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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A desgraça da Líbia

OTAN e EUA deveriam ter ouvido os conselhos de Brasil, Rússia, Índia, China...

11/12/2014, [*] Brian Cloughley - Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Líbia antes e depois da "intervenção humanitária"
dos EUA - União Europeia e OTAN
(clique na imagem para aumentar)
Dia 19/3/2011, os EUA lideraram os países da OTAN num ataque aéreo massivo, com mísseis, contra o governo de Muammar Gaddafi da Líbia, que recebera visita do primeiro-ministro britânico em 2004, em 2007 do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em 2008 da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice e em 2009 do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, os quais, todos eles, cordialmente lhe asseguraram que havia confortabilíssimas relações entre seus países.

(...) A vida da maioria dos líbios era confortável e até a BBC teve de admitir que:

(...) o tipo especial de socialismo de Gaddafi garante, sim, educação e atendimento à saúde universais e gratuitos; e moradia e transportes subsidiados, mas os salários são extremamente baixos e a riqueza do estado e os lucros dos investimentos estrangeiros no país só enriqueceram uma reduzida elite (observou a BBC, como se esse tipo de “fenômeno” só acontecesse na Líbia e jamais tivesse sido observado em nenhum outro país do planeta, é claro).

O World Factbook da CIA registrava que a Líbia de Gaddafi alfabetizara 94,2% da população (índice melhor que o da Malásia, do México e da Arábia Saudita, para ficar nesses três exemplos), e a Organização Mundial da Saúde registrava expectativa de vida de 72,3 anos para a população líbia, das maiores no mundo em desenvolvimento.

Mas voltemos às figuras que voaram em bando para a Líbia antes da guerra da OTAN. Um telegrama diplomático vazado em 2009 registrava que:

(...) os senadores McCain e Graham promoviam os interesses dos EUA em manter e fazer avançar as relações bilaterais e o senador Lieberman declarou a Líbia importante aliada dos EUA na guerra ao terror.

Condoleezza Rice disse que:

(...) as relações EUA-Líbia andam em boas direções já há vários anos creio que a noite de hoje marca nova fase dessas boas relações.

Blair, o britânico, considerou seu encontro com Gaddafi “positivo e construtivo”, porque as relações de seu país com a Líbia haviam-se “transformado completamente nos últimos anos. Há agora forte cooperação entre nós nos setores de contraterrorismo e defesa".

Tony Blair e Muammar Gaddafi em 2004
A BBC noticiou “no encontro entre o Sr. Blair e o Sr. Gaddafi, foi anunciado que a gigante anglo-holandesa do petróleo Shell assinara negócio no valor de mais de 550 milhões [libras britânicas, US$ 860 millhões] para exploração de gás na costa da Líbia”. As empresas norte-americanas de petróleo ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation e Hess Company também estavam profundamente envolvidas na produção de petróleo líbio – a nona maior reserva do planeta.

As coisas pareciam excelentes para a Líbia.

Mas dia 21/1/2011, a Reuters noticiou que:

Muammar Gaddafi disse que seu país e outros exportadores estão analisando a possibilidade de nacionalizar as empresas estrangeiras que operam no país, por causa dos baixos preços. Sugeriu que o petróleo deve ser propriedade do Estado, agora, para que possamos controlar melhor os preços, aumentando ou reduzindo a produção. 

Então, logo depois, em fevereiro, imediatamente depois de Gaddafi ter falado de nacionalizar o petróleo líbio, houve um “levante de rebeldes” que queriam derrubá-lo. E dia 17 de março de 2011, o Conselho de Segurança da ONU já estabelecera uma “zona aérea de exclusão” sobre a Líbia, “para proteger os civis que estavam sendo atacados no país”.

Os “rebeldes” eram apoiados por EUA, Grã-Bretanha e 12 dos seus 26 aliados na OTAN (com destaque para Alemanha e Turquia), três nações árabes (não incluída a Arábia Saudita), e a Suécia, que abandonou sua tão louvada neutralidade e tornou-se país da OTAN, em tudo, exceto no nome. 

Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha [talvez... os “países BRICA”? (NTs)] excluíram-se da Resolução, pregando resolução pacífica para o conflito interno líbio e alertando contra “consequências não desejadas de uma intervenção armada”.

Dois dias depois da resolução “zona aérea de exclusão” começou o massacre da Líbia pela OTAN-EUA e prosseguiu por sete meses, até o final de outubro/2011. Dia 30 de abril de 2011, um míssil dos EUA matou três netos e um dos filhos do coronel Gadaffi, no que a OTAN chamou de “um ataque de precisão” contra “prédio do comando militar e controle”. Perguntado sobre um ataque massivo contra o complexo residencial do coronel Gaddafi, o porta-voz do Pentágono anunciou que “nosso alvo não é a residência. Não temos notícia de qualquer morte de civis”. 

Obama, Cameron e Sarkozy - Os MENTIROSOS
No auge dos ataques à Líbia, o presidente Obama dos EUA, o primeiro-ministro Cameron da Grâ-Bretanha e Sarkozy da França declararam, em declaração conjunta que:

(...) continuamos hoje as operações militares para proteger civis líbios e estamos determinados a olhar sempre em frente. Temos certeza de que melhores tempos virão para o povo da Líbia (...) o coronel Gaddafi tem de sair, e sair por bem. Nesse ponto, a ONU e as nações-membros devem ajudar o povo líbio a reconstruir onde Gaddafi destruiu – reparar casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta.

A esse amontoado de mentiras, Gaddafi respondeu que:

Vocês provaram ao mundo que não são civilizados, que são terroristas. Animais que atacaram uma nação que nada fez contra vocês.

Dia 20 de outubro de 2011, Gaddafi foi brutalmente assassinado por um grupo de “rebeldes”. Obama festejou o assassinado. Disse que:

(...) hoje podemos dizer que definitivamente chegou a fim o regime de Gaddafi. Sua principal fortaleza ruiu. Um novo governo está-se consolidando no país. Um dos mais longevos ditadores está morto.

A OTAN realizou 9.658 ataques aéreos contra a Líbia, e a BBC noticiou que:  

(...) ao longo dos sete meses de campanha a OTAN reconheceu que houve um “erro” por “mau funcionamento” de uma arma. Dia 19 de junho, vários civis foram assassinados por um míssil que atingiu prédios em Trípoli. Porta-voz da OTAN disse depois que “ocorreu um possível erro de sistema de armas, que levou a arma a atingir alvo não buscado”. (E houve também 105 ataques de drones dos EUA sobre os quais nada se sabe).

Líbia, um dos 9.658 ataques aéreos
"humanitários" sobre área urbana
É absolutamente inverossímil que, de 9.658 ataques aéreos, só um tenha assassinado civis. A ONG Human Rights Watch afirma que morreram muitos e muitos civis naqueles ataques – embora o número não seja importante, porque ninguém, nem dos EUA, nem de qualquer país OTAN, será jamais investigado por investigadores independentes sobre a morte de civis em lugar algum do planeta, por míssil, bomba ou foguete.

Nos diziam que o objetivo da guerra de EUA-OTAN contra a Líbia era impor a democracia à bombas, e o primeiro-ministro Cameron da Grã-Bretanha declarou que:

(...) estou otimista quanto à Líbia; sempre fui otimista desde o início e estou otimista agora quanto ao Conselho Nacional de Transição e o que são capazes de alcançar.

Acho que, claro, se se olha hoje para Trípoli – levar água àquela cidade, fazer valer a lei e a ordem − mas verdade é que já está provado que tudo que os cínicos mentirosos e os generais de sofá disseram está errado.

Os “cínicos mentirosos” – melhor dizendo, os realistas – e os generais de sofá, é claro, não erraram coisa alguma, só acertaram, quando previram que o colapso da Líbia era já então inevitável; exatamente como, antes, já haviam acertado também quando previram o caos no Iraque e no Afeganistão.

Dois intelectuais respeitados, Ivo Daalder, Representante Permanente dos EUA no Conselho da OTAN de 2009 a 2013, e o almirante James G (“Zorba”) Stavridis, do Comando Supremo dos Aliados dos EUA na Europa (o comando militar da OTAN), na mesma época escreveram em Foreign Affairs em 2012:

A operação da OTAN na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo. A aliança respondeu rapidamente a situação que se deteriorava e ameaçava centenas de milhares de civis em rebelião contra regime opressor. Conseguiu proteger aqueles civis e, de fato, garantir o tempo e o espaço necessários para que as forças locais derrubassem Muammar al-Gaddafi.

Bombas "humanitárias" no centro de Benghazi
Segundo essa análise, a Líbia teria sido libertada e tornara-se país livre graças à OTAN. E os dois receberam o apoio de colunistas como Nicholas Kristof, para quem “a Líbia faz lembrar que às vezes é possível usar armas militares para promover causas humanitárias”. A frase seria cômica, não fosse tão obscenamente perversa, porque a Líbia mergulhara já na anarquia e na ruína. A declaração dos britânicos à ONU em 2012, de que:

(...) hoje, Trípoli e Benghazi são cidades transformadas. Onde antes havia medo, hoje há esperança e otimismo e fé verdadeiramente inspiradores.

Já se comprovara falsa, patética. A CNN noticia que:

Assassinatos, sequestros, bloqueios de refinarias, milícias rivais que lutam nas ruas, extremistas islamistas acampados e, sobretudo, governo cronicamente fraco fizeram da Líbia lugar perigoso, cuja instabilidade já respinga através de fronteiras e para o Mediterrâneo. Verdade é que a Líbia está convertido em estado fora da lei.

Claro: muito “verdadeiramente inspirador”.

Segundo a Anistia Internacional,

(...) desde julho de 2014 pelo menos 287 mil líbios tornaram-se migrantes internos, resultado de ataques indiscriminados e do medo de serem apanhados no fogo cruzado entre as milícias; e outros 100 mil líbios tiveram de deixar o país para não serem mortos.

Vários países ocidentais já retiraram de lá suas missões diplomáticas, e a Grã-Bretanha aconselha os cidadãos “contra viajar à Líbia, onde prosseguem os combates e é grande a instabilidade em todo o país”. 

A OTAN fez rigorosamente coisa alguma para (...) reconstruir (...), reparar casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta”, como Obama, Cameron e Sarkozy haviam declarado que seria necessário, ao mesmo tempo em que, com bombas, foguetes e mísseis Tomahawk iam destruindo casas e hospitais e serviços públicos básicos. E nenhum desses sujeitos – excitados líderes mundiais, pseudo jornalistas “comentaristas” ou intelectuais respeitados, aí, repetindo, como perfeitos imbecis, que a “intervenção na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo” – não davam nenhum sinal de sentirem qualquer vergonha ou arrependimento pelo entusiasmo com que saudaram o massacre que levou à devastação e ao desastre.

Mísseis Tomahawk, atirados "humanitariamente" sobre áreas de infraestrutura civil da Líbia
Durante a guerra deles contra a Líbia, Obama e Cameron declararam que “Temos certeza de que melhores tempos virão para o povo da Líbia”. Digam isso aos milhões de líbios cujas vidas foram destruídas pela “intervenção modelo” que a OTAN lançou contra eles.

A escala do sofrimento humano não é tão terrível quanto a que os mesmos EUA-GB infligiram ao Iraque, mas também é horrenda. Dia 30 de novembro de 2014, por exemplo, a agência Reuters noticiava que:

(...) cerca de 400 pessoas foram mortas em seis semanas de confrontos pesados entre forças pró-governo líbio e grupos islamistas na segunda maior cidade da Líbia, Benghazi.

E nada dos tais “melhores tempos” que viriam depois de seis meses de ataques incessantes dos mísseis e bombas de EUA-OTAN.

E o que acontecerá à OTAN? Onde decidirá montar a próxima “intervenção modelo”, depois de ter destruído a Líbia e de ter sofrido derrota humilhante no Afeganistão?

A OTAN procura desesperadamente uma “causa” que justifique a existência daquela aliança, e está movendo suas forças, entusiasticamente na direção do leste da Europa, envolvendo soldados norte-americanos em “exercícios” na Ucrânia e nos EUA e em outros deslocamentos para a Polônia e Estados Bálticos. Já criou uma “Missão Báltica de Policiamento Aéreo” multinacional e está empurrando outra operação (que recebeu o nome mais ridículo de todos os ridículos nomes de “operações”: “Operação Firmeza & Dedicação Atlântica – Compromisso Continuado dos EUA com a Segurança da Europa” [orig. “Operation Atlantic Resolve”]) na direção da Rússia, como ameaça.

Pois OTAN, e especialmente os EUA, OTAN e EUA deveriam ter ouvido os conselhos de Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha que alertaram contra “consequências não buscadas da intervenção armada”.

Vladimir Putin em 4/12/2014

Hitler, com suas ideias de ódio a povos, também estava decidido [como hoje os EUA e a OTAN] a destruir a Rússia e a nos empurrar para trás, para além dos Urais. Todos com certeza lembram como acabou aquilo.

Muito bem dito. É exatamente isso.
____________________

[*] Brian Cloughley é ex-soldado e escreve sobre temas militares e políticos, principalmente dos países do sul da Ásia. Escreve sobre, Defesa, Segurança, Terrorismo, e é Analista de Estratégias no Jane’s Sentinel. Serviu nos exércitos da Inglaterra e da Austrália por 9 anos como oficial de artilharia, principalmente como observador avançado. Escreveu 4 livros:
  • A History of the Pakistan Army: Wars and Insurrections.
  • War, Coups and Terror: Pakistan's Army in Years of Turmoil
  • From Fabric Wings to Supersonic Fighters and Drones: A History of Military Aviation on Both Sides of the Northwest Frontier, em parceria com Lester W. Grau e Andrew Roe.
  • Trumpeters: The Story Orf The Royal Artillery's Boy Trumpeters.

Esse ano chegou às livrarias a 4ª edição de seu livro A History of the Pakistan Army.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Mali: o sangue invisível da “Primavera Árabe”


23/3/2012, Derek Henry Flood, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Derek Henry Flood é jornalista independente, especializado em questões do Oriente Médio, Sul e Centro da Ásia. Desde 11/9, cobre no front, os conflitos nessas regiões. Seu blog (“A guerra é o único modo que se conhece de ensinar geografia aos norte-americanos”) é: The War Diaries e twitter @DerekHenryFlood 


“O honrado Muammar Al-Gaddafi sempre pensou a África unida. Viva Gaddafi!”
(abm_ww3, comentário de internauta, na página de ATol, 23/3/2012) 

“É negro! É africano!” – disse um exultante miliciano armado, na Líbia, ao jornal Asia Times Online, ao descrever um suposto cidadão do Chade, de um grupo de combatentes pró-Gaddafi capturados depois da vitória dos “rebeldes”, logo depois da primeira batalha de Brega, dia 2/2/2011.

Brega, onde há grande terminal de embarque de petróleo, a oeste de Benghazi, foi importante, não só por ter sido a primeira vitória militar bem clara dos “rebeldes”, que avançavam na direção leste, rumo a Benghazi, mas, também, porque foi onde os “rebeldes” começaram a distribuir declarações aos jornalistas sobre o papel dos africanos subsaarianos naquela guerra; declarações que, vez ou outra, aproximavam-se da histeria. 

Por mais que o conflito líbio em 2011 possa ser considerado semelhante às revoluções na Tunísia, Egito, Bahrain e em outros pontos do mundo árabe, como mais um front de uma sempre crescente “Primavera Árabe”, logo ficou bem claro que a Líbia – pela realidade geográfica e pela história política – jamais foi conflito só árabe: sempre foi conflito também africano.

O muito que se disse sobre o papel de africanos subsaarianos na guerra líbia pareceu mais propaganda que fato, em vários pontos, porque praticamente sempre era impossível verificar, de fonte independente e fidedigna, a veracidade das declarações dos “rebeldes”. Sem dúvida, sempre houve muitos negros africanos no teatro líbio, mas a maioria deles eram trabalhadores migrantes encorajados a buscar trabalho na Líbia, pelas políticas de Gaddafi, políticas que sempre proclamaram a “irmandade” entre os líbios e os vizinhos do sul; ou eram atraídos para a Líbia simplesmente pela relativamente grande riqueza da Líbia, derivada do petróleo e de laços econômicos que Gaddafi sempre cuidou de renovar com um ocidente sempre oportunista. 

Empresas e governos ocidentais, seguidos pelos autocratas russos e chineses, não se cansavam de procurar negócios com a Líbia de Gaddafi pós-sanções. A imagem de Gaddafi foi então habilmente reabilitada, até convertê-lo em alguma espécie de liberal secular – depois de a desastrada invasão do Iraque ter criado o “Cachorro Louco do Oriente Médio”, pelo prisma de uma visão de mundo ferozmente neoconservadora que então dominava os negócios internacionais. 

Houve também os que simplesmente esperavam atravessar a Líbia a caminho das costas italianas e da então aparentemente riquíssima União Europeia, do outro lado do Mediterrâneo. Dado o longo alcance da artilharia e dos atiradores hiper treinados de Gaddafi, raramente os jornalistas conseguiram aproximar-se suficientemente do exército líbio, para conhecer-lhe a composição étnica. Com isso, noticiaram-se em todo o mundo, como verdade, as conjecturas dos “rebeldes”, além de grande quantidade de mentiras, todas da mesma fonte, sobre quantos, no exército de Gaddafi, seriam “mercenários” africanos negros. 

Em meio a esse caos generalizado, africanos negros inocentes foram presos, torturados, muitos foram mortos, depois de facilmente estigmatizados como “mercenários” que estariam a serviço de Gaddafi. Tornaram-se alvos do ódio dos “rebeldes”, de ataques xenófobos e racistas, e de cega ignorância sobre quem fosse “o outro”. Também foram vítimas de uma supersimplificação da dimensão étnica, no conflito líbio.

Asia Times Online viu muitos oficiais, soldados e comandantes, negros originários das regiões subsaarianas, lutando e, em vários casos, comandando ataques, contra o exército de Gaddafi, alistados ao lado dos “rebeldes” do Conselho Nacional de Transição da Líbia (CNT) [orig. The National Transitional Council of Libya (NTC)], nos combates por Brega, Ras Lanuf e na região de Jebel Nafusa. O CNT criou uma campanha de propaganda esquizofrênica, em que sua luta era apresentada como “superior às diferenças raciais” – por mais que se visse que a campanha, de fato, só fazia difundir critérios pesadamente racistas, sempre que denunciava que “o inimigo” explorava soldados africanos negros. 

Nos conflitos que dilaceram esse início do século 21, nenhuma guerra se trava no vácuo. Armas, materiais e homens circulam através de fronteiras sempre porosas, cenários sempre precários de “mudança de regime” impostos de fora e, por todo o mundo em desenvolvimento, rolam cabeças de ditadores. Virtualmente todos os atores, estatais e não estatais, trocam farpas sobre os respectivos oponentes servirem-se dos chamados “combatentes estrangeiros”, sempre com o objetivo de apresentarem-se, cada um e todos, como vítimas de “mercenários”; e, ao mesmo tempo, para esvaziarem  objetivos supostamente locais ou nacionais dos respectivos inimigos, em cada guerra.

O coronel Gaddafi sempre manteve cidadãos de outras nacionalidades alistados e incorporados ao exército líbio. Mas o papel desses africanos no exército líbio está longe de ser conhecido (e ainda mais longe de ser entendido) no ocidente. Gaddafi sempre se manteve integrado e atento a vários conflitos em todo o continente africano. Com isso, tornou-se interlocutor indispensável na conciliação de diferenças por todo o continente. Até ser arrancado, ferido, de uma entrada de esgoto, nos arredores de Sirte, para ser sumariamente assassinado por “rebeldes” do CNT, jubilosos, dia 20/10/2011. 

Gaddafi sempre soube posicionar-se habilmente como conciliador de conflitos em muitas regiões instáveis na África, muitas vezes armando grupos e, em todos os casos, armado de sua retórica incendiária sobre uma revolução permanente no Terceiro Mundo. 

Hoje, cinco meses depois de uma guerra sanguinária para derrubar Gaddafi, golpes comandados pela OTAN e pelo Conselho de Cooperação do Golfo já ameaçam destruir ou, pelo menos, cindir, também a frágil e vacilante República do Mali [1], cujo presidente foi derrubado, ao que tudo leva a crer, por golpe militar, na capital, Bamako, ontem, 5ª-feira, pela manhã [2]. 

Quando a nave de Gaddafi já dava sinais de naufrágio iminente, combatentes de etnia tuaregue, cidadãos do Mali e da Nigéria, começaram a retornar aos seus respectivos territórios no Saara, já então armados até os dentes com armas que receberam ou saquearam, na Líbia. O estado do Mali, que, de 1992 até o início dessa semana, era governado pelo presidente Amadou Toumani Toure, enfrenta hoje ameaça de segurança praticamente insuperável, brotada no norte (ao qual o governo praticamente não chega), de ataque vindo pela fronteira, do sul da Argélia, em golpe reivindicado por grupo insurgente autodenominado Movimento Nacional para a Libertação do Azawad, MNLA). 

Imagens já distribuídas mostram o MNLA em estradas que cortam o norte saariano do Mali, em veículos idênticos aos do exército líbio, marca Toyota Hi-Lux blindados, e armados com armas de origem soviética. O MNLA luta para dividir a República do Mali e criar nova nação, Azawad; o grupo já atacou cidades e acampamentos militares ao longo das fronteiras com o Niger, a Argélia e a Mauritânia, criando milhares de refugiados e de desertores (soldados do Mali que buscam refúgio na Argélia).

A crise atual começou dia 17 de janeiro, quando o MNLA atacou a cidade de Menaka, no leste do Mali. Efeito da guerra do ocidente contra a Líbia, o conflito naquela região do Mali tem potencial para desestabilizar vastas regiões do Saara e do Sahel, além do caos que já está criado no Mali. Pode-se dizer, em termos gerais, que aí rola o sangue invisível da “Primavera Árabe”, que já escorre para o centro da África. E Gaddafi, egocêntrico, intratável, instável que fosse, já não é encontrável, para mediar essas disputas africanas mortais, como sempre fez.


Amadou Toumani Touré.
Como reação à impotência do presidente Toure, em seus últimos dias no governo, um grupo de militares rebelou-se, liderados por um capitão do exército, Amadou Sango, e autodenominado Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado (CNRDRE) [fr. Comité National pour la Restauration de la Democratie et la Restauration de l'Etat,]. O CNRDRE anunciou que suspendeu a vigência da Constituição do Mali e diz ter prendido vários ministros do governo em Bamako, numa das ações revolucionárias iniciais. 

Nada disso augura bom futuro para o Niger, vizinho do Mali e da Líbia, que padeceu seu próprio golpe em 2010 e enfrentou rebelião dos tuaregues no norte, entre 2007-2009. Com Gaddafi, podia-se pensar em conciliação. Sem Gaddafi, esses estados fragilizados terão de recorrer a corpos supranacionais, como a União Africana e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental [ing. Economic Community Of West African States (ECOWAS)], para tentar acertar seu contencioso. 

No Niger, foi preso um conhecido líder tuaregue rebelde, Aghali Alambo, que liderou rebelião armada contra o governo central em Niamey, de 2007-2009. Alambo foi um dos principais comandantes do Movimento dos Nigerianos pela Justiça (MNJ) [fr. Mouvement des Nigériens pour la Justice], que muito trabalho deu ao consórcio Areva, liderado por empresas francesas, que explora minas de urânio no Niger. 

Os tuaregues, os tubus e outros grupos minoritários de pastores tradicionalmente nômades que circulam pelo norte montanhoso do Niger dizem não saber de nenhum benefício que lhes tenha chegado, ou às suas comunidades ou criações, nem mesmo depois que o preço do urânio alcançou cotação altíssima nos mercados internacionais.

Depois que Gaddafi interveio nos confrontos dos tuaregues no Niger, Alambo foi exilado para Trípoli, bastante convenientemente, porque se sabe que se tornou confidente e consultor militar de Gaddafi. A polícia nigeriana não tem dúvidas de que Alambo coordenou o contrabando de quantidade substancial de explosivos, da Líbia para o Niger, pouco antes de ser preso. 

Gaddafi, embora nunca tenha estimulado (e sempre reprimiu) as aspirações de independência da minoria amazight na Líbia (conhecidos como berberes), sempre apoiou as lutas de libertação de minorias, por toda a África. Por isso, os tuaregues do Niger preservam a lealdade que os aproximava do falecido líder líbio – lealdade que se manifesta hoje no dilema sobre o destino de Saadi Gaddafi e de três altos comandantes militares líbios que se refugiaram no Niger depois da queda de Trípoli, no final de agosto passado. Oficialmente, Niamey diz que não extraditará Saadi para uma Líbia governada pelo CNT, sobretudo depois do tratamento sacrílego e desrespeitoso que milicianos do CNT deram ao cadáver de Gaddafi. 

O Niger, um dos países mais pobres do mundo em números absolutos, incapaz de prover alimento sequer aos seus cidadãos, converteu-se assim em campeão da defesa de direitos humanos para prisioneiros de guerra. Mas, sob a superfície, o Niger também enfrenta graves problemas de instabilidade e insegurança.

O Niger não se pode arriscar a quebrar o acordo tácito de paz que Gaddafi negociou com os tuaregues e outros grupos de oposição ao regime, e que permanece vigente desde 2009. O país não quer incitar os tuaregues a novas rebeliões. Mas esse é risco bem real, caso o affair Saadi Gaddafi não seja adequadamente encaminhado pelas vias que os tuaregues exigem. Além disso, também os militares do Niger estão muito justamente indignados pelo modo como as milícias armadas do CNT têm tratado cidadãos do Niger; e não lhes agradam nem a onda de emigrados obrigados a voltar ao país de origem nem a evidência de que muitos funcionários do regime Gaddafi continuam como prisioneiros do sistema ‘judiciário’, clandestino e ilegal, do Conselho Nacional de Transição Líbio.

Vários estados independentes na África Ocidental nos quais vivem tuaregues já há muito tempo enfrentam o problema da rebelião desses grupos nômades. Muammar Gaddafi sempre foi exímio na arte de fazer render a seu favor as históricas reivindicações dos tuaregues, ao mesmo tempo em que também acumulava trunfos positivos, como pacificador, entre os líderes da África negra, sempre que conseguia conter, por acordos, as insurreições dos tuaregues.

Agora, o presidente Toure do Mali (que declarou que se mantém no poder, com um grupo de soldados leais; e o qual, de um modo ou de outro, será substituído nas próximas eleições presidenciais que devem começar no final do mês de abril) – e o co-presidente do Niger no governo do presidente Mahamadou Issoufou, hoje na oposição – terão de tratar com os líderes insurgentes, agora sem a mediação de Gaddafi.

Para complicar ainda mais todas essas questões, há o espectro do grupo Al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM [Al-Qaeda no Maghreb Islâmico]). O grupo AQIM é descrito dos mais diferentes modos; para alguns, seria uma franquia norte-africana da al-Qaeda; para outros, uma elaborada cobertura para grupo criminoso transnacional que opera com sequestros e resgates e tráfico massivo de drogas; para ainda outros, dentre os quais jornalistas e acadêmicos de mentalidade mais conspiratória, seria operação de fachada, sob a qual se ocultaria o Departement du Renseignement et de la Securité, DRS (que coordena os serviços secretos argelinos).

No conflito no Mali, os dois lados têm lançado as acusações mais furiosas e mais sem fundamento, uns contra os outros, em tudo quanto tenha a ver com o papel da AQIM na Região.

O MNLA declarou que parte da causa de lutarem para criar o estado de Azawad, como estado independente, é livrarem-se, o mais possível, da AQIM. Simultaneamente, Bamako “declara” que o MNLA está associado à AQIM, para impor um ramo violento de islamismo no norte do Mali.

A agenda do MNLA não deve ser confundida com o que diz um grupo de fundamento mais religioso e menor, chamado Ancar Dine ou Ancar Din (“Defensores do Islã”/”Defensores da religião”, em árabe), grupo islâmico comandado por Iyad ag Ghali, um dos comandantes mais destacados de uma rebelião tuaregue nos anos 1990s, que se proclamou em luta para implantar a lei da Xaria nas conturbadas regiões do norte do Mali. Iyad é salafista, já se aproxima dos 90 anos, e foi, toda a vida, militante tuaregue rebelde; Iyad declarou recentemente que seus homens atualmente não lutam para a libertação do estado imaginário de Azawad, mas pelo estabelecimento da República Islâmica do Mali.

Contra esse discurso pró-Xaria, o MNLA lançou um comunicado oficial, do porta-voz do grupo, que vive em Paris, Mossa ag Attaher; nos termos desse comunicado, o objetivo dos rebeldes é exclusivamente dividir o Mali e criar o estado independente de Azawad; e garantiu que nenhum compromisso de caráter religioso seria incluído na plataforma do movimento, que tem caráter secular. A agenda religiosa do grupo Ancar Dine para o Mali tampouco se confunde com a agenda da AQIM de Ayman al-Zawahiri, que tem base na Argélia.

Até anteontem, 5ª-feira, talvez ainda fosse possível pintar a situação no Mali como específica desse país, no máximo com algum respingo de refugiados para os estados vizinhos. Mas ontem, soldados do Mali egressos da Líbia, que sofreram nos ataques da OTAN e nas prisões do CNT em Trípoli, levantaram-se contra o governo local, no acampamento militar de Kati, a apenas 20 km da capital do Mali, Bamako. 

A tensão naquele acampamento escapou de qualquer controle, depois de uma visita do ministro da Defesa, Sadio Gassama, planejada para discutir com os soldados rebelados a questão de o exército não contar com armamento apropriado para enfrentar as armas líbias, muito mais pesadas, com que conta o MNLA. O carro do ministro foi apedrejado por soldados amotinados, e o ministro teve de fugir do local. Depois disso, os amotinados tomaram a rádio e a estação de televisão estatais no centro de Bamako. Os relatos ainda são conflitantes; para alguns analistas, tudo não teria passado de motim concentrado num determinado contingente militar; para outros, tratou-se de tentativa, que pode ter sido bem-sucedida, de assumir o controle do palácio do governo.

Pelo Twitter, em declaração dita oficial, o presidente Toure declarou enfaticamente que não se tratou de tentativa de golpe; mas a agência Reuters, citando funcionário não identificado do Ministério da Defesa, confirmou que, sim, houve tentativa de invadir o palácio e assumir o controle militar do país. Na 5ª-feira pela manhã, o CNRDRE anunciou, pela rede estatal de televisão, que assumira o controle do país; e que o presidente teria sido deposto. Até o momento de redigir essa matéria, o presidente Toure continuava a repetir que permanecia em local seguro, e no comando do país. 

Seja como for, ainda que se confirmem as notícias de que o CNRDRE assumiu o controle da capital do Mali, nada significará em relação a regiões do norte, leste e noroeste do país, que continuam controladas pelos rebeldes do MNLA.

O que é certo, em todos os casos, é que a “Primavera Árabe” já derrubou seu primeiro líder africano. Mas, diferente dos clássicos “Grandes Homens” africanos, quase sempre autocráticos, o presidente Toure foi democraticamente eleito, estava nos últimos dias do mandato e tudo fazia crer que o Mali conheceria uma transição pacífica de governo.

No Mali, Toure é chamado “soldado da democracia”, em referência ao golpe que comandou, em 1991, para transformar o Mali, de ditadura militar, em governo razoavelmente representativo e democrático. Diferente do governante do Niger, presidente Mamadou Tandja, que foi derrubado em fevereiro de 2010, ao tentar emendar a constituição e criar para si um mandato prolongado, o presidente Toure do Mali parecia estar fazendo bom trabalho, na preparação das eleições marcadas para começar dia 29 de abril.

O Mali enfrentará problemas cada dia mais graves – dentre os quais, os legiões de emigrados que não param de voltar da Líbia, de onde trazem armamento pesado; e um exército local desorganizado, de soldados amotinados e com a moral muito baixa, depois de algumas derrotas estratégicas, como a perda da base e do aeroporto militar da cidade de Tessalit, no norte.

Agora, depois da captura do chefe da inteligência de Gaddafi, Abdullah Senussi, na Mauritânia, quando desembarcava de um voo que chegava de Casablanca, Marrocos, portando passaporte falsificado do Mali, já não há como não ver que a ‘mudança de regime’ na Líbia começa a reverberar por toda a África, com efeitos, no mínimo, sobre o futuro próximo.

Depois dos eventos tectônicos da 4ª e 5ª-feiras na capital do Mali, já não cabem dúvidas de que os efitos da campanha da Líbia, apoiada e comandada pelo ocidente, já começam a estender-se, do Norte da África, para a região que, bem claramente, é o oeste do continente africano.

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Notas dos tradutores
[1] Sobre o Mali, ver: “Malí, de la pobreza al golpe de estado”
[2] 23/3/2012. - No Brasil, onde os jornais e “correspondentes” só fazem repetir noticiário requentado das agências ocidentais, o que se lê no “Portal Terra”, é mais do mesmo: Sarkozy, Obama, Hillary Clinton, União Europeia, ONU e demais suspeitos-de-sempre condenaram vigorosamente o atentado à democracia no Mali em: “Golpe no Mali: ao menos 4 morrem; presidente está na capital”.