcos. Quando o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan condenou furiosamente Israel por aquele “amaldiçoado massacre”, imediatamente se converteu em “Rei de Gaza”. Quando Mubarak afinal respondeu às manifestações na Praça Tahrir e anunciou que não seria candidato à presidência em 2011, o presidente Obama nada ou quase nada disse; o ex-primeiro-ministro britânico ‘recomendou’ que o Egito “não se precipitasse na direção de eleições”; e Erdogan outra vez fez melhor: de fato, ordenou que Mubarak renunciasse, ao vivo, pela al-Jazeera, à vista de todo o mundo muçulmano.

Enquanto Washington atrapalha-se cada vez mais, com medo de ofender o lado errado da história e, mesmo isso, sempre de modo relutante e caótico, ao lado de defensores de Mubarak do quilate de Israel e Arábia Saudita,  Erdogan – analista sofisticado da política regional – não vacilou e alinhou-se aos egípcios que, na praça, lutavam para traçar o próprio destino. Valeu a pena. Acertou. 

O importante não é que os EUA estejam “perdendo” a Turquia, nem, como disseram alguns críticos, que Erdogan sonhe com tornar-se um califa neo-otomano (seja lá o que signifique). O que se deve entender é que já se vê com clareza um novo conceito sob o qual os turcos estão trabalhando: a profundidade estratégica. 

Para saber disso, é preciso recorrer a um livro, Stratejik Derinlik: Turkiye’nin Uluslararasi Konumu (Profundidade Estratégica: a Posição Internacional da Turquia), publicado em Istambul em 2001, cujo autor é Ahmet Davutoglu, então professor de Relações Internacionais na Universidade de Marmara e, hoje, ministro das Relações Exteriores da Turquia.

Naquele livro, Davutoglu examinou um futuro que hoje parece mais próximo a cada dia, e pôs a Turquia no centro de três círculos concêntricos: 1) os Bálcãs, a bacia do Mar Negro e o Cáucaso; 2) o Oriente Médio e o Mediterrâneo Oriental; e 3) o Golfo Persa, a África e a Ásia Central. Em matéria de áreas de influência, já em 2001 o atual ministro turco já entendia que a Turquia podia exigir direitos de atuar em pelo menos oito: no Bálcãs, no Mar Negro, no Cáucaso, no Mar Cáspio, na Ásia Central turca, no Golfo Persa, no Oriente Médio e no Mediterrâneo. Hoje, aquele professor e atual ministro é ator chave e, em muitas dessas mesmas áreas de influência, muitas gente já observa atentamente a Turquia. O ministro Davutoglu vive momento notável; continua convencido de que Ancara será uma força a ser reconhecida no Oriente Médio. Para explicar, o ministro diz apenas: “O Oriente Médio é nossa casa”. 

Tome-se então o conceito de “profundidade estratégica” da Turquia e combine com a Grande Revolta Árabe de 2011, e você logo entenderá por que Erdogan apostou suas fichas não só em oferecer o modelo turco como modelo útil aos egípcios e, mesmo, a todo o Oriente Médio, como, também, adiantou-se ao Egito para ocupar a função de entre a Região e o Ocidente. Que Erdogan e Davutoglu já andavam nessa direção, estava bem claro no modo como, nos últimos anos, tentaram inserir-se como mediadores entre Síria e Israel e acenaram ao Irã, com uma complexa abertura política, diplomática e econômica.

Por falar de ironias históricas: no instante em que os fundamentalistas iranianos assistiam à derrocada do regime egípcio, que sempre lhes fora hostil, outra vez, de repente, o Movimento Verde iraniano reapareceu nas ruas de Teerã – exatamente durante visita de ninguém menos que o presidente Abdullah Gul da Turquia. Os protestos foram enfrentados com luvas de veludo (pelos padrões iranianos), porque a ditadura militar do mulariato viu-se em posição fraca ante o aliado turco, já bem adiantado na via para tornar-se principal fonte inspiracional dos movimentos árabes de massa. 

Java, democracia e cafezinho?

Mas nem por isso a Turquia é o único país do qual os egípcios podem obter lições úteis sobre a construção de democracias. A Turquia não é, de modo algum, a única fonte possível de inspiração. Os egípcios podem examinar também, por exemplo, a América Latina. 

Pela primeira vez em mais de 500 anos, a América do Sul está, toda ela, sob governos democráticos. Como no Egito, e em muitos países da América Latina durante a Guerra Fria, a ordem do dia foram as ditaduras, com militares na administração do Estado. 

No Brasil, por exemplo, a abertura política “lenta, gradual e segura” para livrar-se das ditaduras militares alongou-se por mais de uma década.

É indispensável ter paciência. O mesmo se aplica a outro modelo interessante, que os egípcios devem também considerar: a Indonésia. Ali, em 1998, Suharto, ditador senil, apoiado pelos EUA e há 32 no poder, afinal decidiu renunciar, poucos dias depois de voltar, precisamente – e de onde mais seria? – do Cairo. Naquele momento, a Indonésia parecia-se muito ao Egito de fevereiro de 2011: nação predominantemente muçulmana, aliada do ocidente, cada dia mais miseravelmente pobre e mais farta daquela ditadura militar megacorrupta que assassinou intelectuais da esquerda e, igualmente, políticos islamistas.

Hoje, 13 anos depois, a Indonésia é a terceira maior e a mais livre democracia do sudeste da Ásia, com governo secular, economia florescente e os militares expulsos da vida política.

Lembro vivamente, andando de bicicleta em maio de 1998 pela capital da Indonésia, Jakarta, a cidade literalmente em chamas, a fúria subindo aos céus em infinitas colunas de fumaça. Washington não interveio daquela vez, nem a China, nem nenhum dos 10 membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático [ing. Association of Southeast Asian Nations]. Os próprios indonésios deram jeito em tudo. A transição se fez conforme uma Constituição existente mas, até então, quase completamente ignorada. (No Egito, a Constituição, agora, terá de ser emendada via um referendum.)  

Sim, os indonésios tiveram de conviver durante algum tempo com um vice-presidente escolhido por Suharto, o afável B.J. Habibie (em tudo diferente do sucessor que Mubarak escolheu, o sinistro Omar “Xeque al-Tortura” Suleiman). Demorou um ano, para que se organizassem novas eleições, se emendassem as leis eleitorais e se pusesse fim aos deputados nomeados para o Parlamento. Seis anos se passaram, antes das primeiras eleições diretas para presidente. E, sim, a corrupção ainda é problema imenso, e riqueza e contatos certos ainda ajudam muito (como também é verdade, lembrariam alguns, nos EUA). Mas hoje a Indonésia vive sob Estado de Direito.

Nenhum “estado islâmico” teve lá qualquer chance. Hoje, só 25% dos indonésios votam para partidos islamistas, e o bem organizado Partido da Justiça e da Prosperidade, descendente ideológico da Fraternidade Muçulmana mas, hoje, ideologicamente aberto também a não muçulmanos, ocupa apenas quatros dos 37 lugares no Gabinete do presidente Yudhoyono e não conta com obter mais de 10% dos votos nas eleições previstas para 2014.

Enquanto a Indonésia permanece fechada aos EUA e é incansavelmente cortejada por Washington como possível contrapeso à China, o Brasil, sob a presidência do imensamente popular presidente Luis Ignacio “Lula” da Silva traçou caminho ainda mais independente para o próprio país e, seguindo esse exemplo, o mesmo fizeram muitos países da América Latina. Todo o processo consumiu quase uma década e historiadores futuros talvez o considerem, no mínimo, tão significativo quanto a derrubada do Muro de Berlim.

Na Europa Oriental, 1989 pode ser visto em parte como uma cadeia de rebeliões populares, movidas por pessoas que queriam acesso ao mercado global. A Grande Revolta Árabe, por sua vez, foi levante contra, em grande parte, a ditadura daquele mesmo mercado. 

Os manifestantes, da Tunísia ao Bahrain, clamam por inclusão social e novos, melhores contratos sociais e econômicos. Não surpreende que esse espantoso levante em andamento seja visto em toda a América Latina com tremenda empatia e com uma emoção do tipo “Nós fizermos. Agora, eles também estão fazendo.” 

O futuro, é claro, é desconhecido, mas é possível que, daqui a uma, duas décadas, veja-se que os egípcios e outros povos árabes não abraçaram a via turca, nem a via brasileira nem a via indonésia e que, em vez disso, abriram novas vias pioneiras. É possível que no futuro, do Cairo a Túnis, de Benghazi a Manama, de Argel a (“se Alá quiser”) uma Arábia Saudita pós-Casa de Saud, os povos estejam inventando uma nova cultura política e os novos contratos econômicos que virão com ela. E que serão soluções locais e, esperemos, soluções democráticas às quais se terá chegado por vias novas e surpreendentes. 

O que nos leva de volta à Turquia. É perfeitamente viável que o Islã seja um dos blocos sobre os quais se construirá algo inteiramente novo, algo sobre o que ainda não há hoje qualquer pista, algo tão impensável quanto foi, antes de acontecer, na Europa, a separação entre política e religião. No espírito de maio de 1968, já quase se pode ver um Banksy [1] árabe, grafitando pelas paredes das capitais árabes: A Imaginação no Poder! 



Nota de tradução
[1] Artista britânico. Algumas de suas obras-intervenções podem ser vistas em Bansky  

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Egito: Da internet à Praça Tahrir

No início as manifestações juntavam mil a três mil pessoas. Surge contudo um imprevisto. "De repente houve uma revolução na Tunísia. Passou a haver a percepção de que afinal era possível". Entrevista com Ahmed Maher e Mohammed Adel, ativistas do Movimento 6 de Abril, no Cairo.

ARTIGO | 28 FEVEREIRO, 2011 - 01:14 | POR NELSON PERALTA
Ahmed Maher e Mohammed Adel, activistas do Movimento 6 de Abril - Foto de Nelson Peralta
Ahmed Maher e Mohammed Adel, activistas do Movimento 6 de Abril - Foto de Nelson Peralta

O Egito fervilha. O ditador caiu, mas muitos dos seus antigos governantes mantêm-se no poder e o exército conduz a transição. No meio deste processo entrevistamos ativistas do Movimento 6 de Abril, um dos movimentos na base da agitação popular no Egito.
A cada minuto o celular toca. Ahmed Maher, engenheiro civil de 30 anos, vai rejeitando as chamadas durante a conversa. Por vezes interrompe por algum telefonema mais importante. Este é o retrato do ritmo frenético que se vive no Egito e da importância que as novas tecnologias de comunicação tiveram na revolução. Ahmed faz parte de uma geração que não via grande perspectiva de futuro no país e que é movida por uma enorme vontade de mudança.
Uma greve geral que começou na internet
Em 2005 começaram a surgir vários movimentos da juventude pela mudança. Ahmed contatava regularmente com os comitês locais de trabalhadores e escrevia online sobre as condições de trabalho, as greves e as lutas que encontrava. Foi um dos activistas que convocou uma greve geral nos grupos do Facebook. A iniciativa teve um sucesso ímpar, a cada dia aderiam três mil pessoas. "Antes usava o Yahoo!Grupos e o blogger. O facebook era novo e popular e, acima de tudo, era a única destas ferramentas imune ao controlo governamental. Passou assim a ser a nossa ferramenta", relata. Mas não esquece a preciosa ajuda do Ministro do Interior que fez uma declaração sobre o movimento. Esse ataque governamental tornou a iniciativa imensamente mais conhecida do que aquilo que as ações do próprio grupo tinham conseguido até então.
O apelo surtiu efeito e a greve geral realizou-se a 6 de Abril de 2008 com um enorme sucesso. A luta iniciada na internet tinha passado para o mundo real. Na sequência do protesto, vários membros do grupo são presos e uma ativista espancada, mas a agitação social permaneceu. "É um movimento jovem que fala a mesma linguagem dos jovens. Usa o facebook, o twitter, as SMS. O protesto não é tradicional, os jovens vão para a rua cantar, fazem conferências e festas na rua. Tiraram membros da internet para o mundo real. Todos queriam conhecer a cara uns dos outros e para nos organizarmos era preciso esse contacto". É assim que Ahmed retrata a evolução do movimento. As suas atividades levaram a que em Julho desse ano tivesse sido preso. Durante essas duas semanas sentiu uma intensa tortura psicológica.
Da Tunísia ao Egipto, foi possível!
No início as manifestações juntavam mil a três mil pessoas. Surge, contudo, um imprevisto. "De repente houve uma revolução na Tunísia. Passou a haver a percepção de que afinal era possível". A partir daí a participação nas manifestações foi crescendo, até à revolução. Estava em curso um protesto no facebook, organizado por vários movimentos, contra o Ministro do Interior. Mas o que começou como uma luta contra as políticas de repressão, tornou-se quase inadvertidamente numa contestação a todo o regime de Mubarak.
Em Dezembro passado criaram o Movimento 6 de Abril, com um grupo facebook que juntava ainda mais pessoas que o anterior grupo da greve geral. A partir de 15 de Janeiro realizaram reuniões diárias de cinco horas onde desenharam mapas das ruas. Na internet publicaram os pontos, cinco no Cairo e dois em Alexandria, de onde partiriam as marchas para a concentração, no caso da capital na Praça Tahrir. Contudo, não se limitaram a esperar. Duas horas antes do inicio do protesto foram para os bairros pobres apelar à participação. A polícia já estava à sua espera nos locais marcados, mas não esperava que cada marcha juntasse mais de 20 mil pessoas. Ao verem a polícia a retirar perante a imensidão de gente perceberam que o protesto ia ser bastante eficaz. Perceberam que estavam perante uma revolução quando viram milhares e milhares de egípcios de todas as idades a juntarem-se em Tahrir. Nesse dia, 25 de Janeiro de 2011, ocuparam a praça onde ainda hoje continuam. Durante a noite a polícia atacou com violência, muitos membros foram presos. Milhares estavam em fuga procurando esconderijo nas áreas pobres. Este foi um ponto de viragem. "A partir daqui todas as pessoas passaram a agir sozinhas, sem a organização. Todos queriam participar". Pelo meio o regime ainda cortou a internet e as ligações telefónicas mas era demasiado tarde, Mubarak caía 18 dias depois.
Uma prioridade: a democracia
Para Ahmed Maher "as exigências políticas, sociais e económicas são apenas uma", não se tratam de coisas diferentes. Desconfia da ordem vigente, "não tenho ideia do que o exército quer. Os movimentos pediram muitas medidas, mas o exército ignorou" explica, referindo que a táctica dos militares é ir adiando os assuntos de reunião em reunião sem qualquer decisão. Não se sente representado nas atuais forças políticas e pede que se criem "novos partidos e novas organizações".
Mohammed Adel, também ativista do movimento 6 de Abril e prestes a entrar para o serviço militar, junta-se à conversa enquanto espera a ida para uma importante manifestação que os aguarda a minutos e metros de distância. Ambos têm bem definidas as suas prioridades políticas para o momento. Todas passam pela democratização do Egito.
Em primeiro pretendem uma mudança imediata do governo que continua com muitos membros do anterior governo de Mubarak e com vários tecnocratas fiéis ao regime. Querem que o exército deixe de comandar o período de transição, defendendo que esse papel passe a ser desempenhado interinamente por um Conselho Presidencial composto por dois juízes e um militar. A abolição da lei de emergência e a libertação dos presos políticos é outra das suas exigências imediatas. Pedem ainda a dissolução do NDP, o partido do regime, assim como dos seus mecanismos de dominação. Por fim, pedem uma reorganização do Ministério do Interior.
E com isto partiram para a Praça Tahrir. Tinham uma revolução para concluir.

Sobre o autor

Nelson Peralta
Biólogo, dirigente do Bloco de Esquerda
Extraído do Esquerda.net
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu