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quarta-feira, 25 de abril de 2012

A MALDIÇÃO DE CUNHAMBEBE (II)


Ubatuba – Se não puder evitar, seja breve  

*Raul Longo
  

Cunhambebe, como ilustrado por
André Thevet, um cosmógrafo francês
que acompanhou a expedição de
Nicolas Durand de Villegaignon
Para quem escreve, o primeiro leitor almejado é o próprio autor. Algumas vezes para externar a si mesmo a indignação sentida, outras para confirmar emoções, muitas para buscar explicações.

É o que tentarei aqui: buscar explicação para algo que me ficou absolutamente incompreensível nestas últimas semanas. Resta saber em que poderá interessar ao leitor o que não compreendo sobre algo que tenha me ocorrido.

Por trás do que é incompreensível, geralmente existe uma explicação do interesse de todos. Afirmo isso pelas experiências adquiridas nos anos que atuei como profissional de comunicação. Ao longo desse tempo aprendi que quanto mais incompreensível a atitude de um indivíduo, mais provável que tenha sido motivada por fatores relacionados a sociedade à qual pertence, ou a toda a espécie humana.

A Maldição de Cunhambebe, por exemplo, evocada pelos munícipes de Ubatuba quando alguém se sente traído ou enganado por motivos mesquinhos, aparenta-se uma crença individual. Pois exatamente a individualização dessas crenças é o que impede a percepção de suas consequências coletivas.

Claro que existem questões exclusivas que variam pelo histórico das relações familiares, os traumas pessoais, as formações e deformações de caráter motivadas por experiências únicas, intransferíveis. Mas no caso da Maldição de Cunhambebe, os que a evocam conferem a má sorte do que lhes ocorre a uma cidade.

Na verdade, como em todo lugar, há pessoas excelentes em Ubatuba. Algumas delas foram as que voluntariamente me ajudaram sem ser necessário pedir-lhes algum socorro. Por que então, num segundo momento, duas dessas pessoas precipitaram um dos piores momentos de minha vida, apenas comparável aos que vivi durante a ditadura militar?

Mas, então, minha responsabilidade e risco eram apenas sobre mim mesmo. E agora, pela primeira vez, outro dependia de meu controle sobre uma situação da qual não tinha nenhum. E isso me foi o mais desesperador.

Outra coisa a considerar é se o ocorrido em Ubatuba se restringe apenas àquela cidade ou a todo o estado de São Paulo. Quem assistiu ao filme “Invasões Bárbaras” sabe que a questão do atendimento à saúde pública se tornou um problema mundial, atingindo inclusive países outrora considerados modelares no setor, como o Canadá. Mas não tenho experiências e conhecimentos que me permitam tecer considerações a respeito.

Por isso mesmo e pela preocupação com a situação de meu pai, não respondi nem dei atenção às quantas vezes minha amiga fisioterapeuta exaltou a administração de José Serra no que diz respeito a saúde pública. Sequer percebi se ela se referia ao ministro da saúde ou ao governador, mas conforme a farta e inquestionável documentação exposta por Amaury Ribeiro Jr. no livro “A Privataria Tucana”, a quadrilha da família Serra lesou tanto o povo paulista e brasileiro que o mínimo a esperar seria mesmo ter retribuído em alguma coisa. Não sendo da área não tenho como confirmar ou avaliar as conclusões e opiniões da amiga, mas esses seus comentários me possibilitaram um caminho de investigação na tentativa de compreensão das causas do que me ocorreu entre os dias 6 e 19 de abril.

Otimista com as informações telefônicas dessa mesma amiga sobre a evolução de meu pai ao longo dos 13 dias que em Florianópolis dei andamento a algumas das obrigações deixadas para trás, surpreendo-me quando torno a encontrá-lo afundado numa poltrona modelo “cadeira do papai”, da instituição de recolhimento de idosos onde o deixei em 21 de março. Era o mesmo celofane amassado de um mês antes, no hospital.

A diretora da instituição explica que tiveram de colocá-lo ali por ter caído da cama três vezes. Concluindo que sonhara estar nadando, mostra o machucado em um cotovelo provocado pela queda. Avalia a sorte de não ter se ferido em nenhuma outra parte e torna a reclamar de seu peso. Pergunto do enfermeiro pelo qual acrescera o valor da mensalidade e informa que o rapaz se demitiu logo depois e o outro, o único homem do quadro de funcionários da instituição, se recusa a atender meu pai.

Indago a razão e confidencia ter ocorrido uma discussão entre a amiga fisioterapeuta e o técnico de enfermagem, por motivos que desconhece, mas conclui relativos ao meu pai. Revela ter notado que o desinteresse do profissional ocorreu depois da visita ao meu pai por um inconsequente. Mas o mais preocupante foi o retorno da febre que provocou nova internação na Santa Casa, onde passara aquela noite de 06 a 7 de abril; e a recomendação da médica que atende aos idosos para que meu pai fosse transferido a um hospital capacitado para atendê-lo nas profundas debilidades que o acometem: baixo nível de plaquetas, inchaço do coração e infecção urinária.

A médica teria alertado que ele não suportaria as mais de 10 horas de viagem para Florianópolis, mas, como funcionário público aposentado, imprescindível sua transferência para o Hospital do Servidor em São Paulo, enquanto ainda lhe restava alguma resistência.

Exponho a preocupação de que se repita o mesmo que ocorrera quando lhe deram alta na Santa Casa e não tinha para onde levá-lo. Também explico que todas as pessoas da família da esposa de quem meu pai ficou viúvo trabalham, e não há ninguém disponível para acompanhá-lo diuturnamente como seu caso exige.

Informo que Sônia, a enteada, esta em negociação com uma clínica de repouso, mas que antes dessa confirmação temo a insegurança de não ter para onde levá-lo. A amiga garante que para normalização de sua condição de saúde, o Hospital do Servidor o manteria internado no mínimo duas semanas.

Foi a informação que transmiti no sábado a tarde quando chegam Sônia, suas filhas e netos. Todos muito chocados com o estado do pai e avô, além da grosseria de alguém que reclamou de sua permanência naquela instituição, questionando-as duramente sobre quando o levariam embora. Imaginei que tiveram a má sorte de se deparar com algum funcionário mais tosco e mal humorado, como há alguns anos vêm se tornando bastante comum na outrora simpática Ubatuba dos antigos caiçaras.

O que terá tornado os de Ubatuba tão grosseiros e irascíveis? Não sei responder, mas pude sentir no dia seguinte.

No anterior, preocupado com a informação de que a indisposição do técnico de enfermagem contaminara os demais funcionários, retornei com um ovo de chocolate para a atendente plantonista. Não tive pejo de imitar o Paulo Maluf, mas não me reverteu a mesma admiração de que o demagogo gozava na cidade quando ali vivi, pois desde que adentrei o portão a diretora minha amiga e uma mulher que até então não conhecia seguiram-me por cerca de 30 metros até o alojamento de meu pai. Uma de cada lado me acusaram pelo trabalho que o pai lhes dava e continuaram falando ao mesmo tempo e me inquirindo como policiais mesmo quando sentei ao lado da poltrona onde meu pai se afundava, mas dessa vez estava desperto. Percebi ter me reconhecido pela primeira vez desde que fora acometido pelo AVC e tentou falar-me alguma coisa, mas assim como nas delegacias as torturantes mulheres não paravam de falar e quando tentava responder a uma, a outra interrompia repetindo a mesma pergunta ou a mesma acusação. Recusaram-se a escutar o que eu tivesse a dizer, numa fiel reprodução da dupla de delegado do DOPS e tenente do exército que me interrogou em Recife nos anos 70. Dessa vez não tinha porque deixar que me intimidassem e num tom acima disse algo que calou a matraca da desconhecida que empinou o nariz e saiu pisando duro, além de recompor a diretora à normalidade sadia.

Só então pude ouvir o fio de voz de meu pai em meio a um sorriso: “- Palpiteira!” A amiga concordou que a outra não deveria ter se metido, mas retornou a importância da imediata transferência de meu pai ao Hospital do Servidor, antes que seu debilitado estado de saúde se agravasse, novamente enumerando condições que o levariam a morte. Um quadro tão desesperador que sai dali para telefonar à Sônia já de retorno a São Paulo, interando-a da eminência da morte de nosso pai se não conseguimos tirá-lo dali o mais rápido possível.

Na segunda-feira cedo encontrei a diretora e a amiga fisioterapeuta que relatou a razão de sua discussão com o técnico de enfermagem, quando ele o acusou de estar recebendo por fora, baseado em informação do visitante inconsequente. A informação era de que meu pai teria pequena fortuna em poupança.

Hoje me pergunto se terá sido essa razão de, em menos de duas semanas, minhas amigas terem mudado radicalmente de comportamento. Mas ainda me é difícil aceitar que tenham acreditado numa informação que, por todas as evidências, sabiam que apenas eu poderia possuir. Inclusive uma delas é testemunha na procuração que a mim transferiu o poder de inteirar-me do saldo de meu pai.

Também sabem de meus restritos recursos de sobrevivência aferidos nesta pequena pousada procurada apenas nos curtos períodos de temporada desta capital sulista. Não me é possível imaginar que, apesar de toda admiração que tenham pelo José Serra, sejam ingênuas o bastante para acreditar no obus em que transformaram uma bolinha de papel. Não posso acreditar que as fantasias da campanha de Serra tenham influenciado as amigas a tal ponto de acreditar em qualquer delirante que apareça.

Adolf Hitler transformou o povo de Beethoven, Schopenhauer e Goethe, entre tantos outros sensíveis artistas e pensadores, em celerados genocidas. Terá José Serra transformado mulheres que sempre admirei, inclusive pela inteligência, em idiotas?

Não apenas por serem minhas amigas, isso não me parece provável, mas também porque conheceram a casa de meu pai: uma construção inacabada e abandonada à beira do mangue no final da praia mais popular de Ubatuba, com dois quartos, sala e cozinha conjugada e ampla dispensa para seu naturalismo amador. Sabem de seu Chevette 93 de lataria podre, ainda que nem tanto quanto a mesquinha avidez do enfermeiro iludido por um inconsequente que delirou uma informação que não possuía.

Decididamente minhas amigas não são idiotas como o técnico de enfermagem, mas também não consigo imaginar que tanto trabalho pode ter dado uma pessoa impossibilitada de se mover e voz quase inaudível. Daí só poderia concluir que realmente havia uma sincera preocupação com meu pai.

A estimativa para recuperação do estado agudo e terminal em que meu pai se encontrava ampliou-se para mais de 20 dias e o desespero que me infundiram, transmiti por telefone à Sônia. Uma de suas filha matou o trabalho para naquela mesma segunda-feira, 9 de abril, comover a assistente social do Hospital do Servidor público que me ligou confirmando a vaga, dependendo somente da solicitação de um dos médicos que atenderam meu pai, na Santa Casa ou na instituição de acolhimento de idosos.

Já era noite quando consegui localizar a amiga fisioterapeuta, informando essa última condição e lamentando a conhecida inacessibilidade dos médicos de Ubatuba. Reiterando recomendações de estrito sigilo, forneceu o telefone de ambos: o da Santa Casa e o da médica que atendia meu pai no lar de idosos.

Também minha conhecida, aquela médica se espantou quando lhe comuniquei que atendendo sua orientação, obtivera meios de internação em São Paulo. Confirmou ter considerado temerária uma viagem, mesmo em ambulância, de mais de 10 horas, mas disse já ter informado às minhas amigas que hospital algum aceitaria meu pai, pelo simples fato de que ele não apresentava qualquer indício de motivo para internação hospitalar, estando em perfeita recuperação dentro das condições de seus 87 anos e do AVC que o acometera.

Estupefato, retorno à amiga que desqualifica ferozmente o diagnóstico da médica. Demais atordoado no momento, não me ocorreu a comparação com as acusações de Mônica Serra à adversária de seu marido na campanha das últimas eleições à presidência, mas confesso que depois cogitei a possibilidade daquele tipo de comportamento ter se tornado um exemplo seguido pelo eleitorado feminino paulista. Um modismo comportamental.

Hoje refuto tal consideração, lembrando que minha maior admiração àquela amiga sempre foi exatamente por sua sinceridade, para muitos até desconcertante. De forma alguma! Jamais ela cometeria semelhante hipocrisia!

No entanto, assim como os eleitores do nordeste foram ameaçados de afogamento pela estudante paulista de direito e eleitora do Serra, a amiga estimulou-me ao complexo de culpa pelo que viesse a ocorrer ao meu pai, duramente exortando-me a procurar o outro médico, o do hospital, impondo a necessidade da transferência.

Desliguei o telefone atarantado: em quem acreditar? A médica inclusive me garantira que seu colega da Santa Casa corroborava com as mesmas conclusões. Mas e se o diagnóstico de ambos resultasse da inconsequência acusada pela amiga? Não é médica, mas além da larga experiência, acompanhava diariamente ao meu pai. E é amiga!

De um lado a confiança na amizade e de outro tentava imaginar como impor diagnóstico a um médico. Da forma que José Serra se impôs ao Heródoto Barbeiro quando o jornalista questionou a exorbitância cobrada nos pedágios do estado?

Amanheci a terça-feira no portão da entrada da Santa Casa que a amiga indicou ser a utilizada pelo médico, pois sabia que uma vez lá dentro teria de contar com a eventualidade de encontrá-lo no fumódromo e não sabia dos hábitos tabagistas daquele que acompanhara as internações de meu pai.

Dei a incrível sorte de naquele dia encontrar um porteiro solidário que, por interesse humano praticamente extinto em Ubatuba e restrito às raríssimas almas caiçaras que ali ainda insistem em sobreviver, às 9 horas me acenou de dentro do vidro da guarita para avisar que às terças-feiras aquele médico dá plantão em uma cidade vizinha.

Eu estava perdido. Meu pai morreria!

Pelo telefone minha irmã (nessas alturas assumira em Sônia a irmã que nunca tive) me tranquiliza e pede que aguarde a ligação da assistente social do Hospital do Servidor. Não preciso esperar muito e a moça informa que uma ambulância já está a caminho para resgatar meu pai. Mas explicando que será levado para exames clínicos num laboratório conveniado, informa que se os resultados não justificarem internação será devolvido para à instituição de onde seria retirado.

Recordo as palavras da médica, mas impossível não confiar na experiência das amigas, afinal foram elas que me ajudaram desde o começo, há duas semanas. Por qual razão me enganariam? Jamais agiriam como políticos que pegam carona na popularidade daqueles a quem se opuseram. Isso foi um maneirismo de José Serra ao usar a imagem do bem sucedido mandado de Lula, mas minhas amigas não são demagogas.

Embarcamos na ambulância por volta das 20 horas. Mais tarde o vizinho e amigo também José, mas pessoa simples e honesta, contará que naquela sua última visita enquanto aguardávamos a ambulância meu pai sussurrou-lhe que fugiríamos num trem.

Durante toda a viagem ele falou incongruências engraçadas e infantis, obrigando a me curvar sobre sua boca para escutá-lo e manter um diálogo que o fizesse esquecer as correias que o prendiam à maca: “- Alguém fez coisa muito errada em meu nome.” “- Por que pai?” “- Se não, não me levariam nesse trem amarrado desse jeito!”

Era 1 hora da manhã do dia 11 de abril quando demos entrada à Clínica Clemford, em Santos. Na recepção, o enfermeiro que nos acompanhara na viagem relatou que encontrara meu pai colocado numa poltrona totalmente inapropriada. Tentei explicar que fora para evitar que caísse e retrucou afirmando ser muito simples e fácil improvisar uma grade em qualquer cama convencional.

Cansado, retornei à entrada da clínica na tentativa de reconhecer em que ponto da cidade de Santos estava. Periferia, à margem da saída para São Paulo. O porteiro me contou que na noite anterior mataram um policial na esquina, em frente à uma casa de shows funk. Comentei qualquer coisa sobre a possibilidade de guerra entre as policias civil e militar, conforme uma séria de reportagens da TV BAND. O rapaz comentou algo sobre o PCC e lembrei o sequestro do estado mais risco da federação no governo anterior de Geraldo Alckmin. Consequentemente também lembrei do seu apoio político a um líder da mesma facção, conforme documentado nestas imagens:


Impossível dormir naquela noite. Aguardando a confirmação da transferência de meu pai ao Hospital do Servidor, passei o tempo lucubrando sobre a inconsequência de um eleitorado que insiste em manter os mesmo podres poderes apesar do escândalo dos sanguessugas, da máfia das ambulâncias, do Daniel e da Verônica Dantas, da privataria, do Cachoeira, da Vila Pinheirinho, do Naji Nahas, da invasão da USP pela PM, etc., etc., etc...

Sem dúvida tem razão o amigo que me escreve lembrando que a situação vivida por meu pai reflete um sistema de saúde pública em degradação muito antes do governo tucano, mas o que ora me espanta não são as progressões e os retrocessos dos atendimentos às inúmeras mazelas promovidas ao longo de décadas de governos de políticos inconsequentes. No momento o que mais me preocupa são as consequências, as influências do péssimo comportamento desses políticos na degradação do comportamento do cidadão brasileiro, do ser humano de nacionalidade brasileira.

Naquela noite conclui que muitas vezes a inconsequência é tão inocente, tão desprovida de maus propósitos ou intenções que o próprio inconsequente recorre a um mito, como o da Maldição de Cunhambebe, para explicar o que não consegue admitir em si. Durante anos desculpei minhas inconsequências alegando um pretenso atavismo italiano: “deu os cinco minutos!”. Foi a sabedoria de uma japonesa que me alertou de que consumiria toda minha vida em sucessivos 5 minutos de inconsequências.

Quando se trata de política, inocente ou não, o inconsequente sempre será a vítima de si próprio. Mas não o único, conforme pude constatar no início da tarde do dia seguinte, 12 de abril, quando após uma bateria de exames o diretor da clínica adentra o quarto em que nos alojaram para anunciar que de acordo com os resultados daqueles exames, como já anunciado pelos médicos de Ubatuba, não havia qualquer motivo para meu pai ser encaminhado a internação.

Balbuciei perguntando sobre as plaquetas e estranhou. Problema algum com plaquetas, apenas leve anemia provocada por recente insuficiência alimentar, provavelmente devido ao estado de semi-inconsciência. Insisti: “- E o coração inchado? A severa infecção urinária?”

Olhou-me desconfiado e interpretando erroneamente minha ansiedade explicou que a clínica seria ressarcida pelo transporte e exames de meu pai independente de indicação para internação ou não. E que seria falta de ética pretender expor uma pessoa saudável aos riscos de contaminação hospitalar. O coração estava em dimensão naturalmente diferente de quando tinha 50 anos, como então já teria sido diferente de quando tivera 25. A progressão do tratamento à infecção foi considerado satisfatória e podendo ter continuidade em qualquer ambiente em que o acomodasse. Por fim, encaminharia meu pai para o lugar de onde veio.

Apesar de envergonhado, pergunto pela possibilidade de aguardarmos mais quatro dias, explicando que então minha irmã confirmaria a internação de meu pai numa clínica geriátrica em Guarulhos e evitaríamos submetê-lo a outra viagem. Concordou com apenas mais uma noite, lembrando que pela natureza daquele estabelecimento não tinham sequer como me oferecer um lugar para tomar banho. Só então me dei conta que deveria estar fedendo ao suor do calor de Santos por tantas caminhadas até o telefone público na distante esquina da quadra, aonde novamente me dirigi ligando a cobrar para a Sônia, pedindo que avisasse ao pessoal do lar de idosos de Ubatuba sobre nosso retorno.

Fiquei de confirmar depois e retornei ao quarto. Num momento meu pai faz menção de levantar da cama e o contenho: “- Mas quero ir ao banheiro, filho!” Expliquei que não podia, Não compreendeu o motivo e tive de lembrá-lo que não podia andar. Perguntou a razão e contei que estava provido de fralda geriátrica. Espantou-se: “- Então estou assim?” Como desde então nunca mais tentou sair da cama, conclui que não caíra por sonhar que nadava, mas apenas por não saber que não podia andar.

Foi quando comecei a tentar imaginar o que ocorrera com minhas amigas. Precipitação? Falta de percepção? Excesso de zelo? Ausência? Descontrole?

Percebendo-me preocupado e sem saber o real motivo, o pai informa ter um dinheirinho guardado no banco de sua poupança. Expliquei-lhe todas as providências que tomara por suas pequenas economias. Comentou e concordou com tudo, me agradecendo. 

A caminho do telefone público para confirmar a transmissão da notícia de nosso retorno, é que me dei conta de sua vertiginosa recuperação intelectual e até mesmo da voz. Apesar de não terem lhe administrado nenhum remédio, em menos de 24 horas já não tinha aquela expressão abobada, sua voz era firme e até lembrava o banco onde mantinha conta poupança!

Surpresa ainda maior me deu Sônia pelo telefone: a instituição de Ubatuba dizia que a vaga fora ocupada.

Depois de imaginar as primeiras providências a serem tomadas para acomodar meu pai na sala de sua casa, de onde poderia melhor vigiá-lo estando na cozinha, pretendi ligar à Sônia para que telefonasse ao vizinho Zé. Ele ficou com as chaves da casa e queria dizer à Sônia que lhe telefonasse pedindo o favor de retirar os móveis, pois dependeríamos da disponibilidade de ambulância e não havia como prever se chegaríamos de dia ou já noite. Eram cerca de 17:30 quando quis sair para esse telefonema e estranhei a prematura posição de meia porta a encobrir a passagem que me foi impedida com a advertência de toque de recolher ordenado pelos traficantes, em represália à represália da polícia por aquela morte que o porteiro relatou na noite anterior.

Sem dormir mais uma noite, ouvia os plantonistas contabilizando “- Já morreram 3!”. Logo depois: “- Mais dois em tal rua”. “- Outro em tal lugar”. Quando chegaram a 6 consegui encontrar um tapa-ouvido.

Em outro momento confiro os laudos dos exames médicos da Santa Casa e que me foram entregues ao sairmos do lar de idosos de Ubatuba. Não pretendia entendê-los, mas precisava passar o tempo de alguma forma e descubro que ao lado da coluna das porcentagens e medidas aferidas, há outra de valores de referência.

Posso imaginar que se cruzadas as pequenas diferenças dos resultados de alguns poucos exames aos valores de referência para indivíduos do sexo masculino da idade de meu pai, possam significar alguma apreensão, mas no tão alardeado item das plaquetas em todos os laudos a correspondência se mantém na média indicada. Comecei a desconfiar que pela forma que manipulou esta informação, minha amiga tem forte talento para jornalista dos órgãos de imprensa que apoiam os políticos tucanos.

Enfim, quando chegou a hora apropriada para ligar para a Sônia, minha irmã já havia conseguido uma casa de acolhimento de pessoas idosas no seu bairro. O valor da mensalidade acima dos rendimentos de meu pai, mas a única solução para o momento.

Chegamos ali cerca de 9 horas da noite. Antes de entrarmos Sônia me alertou da simplicidade do lugar que em verdade me pareceu soturno para não dizer tenebroso. Despedimo-nos de meu pai e mesmo confessando à irmã a má impressão que me provocou, considerei que talvez fosse preconceito, pois o importante mesmo seria as pessoas serem carinhosas ou ao menos não serem grosseiras.

Na visita do dia seguinte logo cedo, a alegria dos demais anciãos ali alojados me deixou mais tranquilizado, mas voltei à Ubatuba amargurado, triste. De uma tristeza que ainda me acompanhará por muito tempo e tento amenizar com este relato e análise.

Não estou triste por meu pai. Sônia lamentou por termos sido obrigados a despender mais do dobro do dinheiro com que pagaríamos a internação de meu pai em Guarulhos, na segunda-feira, 16 de abril. Não conheci, mas ela se empolgou com as instalações e equipamentos daquela instituição que nos cobraria uma mensalidade correspondente a 70%  da pensão previdenciária recebida pelo pai. Sem dúvida será bastante difícil e complicado mantê-lo onde está, mas na volta de Ubatuba fui entregar que lá fui buscar e então tive oportunidade de conhecer melhor o pessoal que ali trabalha e administra: duas irmãs enfermeiras. O marido de uma das enfermeiras, enorme e forte, é técnico de enfermagem. Todos trabalham em hospitais e se revezam ali na casa.

É a casa da família da irmã casada, com seus filhos e outra irmã responsável pela cozinha. Todos maranhenses. Há também a participação diária de outra enfermeira: uma baiana.

Recebem orientações de uma nutricionista e visitas periódicas de médicos. Um dos médicos solicitou tomografia da cabeça de meu pai, pois sua acelerada recuperação desde que ali chegou dá a impressão de que não foi acometido por AVC. Afora a impossibilidade de movimentação e sustentação de seus quadris, não há qualquer outra sequela. Fala normalmente, tem força e precisão no movimento dos braços e das pernas. Por vezes a memória se confunde como sempre lhe foi comum acontecer, mas se dá conta e ri de si próprio. Durante o dia aboliu as fraldas geriátricas, pedindo para ser levado ao banheiro sempre quando sente necessidade.

Ali, é o “seô Delcio”, mas naquele gostoso sotaque nordestino.

Talvez estivesse triste pelas minhas amigas, mas as conheço e sei que não seriam inconsequentes e mesquinhas ao ponto de não considerarem, sequer, que paguei para meu pai permanecer ali na instituição que uma delas dirige, até o dia 20 de Abril. Se nos expulsaram dez dias antes, algum motivo muito maior deve ter havido e não acredito que seja a Maldição de Cunhambebe.

Estou convencido de que Anchieta ou Serra, a maldição partiu mesmo foi de um José.

Crônica enviada  pelo autor

*Raul Longo é paulistano, jornalista e ficcionista, Raul Longo reside em Sambaqui (Florianópolis) desde 1997. Começou a atividade profissional em 1967 publicando contos infantis na revista Recreio (Editora Abril).

Nas décadas seguintes atuou em diversos veículos da imprensa alternativa. Foi repórter, redator, articulista e editor de jornais e revistas em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Campo Grande, Rio de Janeiro e Ubatuba. Hoje com 59 anos, autor de livros, publica a maior parte da produção em sites e blogs.

domingo, 22 de abril de 2012

A MALDIÇÃO DE CUNHAMBEBE (I)


Ubatuba – Se não puder evitar, seja breve                                                                                                                           
*Raul Longo

É costume se responsabilizar o histórico líder tupinambá pela degradação social e urbana de Ubatuba, último município do litoral norte do Estado de São Paulo. Besteira!

Cunhambebe, como ilustrado por
André Thevet, um cosmógrafo francês
que acompanhou a expedição de
Nicolas Durand de Villegaignon
Cunhambebe foi o signatário do primeiro tratado de paz celebrado nas Américas. Pela contraparte assinou o padre que escrevia poemas à Virgem na praia de Iperoig. Tão efêmera quanto os versos na areia beira-mar, a paz prometida por Anchieta foi traída por ele próprio e essa é a maldição que denigre e degrada a sociedade e a cidade de Ubatuba até hoje, sempre empurrando a culpa para o traído Cunhambebe.

Próprio do Brasil e de todas as Américas, aliás, do mundo inteiro, é os invasores e colonizadores que destruíram, escravizaram, mataram, estupraram, e mentiram, sempre conferirem a culpa de suas próprias mazelas a negros, índios, aborígenes, nativos, etc.; alegando-se como salvo conduto um dúbio e contraditório cristianismo.

No caso específico de Ubatuba passei nas últimas semanas por experiências terríveis que demonstram claramente a expansão dos poderes podres que há décadas se instaura no Estado de São Paulo.

Tudo começou quando fui notificado por um telefonema de que meu pai estava hospitalizado na Santa Casa de Ubatuba, vitimado por um AVC. Chegamos ali, eu e Sônia, a enteada de meu pai, recebidos pela notícia de que lhe fora dada a alta médica. Mas chocamo-nos com seu estado. A imagem que me ocorreu para descrevê-lo foi a de um papel celofane amassado, desdobrando-se em movimentos involuntários. Seus movimentos e raciocínio eram retrações e distensões sem propósito, ininteligíveis e inaudíveis.

Quando fui morar em Ubatuba, concretizando um idílio de infância, os corredores daquela Santa Casa eram identificados pelos próprios funcionários como “Corredor do Vietnam”. Mas então a instituição contava com uma equipe médica que prestava atendimento diário a uma população de 35 mil habitantes. Hoje, Ubatuba extrapola 100 mil habitantes e o ainda único hospital da cidade agora está restrito a apenas dois médicos mais experientes e outros mais novos para o pronto atendimento. Ainda que os ianques não a tenham invadido, o aumento populacional de Ubatuba e o abandono de seu hospital reúnem ali os corredores do Vietnam somados aos do Afeganistão.

Por essa razão, naquele mesmo dia em que encontrei meu pai e Sônia o seu padrasto, decidimos retirá-lo daquela cidade assim que as condições o permitissem e para isso concluímos as primeiras providências a serem tomadas:

- questionar a alta visivelmente precipitada, já que o paciente apresentava          39 graus de febre.
– tentar obter um lugar para onde pudesse ser transferido.
3º – levantar as condições financeiras para transferi-lo a São Paulo.

Sônia trabalha e reside na capital de São Paulo e não poderia me ajudar nestas tarefas, mas se incumbiu de pesquisar uma instituição que correspondesse à realidade de nossas condições. Ela própria reivindicando a urgência dessa transferência para que meu pai pudesse ser atendido pelo Hospital do Servidor, sendo funcionário público aposentado.

Finalizamos a conversa com meu telefonema a uma amiga fisioterapeuta a quem relatei o caso solicitando o número de telefone de uma conhecida comum, diretora da que fora enquanto morei por lá a única instituição de acolhimento de anciãos.

A diretora estava em viagem, mas já no dia seguinte a amiga entrara em contato com a presidente da tradicional instituição e fora informada da inexistência de vagas. Fui pessoalmente até o antiga e agradável construção com quase 4 décadas de existência e a responsável pela contabilidade confirmou que, exclusiva para acolhimento de idosos desamparados, não teriam como aceitar o internamento de meu pai. No entanto, devido à minha amizade com a diretora, aconselhou que a procurasse em seu retorno para que me desse alguma orientação.

Nos dias subsequentes, enquanto aguardava o regresso da diretora e, em São Paulo, Sônia iniciava uma peregrinação por instituições que ofereçam alguma dignidade em acordo com nossas reais disponibilidades financeira e comecei a levantar os provimentos econômicos de meu pai. Paralelamente, tentei amenizar as falhas de atendimento aos seus 87 anos. Por exemplo, quando transferido de quarto, ainda mais prostrado pelo abafamento e calor da cidade por onde passa o Trópico de Capricórnio e sem um único ventilador para os três pacientes ali depositados, percorri as filiais das cadeias nacionais de lojas que se espalham por todo o país. Esgotado em todas elas, só encontrei o equipamento quando me indicaram uma pequena loja ali mesmo, próxima ao hospital.

Hospital que segundo a amiga fisioterapeuta, depois de privatizado deixou de ser Santa Casa da Misericórdia e ficou apenas por conta da Misericórdia.

Maldição de Cunhambebe?

Num final de tarde confiro que o pai arde em febre. Procuro a enfermeira de plantão que consulta o prontuário onde se inscrevem as temperaturas de cada paciente daquela ala, medidas poucos instantes antes. A moça insiste que a temperatura de meu pai se limita a 37 graus e não requer qualquer providência. Saio do hospital, vou à farmácia e compro um termômetro. Procuro novamente a enfermeira sugerindo compararmos a aferição dos aparelhos, pois o que comprei indicava 39,4º. Ela sequer questionou sobre a possibilidade de erros com os demais apontamentos de seus prontuários e imediatamente informou que administraria a medicação.

Aguardo as três enfermeiras que sob suas ordens conectam meu pai a um frasco de soro, o que eu ainda não vira ocorrer. Desde aí o atendimento melhorou bastante, mas acredito que principalmente devido à visita de minha amiga fisioterapeuta. Embora não atenda aos pacientes da Santa Casa, a amiga é muito respeitada por todos os profissionais de saúde da cidade e foi quem conseguiu se avistar com o médico que o atendia, informando-me o que diagnosticaram: AVC Isquêmico Difuso.

Antes disso, sabendo de um ortopedista a quem meu pai consultava e em nossas conversas telefônicas usava das recomendações deste médico para recusar meus convites a vir morar comigo, contando terem desenvolvido uma relação de amizade; procurei este doutor pretendo explicar as péssimas condições da casa de meu pai, para conferir qual a possibilidade de mantê-lo ali até que conseguisse, ao menos, limpar o excesso de poeira espalhada por toda a casa que, embora pequena, estava em estado de abandono.

O hospital instala-se no meio de uma quadra e se estende de uma à outra rua do centro de Ubatuba. Por indicação de seus funcionários percorri a quadra de um lado a outro umas cinco vezes até que um dos impacientes funcionários se livrou de mim avisando que a única forma de conversar com os médicos seria marcando consulta. Teria de aguardar as semanas ou os meses que se fizessem necessários para realização da consulta, pois os médicos de Ubatuba não tem tempo a perder com parentes de pacientes.

Comento o despropósito com a acompanhante do colega de quarto de meu pai e para minha sorte a mulher aponta um rapaz que se aproxima do bebedouro próximo, informando ser um enfermeiro em dia de folga. Aproximo do rapaz e explico minha necessidade. Talvez por ser sua folga, prestou alguma atenção a minha existência e mandou que o seguisse. Descemos as escadas para o primeiro pavimento, entramos em um corredor que dá para um beco externo. Adiantando o rapaz olha furtivamente e retorna rápido, sussurrando: “- É aquele que está ali”. Ali era o fumódromo do hospital, onde o médico amigo de meu pai baforava um cigarro.

Achando que transmito alguma nova informação, conto da condição de meu pai como paciente internado. “- Ainda?” – espanta-se, desestimulando-me de qualquer pedido.

Num outro dia, quando chego na portaria do hospital às 8:30 da manhã, antes que pudesse proferir “Bom dia!” o porteiro me enfia o indicador na cara e aos berros diz que não posso entrar e sair a hora que queira. Como naquele dia ainda não havia sequer entrado, também aos berros tentei fazê-lo compreender que o que determinaria meu direito de entrar e sair seria as necessidades de meu pai, e que reconhecesse as diferenças entre as funções de porteiro de hospital e de carcereiro.

Maldição de Cunhambebe?

Não são exclusividades da Santa Casa do Senhor dos (maus) Passos de Ubatuba. Através de papel timbrado da República Federativa do Brasil a procuração que tive de providenciar ao custo de R$ 300,00 pela diligência cartorial, me conferiu plenos poderes para poder recolher benefícios junto ao ISS e movimentar a conta no Banco do Brasil. Tudo imediato, afinal a procuração, com as devidas testemunhas e assinaturas de representantes das autoridades competentes, é inquestionável. Mas não foi para o gerente da agência da Caixa Econômica Federal onde o velho mantinha uma poupança que a princípio julguei ser interessante permanecer ali para eventual necessidade de um empréstimo, possibilitando sua almejada transferência de cidade.

Entrei naquela agência pouco depois das duas horas da tarde e só próximo às 17:30 hs. a senhora que minuciosamente leu todos os termos, vírgulas e pontos do documento, me indicou que deveria retornar no dia seguinte com as devidas cópias e originais de meus documentos, dos documentos de meu pai e daquela procuração, após o que ainda teria de aguardar mais dois dias.

Estranhei não ter perdido sequer dez minutos no Banco do Brasil para obter exatamente a mesma coisa, sem necessitar de cópia alguma, mas no dia seguinte compareci no horário de abertura das agências bancárias de Ubatuba: 11 da manhã. No pronto atendimento indicado pela senhora do dia anterior, um funcionário mal humorado folheou bruscamente as 3 páginas do documento que disse não servir. Questiono a razão e afirma que ali não se inscreve o nome daquela instituição bancária. Tento destacar-lhe o parágrafo onde se descrimina plenos poderes de representação para movimentação em qualquer instituição bancária do país, inclusive junto ao Ministério da Fazenda e a Receita Federal.

Impaciente, me manda reclamar ao gerente. Chego à mesa do gerente que interrompe o atendimento a alguém em sua frente para responder ao telefone. Atende e seus olhos se voltam para os meus, depois descem até o documento em minha mão. Murmura alguma coisa ao telefone e desliga. Retorna ao cliente do outro lado de sua mesa num atendimento que se arrasta por longos minutos que me preocupam pela proximidade do horário de almoço no hospital. Aproveitando um momento em que o gerente se levanta, tento interpelá-lo, mas apontando a procuração em minha mão, de longe já adianta a informação de que aquele documento não serve. Pergunto o que serviria, diz que devo esperar que finalize o atendimento em curso. Explico ter passado à tarde anterior naquela agência e que teria de servir o almoço ao meu pai impossibilitado de se alimentar sozinho e hospitalizado na Santa Casa, onde é comum pacientes ficarem sem as refeições quando não têm acompanhantes, por simples falta de pessoal para auxiliá-los nessa necessidade básica e vital a um doente.

O rapazote não se comove e impressionado com sua incapacidade compreensão ao que exponho, mais uma vez desisto.

Do que tanto se desiste em Ubatuba? De enfrentar a Maldição de Cunhambebe?

À tarde volto ao cartório, em busca da informação que me faltou na Caixa Econômica e também sem condições de oferecer qualquer justificativa, a escrevente sugere que procure o PROCON. Na manhã seguinte dali se telefonou para o mesmo gerente a quem se releu o parágrafo referente aos poderes a mim transferidos.  Do outro lado da linha pediu que me encaminhassem de volta à sua mesa e dessa vez encontrei-o sozinho. Sem qualquer questionamento juntou as cópias requeridas por um clipe com um bilhetinho ao caixa que me atendesse para que procedesse imediata transferência da poupança à conta do mesmo titular no Banco do Brasil, conforme me convencera ser o melhor a ser feito.

Ao se despedir, confessou: “- Também... Nem olhei essa procuração!” Poderia ter perguntado como sabia que ela não serviria se reconhecia não a ter sequer olhado, mas preferi conferir minhas experiências dos tempos em que morava em Ubatuba, indagando: “- Você é de Taubaté, não é?”

Confirmou, sorri, e deixei-o intrigado sobre meu poder de adivinhação. Só poderia entender-me se houvesse lido “Os Donos do Poder” de Raymundo Faoro, no capítulo em que trata da Confederação de Taubaté. Mas não se confunda os poderes podres herdados das antigas elites latifundiárias de cafeicultores paulistas com a Confederação dos Tamoios. Cunhambebe era tapuia e não taubateota como Hebe Camargo, Cid Moreira, o gerente da Caixa Econômica de Ubatuba e aquela velhinha estúpida, personagem do Luís Fernando Veríssimo do final da ditadura militar, como tantos outros que invadiram Ubatuba e ocuparam os cargos chaves de direção dos destinos e desatinos do pequeno município.

Transformada em parque de diversões de Taubaté, Ubatuba deixou de ser a bucólica cidade cantada em verso e prosa como fez o pernambucano Osman Lins ao exaltar a hospitalidade acolhedora das pérgulas de Ubatuba.  Não há mais pérgula alguma e as belas casas coloniais, com seus frisos decorativos, foram todas substituídas por pesados galpões retilíneos, sem a menor função atrativa. Pelo contrário! Se quiser ver algo de bonito, o turista que se refugie nas praias mais distantes. Essas, sim, lindas.

“Ubatuba é linda! Pena que fede.” - escreveu o publicitário Paulo Poleh na chamada de uma campanha que tentaria conscientizar aqueles que lançavam seus esgotos nos rios da cidade. Poleh foi considerado radical e agressivo e nunca se atacou o problema satisfatoriamente.

Não encontrei, embora as procurasse por diversas vezes, uma única lixeira na cidade também sem girassóis, mas por onde profusos bandos de urubus voejam tardes inteiras. Na verdade, são os únicos a colaborar com alguma limpeza em Ubatuba. E, sem dúvida, dos mais sinceros seres que ali habitam.

Na outrora bucólica Ubatuba que tantos comparavam a um presépio e inspirou muitos poetas, escritores e cantadores, entre os feiosos caixotões de concreto abundam, a cada quarteirão, borracharia e oficina mecânica, igreja evangélica e boteco. As primeiras se justificam pela situação das ruas, só comparáveis às de Bagdá bombardeada, mas para entender a profusão dos demais itens é preciso conviver um pouco mais, como me ocorreu em consequência ao encontro com a diretora da instituição de acolhimento de idosos desamparados.

Como meu pai não é propriamente um desamparado, expliquei que precisava da indicação de profissionais que me auxiliassem naquele primeiro momento de urgência, pois não tendo capacidade de se suster sequer sentado, com minha total inexperiência não teria condições de atendê-lo e ao mesmo tempo assumir as diversas pendências deixadas por alguém imprevidentemente impossibilitado de consciência, memória e movimentos físicos.

A diretora me surpreendeu indo em desacordo a todas as previsões de impossibilidade de acolhimento de meu pai, afirmando ser loucura imaginar pagar pessoas que não dariam conta do problema e não corresponderiam a confiança e segurança necessária. Praticamente ordenou que o levasse para lá. Reafirmando o caráter emergencial e temporário da providência, foi o que fiz em 19 de março, mas ao retornar na manhã seguinte ela se disse arrependida por não ter imaginado que meu pai fosse tão pesado.

Uma semana antes de ocorrer o acidente vascular, com seus 87 anos ele reclamou através de telefonema que lhe fazia regularmente, da falta de um dispositivo que permitisse levar seu caiaque à praia, lamentando por apenas poder nadar. Na altura o homem é ainda menor do que eu, mas constituído de puros músculos e se alimentando como atleta, nem eu nem o único atendente de enfermagem homem do asilo seriamos páreos para seus mais de 80 kg, acrescidos pelo enrijecimento de sua coluna vertebral.

Foi a responsável pela contabilidade quem propôs a solução do problema. Explicando que os recursos previdenciários dos ali asilados são mantidos pela instituição que os provê de tudo o que necessitam para suas sobrevivências, sugeriu um complemento, um acréscimo ao valor de sua aposentadoria como funcionário público. Esse acréscimo reverteria ao pagamento de outro técnico do sexo masculino, substituindo o que atua apenas em dias alternados. Um sim e outro não.

Evidente que o substituto não atenderia exclusivamente meu pai, mas mesmo considerando isso mais do que justo tive de explicar que os R$ 1.500,00 propostos completam exatamente os recebimentos previdenciários mensais de meu pai e parte dessa renda pretendia utilizar para viabilizar a transferência para São Paulo. Formulei a contraproposta de R$ 1.000,00 mensais e assim acordamos. Paguei e mantenho o recibo datado de 20 de abril, reafirmando, em contrapartida, a intenção de transferi-lo o quanto antes sem requerer reembolso de diferença relativa ao período realmente utilizado.

Quando o amigo que me acompanhou diariamente em minhas maratonas por Ubatuba, me deixou na rodoviária para o embarque a São Paulo, de onde partiria para um breve e imprescindível retorno à Florianópolis, não deu mais pra segurar: debulhei.  Ninguém viu, mas se vissem não importava, pois chorei de comoção em agradecimento àquele amigo tão prestativo. E também em agradecimento à amiga fisioterapeuta que, sem que lhe pedisse, prontificou-se a atender meu pai gratuitamente e através de sua especialidade tão vital aos acometidos por AVC. Chorei em agradecimento a compreensão da amiga diretora da casa de repouso e também a de sua contabilista. Também pela amiga escrevente do cartório e todos os que apesar dos 15 anos que não os via, me ofereceram solidariedade. Chorei pelo Zé e a Dona Amélia, vizinhos e amigos de meu pai que também tanto ajudaram. Chorei comovido de agradecimento a todos os que tornaram aqueles dias suportáveis, apesar do jeitão embrutecido da maioria das pessoas daquela cidade degradada, seja moral ou socialmente, urbana ou administrativamente.

Só duas semanas depois percebi que subestimara a lenda que diz que Ubatuba só sairá do atraso e retornará a ser uma cidade que ofereça alguma qualidade de vida e de relacionamento humano, quando encontrarem e desenterrarem a caveira de Cunhambebe. Mas aí já é outro capítulo dessa história que se aparenta muito pessoal para ser assim distribuída pela internet, no entanto na segunda parte se demonstrará um alerta a todos que por alguma razão tenham de atravessar do sul ao norte do país, ou vice-versa, passando pelo Estado de São Paulo.

Não há nenhum aviso nas fronteiras, mas as duas décadas de poder tucano tornam São Paulo um risco ao qual eu e meu pai sobrevivemos a duras penas para escrever o próximo capítulo dessa novela. Espero que seja o último, mas enquanto aguardam pelo final, não vacilem e sigam o conselho de minha experiência nestas últimas semanas: adentrando as fronteiras paulistas, não bobeie. Acelere até encontrar a próxima divisa.

Crônica enviada pelo autor, Raul Longo, e corroborada por Urariano Motta

*Raul Longo é paulistano, jornalista e ficcionista, Raul Longo reside em Sambaqui (Florianópolis) desde 1997. Começou a atividade profissional em 1967 publicando contos infantis na revista Recreio (Editora Abril).

Nas décadas seguintes atuou em diversos veículos da imprensa alternativa. Foi repórter, redator, articulista e editor de jornais e revistas em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Campo Grande, Rio de Janeiro e Ubatuba. Hoje com 59 anos, autor de livros, publica a maior parte da produção em sites e blogs.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O PÃO E MANTEIGA DA MÉDIA PAULISTA

Raul Longo

(breve desagravo à justa indignação de Maria Lúcia e Maria Helena Perandim ao preconceito e ignorância da precária análise paulista de dados aferidos pelo IBGE,em primária, obtusa e inconsistente conclusão de financiamento da vagabundagem brasileira pelos estados que aferem maior PIB)

Pungente! Não presenciei, mas no marejado dos olhos da mulher ao relatar o motivo de seu sofrimento naquela manhã, pude sentir a dor da qual ainda hoje não esqueço.

Já eram umas 5 horas da tarde e o maridão, me encontrando na calçada, convidou para entrar, conhecer a casa. Fino acabamento, espaçosa, à margem da praia. Construíram na decisão de mudar para aquela Ubatuba em busca de mais sossego, natureza, menos estresse e violência. Exaustos da capital do estado, a maior cidade do Brasil, uma das mais populosas do mundo.

Impressionante. Quem diria que pouco mais de século e meio atrás, nas ruas daquela mesma São Paulo de Piratininga ainda se falava o guarani?!

Sim senhor! Até meados do século 19 na hoje maior cidade do país era como ainda se mantêm no interior do Paraguai, onde o idioma dos naturais da terra é o corrente. Já nos eitos paulistas predominava o banto dos escravos trabalhando de sol a sol para famílias de senhores feudais, patriarcas cuja cultura se resumia à cotação da arroba do grão cultivado e colhido pelo suor alheio.

Casmurros barões do café de vida cultural reduzida às missas e carolíces, tratavam às gentes como inferiores ou, em versão mais atualizada: “diferenciados”. Por essas limitações e preconceitos o povo que realmente trabalhava, para se entender, comercializar e socializar dava preferência ao guarani. Belíssimo idioma ao qual Darcy Ribeiro apontava como mais bonito do que o francês.

Lembrando agora e na certeza que de indígenas não, me pergunto se aquela lastimosa burguesa paulista e paulistana descenderia dos tacanhos, mesquinhos e intrigueiros quatrocentões. Destros em maledicências e difamações, como a que promoveram contra um verdadeiro Barão, o de Mauá.

Gaúcho do interior, aos nove anos de idade o órfão Irineu Evangelista de Souza começou a trabalhar por sua sobrevivência. Ex caixeiro, em reconhecimento às nobres contribuições ao país foi agraciado por Dom Pedro II com o título de Visconde e depois Barão de Mauá. Empreendedor, construiu e manteve a maior do fortuna no país, até idealizar a escalada da Serra do Mar por ferrovia.

Embasbacados por tamanha ousadia, os paulistas riam à socapa, negando-se ao financiamento de tal loucura que terminou sendo concretizada na obstinação do Barão associado aos mais experientes engenheiros em ferrovias de então, vindos da Inglaterra. Assim nasceu a São Paulo Railway que transportando as sacas de café do oeste para exportação ao mundo pelo porto de Santos, foi o primeiro grande impulso para o estado se tornar o mais rico do Brasil.

Acontece que além de se destacar como o primeiro grande empresário brasileiro e refundador do Banco do Brasil, cujos cofres foram rapados e fechados no retorno de seu primeiro fundador, o Dom João VI, à Portugal; Mauá também financiava a causa abolicionista e isso a escravocrata elite paulista não podia admitir nem perdoar. Através de intrigas e outras vilezas o levaram a vender a participação na ferrovia aos britânicos. A partir daí começaram por lhe cavar a falência e ao final da vida, com mais de 70 anos de idade, teve de trabalhar como corretor de café para os mesmos patriarcas paulistas que ajudou a enriquecer e que o empobreceram.

A São Paulo Railway foi estatizada em 1946 dentro da política nacionalista do getulismo contra a qual a elite paulista também muito se opôs, promovendo a cruenta Revolução de 32 e participando da UDN formada por antinacionalistas de todos os estados brasileiros.

Em 1948 a ferrovia passou a ser chamada de Santos – Jundiaí e, em 1996, finalmente os paulistas conseguiram novamente privatizá-la depois de extinto o transporte de passageiros pela ferrovia criada por Mauá e desativada na chamada era FHC. 

Como a mulher que ali chorava tampouco tinha traços asiáticos, não posso cogitá-la da origem daqueles japoneses que vieram fugindo da miséria no arquipélago do outro lado do mundo, para trabalhar com o mato-grossense Cândido Rondon na extensão ferroviária que, partindo de Bauru, atravessava o cerrado e o pantanal até a fronteira com a Bolívia, em Corumbá. Era a Noroeste do Brasil criada no período Vargas e também privatizada em 96 pelo mesmo FHC apoiado pelos paulistas.

Como no caso anterior o transporte de passageiros pelo pantanal mato-grossense, um dos mais turísticos percursos ferroviários do Brasil, também foi desativado.

Mas os japoneses não foram os únicos emigrantes trazidos ao Brasil para substituir a mão de obra escrava abolida por Pedro II, o que lhe custou o Império através de intrigas que estimularam Deodoro à proclamação da República. No entanto, não há meio de recordar de qual daqueles povos expulsos pela miséria em seus países de origem, descendia a mulher que chorava numa tarde de Ubatuba.

Talvez viesse de antepassados bandeirantes, hoje lembrados como heróis. Em verdade foram abomináveis predadores de índios e estupradores de índias. Gente grosseira e mesquinha que só pensava em fazer fortuna encontrando metais e pedras preciosas, capaz de conspirar contra os próprios pais e executar até mesmo os filhos, como aconteceu na nobiliarquia Paes Leme.

Gente cruel e de vis artimanhas como Domingos Jorge Velho que para vencer a centenária e heróica resistência dos negros de Palmares, à gente mais pobre do quilombo distribuiu roupas contaminadas, empesteando a todos.

Vergonhosa e nefanda tática reutilizada no século passado contra os índios xavantes, quando os descendentes daqueles mesmos paulistas se interessaram por terras de Mato Grosso e Goiás.

Mas também pode ser que a mulher descendesse dos árabes, vindos a convite de Dom Pedro II que numa viagem ao Oriente se fascinou pela cultura e cordialidade daquele povo. Com essa cordialidade e cultura muito contribuíram para o desenvolvimento comercial dos interiores do estado de São Paulo.

Fugiam da crueldade do Império Turco Otomano que então dominava a Síria e o Líbano, mas aqui foram designados pelo gentílico de seus dominadores, embora etnicamente nada tivessem a ver com os turcos. Nem mesmo se identificavam pela religião islamita, pois a maioria destes primeiros sírios e libaneses era de católicos maronitas.

Isso da admiração de Pedro II pelos povos lhe era próprio. Deposto por vingança dos escravocratas, sempre foi um humanista admirado pelo mundo intelectual da época. Citado por nomes como Nietzsche, Wagner e Graham Bell que na corte do Rio de Janeiro instalou uma das primeiras linhas de seu invento telefônico, Dom Pedro era apontado como o único monarca antimonarquista de seu tempo.

Talvez se então lhe perguntassem por que ele próprio não instaurava a república, teria revelado receio da gente intriguista de uma província logo abaixo da Corte. Mas não é verdade, pois após abandonado aos cinco anos de idade pelo pai, foi educado por um notável paulista de Santos: José Bonifácio de Andrade e Silva.

Melhor cogitar que por reconhecimento ao seu preceptor, além de apoiar um dos mais arrojados empreendimentos humanos do século 19, a construção da ferrovia Santos-Jundiaí; foi quem ordenou a construção do Porto de Santos determinando assim o enriquecimento daqueles que mais tarde o derrubaram e exilaram do Brasil.

Também por aquele maior porto da América Latina foi aonde chegaram levas de japoneses, poloneses, alemães, portugueses, judeus, espanhóis, etc.

Aumentando ainda mais o equívoco que já humilhara os árabes, ali aportaram os armênios. Embora nem uma coisa nem outra, igualmente foram generalizados como turcos, mas procedem do Cáucaso e da primeira nação católica do mundo. Massacrados por um dos maiores genocídios da história da humanidade, perpetrado pelo Império Turco Otomano, os armênios em maioria se concentram nas cidades de São Paulo e Osasco onde muito contribuíram para o desenvolvimento industrial e comercial brasileiro, sobretudo no setor calçadista.

Outros foram os judeus que, como povo tradicionalmente peregrino, foi dos primeiros a vir ao Brasil depois dos portugueses. Além dos cristãos novos sefarditas (em hebraico: sefardi = natural de Sefarad = Península Ibérica) fugidos do Santo Ofício. Em 1810 os provenientes de Marrocos se estabeleceram na lide do caucho e da borracha na Amazônia, mas no final daquele século chegaram os chamados de asquenazes, provenientes do leste europeu. Estes iniciaram as atividades da promissora indústria têxtil de São Paulo, no bairro do Bom Retiro

Vizinha ao Bom Retiro, a Barra Funda que, como a Mooca, foi compartilhada por espanhóis e italianos. Pejorativamente identificados como sucateiros e carcamanos, introduziram a reciclagem de materiais usados e a politização das classes trabalhadoras brasileiras. Aqui formaram as primeiras comunas anarquistas e grupos socialistas, trazendo a difícil experiência da luta contra a espoliação já sofrida em seus países de origem.

Todos esses emigrantes que fizeram de São Paulo o estado mais rico do país, poderiam fazer coro aos italianos que ao embarcar cantavam: “Aderemo in Mérica/In il bel Brasil/E qui nostri siori/Lavorerá la terá col baldil!” (Iremos para a América. Para aquele belo Brasil. E aqui nossos senhores trabalharão a terra com baldes!).

Mas o que cantariam aqueles que, já estando no Brasil, foram responsáveis pela construção dos grandes edifícios, pontes e viadutos, avenidas, portos, aeroportos e todos os monumentos das maiores capitais brasileiras? Inclusive os da própria capital do país, concretizando os geniais traços do carioca Oscar Niemeyer, também autor do principal cartão postal de São Paulo: o edifício COPAN?

Ignorados em suas identidades culturais, generalizados como “baianos” em São Paulo e “paraíbas” no Rio de Janeiro, quantos desses brasileiros morreram pelo engrandecimento dessas cidades? Soterrados nos túneis de metrôs, despencados de imprevidentes andaimes, concretados em fossos de fundações das colunas onde hoje se debruça a pujança e a riqueza do sul e sudeste do país.

Displicentemente assassinados pelo desprezo daqueles que hoje trafegam e se transportam pelas vias que eles construíram. Dos que se abrigam nos luxos e requintes que erigiram para os que ignoram suas existências e direitos como brasileiros e seres humanos.

Mas a pergunta mais exata é, por que esses nordestinos deixaram seus sertões? Por serem vagabundos, como os classificam aqueles para os quais trabalharam e deram suas vidas, além do desespero e dissolução de suas famílias?

Alguns episódios da história brasileira nos dão a resposta:

Aos 15 anos de idade, já morando em Recife, o cearense Delmiro Gouveia começou a trabalhar como cobrador do trem urbano daquela capital (maxambomba) e em 1886 se tornou representante do sueco Herman Lundgren que mais tarde fundaria as Casas Pernambucanas.

Dez anos depois criou a Delmiro Gouveia & Cia. Contratando os melhores profissionais com salários acima dos oferecidos pelo mercado, em 1899 inaugurou um grande comércio com o nome de Derby, considerado como o primeiro Shopping Center do Brasil.

Por operar com preços mais acessíveis ao consumidor, Delmiro Gouveia conquistou muitos inimigos comerciais e políticos que, no feriado de 1º de janeiro de 1900, incendiaram seu grande estabelecimento que precedeu em mais de meio século ao primeiro Shopping Center de São Paulo, o Iguatemi.

Ameaçado de morte, Delmiro refugiou-se no inóspito sertão alagoano adquirindo terras numa região deserta chamada de Pedra. Ali iniciou um curtume. Pedra começou a se tornar a cidade que hoje leva seu nome, quando para lá o empresário construiu mais de 500 kms de estrada.

Em 1912 fez erigir a primeira vila operária em alvenaria, com mais de 200 casas, e em 1913 a primeira hidroelétrica brasileira, na queda do Angiquinho na Cachoeira de Paulo Afonso. Através de Delmiro Gouveia a energia elétrica chegou ao Brasil pelo sertão, quando as capitais do sul ainda eram iluminadas ao querosene e pelo lampião à gás.

No ano seguinte inaugurou a Companhia Agro Fabril Mercantil, lançando as primeiras linhas de costura produzidas na América Latina, com melhor qualidade e menores preços do que as Linhas Correntes da Machine Cotton da Inglaterra e que até então monopolizara todo o mercado do continente.

Através de prepostos paulistas a Machine Cotton pressionou Delmiro à venda de sua indústria. Acuado por intrigas que chegaram a levá-lo à prisão, o empresário considera a possibilidade desde que contratualmente os ingleses aceitem a manutenção da participação acionária de seus funcionários, uma inovação na relação patronal empregatícia idealizada por Delmiro e décadas mais tarde empregada em alguns países socialistas da Europa.

Os ingleses não aceitam a exigência e Delmiro é assassinado no ano de 1917 em condições nunca esclarecidas. A Machine Cotton obriga a viúva de Delmiro a transferir a empresa e destrói todas as máquinas e edificações que, junto com os escombros da hidroelétrica, são atiradas no Rio São Francisco. Todos os familiares de Delmiro foram perseguidos e expulsos do nordeste, sobrevivendo apenas os que então se dispersaram por estados de outras regiões do país.

Até hoje as Linhas Correntes, com o número estimado de 10 funcionários (segundo página eletrônica da empresa) se estabelece no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

Ainda assim a influência do empreendedorismo de Delmiro Gouveia se irradiou por todo o sertão nordestino e Campina Grande, na Paraíba, tornou-se a segunda maior exportadora mundial de algodão, atrás somente de Liverpool. Com a crise do café em 1930, os paulistas voltam-se para o cultivo algodoeiro e a Machine Cotton retribui o serviço sujo do caso Delmiro, dando exclusividade de fornecimento à produção de São Paulo, apesar da baixa qualidade e resistência no produto final. Enquanto isso a Companhia Docas de Santos interfere junto ao Porto de Recife contra a exportação do algodão nordestino e impede a criação de um porto em João Pessoa.

Dessa forma se foi assegurando o fornecimento de mão de obra barata para os grandes empreendimentos dos estados do sul do país e dessas mãos de tantos nordestinos emigrados pela falta de trabalho e condições de sobrevivência na região onde nasceram, se construiu o PIB dos mais ricos estados brasileiros.

Também dessa forma as grandes cidades do sul e sudeste foram se tornando violentas, com desordenada ocupação de morros e periferias, exorbitante densidade populacional.

Estressantes e exaustivas, levaram a chorosa paulistana para a litorânea Ubatuba.

Não vou lembrar à qual nacionalidade de antecedentes indicava seu nome de família, mas recordo que seu pai a antecedera em algumas décadas quando Laudo Natel no governo do estado como preposto de Amador Aguiar, um dos financistas do golpe de 64, construiu a Rio – Santos.

Logo depois, pagando uma dívida do filho de Costa e Silva no Hipódromo da Gávea, Maluf comprou o governo de São Paulo, mas já então os barões do café, indolentes e incompetentes, haviam falido e transferido seus bens para os descendentes daqueles emigrantes que antes exploraram.

Dos paulistas quatrocentões os filhos dos humildes e miseráveis árabes, asiáticos e europeus, que hoje constituem a classe média do estado, herdaram a prepotência e o desprezo pela gente brasileira.

Foi desse meio que veio o pai daquela mulher, como advogado chefiar em Ubatuba uma das quadrilhas de especuladores apoiados por políticos como Natel e Maluf. Ou Orestes Quércia, talvez. Forjando documentos e iludindo os ingênuos caiçaras, caboclos mestiços de índios com português ou franceses dos tempos de Cunhambebe e Anchieta, arrebataram-lhes as valorizadas terras próximas às belas praias do litoral norte de São Paulo.

Hoje, a bucôlica e saudosa Ubatuba tornou-se feia, suja, decadente. Violenta e abandonada pelo poder público do município e do estado, assemelha-se a uma cidade estuprada.

E já naquela época a burguesa da classe média paulistana ia às lágrimas por não conseguir, ali, um pão para o café da manhã tão a seu gosto quanto o da padaria na esquina de sua casa da capital.

O pão com manteiga da média paulista é assim mesmo: se o arrota como quem tenha comido croissant com foie gras. Parece frívolo e ridículo, mas é triste e lamentável.