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terça-feira, 2 de junho de 2015

Karl Marx tinha razão

31/5/2015, [*] Chris Hedges  truthdig
Traduzido por Emerx

 Busto de Karl Marx 
(gravitat-OFF CC BY 2.0)


Sábado (30/5/2015) no Forum de Esquerda em Nova Iorque, Chris Hedges uniu-se aos professores Richard Wolff e Gail Dines para conversar sobre porque Karl Marx é essencial no momento em que o capitalismo global entra em colapso. Foi com essas observações que Hedges abriu o debate.


Karl Marx expôs a dinâmica peculiar do capitalismo, ou aquilo que chamou “o modo de produção burguês”. Ele previu que o capitalismo havia plantado dentro de si as sementes de sua destruição. Ele sabia que as ideologias predominantes – pense no neoliberalismo- foram criadas para servir aos interesses das elites e particularmente das elites econômicas, visto que

(...) a classe que tem à disposição os meios de produção material tem ao mesmo tempo o controle dos meios de produção espiritual e (...) as ideias dominantes não são nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes (...) relações que fazem de uma classe a classe dominante.

Ele viu que chegaria o dia em que o capitalismo esgotaria seu potencial e entraria em colapso, só não sabia quando.

Marx, como escreveu Meghnad Desai, era “um astrônomo da história, não um astrólogo”. Marx era agudamente consciente da capacidade de inovação e adaptação do capitalismo. Mas também era consciente de que a expansão capitalista não era eternamente sustentável. No momento em que testemunhamos o desenlace do capitalismo e do globalismo, Karl Marx é justamente reconhecido como o mais presciente e importante crítico deste modo de produção.

Num prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Marx escreveu:

Nenhuma ordem social jamais desapareceu antes de que todas as forças produtivas existentes em seu seio estivessem desenvolvidas; e novas e mais elevadas relações de produção nunca aparecem antes do amadurecimento das condições materiais de sua existência no seio da própria velha sociedade.
Portanto, a humanidade sempre se coloca apenas as tarefas que pode resolver; a examinar atentamente, encontramos sempre que a tarefa em si surge apenas quando já existem as condições materiais necessárias para a sua solução, ou estão pelo menos no processo de formação.

Em outras palavras, o socialismo não seria possível antes de o capitalismo exaurir seu potencial de continuidade, ainda que fosse temerário predizer quando. Somos convocados a estudar Marx para dar conta disso.

Os estágios finais do capitalismo, escreveu Marx, seriam marcados por desenvolvimentos que são intimamente familiares para muitos de nós. Incapaz de se expandir e gerar lucro nos mesmos níveis do passado, o sistema capitalista começaria a consumir suas próprias estruturas de sustentação. Ele começaria a predar, em nome da austeridade, a classe trabalhadora e os mais pobres, fazendo-os mergulhar ainda mais na dívida e na pobreza e diminuindo a capacidade do Estado em atender às necessidades dos cidadãos comuns.

Como diria Marx: O Sistema Burguês

O capitalismo deslocaria cada vez mais empregos – é o que ele está fazendo- inclusive manufaturas e quadros profissionais, em países com reserva de mão de obra barata. As indústrias mecanizariam suas unidades de produção. Isso desencadearia golpes econômicos não apenas sobre a classe trabalhadora, mas também sobre a classe média – um baluarte do sistema capitalista – sob a imposição maciça de dívidas concomitante à estagnação ou redução de renda.

Nos últimos estágios do capitalismo, a política seria subordinada à economia, o que levaria a partidos completamente esvaziados de qualquer conteúdo realmente político e desprezivelmente subservientes às imposições da finança e do capitalismo global.

Mas como advertiu Marx, há um limite a uma economia construída sobre a expansão da dívida. Chega o momento, sabia Marx, em que não há mercados disponíveis e o endividamento das pessoas atinge seu limite. Isso foi o que aconteceu com a chamada crise das hipotecas subprime. Uma vez que os bancos não podem mais conseguir novos tomadores de empréstimos subprime, o esquema desmorona e o sistema vem abaixo.

Enquanto isso, a oligarquia capitalista entesoura escondido vastas somas de riqueza – US$ 18 trilhões estão armazenados em paraísos fiscais – uma extorsão em forma de tributo sobre aqueles que essa oligarquia domina, endivida e empobrece. Em sua fase final, disse Marx, o capitalismo se transformaria no chamado livre mercado, e com ele os valores e as tradições que ele diz defender. Nessa fase última, o capitalismo pilharia os sistemas e as estruturas que o tornaram possível. Em resposta ao sofrimento geral que isso causaria, haveria um recrudescimento da repressão. Numa última cartada desesperada para manter sua taxa de lucro, o capitalismo passaria ao saqueio e à pilhagem do Estado, contradizendo sua pretensa natureza.

Marx advertiu que nos últimos estágios do capitalismo imensas corporações exerceriam o monopólio dos mercados globais.

A constante necessidade de expansão dos mercados para seus produtos lança a burguesia sobre toda a superfície do globo. Ela se aninha em toda parte, se instala em toda parte e estabelece conexões em todo lugar, escreveu Marx.

Essas corporações, seja no setor bancário, agrícola ou da indústria alimentícia, no armamento ou nas comunicações, usaria seu poder assumindo o controle dos mecanismos do Estado para impedir quem quer que seja de desafiar o seu monopólio.


Elas fixariam preços para alcançar o lucro máximo. Através de tratados comerciais como o  TPP e o CAFTA, as corporações fariam pressões – como de fato é o que estão fazendo- para debilitar a capacidade do Estado em impedir a exploração ao impor regulamentações ambientais ou trabalhistas. E finalmente essas corporações suprimiriam a livre competição de mercado.

Num editorial de 22/5/2015, The New York Times nos dá uma vista sobre aquilo que, segundo Marx, caracterizaria os últimos estágios do capitalismo:

A partir deste fim de semana, Citicorp, JPMorgan Chase, Barclays e Royal Bank of Scotland podem ser considerados criminosos, pois declararam-se culpados na quarta-feira de crimes de conspiração para fraudar o valor das moedas do mundo. Segundo o Departamento de Justiça, a longa e lucrativa conspiração permitiu aos bancos elevar seus lucros sem considerações para com a equidade, a lei e o bem comum.

E The Times continua:

Os bancos vão pagar multas que totalizam cerca de US$ 9 bilhões, valores estimados pelo Departamento de Justiça e por reguladores federais, estrangeiros e dos Estados. Parece um bom negócio para uma fraude que durou pelo menos 5 anos, do final de 2007 ao começo de 2013, período durante o qual a renda dos bancos com o câmbio internacional foi de algo como US$ 85 bilhões.

Nos últimos estágios daquilo que chamamos capitalismo, como Marx bem entendeu, já não há mais capitalismo algum. As corporações devoram os recursos do governo, basicamente oriundas do contribuinte, como porcos ávidos num cocho.

A indústria armamentista, com seus US$ 612 bilhões de dólares legalmente outorgados para a defesa, sem contar várias outras despesas militares embutidas em outros orçamentos, aumenta nossa despesa com segurança nacional em mais de US$ 1 trilhão por ano. Essa indústria conseguiu este ano que o governo se comprometesse a gastar US$ 348 bilhões ao longo da próxima década para modernizar nossas armas nucleares e construir 12 novos submarinos padrão Ohio, estimados em US$ 8 bilhões cada um.

Como esses dois novos programas armamentistas vão resolver o que nos dizem ser a maior ameaça de nossos tempos – a guerra ao terrorismo- é algo que permanece um mistério. Afinal, que o saibamos, ISIS não possui sequer um bote a remo. Gastamos cerca de US$ 100 bilhões por ano com inteligência – leia-se vigilância- e 70% desse dinheiro vai para empresas privadas como Booz Allen Hamilton, cujos 99% de renda vêm do governo. E ainda por cima, somos os maiores exportadores de armas do mundo.

A indústria de combustíveis fósseis engole US$ 5.3 trilhões por ano em todo o mundo em custos encobertos para continuar queimando esses combustíveis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse dinheiro, nota o FMI, acrescenta-se aos US$ 492 bilhões de subsídios diretos oferecidos pelos governos em todo o mundo através de isenções fiscais, reduções de taxas e brechas na legislação fundiária. Num mundo sadio, esses subsídios seriam investidos em esforços para nos livrar dos efeitos letais das emissões de carbono causadas pelos combustíveis fósseis, mas nós não vivemos num mundo sadio.

O capitalista e o trabalhador

No artigo Why Should Taxpayers Give Big Banks US$ 83 Billion a Year?” (Por que os contribuintes dão US$ 83 bilhões por ano aos grandes bancos?), relatório publicado em 2013 por Bloomberg News, ficamos sabendo que economistas calcularam que os subsídios do governo reduzem os custos de empréstimo dos grandes bancos em 0.8%. 

Multiplicado pelo passivo total dos 10 maiores bancos estadunidenses por ativos, isso chega a US$ 83 bilhões por ano de subsídios financiados pelo contribuinte, diz o relatório.

Os cinco maiores bancos - JPMorgan, Bank of America Corp., Citigroup Inc., Wells Fargo & Co. e Goldman Sachs Group Inc. representam um total de US$ 64 bilhões em subsídios, uma soma insolentemente igual a um lucro anual típico dessas empresas. Em outras palavras, os bancos que ocupam postos de decisão na indústria financeira dos Estados Unidos – com quase US$ 9 trilhões em ativos, mais da metade da economia estadunidense –simplesmente quebrariam na ausência do Estado de bem-estar corporativo. Seus lucros são, mormente, transferências de recursos dos contribuintes para os acionistas dessas empresas -  continua o relatório.

As despesas do governo contam por 41% do PIB. O objetivo dos capitalistas corporativos é açambarcar esse dinheiro. Daí a privatização de setores completos das Forças Armadas, a pressão pela privatização da Seguridade Social, a contratação de corporações para cuidar de 70% de nossas 16 agências de inteligência, bem como da privatização das prisões, escolas e do desastroso e comercial serviço de saúde. Nenhum desses açambarcamentos de serviços básicos os torna mais eficientes nem reduz seus custos. Essa não é a questão. O que estão fazendo é roer as carcaças do Estado. E isso é a garantia da desintegração das estruturas que sustentam o próprio capitalismo. Marx anteviu tudo isso.

Marx realçou essas contradições inerentes ao capitalismo. Ele entendeu que a ideia de capitalismo – livre comércio, mercados livres, individualismo, inovação, autodesenvolvimento – só funciona no espírito utopista de verdadeiro crente como Alan Greenspan, mas nunca no mundo real. A acumulação de riqueza por uma minúscula elite capitalista, Marx anteviu, significaria que as massas já não mais poderiam comprar os produtos que fizeram avançar o capitalismo. A riqueza torna-se concentrada nas mãos de uma minúscula elite – o 1% dos mais ricos possuirá mais da metade da riqueza mundial no ano que vem.

As investidas contra a classe trabalhadora vêm acontecendo já há várias décadas. Os salários têm-se mantido estagnados ou têm sido reduzidos desde os anos 70. As manufaturas foram terceirizadas em países como a China ou Bangladesh, em que os trabalhadores ganham salários baixíssimos como 22 centavos de dólar por hora.

Trabalhadoras miserabilizadas em Bangladesh

Trabalhadores pauperizados, forçados a competir com outros que mal superam a condição servil, têm proliferado em todo o território dos Estados Unidos; eles lutam para manter um nível mínimo de subsistência. Indústrias como a construção civil, antigo celeiro de empregos bem remunerados e sindicalizados, são agora o feudo de trabalhadores não sindicalizados e amiúde não documentados. As corporações importam engenheiros e programadores que recebem um terço dos salários normais graças aos vistos H-1B, L-1 e outros semelhantes. Todos esses trabalhadores não gozam dos direitos dos outros cidadãos.

Os capitalistas respondem ao colapso de suas economias domésticas, por eles mesmos urdido, tornando-se credores tubarões globais e especuladores. Eles emprestam dinheiro a taxas de juros exorbitantes aos trabalhadores e aos pobres, mesmo sabendo que esse dinheiro pode nunca ser devolvido, e depois vendem essas dívidas em bloco, contratos derivativos de risco, títulos e ações a fundos de pensão, municipalidades, firmas de investimento e instituições. Essa forma recente de capitalismo é construída sobre aquilo que Marx chamou “capital fictício”. E isso leva, como sabia Marx, à vaporização do dinheiro. 

Uma vez que os devedores de hipotecas subprime deixaram de pagar, o que esses grandes bancos e firmas de investimento sabiam ser inevitável, a grande crise mundial de 2008 se instalou. O governo socorreu os bancos, sobretudo imprimindo dinheiro, mas deixou os pobres e a classe trabalhadora – sem falar nos estudantes recém-formados – com dívidas pessoais esmagadoras. A política de austeridade se impôs. As vítimas da fraude financeira teriam sido feitas para pagar por essa fraude. E o que nos salvou de uma depressão ainda mais devastadora foi a intervenção maciça do Estado na economia, inclusive com a nacionalização de imensas corporações como AIG e General Motors.

O que vimos em 2008 foi a oficialização do Estado de bem-estar social para os ricos, um tipo de socialismo estatista para as elites financeiras previsto por Marx. Mas com isso instaura-se um crescente e volátil ciclo de altos e baixos, levando o sistema à beira da desintegração e do colapso. Sofremos duas crises de grande monta no mercado de ações e a implosão dos valores imobiliários só na primeira década do século XXI.

As corporações que possuem a mídia têm trabalhado dobrado para vender a um público aturdido, a ficção de que estamos vivendo uma recuperação. Os números do desemprego, obtidos através de uma variedade de truques, inclusive da eliminação dos desempregados por mais de um ano das listas oficiais, são uma mentira, como de resto também o são quase todos os indicadores divulgados para o consumo público. O que estamos antes vivendo são os estágios crepusculares do capitalismo global, o qual pode ser surpreendentemente mais resiliente que o esperado, mas nem por isso deixa de ser moribundo.

Capitalismo de Livre Mercado
Povo sem casa                           Casa sem povo

Marx sabia que uma vez que o mecanismo de mercado se tornou o único fator determinante do destino do Estado-nação, bem como do mundo natural, ambos seriam demolidos. Ninguém sabe quando isso vai acontecer, mas que isso vai acontecer, talvez no horizonte de nossas vidas, isso vai.

“O velho está morrendo, o novo luta para nascer, e neste ínterim há sintomas mórbidos,” escreveu Antonio Gramsci.

O porvir depende de nós.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War,   American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

terça-feira, 19 de maio de 2015

EUA-2105: Patologia da família branca rica

17/5/2015, [*] Chris HedgesTruthdig 
The Pathology of the Rich White Family
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
 
Tive como crença, e permaneço,  que a diplomacia
pessoal pode ser muito útil e produtiva. (Bush-pai)
A patologia da família branca rica é das mais perigosas nos EUA. A família branca rica é amaldiçoada com excesso de dinheiro e privilégios. Não conhece nenhuma empatia, resultado de gerações e gerações de privilegiados. Tem mínimo senso de lealdade, e é incapaz de autossacrifício. A definição de amizade na família branca rica está reduzida a “O que você pode fazer por mim?” A família branca rica é possuída por insaciável ambição de aumentar sempre a própria fortuna e o próprio poder. Acredita que riqueza e privilégio conferem a ela inteligência e virtude superiores. É presa dos mais impenetráveis hedonismo e narcisismo. 
 
E, por tudo isso, a família branca rica interpreta a realidade através de lentes de autoadulação e cobiça que reduzem a realidade a alguma espécie de fantasia distante. A família branca rica é uma perigosa ameaça que vive dentro dos EUA. As doenças dos pobres, se comparadas às doenças dos norte-americanos brancos ricos, são pequena vela ao lado do sol. 
 
Não faltam propagandistas e elogiadores às famílias norte-americanas brancas ricas. Dominam as ondas de rádio e TV em todo o país. Culpam a patologia das famílias negras pobres pela miséria, pela falência da sociedade, pela violência urbana, pelo consumo de drogas, pela violência doméstica – como se não conhecessem algum desses itens. Dizem que as famílias negras pobres estão em desintegração por causa de algum defeito inerente – o que implica dizer que veem os brancos como melhores que os negros – defeito que essas famílias pobres devem tratar de consertar. 
 
Colete e regurgite todo esse lixo simplista racista, e você estará qualificado para assinar coluna no The New York Times. Bajular famílias brancas ricas sempre é bem negócio nos EUA. 
 
Se você é negro, e papagueia as mesmas pirações racistas dos brancos ricos, os brancos ricos enlouquecem de alegria. São capazes de cometer o desatino de oferecer-lhe palanques. Você pode até vir a ser presidente ou juiz da Suprema Corte. Dão-lhe programa de entrevistas na televisão, ou emprego bem remunerado numa universidade. Você receberá dinheiro para a sua fundação. Você pode publicar livros de autoajuda. Aparecerá dinheiro para fazer seus filmes. Pode acontecer até de você ser contratado para presidir uma empresa. 
 
Negro contratado para presidir uma "grande empresa"...
As famílias brancas, dizem os seus elogiadores profissionais, muito tentaram ajudar. As famílias brancas ricas deram incontáveis recursos aos pobres, muitos programas governamentais para erguê-los acima da pobreza. Muita, muita caridade, a mais generosa. Mas os negros, dizem eles, assim como outros pobres de cor, deixam-se derrotar pelas próprias atitudes e pelo próprio comportamento autodestrutivo. Programas governamentais são, pois, desperdiçados, com essa gente irresponsável. 
 
As famílias pobres, dizem os bajuladores de brancos ricos, nunca serão redimidas, se não se autorredimirem. Nós queremos ajudar, dizem os brancos ricos, mas os negros pobres têm vestir as calças, ficar na escola, dar jeito de se educarem, encontrar um emprego, dizer “Não às drogas” e respeitar a autoridade constituída. Se não fazem isso... merecem o que têm. E o que a família negra média consegue em termos econômicos é um níquel para cada dólar embolsado pela família branca média. 
 
Desde os dez anos, bolsista de uma escola de elite em New England, tive de aprender a conhecer a patologia das famílias brancas ricas. Não é experiência que eu recomende a alguém. Anos depois, por decisão pessoal, mudei-me para Rosbury, Boston, quando estava no seminário. Vivi do outro lado da rua de um dos projetos de moradia mais pobres da cidade, e era responsável por uma pequena igreja no centro do projeto, por quase três anos. Eu já tinha um sentimento de profundo desprezo contra famílias brancas ricas, e ele só aumentou depois de ver o que eles faziam contra os mais pobres. Gente branca rica, concluí depois da minha infância e dos meus anos em Roxbury, são sociopatas. 
 
A miséria e o colapso da família e da comunidade em Roxbury não eram causados por alguma patologia inerente das famílias negras. Os ricos que tratavam os pobres como refugo humano eram a causa de todos os problemas. Camadas superpostas de racismo institucionalizado – os tribunais, as escolas, a polícia, os oficiais de condicional, os bancos, o acesso fácil às drogas, o desemprego endêmico e o subemprego, as estruturas em colapso e o sistema prisional – tudo efetivamente sempre conspirou para assegurar que os pobres permanecessem pobres. Drogas, crime, famílias em desintegração são resultado da pobreza, não da cor da pele. Vê-se o mesmo quadro também entre brancos pobres. Tire todas as oportunidades, encha a vida dos pobres de desespero e desesperança, e o resultado é o mesmo, entre brancos ou entre negros. Mas aí está exatamente o que famílias brancas ricas não querem que ninguém saiba. Se se soubesse de tudo isso, os ricos teriam de ser responsabilizados. 
 
Divisão da riqueza nos EUA
Michael Kraus, Paul Piff e Dacher Keltner, cientistas sociais da Universidade da California, completaram uma pesquisa que os levou a concluir que os pobres têm mais empatia que os ricos. Os pobres, dizem eles, não conseguem dominar o ambiente em que vivem. Têm de construir relacionamentos com outros, para sobreviver. É coisa que só é possível se os pobres aprenderem a ler as emoções à sua volta e responder adequadamente a elas. Para isso, é indispensável que os pobres se olhem, uns os outros. Com isso se tornam mais sensíveis ao próximo. Os ricos, que podem dominar o ambiente em que vivem, não têm de se incomodar com o que outros sintam ou pensem. Estão no comando. Conseguem o que querem. O que querem que seja feito é feito. E quanto mais vivem no centro do próprio universo estanque, mais duros, mais insensíveis e mais cruéis se tornam. 
 
A família branca rica tem excepcional aptidão para o crime. Membros de famílias brancas ricas comandam corporações falidas (pensem nos Irmãos Lehman), fraudam acionistas e investidores, vendem hipotecas podres como se fossem investimentos dourados a fundos de pensão, comunidades e escolas e quando a coisa toda explode, ainda saqueiam o Tesouro dos EUA. Roubam centenas de milhões de dólares em Wall Street mediante fraude e assaltos, pagam poucos impostos ou nenhum, praticamente jamais vão para a cadeia, escrevem as leis e regulações que legalizam seus próprios crimes e, depois, são convidados a participar da direção das universidades de elite, ou tomam assento nos boards das grandes empresas privadas. Inventam fundações e são admirados como filantropos. E se acabam por meter-se em coisa realmente grave, têm os advogados mais caros e todos os seus “contatos” nas elites políticas, para se safarem. 
 
Isso é preciso reconhecer nas famílias brancas ricas: roubam com muito mais finesse que qualquer outra família. Se você é adolescente negro pobre e salta de uma caminhonete com alguns vidros de shampoo que acabou de roubar, o mais provável é que seja assassinado a tiros, pelas costas, ali mesmo na calçada ou, então, é condenado a anos de cadeia. Se houvesse Olímpiadas de crime, as famílias brancas ricas levariam todas as medalhas; as famílias negras pobres teriam sorte se ficassem menos de cem metros atrás do último classificado. Nem sei por que há negros que tentam competir com os brancos, no setor “crime”. Comparados aos criminosos brancos, os criminosos negros são lastimáveis fracassos. Os monarcas do crime são gente branca, que chafurdam na própria riqueza, enquanto vão trancafiando nas prisões porcentagem enorme de homens pobres negros. 
 
Famílias brancas ricas são também os matadores mais eficientes que há no planeta. É verdade há já 500 anos, começando na conquista da América e no genocídio contra os povos nativos norte-americanos, e continuando hoje, nas guerras dos EUA no Oriente Médio. As famílias brancas ricas não matam com as próprias mãos. Não precisam arriscar o próprio pescoço nas ruas das cidades nos EUA ou no Iraque. Mas contratam gente, quase sempre pobres, para matar por elas. Famílias brancas ricas queriam o petróleo do Iraque, ergueram bandeiras e entoaram slogans patrióticos, e assim arregimentaram legiões de crianças pobres para guerrear em nome delas e passar a mão nos poços de petróleo do Iraque. 
 
Casal branco rico típico
Famílias brancas ricas queriam guerra sem fim para benefício da indústria de armas. Foi só convocar para uma guerra ao terror, que conseguiram o que queriam. Famílias brancas ricas queriam que a polícia usasse impunemente força letal contra os pobres e que os prendessem aos milhares, inchando ainda mais as prisões dos EUA com 25% da população prisional do planeta. Foi só criar uma rede de leis antidrogas e militarizar os departamentos de Polícia, que conseguiram o que queriam. 
 
A beleza de fazer outros matarem por você é que você consegue se fazer passar por “razoável” e “bom”. Assim, você logo pode pôr-se a matar pobres muçulmanos por serem fanáticos furiosos. Você consegue divulgar a mensagem da tolerância num sorriso de querubim – o que implica continuar a tolerar os crimes e a violência cometidos por norte-americanos brancos ricos. 
 
Compare os tiros partidos de um carro em movimento em Watts e o bombardeio de saturação no Vietnam. Compare as guerras de gangues em Chicago e o ataque da polícia militarizada contra pelo menos um homem negro por dia, praticamente todos os dias. Ninguém produz mais rapidamente maior número de cadáveres que os ricos brancos. Só no Iraque, produziram um milhão de cadáveres, só até agora. E os ricos e poderosos que matam números espantosos de pessoas nunca vão para a prisão. Podem aposentar-se e ir viver num rancho em Crawford, Texas, e pintar retratos ridículos de líderes mundiais copiados de Google Image Search
 
Não há decadência como a decadência dos brancos ricos. Conheço um bilionário que, aposentado, passa o dia num iate fumando maconha e tratado por uma resma de prostitutas caras. Os filhos das famílias brancas ricas – cercados de empregados e cevados em escolas privadas, nunca voam em aviões de carreira nem se servem do transporte público – desenvolvem o ócio e a preguiça como meio de vida, quase sempre embalado em drogas, que com frequência os levam a desperdiçar completamente a própria vida, como parasitas sociais. As mães não precisam ser mães. Os pais não precisam ser pais. Babás e porteiros fazem o serviço. Os ricos vivem encastelados em reinos privados, protegidos por sua própria guarda privada, nos quais o mundo real não se intromete. São filisteus culturais ocupados com acumular mais riqueza e mais propriedades. O “sucesso material”, como escreveu C. Wright Mills, “é a única e verdadeira base da autoridade”. Misturam-se ao mundo das celebridades. E jornais e televisões comerciais de massa – que famílias brancas e ricas controlam – convertem-nos em ídolos a serem reverenciados só porque são ricos. Profissionais de “relações públicas” [mas que só sabem de relações privadas! :-D)))))] constroem as personas desses ricos, para o mundo exterior. Legiões de advogados atormentam e silenciam quem critique os ricos e brancos. Profissionais da bajulação promovem a sagacidade deles. Em pouco tempo, os brancos ricos estão convencidos da veracidade da mentira que criaram. 
 
Manifestação de negros pobres
Daniel Patrick Moynihan escreveu em 1965 o que se conhece como “Relatório Moynihan”, ou “The Negro Family: The Case for National Action” [A Família Negra: proposta de ação nacional]. O relatório concluiu que “no coração da deterioração do tecido da sociedade dos negros nos EUA está a deterioração da família dos negros”. Os oprimidos passavam a ser culpados pela própria opressão. Nenhum programa social poderia, sozinho, salvar os pobres. O relatório é exemplo clássico do modelo da economia neoliberal, ali re-embalado como uma ideologia. 
 
As patologias dos ricos logo nos levarão para uma ladeira econômica e ecológica. E quando mais nos afundarmos, mais os ricos, sem qualquer empatia e incapazes de compreender, determinados a manter a riqueza e os privilégios deles, mais usarão a guarda pretoriana deles, os veículos deles da comunicação de massas deles, os fantoches políticos deles, e o aparelho de vigilância e segurança deles para nos manter submissos. 
 
“O segredo de um grande sucesso sem causa aparente é sempre um crime jamais descoberto porque foi bem executado”, escreveu Honoré de Balzac em seu romance Le Père Goriot
 
Os ricos executaram um golpe de estado que transformou os três braços do governo dos EUA e praticamente todas as instituições, inclusive as empresas-mídia e todos os veículos comerciais de comunicação de massa em subsidiárias da empresa-estado. 
 
Esse golpe dá aos ricos autorização e poder para acumular riqueza inimaginável, sempre à nossa custa. O golpe permite que os ricos imponham pobreza cada vez mais incapacitante a círculos sempre crescentes da população. A pobreza passou a ser o pior dos crimes – como George Bernard Shaw escreveu, “todos os demais crimes passam a ser virtudes, se comparados à pobreza”. 

Martin Luther King e Malcolm X assassinados
por serem incômodos à elite branca e rica
E a habilidade de uma elite rapace, para deixar crianças morrerem de fome; para fazer homens e mulheres sofrerem a perda da própria dignidade humana e a autoestima, porque não encontram trabalho; a ter de abandonar as próprias casas e cidades; para jogar às ruas os doentes mentais e os velhos sem teto; para cortar sempre mais os magros serviços que ainda dão algum socorro e alguma esperança aos que sofrem, para meter centenas de milhares de pobres em celas de prisões por anos e anos; para fazer guerras sem fim; para fazer curvar os mais moços, sob o peso de dívidas estudantis sem fim; para lançar o estado de terror; e para pôr fim a qualquer esperança entre os menos afortunados, tudo isso demonstra e comprova que os oligarcas brancos e ricos norte-americanos são a força mais destrutiva e mais perigosa ativa hoje nos EUA.

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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

domingo, 23 de novembro de 2014

Contra as ameaças do capitalismo

22/11/2014, [1] Ursula K. Le Guin, Truthdig, Vídeo 6”08’
Excerto da transcrição traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Cerimônia em que Le Guin recebeu a Medalha de Honra por sua Contribuição às Letras nos EUA, na 65ª. edição anual National Book Awards


“Acho que vêm por aí tempos difíceis, quando todos desejaremos ouvir a palavra de escritores que vejam caminhos à frente, além e adiante do que vivemos hoje, e possam ver através da nossa triste sociedade trêmula de medo e de suas obsessivas tecnologias, e vejam lá outros modos de ser, e consigam imaginar fundamentos firmes para alguma esperança”.

“Escritores são criadores de realidade, não produtores de mercadorias para o mercado”.

“No futuro, precisaremos muito de escritores que ainda consigam relembrar como foi a liberdade. Poetas, visionários – os realistas de realidade muito maior”.

“Vivemos no capitalismo. O poder do capitalismo parece inescapável. O poder divino dos reis também parecia”.

“Os seres humanos são capazes de resistir contra qualquer poder humano. Os seres humanos podem mudar qualquer poder humano”.

“A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muito frequentemente começaram na nossa arte – na arte das palavras”.

Nota dos tradutores
[1] Títulos dessa autora de ficção científica, traduzidos ao português, encontráveis hoje na Livraria Cultura, SP: LE GUIN, Ursula K., A Mão Esquerda da Escuridão, São Paulo: Ed. Aleph, 2014 (2ª. Ed.); ______, A Praia Mais Longínqua; Lisboa: Presença, 2003 (1ª. Ed.); ________, Os Túmulos de Atuan, Lisboa: Presença: 2002 (Lit. infantil).


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Estertores da democracia nos EUA


5/1/2014, [*] Chris Hedges, Truthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Se os norte-americanos não desmantelarmos imediatamente o aparelho de segurança e vigilância, não haverá jornalismo investigativo ou supervisão judicial que detenha o abuso de poder. Não haverá contraditório organizado. Não haverá pensamento independente. A crítica, por morna que seja, será tratada como ato de subversão. O aparelho de segurança amortalhará o corpo político como mofo negro, até que o mais banal e ridículo seja convertido em questão de segurança nacional.

O Gen. Keith Alexander, Diretor da NSA (National Security Agency), testemunhou no Capitólio (no Comitê Judiciário do Senado) em dezembro de 2013, e obteve um memorando autorizando “Supervisão contínua pelas autoridades fiscalizadoras do Governo dos EUA” de quaisquer cidadãos sem prévia autorização judicial.
Os EUA vivemos nossos últimos estertores como democracia. A intrusão do estado na vida de cada um e todos, e a obliteração da privacidade já são agora fatos. O desafio para todos nós – dos desafios finais, suspeito eu – é nos levantarmos ultrajados e pôr fim ao assalto aos nossos direitos à liberdade e à livre expressão. Se não o fizermos, nos veremos convertidos numa nação de cativos.

Os debates públicos sobre medidas do governo para impedir o terrorismo, o assassinato de reputação contra Edward Snowden e seus apoiadores, as garantias, pelos poderosos, de que ninguém estaria dando mau uso à quantidade massiva de dados coletados e armazenados das nossas comunicações eletrônicas não visam ao alvo alegado.

Qualquer governo que tenha capacidade para monitorar seus cidadãos; qualquer estado tenha capacidade para descartar o debate público sobre fatos; qualquer estado que tenha ferramentas suficientes para calar instantaneamente a oposição discrepante é estado totalitário.

Hoje, o estado-empresa [orig. corporate state] norte-americano pode talvez não estar usando todo esse poder. Mas o usará, se se sentir ameaçado por uma população tornada impotente pela corrupção entre os próprios cidadãos, pela incapacidade para organizar-se para agir, ou por repressão galopante. No instante em que surja um movimento popular – e algum surgirá – que realmente confronte nossos patrões na imprensa-empresa ou no estado-empresa, o venal sistema-empresa norte-americano de vigilância total será posto a trabalhar a pleno vapor.

O mal mais radical, como Hannah Arendt apontou, é o sistema político que efetivamente esmaga seus oponentes marginalizados e abusados e, pelo medo e pela obliteração da privacidade, incapacita todos os demais. O sistema norte-americano de vigilância de massa é a máquina pela qual esse mal radical será ativado.

Se os norte-americanos não desmantelarmos imediatamente o aparelho de segurança e vigilância, não haverá jornalismo investigativo ou supervisão judicial que detenha o abuso de poder. Não haverá o contraditório organizado. Não haverá pensamento independente. A crítica, por morna que seja, será tratada como atos de subversão. O aparelho de segurança amortalhará o corpo político como um mofo negro, até que o mais banal e ridículo seja convertido em questão de segurança nacional.

Conheci mal dessa qualidade, quando trabalhei como repórter no estado-Stasi (al. no orig., “Ministério da Segurança do Estado”) da Alemanha Oriental. Era seguido por homens de cabelo cortado à militar, metidos em jaquetas de couro, que eu presumia que fossem agentes do Stasi, que eram apresentados como “escudo e espada” da nação. As pessoas que eu entrevistava eram visitadas por agentes do Stasi, imediatamente depois de eu sair da casa delas. Meu telefone era “grampeado”. Alguns dos que trabalhavam comigo eram pressionados para tornar-se informantes. O medo descia como gelo duro, sobre cada conversa.

O Stasi não criou massivos campos de morte e gulags. Não precisou. O Stasi, com rede de dois milhões de informantes, numa população de 17 milhões, estava em todos os cantos. Havia 102 mil funcionários da polícia secreta que trabalhavam em tempo integral para monitorar a população – um, para cada 166 alemães do leste. Os nazistas quebraram ossos; o Stasi quebrou almas. O governo da Alemanha Oriental foi pioneiro da desconstrução psicológica que os torturadores e interrogadores nos buracos negros da CIA pelo mundo, e dentro do sistema prisional norte-americano, elevaram à mais aterrorizante perfeição.

O objetivo da vigilância total, como Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo, não é, no fim, descobrir crimes, “mas estar a postos, quando o governo decide prender uma dada categoria da população.”

E porque os e-mails, as conversas telefônicas, as pesquisas na Web e os deslocamentos geográficos são gravados e armazenados para sempre nos bancos de dados do governo dos EUA, haverá sempre “provas” em quantidade suficiente para nos encarcerar, caso o estado considere necessário. A informação espera, como um vírus mortal, nos cofres do governo, para ser usada contra nós. Não importa o quanto a informação seja trivial ou inocente. Em estados totalitários, a justiça, como a verdade, é irrelevante.

O objetivo de estados totalitários eficientes, como George Orwell compreendeu, é criar um clima no qual as pessoas não pensem em rebelar-se, um clima no qual a tortura e a matança praticadas pelo governo são usadas só contra um punhado de renegados inadministráveis. O estado totalitário obtém esse controle, Arendt escreveu, mediante o esmagamento sistemático da espontaneidade humana e, por extensão, da liberdade humana. Espalha o medo incansavelmente, para manter a população traumatizada e imobilizada. Converte os tribunais, como os corpos legislativos, em mecanismos para legalizar os crimes do estado [e os crimes das classes e grupos de força dominantes, como os crimes da imprensa-empresa (NTs)].

O estado-empresa norte-americano, no caso dos EUA, usou a lei para silenciosamente abolir a 4ª e a 5ª Emendas da Constituição, estabelecidas para nos proteger contra intrusão do governo-empresa em nossa vida privada, sem mandado judicial. A perda da representação e da proteção judicial e política, parte do coup d’état engendrado pelo estado-empresa, implica que não temos nem voz nem proteção legal contra os abusos do poder. A recente sentença judicial que apoia e legaliza a espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, emitida pelo Juiz Distrital dos EUA, William H. Pauley III, é parte de uma longa e vergonhosa lista de sentenças e decisões judiciais que repetidas vezes sacrificaram nossos mais caros direitos constitucionais, no altar da segurança nacional, desde os ataques de 11/9.

Juiz Distrital dos EUA, William H. Pauley III
Os tribunais e corpos legislativos do estado-empresa invertem agora, rotineiramente, nossos mais básicos direitos, para justificar a pilhagem-empresa e a repressão-empresa. Declaram que doações secretas massivas para campanhas eleitorais – que é uma forma de legalizar a propina – são ações protegidas pela 1ª Emenda. Definem a empresa-lobby – mediante a qual empresas privadas fazem chover dinheiro sobre funcionários eleitos e escrevem nossas leis – como direito do povo, de agir como governo. E podemos, conforme as leis norte-americanas, ser torturados ou assassinados ou presos por tempo indefinido pelos militares; e podemos não receber o devido processo legal; e podemos ser espionados sem mandado judicial.

Cortesãos obsequiosos, servis, que se apresentam como jornalistas, santificam o poder da empresa e do estado-empresa e amplificam suas mentiras – a rede MSNBC faz isso tão caninamente quanto a rede Fox News – ao mesmo tempo em que enchem nossa cabeça com a imbecilidade das fofocas sobre “celebridades” e “notícias” que nem notícia são.

Nossas “polêmicas”, que permitem que políticos e jornalistas de futrica falem sem parar sobre questões que nem questões são, mascaram um sistema político que deixou de funcionar. História, arte, filosofia, investigação intelectual, nossas lutas sociais e individuais passadas, por justiça; o próprio mundo das ideias e da cultura, com a compreensão do que significa viver e participar numa democracia funcional, foram jogados nos buracos negros do que se deve esquecer, apagar.

Sheldon Wolin
O filósofo político Sheldon Wolin, em seu livro indispensável, essencial, Democracy Incorporated[“Democracia-empresa”, sem edição no Brasil, “esgotado no fornecedor”, cf. webpage da Livraria Cultura (NTs)] chama o sistema de governo-empresa [orig. corporate governance] nos EUA, de totalitarismo invertido, que representa “a nova era de política-empresa e de desmobilização política da cidadania”.

O totalitarismo da política-empresa difere das formas clássicas do totalitarismo, que giram em torno de um líder carismático ou demagogo; sua expressão é o anonimato do estado-empresa [orig. “the anonymity of the corporate state (NTs)]. As forças da empresa [orig. corporate forces] ativas por trás do estado-empresa inverteram o totalitarismo, para não substituir estruturas decadentes, como fazem os movimentos totalitários clássicos, por novas estruturas.

Em vez disso, fingem honrar a política eleitoral, a liberdade de manifestação e a imprensa democrática, o direito à privacidade e as garantias legais.

Mas manipulam a política eleitoral de tal modo, corrompem-na de tal modo, tão completamente – como também corrompem juízes, tribunais, a imprensa e todas as alavancas essencial do poder – que tornam impossível a genuína participação democrática das massas [isso está para acontecer também aqui no Brasil com a USURPAÇÃO pelo Poder Judiciário de prerrogativas dos Poderes Executivos e Legislativos (Nrc)].

A Constituição dos EUA não foi reescrita, mas já foi capada, nas interpretações que lhe dão juízes e corpos legislativos. E cá ficamos, com uma frágil capa democrática e um duro núcleo totalitário.

A âncora desse totalitarismo-empresa são os sistemas norte-americanos de segurança interna, que nada e ninguém supervisiona ou controla.

Nossos governantes totalitários-empresa se autoenganam, com tanta frequência quanto enganam o público. Política, para eles, é pouco mais que RP (Relações Públicas). Contam-se mentiras, não para obter algum resultado discernível de política pública, mas para proteger a imagem do governante e do governo dos EUA. Essas mentiras tornaram-se uma grotesca modalidade de patriotismo.

A capacidade do governo dos EUA, mediante vigilância total, para impedir qualquer investigação externa sobre o poder, engendra apavorante esclerose intelectual e moral, que se dissemina no interior da elite governante.

Noções absurdas, como a de implantar alguma “democracia” em Bagdá pela força, para que essa “democracia” se espalhasse pela região, ou a ideia de que os EUA poderiam aterrorizar o Islã radical no Oriente Médio para forçá-lo à submissão, já não são mantidas sob equilíbrio pela ação da realidade ou pela experiência ou por discussão social racional baseada em fatos. Dados e fatos que não se encaixem nas teorias-fantasias-alucinações das elites políticas norte-americanas, dos generais, dos gerentes do aparelho de inteligência são ignorados e ocultados para que os cidadãos não os vejam. A capacidade dos cidadãos para tomar medidas autocorretivas é frustrada, para todos os efeitos. E no final, como em todos os sistemas totalitários, os cidadãos norte-americanos tornam-se vítimas da loucura do governo norte-americano, de mentiras monstruosas, de corrupção avassaladora e do terror de estado.

Paul Celan
O poeta romeno Paul Celan capturou a lenta ingestão de um veneno ideológico – no caso dele, o fascismo – em seu poema “Fuga da Morte” [1]:

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã
nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado

Nós, os norte-americanos, como em todos os estados totalitários emergentes, fomos mentalmente inseminados por uma amnésia histórica cuidadosamente orquestrada; uma imbecilidade induzida pelo estado-empresa norte-americano. Cada dia menos nos recordamos do que seja ser livre. E porque esquecemos, não reagimos com a ferocidade apropriada quando afinal toma-se conhecimento de que nossa liberdade nos foi roubada. As estruturas do estado-empresa têm de ser derrubadas. Seu aparato de segurança tem de ser destruído. E os que pregam e defendem o totalitarismo-empresa – incluídos aí os líderes dos dois principais partidos dos EUA, os fátuos acadêmicos norte-americanos, jornais, televisões, imprensa-empresa e jornalistas-empresa corruptos – têm de ser expulsos dos templos do poder.

Protestos em massa, nas ruas, e prolongada desobediência civil são a única esperança que nos resta aos norte-americanos. Se esse nosso levante fracassar – fracasso com o qual o estado-empresa conta – os norte-americanos estaremos escravizados.




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Nota dos tradutores
(trad. Modesto Carone, do livro: “Quatro mil anos de poesia”, J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares, Ed. Perspectiva, 1969, SP, em:

Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã
nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha
eu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita.


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[*] Chris Hedges, cuja coluna é publicada às segundas-feiras em Truthdig, passou quase duas décadas como correspondente internacional na América Central, no Oriente Médio, na África e nos Bálcãs. Escreveu reportagens em mais de 50 países e trabalhou para The Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News e The New York Times, para o qual foi correspondente internacional por 15 anos.