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terça-feira, 22 de maio de 2012

EUA autorizam China a negociar diretamente com o Tesouro, a compra de títulos norte-americanos


Wall Street dançô!

21/5/2012, Emily Flitter (Martin Howell e Steve Orlofsky, Eds.), Reuters, New York, EUA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

22/5/2012, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
“Obama sabe que, num aperto, não pode contar com Índia, Vietnã, Arábia Saudita, Brasil, Turquia para “resgatar” os EUA. Ainda pode, embora não muito, contar com alguns europeus, poucos. Só lhe restou a China. Mas a pergunta é: como se faz para “conter” a galinha dos ovos de ouro?” 


(Reuters) – A China já pode ignorar Wall Street, ao comprar títulos da dívida dos EUA: foi autorizada a negociar diretamente com o Tesouro dos EUA, na primeira vez, em toda a história, em que governo estrangeiro recebe autorização semelhante – segundo documentos aos quais Reuters teve acesso.

As novas regras de relacionamento significam que o Banco do Povo da China compra agora papéis da dívida dos EUA por método exclusivo, diferente do autorizado para qualquer outro banco central no mundo.

Os demais bancos centrais, inclusive o Banco do Japão, que tem ávido apetite pelos chamados Treasuries, os compram através de opções depositadas nos grandes bancos de Wall Street designados pelo governo dos EUA como corretores primários. Esses corretores vão aos leilões de venda de títulos da dívida dos EUA e negociam em nome dos interessados.

A China, proprietária de $1,17 trilhões em papéis da dívida dos EUA, os Treasuries, ainda compra alguns desses papéis mediante os corretores primários, mas desde junho de 2011, essa via já não é necessária.

Documentos aos quais a Reuters teve acesso mostram que o Departamento do Tesouro dos EUA deu ao Banco do Povo da China um link de computador direto para seu sistema de leilões. Os chineses o usaram pela primeira vez, para comprar títulos com vencimento para dois anos, no final de junho de 2011.

A China pode agora concorrer nos leilões de compra de títulos da dívida dos EUA, sem contato com os corretores primários. Mas, se quiser vendê-los, ainda tem de fazê-lo no mercado.

A mudança não foi anunciada publicamente, nem em mensagem de qualquer tipo dirigida aos corretores primários.

“A compra direta é aberta a vários tipos de investidores, mas como questão de política geral, não comentamos sobre interessados individuais” – disse Matt Anderson, um dos porta-vozes do Departamento do Tesouro.

Apesar de não haver qualquer proibição que impeça governos estrangeiros de comprar diretamente, o arranjo feito exclusivamente com a China é sem precedentes.

A venda de títulos da dívida dos EUA à China tornou-se tema de debate público carregado de forte conteúdo político sobre o papel da China como principal exportador para os EUA e, ao mesmo tempo, como maior credor do país.

O privilégio pode ajudar a China a comprar a dívida dos EUA por melhor preço, reduzindo ao mínimo a informação acessível a Wall Street sobre suas compras.

Os corretores primários não podem cobrar dos clientes, pelo serviço de disputar, em nome deles, nos leilões do Tesouro. A China, portanto, não está economizando dinheiro algum.

Em vez disso, a China está podendo garantir o sigilo de informações específicas valiosas sobre seus hábitos de compra. Podendo negociar diretamente com o Tesouro, a China impede os bancos de Wall Street de tentar explorar a presença chinesa num ou noutro específico leilão – forçando os preços para cima.

É uma dentre várias cortesias garantidas a um comprador único, em termos de poder de compra. Embora os japoneses, por exemplo, possuam cerca de $1,1 trilhões em Treasuries, as comprar japonesas têm sido menos centralizadas. O Japão compra mediante várias instituições, incluindo fundos de pensão, bancos japoneses e o Banco do Japão, sem que qualquer delas domine as demais.

Não é a primeira vez que o Tesouro dos EUA mostra grande empenho em manter satisfeito seu principal cliente.

Em 2009, quando funcionários do Tesouro descobriram que a China tinha contatos especiais com corretores primários, para manter ocultas suas compras de papéis da dívida dos EUA, o Tesouro mudou os métodos, para impedir esse tipo de negócio – como a Reuters noticiou em junho passado. Mas, simultaneamente, o Tesouro afrouxou uma de suas exigências de notificação, para manter o conforto dos chineses, no novo regime de regras.

Outro traço do relacionamento especial entre EUA e China nesse campo é a discrição: o Tesouro tentou manter sob sigilo os seus motivos para mudar as regras, em 2009 – como observou a agência Reuters.

Outra vez, documentos que tratam do novo status da China, como comprador direto, mostram o mesmo desejo de sigilo – em relação a Wall Street. E, para proteger o sistema contra hackers, o sistema do Tesouro que dá à China acesso direto aos leilões de títulos foi upgraded.

Em seguida, os técnicos do Tesouro discutiram meios para desviar as perguntas que viriam, dos corretores de Wall Street, no momento em que os resultados dos leilões começassem a mostrar a inegável presença de um comprador direto estrangeiro.

“A maioria entende que compradores estrangeiros só apresentam “ofertas indiretas” pelos corretores primários. A novidade provavelmente causará boatos significativos na rua, e muitas perguntas provavelmente chegarão até nós” – escreveu um funcionário do governo, em e-mail que Reuters leu.

No mesmo e-mail, o mesmo funcionário sugeria que se oferecessem respostas básicas, gerais, a perguntas sobre quem está autorizado a participar de leilões dos títulos da dívida dos EUA.

“Parece-me que será prudente, no caso de perguntas mais complexas ou de natureza mais sensível, que as perguntas sejam encaminhadas à área de Relações Públicas do Tesouro” – escreveu o funcionário.

Dar à China status de comprador direto pode gerar controvérsias, porque alguns funcionários do governo dos EUA já se preocupam por a China ter alcançado posição muito alavancada, sobre os EUA, graças à sua gorda carteira de papéis do Tesouro.

Por exemplo, o economista Brad Setser, membro do Conselho Econômico Nacional e que também trabalhou para o Conselho Nacional de Segurança, já disse que o fato de a China ser proprietária de grande quantidade de Treasuries implica ameaça à segurança nacional.

Em carta ao Conselho de Relações Exteriores em 2009, Setser argumentou que o fato de a China ter em seu poder quantidades massivas de papéis da dívida dos EUA dava ao país poder sobre os EUA, pelo risco de um movimento massivo de venda daqueles papéis, o que criaria perigosa agitação nos mercados e faria subir as taxas de juros.

Mas funcionários do Tesouro sustentam, há muito tempo, que a venda de papéis da dívida à China é assunto mantido à parte, separado de considerações políticas, numa relação negocial que beneficia os dois países. Os chineses usam os Treasuries para manter a cotação dos dólares que recebem em pagamento dos produtos que vendem para os EUA; e ao governo dos EUA interessa que haja essa forte demanda pelos títulos de sua dívida, porque assim se mantêm baixas as taxas de juro.

Porta-voz da embaixada da China em Washington não respondeu aos telefonemas e e-mails com pedidos para que comentassem a notícia.

Mas os EUA já mostraram crescente ansiedade em relação à China, como ameaça à “cibersegurança”. A mudança que o Tesouro introduziu no sistema computacional de leilões, antes de dar acesso direto à China, visou limitar o acesso apenas a um único sistema, a uma conexão de rede privada, controlada pelo Tesouro.

A China é um dos tópicos mais sensíveis para banqueiros e funcionários do governo que vivem a cortejá-la como cliente financeiro, pelo tamanho e importância e ninguém quis comentar essa matéria.

Mas um ex-gerente da dívida, no Tesouro, que pediu para não ser identificado, disse que, aos poucos, a China foi adquirindo experiência no mercado dos papéis da dívida dos EUA; e que os chineses sentem-se provavelmente mais confortáveis na nova situação, com melhor controle sobre a administração de sua carteira.

A solicitação para apresentarem suas propostas de compra diretamente, desse ponto de vista, seria resultado de uma maior confiança de que os chineses poderiam comprar papéis da dívida, mais eficientemente, em negociação direta, do que através dos bancos de Wall Street, que frequentemente inflam os preços dos Treasuries em leilões, quando sabem quanto os grandes clientes estão dispostos a gastar. Não é prática especificamente ilegal, mas a maioria dos corretores as considerariam pouco ética.

Prova de que a China vai-se tornando operadora cada vez mais sofisticada, como gestora de dinheiro, nos mercados dos EUA é a evidente expansão de suas operações em New York. O braço chinês de administração do dinheiro, Administração Estatal do Câmbio [orig. State Administration for Foreign Exchange (mais conhecido como SAFE), mantém escritório em Midtown Manhattan, e um experiente gestor de investimentos – Changhong Zhu, ex-presidente de investimentos e derivativos da Pacific Investment Management Co. – em Pequim.

Uma voz feminina que atendeu ao telefone no escritório da SAFE em New York, disse que ninguém, no escritório, tinha autorização para falar à imprensa.

domingo, 10 de julho de 2011

Geithner: “Estados Unidos não entrarão em default”

Cristine Lagarde alertou hoje que
a inadimplência dos EUA teria
"consequências devastadoras"

 10/07/11 19:02
Comentário entreouvido na Vila Vudu:
Podemos todos dormir em paz. Os EUA não darão calote nos pagamentos externos. 
A situação, desde o dia 15 de maio, nos EUA, é idêntica à do Brasil dos governos FHC, quando o Brasil quebrou três vezes -- comentário altamente explicativo, que não se ouvirá nem da Míriam Leitão nem dos "economistas" tucanos que falam pelos jornalões brasileiros. 
A coisa já está bem contada em Portugal. 

O secretário do Tesouro norte-americano assegurou hoje que o país pagará as suas dívidas.

“Os Estados Unidos não entrarão em default [inadimplência da dívida]”, afirmou Timothy Geithner, garantindo que “os membros do Congresso compreendem isso”.

As declarações do secretário do Tesouro dos EUA surgem numa altura em que as negociações em Washington sobre o aumento do teto máximo legal para o endividamento do país estão entrando num período crítico. É que o partido Democrata de Obama e o partido Republicano na oposição têm apenas até ao dia 2 de Agosto para chegar a um acordo antes que o país entre em inadimplência.

Para pressionar democratas e republicanos a chegarem a um acordo sobre o limite do endividamento dos EUA, a nova líder do Fundo Monetário Internacional (FMI), Cristine Lagarde, alertou hoje que a inadimplência do país “iria certamente colocar em perigo a estabilidade não só da economia dos Estados Unidos, mas de todo o mundo”.

O limite do endividamento dos EUA foi já atingido no passado dia 16 de Maio, estando o Tesouro mantendo-se em operaçãoo graças a medidas extraordinárias

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os banqueiros aceleram a marcha para o saqueio da Grécia...

... e os sociais-democratas votam pelo suicídio nacional.

Michael Hudson
por Michael Hudson [*]

A luta pelo futuro da Europa joga-se em Atenas e restantes cidades gregas, na sua resistência às exigências da finança, que são a versão do século XXI de um verdadeiro ataque militar. A ameaça de um absoluto domínio dos bancos não é certamente o tipo de política econômica liquidatária que possibilite heróicos feitos de armas. As políticas financeiras destrutivas assemelham-se mais a um exercício da banalidade do mal – neste caso, os pressupostos pró-credores do Banco Central Europeu (BCE), União Europeia (UE) e FMI (incitado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos).

Como sublinhou Vladimir Putin uns anos atrás, as reformas neoliberais postas nas mãos de Boris Yeltsin pelos Harvard Boys nos anos 90 causaram na Rússia uma descida da natalidade, da esperança média de vida, e uma vaga de emigração – a maior queda do crescimento populacional desde a II Guerra Mundial. A fuga de capitais é outra das consequências da austeridade financeira. A “solução” proposta pelo BCE para o problema da dívida grega assevera-se autodestrutiva. Procura apenas ganhar tempo para que o BCE se aproprie de mais dívida do governo grego, deixando a fatura para todos os contribuintes europeus. Foi evitar esta transferência das perdas dos bancos para os contribuintes que Angela Merkel insistiu para que os acionistas privados absorvessem algumas das perdas resultantes dos seus maus investimentos.

Os banqueiros estão tentando obter receitas extraordinárias utilizando o mecanismo da dívida como forma de realizar aquilo que era antes levado a cabo pela guerra. Exigem a privatização do patrimônio público (a crédito, com benefícios fiscais para os juros, de modo a que aflua mais dinheiro para os cofres dos banqueiros). Esta transferência de terra, de serviços e de participações públicas, enquanto saque financeiro e tributo às economias credoras fazem com que os efeitos da austeridade financeira se assemelhem nos seus efeitos aos de uma verdadeira guerra.

Sócrates disse que a ignorância é certamente a raiz de todo o mal, uma vez que ninguém é deliberadamente maldoso. No entanto, a “cura” econômica que consiste em levar os devedores à miséria e forçá-los a liquidar o seu patrimônio público, tornou-se uma ciência socialmente aceite e ensinada nas melhores escolas de gestão. Seria legítimo pensar que, após cinquenta anos de programas de austeridade e privatizações liquidatárias para pagar dívidas, o mundo tivesse aprendido o suficiente no que toca a causas e efeitos.

O setor bancário escolhe deliberadamente a ignorância. As “boas práticas geralmente aceitas” são apoiadas por Prêmios Nobel da Economia de forma a fornecerem uma capa de negabilidade plausível quando os mercados são “inesperadamente” esvaziados e os novos investimentos abrandam como resultado de economias financeiramente exangues, enquanto a riqueza num estilo medieval é sugada para o topo da pirâmide econômica.

O meu amigo David Kelley gosta de citar o gracejo de Molly Ivin: “É difícil convencer as pessoas de que as estás matando para o seu próprio bem”. A União Europeia tentou fazê-lo na Islândia, sem êxito. Tal como os islandeses, os manifestantes gregos já tiveram a sua dose da estudada ignorância neoliberal, segundo a qual a austeridade, o desemprego e a contração dos mercados seriam o caminho para a prosperidade e não para o agravamento e aprofundamento da pobreza. Por isso, devemos perguntar-nos o que leva os bancos centrais a promoverem gestores de vistas curtas, que seguem as ordens e a lógica de um sistema que impõe o desperdício e sofrimentos desnecessários – e tudo isto para persistir na obsessão segundo a qual os bancos não devem perder dinheiro?

É forçoso concluir que os novos planejadores centrais europeus (não era a isto que Hayek chamava “Caminho da Servidão”?) agem como guerreiros de classe ao exigir que todas as perdas sejam sofridas pelas economias impondo uma deflação da dívida permitindo assim aos credores arrebatar os mais diversos ativos. Como se isto não tornasse o problema pior. Esta linha dura do BCE é apoiada pelo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, para que as instituições americanas não percam as suas apostas nas jogadas com derivativos que subscreveram.

Trata-se de uma repetição da atuação de Geithner para impedir a mitigação da dívida irlandesa. O resultado é que entramos no território do absurdo quando o BCE e o Tesouro insistem numa “renegociação voluntária” com base no fato de que alguns bancos podem ter feito investimentos fraudulentos do tipo dos da AIG ao oferecerem seguros contra inadimplência ou apostas que os teriam feito perder tanto dinheiro que um novo resgate seria necessário. É como se as apostas financeiras fossem economicamente necessárias e não algo digno de Las Vegas.

Porque é que isto deveria interessar aos gregos? É um problema intra-europeu de regulação bancária. No entanto para contornar o verdadeiro problema, o BCE ordena à Grécia que venda as suas redes de águas e esgotos, portos, ilhas e outras infraestruturas.

É uma viragem rumo ao teatro financeiro do absurdo. Claro que alguns interesses especiais lucram sempre com o absurdo sistêmico, por muito banal que pareça. Os mercados financeiros apostam já na possibilidade de a Grécia acabar por não poder pagar. É apenas uma questão de tempo. Os bancos estão usando esta oportunidade para lucrar ao máximo e transferir as perdas para o BCE, UE, e FMI – instituições públicas que têm mais poder de alavancagem financeira que os credores privados. Assim os banqueiros tornam-se os patrocinadores do absurdo – e da teoria econômica lixo (junk economics) recitada irrefletidamente por aqueles que impõem e apologistas da banalidade do mal. Pouco importa que se chamem Trichet, Geithner ou Papandreu. Estes são apenas parte integrante do polvo vampírico das exigências dos credores.

As multidões gregas que se manifestam diante do parlamento na Praça Syntagma estão procurando reproduzir o seu equivalente da “Primavera Árabe”. Mas que poderão fazer, para além da violência, enquanto a polícia e os militares continuarem a se alinhar com o governo que por sua vez esta do lado dos credores estrangeiros?

A tática mais eficiente é a de exigir um referendo nacional perguntando da aceitação dos termos da austeridade impostos pelo BCE, assim como do aumento dos impostos, cortes na despesa pública, das privatizações. Foi desta forma que o Presidente da Islândia impediu que um governo social-democrata comprometesse a economia do seu país com os pagamentos ruinosos (e legalmente desnecessários) exigidos pelo Partido Trabalhista de Gordon Brown e pelos holandeses para o resgate do Icesave e do Kaupthing.

A única base legal para a exigência do pagamento por parte da UE do resgate dos bancos franceses e alemães – assim como a exigência do secretário do Tesouro americano Tim Geithner, para que as dívidas sejam sagradas, e não as vidas dos cidadãos – é a aceitação e consentimento públicos de tais políticas. De outra forma a imposição da dívida pode ser tratada como um simples ato de guerra financeira.

As economias nacionais têm o direito de se defenderem contra tal agressão. Os líderes dos manifestantes podem insistir em que na ausência de um referendo, seja eleita uma lista comprometida com a anulação da dívida. O direito internacional proíbe as nações de tratarem os seus nacionais de forma diferente dos estrangeiros, assim todas as dívidas de categorias específicas teriam de ser anuladas para que se possa pôr a zero (to create a Clean State) as contas públicas. A reforma monetária imposta pelos Aliados à Alemanha em 1947 que pôs as contas publicas a zero, foi um dos casos de maior êxito de uma política desse tipo libertando a economia alemã da dívida [incluindo as indenizações devidas à Grécia pelas destruições causadas pela IIa. Guerra Mundial] e tornou-se a base do milagre econômico nacional.

Esta não é a primeira vez que tal hipótese se apresenta à Grécia. No final do século III a.C., os reis espartanos Ágis e Cleómenes exigiram o cancelamento da dívida, assim como o fez Nabis depois deles. Plutarco conta-nos a história, explicando também o defeito trágico desta medida. Os proprietários ausentes que haviam pedido dinheiro emprestado para comprar bens imobiliários apoiaram o cancelamento da dívida, obtendo assim inesperadamente enormes ganhos.

Isto seria ainda mais verdade hoje do que no passado, pois atualmente a maior parte da dívida é precisamente de hipotecas imobiliárias. Imagine-se o que o cancelamento da dívida faria pelos Donalds Trumps deste mundo – tendo adquirido as suas propriedades a crédito, com o mínimo de investimento próprio, subitamente não deveriam nada aos bancos credores! O objetivo da reforma financeira deveria ser libertar a economia da sobrecarga financeira que é tecnologicamente desnecessária. Para evitar dar almoços grátis aos proprietários ausentes, o cancelamento da dívida teria de ser secundado por um imposto sobre as rendas dos bens imobiliários. O setor público receberia assim o valor das rendas da terra como base fiscal.

Este foi o objetivo fundamental dos economistas do mercado livre do século XIX: tributar a terra e a natureza – e os monopólios naturais – em vez de tributar o trabalho e os meios de produção do capital. O objetivo era fazer reverter para o público aquilo que a natureza e as infraestruturas públicas criavam. Há um século acreditava-se que os monopólios, hoje cobiçados pelo setor privado, deviam ser operados pelo setor público; ou ainda que, no caso destes serem operados pelo setor público, os seus preços deveriam ser regulados de modo a estarem de acordo com o custo real de produção. No caso da terra, das minas e dos monopólios que já se encontravam na mão de privados, as receitas das rendas seriam inteiramente tributadas. Isto incluiria o privilégio financeiro de que os bancos desfrutam na criação do crédito.

A maneira de reduzir os custos de produção é a redução dos “maus” impostos que se aumentam o preço de produção, sobretudo os impostos sobre o trabalho e o capital, as vendas e os impostos de valor acrescentado. Em contrapartida, a tributação da rendas recolhe os “almoços grátis” da economia, deixando menos para ser entregue aos bancos para que estes capitalizem a dívida dos empréstimos mais elevados. Transferir a carga fiscal grega do trabalho para a propriedade reduziria o preço do trabalho, e reduziria também o preço dos bens imobiliários que está sendo inflacionado pelo crédito bancário.

Uma alteração da taxa sobre os bens imóveis foi a principal reforma proposta nos séculos XVIII e XIX, dos Fisiocratas a Adam Smith passando por John Stuart Mill e pelos reformadores da “Era Progressista Americana” (American Progressive Era). A ideia era libertar os mercados das rendas hereditárias da aristocracia que remontavam às conquistas medievais Vikings. Isto libertaria as economias do feudalismo, alinhando os preços com os custos de produção socialmente necessários. Na ausência da renacionalização da terra e da infraestrutura, tributar plenamente a sua renda econômica (pagamentos de acesso a sítios cujo valor é criado pela natureza ou pelo investimento público) recuperaria para as autoridades gregas aquilo que os credores estão tentando agarrar à força.

Esta ameaça clássica dos reformadores do séc. XIX poderia ser a resposta dos gregos ao Banco Central Europeu. Eles poderiam relembrar ao resto do mundo que se trata, afinal de contas, do ideal do mercado livre, tal como foi expresso por Adam Smith e John Stuart Mill em Inglaterra, o mesmo que esteve na base da despesa pública, das agência reguladoras e da política fiscal estadunidense na época da sua ascensão.

Quão estranho (e triste) é que o governo do Partido Socialista grego, cujo líder está à frente da IIa. Internacional, tenha rejeitado este programa reformista centenário. Não se trata de comunismo. Nem sequer de algo intrinsecamente revolucionário, ou pelo menos não na altura em que foi formulado. Trata-se de um socialismo de tipo reformista, que é o ponto culminante de dois séculos de pensamento político-econômico clássico.

Mas este é o tipo de mercado livre contra o qual luta o Banco Central Europeu, apoiado pelas exortações estridentes dos Estados Unidos na pessoa do seu secretário do Tesouro Geithner. O presidente Obama não intervém, deixando aos burocratas da Wall Street a tarefa de definir as políticas econômicas nacionais. É isto perverso? Ou apenas passivo e indiferente? E faz alguma diferença no que toca ao resultado final?

Para falar de forma sucinta, podemos dizer que os objetivos da agressão financeira estrangeira são os mesmos que os de uma conquista militar: a terra e o domínio público. Mas as nações têm o direito de tributar os lucros das rendas das suas terras, bem para além do simples retorno do capital investido. Ao contrário do que está implicado na “desvalorização interna” (cortes nos salários) exigida pela UE, como forma de diminuir o custo do trabalho na Grécia, tornando-o assim mais competitivo, a diminuição do nível de vida não deve ser o caminho a seguir, uma vez que isso reduz a produtividade do trabalho, ao mesmo tempo em que corrói o mercado interno, levando a uma espiral descendente de contração econômica.

A necessidade de um referendo popular

Todo o governo tem o direito e, na verdade, a obrigação política de proteger a prosperidade e assegurar a subsistência da sua população de forma a que esta possa viver no seu país e que não seja obrigada a imigrar ou posta numa posição de completa dependência financeira face aos investidores. No âmago da democracia econômica encontra-se o princípio segundo o qual nenhuma nação soberana pode ser forçada a abrir mão do seu patrimônio público ou dos impostos que sobre ele recebe e, por conseguinte, da sua prosperidade econômica e subsistência futura, em favor de estrangeiros ou de qualquer classe financeira doméstica. Foi por este motivo que a Islândia votou “Não” no referendo da dívida. A sua economia encontra-se agora em recuperação.

A Irlanda votou “Sim” e enfrenta já uma nova Diáspora que compete com os grandes movimentos migratórios pelos quais, em meados do séc. XIX, os irlandeses procuraram escapar à miséria e à fome. Se a Grécia não se impuser, será uma vitória para a agressão financeira e fiscal e para o seu objetivo de impor a escravatura pela dívida.

A imposição do poder financeiro tornou-se o tipo de guerra preferido do séc. XXI. O seu objetivo é a apropriação, pelas suas próprias elites, da terra e das infraestruturas públicas. A realização financeira deste fim, através da imposição da escravatura pela dívida às populações subjugadas, evita o sacrifício de vidas por parte do agressor – mas é possível apenas enquanto os países devedores carregarem voluntariamente o seu fardo. Se não houver um referendo, a economia nacional não pode ser responsabilizada pelo pagamento da dívida, nem mesmo aos seus principais credores: o FMI e o BCE. Bens que foram privatizados graças à pressão exercida pela sistema financeiro internacional podem ser renacionalizados e tal como as nações que são alvo de ataques militares podem processar aqueles que as atacam, assim também a Grécia pode processá-las pela devastação causada pela austeridade – pela perda de emprego, produtividade e população, bem como pela fuga de capital.

A economia grega não acabará com o dinheiro de qualquer “salvamento” do BCE. Os bancos obterão o dinheiro. Eles gostariam de dar meia volta e emprestá-lo novamente aos compradores da terra, monopólios e outras propriedades que a Grécia está sendo obrigada a privatizar. As taxas cobradas aos seus utilizadores (sem dúvida cobrando encargos no processo, para cobrir os juros e pagarem-se os aumentos de salário habituais nos bens privatizados) serão pagas a título de juros. Não se assemelha tudo isto a um tributo militar?

Margaret Thatcher costumava dizer “Não há alternativa”. Mas claro que há. A Grécia pode simplesmente optar por não participar nesta dádiva de bens e privilégios econômicos aos credores.

O que é que os colegas de Papandreu na Internacional Socialista têm a dizer sobre os acontecimentos que se desenrolam na Grécia? Creio que é evidente que a antiga Internacional Socialista está morta, uma vez que Papandreu é o seu líder. Aquilo que é hoje em dia tido como socialismo opõe-se diametralmente às reformas promovidas sob a mesma designação há um século, na época imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial. Os partidos sociais-democratas e trabalhistas europeus atuais estiveram na linha da frente das privatizações e da financeirização das suas economias sob condições que bloquearam o aumento do nível de vida. O resultado será provavelmente um realinhamento político internacional.

A austeridade econômica não consegue, em última análise, assegurar as exigências dos credores

Quinta-feira (30/6/2011) à tarde o Dow Jones, que já caíra 230 pontos, reagiu subitamente e fechou perdendo “apenas” 60 pontos, tudo por causa dos rumores segundo os quais a Grécia tinha dado o seu aval ao plano de austeridade do FMI. Mas o que é a “Grécia”? É apenas o governo? Certamente, não se tratava ainda da totalidade do parlamento. Haverá um voto parlamentar contrário ao interesse público, aceitando a austeridade e as privatizações?

Só um referendo pode comprometer o governo grego com o pagamento de novas dívidas resultantes da austeridade. Só um referendo pode impedir a renacionalização dos bens que foram privatizados. Tal transferência não é legítima sob as concepções comumente aceites de democracia política e econômica. De qualquer forma um imposto sobre o rendimento pode recuperar para a economia grega aquilo de que os seus agressores financeiros estão tentando desapropriar.

A História é rica em exemplos instrutivos. As oligarquias locais da região convidaram Roma a atacar Esparta, e esta derrubou os reis e o seu sucessor Nabis. Em seguida, Roma instalou-se à cabeça de um império oligárquico, usando a violência para assassinar reformadores democráticos internos como os irmãos Graco, mergulhando a República num século de guerra civil. Os interesses dos credores acabaram por dominar inteiramente, e o seu egoísmo mergulhou o Império Romano do Ocidente numa idade das trevas econômica e social.

Resta-nos esperar que o resultado seja melhor desta vez. Irá certamente haver luta, num campo fiscal e financeiro mais do que num campo abertamente militar. Tal luta só poderá, em última análise, ser ganha pela compreensão das dinâmicas corrosivas da "mágica combinação dos interesses" e da necessidade social de subordinar os interesses dos credores aos da economia real. Mas para que tal compreensão possa ter lugar, é preciso que a teoria económica seja subtraída da banalidade da sua corrente pós-clássica e neoliberal.

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[*] Antigo economista da Wall Street. Professor e Investigador na Universidade de Missouri, Kansas City (UMKC), autor de vários livros entre os quais; Super Imperialism: the Economic Strategy of American Empire (Pluto Press, 2002) e Trade, Development and Foreing Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy.

Pode ser contatado através do endereço mh@michael-hudson.com


Esta tradução foi extraída de: Resistir e adaptada pela redecastorphoto